* Caridade cristã: “Fique tranquilo, amigo, é só o Papa”.

Por João Pereira Coutinho- Publicado na Folha de São Paulo.
É por isso paradoxal e bizarro o comportamento das patrulhas anticatólicas, que revelam ser o contrário daquilo que professam. Elas dizem-se “libertas” da influência apostólica romana. Mas, por palavras ou atos, limitam-se a manifestar uma obsessão com o papa que nem o mais católico dos católicos consegue exibir.
Existe neste mundo um tema que é polêmica garantida: o papa. Na semana passada, num jantar, descobri o fenômeno e testemunhei uma violência inesperada. Alguém falou da visita de Bento XVI a Portugal no próximo mês. Houve indignações e desmaios à mesa. Como explicar estas reações hormonais que me espantam e divertem?
Bento XVI não é um papa qualquer, admito. Se tivesse nascido num país do Terceiro Mundo; se viesse da ala esquerda da igreja; se promovesse os temas progressistas do momento (preservativo, ordenação de mulheres, fim do celibato), talvez as reações não fossem tão extremas.
Acontece que Joseph Ratzinger é alemão. É um respeitado intelectual europeu, mesmo por pensadores seculares (como Habermas). E, em matéria de ortodoxia, foi o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, órgão máximo do Vaticano que defende e promove a doutrina da igreja, antes de chegar à cadeira pontifical. Será preciso dizer mais?
Alguns críticos lembram ainda os “abusos sexuais” que assolaram a instituição. Lamento desapontá-los.
A hostilidade a este papa já existia antes dos abusos. Sobreviverá a eles. Até porque os abusos existem em todas as denominações religiosas e ninguém fala do assunto. A hostilidade só tem um sentido. Um curioso sentido.
Digo “curioso” pelo motivo mais prosaico: a Igreja Católica fala para o seu rebanho. E, ao contrário de outros movimentos religiosos extremistas, não está interessada em submeter os infiéis pela força da espada. Roma evangeliza quem se deseja evangelizar.
E mesmo a sua doutrina sexual, que tanto encarniça os espíritos sofisticados, é um exemplo de modernidade e até de tolerância quando a comparamos com preceitos de outros credos. Condenar a camisinha é uma coisa. Outra, bem pior, é condenar a camisinha, apedrejar mulheres adúlteras ou enforcar homossexuais ladinos. Como sucede noutras latitudes.
Mas o circo não para. No Reino Unido, o Ministério de Relações Exteriores viu-se obrigado a pedir desculpas ao Vaticano. Conta o “Sunday Telegraph” que funcionários da instituição, instados a sugerir ideias para a visita do papa ao país (em setembro), propuseram em memorando interno uma linha de camisinhas com a marca Ratzinger; a abertura de uma clínica antiaborto; e, fatal como o destino, uma bênção papal de um casamento gay. O Vaticano pondera agora cancelar a visita.
E se assim foi na Grã-Bretanha, assim será em Portugal: informa a imprensa lusa que o papa não terá descanso quando aterrar em Lisboa. Por onde passar, existirão manifestações contra Bento XVI, e grupos de jovens a distribuir preservativos e folhetins científicos sobre o perigo da AIDS.
Que dizer destes atos? Descontando a natureza infantil dessa gente, que estranhamente ainda não abandonou a idiotia própria da adolescência, o que existe nesses atos é uma paradoxal e assaz bizarra submissão à autoridade da igreja. Explico. Para um não católico, a igreja será apenas uma instituição entre várias, que legitimamente fala para quem a quiser ouvir. Um não católico não lhe reconhece autoridade especial; e não perde um minuto do seu precioso e laico tempo a tentar corrigir uma instituição a que não pertence.
E, em matéria sexual, estamos conversados: o que a igreja diz sobre a conduta privada dos seres humanos terá para um não católico a mesma importância que as recomendações da religião islâmica, ou judaica, ou hindu. Importância nenhuma.
