* Deus, onde estás?
sábado, março 13th, 2010
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Por Antonio Caeiro, Agência Lusa
Menos de 40 anos depois de ter sido considerado um pensador “reacionário”, um dos maiores sábios da China Antiga, Confúcio (551-478 A.C.), está a ser de novo valorizado na China e reconhecido como “um mestre”.
A “sociedade harmoniosa” preconizada pela atual liderança – muito diferente da “sociedade sem classes” defendida durante a Revolução Cultural (1966.76) – é vista mesmo como uma espécie de reabilitação oficial do confucionismo.
O culto da educação e do serviço público, o amor filial e o respeito pelos mais velhos, a cortesia e a moderação são algumas das “virtudes” associadas a Confúcio.
“O partido comunista precisa, realmente, do confucionismo. As pessoas não podem viver sem crenças nem religião”, disse à agência Lusa Kong Weizhong, representante da 78ª geração de descendentes de Kong Zi (Confúcio em chinês), nascido em 1963.
Mas nem sempre foi assim: a infância de Kong Weizhong foi “um pesadelo”.
O pai era um parente próximo de Kong Decheng, o decano da 77ª geração de descendentes de Confúcio, radicado em Taiwan depois de o Partido Comunista tomar o poder no continente, em 1949. A mãe era uma chinesa ultramarina, o que para as autoridades da época significava espia.
Com apenas cinco anos, Kong Weizhong e a mãe foram “enviados para o campo, sem sapatos, nem comida”.
Regressaram a Pequim em 1971, mas pouco depois foi lançada uma nova “campanha política de massas” e, desta vez, contra o próprio Confúcio.
“Foi uma tragédia”, diz Kong Weizhong, um empresário do sector farmacêutico que emigrou para Hong Kong em 1980, e que se formou depois no Reino Unido. “Felizmente, a China está muito mais forte e a mentalidade das pessoas mudou muito”,
“Quando um partido está na oposição, é contra Confúcio: Quando está no poder, precisa de Confúcio”, acrescenta. “A harmonia é o contrário da revolução”.
Para Kong Weizhong, “Confúcio não é conservador”: “A essência do pensamento de Confúcio é o amor e a tolerância (…) Confúcio ensina-nos a ser pessoas decentes”.
Aquele descendente de Confúcio contesta também que o confucionismo seja uma religião: “Na religião há Deus e Confúcio nunca falava em Deus. Respeitava o taoismo e o budismo, mas não era religioso”.
Ele próprio não se considera religioso – “não sou a 100 por cento”, diz – mas congratula-se com o reaparecimento da religião na China: “A religião é como uma canja de galinha. Adapta-nos ao mundo que nos rodeia e melhora-nos a disposição”.
O taoismo, doutrina associada a Lao Zi, outro pensador do século VI A.C., “também é mais uma filosofia do que uma religião” e o budismo, que é talvez a religião mais popular na China, “vem da Índia”.
“Se o governo quer mesmo que as pessoas tenham crenças e valores, tem de promover o confucionismo e a cultura tradicional chinesa”, afirma Kong Weizhong.
É esse também o objectivo da sua fundação, a Nishan Education Fund”, sedeada em Qufu – a terra natal de Confúcio – na província de Shandong, costa norte da China.
Carlos André Moreira
De uns tempos pra cá, o mercado editorial brasileiro descobriu que Deus é o caminho… das vendas.
Em um filão editorial como a autoajuda, conhecida pela capacidade de se subdividir com facilidade em outros nichos, Deus já pode ser apontado como o mais recente. Dezenas de livros de autoajuda apostam na figura religiosa de Deus como a chave da felicidade, como já o foram o pensamento positivo, as técnicas de programação da neurolinguística e o próprio estudo da filosofia, moda ainda em voga.
Ainda que o cristão argumente que para ele Deus sempre foi a salvação, agora ele também parece ser a chave para o sucesso nos negócios, na vida, nos relacionamentos. Como uma grife ou um símbolo de status.
Deus não foi parar nas prateleiras só agora. A editora Sextante, a mesma de O Código da Vinci e com uma linha editorial dedicada às obras de autoajuda, lançou nos últimos anos uma leva de publicações tais como Deus Cura a Dor e Jesus, o Maior Psicólogo que já Existiu, de Mark Baker; A Semente de Deus, de César Romão e Jesus, o Maior Líder que já Existiu, de Laurie Beth Jones. O filão gera até disputas de passe. A série Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch, que era destaque do catálogo da Sextante, passou no ano passado para a Agir Equilíbrio/Agir Negócios, selo exclusivamente voltado para a literatura da autoajuda espiritual e financeira lançados pela Agir, do Grupo Ediouro, que aposta no crescimento do mercado para esse gênero.
Obras lançadas por outras editoras apresentam Deus como a chave e o caminho para qualquer coisa, em títulos que provocam de estranheza a riso, como E Deus Criou a Empresa Familiar (Integrare), Como os Pinguins Me Ajudaram a Encontrar Deus (Thomas Nelson Brasil) e A Lista de Tarefas de Deus (Via Lettera). Deus é o tema da moda até mesmo em obras de ficção best-seller que pegam carona na fórmula de O Código Da Vinci, como os recentes A Fórmula de Deus, do português José Rodrigues Santos (Record), O Mapa do Criador, do espanhol Emílio Calderón (Companhia das Letras), e o mais bem-sucedido comercialmente dos três: A Cabana, de William P. Young (Sextante), todos tornando o mistério da existência ou não de Deus elemento fundamental de uma trama de suspense.
Não que livros sobre Deus não tenham sido a constante na história humana: boa parte do melhores esforços do pensamento humano foi dedicada à interrogação sobre ele. O que é novo é essa tentativa de mesclar à sua figura os elementos característicos da literatura de autoajuda. Embora Deus e Cristo sejam as variantes mais presentes – o que até seria de se esperar em um país declaradamente cristão como o Brasil -, não faltam obras que, em vez do pensamento positivo, apresentam como o grande segredo da vida palavras e ensinamentos de uma figura que representa sabedoria e/ou poderes superiores – Confúcio ou Buda também entram na mistura, cujos antecedentes podem ser encontrados já nas obras do guru indiano Deepak Chopra, nos anos 1990. É como se marcassem um encontro nas gôndolas de livrarias e supermercados duas gerações de confortos para tempos de crise e insegurança: a fé, antiga como o homem, e a autoajuda, produto acabado da sociedade capitalista moderna. Ambos com a mesma função: suprir a natural necessidade do ser humano de ter algo em que acreditar.
A autoajuda é um produto do capitalismo – e, em sua origem, traz em si as forças fundamentais do sistema, conforme preconizado por Max Weber: a ética protestante do trabalho e o impulso humano de melhorar de vida. Não é à toa, portanto, que esse tipo de literatura tenha surgido e ganhado força no maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos. Os principais percursores já apontados para o gênero, como Autoconfiança, de Ralph Waldo Emerson, no século 19, ou a biografia de Benjamin Franklin, no século 18, surgiram nos Estados Unidos, bem como as duas obras que definiram o gênero, nos anos 1930: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, e Pense e Enriqueça, de Napoleon Hill, ambas surgidas, não por acaso, na década de pobreza e dificuldades que se seguiu ao desastre financeiro da bolsa de Nova York, em 1929.
A autoajuda, portanto, sempre se apresentou como resposta aos desafios de seu tempo, usando as ferramentas à disposição. Numa época em que o capitalismo estava em dificuldades, após 1929, com desemprego recorde e filas de miseráveis, a ideia era ensinar a chave de se “vender” melhor do que qualquer outro. Nos anos 50, começam a pulular cursos e livros voltados para o sucesso profissional, o que influenciaria positivamente a vida pessoal. É nessa época que surge um dos precursores da atual literatura de autoajuda religiosa que hoje é presença desde a livraria até o supermercado, do aeroporto à revistaria da rodoviárias. Escrito por um pastor metodista em 1952, O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale, usava as escrituras sagradas como mote para a apresentação de uma receita de recompensa à fé de quem trabalhava em busca da prosperidade – algo arraigado até hoje na cultura americana.
Nos anos 1980, 1990, a autoajuda se apropriou das descobertas recentes da neurolinguística para vender a ideia de que era possível programar a mente e a vida em busca do sucesso – como nas obras do brasileiro Lair Ribeiro e do (acredite) norte-americano, apesar do nome, Jose Silva. A moda atual é a física quântica, tema da salada delirante de O Segredo.
A literatura de autoajuda é escrita dentro de um padrão bem definido, apesar das subdivisões temáticas que comporta (livros sobre sucesso no emprego, relacionamento interpessoal e por aí vai). O texto é simples, sem dubiedades, os conselhos são edificantes, a postura é sempre positiva, alto-astral e de alguma forma oferece consolo ao leitor, a esperança bastante ingênua de que há um roteiro de passos, atitudes, disposições mentais que, se executados, trarão o sucesso, a felicidade, a ausência de dor e a sabedoria como resultado quase matemático. Com essa estrutura, é óbvio que, apesar de dialogar com a ciência e a mentalidade de seu tempo, toda literatura de autoajuda oferece uma visão simplificadora de seu tema – mesmo se esse tema for Deus.
O Deus apresentado nesses livros, amparado em trechos criteriosamente selecionados, seria irreconhecível se comparado com o Deus bíblico, que, principalmente no Velho Testamento, é também uma divindade irascível e destruidora: “O grande motivo de orgulho do monoteísmo é que a realidade definitiva vive em sua casa e em nenhum outro lugar. A tristeza do monoteísmo é que tudo tenha de ser acomodado nessa casa única (…).Na antiga Mesopotâmia havia dois deuses, um deus criador e um deus destruidor, que lutavam um contra o outro. No antigo Israel, ao contrário, só havia um deus, que tanto criava como destruía“, escreve o crítico Jack Miles no estudo Deus: uma Biografia.
A autoajuda religiosa recente, por comodidade, varre um desses aspectos , o destruidor, para centrar foco no ensino de como se conectar com a outra faceta da divindade, a de amor e bondade a que se pode ter acesso a qualquer hora.
A crença nesse Deus de sentido prático, que responde imediatamente às necessidades de quem tem objetivos claros — defendida em muitos desses livros — é eco de uma necessidade humana de acreditar no poder do pensamento — algo que Freud já havia analisado em um ensaio clássico de 1922, Totem e Tabu, considerado por ele próprio um de seus melhores trabalhos. O fenômeno do “pensamento mágico”, dissecado por ele como característica da mentalidade da infância e dos povos primitivos, nasce de uma necessidade de afastar ideias que amedrontam, como a da finitude, e cria a noção de que o pensamento teria o poder para obter aquilo que se deseja. É a tentativa de enfrentar o que há de assustador no humano, algo para o que a própria ideia de Deus sempre foi por si só um consolo.

Jorge Ferraz
Discute-se se o terremoto do Haiti foi um castigo de Deus. Dividem-se os opinantes: não, Deus não castiga; sim, é por causa do vodoo praticado pelo povo. Obviamente, há outras opiniões mais sensatas; estas duas, no entanto, são simplórias demais e, na minha opinião, devem ser desconsideradas.
Quanto à primeira, é óbvio que Deus castiga. As Escrituras estão repletas de exemplos: do Dilúvio passando pela destruição de Sodoma e Gomorra, até os egípcios morrendo afogados no Mar Vermelho e outros episódios menos conhecidos. Não é possível ao católico simplesmente dizer “Deus não castiga”, porque isso é contrário ao que se sabe ter ocorrido ao longo da história da Salvação.
