Artigo da ‘Ateísmo’ Categoria

* Ser católico hoje. Fala-nos escritor e jornalista Vittorio Messori.

quinta-feira, março 11th, 2010

Crente e ao mesmo tempo inconformista, o escritor e jornalista católico Vittorio Messori casou-se com o Evangelho porque, simplesmente, era inevitável. Ele mesmo explicou isso no dia 26 de fevereiro, em um encontro em Roma promovido pela Libreria Editrice Vaticana.

Apresentando a nova edição da obra Cose della vita, último dos quatro volumes da casa editorial – junto a Pensare la storiaLa sfida della fedeEmporio Cattolico –, Messori relatou as razões de sua fé, apesar de todo peso que a razão teve em sua formação.

Nascido em Sassuolo, e licenciado em Turim com Alessandro Galante Garrone (“que não me perdoou ter-me tornado católico”), pupilo de Norberto Bobbio (“grande nome do laicismo puro”), após a descoberta da fé nos anos universitários, Messori dedicou sua atividade literária à busca da verdade do Evangelho.

Com mais de um milhão de exemplares vendidos na Itália, o primeiro de seus livros, Hipóteses sobre Jesus, foi traduzido a dezenas de idiomas e ainda hoje é reeditado. Muitos outros best seller internacionais vieram com o tempo.

Um dos fatores do êxito editorial de Messori é devido a sua capacidade de captar as dúvidas e as perguntas de muitos católicos e também de muitos ateus. “O ateu é um crente – explica –, faz todo o possível para demonstrar que Deus não existe”. O ateu “sempre corre o risco da conversão”, enquanto que ele, nos tempos de agnosticismo, não tinha nada “contra” a religião. “Era uma subcultura da qual não me ocupava”.

De formação anticlerical, “à maneira emiliana” (da Emilia Romagna, região italiana), a primeira pessoa a quem Messori, em 1976, teve de explicar sua “iluminação” foi sua mãe. Muitos se surpreendiam do Messori religioso. “Não me convinha ser católico. Tratava-se de começar do zero. Foi algo a que tentei resistir, mas, já se sabe, o homem propõe e Deus dispõe. Assim, rendi-me à evidência”.

Messori estava tão longe das coisas sagradas que “para buscar a paróquia à qual pertencia minha casa tive de recorrer às páginas amarelas”. Desde então, abriu-se o caminho até se converter em incômodo, em politicamente incorreto. Um episódio para todos: “na metade dos anos 70, lançar um livro como o meu significava no máximo terminar na estante secundária das Paulinas. Nos mostradores principais estavam o manual do bom sindicalista e o Jesus revolucionário”.

Ninguém se perguntava sobre as origens da fé. Ao contrário, o debate voltava-se sobre suas consequências e, portanto, perguntava-se como enfrentar os problemas econômicos à luz do Evangelho. Como apologeta, Messori pretendeu em contrapartida explicar os motivos de crer. “A apologética é um dom de Deus, como a razão, da qual não há que renegar. No fundo, o último passo da razão está precisamente em compreender que muitas coisas a superam”.

* Oração de um ateu.

sexta-feira, março 5th, 2010

Miguel de Unamuno foi um filósofo espanhol do século XX atormentado pela idéia de Deus. Ateu, sentia saudades do Infinito.

Veja um poema seu, encantador: “A oração do ateu”.

Que fique a lição: há ateus que são mais crentes que os crentes…

Ouve meus rogos Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estas minhas queixas;
Tu, que aos pobres homens nunca deixas
sem consolo de engano. Não resistes

ao nosso rogo, e nosso anelo viste,
quando mais Te afastas de minha mente;
mas recordo os doces conselhos somente
com que minh’alma acalentou noites tão tristes.

Quão grande és, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és senão Idéia; é muito estreita
a realidade por muito que se expande

para abarcar-te. Sofro eu por tua causa,
Deus não existente, pois se tu fosses realidade,
eu também existiria de verdade.

* Atenção ateus: Santa Sé convida-os a formar parte de fundação para diálogar com os fiéis crentes.

sexta-feira, fevereiro 26th, 2010

O Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, Dom Gianfranco Ravasi, explicou que seu dicastério criou a Fundação “O Pátio dos Gentios” à qual convidaram a participar ateus e agnósticos para “renovar o diálogo entre homens e mulheres que não acreditam mas que querem caminhar para Deus”.

Assim o indicou o Prelado vaticano em declarações ao jornal dos bispos.

Um dos fins da Fundação será estudar o “lugar espiritual” dos crentes assim como desenvolver “temas das relações entre religião, sociedade, paz e natureza”. Esta iniciativa, explica o Arcebispo, é uma resposta ao convite que o Papa Bento XVI fez em dezembro em seu discurso à Cúria vaticana para o diálogo com os não-crentes.

Dom Ravasi disse que com este projeto “queremos ajudar a todo mundo a sair da pobre concepção de acreditar e promover o entendimento de que a teologia tem dignidade científica e status epistemológico”.

Esta fundação terá uma reunião anual, a primeira das quais poderia desenvolver-se em Paris na segunda metade deste ano. italianos, o “Avvenire”, onde também assinalou que a idéia é “primeiro criar uma rede de agnósticos ou ateus que aceitem o diálogo e entrem como membros da Fundação, e assim, ao nosso dicastério”.

***

Que idéia inspirada e estupenda.

Louvado seja Deus!

* China: Lenta abertura para a religião surpreende.

sábado, fevereiro 6th, 2010

A primeira grande exposição feita na China sobre a vida do jesuíta italiano Matteo Ricci (1552-1610) abre sábado em Pequim, assinalando uma atitude mais “positiva” das autoridades comunistas acerca da religião e dos antigos missionários europeus.

A exposição, com 200 peças de instituições chinesas e italianas, entre as quais algumas “obras-primas” do Renascimento, estará patente no novo Museu da Capital, em Pequim, até 20 de março, seguindo depois para Xangai e Nanjing.

Matteo Ricci (“Li Madou”, em chinês) foi o primeiro missionário católico europeu autorizado a viver em Pequim, em 1601.

A exposição, intitulada “Um Encontro de Civilizações na China (da dinastia) Ming”, apresenta-o como “um herói da história cultural do mundo” e “a primeira pessoa que estabeleceu uma sólida ponte cultural entre o Ocidente e a China”.

“É um acontecimento cultural extremamente importante e fortalecerá também os laços com a China”, disse um responsável italiano acerca da exposição.

O responsável, que falava em Itália, na terra natal de Ricci, referia-se aparentemente às relações China-Vaticano, cortadas desde a tomada do poder pelo Partido Comunista Chinês (PCC), há 60 anos.

Na Europa, a Santa Sé é mesmo o único Estado que mantém relações diplomáticas com Taiwan, a ilha onde se refugiou o antigo governo chinês depois de 1949 e que Pequim considera uma província da China.

Outro tema de divergência diz respeito aos bispos da Igreja Católica Patriótica Chinesa, que são nomeados localmente e não pelo Vaticano.

Ricci viveu quase metade da sua vida na China, cuja cultura e língua acabou por conhecer profundamente, e foi sepultado num cemitério de Pequim com as honras devidas a um mandarim.

Aquele jesuíta italiano, que chegou a Macau em 1582, vindo de Portugal, é visto hoje na China como “um ocidental confuciano”, mas até há poucos anos, os missionários europeus que acorreram ao pais nos séculos XVII e XVIII eram considerados “agentes do colonialismo”.

“Tirando partido dos seus contactos com funcionários chineses e os cidadãos em geral, os missionários conseguiram obter informações acerca da China e ajudar os colonialistas na sua agressão contra a China”, afirma o “Panorama da História da China”, publicado em 1982 e reeditado em 2008.

No início deste ano, o novo diretor da Administração Estatal para os Assuntos Religiosos, Wang Zuoan, indicou que a China continua fiel ao ateísmo, mas ao contrário da antiga União Soviética, deixou de encarar a religião como “o ópio do povo”.

“O Partido Comunista Chinês começou a encarar a religião numa perspetiva mais positiva (…) A antiga União Soviética e as nações do (extinto) Pacto de Varsóvia não conseguiram lidar bem com as questões religiosas. Isso foi uma profunda lição para a China”, disse Wang Zuoan.

AC.

* “Façam o Papa pagar”, campanha lançada pelos ateus da Inglaterra.

quarta-feira, fevereiro 3rd, 2010

Ricardo Silvestre

Existe uma petição que pede que seja a Igreja Católica a pagar por uma visita do Papa ao Reino Unido, de forma a não serem os contribuintes a pagar os estimados 23 milhões de euros que a visita vai custar.

Na petição pode-se ler que os autores da mesma aceitam o direito que o Papa tem de visitar os seus seguidores no Reino Unido, mas que há melhores maneiras de gastar o dinheiro, por exemplo em escolas, hospitais e serviços sociais

Um poster foi idealizado e já circula pela net.

o papa que pague


* China, outrora materialista, abre-se a Religião.

terça-feira, fevereiro 2nd, 2010


Por Antonio Caeiro, Agência Lusa

Menos de 40 anos depois de ter sido considerado um pensador “reacionário”, um dos maiores sábios da China Antiga, Confúcio (551-478 A.C.), está a ser de novo valorizado na China e reconhecido como “um mestre”.

A “sociedade harmoniosa” preconizada pela atual liderança – muito diferente da “sociedade sem classes” defendida durante a Revolução Cultural (1966.76) – é vista mesmo como uma espécie de reabilitação oficial do confucionismo.

O culto da educação e do serviço público, o amor filial e o respeito pelos mais velhos, a cortesia e a moderação são algumas das “virtudes” associadas a Confúcio.

“O partido comunista precisa, realmente, do confucionismo. As pessoas não podem viver sem crenças nem religião”, disse à agência Lusa Kong Weizhong, representante da 78ª geração de descendentes de Kong Zi (Confúcio em chinês), nascido em 1963.

Mas nem sempre foi assim: a infância de Kong Weizhong foi “um pesadelo”.

O pai era um parente próximo de Kong Decheng, o decano da 77ª geração de descendentes de Confúcio, radicado em Taiwan depois de o Partido Comunista tomar o poder no continente, em 1949. A mãe era uma chinesa ultramarina, o que para as autoridades da época significava espia.

Com apenas cinco anos, Kong Weizhong e a mãe foram “enviados para o campo, sem sapatos, nem comida”.

Regressaram a Pequim em 1971, mas pouco depois foi lançada uma nova “campanha política de massas” e, desta vez, contra o próprio Confúcio.

“Foi uma tragédia”, diz Kong Weizhong, um empresário do sector farmacêutico que emigrou para Hong Kong em 1980, e que se formou depois no Reino Unido. “Felizmente, a China está muito mais forte e a mentalidade das pessoas mudou muito”,

“Quando um partido está na oposição, é contra Confúcio: Quando está no poder, precisa de Confúcio”, acrescenta. “A harmonia é o contrário da revolução”.

Para Kong Weizhong, “Confúcio não é conservador”: “A essência do pensamento de Confúcio é o amor e a tolerância (…) Confúcio ensina-nos a ser pessoas decentes”.

Aquele descendente de Confúcio contesta também que o confucionismo seja uma religião: “Na religião há Deus e Confúcio nunca falava em Deus. Respeitava o taoismo e o budismo, mas não era religioso”.

Ele próprio não se considera religioso – “não sou a 100 por cento”, diz – mas congratula-se com o reaparecimento da religião na China: “A religião é como uma canja de galinha. Adapta-nos ao mundo que nos rodeia e melhora-nos a disposição”.

O taoismo, doutrina associada a Lao Zi, outro pensador do século VI A.C., “também é mais uma filosofia do que uma religião” e o budismo, que é talvez a religião mais popular na China, “vem da Índia”.

“Se o governo quer mesmo que as pessoas tenham crenças e valores, tem de promover o confucionismo e a cultura tradicional chinesa”, afirma Kong Weizhong.

