* “Deveria ser eu um católico ?” Reflexões inteligentes de um protestante pensante.

Bony Chiarelli


No novo testamento a palavra GRAÇA é empregada para referir a irredutível e desconcertante benevolência de Deus para conosco, ainda que nós sejamos e permaneçamos pecadores, patifes e canalhas. Garante a palavra de Deus que é pela graça, isto é, por bondade divina e não por mérito nosso, que recebemos perdão e salvação deste nosso estado maldito de pecado.É pela graça e não por algum critério de seleção, que Deus faz derramar a chuva sobre justos e injustos. E é pela graça que as suas misericórdias renovam-se a cada manhã. É pela graça e não por teste de paternidade que Deus nos chama de filhos e permite que nós o chamemos de Pai. É pela graça que Deus oferece uma infinidade de perdão a cada ciclo de tempo e o mesmo procedimento requer de seus filhos.

Paradoxalmente, os protestantes interpretam-se como grandes e credenciados defensores da graça, mas efetivamente são os católicos (muitas vezes tidos como antagonistas dos protestantes) os únicos cristãos a desfrutar graciosa e adequadamente dela. É um item que, em minha opinião, tem riscado o verniz da história do cristianismo ocidental. A característica mais singular da graça, e é isso que me faz pensar sobre tal paradoxo, é o fato de que não há nada que se possa fazer para merecê-la: não se pode barganhar ou extorquir aquilo que Deus se dispõe a oferecer gratuitamente. Essa novidade torna obsoletas todas as mais consagradas práticas religiosas, como ofertas, sacrifícios, promessas, penitências e procedimentos.

O discurso da reforma religiosa foi que a Igreja Católica havia perdido a graça de vista, pois ela estava construindo um império fundamentado na venda de privilégios e na institucionalização. Havia a acusação de que os católicos haviam dado as costas para a mensagem de Cristo, que afirmava não haver sacrifício no mundo que pudesse adquirir perdão ou penitência que pudesse apagar a culpa. A graça era a encarregada de tudo isso. Para os protestantes, os católicos haviam reduzido o cristianismo a um ritual sem vitalidade, pois haviam se esquecido da graça, e por isso eles estavam dispostos a dedicar suas vidas na correção deste desvio. Só que nos últimos séculos, percebo que são os católicos os cristãos mais competentes a desfrutar integralmente da graça, enquanto os protestantes se encarregaram de transformar o cristianismo em ritual e instituição.

Eu, como protestante, digo de peito aberto que resta-nos o discurso e cabe aos católicos toda a herança. Parece inevitável que sempre adquirimos as características daqueles que refutamos. Vou tentar exprimir em palavras meu ponto de vista.

Os católicos entendem que a igreja não é contida por templo algum, ainda que existam templos católicos em todo lugar do mundo (verdadeiro sonho de consumo protestante), e de certa forma entendem que nada neste mundo tem como dar errado. Ou seja, se a Igreja está em todo lugar, Deus está em todo lugar e também o serviço cristão. Os católicos enxergam a igreja não como um lugar, mas como uma condição de segurança e de acesso a Deus, algo muito semelhante ao que Jesus descrevia como sendo o reino de Deus.

Os católicos estão muito mais dispostos (e percebo isso na pele) a receber os pobres, os doentes, os deformados, os divorciados, os travestis, os aidéticos, os viciados, os mendigos, os maltrapilhos, os bêbados, os fedorentos e os rejeitados de todas as estirpes, do que qualquer vertente protestante. Qualquer igreja católica tem a maturidade suficiente de receber um destes excluídos sem exigir nada em troca pelo oferecimento gratuito do perdão e do acesso a Deus.

Ao contrário de nós protestantes, os católicos vão à missa e não à igreja, pois esta é terreno santo e onipresente do qual não há como escapar. E se Deus está em todo lugar, sua proteção é imediatamente acessível, seu poder é inevitável, seu favor é onipresente. Deus e a vida podem ser celebrados adequadamente em qualquer lugar, fora das paredes do templo, porque não há como fugir da segurança da igreja, que é outro nome para o entendimento do reino de Deus. Coitados de nós, protestantes, se a palavra igreja não se tornar relevante novamente, se não se tornar algo de extrema importância nas nossas vidas. Para nós, protestantes, a igreja é um local definido e também uma atividade. A palavra igreja soa como lugar-comum, algo indiferente, que não faz o coração bater mais forte. Associamos igreja a atividades, compromissos devidamente agendados e muito bem organizados. Consideramos que quem faz mais é mais espiritual.