Obviamente, o castigo de Deus não é um mal absoluto, porque Deus não pode querer o mal em si. Santo Tomás de Aquino explica isso na Summa, II-IIae, q. 19, a.1 (tradução livre):
Em verdade, de Deus pode-nos sobrevir o mal da pena [castigo], que não é mal absoluto, mas sim mal relativo e bem absoluto. Efetivamente, dado que o bem estabelece ordem para um fim e o mal consiste na privação desta ordem, é mal absoluto aquilo que exclui totalmente a ordem ao fim último, que é o mal da culpa. O mal da pena, ao contrário, é certamente um mal, enquanto nos priva de um bem particular; mas em absoluto é bem, porque está ordenado ao fim último.
Deus, portanto, castiga sim, e o castigo de Deus é sempre um bem absoluto, porque está ordenado ao fim último do homem, que é Ele próprio. Como, por exemplo, um pai que castiga o filho para o educar.
Pode-se objetar que não pertence ao pátrio poder espancar um filho até a morte, e que bem pouco aprendizado alguém pode obter de uma experiência se não sobreviver a ela. Esta visão, no entanto, é puramente materialista e não serve para impugnar a visão católica segundo a qual os castigos divinos – quaisquer que sejam eles – estão ordenados ao fim último do ser humano. Ela – a visão materialista – parte de dois pressupostos que não são aceitos pelos católicos: o primeiro, que a vida é um bem absoluto e, o segundo, que o castigo deve servir sempre e somente para os indivíduos castigados. Nós, católicos, sabemos que o fim último ao qual deve almejar o ser humano não é a preservação da própria vida física, e sim a salvação da sua alma. Ninguém pode dizer o que se passa no íntimo de uma pessoa vitimada por uma tragédia nos seus instantes derradeiros e, portanto, não se pode afirmar que o mal relativo não tenha redundado em um bem absoluto – ao contrário, é exatamente por isso que rezamos. Igualmente, o mal sofrido pela parte pode, ainda que não redunde em bem para ela, servir ao todo: como a amputação de um membro gangrenado que, embora não cause bem ao membro amputado, provoca bem ao corpo, ou como aquela história do rei que perdeu um dedo numa caçada. Portanto, uma catástrofe qualquer não pode, a priori, ser excluída como castigo divino por conta de objeções naturalistas como as que são ordinariamente apresentadas.
Quanto à segunda opinião – a de que o terremoto foi, sim, castigo de Deus por conta do vodoo praticado pelo povo -, ela também não pode ser pressuposta assim, sem mais nem menos. Vale salientar que 80% da população do Haiti é católica, e o catolicismo é inclusive a religião oficial do Estado. Obviamente, Deus pode ter castigado a infidelidade de um povo que, honrando-o com os lábios – com a Constituição… -, não Lhe presta louvor verdadeiro com a própria vida. Sim, Deus pode ter feito isso, mas Deus pode igualmente não ter feito isso – ou não pode? Há incontáveis exemplos de ímpios que parecem ser imunes a tragédias, bem como de pessoas inocentes que são vitimadas por desgraças sem que mereçam. Não dá, também, para dizer a priori que Deus resolveu castigar o Haiti por conta da feitiçaria praticada pelo povo católico. Deus não “funciona” com o determinismo de causa-efeito de uma lei física.
Então, afinal, o que dá para dizer? Na verdade, não dá para dizer rigorosamente nada, porque ninguém conhece os desígnios do Altíssimo. Que os terremotos são causados pelos movimentos das placas tectônicas é simplesmente um detalhe técnico – aliás, evidente e incontestável – que não vem ao caso nesta discussão. Os fenômenos naturais, afinal de contas, estão sujeitos ao Autor das leis da natureza.
O que dá para saber com certeza é que Deus não permitiria o mal se, dele, não pudesse tirar um bem ainda maior – como diz Santo Agostinho. E, se um terremoto que deixou milhares e milhares de mortos, feridos e desabrigados é obviamente um mal, importa dar sentido ao sofrimento. Não faz diferença (e, aliás, nem é humanamente possível) saber com certeza se foi castigo divino ou fatalidade permitida pelo Onipotente. O que importa é unir as próprias dores àquelas sofridas pelo Homem das Dores. Como falou o Papa João Paulo II na Salvifici Doloris:
Todo o homem tem uma sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo.
[SD, 19]
Que os sofrimentos humanos – em particular estes de memória tão recente – não sejam inúteis, é o que pedimos à Virgem Santíssima, Mater Dolorosa, Nossa Senhora das Dores, Aquela que tão perfeitamente soube unir os próprios sofrimentos aos de Seu Divino Filho.

Por P. Rodrigo Polanco
Secretário Acadêmico da Faculdade de Teologia da PUC – Chile
O livro acima e que apresentamos aqui é fundamentalmente a transcrição literal de um debate sobre a pergunta que dá título a esta obra: Deus existe?, cujos protagonistas foram o então Cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo Paolo Flores d’Arcais.
O diálogo ocorreu no teatro Quirino, em Roma, em 21 de fevereiro de 2000, dentro do contexto do Jubileu convocado por João Paulo II pela ocasião do segundo milênio da encarnação do Verbo de Deus.
O debate, como era de se esperar, suscitou muito interesse antes mesmo de sua realização: o teatro estava repleto de público e ficaram mais de duas mil pessoas do lado de fora que conseguiram acompanhar o diálogo com a ajuda de um amplificador improvisado.
O motivo do interesse? Em primeiro lugar os debatedores: o Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Conhecido por sua competência em temas filosóficos e teológicos e, particularmente, porque um de seus maiores interesses foi precisamente poder penetrar e compreender melhor a cultura atual e suas dificuldades em aceitar a mensagem cristã; e, mais especificamente, são conhecidos seus numerosos trabalhos acerca da possibilidade e necessidade da fé em um Deus pessoal que possa fundamentar a cultura e a ética no mundo contemporâneo. Hoje é nosso Santo Padre Bento XVI, cujo magistério se viu claramente influenciado por estas preocupações. Esperavam-se, então, de suas reflexões bons aportes ao debate atual.
O outro debatedor era Paolo Flores d’Arcais, filósofo e jornalista, nascido em Udine, Itália, em 1944. Ele se reconhece como ateu e é, na atualidade, uma referência intelectual no âmbito da cultura européia contemporânea. É, além disso, fundador e diretor da revista “Micromega”, que publicou este diálogo (foi publicado também na França pela editora Payot et Rivage e, na Alemanha, pela Wagenbach Verlag). Flores d’Arcais é um decisivo impulsionador dos valores cívicos da democracia e da igualdade. Seu ateísmo significa, para ele, “simplesmente considerar que tudo se passa aqui, em nossa existência, finita e incerta. E, portanto, são importantes os valores que se elegem e a própria conduta” (pg 30). Pode-se perceber, de imediato, que entre esses dois expoentes há pontos em comum apesar de uma diferença fundamental, o que augurava um debate que não decepcionaria.
O diálogo – e esta é a segunda razão do interesse do livro – que foi muito bem moderado por Gard Lerner (um jornalista italiano judeu), se desenvolveu de maneira intensa, muito honesta, às vezes de forma incisiva, mas sempre com respeito à opinião do outro e em sincera busca pela verdade. Ao longo do debate foram saindo os clássicos argumentos contra a existência de Deus e que foram permitindo ao Cardeal Ratzinger colocar com muita claridade, não somente a realidade da existência de Deus, mas, também, o porquê é hoje necessário e, sobretudo, racional (isto é, adequado a uma razão moderna) crer em Deus.
O diálogo – transcrito integralmente no livro – é aberto, fundamentalmente, com uma colocação de Flores d’Arcais que se tornará o fio condutor do debate, pois é justamente o núcleo da discussão sobre a existência de Deus.
Afirma Flores d’Arcais que a fé deve aceitar – seguindo a São Paulo em seu “escândalo para a razão” e àquilo que se atribui a Tertuliano, “credo ut absurdum” (creio porque é absurdo (o que creio)) – que é digna de respeito, tem direito a uma cidadania, mas não é exigível nem pode ter a pretensão de ser aceita pela razão, já que “suas verdades” não podem ser demonstradas pela razão e que, inclusive, isso não foi pretensão do cristianismo primitivo que se considerava uma religião à margem da razão.
Esta é uma afirmação que talvez muitos cristãos, à primeira vista, subscreveriam.
Pois bem, a partir dessa mesma observação, o Cardeal Ratzinger começa sua exposição demonstrando, com dados históricos, exatamente o contrário. O cristianismo desde suas origens considerou-se como uma religião e uma fé que certamente não era absurda e que, além disso, devia dar “razão de sua esperança”. A primeira carta de São Pedro diz precisamente “estais sempre dispostos a todos os que vos pedem dar razão de vossa esperança” (1Pe 3,15). Os cristãos devem, então, estar em condições de demonstrar o sentido profundamente racional de suas convicções. De fato, o cristianismo primitivo triunfou sobre as religiões pagãs de seu entorno justamente por sua reivindicação de racionalidade. Apresentou-se, inclusive, como filosofia, isto é, como resposta à busca da verdade, do ‘logos’ do mundo.
Já no ano 150, Justino, filósofo e mártir cristão, fundava em Roma uma escola de formação cristã, aonde se podia aprender a refletir a fé entendida como filosofia verdadeira. Sua conversão, longe de afastá-lo da filosofia, o fez verdadeiramente filósofo. Certamente, ao entender o cristianismo como a filosofia perfeita, a filosofia que leva à verdade, “não se entendia, então, como uma disciplina acadêmica puramente teórica, mas também, e antes de tudo, desde uma perspectiva prática, como a arte de viver e morrer retamente à qual só se pode chegar à luz da verdade”. Além disso, a pergunta pela verdade, pelo ‘logos’ das coisas, era a pergunta da filosofia e não das religiões pagãs da época.
A convicção básica da Antiguidade – e creio que também nossa – era que no mundo existe uma racionalidade sobre a irracionalidade – o mundo, a vida, cada um de nós mesmos não somos um absurdo – e, por isso, uma religião, qualquer que seja, mostrar-se-á adequada e verdadeira na medida em que se apresente como “vera religio”, isto é, como verdade universal e fundante. E dessa verdade se deduz também a natureza do homem e, portanto, seu dever moral. De fato, “o que a lei supõe realmente, as exigências que o Deus único coloca para a vida do homem e que a fé cristã traz à luz, coincide com o que o homem, todo homem, leva escrito no coração, de maneira que o considera bom quando aparece diante dele. Coincide com o que é ‘bom por natureza’ (Rom 2,14)” (pág. 16-17).
Na base dos direitos humanos universais – nascidos em contexto cristão e desde o cristianismo – está precisamente a convicção de uma verdade comum – o homem – e um fundamento último: Deus. Essa foi sempre a pretensão do cristianismo, que nasce não tão somente da Revelação, mas também da racionalidade das coisas que existem.
E o debate continua se desenvolvendo, sempre em forma de diálogo e com oportunas reflexões de Paolo Flores d’Arcais em que apresenta suas considerações, sejam factuais ou filosóficos, para não aceitar as verdades e a pretensão do cristianismo.
Por exemplo: sendo Deus o “Totalmente Outro”, pode alguém pretender realmente conhece-Lo? Não são todas as religiões aproximações igualmente válidas, já que não se pode nem sequer se aproximar por analogia àquilo que Deus é? Porque é necessário que haja “um” sentido para a vida? Não bastaria que cada um encontrasse um sentido particular para sua vida, ainda que seja absurdo para outro? Por que deve haver um único sentido?