É esse também o objectivo da sua fundação, a Nishan Education Fund”, sedeada em Qufu – a terra natal de Confúcio – na província de Shandong, costa norte da China.

* Cristianismo, Modernidade e Autonomia.

sexta-feira, janeiro 29th, 2010

Entrevista com o filósofo francês Rémi Brague

IHU On-Line – O senhor afirma que vários dos grandes slogans do projeto moderno vêm de Paulo. Que slogans seriam esses?

Rémi Brague – Eu pensava na idéia segundo a qual a humanidade, chegada à idade adulta, já não necessitaria mais de preceptores (Gálatas 3, 25; 4, 2-3). Tal concepção está na base da idéia moderna de emancipação. Eu também penso na idéia de autonomia, no sentido etimológico do termo: ser sua própria lei, obedecendo à própria consciência (Romanos 2, 14). Penso, enfim, na imagem de um esquecimento do passado compensado por uma tensão de todo ser para frente (Filipenses 3, 13). Chesterton  dizia que os tempos modernos estavam infestados de “virtudes cristãs tornadas loucas”. Temos algo de análogo com essas idéias paulinas.

IHU On-Line – Alguns autores muçulmanos acusam Paulo de ter corrompido a mensagem de Jesus. Qual é a base desta afirmação e o que o senhor pensa a respeito?

Rémi Brague – O problema do islã é que seu livro fundamental, o Corão, contém afirmações que não estão na Bíblia. O Antigo e Novo Testamentos confundidos até contradizem a Bíblia. O islã resolve essa questão dizendo que a Bíblia foi corrompida. Moisés teria recebido a Tora, e Jesus, o Evangelho (no singular!). O conteúdo destes livros seria, em grandes linhas, o mesmo do Corão, e anunciaria a vinda de Maomé. Mas a Tora e o Evangelho teriam, em seguida, sido traficados.

Por quem? O Corão diz que os judeus tomam Uzayr pelo filho de Deus (IX, 30). Às vezes, se entendeu este nome obscuro como designando Esdras, pretenso corruptor da Tora. Tornar Paulo responsável por uma corrupção da mensagem de Jesus é uma invenção bastante recente, tomada dos judeus cristãos dos inícios da era cristã e dos quais alguns grupos teriam talvez durado até a conquista árabe no século VII. Encontra-se esta idéia, por exemplo, em Nietzsche,  que a havia tomado de certas correntes da exegese protestante de seu tempo. Os muçulmanos assumem certas hipóteses da ciência bíblica cristã para criticar o cristianismo, de onde provém esta idéia sobre Paulo.

Não há nenhuma “mensagem de Jesus” que Paulo teria deformado. Falar, assim, é ainda situar-se do ponto de vista muçulmano. Jesus não traz uma “mensagem”, mas sim sua própria pessoa divina e humana. Ele é uma pessoa que fala, certamente, e diz coisas extraordinárias, além de curar os doentes e nutrir as multidões. E, sobretudo, realiza tudo como se fosse o próprio Deus que estaria em seu lugar: perdoar os pecados, expulsar os demônios etc. Trata-se de um evento que foi perturbador para os Doze e que derrubou Paulo no caminho de Damasco. Paulo difundiu sobre o evento da vida de Jesus uma interpretação determinada, que ele recebera dos Doze. Ele só transmite o que recebeu (1 Coríntios 11, 23-26).

IHU On-Line – O senhor afirma que a Europa está doente e que há uma crise de valores em curso. Que tipo de cristianismo emerge deste cenário?

Rémi Brague – Que a Europa esteja doente parece-me claro. Um continente inteiro que não renova suas gerações não pode estar em boa saúde. Mas eu espero não ter jamais falado de “valores”. Se há crise, não se trata de uma crise dos pretendidos “valores”. Falar de “valores” já é fomentar a crise. Com efeito, um valor é aquilo que eu decido que isto está bem. Por isso, posso mudar de valores a meu bel-prazer, como se penduram lampiões e depois se retiram para substituí-los por outros. Se sou eu que decido que tal ou tal bem tem um valor, eu também posso recusar-lhe de ter valor, se isso me serve.

E que, sobretudo não se fale de “valores cristãos”, como demasiados cristãos adquiriram o hábito de fazer. Como se houvesse valores cristãos, budistas, islâmicos ou mesmo leigos. O cristianismo não defende nenhum bem que só seria bom para ele. Os dez mandamentos e a caridade são bons, para todos os homens, sem exceção.

A crise mais fundamental é o ódio da vida. A humanidade está a ponto de realizar o sonho da filosofia moderna: fundamentar tudo sobre a liberdade. Concretamente, a busca da experiência humana, a continuação da vida humana sobre a terra depende cada vez mais da vontade do homem. Mas trata-se de perguntar por que precisamente este deveria obrigatoriamente escolher a vida. “Escolher a vida” é um conselho de Deus: “escolhei, pois, a vida, para que tu e tua posteridade vivam” (Deuteronômio 30, 19). Isso me pareceu há muito tempo uma evidência, pois, enfim, quem escolheria a morte? Eu me enganava. Somos disso perfeitamente capazes. O cristianismo que teria alguma chance de sair disso seria, talvez, justamente um cristianismo que se vinculasse ao Cristo, e não a “valores”.

IHU On-Line – Pensando na afirmação de Bérgson,  de que “a democracia é de essência evangélica”, as bases igualitárias propostas por esse sistema político, tal como conhecemos hoje nas sociedades ocidentais, podem ser creditadas a Paulo em função do universalismo que propõe?

Rémi Brague – Sim, a idéia de igualdade de todos os seres humanos, homens ou mulheres, livres ou escravos, judeus e pagãos diante de Deus é uma idéia de Paulo. Ele retoma sucessivamente os grandes desníveis do mundo antigo, tanto grego como judeu, para recusar-lhes toda outra pertinência além da puramente funcional. A “democracia” grega se fundava na superioridade dos homens sobre as mulheres, dos gregos em relação aos bárbaros, e sobre a exclusão dos escravos da vida pública. O judeu piedoso, de seu lado, agradece a Deus todas as manhãs por não tê-lo feito mulher, escravo ou pagão.

No entanto, é preciso não esquecer que o próprio Paulo se enraíza numa tradição bem mais antiga. O Antigo Testamento é, em todo o caso, o único livro que nos legou a Antigüidade, no qual se encontra uma crítica da instituição monárquica (1 Samuel 8, 11-17), e não somente de tal ou tal rei concreto.

Tudo isto se funda na capacidade que se supõe que todo homem possua, de ter acesso direto e imediato a Deus. Sem esta suposição, pode-se perguntar se nossas democracias (que certamente são imperfeitas) não desapareceriam, deslizando irresistivelmente para regimes de castas. Quem estaria no poder? Os engenheiros? Os militares? Os biólogos? Os psicólogos? Os homens da mídia? Isso importaria muito pouco. Em todo o caso, uma elite procuraria imitar, não Deus, seguramente, mas a imagem perversa que faria da divindade: um manipulador, um condutor de marionetes todo-poderoso, um policial infalível, um feiticeiro. Em todo o caso, esse Deus não teria grande coisa a ver com aquele que nos mostra Jesus Cristo.

IHU On-Line – Sob que aspectos o projeto de um humanismo ateu é incompatível com o cristianismo?

Rémi Brague – Não é somente por ser ateu que este projeto seria incompatível com o cristianismo. É também porque ele não é verdadeiramente humanista, mas se volta contra o homem, ou antes, contra os homens concretos. As tentativas de humanismo ateu levaram todos à catástrofe e produziram em alguns anos mais crimes que as religiões em muitos séculos. Todas se atribuíam um modelo do homem (o ariano, o proletário) e quiseram liquidar tudo o que não lhe correspondia. Isso é exigido pela lógica imanente desse projeto. Ou todo homem é objeto do amor e do respeito de Deus, ou certos homens são mais humanos do que outros. Eu não digo: mais belos, mais fortes, mais inteligentes, desigualdades evidentes que só podem fundamentar classificações em vista de diferentes papéis sociais. Eu digo: mais dignos de ser humanos e, então, de serem tratados como tais. Seria, então, preciso conceber-se um modelo do que é ser plenamente humano. E estes homens, mais homens do que os outros, teriam o direito de dominar àqueles e, no limite, o dever moral de eliminá-los.

Acredita-se, então, verdadeiramente no projeto de um humanismo desse gênero? Ouve-se falar cada vez mais de um “transumanismo ”, de uma transformação do homem por meios técnicos e biológicos. Que isso seja tecnicamente possível ou não, que isso seja moralmente aceitável ou não, estes dois problemas não me interessam aqui. Mas são um sintoma forte de uma insatisfação de si, e mesmo de um ódio de si!

Além disso, é preciso notar uma virada interessante na crítica que se dirige ao cristianismo. Este é considerado responsável por tudo, mas também pelo contrário de tudo. Há muito tempo lhe foi atribuída a suspeita de rebaixar o homem, de desprezá-lo, de humilhá-lo, de ter dele uma visão “negra”. Basta pensar na crítica de Pascal  feita por Voltaire,  no final das Lettres philosophiques. Acusa-se agora o cristianismo, desde Schopenhauer  (que se apoiava, aliás, sobretudo no Antigo Testamento), de privilegiar em demasia o homem em relação aos animais. E agora certos ecologistas o acusam de fazer do homem um tirano que se rebela contra a deusa Terra.

IHU On-Line – O senhor sugere que os cristãos devem tornar-se melhores. Que ética pode sedimentar uma nova prática cristã?

Rémi Brague – Não é que os cristãos são os que devem tornar-se melhores! Todos os homens têm este dever com a maior urgência. E não se trata de sugeri-lo, é preciso gritá-lo. E gritá-lo em primeiro lugar a si próprio.

Uma ética? O projeto de uma prática autenticamente cristã nos conecta de vez ao domínio da ética. O cristianismo tem esta particularidade entre as religiões: a de não ter trazido nenhuma regra nova. Nenhuma regra moral, bem entendido, pois isso não é de qualquer modo possível. Mas também nenhum sistema social, nenhuma prática de culto, nenhuma prece, nenhum sacrifício, nenhuma peregrinação que fossem determinantes. Tudo isso é deixado à iniciativa de quem crê. As regras morais do cristianismo não são outras senão aquelas elementares que, em todos os tempos, permitiram às sociedades subsistirem. O cristianismo tem, em compensação, um tesouro que ele talvez seja o único a possuir ainda. É a afirmação da bondade do mundo, de um mundo que Deus ama e que Ele quis salvar. As regras morais permitem viver bem. Somente a fé permite crer que é bom viver.

***

R. Brague leciona na Universidade Paris I, Sorbonne, na França. É autor de Europe, la voie romaine (Paris: Critérion, 1992), A Sabedoria do Mundo (Lisboa: Edições Piaget, 2002) e La Loi de Dieu. Histoire philosophique d’une alliance (Paris: Gallimard, 2005).

Tradução Benno Dischinger.

Fonte: Revista IHU online

* Educação sexual de nossos jovens e o ateísmo.

sexta-feira, janeiro 29th, 2010

Padre Ricardo

Gostaria de falar a respeito de um tema bastante polêmico: “Como educar os filhos para a vivência da sexualidade”. É um tema que gera bastante discussão porque a sexualidade que nos católicos pensamos está diferente do mundo.

Quando nós queremos educar os filhos a respeito da sexualidade, eles vêm com a mentalidade da escola; e infelizmente nós pagamos os professores para perverterem a educação de nossos filhos, então o caminho é não confiar na escola, porque a escola irá ensinar algo errado, até que se prove o contrário. Infelizmente é isso, e eu vou explicar.

Por que a escola e os meios de comunicação vão ensinar mal os nossos filhos a respeito da sexualidade? Porque a sociedade está vivendo no ateísmo, a educação está montada no ateísmo, é preciso que nossos filhos saibam disso.