Percebo claramente que a palavra igreja quando ouvida por um católico, acende todos os seus sentimentos de amor, de cuidado e de bem-aventurança. Essa palavra desperta nele os sentimentos que só uma criança pode nutrir com relação à sua mãe: gratidão, reverência, respeito e amor sincero. Algo semelhante ao sentimento que toma conta de uma pessoa quando, depois de uma longa ausência, retorna ao lar de sua infância.

Os católicos têm as suas novenas, suas velas, suas promessas e seus sacrifícios, mas recorrem a eles e deixam-nos lá, em paz. Retornam para as suas casas e vivem as suas vidas como gente normal, confiados na improvável graça como um cristão verdadeiro deveria fazer. Não vêem a necessidade, como nós protestantes, de reacenderem seus sacrifícios incessantemente, domingo após domingo pela eternidade. Não há exclusão numa igreja católica, pois nem mesmo vêem necessário criar um rol de membros. Os católicos não vêem a necessidade de dar evidência do seu mérito pela atividade incessante, pelo acúmulo insano de conhecimento e pelos ajuntamentos febris.

Nós protestantes somos imbecis, pois adoramos atividades infinitas, diplomas e graduações, números de vendas e rol de membros. Os protestantes adoram números, balanços, resultados positivos – adoram contar vantagem. O número de famosos no meio católico se comparado com a realidade do meio protestante é irrisório.

Os católicos têm as suas repetições, mas podem recorrer a elas em oculto, na privacidade das suas casas. Têm as suas imagens, mas não se rebaixam com a mesma facilidade ou as mesmas desculpas que nós damos à ganância, que é nossa idolatria. Eles têm os seus santos, mas preferem beijá-los a sustentá-los com dinheiro, como fazem nós, os protestantes. O pior é que seus santos são gente simples como eu e você, que buscaram verdadeiramente a face do Deus vivo.

Nós, protestantes patifes que somos, temos os santos mais carolas, obtusos e bandidos do mundo, os quais vivem como marajás em seus palácios. Os católicos têm as suas penitências, mas conhecem o arrependimento. Tem as suas peregrinações, mas não se rebaixam na idiotice de seguir todos para o mesmo lugar.

Se somos nós os religiosos, porque deveríamos ser os que mais tagarelam sobre a graça? Para nós a igreja é um local e uma tarefa; para o católico é uma segurança e um estado de espírito. Para nós a graça é um conceito importante; para um católico é estar vivo.

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9 comentários para “* “Deveria ser eu um católico ?” Reflexões inteligentes de um protestante pensante.”

  1. Dudu Cardoso disse:

    Ótimo texto. Só pesso a Deus que o meu coração não se encha de orgulho ao ver tal reflexão, porque a tendência muitas vezes como católico, é olhar para isso tudo com presunção. Mas que cada “auto-crítica” do autor também seja um espelho de como eu esteja vivendo a minha fé, e uma renovada certeza de que acima de todas as coisas está a graça, que Deus dá a todos nós para vivermos o evangelho livremente no amor.
    Abraço a todos.
    Shalom.

  2. Elder Kened disse:

    Esse texto expressa uma realidade em nosso meio. É muito interessante e proveitoso a leitura do mesmo. Muitas pessoas deveriam lê-lo, não só nossos irmão evangélicos, mas também católicos que ainda insistem em ir à missa simplesmente por ir, como se fosse um hábito.
    Que Deus abençoe a todos!
    Paz e Bem!

  3. Antonio B. de Carvalho disse:

    Amo em Cristo todos os católicos, mas a verdade pra mim continua sendo a Bíblia Sagrada. Esse texto nada mais é do que um relato de alguém que teve uma decepção em algum meio Evangélico, e que achou por bem se vingar generalizando todo protestantismo como desvirtuado das orientações e dos ensinos do divino mestre Jesus. Placa de igreja não salvará ninguém da condenação eterna, somente a obediência e a verdadeira adoração “ao único e suficiente salvador que é Jesus cristo” o messias, o enviado por Deus para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna. Deveríamos todos voltar os nossos olhos para a verdadeira igreja deixada por Cristo, que é a igreja primitiva, a igreja iniciada pelos apóstolos e que não é e nunca foi a “católica” rotulada por homens. Deus nos abençoe a todos.

