Artigo da ‘Ética’ Categoria

* A Igreja é contra o progresso da bioética?

segunda-feira, agosto 23rd, 2010
Por Pe. Gonzalo Miranda L.C.*

Dignitas personae vinte anos após Donum vitae.

A ciência e a técnica prosseguem em seu avanço, que nem sempre e necessariamente comporta um avanço em termos humanos. O Magistério da Igreja analisa sempre com interesse as novas descobertas, invenções e aplicações tecnológicas; analisa-as de um ponto de vista ético, no horizonte do respeito e da promoção da dignidade da pessoa humana, cada ser humano em si.

Em 1987, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a instrução intitulada “O respeito pela vida humana nascente e a dignidade da procriação”. Nesta, apresentava a posição do Magistério católico universal sobre as problemáticas éticas ligadas à aplicação das técnicas de reprodução assistida, então aplicadas em grande escala e com recurso de métodos de fecundação extra-corpórea há apenas dez anos.

Em dezembro de 2008, a mesma Congregação apresentou uma nova instrução, desta vez de título “Instruções sobre algumas questões de bioética”. Apesar da amplitude sugerida por este título, a temática é essencialmente a mesma da Donum vitae.

O novo texto se apresenta com um caráter de atualização, aprofundamento e esclarecimento. Atualização porque, no curso destes vinte anos, muitas novidades surgiram no âmbito da reprodução artificial e assuntos correlatos.

Algumas destas inovações já eram anunciadas nos anos oitenta, outras apenas mais tarde. Pense na crioconservação de embriões humanos, com todos os problemas éticos, psicológicos e sociais implicados. Pense nas tecnologias de diagnóstico pré-natal e na possível eliminação de embriões indesejados. Pense nas propostas de clonagem “terapêutica” ou ainda de congelar os ovócitos ou fazer diagnósticos nos próprios embriões. Um longo etcétera.

No que se refere aos valores em jogo, aos bens a serem protegidos e aos princípios éticos que podem iluminar o uso das novas tecnologias, não era preciso abrir novos caminhos.

Convinha, porém, afrontar explicitamente estas novas fronteiras. O Magistério da Igreja pretende ser dinâmico, propor a luz da razão e da fé para amparar os católicos e todos aqueles que se dispõem a ouvi-lo nos meandros antigos e novos, e frequentemente tortuosos, que se apresentam a nós.

O trabalho de aprofundamento é sempre incompleto. É sempre possível – e com frequência conveniente – ir além. Também neste sentido, o Magistério nos ampara e ilumina. A nova Instrução nos propõe uma avaliação mais articulada do status ontológico do embrião humano, com base nos ensinamentos anteriores, de cunho predominantemente ético. Trata-se, como sabemos, do ponto central e também do punctum dolens, de todas as disputas e posições referentes ao que a técnica é capaz de fazer com os embriões: desde sua produção até sua destruição, passando por sua seleção e manipulação. A iluminação teológica do problema, proposta na primeira parte, enriquece toda nossa compreensão da dignidade inviolável do ser humano que se encontra – como todos nós já nos encontramos um dia – nos primeiros momentos de sua existência e desenvolvimento.

Muitos esperavam por um serviço de esclarecimento sobre esta série de problemas éticos, sobre os quais ainda não se dispunha de um ensinamento magisterial claramente definido e sobre os quais as opiniões de diversos autores divergiam, mesmo entre aqueles que alegavam defender com sinceridade os valores promovidos pela doutrina católica.

Seria eticamente admissível a adoção pré-natal, única via disponível para dar oportunidade aos embriões humanos congelados ou abandonados a prosseguirem em sua existência? Quais intervenções artificiais podem ser consideradas “complementares” e não “substituitivas” ao ato conjugal em vista da assistência à procriação, à luz do ensinamento ofertado pelo Papa XII e sintetizado pela Donum vitae? Podem-se aceitar pesquisas que tenham como objetivo a obtenção de células-tronco do tipo embrionárias, mas que não envolvam a formação ou destruição de embriões humanos? É moralmente aceitável a utilização de medicamentos e tratamentos, tais como vacinas, obtidos a partir de estudos que lançam mão de material biológico de origem ilícita?