Não é possível educar nossos filhos de forma cristã na sexualidade, sem romper com o pensamento da sociedade atual.A maior parte dos jovens é contra liberação das drogas, mas essa não é a opinião da classe falante, e o nosso país é conduzido pela classe falante, políticos que transmitem opinião, professores, jornalistas, advogados, psicólogos, e o que eles falam não é o que o povo brasileiro pensa. Infelizmente esse é o pensamento da classe falante: jornalistas, advogados, psicólogos, políticos, terapeutas, professores. Há uma lacuna muito grande entre a classe pensante e o povo brasileiro. O povo brasileiro tem uma moral sexual conservadora, isso é uma estatística do Datafolha, IBGE, a maior parte dos jovens brasileiros são conservadores. Quando ele se casa, casa com mentalidade de que quer que dê certo, o comportamento dele é uma coisa, mas o pensamento é outro, é conservador.

A classe falante é muito liberal, e eles querem incutir na cabeça de nossos jovens essa opinião deles. Se nós, maioria cristã, continuarmos calados, eles vão conseguir cada vez mais incutir esse pensamento na cabeça dos jovens, nós precisamos falar e ter coragem de romper com esse silêncio, pronunciar que nós somos cidadãos cristãos.

Agora querem tirar os símbolos cristãos de todos os lugares, querem tornar o cristianismo uma realidade das catacumbas. Dizem que não querem ofender os que não são católicos, não podem ofender a minoria. Por que isso vai ofender os ateus? Não ter uma religião é também uma atitude religiosa. Ao invés de ter uma cruz na parede eu ter uma parede vazia é ter uma atitude religiosa.

Escute meu irmão ateu, você acha que ser cristão em público é feio, eu acho que ser ateu em público é muito pior, é mais feio. Uma cidade vazia de símbolos religiosos é também uma atitude religiosa que mostra que esta cidade não tem Deus.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre Jean via o existencialismo como uma filosofia, para ele é um fato levar até as últimas consequências que Deus não existe. “Se Deus não existe, ninguém pensou o homem, então não existe certo ou errado”. Como Raul Seixas: “eu prefiro ser essa metaformose ambulante”. Vê o homem como fruto de uma mudança contínua, isso se chama ateísmo.

A respeito do sexo, como está pensando essa classe falante? Eles dizem assim: o importante é a pessoa se sentir bem, não tem certo ou errado. Isso é dizer que não existe um projeto, você que é o deus da história. Deus tem um projeto para nós, veja seu corpo, você sabe para que serve cada parte de seu corpo, que mostram a inteligência de Deus. Deus pensou o homem para a mulher e a mulher para o homem, mas muitos pensam: eu não quero viver o sexo dessa forma, quero viver da forma que me agrada, quero ter sexo com animais. Isso é uma desobediência ao Criador. E é isso que estão incutindo nas cabeças de nossos filhos, pois sempre dizem que o importante é a pessoa se sentir bem. Pode ser que o jornalista, o professor, o advogado que fale isso não seja ateu, mas o pensamento é ateu. O ateísmo está tomando conta da nossa sociedade sem se mostrar. O ateísmo se apresenta como humanismo, algo favorável ao homem, tolerante.

Os nossos jovens, infelizmente, já fizeram sexo para entender que estão se destruindo, basta que alguém fale isso para eles, mas essa multidão da classe falante fala o oposto, psicólogos, pedagogos, políticos, professores, às vezes, até padres, que trabalham para o pensamento ateu – Que horror! Quando um jovem chega ao confessionário e fala do pecado da masturbação e o padre fala para o jovem que não tem problema, que ele está conhecendo o corpo, pode ser que o padre não saiba, mas está trabalhando para o pensamento ateu -. Se nós aceitarmos isso, haverá a intolerância religiosa disfarçada de tolerância, fazendo carinha de bom moço. O diabo não se apresenta com chifre, ele se apresenta de forma atraente, ele é especialista, sabe fazer a cabeça, se apresenta como tolerância.

A Igreja Católica ama de paixão os homossexuais, não existe uma instituição que os ame mais, pois quer os tirar de uma cultura de morte que está os matando, essa vida de sexo livre, está matando esses jovens, por isso ela diz: “meus filhos parem com isso”. Ela ama os heterossexuais que também estão se matando com o sexo livre, por isso ela fala: “meu filho pare de se maltratar porque você foi feito para amar”.

O sexo é uma criação de Deus e não do diabo. O sexo é uma participação do ser humano na obra da criação. O interior da mulher é algo sagrado, cada mulher que carrega dentro dela aquela pequena vida, ali Deus já realizou seu projeto maravilhoso. O homem é chamado pela sua sexualidade a entrar neste santuário da vida que é a mulher, para obra da criação. Precisamos arrancar o sexo das mãos do diabo, é obra de Deus o sexo. Nós precisamos fazer com que o sexo seja o que é no projeto de Deus, Deus tem um sonho para a sexualidade, e está ligado a nossa capacidade de amar. Mas que terrível! Quando usamos para nosso egoísmo, fazendo das mulheres objetos, usando algo que é para o amor para o egoísmo solitário.

Uma vez que você apresenta a sexualidade como projeto bonito de Deus, o jovem entende isso. Mas quando apresenta só como coisa proibida é claro que o jovem não vai aceitar. Eduque seus filhos, desmascare o lobo, é o pensamento ateu que conduz a morte, a destruição. E os jovens são capazes de enxergar isso, quanto mais você faz sexo sem compromisso, mais fica um vazio na alma. Mostre para ele o lobo, ele será capaz de enxergar. É importante que você os ajude a enxergar.

Os jovens dizem que devem ter um pensamento crítico, seja crítico com você, critique o pensamento que você adotou, um pensamento ateu, desonesto.

Você sabe por que o pensamento ateu está na moda? Veja o que falava o filósofo Friedrich Nietzsche: “Se deuses existissem, eu não suportaria não ser um deles. Portanto, deuses não existem”. Ele mostra que ele é ateu por sua soberba.

Os jovens dizem por que a Igreja proíbe sexo antes do casamento? Não é a Igreja que proíbe, mas a própria natureza. Pense, pelos menos lá em Cuiabá (MT) é assim, eu acho que esse negócio de sexo tem haver com uma criança que nasce, tem haver com bebê, assim como quando você se alimenta tem haver com nutrição, são as finalidades das coisas que Deus pensou. Se um casal de jovem mantém relações sexuais a natureza daquele ato é voltado para ter um filho, eu não estou dizendo que vai ter, mas está voltada para isso, e muitas meninas tomavam pílulas e engravidaram. Veio a criança, ela precisa ser respeita, tem direito a vida e de ter pai e mãe. O pensamento ateu diz, não existe Deus, você que é deus, se a criança não te agrada jogue-a no lixo. Você que é senhora do seu corpo.

E nós dizemos não, respeite o Criador. A pessoa se coloca no lugar de Deus, senhora da vida e da morte. Você acha que sexo é lazer? Não, ele é sagrado. A Igreja proíbe sexo antes do matrimônio não porque ele é pecado, mas porque ele é sagrado. No projeto de Deus a criança foi pensada tendo um pai e uma mãe.

Por que a classe falante não aceita isso? Porque se eles aceitarem, eles terão que aceitar a Deus. O que significa ter um Deus? Significa que eu não sou Deus, e o mundo moderno não aceita, ele quer ser deus. Eles não aceitam sermos adoradores, e o Papa João Paulo II fala sobre o ódio dos apóstatas. O apóstata é um cara que abandonou a fé, seguia a Deus e começou a achar que a moral é opressora, não precisa ser tão radical, fanático, católico sim, mas fanático não. Começa ler a Bíblica de um jeito ideológico, na passagem onde Jesus diz: “se você olhar para uma mulher e no seu coração ir desejando-a, já cometeu adultério”. Eles dizem assim: Jesus não disse isso, isso foi acrescentado pela Igreja, isso é radicalismo. Eles pecam na fé que tinham, e arranjam um jeito “light” de entenderem a fé. Talvez seja até um padre que o tenha ensinado ler a Bíblia assim, e ainda dizem: padre fulano que é bom, é um padre aberto para realidade. Aberto para a realidade e fechado para Deus.

O apóstata pisou na própria consciência arranjando um jeitinho de interpretar o cristianismo, e quando você interpreta de forma reta, ele passa odiar você, porque mostra o que ele fez. Um jovem chega para o catequista e diz que não faz sexo com namorada e nem se masturba; o catequista começa a perseguir o jovem porque ele, o catequista, arrumou um jeito “maneiro” de viver o cristianismo, então persegue o jovem porque recorda o que ele fez consigo. Ele vai odiar quem propõe o Evangelho do jeito que ele acreditava antes.

Por que esse pessoal tem horror de ver a manifestação de nossa fé? Porque essa minoria de ateus quer amordaçar a maioria dos cristãos, temos que lembrar a eles que somos cidadãos como eles. Por que vamos ficar calados se somos a maioria? É necessário que essa maioria de cristão que são conservadores reaja. Eu tenho que reagir quando uma pessoa chega na minha igreja e acaba com o que é a razão da minha vida. Só existe um caminho eficaz, você não pode dar uma de bom mocinho, o sexo é sagrado, isso é visão positiva, mas você tem que mostrar o lobo que tenta passar como tolerância cristã aquilo que é intolerância ateia. Não somos ateus, Deus nos criou e tem um plano para nossas famílias, para nossa sexualidade. Temos que deixar Deus ser Deus e não ser Deus no lugar de Deus.

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* Camus descreve uma vida sem Deus: “Jamais saciados”.

segunda-feira, janeiro 25th, 2010
Michelson Borges

Quando lia o depressivo romance A Queda, do argelino Albert Camus, me deparei com o seguinte trecho, que consiste numa das falas (o livro é um monólogo) de seu personagem:

Se eu lhe disser que não tinha religião alguma, você compreenderá ainda melhor o que havia de extraordinário nessa convicção. … Sentia-me bem à vontade em tudo, é bem verdade, mas, ao mesmo tempo, nada me satisfazia.
Cada alegria fazia com que desejasse outra. Ia de festa em festa. Chegava a dançar noites inteiras, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Às vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, meu modo desenfreado, o violento abandono de todos me lançavam a um arrebatamento ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me no extremo da exaustão e no espaço de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo.
Mas o cansaço despararecia no dia seguinte e com ele o segredo; e eu me lançava outra vez com todo ímpeto. Assim corria eu, sempre pleno, jamais saciado, sem saber onde parar, até o dia, ou melhor, até a noite em que a música parou e as luzes se aparagaram. A festa em que eu fora feliz…” (p. 25).

Nobel de Literatura (1957), Camus filiou-se ao Partido Comunista francês em 1930. Ao lado de Jean-Paul Sartre, foi um dos principais representantes do existencialismo.

Segundo Alister McGrath, em seu livro The Twilight of Atheism, “para Camus, a ideia da morte de Deus é melhor expressa em termos de Seu silêncio mais do que de Sua ausência” (p. 158).

É preciso entender que Camus viveu no período da Segunda Guerra Mundial, e deve residir nisso seu desencanto com Deus (que deveria, na verdade, ser o desencanto com o ser humano sem Deus).

Em A Queda, Camus revela o homem moderno que abandona seus valores e mergulha num vazio existencial. O trecho que reproduzi acima, para mim, é quase um desabafo do autor e um verdadeiro raio x daqueles que andam pela vida “jamais saciados”, precisando sempre de doses de alegria ilusória, não se dando conta de seu vazio – até que as luzes se apagam e a festa termina.
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* Os jovens “sem religião”. Dados de uma pesquisa reveladora e desafiante para a Igreja.

segunda-feira, janeiro 25th, 2010

Os Dados estatisticos do artigo abaixo são de 2004.

Em termos sociológicos continuam bastante atualizados pois revelam tendências que 6 anos não são capazes de mudar significamente.

São dados e números bem reveladores e nos oferecem informações  que nos apoiam na evangelização de nossos queridos jovens.

Supere o receio de ler até o fim esse tipo de artigo,mais longo e consistente; ele é tão bom, ou até melhor, do que aquele curto e, às vezes, superficial.