Neste ponto do diálogo aparece um elemento crucial na exposição de Flores d’Arcais: se o cristianismo – diz ele – se visse a si mesmo como uma religião que é escândalo para a razão (ou seja, não racional), não haveria problemas, porque uma fé assim somente pediria à sociedade que a respeitasse e não tentaria se impor na sociedade, isto é, não seria missionária. O problema para Flores é se – ao contrário – a “fé católica pretende ser o sumário e o cume da razão, ser o sumário e o cume de tudo aquilo que é mais característico do homem”, ou em palavras do Concílio Vaticano II se “o mistério do homem somente se esclarece no mistério do Verbo Encarnado” (GS 22), então é essencial (ao cristianismo) seu interesse em propagar esta “Boa Nova” (já que o bem é difusivo por si próprio), mas, ao mesmo tempo, é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor.
O Cardeal Ratzinger está, evidentemente, totalmente de acordo em que é preciso evitar o perigo de tentar se impor. A fé apela sempre à consciência e à razão, o ato de fé é necessariamente um ato que nasce da liberdade e de haver reconhecido a Deus que se revela e oferece a salvação, mas sempre é oferecimento livre.
Mas o motivo da missão e da evangelização, isto é, este elemento essencial da fé católica, “nasce do fato que nós, os crentes, cremos que temos algo que dizer ao mundo, a todos, que a questão de Deus não é uma questão privada…, pelo contrário, estamos convencidos de que o homem necessita conhecer a Deus, estamos convencidos de que em Jesus apareceu a verdade e a verdade não é propriedade privada de alguém, mas que tem de ser compartilhada, tem de ser conhecida”. Novamente o tema da verdade e da razão.
À continuação o tema se desenvolve em diversos matizes e se chega assim a um novo passo na reflexão de nosso atual Santo Padre. Havia dito que a fé católica é racional e que, como verdade, é necessário que todos a conheçam; passa, agora, a discutir com Flores a “novidade cristã de Deus”.
A Bíblia nos apresenta um Deus que está além do Deus da filosofia, isto é, um Deus pessoal que é amor. O mundo vem da razão – logos – mas esta razão é pessoa, é amor – isto é o que o característico e próprio do cristianismo. Isso também não é absurdo, mas supera o alcance da razão por si mesma. Com esta afirmação – segundo o Cardeal Ratzinger quando ainda era um professor universitário – aparece o conceito de criação, tão próprio do cristianismo. O mundo é positivo, é bom e é fruto do amor. É, então, bom viver nele. Portanto, o mundo tem uma direção e medida porque é fruto do Criador que se expressa nele. E, se é fruto do amor, está transpassado pelo amor e a liberdade de acolher esse mesmo amor (cf. J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo). E de onde concluímos isso? Simplesmente de que Deus é como se manifesta. Deus não pode se manifestar como não é. Em termos filosóficos, estamos falando de ‘analogia entis’ e, mais em particular, da ‘analogia amoris’.
O que é a fé, então? Não é simplesmente um saber, mas uma forma de se situar frente ao mundo, frente a toda a realidade, é a orientação de toda a vida humana, o que é somente possível em virtude de um sentido que a sustente. E esse sentido “não se pode construir, somente se pode receber” (ibid). Isso é a fé: aceitar o dom da revelação que fundamenta gratuitamente nossa vida, é o compreender a existência como resposta ao Logos que tudo sustenta. É aceitá-Lo e n’Ele confiar. E isso é totalmente contrário ao “irracional”. Efetivamente, é aproximar-se ao fundamento, ao sentido da vida e esse fundamento não pode ser – para o homem – outra coisa que não a verdade. Um sentido que não fosse verdade seria um sem-sentido. A fé, no fundo, nos faz compreender autenticamente o mundo, isto é, entendê-lo e fazê-lo próprio.
Mas esse compreender – e isso é essencial para o conceito de fé – é fundamentalmente um encontro com Deus-amor, é uma relação pessoal, é uma aceitação livre de Deus como Deus, é deixar a Deus ser Deus. A fé sustenta não somente que Deus é Logos, mas que, além disso, esse Logos, essa Razão, é liberdade, é amor criador e pessoa. E, portanto, “o supremo não é o mais geral, mas o particular; por isso a fé cristã é, antes de tudo, opção pelo homem como ser irredutível que aponta à infinitude” (ibid). Deus não só conhece, mas que também ama, é criador porque é amor. É um Deus para o qual nada é demasiadamente pequeno e, portanto, um Deus que entra em relação com todo ser humano de modo pessoal.
Neste ponto as posições se aproximam. Para Flores d’Arcais, o ser humano, ainda na opção “desde o desencanto” – que é a opção do pensamento ateu (em contraposição à opção ‘desde a fé’) (*) – deve igualmente escolher entre uma vida com a primazia do EU – solitário – ou do TU – do encontro que soma – para orientar toda sua vida, ainda que seja sua efêmera vida. E aí, no amor ao próximo, há a possibilidade do encontro entre crentes e ateus. E isso é o que permite, desde a Antiguidade, a convivência pacífica na mesma ‘polis’ entre os que pensam diferente.
O diálogo não pode seguir além de duas horas e meia que já dura, mesmo ainda tendo deixado muitos temas e perguntas sem tratamento e, mais ainda, havendo deixado muitas questões colocadas no meio do debate que suscitaram novas perguntas e dão incentivos para pensar e aprofundar nas próprias convicções. Com que gosto haveríamos seguido escutando – ou lendo – este diálogo elevado! De qualquer maneira, o livro ainda nos agrega dois textos complementares ao debate e em torno dos mesmos temas. Um, do Cardeal Ratzinger, intitulado “A pretensão da verdade colocada em dúvida”. E outro, de Paolo Flores d’Arcais, chamado “Ateísmo e verdade”. Como se pode apreciar a partir destes títulos, o tema Deus é, no fundo, um tema sobre a verdade e, finalmente, um tema religioso, mas, ao mesmo tempo, metafísico. E religioso porque metafísico.
Em síntese, um interessante livro sobre um tema extremamente atual que mostra, uma vez mais, o amor à verdade de nosso Santo Padre Bento XVI, sua confiança no diálogo com o outro que pensa diferente e, também, seu respeito pelas opiniões contrárias; assim como sua amplíssima cultura e profundidade para tratar temas atuais. Por outro lado, Paolo Flores d’Arcais deixa uma grata impressão de homem inteligente, aberto e que advoga, de maneira muito aguda, as características e perguntas do ateísmo contemporâneo. Um livro que ajuda a pensar e a pensar também a própria fé, porque “todo o que crê, pensa; pensa crendo e crê pensando (…). Porque se o que se crê não se pensa, a fé é nula” (Sto Agostinho, “De praedestinatione sanctorum” 2, 5 em ‘Fides et Ratio’ 79).
(*) Para Flores d’Arcais a postura atéia considera que “tudo se joga aqui, em nossa existência, finita e incerta”, isto é, ser ateu consiste em ser o homem do desencanto e do finito. (N. T.)
Texto original: Humanitas

“Vivemos em uma sociedade depressiva”,é a tese que defende o psicanalista Tony Anatrella no seu livro “Non à la societé dépresive” (“Não à sociedade depressiva”), publicado pelas edições Flammarion.
Para ele, uma sociedade em que o aborto, o divórcio, a homossexualidade, a promiscuidade sexual, a toxicomania, o suicídio dos jovens, são aceitáveis como fenômenos inquestionáveis é uma sociedade doente, à beira da implosão.
E se a ausência de Deus fosse a principal causa desse desastre? Tony Anatrella discute este tema com a revista Francesa Paris Match.
A Revista não é um revista religiosa e as perguntas,bem formuladas,nos trazem respostas preciosas que expressam a realidade Francesa e também Brasileira.
Não se assuste com o tamanho. Leia devagar e veja que percepção lúcida da sociedade!
Imperdível!
***
Tony Anatrella
Psicanalista, sacerdote de uma diocese de Paris, especialista em psiquiatria social, professor de psicologia clínica, consultor do Conselho Pontifício para a Família .
No seu livro “Não à sociedade depressiva”, o senhor faz uma exposição muito pessimista da sociedade francesa de hoje. Você diz que os homens e as mulheres estão fazendo a greve dos ideais; um desastre, em resumo.
Sim, um desastre. Assistimos nos últimos anos a uma grave degradação do sentido de ideal comum a todos. Só buscamos a nós próprios e acabamos metendo-nos numa rua sem saída. Recusando-nos a buscar qualquer outro ideal que não seja nós mesmos, fechamo-nos num impasse. O uso da fórmula própria dos adolescentes: “Mudar a vida”, prefigura muito bem a recusa da realidade, que leva à impotência.
Querendo libertar-se de Deus, nossas sociedades têm produzido ideologias alienantes e desesperadoras para o homem; ideologias que depois acabam sendo implodidas umas após outras.
É por isso que a depressão é uma doença do sentido de ideal, em que não se sabe mais como encontrar as realidades da vida.
O problema existencial vai evoluindo. As pessoas estão atualmente num estado de tristeza pela perda do ideal a partir do qual a vida é possível.
Os depressivos têm a impressão de estarem despojados da sua vida e incapazes de antecipar o seu futuro.
O senhor afirmaria que nós estamos em vias de suicidar-nos coletivamente e que se trata de um problema de saúde pública?
Nós corremos o risco de destruir-nos progressivamente se vivermos dessa herança. É o “destroy” de Duras. O instinto de morte toma lugar vez por outra nas nossas sociedades. O individuo encontra-se só em face de si mesmo e sem o suporte de uma sociedade que se vê sem futuro.
Vivemos no império do efêmero, numa sociedade que só vê o presente, incapaz de arriscar-se na construção do futuro. O presente acaba sendo apenas como um intervalo até a morte. Mas, como viver o presente se o futuro não tem mais sentido?
Não se diz, num impulso depressivo, que “é preciso matar o tempo”?
Sim. Além disso, certos cantores e comediantes são um reflexo da sociedade. É isso que explica em primeiro lugar o seu sucesso: Gainsbourg (1), brincando de forma suicida com a morte, Coluche (2), destemido diante dela, e Jim Morrison (3), que praticamente suicidou-se. As suas existências estavam voltadas para a procura fascinante da morte e não para a procura do amor pela vida.
(1) Serge GAINSBOURG, (1928-1991), muito popular na França, de pais judeus emigrados da Rússia foi pintor, pianista de bar, diretor de filmes, compositor, cantor. Viciado em às drogas, teve uma vida cheia de escândalos.
(2) Michel Gerard Joseph COLUCCI (COLUCHE, 1944-1985), Ator, humorista debochado e grosseiro, que ridicularizava os valores morais, familiares e religiosos. Realizador de espetáculos para TVs, Rádios e music-halls, morre pouco depois aos 41 anos ao entrar na traseira de um caminhão com a moto que usava em suas exibições. A desorientação da sua vida se pode resumir nesta declaração dele “Rendre l´âme, d´accord, mais à qui? (“Entregar a alma, de acordo, mas a quem?”).
(3) Jim MORRISON (1943-1971), compositor americano, vocalista do conjunto The Doors. Viciado em drogas, suas letras refletem as tensões do seu tempo – a cultura da droga, o movimento contra a guerra, a arte de vanguarda. Com a sua morte prematura Morrison foi uma vitima voluntária das forças destrutivas da cultura pop. Sua angústia perante a vida se vislumbra numa das suas declarações : We´re more interested in the dark side of life, the evil thing, the night time (“Estamos mais interessados no lado negro da vida, no mal, na noite”). Morreu afogado numa banheira de um hotel em Paris após ter desmaiado sob efeito do álcool e da heroína.