Sobre alguns destes dilemas, a Instrução oferece um discernimento claro e articulado – por exemplo, no que se refere ao uso de material biológico humano de origem ilícita.

Com relação às técnicas para obtenção de células-tronco pluripotenciais sem a produção de embriões, o texto convida à prudência, uma vez que ainda não está claro qual seria o status ontológico do resultado obtido. Sobre o tema das técnicas “complementares”, simplesmente se reitera a doutrina de Pio XII e da Donum vitae, sem aplicá-la à análise das técnicas em questão: a incorretamente denominada “inseminação artificial” e a GIFT (Transferência de Gametas para as Trompas). A propósito do debate relativo à adoção pré-natal, abriu-se nova discussão sobre a correta interpretação do texto da Instrução.

Após quase vinte anos de debates sobre o tema da adoção, a Santa Sé se manifestou expressamente a respeito. Se o fez da forma como fez, é por que há um motivo.

A instrução é parte integrante do assim chamado “Magistério ordinário”, ao qual devemos (e desejamos) dar aquele religiosum voluntatis et intellectus obsequium que nossa fé exige e que nos é lembrado no Concílio Vaticano II (GS, 25), conforme enfatizou oportunamente Dom Francisco Ladaria, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, na ocasião da apresentação pública da Instrução. Este obsequium, no entanto, não implica em que não se deva esforçar para compreender melhor aquilo que o texto nos ensina, e eventualmente distinguir daquilo que o texto não nos ensina. E que não se deva também aprofundar, aplicar e defender a doutrina por ele oferecida.

* P. Gonzalo Miranda foi secretário operativo do Centro de Bioética da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Roma, de 1993 a 2001. Em 2001, fundou a Faculdade de Bioética do Ateneu Pontifício Regina Apostolorum (APRA). De 2001 a 2006, foi decano da Faculdade de Bioética da mesma universidade. Professor titular de bioética e de teologia moral na APRA, é membro do Conselho Diretivo do Centro de Bioética da Universidade Católica do Sagrado Coração, membro da Federação Internacional dos Centros de Bioética de Inspiração Personalista (FIBIP) e membro da Federação Internacional de Faculdades de Medicina Católicas (AIFMC).

* Metáfora do esporte e o caso Bruno: a inteireza é determinante!

quarta-feira, julho 14th, 2010

A citação do caso Bruno foi usado para ilustrar de forma concreta e atual essa reflexão.

Aqui não se entra no mérito da culpa pessoal do jogador,que pertence a Justiça, nem o caso foi citado originalmente no artigo que se mantem em sua “inteireza” abaixo, sem citar o jogador.

Porém,ao ler o artigo não tem como não lembrar-se deste lastimável caso ainda em análise pela justiça.

***

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
“É muito pouco, e não raramente desastroso, associar talentos ao dinheiro”, diz arcebispo
No contexto do recente torneio Mundial de Futebol, em que o esporte, usado como metáfora, “contribui para explicar os desafios de viver adequadamente este dom que é a vida”, fica evidente que a construção de um talento vitorioso depende de muitos fatores, “de um conjunto de articulações e investimentos para dar frutos”.“Quando não se pode contar com a conjugação de vários fatores, o talento, por mais especial que seja, corre sempre o risco de perder força e de não alcançar metas possíveis da sua inerente constituição.

“O sucesso que se almeja para a vida, em cada uma das suas etapas e, em função de metas definidas, exige âncoras para fazer florescer os talentos”, destaca o arcebispo.

Segundo Dom Walmor, a cultura tem uma grande responsabilidade nesse contexto. “O substrato cultural, considerado nas suas diversidades, é determinante para que o florescimento de talentos e as responsabilidades assumidas possam chegar a bom termo”.

Ele cita também a importância do equilíbrio emocional, “capaz de sustentar um indivíduo em condições necessárias para se manter o ritmo e recuperar-se das perdas reavendo, em tempo hábil, a capacidade de retomar metas na direção da vitória proposta”.

“O equilíbrio emocional tem tudo a ver com a configuração afetiva de cada um, que, por sua vez, remete ao substrato familiar e cultural que ampara o modo de viver”, explica.