Ao final, fica aquela sensação do “relativismo religioso” e sua influência fortissima nos nossos jovens.

Esse é o nosso desafio, Igreja!

***

Regina Novaes

O NÚMERO de brasileiros “sem religião”, sobretudo jovens de 15 a 24 anos, tem chamado a atenção dos estudiosos.

O artigo aponta para a conjugação e a convivência entre: ideário secularizante (presente entre ateus e agnósticos); o “espírito do tempo” (presente entre aqueles que acreditam em Deus mas rejeitam instituições religiosas ou transitam entre pertencimentos institucionais) e, finalmente, as novas modalidades sincréticas (favorecidas pela perda de hegemonia do catolicismo e pela globalização do campo religioso).

OS TRÊS PRINCIPAIS mudanças que caracterizam o campo religioso brasileiro hoje são, a saber:

a diminuição percentual de católicos (de 83,76% em 1991 para 73,77% em 2000),

o crescimento dos evangélicos (de 9,05% em 1991 para 15, 45% em 2000)

e o aumento dos “sem religião” (de 4,8% em 1991 para 7,4 % em 2000). Sobre os dois primeiros aspectos muito se tem escrito, sobre o terceiro bem menos.

De fato, ainda pouco se sabe sobre quem são os brasileiros “sem religião” que adentram o século XXI. Porém, algumas informações disponíveis permitem começar uma reflexão sobre o assunto. Este é o objetivo das presentes notas, nas quais focalizaremos, particularmente, os jovens brasileiros de quinze a 24 anos.

Por onde sopram os ventos secularizantes?

Relacionando religião e transferência intergeracional no Rio de Janeiro, o demógrafo René Decol (2001) afirmou que o fluxo atitudinal de católicos para outros grupos ganhou proporções de “mudança social” na medida em que está alterando significativamente e de forma definitiva o perfil religioso da população.

Segundo o autor, o processo tem um componente demográfico: à medida que os grupos populacionais (coortes) se sucedem no tempo, menos adultos em idade de reprodução se declaram católicos, resultando em número cada vez menor de crianças recebendo influência desta natureza.

A tendência é, portanto, um menor número de católicos no interior de cada coorte, fazendo com que a percentagem de católicos no conjunto da população decline de forma cada vez mais acentuada. Segundo o demógrafo, a estrutura social tradicional, onde valores e normas são transmitidos verticalmente, de geração em geração, passa a ser afetada cada vez mais por processos culturais, que atuam em planos horizontais, agindo sobre as coortes de forma diferenciada. Em sua análise, Decol (2001) enfatiza os ventos secularizantes que têm soprado pela sociedade.

O Censo de 2000 confirma tais observações. Para uma pergunta única e aberta – “qual é sua religião?” – em 2000, o IBGE recebeu 35 mil respostas diferentes, o que dá uma idéia da variedade com que o brasileiro define sua fé.

E a tendência de diminuição dos que se declaram católicos se acentua entre os jovens, de quinze a 24 anos (que somam 73,6%). Em relação a outras faixas etárias, segundo o Censo, o crescimento evangélico é um pouco menos acelerado entre os jovens (os jovens evangélicos somam 14,2%, sendo 3,9% de denominações tradicionais e 10,2% de denominações pentecostais). E, finalmente, é entre os que se declaram “sem religião” que os jovens (9,3%) se destacam em relação ao conjunto da população (7,4%).

Três anos depois do Censo, os resultados de uma pesquisa nacional realizada pelo Projeto Juventude/Instituto Cidadania1 confirmaram as mesmas tendências. Diferenciando-se do Censo, a pesquisa não indagou sobre religião através de uma pergunta aberta, a pergunta oferecia opções separadas como “agnósticos”, “ateus” e quem “acredita em Deus mas não tem religião”.

Enquanto 65% dos jovens entrevistados nesta pesquisa em todo o país se declaram católicos, 20% se declaram evangélicos (sendo 15% pentecostais e 5% não pentecostais)2. E foram 10% os jovens “sem religião”, sendo que 9% declararam “acreditar em Deus mas não ter religião” enquanto apenas 1% identificaram-se como ateus e agnósticos.

Através dos resultados da pesquisa Perfil da juventude brasileira podemos apresentar algumas características dos jovens que se definem como agnósticos e ateus. Eles somaram apenas 1% (entre os quais 69% são homens e 31% são mulheres), no âmbito dos 3.500 entrevistados, entre os quais 41% se declararam brancos, 44% estão entre os que se declararam pretos ou pardos e 7% dos que se declararam indígenas.

Considerando o conjunto dos jovens entrevistados, em termos de renda familiar declarada, os ateus e agnósticos não estão entre os mais pobres, estão lado a lado com os espíritas kardecistas, seguidos por uma parcela de católicos, de evangélicos não pentecostais e de jovens das “outras religiões”. E estão, como era de se esperar, em termos de renda, mais distantes dos pentecostais que – junto com os adeptos das religiões afro-brasileiras – estão entre os mais pobres.

Os ateus e agnósticos, nesta mesma pesquisa, não estão predominantemente nem entre os jovens mais jovens (catorze a dezessete anos), nem entre os jovens mais velhos (21 a 24 anos); 50% deles estão na faixa etária intermediária (dezoito a vinte anos). O que pode indicar que este declarar-se “ateu” ou “agnóstico” pode fazer parte do momento da vida que é importante a afirmação de identidade independente em relação à família, como aconteceu com outras gerações.

No entanto, chama atenção o fato dos entrevistados que se declararam ateus ou agnósticos viverem mais no interior do que nas regiões metropolitanas, contrariando um dos velhos cânones que relaciona ateísmo com os ventos secularizantes da urbanização modernizadora.

Vejamos agora os outros jovens entrevistados que declararam “acreditar em Deus mas não ter religião”.Na pesquisa Perfil da juventude brasileira, eles somam 9% no conjunto dos entrevistados, sendo 64% de homens e 36% de mulheres, distribuem-se por todos os grupos de idade e estão um pouco mais entre os jovens mais velhos (21 a 24 anos). Em termos de educação formal, há uma aproximação entre os que “acreditam em Deus mas não têm religião” e os pentecostais, que se destacam pela pouca escolaridade. Em outras palavras, entre os jovens que ainda estão cursando o ensino fundamental ou que pararam de estudar nestas séries, somente os jovens evangélicos pentecostais entrevistados são em número um pouco maior do que os jovens que “acreditam em Deus, mas não têm religião”. Já no ensino médio e na universidade, os que “acreditam em Deus, mas não têm religião” só são em maior número se comparados com os jovens adeptos da umbanda e do candomblé.

Quanto à experiência de trabalho, os jovens que “acreditam em Deus mas não têm religião” são os que mais trabalham na cidade sem registro (45%); ficam em quarto lugar entre os que trabalham na cidade com carteira assinada (19%); são 17% entre os que fazem bicos na cidade; são 2% entre os que trabalham na agricultura familiar e outros 2% entre os que trabalham como assalariados no campo. Em resumo: seu perfil revela menos inclusão educacional e mais vulnerabilidades sociais.

Em termos de distribuição regional, na mesma pesquisa acima citada, temos os seguintes resultados: enquanto entre os jovens entrevistados o catolicismo predomina nas regiões Nordeste e Sul, os jovens evangélicos estão mais presentes no Norte/Centro-Oeste e no Sudeste. No Sudeste, também estão a maioria dos jovens espíritas kardecistas e os jovens adeptos das religiões afro-brasileiras que responderam o questionário da pesquisa. Quanto aos ateus e àqueles que “acreditam em Deus mas não têm religião” é interessante notar que mesmo havendo algum destaque para a região Sudeste, eles se distribuem por todas as regiões do país.

A disseminação desta opção “acredita em Deus, mas não tem religião” pode ser um elemento para explicar porque, em termos censitários, os “sem religião”, que eram 0,2% em 1940, cresceram 52% na década de 1990. Porém, certamente, em 1940, os símbolos e significados presentes na resposta “sem religião” eram bastante diferentes dos dias de hoje.

Hoje e ontem há jovens que se definem como “ateus” e “agnósticos”, mas certamente em nenhuma outra época houve tantos jovens se definindo como “sem religião” que poderiam também ser classificados como “religiosos sem religião”, isto é, adeptos de formas não institucionais de espiritualidade que são normalmente classificadas como esotéricas, nova era, holísticas, de ecologia profunda etc. Mas, ao mesmo tempo, também é significativo o número de jovens que se predispõe a mudar de religião e que reafirma seu pertencimento às igrejas evangélicas, às novas religiões japonesas, ao Budismo e, também, a grupos católicos ligados à Teologia da Libertação ou à Renovação Carismática.

E quanto pesa o “espírito de época”?

Mas, como diria Bourdieu, a estatística é apenas uma das formas de representar a vida social. O desafio da interpretação sociológica – mesmo quando a força da “evidência” dos números, das tabelas e gráficos parece marcante – é atribuir-lhes sentido que nunca perdem seu caráter hipotético. Ou seja, a explicação sociológica deve funcionar como “costura” produtora de inteligibilidade (Bourdieu, 1963, p. 10). Frente a esta nova configuração, a “costura” exige – pelo menos – três cuidados.

O primeiro cuidado diz respeito aos sentidos das palavras “ateu”, “agnóstico” e da expressão “não ter religião”. Nada nos assegura que seus usos sejam os mesmos nem em termos de passado e presente, nem mesmo entre os jovens hoje entrevistados. Isto é, as autoclassificações dos jovens de hoje têm de ser pensadas em suas inter-relações no interior do campo religioso em transformação. Vejamos algumas respostas também retiradas da pesquisa Perfil da juventude brasileira que podem indicar diferentes apropriações destes termos.

Indagados sobre os valores que seriam mais importantes em uma sociedade ideal, a maioria (56%) dos jovens que afirmaram “ter fé, mas não ter religião” se dispersou entre muitos valores propostos destacando “igualdade de oportunidades” (17%). O “temor a Deus” (13%) e a “religiosidade” (4%) também foram incluídos em suas respostas. Vejamos agora as escolhas dos ateus e agnósticos. Estes concentraram-se sobretudo no “respeito ao meio ambiente” (48%), mas quase 25% deles incorporaram a dimensão espiritual: 14% elegeram “temor a Deus”, outros 14% deles escolheram “religiosidade”. Em resumo, os valores “temor a Deus” e “religiosidade” somaram 17% das respostas daqueles que “acreditam em Deus, mas não têm religião” e 28% nas respostas dos ateus/agnósticos entrevistados.

Já não se fazem ateus como antigamente? E, por outro lado, relacionar as respostas daqueles que “acreditam em Deus, mas não têm religião” com a idéia corrente de que a ausência de fé favorece a possibilidade de crítica social? Afinal, são os jovens que “acreditam em Deus, mas não têm religião” que mais valorizaram a “igualdade de oportunidades”, enquanto este aspecto foi muito pouco valorizado pelos ateus. Nesta mesma linha de questionamento, também chama a atenção a ênfase no “respeito ao meio ambiente” (48%)3 entre os jovens que se declararam ateus. Lembrando o fato de que esta é uma geração que já recebeu como legado a “descoberta da ecologia”, seria interessante saber o que significa este “respeito”. Por um lado, é verdade que o “respeito ao meio ambiente” pode ser uma nova formulação para velhas e várias formas de valorização da natureza. Por exemplo, são conhecidas as relações rituais das religiões afro-brasileiras com a flora, o “respeito ao meio ambiente” pode ser a forma de reinterpretar e potencializar hoje práticas tradicionais. Mas, por outro lado, a ênfase ao respeito à natureza pode indicar também que “ser ateu” nos dias atuais pode não ser incongruente com a chamada “espiritualidade ecológica” e com novas possibilidades de (com)sagração da natureza.

Enfim, no que diz respeito particularmente à fé e às crenças, é preciso desnaturalizar pares de oposição consagrados que polarizam religião e participação política e/ou ciência e religião. Isto é, já hoje nos faltam evidências empíricas para aproximar automaticamente ausência de religião – ateísmo ou agnosticismo – ao progresso da política e da ciência.

