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* Tatuagens. O que acontece quando você muda e elas permanecem?

sábado, agosto 21st, 2010

Uma sábia reflexão sobre a atual moda das tatuagens.

O autor não analisa a questão sob o ponto de vista religioso, mas estético e sociológico.

Suas percepções são sábias e nos ajudam a perceber esse fenômeno sob uma outra ótica.

Frequentemente me chegam perguntas se é “correto” ou “pecado” se tatuar..

O que você pensa sobre isso?

***

Ivan Martins  Revista ÉPOCA

Conheço uma moça que gastou um bom dinheiro, e um bocado de tempo, tentando, sem sucesso, tirar da orelha uma tatuagem que havia feito na Índia, no tempo em que era devota de um guru famoso. Não sei por que ela queria tirar a marca, mas o que me ficou marcado, para mim, é que ela não estava conseguindo.

Eu não tenho tatuagens. Na minha geração não era moda. Quando se tornou moda, nos anos 90, eu não consegui embarcar. Tenho dificuldade em responder às duas perguntas básicas que antecedem a tatuagem: onde tatuar e o quê tatuar. Imagino que essas dúvidas expressem uma resistência mais profunda. Tatuagens são para sempre e eu tenho dificuldade com o que é irremovível. Vou morrer com a tela do corpo intacta – ou, pelo menos, livre de marcas voluntárias.

Mas, ao meu redor, as tatuagens se multiplicam. São como itens de série num grupo de mulheres urbanas entre 20 e 30 anos. Em geral, vêm em dupla: uma na nuca, outra no ombro; uma no pé, outra na virilha; uma no cóccix, outra na panturrilha. Os temas das tatuagens também são parecidos, o que faz com que as pessoas fiquem mais ou menos iguais. Homens e mulheres.

Houve um tempo em que fui tocado pela novidade e achei que esses adereços expressavam alguma forma de rebeldia. Ou de erotismo. Hoje eles não me dizem muita coisa, num terreno ou no outro. A revolta embutida nas tatuagens-padrão ficou para trás há muito tempo. Para chocar, hoje em dia, é preciso cobrir uma vasta porção do corpo – ou inventar um desenho totalmente inusitado. E bem agressivo.

Para escrever este texto, eu tentei conversar com uma amiga que tem 13 tatuagens. Queria que ela me falasse do barato em desenhar e escrever no corpo com tinta que não apaga, mas a conversa não aconteceu. Minha curiosidade, portanto, permanece.

Mas eu já tenho algumas opiniões. Acho que estão superestimando o ganho estético – e erótico – da decoração corporal. Se as atrizes dos pornôs baratos fazem as mesmas tatuagens das garotas de classe média, alguém está usando a coisa errada. Por isso que eu aposto que dentro de poucos anos nós veremos uma revalorização do corpo intacto. Chique vai ser não ter marcas.

Outra coisa que me parece óbvia é que as pessoas tentam usar as tatuagens como uma forma de diferenciação. É um statement, como se diz em inglês, uma declaração sobre si mesmo. Os desenhos dão uma pista do que a pessoa pensa ou é. Ou pensa que é. Mas, quando todo mundo faz a mesma coisa, onde fica a individualidade? Não fica. Desaparece num mar de clichês visuais. Luas, estrelas, fadas, lírios, beija-flores, tribais… Parece uma feira hippie.

Eu acho a onda das tatuagens mais uma expressão da nossa dificuldade cada vez maior em tratar com o abstrato, com aquilo que vai além das aparências. O corpo deixa de ser o complexo portador dos sentidos, dos sentimentos e das ideias para se transformar num outdoor. Frases curtas, imagens marcantes, cores. A complicada troca de ideias (eu falo, você ouve, depois a gente inverte), dá lugar a uma espécie de comunicação instantânea. Carrego todos os meus símbolos comigo e os revelo de uma só vez, exibindo o braço em que uma imagem me define: Cristo, Che Guevara ou Gaviões da Fiel. Eu sou isso, sacou?