De acordo com o arcebispo, o talento “precisa dessa ambientação, que inclui investimentos de toda ordem, emoldurados por uma cultura consistente”. “Essa consistência, envolvendo variados aspectos emocionais, comportamentais e morais, é o substrato que mantém um indivíduo na condição de alcançar metas.”

O prelado considera que “é muito pouco, e não raramente desastroso, associar talentos ao dinheiro. Isto se verifica de modo muito prejudicial quando, pela força do talento, se é projetado para uma condição em que o volume de dinheiro e de benesses conquistados não tem sustentação humanística, espiritual e moral”.

Aqui se considera “o desafio permanente de saber perder – com elegância e sem perder a cabeça – além da capacidade exigente de administrar a vitória, na parcialidade de sua duração”.

“Se o talento permite antecipar condições favoráveis de vitória, esta pode se esvair facilmente quando não há um lastro de humanidade e de formação integral, escolar, familiar e social que mantenha os indivíduos talentosos equilibrados nos embates próprios da proposta de vitória.”

Segundo Dom Walmor, essa leitura aplica-se “no âmbito do esporte, que se joga e se projeta em todas as condições da vida, sobretudo, no exercício de responsabilidades cidadãs e nas tarefas de importância social e política no conjunto do funcionamento de uma sociedade”.

“A perda do equilíbrio emocional e a falta de substrato humanístico e moral são constatáveis, trazendo enormes prejuízos, nos mais diversificados âmbitos da vida. A consequência aponta para o comprometimento da qualidade dos resultados das atividades e responsabilidades assumidas”, afirma.

Dom Walmor assinala ainda que “a estatura humanística, com a qual se precisa contar para exercer a cidadania e cumprir os cargos e encargos assumidos, é resultado e fruto de um investimento grande e empenhado, com alcance social e político de importância decisiva”.

“Do contrário, projetado pelo talento e ajudado pela oportunidade, na hora crucial em que o equilíbrio e a elegância humanística são imprescindíveis, o medo pode colocar as chances de conquistas em risco. Não se vence apenas pelos talentos. A inteireza é sustentáculo e é determinante”, afirma.

(Alexandre Ribeiro)

* “Body Worlds”. Exposição “artística” de corpos humanos reais e plastificados, o que pensar?

segunda-feira, abril 19th, 2010
Bispo de Calgary, Canadá, alerta sobre a exposição “Body Worlds”
Existem questões éticas e morais que devem ser consideradas ao expor corpos humanos reais, afirma o bispo de Calgary (Alberta), Dom Frederick Henry. Ele afirma em um artigo, publicado no website da diocese, sobre a exposição de fama internacional Body Worlds, que será aberta ao público na cidade canadense dia 30 de abril.

A exposição apresenta corpos humanos reais que foram submetidos a plastinação, a qual permite aos visitantes ver detalhes da anatomia humana.

Dom Henry recorda em seu artigo as críticas realizadas por alguns de seus irmãos bispos.

Quando a exposição Body Worlds chegou a Cincinnati, o arcebispo Pikarczyk afirmou: “a exibição pública de corpos plastinados, sem identificação, e expostos sem reverência é indigna e inadequada”.

Em Kansas City, o bispo Finn e o arcebispo Naumann se queixaram: “isso representa uma espécie de ‘taxidermia humana’ que degrada as pessoas reais que, por meio de seus corpos, uma vez viveram, amaram, oraram e morreram.

Por sua vez, Dom Henry ilustra algumas das questões morais implicadas na exposição. “A preocupação da Igreja pela dignidade humana é estendida ao corpo mesmo que a alma não esteja mais presente”, expica.

“Os corpos dos mortos merecem respeito e caridade, preservando a dignidade outorgada por Deus à pessoa humana”, conta.

“Outra questão importante é se os corpos foram obtidos de uma forma apropriada”, adverte o bispo de Calgary, e afirma que “há duas questões, de privacidade e transparência, para serem resolvidas”.

O prelado reconhece que “se pode argumentar que isso também legitima o valor educativo do uso de modelos plastinados para ensinar anatomia”.

Mas, acrescenta, quando os corpos estão expostos “brincando ou colocados em movimentos atléticos ou macabros, cruzamos a linha da educação para entrar no mundo do entretenimento, arte e amostras comerciais questionáveis”.