O segundo cuidado diz respeito aos trânsitos já feitos e aos momentos de passagens entre religiões. De fato, as pesquisas são fotografias instantâneas da experiência dos jovens entrevistados, mas elas só permitem apreender percursos e processos nas trajetórias dos entrevistados quando se faz mais de uma pergunta sobre o tema religião. Tanto no Censo Demográfico quanto na pesquisa Perfil da juventude brasileira só havia uma pergunta sobre religião. Em outra pesquisa que desenvolvi no Rio de Janeiro, em 2001, intitulada Jovens do Rio4, fizemos outras perguntas sobre religião que permitiram identificar um contraditório tripé que se faz presente na experiência desta geração, a saber: a) forte disposição para mudança de religião; b) ênfase na escolha individual gerando maior disponibilidade para a reafirmação pessoal do pertencimento institucional; c) desenvolvimento de religiosidade sem vínculos institucionais.

Os “sem religião” poderiam, portanto, expressar a terceira possibilidade (item c). Porém, também a primeira possibilidade (item a) favorece a resposta “acredito em Deus, mas não tenho religião”. Isto porque a disposição para mudar de religião cria vários momentos de interregno entre pertencimentos institucionais, isto é, momentos de busca entre os vários desenraizamentos que caracterizam o “espírito de época”.

Na pesquisa Jovens do Rio, chamou a atenção o fato de mais da metade dos entrevistados – caracterizados como classe C – ter declarado já ter mudado de religião. Outro exemplo: na mesma pesquisa, no extrato mais pobre, ali caracterizado como classe D, dois fenômenos se destacaram simultaneamente: quase um terço dos jovens se declararam “sem religião” e mais jovens se declararam evangélicos pentecostais do que católicos praticantes.

O terceiro cuidado diz respeito à necessidade de bem caracterizar as mudanças ocorridas na sociedade brasileira que tornam recorrente o pluralismo religioso intrafamiliar. Os resultados da pesquisa Jovens do Rio evidenciaram que o menor índice de transferência da religião dos pais para os filhos não desemboca necessariamente em secularização da sociedade, pois parte dos jovens que não seguem as religiões de seus pais católicos, buscam outras religiões. Os índices crescentes de evangélicos entre os jovens apontam para esta direção. Em outras palavras, se é evidente que o histórico catolicismo brasileiro perde com a diminuição da transferência intergeracional da religião, também não há garantia da total “transferência intergeracional” do ateísmo ou do agnosticismo. Na pesquisa Jovens do Rio, 50% dos entrevistados que declararam ter pais ateus ou agnósticos declararam ter eles próprios uma religião. A mesma pesquisa revelou ainda que frente à diminuição da influência da família na escolha religião, outras influências se revelam: para os entrevistados na pesquisa Jovens do Rio, a influência da família na escolha da religião pesou apenas para cerca de 50% dos entrevistados, para o restante, a escolha da religião passava por outras justificativas, tais como, “motivos pessoais”, “influência de amigos” e “influência de agentes religiosos”.

Em resumo, partilhando um certo espírito de época, os jovens desta geração estão sendo chamados a fazer suas escolhas em um campo religioso mais plural e competitivo. Os “sem religião” podem ser pensados como expressões locais de um global “espírito da época” no qual se expande o fenômeno de adesão simultânea a sistemas diversos de crenças, combinam-se práticas ocidentais e orientais, não apenas no nível religioso, mas também terapêutico e medicinal. Não podemos esquecer que, no mesmo Censo de 2000, o número de praticantes de religiões orientais cresceu, revelando mais budistas (245 mil) do que adeptos da religião judaica (101 mil). Os seguidores da doutrina do profeta Maomé (Islamismo) correspondem a 18,5 mil brasileiros. O Censo detalha também grupos que não apareciam nas estatísticas, como os praticantes de religiões esotéricas (69,2 mil) e de tradições indígenas (10,7 mil).

Ou seja, estamos vivendo uma inédita conjugação entre “ventos secularizantes” e “espírito de época. Nos anos de 1980, o fim da guerra fria e a descrença na possibilidade de mudanças radicais já haviam produzido mudanças de formas e de conteúdo no caráter dos movimentos sociais contemporâneos. Os anos de 1990 evidenciaram crises de paradigmas que atingiram instituições religiosas e políticas. No que diz respeito ao campo religioso, velhos e novos fundamentalismos passaram a conviver com a emergência de um mundo religioso plural em que cresce a presença de grupos e indivíduos cuja adesão religiosa permite rearranjos provisórios entre crenças e ritos sem fidelidades institucionais.

Em um contexto de para “além das identidades institucionais”, para os jovens de hoje se oferecem igrejas e grupos de várias tradições religiosas. Para eles também existem possibilidades de combinar elementos de diferentes espiritualidades em uma síntese “pessoal e intransferível” e assim se abrem novas possibilidades sincréticas.

Velhos sincretismos e novas combinações?

No momento atual, surge também a possibilidade de, entre os “sem religião”, estarem jovens que se aproximam da umbanda, do candomblé ou do espiritismo.

Ao falar sobre as religiões mediúnicas, sempre se pergunta sobre seu futuro frente à escalada pentecostal. De fato, a olho nu, parecia ser maior o número de umbandistas e candomblecistas que, na última década, vinham assumindo publicamente suas identidades religiosas. Mas, apenas 1,4% de espíritas kardecistas e 0,3% de umbandistas e candomblecistas aparecem no Censo de 2000. Embora a pesquisa Perfil da juventude brasileira tenha chegado a número maiores (2% e 1% respectivamente), a questão do futuro dessas tradições religiosas procede. Como explicar esses pequenos números quando se fala em maior diversidade religiosa no Brasil?

Em primeiro lugar, não há como negar que o crescimento pentecostal disputa “nas bases” com as religiões afro-brasileiras. Não é por acaso, diga-se de passagem, que a neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus elege entidades e orixás como seus adversários mais poderosos. O exorcismo – ali denominado de libertação – pressupõe a crença no poder do inimigo.

Em segundo lugar, é preciso não esquecer que, certamente, muitos jovens entrevistados – como em gerações anteriores – continuam se definindo como católicos, sem deixar de ir a centros espíritas e a terreiros. Este fenômeno, bem conhecido entre nós, revela estratégias de apresentação social frente aos preconceitos e perseguições sofridas pelos adeptos das religiões afro-brasileiras ao longo da história, mas revela também sentimentos de “duplo pertencimento” que fazem com que um pai ou uma mãe de santo possam dizer, sem constrangimento: “sou católica e da umbanda” ou “sou católica e do santo”.

E, em terceiro lugar – para além da onda evangélica – neste momento em que “ser católico” deixou de ser um requisito socialmente obrigatório, pode-se estar em vigor um novo expediente: freqüentadores dos centros espíritas, da umbanda e do candomblé podem estar engrossando as fileiras dos “sem religião”. Esta hipótese está baseada em pesquisas que registram novas combinações entre crenças e práticas mediúnicas com outras vindas do chamado universo “nova era”. Esta mistura pode ser observada tanto em lojas esotéricas que vendem produtos afro-brasileiros, como vice-e-versa.

Quanto aos espíritas kardecistas, deixando de ser socialmente induzidos a se incluir na maioria católica, eles não teriam o menor problema em definir-se como “sem religião”. Afinal, como filhos do racionalismo francês, os espíritas sempre valorizaram o “caráter científico” da doutrina de Alan Kardec.

Enfim, de maneira geral, podemos dizer que as técnicas de comunicação e os avanços da tecnologia de ponta foram incorporados e contribuíram para a chamada globalização do campo religioso. Na televisão, nas lojas de produtos esotéricos, nas feiras, no rádio, já encontraram ofertas de “orientalização” das crenças ocidentais convivendo com uma difusa negação do dualismo cristão.

No mundo globalizado, as crenças circulam, são apropriadas e reapropriadas. Na pesquisa Jovens do Rio buscamos apreender as crenças dos entrevistados de diferentes religiões, dos que “acreditam em Deus mas não têm religião” e também dos agnósticos e ateus. Entre os jovens entrevistados se fizeram presentes afro-brasileiros que crêem tanto em Orixás como no Espírito Santo, assim como jovens evangélicos pentecostais que afirmam acreditar em Orixás. Foram entrevistados católicos que afirmaram acreditar na reencarnação, mas também católicos e espíritas afirmaram suas crenças em orixás e energias esotéricas. E, o que mais interessa neste artigo, os jovens que se autoclassificaram como “sem religião” afirmaram acreditar praticamente em todos os itens do elenco oferecido: “energia”, astrologia, orixás, duendes e gnomos…

Nota final

Os jovens brasileiros, nascidos do final da década de 1970 para cá, já encontraram o mundo mudado. Eles fazem parte de uma geração pós-industrial, pós-guerra fria e pós-descoberta da ecologia. Vivem as tensões do avanço tecnológico, os mistérios do emprego, da violência urbana.

O que isto teria a ver com religião? Não me atrevo a afirmar que “o medo de sobrar”, a insegurança para planejar o futuro profissional e a experiência de vivenciar precocemente a morte de amigos, primos e irmãos resultem, direta e necessariamente, em reforço de valores religiosos, busca de fé ou na valorização da religião como locus de agregação social. Apenas lembro que, para minorias militantes, as instituições religiosas continuam produzindo grupos e espaços para jovens onde são construídos lugares de agregação social, identidades e formam grupos que podem ser contabilizados na composição do cenário da sociedade civil. Fazendo parte destes grupos, motivados por valores e pertencimentos religiosos, jovens têm atuado no espaço público e têm fornecido quadros militantes para sindicatos, associações, movimentos e partidos políticos.

Mas, com o crescimento dos “sem religião”, por que podemos dizer que para esta geração a fé está em alta? Os jovens de hoje já encontram questionada a histórica equação: “brasileiro”=”católico”. O declínio histórico do catolicismo no Brasil – relacionado com o crescimento evangélico e com o aumento daqueles que se declaram “sem religião” – produz mudanças fundamentais nas estratégias de apresentação social. É nesta geração que se generaliza a possibilidade de se declarar “sem religião”, sem abrir mão da fé. “Ser religioso sem religião” significa, sobretudo, um certo consumo de bens religiosos sem as clássicas mediações institucionais como um estado provisório (entre adesões) ou como uma alternativa de vida e de expressão cultural.

Não por acaso, a Bíblia é o maior best seller do nosso tempo. Para ter acesso à Bíblia, os jovens brasileiros de hoje não precisam desconsiderar a autoridade dos padres ou pastores, nem precisam a eles se submeter. A Bíblia pode ser comprada em qualquer esquina e seus versículos são cantados nas letras de rap e aparecem escritos em outdoors no centro das cidades, nos muros das favelas e periferias. Expressando vínculos institucionais ou apenas crenças mais difusas, nos últimos anos, a linguagem religiosa se faz presente em muitas expressões juvenis na área de arte e cultura. Também não é por acaso que o Prêmio Hutus, considerado o mais importante do Hip Hop da América Latina, instituiu a categoria Hip Hop Gospel e também premia composições de “sem religião” que’ – sem peias institucionais – falam de Cristo, de Oxalá e citam salmos bíblicos.

Neste contexto, a religião torna-se um fator de escolha em uma sociedade que enfatiza inúmeras possibilidades de escolhas, mas reduz acessos e oportunidades. Essas informações indicam a necessidade de novas abordagens e técnicas de pesquisa para compreender melhor no que consiste a singular (e internamente diferenciada) experiência religiosa desta geração.

Notas

1 A metodologia, os critérios da amostra e os principais resultados desta pesquisa podem ser encontrados em www.projetojuventude.org.br

2 Na mesma pesquisa – Perfil da juventude brasileira – outros 1% dos jovens entrevistados indicaram igrejas classificadas como neocristãs, tais como Testemunhas de Jeová, Mórmons, Legião da Boa Vontade. Os espíritas e os jovens que se declaram adeptos das religiões afro-brasileiras somaram 3%. Somam 1% os jovens que fizeram referência a outras minorias religiosas como judeus, islâmicos, budistas etc.