Como virou moda e todo mundo usa, alguém pode dizer que a tatuagem tornou-se simbolicamente inofensiva. Ela passa, como outras rebeldias visuais da adolescência ou modismos de décadas passadas. Os piercings que a garotada usava na sobrancelha e no umbigo sumiram, embora tenham ficado os buraquinhos. Cabelos esverdeados, tranças rastafári, cavanhaques – isso tudo vai embora quando o dono cansa. A tatuagem não. Ela fica. O corpo muda, as ideias se transformam, mas a aquele desenho permanece, na contramão da natureza.

Imagine a sua mãe até hoje com o cabelo que ela usava nos anos 80. A tatuagem pode ser isso, um anacronismo existencial colado na pele, a lembrança de algo que você já foi, deixou de ser, mas continua sinalizando, como uma placa de trânsito que esqueceram de arrancar – e que agora indica a direção errada.

Talvez eu esteja exagerando, mas sempre penso nas pessoas que escrevem na pele o nome daqueles que amam. O que acontece com elas? O sujeito vai embora, viver com outra, mas a ex tem o nome dele escrito na nuca.

A marca do humano é ser transitório. Tentar fixar na pele uma paixão, um momento, uma filiação, é inútil. As coisas passam, elas nos escapam. E aquelas que realmente permanecem estão tão fundas dentro de nós, tão entranhadas, que dispensam adereços e representações. Eu diria que as coisas essenciais não precisam ser tatuadas – e que as coisas que precisam ser tatuadas não são essenciais. Mas dêem um desconto no meu ponto de vista: eu sempre fui apaixonado por cadernos em branco.

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Tatuagem.Cristão pode?

terça-feira, abril 28th, 2009

Andei fazendo uma pesquisa sobre o assunto.Partilho o que descobri.

De onde veio a palavra tatuagem?

A palavra tatuagem tem origem da palavra tattoo utilizada por primeira vez por James Cook, explorador inglês do pacifico e “descobridor” da Austrália, que escreveu em seu diário a palavra tattow, em referência ao som feito durante a execução da mesma pelos nativos entre sí.

Qual a origem da tatuagem?

Tatuagem surgiu originalmente como expressão de uma religião e tem sua força motriz na crença. E isso se deu especialmente entre os povos egípcios, nas tribos indígenas, grupos sociais originários africanos e asiáticos, como expressão de sua fé e vivência religiosa-social, por cujo grafismo corporal, simbolismo, procuravam guardar e perpetuar suas tradições nos cultos, festas, trabalhos e batalhas.

Pode-se entender a tatuagem como arte?

Tatuar-se hoje é moda, mas o fato de ser moda não a perfila como obra de arte ou efetiva expressão da mesma, pois não convém confundir a obra de arte com qualquer modismo que se utilize de técnica artística.

A arte tem a vocação de revelar um aspecto do ser e de causar comumente no expectador que a contemple, a felicidade pela descoberta da revelação da verdade do ser sob o prisma do belo.

Não é difícil encontrar corpos tatuados que causam o contrário… Inclusive mal estar em quem os vê… uma sensação de desordem por não sabermos o que significa e de não saber onde começa e onde termina tal mensagem. Outras, no entanto,que exprimem certa beleza.

Portanto, não é qualquer técnica ou expressão artística que define a arte enquanto expressão do belo.

Mas o valor afetivo que as tatuagens possuem para quem se tatua, não tem importância?

Não se duvida do valor sentimental, do sentido e do significado que algumas tatuagens guardam para a pessoa que as possui… Seja ele bom ou mal, pois há quem tatue no corpo o número de homicídios cometidos, crimes praticados ou o número de vidas salvas, do filho amado… Não há dúvidas que é o sentimento o norteador de tal atitude.