  4. Alexandre disse:

    O Antonio, no seu comentário acima, não sabe que “Católica” não é nome e nem rótulo, mas é sim a característica dada pelo próprio Cristo à sua Igreja Primitiva, pois essa palavra significa “todo”, “Universal”, ou seja, uma das características da Igreja Primitiva era e é ainda hoje a de espalhar a boa notícia do evangelho a todas as pessoas até o fim dos tempos e isso não seria possível sem a “TRADIÇÃO”, aliás a Biblia Sagrada da qual ele diz que continua sendo a verdade, só existe hoje por causa da TRADIÇÃO DA IGREJA CATÓLICA que soube transmitir esses ensinamentos até os dias atuais. A Igreja de Jesus Cristo, que é Católica, Apostólica, Una, Santa e se estabeleceu em Roma, por isso é Romana, ainda está aí em pé e durante esses mais de dois mil anos as portas do inferno não prevaleceram contra ela e mais, também não prevalecerão!!!
    Deus Abençoe !

  5. Alexandre disse:

    O Antonio poderia, se quiser é claro, ouvir a análise teológica sobre o livro “O Código Da Vinci” feita pelo Pe. Paulo Ricardo que é Reitor do Seminário “Cristo Rei” de Cuiabá e Membro do Conselho da Congregação para o Clero da Santa Sé em Roma, através do sítio dele, o nome da palestra é “Por que não há Bíblia sem Igreja ?” no endereço seguinte: http://www.padrepauloricardo.org/site/?p=68

  6. Adriana disse:

    Que o Senhor nos ajude a sermos sempre gratos e percebermos o quanto somos fracos e necessitados de seu amor e de sua misericórdia. Acredito que a vida do cristão católico é rica em sentido e graça, porque quanto mais buscamos conhecer a Deus e sua vontade, mas reconhecemos quem nós realmente somos. E isso gera GRATIDÃO. Que o Senhor ajude a nós, cristãos, a virvermos sua vontade com simplicidade, mas com profunda dedicação, alegria e gratidão
    Deus abençoe!

  7. Adauto disse:

    A igreja católica me fascina!

    Quanto mais conhecemos a igreja mais nos aproximamos dela.

  8. gleitheb n r gonçalves disse:

    Muitos protestantes dizem q nao seguem a “doutrina de igreja”,mas segue a bíblia.Pura desculpa,total mentira.
    A SANTA IGREJA fundada por Cristo,uniu todos os livros da bíblia e separou-os,e viveu cada momento relatada por Ela.
    Por tanto,como dizer que acredida na bíblia, se ñ acredita naquela q a construiu?São vãs doutrinas fundadas por homens segundo seus interesses.Nos asegura a palavra de Deus!
    Shalom do Pai !!!

  9. vera disse:

    Meu irmão em Cristo, li seu texto e me arrepiei com sua coragem, sua inteligência em escrever tão claramente sua maneira de pensar, parabéns!!Sou católica praticante, e muito ecumênica. Amo minha igreja de paixão, não que ela seja a melhor, mas foi a que conheci e aprendi amar… Amo meus irmãos Protestante porque o que nos uni é muito maior do que o que nos separa. Fico triste quando eles, não percebem esse amor em mim e se distanciam..Deus te abençoe e conte com minhas orações sempre.
    Com muito respeito, posso ser sincera? Você está no lugar errado querido seu coração está cheio de catolicismo!!!.
    Abraço fique com Deus.

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Sem a alegria da beleza, a verdade se torna fria e até impiedosa e soberba, como vemos que acontece no discurso de muitos fundamentalistas amargurados. Parece que mastigam cinzas ao invés de saborear a doçura gloriosa da verdade de Cristo, que ilumina, com luz mansa, toda realidade, assumindo-a assim como ela é a cada dia.(Papa Francisco)
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