É por isso paradoxal e bizarro o comportamento das patrulhas anticatólicas, que revelam ser o contrário daquilo que professam. Elas dizem-se “libertas” da influência apostólica romana. Mas, por palavras ou atos, limitam-se a manifestar uma obsessão com o papa que nem o mais católico dos católicos consegue exibir. Elas querem “resgatar” a sociedade da influência nociva da igreja. Mas são elas próprias que ainda se sentem “sequestradas” por uma instituição à qual reconhecem total ascendência sobre as suas vidas. As patrulhas, sem o papa, simplesmente não conseguiriam viver.
Por isso proponho: por cada camisinha distribuída durante as andanças de Bento XVI, alguém deveria dar um abraço compassivo aos fanáticos, aliviando o sofrimento deles e deixando uma palavra de conforto. “Fica tranquilo, rapaz; é só o papa.” A caridade cristã existe para estes momentos.
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Tags: Ataques à Igreja, Papa, Perseguição à Igreja













Perfeito!
Nossa. Artigo excelente! Conseguiu sintetizar o que penso de maneira clara e objetiva. Como já faço regularmente, vou divulgar esse artigo para todos os meus amigos. Parabéns, Carmadélio, por esse blog fantástico!
“E, ao contrário de outros movimentos religiosos extremistas, não está interessada em submeter os infiéis pela força da espada. Roma evangeliza quem se deseja evangelizar.”
mentira. a “evangelização” da Europa foi feita à base da espada. a “evangelização” do Novo Mundo foi feito à base do genocídio etnico e cultural.
“Para um não católico, a igreja será apenas uma instituição entre várias, que legitimamente fala para quem a quiser ouvir. Um não católico não lhe reconhece autoridade especial; e não perde um minuto do seu precioso e laico tempo a tentar corrigir uma instituição a que não pertence.”
mentira. vivemos em um país marcantemente católico, cuja política e sociedade é inequivocadamente influenciada pelo que a Igreja diz. e não é diferente em outros países. a Igreja é um poder politico e social de magnitude mundial.
Caríssimo,
A Igreja não usa a espada para evangelizar. Nunca Usou, Vc está confundindo os Estados com a Igreja.
Embora intrinsecamente unidos à epoca, a Igreja se utilizava da estrutura dos Estados para cumprir sua missão evangelizadora, mas não usava espada.
Sua afirmação carece de fundamento histórico.
É uma injustiça com a verdade julgar o passado com os critérios e os preconceitos do presente.
Se vc ler o post dentro de seu contexto verá que talvez sua reação reflita exatamente o que o autor do artigo propôe.
Cada tempo histórico deve ser interpretado dentro de seu próprio contexto.
Exatamente, a igreja nunca usou a espada.
mas usou maças, Pprretes, canhões, armas de fogo, fogueiras, pedras, , correntes, pedaços de pau, marcação a ferro e foto, etc.
É tão injustiça julgar o passado com os preconceitos do presente como é injustiça a instituição não pagar pelos erros que comete e cometeu.
Cada tempo histórico realmente deve ser interpretado dentro do seu contexto, o contexto é, até quando a igreja vai encobrir o que está acontecendo com os casos de pedofilia e até quando vai usar da fé para manipular seus interesses?
Caríssimo,
Percebe-se que você não tem acompanhado a mídia nos últimos tempos.
Vc acha mesmo que com todo esse escândalo fartamente divulgado e EXAGERADO pela midia a Igreja tem algo a encobrir?
Amigo, não existe instituição pedófila, existem membros pedófilos e a INJUSTIÇA seria generalizar e colocar a Igreja como culpada de comportamentos que ela NUNCA, EM TEMPO ALGUM, APROVOU.
Alguns padres no universo de 400 mil! 400 mil,cara..
Quanto a fé ser usada…Bem, Nossa Igreja é a APOSTÓLICA ROMANA, OK?
Maias que Perfeito ! gostei muito desse artigo … !
Maias que Perfeito ! gostei muito desse artigo … !vou posta no meu facebook !