E muitos jovens querem identificar-se com esses “modelos”, adotando o seu tipo de pensamento. Eles têm-se deixado entusiasmar pela tentativa de morrer, própria da psicologia depressiva observada em numerosas canções e “sketches” que exprimem o sofrimento pela perda dos sonhos aos que o indivíduo não quer renunciar e luta para conseguir.
A necessidade de viver o instante presente e não pensar no futuro é uma atitude corrente da adolescência, mas que se encontra ainda em muitos adultos que vivem sem ter consciência da História. O drama da sociedade de hoje é querer privar-se de referências e não admitir que elas existem.
Olhemos para os apresentadores do tempo da TV francesa. Eles anunciam diariamente o nome de quem será a festa religiosa do dia seguinte sem fazer referência ao seu titulo de santo, abolindo desse modo a referência inicial e o sentido da festa. Ou ainda o caso de um jovem animador de rádio que conta uma história mirabolante envolvendo homens das cavernas para explicar a origem da terça-feira de Carnaval, que é simplesmente um dia de grande festividade que precede a abertura da Quaresma. Estamos em vias de fabricar todo tipo de colagens culturais.
Também se diz que nós vivemos atualmente como se não tivéssemos raízes e, sem referências, a sociedade está condenada a morrer.
Sem ideal, uma sociedade não tem futuro. Na nossa sociedade depressiva, vivemos sob uma mentira social, como se não tivéssemos raízes. Assim, acreditemos ou não, chegamos a ter vergonha de reconhecer que os nossos valores procedem do cristianismo, vergonha dos nossos pais, em resumo das nossas origens.
Uma sociedade incapaz de assumir o seu passado dentro do seu presente é uma sociedade condenada a morrer. Não há futuro para quem não tem em conta o seu passado. Mesmo os pensadores iluministas do século XVIII não sonharam jamais em negar as suas raízes, ou seja, o cristianismo.
Se muitas crianças não freqüentam mais a catequese hoje, não é somente por razões religiosas, mas porque os adultos não sabem mais que esperança devem transmitir, eles próprios não acreditam mais no seu papel educativo e abdicaram da formação da inteligência e da vida interior dos filhos.
O senhor disse em algum lugar que antigamente se batizava em vistas ao futuro...
Hoje, plantamos, cultivamos e construímos para o instante presente. Não fazemos nada para as gerações que virão. Construímos edifícios com materiais que envelhecem rapidamente e que não preservam a intimidade, como é o caso do o vidro.
Como é que chegamos a esta situação?
A sociedade depressiva não é uma fatalidade. Foi gerada por nós mesmos que nos tornamos cada dia mais e mais individualistas, desvalorizando as ligações simbólicas em que se refletem o sentido da existência, como a moral e a religião, acreditando que cada um pode ser auto-suficiente, fabricando a sua própria lei e seus valores. Numa palavra, regredimos.
Vivemos como se as verdades e os valores universais não existissem. Desse modo, não há mais comunicação possível na sociedade. Estamos pulverizando-nos e perdendo progressivamente o domínio da realidade.
O senhor emprega a palavra “moral”; eis um termo muito desprezado hoje em dia.
Tem-se acreditado ingenuamente que se poderia viver sem apelar para uma dimensão moral. Se falamos mais desse tema ultimamente, é porque buscamos restabelecer uma ligação quebrada que traz o risco de desumanizar-nos. A moral é a arte de escolher atitudes ou comportamentos aceitando sermos esclarecidos por referências que nos ultrapassam e que não dependem de nós.
Confrontar a nossa experiência com as realidades morais favorece o aprofundamento na nossa vida interior e desenvolve em nós a arte de escolher o comportamento que melhor nos convém.
A moral é o que faz a vida possível. Somente aqueles que não resolveram os seus complexos enxergam-na como um impedimento, um limite.
Eis porque alguns consideram ruim aceitar as instituições quando essas representam uma dimensão moral da existência. Durante muito tempo, as idéias do século XVIII e XIX regulam a vida dos indivíduos, às vezes com efeitos negativos. O século XX, libertou-nos de muitas imposições, mas também nos levou a rejeitar as instituições e todas as demais referências, como adolescentes invadidos por um sentimento de poder fazer de tudo.
Como explicar a debilidade interior, a astenia e a fadiga de que todos têm se queixado, tanto as crianças como os adultos?
Se as nossas sociedades são depressivas, é porque perderam a confiança em si mesmas: já não sabem mais nada para além do cotidiano do individuo, o porquê se deve viver, amar, trabalhar, procriar e morrer.
Estamos no impasse de não ter mais o sentido de um destino comum a não ser o de cada um cuidar do seu bem-estar pessoal.
As pessoas instalam-se na tristeza de não mais encontrar objetivos de interesse nem sentido em saírem de si mesmas. O problema do deprimido resume-se no sentimento de não poder existir nem pelos outros nem através de um ideal.
Falta-nos espiritualidade para enfrentar a vida e o resultado é que sempre estaremos diante de situações de tensão permanente.
Atualmente, as crianças não são mais convidadas a refletir sobre o sentido da existência. É o reino de uma falsa espontaneidade, onde os instintos se exprimem num estado primitivo.
É também o reino da mediocridade. Vejamos os rabiscos nas paredes, os grafites, que exprimem um defeito de comunicação, de interioridade. Estamos vivendo bem no meio de uma crise de ideais.
O senhor fala de dificuldades, de melancolia; o senhor disse também que jamais foi dada tanta importância à sexualidade como hoje, que o único lugar onde as pessoas têm a impressão de atuar e existir é precisamente no campo da sexualidade, na afetividade.
Passamos de um excesso a outro. No século XIX, sob a influencia de Rousseau, a sexualidade era vista com desconfiança, e era então supercontrolada. A proibição tomava o lugar do desejo, favorecendo este último. No teatro de bulevar, as pecas de Feydeau (4) são o exemplo disso. O século XX liberou-se desses hábitos hipócritas, mas acabamos caindo no extremo oposto.
(4) Georges Feydeau (1862-1921), procedente duma velha família nobre francesa, autor e ator de teatro popular, atinge pleno êxito em 1892, aos 30 anos. De caráter taciturno, dedica-se a uma intensa vida noturna, vicia-se no jogo, perde fortunas e o seu casamento começa a ruir. Divorcia-se em 1916, pela pressão da esposa, que quer evitar a perda de seu patrimônio e a educação adequada dos filhos. Suas peças são indiferentes a qualquer moralidade e profundidade psicológica do se humano. Morre de sífilis com 58 anos.
O que o senhor diz do espantoso desenvolvimento de condutas perversas, notadamente das incestuosas, ou dos abusos com crianças, que não cessam de aumentar?
Atualmente, também tem sido estimulada a sexualidade das crianças e dos adolescentes, erotizando-os. A revolução sexual, se é que aconteceu, contribuiu principalmente para liberar a sexualidade infantil e, conseqüentemente, para infantilizar a vida sexual em busca de uma comunicação melhor entre os homens e as mulheres. Dentro de tal confusão, que desvia a criança para o mundo adulto, encaminhamo-nos para uma sociedade infantil que nega a maturidade e fica deprimida por acreditar que o impulso sexual é um fim em si mesmo. Ficar prisioneiro da sexualidade pueril, em vez de entusiasmar-se para construir algo mais elaborado, conduz à miséria sexual e ao proletariado afetivo.
O senhor é muito crítico com relação a educação sexual, quando a acusa de erotizar.
A educação sexual é necessária. Mas ela deve informar, educar os filhos, dando-lhes as respostas para as suas perguntas sem as ultrapassar; deve começar em casa, pelo exemplo de amor conjugal oferecido pelos pais. Entretanto, quando assistimos à série de TV “Le bonheur de la vie” (“A felicidade da vida”), exibida pela rede France 3, ficamos preocupados por ver reunidas todas as banalidades e aberrações psicológicas que têm sido cometidas nesta matéria. A educação sexual que tem sido imposta nas escolas está manipulando a sexualidade juvenil, pois através da desinformação, os adultos acabam exibindo a sua própria sexualidade e buscando desfrutá-la com as crianças, numa conduta totalmente pederástica. Expor tudo indiscriminadamente é tão nefasto como silenciar. Como ficar insensível, por exemplo, diante da profusão de obras com caráter pornográfico oferecida às crianças? Trata-se mais de uma provocação que de uma educação real. Tal atitude não ajuda nem a tarefa de pensar a sexualidade com responsabilidade nem o desenvolvimento de um imaginário erótico.
Deveremos sofrer em breve as conseqüências dessa prática, que sequer está fundamentada teoricamente.
Segundo a sua opinião, a liberação do aborto contribui a deprimir a sociedade por trazer como conseqüência graves problemas psicológicos.
Jamais vi uma mulher abortar com prazer. O aborto é na maior parte das vezes visto como um gesto extremo. Ele insere a morte no ato de dar a vida, e não é porque tecnicamente seja algo perfeitamente realizável que não apresenta problemas psicológicos e morais. As pessoas recusam-se a refletir sobre as conseqüências do aborto, e suas repercussões sobre a moral na sociedade.
Daqui a alguns séculos, certamente as gerações futuras nos verão como uns bárbaros, à semelhança dos antigos, que abandonavam os recém-nascidos nas praças públicas ou nos bosques, sem que isso fosse considerado um comportamento inumano. Foi sob a influência da Igreja que começamos a pensar o recém nascido como uma pessoa, basta lembrar-se da atuação de São Vicente de Paulo.
Quanto mais uma sociedade respeita a vida da criança, mais respeita a vida humana.
Nossa sociedade vive com um sentimento de culpa frente à procriação, do qual procede a subvalorização afetiva da criança, como se, agindo assim, se pudesse fazer perdoar.
Temos, efetivamente, uma relação deprimente com respeito à fecundidade. Ter filhos não é meramente um direito, como se quer fazer crer, mas um dever a assumir, e em face do qual muitos os pais e a sociedade devem estar engajados.
A maior parte das religiões, especialmente a judaica, a cristã e a muçulmana, recusa o aborto em nome do respeito à vida. Mesmo ainda que nem todas reconheçam o embrião como um ser humano, todas reconhecem que ele é um ser humano em potência.
Somente a Federação Protestante da França tem uma posição ambivalente quando se pergunta: “Não se pode ser ao mesmo tempo contra o aborto e militar a favor de uma lei do mal menor?”.
A lei Viel de 1975 esclarece no seu preâmbulo sobre o caráter excepcional do aborto, que não pode ser nem banalizado nem utilizado como meio contraceptivo. Percebemos que restam somente uns fiapos da lei quando olhamos para o que se pratica por aí: cerca de 200.000 abortos anuais.
Quais são os problemas psicológicos causados pelo aborto?
O filho é verdadeiramente o sinal do sentido do outro, mas ao mesmo tempo está hoje carregado de um sentimento de desconfiança nas nossas representações coletivas. A insegurança que existe na nossa sociedade origina-se em parte da incerteza que preside o nascimento dos filhos, mas também de um sentimento de culpabilidade do qual as pessoas não conseguem libertar-se.
De maneira geral, três problemas podem surgir: O eugenismo, que consiste, dentro de um movimento narcisista, em selecionar as características e os atributos do filho à imagem do próprio ideal, ou seja, de si mesmo; a seguir o infanticídio, ou o fato de impedir que as gerações se sucedam umas às outras; e finalmente o poder de Demiurgo (5) do pai, o poder decidir a vida ou a morte da sua progenitura.