3 “Respeito ao meio ambiente” teve destaque também entre evangélicos históricos não pentecostais e adeptos da umbanda e do candomblé (35%), e jovens de outras religiões (21%).

4 Ver Novaes e Mello 2002.

Bibliografia

BOURDIEU, P. et alli. Travail et travailleurs em Algérie. Paris, La Haye, Mouton, 1963.

DECOL, René. “Imigração internacional e mudança religiosa no Brasil”. Comunicação apresentada na Conferência Geral sobre População, Salvador, 2001.

NOVAES, Regina. “Religião e política: sincretismos entre alunos de Ciências Sociais”. Em A dança dos sincretismos. Rio de Janeiro, Comunicações do Iser, n. 45, ano 13, 1994.

_______ . e MELLO, Cecília. Jovens do Rio. Rio de Janeiro, Comunicações do Iser, n. 57, ano 21, 2002.

PACE, Enzo. “Religião e globalização”. Em ORO, A. P. e STEIL, C. A. (orgs.). Religião e Globalização. Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes, 1997.

TAVARES, M. F. e CAMURÇA, Marcelo. “Balanço dos estudos sobre juventude e religião”. Universidade Federal de Juiz de Fora. Artigo inédito, 2004.

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Regina Novaes é antropóloga. Fez mestrado no Museu Nacional, UFRJ e doutorado na USP. É professora da Programa de pós-graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da UFRJ.

É editora da Revista Religião e Sociedade. É autora de Os escolhidos de Deus (Marco Zero) e De corpo e Alma (Graphia). Tem vários artigos publicados sobre as relações entre religião e política, e, nos últimos anos, tem se dedicado ao estudo de expressões culturais juvenis.

* Fotossíntese: Cientistas “Imitam” Deus.

segunda-feira, janeiro 25th, 2010
Em mais uma clara evidência da existência de inteligência embebida nas formas de vida, cientistas criaram folha semi-artificial que imita a fotossíntese e produz hidrogénio limpo.

O Dr. Qixin Guo e seus colegas da Universidade Shanghai Jiao Tong adotaram um enfoque diferente. Eles substituíram alguns componentes da folha de uma anêmona (Anemone vitifolia), mas mantiveram estruturas-chave da planta, alcançando um rendimento na absorção de fótons e na geração de hidrogênio que não havia sido obtido até agoraEm vez de criarem uma folha totalmente artificial, os cientistas optarem por criar uma folha semi-artificial, mantendo estruturas da planta otimizadas pela natureza e de difícil reprodução.

Ou seja, de forma a poderem criar algo remotamente eficiente, eles não só copiaram aquilo que Deus fez, mas durante o processo, eles usaram aquilo que Deus fez.

Imagina que estás presente na altura em que eles anunciam este projecto.- Dr Qixin Guo, foram precisas muitas horas de planeamento e design para criar esta folha?
- Oh, sim, claro. Este projecto custou-nos imensas horas de trabalho, design e planeamento.
- Diga-me uma coisa, Dr: a parte não biológica da planta é o resultado de design, certo?
- Certo.
- Não será lógico inferir-se o mesmo para o original, bem mais complexo e bem mais engenhoso?
- uhhh….talvez..sim..err…acho que não é demais dizer-se isso. *coff* *coff* SEGURANÇA!
Depois da apresentação tu levantas o braço e perguntas:


Nenhuma referência foi feita à teoria da evolução, nem foi explicado como forças não inteligentes podem gerar sistemas como os presentes no aparato da fotossíntese, mas de certo que se perguntássemos ao cientistas envolvidos neste projecto como é que a fotossíntese surgiu, todos eles dariam glória a Darwin e não a Deus.

O ex-ateu Francis Crick, citado pelo professor Phil Johnson, disse uma coisa que deveria fazer os evolucionistas reconsiderarem as suas crenças:

Na sua autobiografia, Crick afirma candidamente que os biólogos tem que se lembrar diariamente que o que eles estudam não foi criado, mas evoluiu; não foi arquitectado, mas evoluiu. Porque é que eles tem que se lembrar disso? Porque, de outro modo, os factos que estão bem à sua frente, e que tentam captar a sua atenção, podem um dia consegui-lo.

Por outras palavras (e parafraseando), o ex-ateu Crick (ele já morreu, e portanto agora já sabe que Deus existe) avisa os seus irmãos na fé para se beliscarem de vez em quando enquanto analisam as formas de vida senão qualquer dia estão no laboratório a dar Glórias a Deus por aquilo que Ele fez.

Pensem um bocado nessa frase.

Quantas vezes por dia é que vocês tem que se lembrar de que vocês não são italianos, ou espanhóis ou Brasileiros? Quantas vezes por dia vocês tem que tomar notas num sítio qualquer de coisas como “não esquecer dar de comer ao crocodilo de estimação”? Nenhuma, certo? E porquê? Porque são coisas que nunca vos vem à mente. Não há situações da vida onde vocês tenham que fazer notas mentais sobre situações e problemas que nunca vos atravessam a mente.

Mas o ex-ateu Crick tem o cuidado de dizer que é preciso manter a cabeça alerta, porque senão ainda vamos pensar que as formas de vida foram criadas. Ele diz isso, porque as formas de vida de facto aparentam terem sido criadas, e como tal, para manter a sanidade mental, eles tem que sufocar o que os seus olhos observam por trás da sua fé evolucionista.

Quão trágico é quando um homem rejeita o que os seus olhos podem ver por causa do ateísmo. Quão trágico é quando homens inteligentes, conhecedores da verdade, programam-se a si mesmos para rejeitar o óbvio e aceitar o ilógico.

Já é tarde demais para Francis Crick, mas se tu és ateu e estás na posição de quem tem que rejeitar as observações de modo a manter o ateísmo intacto, pergunta-te sobre o porquê disso. Se o ateísmo fosse verdade, não haveria razão para suprimir conhecimento, certo?

Conclusão

A criação da planta artificial é sem dúvida um feito notável e louvável, mas mais Notável e bem mais Louvável é o Deus que deu aos seres humanos a capacidade de fazer coisas tão engenhosas.

Para Ele, e só para Ele, seja toda a Glória, Louvor e Adoração,Agora e sempre,Amén.

* Um ateu e o cardeal Ratzinger. Trechos do livro.

terça-feira, janeiro 19th, 2010

Marcelo Coelho, Escritor ateu.

Pode-se discordar muito de Bento 16 –e mesmo detestá-lo. Mas é, sem dúvida, um ótimo papa do ponto de vista intelectual. Mesmo suas encíclicas não padecem demais daquela linguagem cifrada, coberta do gesso das referências canônicas, que é mais ou menos obrigatória em documentos do gênero. Sem dúvida, parte significativa de suas mensagens se dirige a quem não é religioso, em especial aos intelectuais leigos, de forma sofisticada e ao mesmo tempo compreensível, mesmo nos pontos em que a lógica não me parece convincente.

Falei um pouco,  sobre o livro “Deus Existe?”, um diálogo entre um filósofo ateu, Paolo Flores d’ Arcais, e Joseph Ratzinger (quando ainda era cardeal).

Minha intenção, no começo do texto, foi mostrar que o livro nem chega a abordar diretamente a pergunta, tão simples e básica, do título. No final, a pergunta “Deus existe?”, deveria ser substituída por outra: “é possível encontrar fundamento absoluto para os valores do Iluminismo? Ou se trata apenas de valores contingentes, históricos, relativos, como quaisquer outros?”

Ratzinger defende que valores como a tolerância, a dignidade humana e o respeito à Razão só podem ser absolutos se admitirmos a existência de Deus. Paolo Flores d’Arcais se complica nessa hora.

em muitas sociedades primitivas –também eles eram homens!—o canibalismo ritual era considerado um dever ético-religioso… De modo que, se por natureza entendermos o que normalmente se entende, ou seja, todos os que pertencem à espécie Homo sapiens, com certeza não existe nem uma única norma que tenha sido compartilhada sempre por todos os homens.

(…) Se nós estabelecermos a priori que uma parte da humanidade era contra natura e a outra parte –que coincidência, aquela que compartilha nossas normas–, essa era a verdadeira humanidade, é evidente que realizaremos uma operação que todo mundo pode fazer, com seus valores, mas cuja conseqüência é dizer que quem não compartilhou ou compartilha desses valores, não só peca, como também está fora da humanidade: essa é a conseqüência lógica.

(…) Pois bem, e se aqui, presentes [neste teatro], houver pessoas que consideram que –por mais doloroso que seja, e, evidentemente, sem que deva ser utilizado como método contraceptivo qualquer –o aborto não é, porém, um delito? Serão, por isso, pessoas irracionais, anti-humanas?

Ratzinger responde citando uma encíclica de João Paulo 2º.:

“Há coisas sobre as quais uma maioria não pode decidir, porque estão em jogo valores que não estão à disposição de maiorias variáveis; há coisas em que acaba o direito de decidir da maioria, porque se trata do humanismo, do respeito do ser humano como tal”.

Que confusão! Em primeiro lugar, noto certa hipocrisia no argumento de Flores d’Arcais. Para muita gente, o aborto pode trazer dor psicológica, mas em última análise, se for para considerar que estamos retirando do útero apenas um grupo de células indiferenciadas, a rigor se trata de um método anticoncepcional qualquer, e não haveria nada de doloroso, exceto imaginariamente, em sua adoção. Pode ser chocante, e em todo caso não sou mulher, mas essa é a minha atitude, aliás.

Em segundo lugar, é um pouco estranho o veto de João Paulo ao direito de decisão da maioria. A maioria, infelizmente, pode decidir pelo pior; será genocida, assassina e pecadora, mas não há nisso uma conseqüência do “livre arbítrio” que o catolicismo nunca quis negar? Ratzinger prossegue:

Não estou de acordo com o argumento “histórico”, que diz que para todos os valores existe, na história, também uma posição contrária (…) esse fato estatístico demonstra o problema da história humana e da falibilidade humana.

Paolo Flores d’Arcais responde, algumas páginas depois.

Eu compartilho inteiramente da ideia de que a maioria não é suficiente para decidir qualquer coisa (…) Não é coincidência que as democracias modernas estejam fundamentadas em Constituições que estabelecem limites a qualquer maioria para decidir o que quiser.

O mediador do debate, Gad Lerner, intervém:

Por exemplo, se uma maioria quisesse restabelecer a pena de morte na Itália, considera que isso seria lícito?

Flores d’Arcais responde:

Nossa Constituição diz que não; naturalmente, seria necessário primeiro mudar a Constituição, os mecanismos de reforma da Constituição e depois… no estado atual, a norma fundamental de nossa convivência…

O debate continua, mas não deixa de ser curioso ver um ateu se segurando, mal e mal, no texto sagrado da Constituição italiana.

Marcelo Coelho, Escritor ateu.

* Cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo Paolo Flores d’Arcais em um debate histórico: Deus Existe?

segunda-feira, janeiro 18th, 2010

Por P. Rodrigo Polanco
Secretário Acadêmico da Faculdade de Teologia da PUC – Chile

O livro  acima e que apresentamos  aqui é fundamentalmente a transcrição literal de um debate sobre a pergunta que dá título a esta obra: Deus existe?, cujos protagonistas foram o então Cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo Paolo Flores d’Arcais.

O diálogo ocorreu no teatro Quirino, em Roma, em 21 de fevereiro de 2000, dentro do contexto do Jubileu convocado por João Paulo II pela ocasião do segundo milênio da encarnação do Verbo de Deus.

O debate, como era de se esperar, suscitou muito interesse antes mesmo de sua realização: o teatro estava repleto de público e ficaram mais de duas mil pessoas do lado de fora que conseguiram acompanhar o diálogo com a ajuda de um amplificador improvisado.