Nesse contexto, o bispo pergunta: “quem ganha com esse tipo de produção?”

E conclui, repetindo que a moral e a ética deveriam ser consideradas pelos possíveis visitantes da exposição Body Worlds.

Se as crianças devem ou não visitar essa exposição é uma decisão dos pais, afirma. É apropriada para elas? Provavelmente não. Deveria estar relacionada com um tipo particular de curso ou estudo? Provavelmente, e esperamos que não só anatomia e economia”.

Zenit

* Papa: Sem uma ética radicada na lei natural, a ciência e a lei manipulam a vida e a dignidade humana.

domingo, fevereiro 21st, 2010


Bento XVI recebeu em audiência  na Sala Clementina, no Vaticano, os membros da Pontifícia Academia para a Vida, reunidos nestes dias em assembléia geral e conduzidos por seu presidente, o arcebispo Rino Fisichella.

A ciência sozinha não basta para compreender o valor da dignidade humana, nem para garantir o respeito pela sacralidade da vida. Isso é possível somente se se reconhece que nela brilha o fundamento da lei natural, inscrita não pelo homem, mas por Deus, disse o papa, no discurso que dirigiu aos presentes, no qual abordou o delicado tema da bioética em relação aos problemas atuais.

A idéia de que a vida seja matéria “manipulável” pela ciência igualmente a outros aglomerados orgânicos, ou o pietismo fácil de quem se comove diante de “situações-limite” e crê que isso vale como respeito pela dignidade humana: todas derivas perigosas – como a de um Estado que pretenda fixar por leis questões éticas fazendo-se ele mesmo princípio de ética – se se ignora ou se desconhece o valor da lei natural.

Como em análogas ocasiões, ou como na última encíclica “Caritas in veritate”, o pontífice fez afirmações de grande clareza. Hoje – reiterou – a partida do “desenvolvimento humano integral” se joga no campo da bioética:

“Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, em que emerge com força dramática a questão fundamental: se o homem é produzido por si mesmo ou se ele depende de Deus.

As descobertas científicas neste campo e as possibilidades de intervenção técnica parecem tão avançadas a ponto de impor a escolha entre as duas racionalidades: a racionalidade da razão aberta à transcendência ou a racionalidade da razão fechada na imanência.”

A própria bioética, no momento em que emergem “possíveis conflitos interpretativos”, necessita de uma sólida “evocação normativa”, e isso – precisou o papa – se funda na “lei moral natural”.

É nela – explicou – que o reconhecimento da dignidade humana, “enquanto direito inalienável, encontra o seu fundamento primeiro naquela lei não inscrita por mão humana, mas inscrita por Deus Criador no coração do homem”.

Vice-versa – objetou o Santo Padre – “sem o princípio básico da dignidade humana seria árduo encontrar uma fonte para os direitos da pessoa e impossível alcançar um juízo ético em relação às conquistas das ciências que intervêm diretamente na vida humana”:

“É necessário, portanto, repetir com firmeza que não existe uma compreensão da dignidade humana ligada somente a elementos externos como o progresso da ciência, o gradualismo na formação da vida humana ou o fácil pietismo diante de situações-limite.

Quando se evoca o respeito pela dignidade da pessoa é fundamental que tal respeito seja pleno, total e incondicional, reconhecendo encontrar-se sempre diante de uma vida humana.” (RL)

***

O papa, como sempre, perfeito em sua argumentação.

Não podemos como cristãos nos omitir diante desta possibilidade.

É por isso que querem restringir a religão ao âmbito privado para que a fé não ilumine nem questione determinadas posturas cientificas sem ética,o que seria o mal para a vida e para o próprio homem.

* É o controle populacional a resposta para os problemas do mundo, inclusive o aquecimento global ?

quarta-feira, dezembro 23rd, 2009

Por Pe. John Flynn, L.C.

A cúpula do clima de Copenhague trouxe uma enxurrada de opiniões sobre questões ambientais. Entre elas está um retorno inquietante da posição malthusiana de ver o controle da população humana como uma das soluções para os problemas do mundo.

De acordo com um artigo de opinião de Diane Francis, publicado no dia 8 de dezembro no jornal canadense National Post, é necessário que se instale mundialmente a política chinesa de um filho por casal.