O homem do século XXI, apesar de toda fama de tecnocêntrico e racional revela-se sentimental, dado com facilidade às paixões, levado, muitas vezes, para onde leva e aponta o vento dos sentimentos e das vaidades…

As paixões não são boas nem más em si mesmas, mas o seu uso e a intenção que as movem podem torná-las boas ou más. Embora as paixões sejam expressões da alma, é o corpo que as manifestam. Por isso, nos últimos anos o corpo tem sido a sede e o lugar comum de uma crescente afirmação da subjetividade sentimental e do relativismo da expressão corporal, seja por um sentimento de revolta, de prazer ou de crise de identidade.

É possível se tatuar na busca de uma afirmação de identidade?

Alguns se tatuam na expectativa de alguma mudança para melhorar a vida,por moda,necessidade de aceitação pelo grupo ou por motivo de fuga, na medida em que isso lhes possa proporcionar algum benefício, promessa de conquistas, sentimentos, diferenciação, domínio, sofrimento, depressão, estresse, poder, fama, afirmação… subjacente a tudo, está muitas vezes a necessidade de afirmar a própria identidade.

O filme, “Amnésia”, por exemplo, conta a história de um homem que por padecer de amnésia após sofrer um acidente, vale-se da tatuagem como memória e identidade, por cuja razão, na trama, o personagem tatua todo o seu corpo para não se esquecer dos últimos fatos que aconteciam em sua vida.

A ilusão é a aparência, não é a realidade. As ilusões passam, mas a realidade não. Se a realidade é um pesadelo, pior é iludir-se com doces sonhos, pois estes passam e ao despertar encontra uma realidade amarga.

Então o que fazer? Se a realidade é um pesadelo procure-se conhecer as razões e os motivos que a torne menos pesada e descobrindo-os já terás dado um passo muito importante para torná-la mais branda. Mas lembre-se: é inatingível uma realidade de puro e doce sonho.

Uma questão fundamental: a tatuagem é um mal?

Embora a tatuagem não seja em si mesma nem um bem nem um mal, pode ser sinal ou expressar a perda de um bem.

Neste caso não a tatuagem, mas o que leva à tatuagem pode ser a expressão de um bem ou de um mal. E nisso há valor moral: por exemplo, há intenção moral má quando se tatua com cruzes na medida em que estas sinalizam o número de mortes que já se cometeu; quando se tatua com os nomes de mulheres enquanto sinalizam a posse sexual das mesmas.

Mas há também intenção moral boa: quando se tatua o nome de um ente querido em sinal de memória; de um sinal religioso em sinal de fé; o nome da esposa em sinal de fidelidade. Mas a tatuagem, nestes últimos casos, não é amuleto e não dá garantia nenhuma da memória do ente querido, da fidelidade conjugal, da proteção pela fé; por isso, embora a tatuagem neste caso não se revista de valor imoral, ela mesma não revela senão um sentimento acerca de pessoas, coisas e fatos sem sentido algum se não responde à intenção original; e com a possibilidade do arrependimento de se haver tatuado.

Não raro também uma tatuagem segue ou expressa um modelo de comportamento, mesmo quando feita como provocação do próprio comportamento. Em geral quando se reverte em comportamento é porque a tatuagem representa uma filosofia de vida, ou uma conseqüência de viver um determinado tipo de vida: por que alguém tatuaria uma arma no braço? Uma caveira? Uma mulher nua? Um demônio?

É evidente que a tatuagem, de um modo geral, revela uma situação, conduta e intenção de vida que se traduz em comportamento. Isso não significa que não existam exceções a regra.

Se analisada pelo binômio custo-benefício a tatuagem não traz nenhuma vantagem, pois além de trazer riscos para a saúde psico-somática, gera perda de tempo, dinheiro, além de deixar registrado no corpo o sinal de uma paixão, de um sentimento que, como toda paixão, em sua efemeridade, tem tempo certo para terminar,

Portanto, pode passar com o tempo e tornar-se vencida ou mal querida na maturidade ou na superação da paixão; e isso ocorre muito freqüentemente, quando, chegando na maturidade, se procura desfazer-se da tatuagem que um dia foi expressão de um sentimento e da moda do seu tempo.