(5) Segundo Platão, o Deus que cria o Universo, organizando a matéria preexistente
Cada um à sua maneira exprime uma incapacidade de acolher um filho que seja diferente de si mesmo. Pode ser útil lembrarmos do filme “E. T.” (1982), o grande sucesso de Steven Spielberg. Não seria o ”E. T.” o símbolo da criança do futuro, esse estrangeiro que provem da nossa sexualidade, que as nossas sociedades não podem mais acolher sem que seja programado ou selecionado?
Uma sociedade que inscreve a morte no imaginário dos nascimentos futuros é uma sociedade com incertezas e sem esperança.
E a AIDS, esse drama da nossa sociedade moderna? Há hoje um debate em torno dos preservativos e muitos criticaram a Igreja e o Papa por suas posições com relação a eles.
A AIDS é efetivamente um drama e devemos arregaçar as mangas e meter mãos à obra para sermos solidários com os doentes.
Resta o problema da prevenção. A Igreja não estigmatiza os preservativos na África, mas fala do sentido do amor humano; ela está exercendo a sua função e abordando o tema a partir do plano moral. É ridículo condenar o Papa e Igreja por nos convidarem ao amor verdadeiro.
Esta atitude revela a recusa por parte da sociedade em refletir verdadeiramente sobre a sexualidade, mantendo-se somente nas propostas técnicas ou sanitárias, tomando o meio pelo fim.
A sexualidade responde a diversas motivações da personalidade: silenciar uma angústia, compensar uma atitude depressiva, exprimir uma tendência parcial ou a sua ligação com a pessoa amada.
Não se fala nunca da profilaxia. Certamente a AIDS não é uma fatalidade; pode ser evitada se são tomadas todas as medidas realmente eficazes para evitar a contaminação.
Mas distribuição de preservativos nas escolas é um sinal de que os adultos desistiram, de que não tem nada a dizer aos adolescentes sobre o amor humano.
Sem excluir outros aspectos, é importante refletir com os jovens sobre o que cada um procura através da sexualidade.
Contudo, os jovens terão relações sexuais cada vez mais precoces…
A adolescência tem sido sempre o período do despertar dos sentimentos e das inquietações sexuais. O fato de o ambiente incitar os adolescentes a viver suas experiências sentimentais não quer dizer que os jovens de 15 a 19 anos sejam sexualmente ativos na sua grande maioria. É importante saber o que se passa na psicologia juvenil, que nem sempre reúne todas as condições psicológicas do amor humano.
O adolescente tem a tendência a buscar a si próprio, a ressentir-se e a valorizar-se através do outro, mas sem poder reconhecê-lo por ele mesmo. O apegamento a qualquer um é uma etapa, mas ainda não é o amor; é por isso que essas relações não se sustentam, e os adultos em vez de guardar distâncias, valorizam essas uniões efêmeras. O ambiente atual não favorece de nenhuma maneira a maturidade afetiva.
O divórcio tem aumentado de forma impressionante. Ele participa também da sociedade depressiva?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que não há divórcio bem sucedido. O divórcio é um fracasso afetivo a partir do qual cada um experimenta a dor por uma confiança atraiçoada, por um projeto inacabado ou por um erro de escolha. Não é um negócio privado, mas um problema da sociedade com custos humanos, sociais, econômicos, morais e espirituais, sem falar do sofrimento psíquico que provoca.
Motivos confusos, problemas de identidade, desenvolvimentos pessoais divergentes, dificuldade de franquear certas etapas, carência de uma concepção moral e filosófica que permitam orientar os projetos de vida e de resolver os conflitos: são estas algumas das razões do divórcio. Depois de vários anos, o divórcio está em aumento sem que por outro lado à instituição do matrimônio tenha sido questionada.
Para o filho, o divórcio é uma rachadura que corre o risco de colocar em perigo a unidade e a construção da sua personalidade, mesmo se alguns cheguem a recuperar-se. É então que começam a nascer todas as angústias e as incertezas futuras da vida.
A homossexualidade não seria um reflexo de uma sociedade permissiva?
É uma das traduções da nossa sociedade depressiva. Quando o imperativo da reprodução da espécie curva-se ao ideal social, a homossexualidade fortifica-se. Mas é uma minoria.
Cada vez que a sociedade entra em crise, homossexualidade é valorizada. Tenta-se fazer dela um direito e inscrevê-la dentro da lei, ou então a homossexualidade não teria o mesmo valor que a heterossexualidade.
Seria um contra-senso que um contrato unindo dois homossexuais tenha o mesmo direito que o matrimônio. A sociedade depressiva põe tudo no mesmo saco.
A homossexualidade é uma anomalia ? Está ganhando terreno…
As causas da homossexualidade devem ser procuradas sobretudo no desenvolvimento psíquico do indivíduo. São numerosas e podem ser resumidas ao relativo fracasso de colocar a bissexualidade psíquica em seu devido lugar. A bissexualidade psíquica não significa que tenhamos dois sexos ao mesmo tempo (o andrógino), mas que adquirimos a possibilidade de comunicar-nos com o outro sexo na nossa vida psicológica.
Nos anos 70, a homossexualidade era utilizada para liberar-se de um compromisso social, desenvolver uma sensibilidade, exprimir a própria liberdade. A homossexualidade desempenhava um papel sintomático, a homossexualidade, tal como a religião, era um espaço disponível para exprimir a própria liberdade no plano privado (sexo) e social (convivência).
Parece-me que hoje as relações homossexuais são mais temidas do que procuradas, porque elas evocam a castração, ou seja, a incapacidade de aceder ao outro sexo. O declínio que notamos nas novas gerações é o declínio que se manifesta numa homossexualidade que certamente não aparecerá como uma forma original de afirmação.
E a toxicomania? O senhor a coloca também na conta da sociedade depressiva?
Sim, é uma doença que nasce do estado depressivo ou da curiosidade, e traz consigo a inibição e a neutralização progressiva das funções essenciais à vida psíquica.
O toxicômano duvida de si mesmo e dos outros, e , nessa ausência de confiança, desconfia até daqueles que o aconselham a tratar-se.
É preciso tratar a toxicomania tendo em conta a profunda angústia que revela. É o toxicômano que cria a toxicomania, e não a sociedade, senão todos seriamos drogados.
Isso não quer dizer que a sociedade não tenha a responsabilidade de combater esse flagelo. O toxicômano é também conseqüência da deficiência em que vivem os adolescentes que estão nessa situação por se recusarem a enfrentar os esforços psíquicos próprios da sua idade.
O silêncio, a permissividade e a passividade dos pais favorecem a prática da toxicomania, assim como o absenteísmo escolar, o roubo do dinheiro familiar e a exclusão social progressiva.
Uma desmoralização patogênica é o terreno predileto para o desenvolvimento da toxicomania. Os jovens comportam-se desde muito cedo como se não pudessem contar mais com os seus pais.
Vive-se cada vez menos na família a prática de estar juntos. Cada um exerce as atividades que quer, sendo raros os momentos de compartilhar o convívio.
Em resumo, a toxicomania é uma modalidade de fuga do interior de si mesmo, como era , há alguns anos atrás o engajamento na política.
É essa a doença do adolescente intimista que não acha bom esclarecer o que se passa verdadeiramente dentro dele.
O uso da droga não perdeu já um pouco da sua motivação “mística” dos anos 60, quando se erigia como a religião do “além” e como uma viagem de iniciação em direção aos “longínquos interiores”?
Hoje o uso da droga apóia-se mais sobre a curiosidade e a transgressão. Quando se proíbe proibir e quando se nega o espírito das leis, o adolescente fica entregue à sua solidão sem os meios de encontrar a realidade.
Fumar um “baseado” entre amigos não é jamais a escolha da liberdade, mas a da satisfação das paixões. Não esqueçamos que adolescência é um período de maturação das novas competências do indivíduo, da procura das suas possibilidades e dos seus limites.
O senhor disse certa vez que a prevenção é um falso problema…
As verdadeiras causas da toxicomania são a desordem do adolescente em face às suas mutações psíquicas, os fracassos escolares, etc…
O objeto do debate não deveria ser a droga, mas o aprendizado da vida, da qualidade da existência conjugal dos pais, a real preocupação por adquirir uma formação, a transmissão de uma moral e de uma fé.
Perdemos o nosso tempo para dar prazer – e que prazer!… – a um toxicômano, tolerando que use heroína e conduza-se progressivamente à morte. A droga estigmatiza uma sociedade depressiva que aceita deixar os indivíduos se entrincheirarem em si e esconderem-se para morrer no prazer do sofrimento.
Como o senhor explica o crescimento do suicídio?
A taxa de suicídios revela a saúde mental de uma sociedade. É a primeira causa de mortalidade na Europa.
O suicídio tornou-se nestes últimos anos um problema de saúde publica. O ambiente atual favorece o desenvolvimento de personalidades de caráter psicótico, sádico, irracional, depressivo e narcisista que chocam com a realidade, não podendo fazer outra coisa senão implodir em movimentos depressivos ou suicidas.
Tem-se insistido muito sobre a forte elevação dos suicídios entre jovens, esquecendo que 55% dos que se suicidam tem mais de 55 anos. A Hungria e a França são os paises que registram o maior número de suicídios em pessoas idosas.
Entre 1950 e 1976, na França, o suicídio tinha uma taxa de 15 pessoas por cada 100.000 habitantes ano.
A taxa de suicídio entre os 15 e 24 anos triplicou depois de 1960. Outras condutas suicidas preenchem o relatório: é o caso da anorexia, das depressões, das vítimas de certos acidentes. Em matéria de tentativas de suicídio, estima-se em 40.000 por ano entre os 15 e 24 anos, sendo o total de 135.000 de todas as idades.
Como explicar esse fenômeno?
Não é raro que um suicida tenha se preparado por um longo tempo e o tente por ocasião de um acontecimento “favorável”.
Um complexo de decepção, de frustração, de angústia podem ser o gatilho do suicídio. Suicidando-se o individuo não tem forçosamente o desejo de matar-se, mas sim de quebrar um ambiente insuportável, de dormir e poder acordar sendo diferente.
O suicídio pode ser resumido a partir de várias tendências:
– A fuga para escapar de uma situação de mágoa que é intolerável, uma maneira de romper com o mundo que o rodeia;
– A tristeza profunda: a melancolia do sujeito que se culpa de tudo e mostra pela sua atitude que o sentimento de auto-estima está gravemente atingido.
– A nostalgia: a pessoa sente o mundo como vazio, identifica-se com a sua infância, e tendo a perdido, parece que perdeu a vida.
– O castigo: para expiar uma culpa real ou imaginária.
– A auto-desvalorização: o indivíduo acha que não vale mais nada e sente-se desprezível aos seus próprios olhos e aos dos outros.
– O crime: atentar contra a própria vida arrastando o outro para a morte.
– A vingança: o sujeito quer simplesmente infligir uma ferida, o mais profundamente possível, naqueles que se encontram implicados em acontecimentos do passado, com a finalidade de criar neles remorsos.
– A chantagem: uma forma de fazer pressão no próximo para obter um bem, ameaçando-o, por exemplo, de privá-lo de amor.
– O suicídio-sacrifício: fuga disfarçada para evitar uma situação intolerável “glorificando esta fuga, fazendo-a passar por um sacrifício com a finalidade de valorizar a própria imagem que se anela deixar”.
– Finalmente existe também a condenação divina e o jogo. Por exemplo, a roleta russa, ou entrar numa auto-estrada na contramão, à noite, com as luzes do carro apagadas, ou queimar uma placa de “Pare”. É a morte-desafio, como uma prova dada a si mesmo e aos outros de que se tem o poder de triunfar sobre ela.
