A leitura e a fé madura tem alguma relação?

 


É evidente que, sem leitura, não surge afeição àcultura. Portanto, é preciso começar a leitura bem cedo, e o interesse virá
gradualmente, por menos predisposição que se tenha. É muito importante – ao
menos, parece-me – ganhar gosto pela leitura, não só pelo prazer
estético que ela cria e dá, mas também pela cultura geral que proporciona.

A leitura é o veículo normal e insubstituível da cultura: é a cultura da letra
impressa. Nos últimos tempos, vem-se falando de outras “culturas”, como a da
imagem e do som, mas é evidente que, sem o substratum da escrita, não
conseguem ser cultura. Até a ação de estudar é, normalmente, leitura. Observa
se que, para a cultura da imagem, é determinante a educação do olhar, assim
como, para a do som, a educação do ouvido; mas ambas não serviriam de nada sem
a implícita relação com a educação em geral e, mais especificamente, com a
cultura crítica. E esta nos vem dada pela leitura, que inclui alusões e até
ironias.

Entretanto, nessa viagem iniciática devem ser tidas em conta as considerações
que T.S. Eliot faz nas suas Notas para uma definição de cultura, ao
dizer que o termo “cultura” tem diferentes acepções conforme consideremos o
desenvolvimento de um indivíduo, de um grupo, de uma classe ou de toda uma
sociedade. Por outro lado, também é preciso olhar para os diversos tipos de
realizações.

Estamos, pois, diante de um fato complexo. Podemos tomar em consideração – diz
Eliot – o refinamento das maneiras, ou a urbanidade e civilidade: e nesse caso,
estaremos pensando numa classe social. Ou então podemos pensar em erudição:
nesse caso, homem de cultura será o enciclopédico. Ou podemos pensar na
Filosofia, em seu sentido mais amplo, ou num interesse pelas idéias abstratas,
com alguma experiência na sua concatenação, e então podemos estar-nos referindo
ao intelectual.

Passemos agora a uma tentativa de analisar o efeito negativo que os meios de
comunicação audiovisuais produzem no âmbito da leitura. Consideremos leitura
nos obriga a fazer uma espécie de “ginástica mental”. Nada nos é dado de mão
beijada. O acesso à cultura é, no princípio, um tanto áspero e ascético: requer
um esforço que não pode ser superficial. Ora, a televisão ou o rádio oferecem-se
de maneira tão cômoda e fácil que mesmo os adeptos da leitura se sentem
cativados pelas suas imagens sugestivas, e isto é extremamente grave.

A cultura é, no fundo, um repertório de possibilidades. Proporciona os dados
para que cada pessoa, escolhendo os de acordo com o seu modo de ser e a sua
sensibilidade, se enfrente a si mesma. Como não se pode ler tudo, acaba se por
assimilar aquilo que fundamentalmente convém a cada um. A cultura que as
escolas e Universidades nos oferecem não nos dá um nível “superior”,
mas sim diverso: todo mundo certamente lerá Shakespeare ou Cervantes, Goethe ou
Rilke, mas alguns aprofundarão mais em Balzac ou em Dickens, em Leopardi ou em Kafka. Todo mundo sabe
quem é quem, mas mesmo assim cada qual se nutre das suas afinidades: Lúlio ou
Bacon? Dostoievski ou Eça de Queiroz? Machado ou Valéry? Entre dois autores, o
déficit de um e a abundância do outro provoca nossas diferenças. Somos
diferentes porque, apesar do nível idêntico dos nossos computadores culturais,
bebemos em fontes distintas: conhecemos Platão, sim, mas não Zenão de Eléia.

Isto nos torna diversos e divertidos. A comunicação de massa (televisão, rádio,
cinema) torna-nos iguais, uniformiza-nos, e assim nos encontramos rindo das
mesmas piadas e, no fim das contas, pensando da mesma maneira. A leitura, pelo
contrário, liberta-nos e possibilita a meditação daquilo que lemos.

Defendo um conceito de cultura como prática da tolerância, e sinto-me inclinado
a afirmar que uma pessoa culta (que se fez através da cultura) é capaz de
debater os problemas mais complexos sem se alterar. Sente se tolerante e livre.
Em contrapartida, quando a televisão se pronuncia sobre alguma coisa, parece
conferir-lhe o status de “coisa julgada”; transmite a impressão de uma
autoridade absoluta, e isso evidentemente é um mal. A partir daí, inicia se um
processo de homologação massiva que só se pode alterar melhorando os conteúdos
culturais da mesma TV.

Isso, porém, é um peixe que come a própria cauda. Quem manda? Os promotores
culturais ou o público? Dentro do mundo estritamente cultural, também se
formula a mesma pergunta. Quem manda? O escritor ou o editor? Atualmente, tende
se a vender o livro como um simples produto manufaturado pelas grandes
editoras, com marketing e promoção publicitária intensíssimas. No fim, acaba-se
editando aquilo que o grande público quer. Livros são vendidos em liquidação ou
são destruídos. Às vezes, só existem para intimidar um autor ou castigá lo por
não obedecer a determinadas exigências editoriais.

Tudo o que acabamos de dizer serve de apelo às instituições responsáveis e
conscientes do problema, recomendando lhes que promovam a formação de
bibliotecas públicas e privadas, e cuidem de que as pessoas leiam e amem o
livro, estimuladas pelos educadores, que são quase os únicos que podem inculcar
o amor ao livro e à sua leitura. Não basta amar os livros como produtos de
cultura, mas é preciso fazê lo como uma babá: levantá los do chão, tirá los das
estantes das bibliotecas, sentir o perfume das suas tintas, acariciá los,
contemplá los como autênticas jóias.

Juan Perucho

***

Será que nós católicos lemos pouco porque somos expressão de uma cultura Brasileira que -infelizmente- estimula  pouco? Ou lemos pouco porque achamos que não precisamos “disso tudo” para uma vivência normal da fé?

Será que temos medo do conhecimento porque ele pode nos afastar da fé e gerar orgulho?

Será que não confundimos ser simples com ser simplório?

Claro que a resposta dessas perguntas pressupõem o chamado individual e a missão particular de cada um de nós.Para alguns o conhecimento além do básico é necessário e intrínseco ao chamado.Para outros não.

O problema é quando temos “aversão” ou preconceito ao conhecimento humilde e não sabemos nem o básico.Isso nos afasta da fé consistente e nos deixa muito limitados para abordar e evangelizar o mundo exigente de hoje.

Deus faz sem isso? Claro!!!

Agora imagina o que ele faria com isso!

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