Mas o sentimento e a moda passam e, ainda que não para sempre, o corpo fica e com ele a pessoa que se é. Da idéia da vantagem de ser diferente e de ser original seguem-se as desvantagens: dor risco de infecções, custo para tatuar e do alto custo para tirar, arrependimento… e muitos outros!

E quando os pais já são tatuados ou sofrem pressão dos filhos para permitirem se tatuarem?

Não raro se vêem os pais com vergonha ou medo de dizerem não ou ensinar a verdade aos filhos, uma vez que o exemplo partiu do próprio pai; mas os pais não podem amedrontarem-se para ensinar a verdade aos filhos: que a tatuagem dói, representa risco e muitas outras desvantagens.

Há tatuagens que depõem claramente não só contra a fé, mas também contra a dignidade da própria pessoa.

E o que dizer àqueles cristãos que pensam na tatuagem como forma de exprimir sua fé?

As tatuagens em nossa cultura servem mais para contrariar a fé do que para manifestá-la. Embora sejam comuns, não serão as tatuagens de cruzes, de Cristo ou de santos que darão conta da fé que se tem, mas a coerência da vida!

A tatuagem e vida profissional. O que dizer?

Muitas empresas não vêem com bons olhos as tatuagens. E isso não só em função da aparência que pode contrariar a imagem ou o produto que represente a empresa, mas também do risco à saúde. Não raro funcionários tatuados escondem-nas dos patrões, pois conhecem bem o risco se revelá-las, exceto o caso de empresas que delas se valham para vender o produto.

Ter algo que dificulte a vida profissional ou social é algo que deve ser pensado na hora de tatuar-se.

Será isso preconceito? Neste caso, claro que não, preconceito é opinião favorável ou desfavorável concebido sem exame crítico ou sem conhecimento, coisa que não ocorre quando uma empresa avalia alguém para ocupar um cargo em seus departamentos.

Além do mais não adianta dar tom natural ao que efetivamente não o é, pois assim é a tatuagem, queira ou não na atualidade, pois se é moda, não é natural, já que natural diz-se do que não passa. E se fosse natural não haveria quem não a tivesse… E porque há uma maioria que não a possuiu não é correto sustentar que é uma minoria preconceituosa, pois como já dissemos não se trata de preconceito.

Conclusão

Embora as raízes históricas e religiosas da tatuagem não representam em nossos dias o que na antiguidade representou, no entanto, hoje, a tatuagem revela uma moda, sinal de um tempo em que as pessoas estão em crise e em conflito consigo mesmas e com os demais.

Esta crise é de ordem moral, avança no campo emocional e abala os alicerces da identidade pessoal. É moral porque atinge plenamente o eixo da livre ação humana: a liberdade. É emocional em razão do descontrole em que se vive numa vida de paixões, sem limites, seja por razão de fuga do real ou por hábito na busca de prazer, reconhecimento…

Existe hoje em muitas pessoas certo medo de “ser comum”, corriqueiro e igual, quando na verdade nada há de corriqueiro, comum e igual entre uma pessoa e outra, pois cada qual na semelhança que apresenta é original e única. E nisso reside a descoberta da identidade: tornar-se o que se é. Uma tatuagem não me torna essencialmente diferente dos outros, talvez apenas excêntrico.

O cultivo constante do conhecimento de si, o que cada um é em si, deve ser ideal de vida; e é isso que dá sentido à vida. Isso supõe necessariamente o cultivo de virtudes morais como a temperança e a fortaleza e de virtudes intelectuais, como o estudo e a prudência, que nos capacitam para o discernimento e análise do que pode parecer-nos bom e eterno, do que é ruim e efêmero

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