É por esta razão que esse tipo de herói está condenado à morte prematura, tal como o já mencionado Coluche, e Balavoine e Sabine (6) no rali Paris-Dakar. O seu ideal não se acomoda de jeito nenhum com o fato de envelhecer, de amadurecer, de suportar a fadiga; querem ser imortais, o seu combate não tem outro sentido a não ser o de sentirem-se vencedores, e eles serão vencedores graças à morte que lhes dará a imortalidade, enquanto que, se continuam vivendo, correrão o risco de serem esquecidos; pensam que serão mais presentes mortos do que vivos.
(6) Daniel BALAVOINE (1952-1986), cantor, ativista das manifestações estudantis de 1968 na França e mais tarde em causas sociais e políticas. Amante do perigo e da velocidade, participa do rali Paris-Dakar em 1983, 1985 e em 1986. Thierry SABINE (1969-1986), esportista de motocross, aventureiro, idealizador, organizador e diretor durante 10 anos do rali Paris-Dakar. Balavoine e Sabine morreram juntos quando o helicóptero que pilotavam foi atingido por uma tempestade de areia no deserto.
Como o senhor vê o futuro? Estamos condenados? Não há nenhuma solução para sair desta sociedade depressiva?
Não estamos vivendo algo inédito na História. O drama da sociedade depressiva aparece ao longo dos séculos, e consiste em querer desligar-se do passado, imaginando “mudar a vida” nos pontos que temos dificuldade de assumir.
A concepção moderna do sentido da vida está marcada pela sedução do desespero, mas a atitude depressiva remonta ao século XVIII. Será de espantar que estas idéias tenham tido eco nas nossas mentalidades modernas?
A crise atual é moral. Liberar-se do masoquismo moral é a aposta da sociedade depressiva. Para sair dessa situação temos somente uma solução: redescobrir o sentido de um ideal. Alguns querem fazer crer que hoje estamos desligados de uma moral do dever, enquanto celebramos o triunfo dos direitos individuais, estamos entrando numa sociedade pós-moralista.
Alguns prevêem o fim da religião, mais precisamente o fim do cristianismo, como se os valores que nasceram graças a ele e estão na fonte da nossa civilização pudessem ser arrancados.
A nossa laicidade repousa sobre uma contradição: a religião cristã desenvolveu sua reflexão sobre o homem a partir da imagem de Deus.
É olhando para essa transcendência que o homem pôde tomar consciência de si mesmo. Hoje, tudo dá a entender que queremos esquecer essa dimensão.
Mas sem esse Deus que é o fundamento do sentido do outro, é ainda possível pensar o ser e a moral? A resposta está longe de ser evidente.
Precisamente essa dimensão de Deus da qual o senhor está falando, está cada vez mais e mais ausente. Faz anos que se anuncia à morte de Deus. Além do mais, suprimiu-se do ensino toda referência religiosa e os jovens não conhecem mais nada sobre o tema, nem sequer num plano cultural. Isso não é grave?
Constata-se de um ponto de vista antropológico que a dimensão religiosa faz parte da estrutura do homem. Contudo, uma corrente de pensamento anunciou, durante os anos 60, a morte de Deus.
Os homens e as sociedades, sobretudo na Europa Ocidental, habituaram-se a viver sem Deus, mas celebrando todas as festas religiosas e apoiando-se sobre um sistema de valores originados no cristianismo. Diante dessa negação, assistimos ao ressurgimento do esoterismo, dos médiuns e clarividentes, da bruxaria, da feitiçaria e a aparição de curandeiros e chefes de seitas que criam o seu poder sobre os outros a partir de uma empresa financeira, sexual e mágica, como uma noticia recente dos Estados Unidos nos mostra com respeito a um dissidente de uma igreja adventista que se acha o próprio Cristo!
As ciências parapsicológicas (transmissão de pensamento, predições, horóscopos) e as crenças mais irracionais tomaram o lugar de uma vida religiosa abandonada e sem cultivo. Os pais igualmente abriram mão deste tipo de educação para seus filhos e não os inscrevem mais nas aulas de catecismo.
Atualmente, assistimos a um movimento inverso, em que os filhos reprocham seus pais por não os terem batizado nem os ter iniciado no conhecimento de Deus. Esses jovens sem formação religiosa e sem firmeza na sua crença estão prontos para acreditar em não importa o quê.
Quanto mais a realidade for bizarra, estranha e insólita, mais será digna de crédito. É o retorno do paganismo.
Por não terem uma concepção coerente do mundo, os jovens, e também os adultos, serão permeáveis à primeira crendice que apareça, sobretudo quando favorece o imaginário. É por isso que a formação religiosa é indispensável para os filhos, para lhes permitir exercer a sua razão sobre os objetos da crença, e em particular sobre a forma como os homens descobriram o Deus do qual nos fala a Bíblia e de que maneira, a partir desta experiência, concretizaram-se as verdades para construir um patrimônio espiritual.
O senhor não teme que alguns o acusem de clericalismo?
A religião, o cristianismo em particular, tem uma dimensão social, e não unicamente privada, que não pode ser substituída pela cultura ou pela política.
O judeu-cristianismo não faz mais parte do patrimônio cultural da nossa sociedade: não se pode ir visitá-lo como se faz com as ruínas de certos lugares dos nossos antepassados gauleses, para compreender melhor a nossa história, a arte e os simbolismos que nos rodeiam. Mas o judeu-cristianismo é o fundamento da nossa sociedade. Todos os nossos valores são herança do passado, mesmo que alguns deles tenham conquistado autonomia.
Esquecer essas raízes é correr o risco de desvitalizá-los e de os tornar uma loucura. Como continuar a justificá-los e valorizá-los sem saber donde procedem?
Na maior parte das sociedades, e em particular na nossa, a religião foi sempre um fator de integração social. É totalmente absurdo fazer disso uma questão privada.
Se a Igreja reivindica, e com razão, o caráter intrinsecamente social da sua missão, ela não tem a pretensão de contrariar as liberdades. É preciso pelo menos admitir essa evidência sem fazer um amálgama com as seitas e as tendências integristas, que têm uma tradição mais de alienação mórbida que de humanismo e de progresso. Esse não é o caso das tradições judaica e cristã.
É uma redução falar da “revanche de Deus” ou dos “políticos do Céu”, que se abaterão sobre o mundo. É preciso reconhecer o lugar da religião na nossa sociedade e salvaguardar o “espírito”, e não regredir fiando-nos de uma elucubração sociológica que não tem em conta a dimensão religiosa.
No fundo o laicismo, pela sua rejeição do religioso, tem a sua parte de responsabilidade na depressão atual.
O laicismo desenvolve-se em grande parte pela negação do cristianismo: age como se a Igreja não devesse existir, como se não se devesse ser ouvida nunca. Há uma agressividade doentia em relação à Igreja, que é – será necessário dizer? – constituída por vários milhões pessoas na França.
Fazem a Igreja falar de todos os temas possíveis para, ao mesmo tempo, ridicularizar o seu discurso.
Ela foi a primeira a denunciar os riscos do eugenismo com a utilização das técnicas relacionadas com a fecundidade, mas os meios de comunicação deformam ou ignoram as suas propostas.
Essa injustiça flagrante não anima os bispos e padres a falarem através desses meios, porque sabem que seu discurso será pinçado pelos conformistas intelectuais da moda.
A maior parte das festas religiosas são também silenciadas. Considera-se positivo informar o publico quando inicia do Ramadã e explicar o seu significado para os muçulmanos. Mas por que o silencio quase total na Quarta-feira de Cinzas, que abre o período da Quaresma para os cristãos?
Resumindo, ainda que estas festas existam, os meios de comunicação acreditam na idéia de que a sua existência não deve ser salientada.
Estará havendo por tanto não somente a rejeição do religioso, mas também escárnio das convicções religiosas?
Escárnio, que expressa decepção, medo e agressividade.
Os cristãos vêem não somente as suas convicções serem transformadas com escárnio, mas também negadas, sobretudo no momento das festas religiosas, que são a maioria dos dias de descanso.
O dia de Todos os Santos não é nem de longe a festa dos crisântemos; o Natal não é a festa dos brinquedos; a Terça-feira de Carnaval não é a festa dos crepes e das lantejoulas; também o feriado de Páscoa, não é o das auto-estradas, dos ovos e coelhos de chocolate. Esse desvio de sentido é uma mentira cultural. Como você quer que os mestres não se queixem dos seus alunos porque não saberem se localizar cultural e religiosamente?
Ao desprezar Deus, a Igreja, seus valores e seus ritos, é de si mesmo que o homem contemporâneo fala, sem respeito, sem nenhuma valoração positiva, e dessa maneira ele mesmo se desvaloriza.
Negar as referências cristãs e a dimensão social do religioso que presidiu a fundação da nossa cultura é o suicídio.
A sociedade acelera a sua destruição quando esquece os três lugares em que se reflete sobre a vida: a política, a moral e a religião.
A Justiça de Nebraska, nos Estados Unidos, decidiu arquivar nesta quarta-feira o processo que um senador movia contra Deus.
O juiz Marlon Polk, da corte distrital do condado de Douglas, disse que como o senador Ernie Chambers não informou no processo o endereço do réu, a Justiça não teria como notificar Deus.
No processo, Chambers acusa Deus de gerar medo e de ser responsável por milhões de mortes e destruições pelo mundo. Segundo ele, Deus gerou “inundações, furacões horríveis e terríveis tornados”.
Chambers comentou que Deus fez ameaças terroristas contra ele e seus eleitores. Conforme o senador, ele abriu o processo em Douglas porque Deus está em todos as partes.
“Como a corte não tem condições de notificar Deus, é preciso arquivar o processo”, afirmou o juiz Marlon Polk em sua decisão.
Apesar de significar inicialmente uma “derrota”, o senador encarou positivamente a decisão. “A corte reconheceu, desta forma, a existência de Deus”, afirmou. “Desta forma, uma das conseqüências de reconhecer Deus é admitir sua onisciência. E, se Deus sabe tudo, Deus foi automaticamente notificado deste processo”, completou.
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Parece brincadeira, mas essa notícia é verdadeira.
Rísivel… Acho que até Deus riu.

L’Osservatore Romano (LOR) dedicou três dos seus artigos da edição do fim de semana ao filme de sucesso de bilheteria dirigido por James Cameron, Avatar, nos quais criticou o sentimentalismo, panteísmo e espiritualismo ecológico do filme.
Em um primeiro artigo se destaca que Cameron faz um paralelo entre o “genocídio” dos brancos contra as populações nativas dos Estados Unidos, apresentando aos humanos do filme, como aos primeiros e aos segundos como aos “na’vi” do filme que habitam no mundo de Pandora, lugar onde transcorre a ficção.
A história do diretor, diz o texto, “tem uma aproximação branda, conta-se sem aprofundar e termina por cair no sentimentalismo”.
“Tudo se reduz –prossegue– a uma parábola anti-imperialista e anti-militarista fácil, logo que esboçada, que não tem a mesma mordente de outros filmes que procuram mostrar estes aspectos”.
O ecologismo de Avatar, diz o LOR, “inunda-se de um espiritualismo ligado ao culto da natureza que pisca o olho a uma das tantas modas do tempo. A mesma identificação dos destruidores com os invasores e dos ambientalistas com os indígenas aparece logo como uma simplificação que menospreza o âmbito do problema”.
O segundo artigo expõe o nascimento de um filme de culto com o Avatar. “Inaugurará, talvez –diz o texto– um novo gênero, criando um imaginário coletivo no qual se refletirá uma vez mais a força atrativa dos mundos alternativos, uma certa forma de espiritualismo ecológico hoje de moda e o temor, muito difundido, a viver uma verdadeira transcendência”.