O motivo do interesse? Em primeiro lugar os debatedores: o Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Conhecido por sua competência em temas filosóficos e teológicos e, particularmente, porque um de seus maiores interesses foi precisamente poder penetrar e compreender melhor a cultura atual e suas dificuldades em aceitar a mensagem cristã; e, mais especificamente, são conhecidos seus numerosos trabalhos acerca da possibilidade e necessidade da fé em um Deus pessoal que possa fundamentar a cultura e a ética no mundo contemporâneo. Hoje é nosso Santo Padre Bento XVI, cujo magistério se viu claramente influenciado por estas preocupações. Esperavam-se, então, de suas reflexões bons aportes ao debate atual.

O outro debatedor era Paolo Flores d’Arcais, filósofo e jornalista, nascido em Udine, Itália, em 1944. Ele se reconhece como ateu e é, na atualidade, uma referência intelectual no âmbito da cultura européia contemporânea. É, além disso, fundador e diretor da revista “Micromega”, que publicou este diálogo (foi publicado também na França pela editora Payot et Rivage e, na Alemanha, pela Wagenbach Verlag). Flores d’Arcais é um decisivo impulsionador dos valores cívicos da democracia e da igualdade. Seu ateísmo significa, para ele, “simplesmente considerar que tudo se passa aqui, em nossa existência, finita e incerta. E, portanto, são importantes os valores que se elegem e a própria conduta” (pg 30). Pode-se perceber, de imediato, que entre esses dois expoentes há pontos em comum apesar de uma diferença fundamental, o que augurava um debate que não decepcionaria.

O diálogo – e esta é a segunda razão do interesse do livro – que foi muito bem moderado por Gard Lerner (um jornalista italiano judeu), se desenvolveu de maneira intensa, muito honesta, às vezes de forma incisiva, mas sempre com respeito à opinião do outro e em sincera busca pela verdade. Ao longo do debate foram saindo os clássicos argumentos contra a existência de Deus e que foram permitindo ao Cardeal Ratzinger colocar com muita claridade, não somente a realidade da existência de Deus, mas, também, o porquê é hoje necessário e, sobretudo, racional (isto é, adequado a uma razão moderna) crer em Deus.

O diálogo – transcrito integralmente no livro – é aberto, fundamentalmente, com uma colocação de Flores d’Arcais que se tornará o fio condutor do debate, pois é justamente o núcleo da discussão sobre a existência de Deus.

Afirma Flores d’Arcais que a fé deve aceitar – seguindo a São Paulo em seu “escândalo para a razão” e àquilo que se atribui a Tertuliano, “credo ut absurdum” (creio porque é absurdo (o que creio)) – que é digna de respeito, tem direito a uma cidadania, mas não é exigível nem pode ter a pretensão de ser aceita pela razão, já que “suas verdades” não podem ser demonstradas pela razão e que, inclusive, isso não foi pretensão do cristianismo primitivo que se considerava uma religião à margem da razão.

Esta é uma afirmação que talvez muitos cristãos, à primeira vista, subscreveriam.

Pois bem, a partir dessa mesma observação, o Cardeal Ratzinger começa sua exposição demonstrando, com dados históricos, exatamente o contrário. O cristianismo desde suas origens considerou-se como uma religião e uma fé que certamente não era absurda e que, além disso, devia dar “razão de sua esperança”. A primeira carta de São Pedro diz precisamente “estais sempre dispostos a todos os que vos pedem dar razão de vossa esperança” (1Pe 3,15). Os cristãos devem, então, estar em condições de demonstrar o sentido profundamente racional de suas convicções. De fato, o cristianismo primitivo triunfou sobre as religiões pagãs de seu entorno justamente por sua reivindicação de racionalidade. Apresentou-se, inclusive, como filosofia, isto é, como resposta à busca da verdade, do ‘logos’ do mundo.

Já no ano 150, Justino, filósofo e mártir cristão, fundava em Roma uma escola de formação cristã, aonde se podia aprender a refletir a fé entendida como filosofia verdadeira. Sua conversão, longe de afastá-lo da filosofia, o fez verdadeiramente filósofo. Certamente, ao entender o cristianismo como a filosofia perfeita, a filosofia que leva à verdade, “não se entendia, então, como uma disciplina acadêmica puramente teórica, mas também, e antes de tudo, desde uma perspectiva prática, como a arte de viver e morrer retamente à qual só se pode chegar à luz da verdade”. Além disso, a pergunta pela verdade, pelo ‘logos’ das coisas, era a pergunta da filosofia e não das religiões pagãs da época.

A convicção básica da Antiguidade – e creio que também nossa – era que no mundo existe uma racionalidade sobre a irracionalidade – o mundo, a vida, cada um de nós mesmos não somos um absurdo – e, por isso, uma religião, qualquer que seja, mostrar-se-á adequada e verdadeira na medida em que se apresente como “vera religio”, isto é, como verdade universal e fundante. E dessa verdade se deduz também a natureza do homem e, portanto, seu dever moral. De fato, “o que a lei supõe realmente, as exigências que o Deus único coloca para a vida do homem e que a fé cristã traz à luz, coincide com o que o homem, todo homem, leva escrito no coração, de maneira que o considera bom quando aparece diante dele. Coincide com o que é ‘bom por natureza’ (Rom 2,14)” (pág. 16-17).

Na base dos direitos humanos universais – nascidos em contexto cristão e desde o cristianismo – está precisamente a convicção de uma verdade comum – o homem – e um fundamento último: Deus. Essa foi sempre a pretensão do cristianismo, que nasce não tão somente da Revelação, mas também da racionalidade das coisas que existem.

E o debate continua se desenvolvendo, sempre em forma de diálogo e com oportunas reflexões de Paolo Flores d’Arcais em que apresenta suas considerações, sejam factuais ou filosóficos, para não aceitar as verdades e a pretensão do cristianismo.

Por exemplo: sendo Deus o “Totalmente Outro”, pode alguém pretender realmente conhece-Lo?  Não são todas as religiões aproximações igualmente válidas, já que não se pode nem sequer se aproximar por analogia àquilo que Deus é? Porque é necessário que haja “um” sentido para a vida? Não bastaria que cada um encontrasse um sentido particular para sua vida, ainda que seja absurdo para outro? Por que deve haver um único sentido?

Neste ponto do diálogo aparece um elemento crucial na exposição de Flores d’Arcais: se o cristianismo – diz ele – se visse a si mesmo como uma religião que é escândalo para a razão (ou seja, não racional), não haveria problemas, porque uma fé assim somente pediria à sociedade que a respeitasse e não tentaria se impor na sociedade, isto é, não seria missionária. O problema para Flores é se – ao contrário – a “fé católica pretende ser o sumário e o cume da razão, ser o sumário e o cume de tudo aquilo que é mais característico do homem”, ou em palavras do Concílio Vaticano II se “o mistério do homem somente se esclarece no mistério do Verbo Encarnado” (GS 22), então é essencial (ao cristianismo) seu interesse em propagar esta “Boa Nova” (já que o bem é difusivo por si próprio), mas, ao mesmo tempo, é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor.

O Cardeal Ratzinger está, evidentemente, totalmente de acordo em que é preciso evitar o perigo de tentar se impor. A fé apela sempre à consciência e à razão, o ato de fé é necessariamente um ato que nasce da liberdade e de haver reconhecido a Deus que se revela e oferece a salvação, mas sempre é oferecimento livre.

Mas o motivo da missão e da evangelização, isto é, este elemento essencial da fé católica, “nasce do fato que nós, os crentes, cremos que temos algo que dizer ao mundo, a todos, que a questão de Deus não é uma questão privada…, pelo contrário, estamos convencidos de que o homem necessita conhecer a Deus, estamos convencidos de que em Jesus apareceu a verdade e a verdade não é propriedade privada de alguém, mas que tem de ser compartilhada, tem de ser conhecida”. Novamente o tema da verdade e da razão.

À continuação o tema se desenvolve em diversos matizes e se chega assim a um novo passo na reflexão de nosso atual Santo Padre. Havia dito que a fé católica é racional e que, como verdade, é necessário que todos a conheçam; passa, agora, a discutir com Flores a “novidade cristã de Deus”.

A Bíblia nos apresenta um Deus que está além do Deus da filosofia, isto é, um Deus pessoal que é amor. O mundo vem da razão – logos – mas esta razão é pessoa, é amor – isto é o que o característico e próprio do cristianismo. Isso também não é absurdo, mas supera o alcance da razão por si mesma. Com esta afirmação – segundo o Cardeal Ratzinger quando ainda era um professor universitário – aparece o conceito de criação, tão próprio do cristianismo. O mundo é positivo, é bom e é fruto do amor. É, então, bom viver nele. Portanto, o mundo tem uma direção e medida porque é fruto do Criador que se expressa nele. E, se é fruto do amor, está transpassado pelo amor e a liberdade de acolher esse mesmo amor (cf. J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo). E de onde concluímos isso? Simplesmente de que Deus é como se manifesta. Deus não pode se manifestar como não é. Em termos filosóficos, estamos falando de ‘analogia entis’ e, mais em particular, da ‘analogia amoris’.

O que é a fé, então?  Não é simplesmente um saber, mas uma forma de se situar frente ao mundo, frente a toda a realidade, é a orientação de toda a vida humana, o que é somente possível em virtude de um sentido que a sustente. E esse sentido “não se pode construir, somente se pode receber” (ibid). Isso é a fé: aceitar o dom da revelação que fundamenta gratuitamente nossa vida, é o compreender a existência como resposta ao Logos que tudo sustenta. É aceitá-Lo e n’Ele confiar. E isso é totalmente contrário ao “irracional”. Efetivamente, é aproximar-se ao fundamento, ao sentido da vida e esse fundamento não pode ser – para o homem – outra coisa que não a verdade. Um sentido que não fosse verdade seria um sem-sentido. A fé, no fundo, nos faz compreender autenticamente o mundo, isto é, entendê-lo e fazê-lo próprio.

Mas esse compreender – e isso é essencial para o conceito de fé – é fundamentalmente um encontro com Deus-amor, é uma relação pessoal, é uma aceitação livre de Deus como Deus, é deixar a Deus ser Deus. A fé sustenta não somente que Deus é Logos, mas que, além disso, esse Logos, essa Razão, é liberdade, é amor criador e pessoa. E, portanto, “o supremo não é o mais geral, mas o particular; por isso a fé cristã é, antes de tudo, opção pelo homem como ser irredutível que aponta à infinitude” (ibid). Deus não só conhece, mas que também ama, é criador porque é amor. É um Deus para o qual nada é demasiadamente pequeno e, portanto, um Deus que entra em relação com todo ser humano de modo pessoal.

Neste ponto as posições se aproximam. Para Flores d’Arcais, o ser humano, ainda na opção “desde o desencanto” – que é a opção do pensamento ateu (em contraposição à opção ‘desde a fé’) (*) – deve igualmente escolher entre uma vida com a primazia do EU – solitário – ou do TU – do encontro que soma – para orientar toda sua vida, ainda que seja sua efêmera vida. E aí, no amor ao próximo, há a possibilidade do encontro entre crentes e ateus. E isso é o que permite, desde a Antiguidade, a convivência pacífica na mesma ‘polis’ entre os que pensam diferente.

O diálogo não pode seguir além de duas horas e meia que já dura, mesmo ainda tendo deixado muitos temas e perguntas sem tratamento e, mais ainda, havendo deixado muitas questões colocadas no meio do debate que suscitaram novas perguntas e dão incentivos para pensar e aprofundar nas próprias convicções. Com que gosto haveríamos seguido escutando – ou lendo – este diálogo elevado! De qualquer maneira, o livro ainda nos agrega dois textos complementares ao debate e em torno dos mesmos temas. Um, do Cardeal Ratzinger, intitulado “A pretensão da verdade colocada em dúvida”. E outro, de Paolo Flores d’Arcais, chamado “Ateísmo e verdade”. Como se pode apreciar a partir destes títulos, o tema Deus é, no fundo, um tema sobre a verdade e, finalmente, um tema religioso, mas, ao mesmo tempo, metafísico. E religioso porque metafísico.