O terceiro texto, tomado pelo LOR da revista Mondo e Missione (Mundo e Missão) leva por título “A religião de Pandora” e refere a opinião de alguns colunistas sobre este tema. O texto cita o comentarista de assuntos religiosos do New York Times, Ross Duhat, quem considera que Avatar apresenta “uma apologia do panteísmo, uma fé que faz Deus igual à natureza, e chama a humanidade a uma comunhão religiosa com o mundo natural”.
Este comentarista, prossegue o artigo, “recorda que esta visão religiosa é uma espécie de cavalinho de batalha de Hollywood mais recente. Para o Douthat a opção panteísta do Cameron e da indústria cinematográfica dos Estados Unidos em geral, segue através deste caminho porque ‘milhões de americanos responderam a ela de maneira muito positiva’”.
“E como reconhecia –continua– no século XVIII o filósofo francês Alexis de Tocqueville, ‘o credo americano na essencial unidade do gênero humano nos leva a anular toda distinção na criação. O panteísmo abre a porta a uma experiência do divino para as pessoas que não se sentem à vontade na perspectiva escriturística das religiões monoteístas’”.
Depois de fazer algumas comparações do filme com a concepção do hinduísmo, como que a cor azul dos na’vi seja similar ao da deusa Shiva –uma de suas principais deidades– o artigo sugere, citando a um blogger americano, que Cameron também poderia ter “unido a antiga teologia cristã da graça e da redenção à sua parábola anti-imperialista’. (quando afirma que chegar a ser um na’vi é voltar a nascer)”.
“O debate, como se vê, está mais aberto que nunca”, conclui.
Fonte : ACI
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Veja… A Igreja não está “proibindo” o filme. Como já falamos anteriormente a igreja com seus comentários ilumina nossa reflexão e nos mostra um lado da questão que, às vezes, passa batido para nós.
Aliás, essa visão de que a Igreja está a proibir não coaduna com sua proposta de formar as consciências e formar o homem maduro,capaz de viver sua fé em diálogo com o mundo, porém, sem ingenuidades e sem perder a capacidade de reter apenas aquilo que corresponde a nossos valores cristãos.
Aqui mesmo no blog já haviamos aberto o debate sobre o filme, com aprovações e reprovações,claro!
Fica mais esse artigo para nos iluminar a inteligência e firmar nossa fé.

Harlei Mendes

E olhe que esse é bem interessante!
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É no que acredita o padre Antonio Spadaro, jesuíta italiano e redator da revista La Civiltá Cattolica, na qual se tem ocupado principalmente de literatura, mas com incursões também nos campos da música, do cinema e das novas tecnologias.
Spadaro, especialmente sensível às obras que revelem um senso de religiosidade carregado de esperança, cumpre, em seus dois últimos ensaios publicados pela editora Jaca Book (“Abitare nella possibilità” e “L’altro fuoco”), um trajeto analítico no qual discute os caminhos percorridos por críticos e escritores representativos da grande literatura contemporânea.
Nessa entrevista, o sacerdote jesuíta aproveita a ocasião do recente encontro na Capela Sistina entre Bento XVI e 250 artistas de fama internacional para tratar da relação entre o cristianismo e a literatura e de como a experiência estética pode estar ligada ao senso de verdade e de justiça.
–Padre A. Spadaro: Em agosto deste ano, o Santo Padre, ao final de um concerto executado em sua honra pela Bayerisches Kammerorchester Bad Brückenau, se disse estupefacto com o som do oboé, um pequeno pedaço de madeira do qual flui “um universo inteiro”. Manifestando sua admiração pelo conteúdo de “promessa” emanado de um pequeno instrumento musical, prosseguiu: “Isto significa que toda a criação está repleta de promessas, e que ao homem é dada a dádiva de folhear este livro de promessas, ainda que por um momento”. Este é o papel da beleza, portanto: possibilitar ao homem compreender que a criação está repleta de promessas. A beleza nos dá a intuição sobre o nosso destino; e não nos permite ficar inertes: ao contrário, incita, sobretudo a quem possui o dom da fé, à ação.
A pobreza, a doença, a dor do inocente, a injustiça são percebidas então como um escândalo à luz da promessa que a beleza manifesta. Baudelaire, em alguma de suas notas sobre Poe, afirmava que os poetas percebem a injustiça muito frequentemente, até mesmo onde os olhos não poéticos não conseguem enxergá-la, e isto não porque se irritam mais facilmente, mas porque enxergam mais profundamente e têm uma percepção mais profunda da verdade e da justiça, precisamente por causa da beleza.
É por essa razão que o pontífice afirma que a experiência do belo autêntico não se reduz a algo acessório ou secundário na busca da felicidade: não representa uma fuga da realidade, mas, ao contrário, leva a uma relação íntima com o cotidiano, para liberá-lo da obscuridade e transfigurá-lo, tornando-o luminoso. Neste sentido, até mesmo um rosto desfigurado pelo sofrimento, aos olhos de quem crê, pode se revelar pleno de promessas – de promessas não cumpridas, mas tensionadas em direção ao seu cumprimento.
Este é o ponto que para se aceitar é necessária uma grande fé: detrás de uma grande imperfeição humana (dor, doença, tribulações) há uma incompletude que permanece absurda, a não ser que seja compreendida como o local onde é cumprida uma promessa de plenitude, a qual a intuição do belo proporciona à nossa consciência. Frequentemente a experiência artística exige demais do homem e expõe o artista ao risco de ser oprimido por esta caso ele não seja dotado desta potente visão que é a própria fé.
Todas as necessárias ações humanas, todos os esforços empreendidos contra o mal e o sofrimento ganham nova luz sob essa perspectiva mais ampla. A realidade humana, vista sob essa ótica, assume grande plasticidade e dinamismo: nada mais pode ser visto com os olhos habituados às categorias próprias da vida cotidiana, que já não são suficientes. Essa visão é possível, obviamente, apenas ao olho profético, que se torna então o critério verdadeiro e radical (ainda que invisível) que possibilita ler o que esta para além dos olhos. Desse modo, portanto, o desenvolvimento humano e a promoção social podem sim brotar da beleza.
–Há uma literatura cristã? Ou é preferível falar numa literatura vivificada pelo mistério cristão? O que caracterizaria um autor “cristão”?
–Padre A. Spadaro: Eu não distinguiria com facilidade diferentes autores com base neste critério de serem religiosos ou não-religiosos. A meu ver, é uma distinção inútil, sem qualquer significado, até mesmo para um leitor devoto. Mas o cristão tem à mão esse instrumento ótico poderosíssimo que é a fé, e que lhe permite olhar e ler qualquer coisa com liberdade de julgamento. A fé não limita a visão; ao contrário, amplia-a e a potencializa, liberando-a de temores. Os escritores que manifestam sua fé cristã podem, segundo as palavras de Flannery O´Connor, “ser os mais agudos observadores do grotesco, do perverso e do inaceitável”.
–É possível evidenciar na literatura características próprias de autores católicos que os diferenciem, por exemplo, de autores protestantes ou ortodoxos?
–Padre A. Spadaro: Na Itália, em certos contextos culturais pode ser considerado politically uncorrect (politicamente incorreto) falar em “católico”; melhor dizer “cristão”. Ora, é claro que, em geral, “católico” não pode se referir a alguma delimitação de território, mas à ótica de um olhar universal. Todavia não se pode negar que exista uma tradição cultural genuinamente católica, assim como existe uma tradição protestante e também uma tradição ortodoxa, internamente ao cristianismo. As diversas tradições cristãs trazem consigo atitudes, modos de viver o cristianismo que são fruto de teologias e de sensibilidades espirituais não homogeneizáveis ou niveláveis.
–Em sua carta dirigida aos artistas, João Paulo II escreveu que “mesmo quando explora as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista se faz de algum modo porta-voz do desejo universal de redenção.” Frequentemente ele se referia a escritores e poetas, por assim dizer, “de fronteira”, isto é, não diretamente de inspiração cristã, mas que davam voz às inquietações humanas e a uma religiosidade que falasse da esperança. Talvez na literatura moderna ressone mais aquele apelo sincero que se encontra em Jó do que aquele olhar estupefato que encontramos no Genesis?
–Padre A. Spadaro: Sim, concordo, e escrevi sobre isso num artigo recente na La Civiltá Cattolica. O território da consciência inquieta é fundamental para que possamos intuir a relação entre a literatura e a religiosidade. Talvez este tenha sido o viés mais praticado pela crítica católica no século XX. A estrada percorrida ao longo do século passado é a de um Santo Agostinho sismógrafo da condição humana e de seu cor inquietum. Ainda assim, esta não é a única estrada disponível; as raízes antigas da poesia italiana residem na lauda e nos cânticos franciscanos, no olhar maravilhado e aberto ao mundo, no espanto da condição de criatura. Não é somente no movimento do coração e nos tormentos da alma que encontramos as marcas do divino que são transmitidos aos versos dos poetas. Devíamos talvez ir mais além, na direção do maravilhamento ante a criação, da realidade vista como um presente de Deus.

Ontem saí de casa mais cedo do que o normal, a temperatura era amena de primavera, o dia estava amarelo e azul, do som do meu carro se evolava o rock suave da Rádio Itapema e eu me sentia realmente bem. Estacionei numa rua quase bucólica do Menino Deus e vi que ali perto um catador de papel puxava sua carrocinha sem pressa.
Era magro e alto, devia andar nas franjas dos 50 anos e tinha a pele luzidia de tão negra. Ao seu lado saltitava um menino de, calculei, uns quatro anos de idade, talvez menos. Devia ser o filho dele, porque o observava com um olhar quente de admiração, como se aquele homem fosse o seu herói… Bem. Ao menos foi o que julguei, certeza não podia ter.
Já ia me afastar quando, por entre as grades da cerca de uma creche próxima, voou um brinquedo de plástico. Um desses robôs cheios de luzes e vozes, que se transformam em nave espacial e prédio de apartamentos, adorado pelas crianças de hoje em dia. Algum garoto devia ter atirado o brinquedo para cima por engano, ou fora uma gracinha sem graça de um amigo.
O menino que era dono do brinquedo colou o rosto na grade como se fosse um presidiário, angustiado. O filho do catador de papel correu até a calçada, colheu o robô do chão e não vacilou um segundo: retornou faceiro para junto do pai, o brinquedo na mão, feito um troféu.. Olhei para o menino atrás da cerca. Estranhamente, ele não falou nada, não gritou, nem reclamou. Ficou apenas olhando seu brinquedo se afastar na mão do outro, os olhos muito arregalados, a boca aberta de aflição.
Muito orgulhoso, o filhinho do catador de papéis mostrou o brinquedo ao pai. O pai olhou. E fez parar a carrocinha. Largou-a encostada ao meio-fio. Levou a mão calosa à cabeça do filho. E se agachou até que os olhos de ambos ficassem no mesmo nível.
A essa altura, eu, estacado no canteiro da rua, não conseguia me mover. Queria ver o desfecho da cena. O pai começou a falar com o menino. Falava devagar, com o olhar grave, mas não parecia nervoso. Explicava algo com paciência e seriedade. O menino abaixou a cabeça, envergonhado, e o pai ergueu-lhe o queixo com os nós do dedo indicador. Falou mais uma ou duas frases, até que o filho balançou a cabeça em concordância.
A seguir, o menino saiu correndo em direção à creche. Parou na grade, em frente ao outro garoto. Esticou o braço. E, em silêncio, devolveu-lhe o brinquedo. Voltou correndo para o pai, que lhe enviou um sorriso e levantou a carrocinha outra vez. Seguiram em frente, o pai forcejando, o filho ao lado, agora não saltitante, mas pensativo, concentrado.
Então, tive certeza: aquele olhar com que o menino observara o pai era mesmo de admiração, ele era de fato o seu herói.
Texto publicado no jornal Zero Hora.
David Coimbra, jornalista

Um prestigioso científico jesuíta dedicado atualmente a explicar as conseqüências metafísicas dos últimos descobrimentos astrofísicos, assegurou que estes achados deixam pouco lugar ao ateísmo.
Conforme informa o jornal La Razón, para o jesuíta, filósofo e físico Robert Spitzer, ex-reitor da Universidade Gonzaga, a astrofísica contemporânea é “a chave científica para provar a existência de Deus, mas infelizmente muito poucos conhecem estes fatos científicos”.
Durante uma conferência oferecida em Denver, Estados Unidos, Spitzer explicou que “a existência de um Criador se pode explicar através da ciência contemporânea e a filosofia moderna, hoje melhor que nunca, mas é particularmente interessante o que está acontecendo no campo da astrofísica, até o ponto de que não posso compreender por que o agnosticismo e o ateísmo ainda seguem sendo populares”.
Spitzer assinalou que as provas científicas mais recentes evidenciam que “o Universo não é infinito, a mas finito, que começou em um certo ponto (estimado aproximadamente em treze bilhões de anos), e está em constante expansão.
“A complexidade do Universo se apóia em um equilíbrio incrivelmente delicado de 17 constantes cosmológicas. Se qualquer uma delas se modificasse uma décima a tetragésima potência, estaríamos mortos e o Universo não seria o que é”, adicionou.
Do mesmo modo, assinalou que “cada modelo do Big Bang mostra o que os cientistas chamam uma singularidade, e a existência de cada singularidade exige que exista um elemento externo ao Universo”.
Neste sentido, recordou que Roger Penrose, o famoso matemático e físico inglês, corrigiu alguma das teorias de seu amigo e colega Stephen Hawking, concluindo que todas as teorias do Big Bang, inclusive a chamada “teoria quântica”, confirmam a existência destas singularidades.
Todas as explicações nos levam “a uma força que é prévia e independente ao Universo. Pode soar a argumento teológico, mas é realmente uma conclusão científica”, assegurou conforme informa La Razón.
O perito indicou que “não se pode não aceitar a existência desta singularidade. Esta teoria é tão sólida que 50 por cento dos astrofísicos estão ‘saindo do armário’ para aceitar uma conclusão metafísica: a necessidade de um Criador, fora do espaço e do tempo”.
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E ainda,outro artigo bem interessante sobre o tema.

O Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, Dom Gianfranco Ravasi, reafirmou que através da ciência se pode chegar à fé, pois como assinalou Santo Agustinho, uma fé que não é pensada é inútil, quer dizer que “a razão e a fé devem entrelaçar-se ininterruptamente”.
Em diálogo com a Rádio Vaticano, o Prelado advertiu que a sociedade atual se encontra perante uma tentação muito forte de marginar o pensamento religioso, considerando-o como se fosse próprio do “paleolítico cultural”.
Indicou que essa tentação às vezes se expressa em um mundo secularizado em formas agressivas como a chamada “ateología”, que é um ateísmo fundamentalista.
Entretanto, Dom Ravasi destacou o interesse que existe na sociedade contemporânea pelas perguntas fundamentais e cujas respostas a ciência não pode dar, mas se encontram no mundo da filosofia e da teologia.
Fonte: ACI

O maior problema que os católicos enfrentam hoje é a crise de confiança em Deus, afirma do padre Thomas D. Williams, LC, autor do livro Can God Be Trusted? Finding Faith in Trouble Times, recém-lançado nos Estados Unidos.
“O mundo de hoje está cheio de traição”, ele afirma em seu livro, “traição de pais, de amigos, de esposos, de sacerdotes, de instituições. Mas os maiores problemas começam quando damos início as questionamentos à fidelidade de Deus. Muitos hoje não estão convencidos de que Deus compre suas promessas, e esta desconfiança pode destruir nossa vida espiritual”.
Nesta entrevista,pedimos a padre Williams, professor de teologia em Roma e comentarista do canal de televisão norte-americano CBS, que explique a natureza desta crise e as possíveis soluções que apresenta em seu livro.
Por que publica um livro em que pergunta se Deus é fiel?
–Pe. Williams: Comecei este livro há três anos, quando me dei conta de como, frequentemente, em conversas espirituais, os problemas das pessoas voltam ao tema ‘confiança em Deus’. Parece-me que todos temos problemas com a confiança e que muitas de nossas dificuldades na vida espiritual estão de algum modo ligadas a uma falta de confiança em Deus.
Por outro lado, é admirável como a Bíblia –por exemplo, no livro dos Salmos– insiste novamente na importância da confiança em Deus, como núcleo de uma vida espiritual. Deus quer que se tenha confiança e quase nos implora que dependamos dele incondicionalmente. Não existe nada mais difícil, nem importante para a vida cristã.
Este livro quer responder a muitas pessoas que possuem dúvidas sobre a fidelidade de Deus. Eu o escrevi especialmente para aqueles que desejam verdadeiramente confiar em Deus, mas que, por alguma razão, têm problemas de confiança.
–Quais são alguns desses problemas?
–Pe. Williams: Para escrever este livro, reuni uma equipe de investigadores que me ajudaram a entrevistar centenas de pessoas nas ruas sobre a confiança em Deus. Queria me assegurar de que não estava apenas projetando minhas próprias experiências e pensamentos, como também respondia as dúvidas, as dificuldades e as perguntas que as pessoas possuem atualmente.
As respostas a estas entrevistas me iluminaram muito e me ajudaram a compreender uma série de atitudes, desde pessoas cuja confiança em Deus parecia inabalável até outras que simplesmente acreditam que Deus não é confiável.
Muitas respostas, a grande maioria, caíram no meio de dois extremos e expressaram um profundo desejo de confiança em Deus, contudo, muitas dificuldades para colocá-la em prática.
–Por exemplo?
–Pe. Williams: Às vezes estas dificuldades vêm de uma série de traições geradas na infância. Custa para as pessoas que se sentem enganadas por seus pais, por exemplo, confiar em Deus (que se apresenta como Pai).
Outros experimentaram as traições de sacerdotes, que ferem profundamente suas relações com Deus e com a Igreja. Alguns vão ao ponto de culpar a si mesmos, pois acreditam que não são dignos da fidelidade dos outros. E quando há este sofrimento nas relações interpessoais, é difícil que não haja influência na relação com Deus.
Já outros se sentem traídos por Deus. Em nossas pesquisas, muitas pessoas afirmaram ter dado plena confiança a Deus, mas disseram que ele falhou. Confiaram nele, mas ele não ofereceu nada. Esta tende de ser uma das experiências mais dolorosas da vida e tínhamos que tratá-la no livro.
–Que diz a uma pessoa que se sente traída por Deus?
–Pe. Williams: O que não pode fazer é pregar. Ninguém quer escutar que está equivocado, que não é justo com Deus ou que pode imaginar o problema. Não seria correto nem construtivo.
Tento falar mais com um companheiro de viagem do que como um professor. Todos já tivemos de enfrentar situações semelhantes a estas e temos de ajudar uns aos outros para superar os obstáculos da fé e da confiança.
O primeiro passo para recuperar a confiança pode vir da compreensão de que Deus não é indiferente a nosso sofrimento. Não é apático, nem distante, nem despreocupado. Na verdade, ele “sente nossa dor” inclusive mais profundamente que nós mesmos. Não foi esta a mensagem da cruz, em que Jesus Cristo escolheu padecer conosco?
–Há caminhos para superar nossa desconfiança?
–Pe. Williams: Acredito que existam muitos. Dedico dois capítulos do livro a um tema que considero fundamental: o ajuste de nossas expectativas sobre Deus. Estou convencido de que muitas vezes (nem sempre), nossas experiências de traição procedam de um mal-entendimento fundamental: esperamos que Deus cumpra as promessas que nunca fez, ao invés de aproveitar plenamente as promessas que nos fez. Todos temos necessidade de comentar nossas expectativas sobre Deus. Quem é Deus para mim? O que Ele me prometeu? O que posso esperar Dele que nunca foi oferecido?
Por exemplo, Jesus Cristo jamais prometeu que, se o seguíssemos tudo seria mais fácil em nossas vidas. Não prometeu segurança no emprego, nem liquidez econômica, nem saúde perfeita, nem casamentos ideais nem muitas outras coisas que de fato gostaríamos. O fato é que, aos seguidores, Jesus Cristo prometeu uma parte de sua cruz todos os dias.
–Temos de redimensionar nossas expectativas para um nível mais racional? Esperar menos para não nos decepcionar?
–Pe. Williams: Não, não. É exatamente o oposto! As coisas que normalmente esperamos de Deus (e sobre as quais nos chateamos quando não recebemos) são os bens temporários e não eternos.
Dói-nos não tê-los, mas este mesmo pode ser um caminho a um coração mais puro e com prioridades mais claras. Deus não nos promete menos que isso, e sim muito mais.
Basta ver algumas das coisas maravilhosas que Jesus Cristo nos promete: promete dizer-nos sempre a verdade. Promete nos amar sempre, incondicionalmente. Promete-nos tudo o que necessitamos para chegar ao céu. Promete que nunca nos exigirá mais do que podemos oferecer. Promete estar sempre conosco e nunca nos deixar sozinhos. Promete dar sentido e valor a todos nossos sacrifícios, lutas, provas e trabalhos. Promete ser nosso prêmio eterno.
Estas coisas não são menos importantes que a seguridade no emprego! São maiores, mais importantes! Deus é o único que pode oferecer tais promessas e cumpri-las.
–Alguns dizem que a confiança de Deus é somente uma desculpa para pessoas preguiçosas que não querem assumir suas próprias responsabilidades. O que pensa disso?
–Pe. Williams: Se trata de uma queixa típica e compreensível, e sim, tento responder em meu livro. Confiança e responsabilidade não se excluem mutuamente, pois se complementam. O segredo está em identificar bem qual é nossa parte e qual parte corresponde a Deus. A virtude da humildade nos ajuda a dar-nos conta de que dependemos de Deus para muitas coisas. Não podemos caminhar sós pela vida; necessitamos da amizade de Deus em cada momento. Mas este reconhecimento sincero de nossa dependência de Deus não nos deveria levar à abdicação de nossas responsabilidades.
Deus nos criou livres, capazes de compromissos e capazes de dominar nossos projetos. No final das contas, não se trata de “ou Deus ou eu”, mas ele nos convida a partilhar de uma responsabilidade com ele. Recorde que Jesus não só compara seus seguidores aos pássaros do céu e lírios do campos. Também nos compara ao administrador fiel, que sabe como distribuir a comida aos servos no momento oportuno. (Lucas 12, 42). Compara-nos aos servidores encomendados com os bens do dono, para administrá-los e “negociar” com eles (Lucas19,13). Lembra seus discípulos que os trabalhadores são poucos e pede-lhes para orar ao Dono da colheita que envie operários para sua messe (Lucas 10,2). Jesus Cristo quer que confiemos, mas também que lance-mos as mãos e trabalhemos.
–Este livro está destinado a reforçar a confiança das pessoas em Deus?
–Pe. Williams: Sim. Todos passamos por momentos difíceis e às vezes o que mais necessitamos é de que alguém nos direcione e nos recorde que Deus é fiel, que a confiança é possível e que, apesar de nossos sofrimentos mais profundos, e inclusive nossos remorsos, somo amados!
Fonte: Zenit