Em síntese, um interessante livro sobre um tema extremamente atual que mostra, uma vez mais, o amor à verdade de nosso Santo Padre Bento XVI, sua confiança no diálogo com o outro que pensa diferente e, também, seu respeito pelas opiniões contrárias; assim como sua amplíssima cultura e profundidade para tratar temas atuais. Por outro lado, Paolo Flores d’Arcais deixa uma grata impressão de homem inteligente, aberto e que advoga, de maneira muito aguda, as características e perguntas do ateísmo contemporâneo. Um livro que ajuda a pensar e a pensar também a própria fé, porque “todo o que crê, pensa; pensa crendo e crê pensando (…). Porque se o que se crê não se pensa, a fé é nula” (Sto Agostinho, “De praedestinatione sanctorum” 2, 5 em ‘Fides et Ratio’ 79).

(*) Para Flores d’Arcais a postura atéia considera que “tudo se joga aqui, em nossa existência, finita e incerta”, isto é, ser ateu consiste em ser o homem do desencanto e do finito. (N. T.)

Texto original: Humanitas

* Tragédia no Haiti. Ateus excitados e justificados.Será?

segunda-feira, janeiro 18th, 2010

Deus não existe?

Deus não existe?

Hélio Schwartsman ,articulista da Folha de São Paulo,não perdeu a oportunidade de pregar seu ateísmo utilizando como pano de fundo a tragédia no Haiti. Ele sugere que, pelo fato de o terremoto ter ceifado vidas inocentes, incluindo a de crentes, Deus está ausente.

No texto “Deus e a terra”, ele afirma que “é justamente para combater a ideia de que o acaso (e com ele a ausência de propósito) está no comando que, suspeito, criamos a noção de Deus”.

O fato é que tragédias existem desde que o pecado entrou no mundo. Na verdade, o pecado é a verdadeira tragédia – o resto é consequência.

É verdade que inocentes morreram no Haiti, assim como morrem inocentes todos os dias, desde que nossos primeiros pais saíram pelos portões do Éden. É verdade que a boa doutora Zilda Arns morreu numa igreja, mas significa isso que Deus abandonou Sua filha em pleno serviço em prol dos desvalidos?

O apóstolo Paulo foi um dos gigantes da fé. Operou milagres e levou a mensagem de esperança a lugares distantes, sofrendo perseguição, espancamento e prisão em nome de Jesus. Depois de anos de trabalho e dedicação, Deus o enviou para Roma, a fim de que pregasse o evangelho na capital do Império. E foi lá que Paulo morreu decapitado. Deus não poderia tê-lo poupado da morte? Por que o enviou justamente para a cidade em que sua vida seria ceifada? O fato é que Deus não vê a morte como o ser humano a vê – ou melhor, como o ser humano sem Deus a vê.

Por isso Jó pôde declarar: “Embora Ele me mate, ainda assim esperarei nEle” (Jó 13:15, NVI). É esse o tipo de confiança que têm aqueles que convivem com o Criador e sabem que Ele existe, não porque os livra de todos os males terrestres, mas porque Se revela claramente para eles, fala com eles; é tão real quanto o amor que se sente, mas não pode ser visto nem tocado.

Segundo meu amigo de Portugal Felipe Reis, “se, segundo esse tipo de raciocínio [do Schwartsman], as tragédias demonstram que não existe Deus, o fato de milhares de pessoas desinteressadas se disponibilizarem para ajudar ao seu próximo com amor não deveria demonstrar que Ele existe?” E outro amigo, o Marco Antonio Dourado, de Curitiba, enviou um e-mail para o Schwartsman. Você pode lê-lo aqui:

“Bom dia, caro Hélio. Como de hábito, li sua coluna na Pensata de ontem, ‘Deus e a terra’, e me ocorreram algumas considerações que gostaria de compartilhar contigo.

“No tristemente célebre debate entre Rousseau e Voltaire acerca da existência de Deus, decorrente do problema religioso resultado do grande terremoto de Lisboa em 1755, devo adiantar que não lhe reconheço a validade. Rousseau, o castelão suiço cujo amor à humanidade e temor a Deus era demonstrado na contumácia com que abandonava em orfanatos os bastardos que trazia ao mundo, representa tão bem o teísmo quanto Hugo Chavez representa a democracia. Já Voltaire, coitado, conseguiu traduzir à perfeição o Iluminismo, do qual foi prócer: morreu suplicando por luz; eis aí o retrato mais bem acabado do chamado ‘Século das Luzes’.

“Essa dupla de fósseis insepultos costuma ser trazida à baila, geralmente por ateus, em épocas de grande comoção mundial em face de catástrofes naturais. É do jogo. Conforta-me que nessa hora os cristãos, pelo menos os cristãos de verdade, abandonam tais diatribes e partem em auxílio aos desgraçados (o que, aliás, muitos ateus, com a graça de Deus, também fazem). É por essas que neste momento nem me vem à mente o bestialógico otimista ‘Carta a respeito da Providência’,* de Jean-Jacques. Penso apenas em pessoas como Zilda Arns. O Amor, matéria-prima de Deus, não é uma emoção ou mesmo um sentimento; é um modo de ser. Dona Zilda, em sua vida e em sua morte, é prova inconteste dessa proposição. Sua estatura espiritual e moral recolhe os arrazoados oportunistas e estéreis à sua verdadeira dimensão: a irrelevância.

“Mas será que a discussão em si pertine? Certo que sim, mas não agora. Melhor em outra ocasião. Hoje, diante do horror em Haiti, devemos mais é externar por meio de atos aquilo de que, de fato, somos feitos. Alhures, de volta à normalidade possível, poderemos reencetar a questão filosófica. Nesse caso, devo adiantar que se nos for dado voz, que ao menos possamos escalar o nosso time – coisa que os ateus, tão prestimosos, tão desapegados, adoram fazer por nós. Como Rousseau não merece sequer ser gandula da partida, eu poderia evocar Heinrich Heine e seu comovente ato de fé renegando o virulento ateísmo que até então promovera. Melhor, no entanto, é apelar a Antony Flew, um dos mais cultuados e atuantes filósofos ateus do século 20. Compreendo que seu livro Um Ateu Garante: Deus Existe tenha feito com que os ateus militantes deixassem de lhe reconhecer a existência física, intelectual e moral. Isso não nos surpreende a nós, cristãos: ‘Mas a sabedoria é justificada por TODOS os seus filhos’ (Lucas 7:35).

“Não sei quem os ateus elegeriam para contestá-lo. Richard Dawkins, aquele gigolô da dissonância cognitiva alheia? Não, meus irmãos ateus! Por tudo o que é sagrado, não! Não me façam sentir por vocês a vergonha que são incapazes de sentir por si mesmos.

“Por falar em dissonância cognitiva, uma excelente recomendação de leitura: A Prova Evidente, de Gershon Robinson e Mordechai Steinman. Leitura rápida, simples e deliciosa, que analisa esse fenômeno. Resumindo:

“Dissonância cognitiva é um artifício psíquico subliminar destinado a proteger o indivíduo de informações que lhe tragam desconforto mental. Ela costuma ocorrer com qualquer um de nós, e pode nos levar a ignorar teses e teorias complicadas, que nos façam sentir ‘burrinhos’. Procura também evitar a ruína daqueles nossos imensos e arraigados investimentos intelectuais, ruína que depauperaria nosso vasto patrimônio de certezas acalentadas. Os mecanismos da dissonância cognitiva podem guindar a informação indesejada à áreas da memória pouco acessadas, uma espécie de aterro sanitário da nossa mente. Podem também provocar uma reação física visivelmente manifesta: impaciência, irritação, cinismo, fleuma afetada, antipatia pela fonte da informação e até, em casos extremos, levar à distimia crônica.

“Penso que antes de qualquer debate, especialmente os de natureza ‘Deus existe?’, cada pessoa, ateia ou teísta, deveria dar uma boa lida na obra desses dois autores judeus e submeter-se a um exame de consciência. Seria como um purgante mental para nos livrar de preconceitos até então inegociáveis. Só assim o diálogo prosperaria em direção à luz que faltou a François-Marie Arouet em sua última hora.”

(*) Sobre o tal otimismo aventado por Rousseau, nunca, jamais deixarei de citar o escritor católico George Bernanos, que formulou um aforismo feito sob medida para, entre muitos, o autor de O Contrato Social: “O otimismo é uma falsa esperança para uso dos frouxos e imbecis. A verdadeira esperança é uma qualidade, uma determinação heróica da alma. E a mais elevada forma de esperança é o desespero superado.”

Michelson Borges

* Crer em Deus em tempos de tragédia.

segunda-feira, janeiro 18th, 2010

Eu estava no saguão do aeroporto quando um rapaz se aproximou. Suas palavras foram poucas. “Só os limitados intelectualmente acreditam em Deus!” Disse e saiu.

Eu fiquei engasgado com sua afronta. Num primeiro momento o meu desejo era dizer-lhe uns desaforos, mas não tive tempo.
Sua frase me perseguiu ao longo de todo o dia, mas aos poucos ela foi perdendo o seu poder de agressão.

A frase do rapaz me fez lembrar a regra de ouro da Hermenêutica, a ciência da interpretação. “Todo texto pede um contexto.” Eu não tive tempo para compreender o contexto da frase. Não sei qual foi a experiência religiosa que fomentou aquela compreensão. É bem provável que o rapaz tenha sido vítima de um discurso religioso opressor, pouco sensato. Esse discurso sempre fez parte das culturas humanas. Ensina uma crença que passa longe do bom senso. Interpreta o livro santo ao pé da letra, fundamenta em textos descontextualizados, e justifica com parcas teologias as absurdas caricaturas divinas que foram elevadas aos altares.

O insulto do rapaz me fez pensar na forma como creio em Deus.

Fez-me recordar meu tempo de magistério, quando em sala de aula eu vivia o desafio de propor que a religião só é possível quando os joelhos no chão sustentam uma cabeça que não tem medo de pensar. A fé em Deus não é afronta à inteligência. Não é preciso abrir mão da capacidade intelectiva para admitir a transcendência. E sobre isso gostaria de ter falado ao jovem moço.

Crer em Deus é mais trabalhoso do que não crer. Como tão bem sugeria o escritor mineiro, Guimarães Rosa, a fé é o discurso da terceira margem. Requer abstrações muito elaboradas. É através delas que interpretamos o mundo. Deus não nos aliena, mas nos contextualiza. É simples. Eu acredito na proteção divina, mas olho para os dois lados da rua antes de atravessá-la. É uma questão de bom senso. Não posso crer que Deus venha fazer por mim aquilo que só a mim compete. Não sei quem foi que disse, mas há uma frase bastante sugestiva que gosto muito “Nós só temos o direito de esperar pelo impossível depois de termos feito tudo o que nos foi possível.”

É verdade. Crer em Deus dessa forma é razoável. Não é nenhuma afronta à inteligência humana admitir essa crença. A maturidade espiritual nos sugere que a ação humana legitima no tempo a ação de Deus. Só assim podemos compreender o cuidado divino. O bem que Deus quer para o mundo passa o tempo todo pelas escolhas que fazemos. Se eu me descuido das questões do meu tempo é bem provável que Deus perca a oportunidade de agir no espaço onde estou situado. O ser humano é local teológico privilegiado da ação divina.

É por isso que a fé encarnada, vivida e experimentada sem alienações só pode fazer bem à sociedade. O mundo seria bem melhor se os religiosos do nosso tempo pregassem um pouco mais essa parceria: humano-divina. Deus nos concedendo os dons necessários, e nós realizando a tarefa nossa de cada dia. Talvez assim a gente conseguisse diminuir as tragédias no mundo.

Padre Fábio de Melo

Formando personalidades cristãs maduras à luz da Verdade,a serviço da Igreja e dos homens de boa vontade.
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