Francis afirma que isso iria reduzir a população mundial atual de 6,5 bilhões para 3,43 bilhões, em 2075. Embora a ação seja mais extrema do que a maioria, ela não está sozinha na defesa do controle populacional.

Pouco antes da reunião de Copenhague, Optimum Population Trust, da Grã-Bretanha, lançou um esquema de compensação de carbono, de acordo com o jornal The Guardian, em notícia publicada no dia 3 de dezembro.

Segundo explicava John Vidal, redator de meio ambiente do jornal, isso permite aos consumidores ricos compensar seu estilo de vida de viagens em jatos privados financiando a anticoncepção nos países mais pobres.

Segundo Vidal, os cálculos de Trust mostram que as 10 toneladas de carbono emitidas por um voo de Londres a Sydney poderiam ser compensadas evitando o nascimento de uma criança em um país como o Quênia.

Parece que o neocolonialismo ainda está vivo nas atitudes de alguns ambientalistas que não veem qualquer problema em fazer que as nações em desenvolvimento contenham sua população para que as emissões de carbono dos países mais ricos sejam compensadas.

Ao lançamento do programa seguiu um relatório publicado em agosto por Trust: “Menos Emissores, Menos Emissões, Menos Custo: Reduzir as emissões futuras de carbono investindo em Planejamento Familiar”.

As conclusões do estudo afirmavam: “a análise de custo/benefício revelou que o planejamento familiar é consideravelmente mais barato do que muitas tecnologias que visam a diminuir a emissão de carbono”.

“Com base nos resultados do estudo, propõe-se que os métodos de planejamento familiar sejam considerados uma ferramenta básica na estratégia de contenção das emissões de carbono”, defende o relatório.

Previsão de desastres

O Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) juntou-se ao coro malthusiano com a publicação de seu Informe de Estado da População Mundial 2009.

O informe impulsionava um maior acesso à “saúde reprodutiva”. Este termo das Nações Unidas há de se entender incluindo o acesso a preservativos, contraceptivos e ao aborto.

“Alcançado um ponto onde a humanidade está beirando o desastre”, afirmou Thoraya Ahmed Obaid, diretora executiva do UNFPA, no lançamento do relatório, em Londres, no dia 18 de novembro.

O relatório foi apresentado pela imprensa com títulos como: “ONU: Lutar contra as mudanças climáticas com preservativos livres” (Associated Press, Nov. 18).

“Controle de Natalidade: A maneira mais eficaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, alardeou no dia 19 de novembro a manchete do jornal Times de Londres, em uma matéria sobre o relatório.

Junto a este chamado à saúde reprodutiva nas nações em desenvolvimento, e para confundir mais, havia outras declarações que contradiziam a tese de que menos gente nos países mais pobres distanciaria o mundo do precipício do desastre ambiental.

“A responsabilidade principal para o atual acúmulo de gases de efeito estufa é dos países desenvolvidos”, o relatório admitiu.

“A relação entre a população e a mudança climática é, na maioria dos casos, complexa e indireta”, de acordo com a análise feita pelo relatório.

O melhor guia para a questão da população e do meio ambiente veio em um relatório especial publicado através da revista The Economist na edição do dia 31, em outubro.

No editorial que acompanha o relatório, a revista apontou que a tendência da baixa fertilidade nos países em desenvolvimento já é avançada. “A queda atualmente da fertilidade é muito grande e muito rápida”, publicou.

Imoral

De acordo com o edital, nós podemos limitar o impacto humano sobre o meio ambiente de três formas: política demográfica, tecnologia e governança. Com respeito à população, não há muito mais a ser feito, argumentou a revista. Apenas uma “coação ao estilo chinês” poderia trazer uma mais rápida redução na fertilidade.

Notadamente, para uma publicação que não defende nenhuma forma de religião, o editorial também acrescentou que: “forçar os pobres a ter menos filhos do que eles desejam porque os ricos consomem demasiados recursos do mundo seria uma atitude imoral”.

O próprio relatório propõe que a forma de lidar com as emissões de carbono e as preocupações ambientais não é tentar reduzir a fertilidade e sim alterar o crescimento econômico de modo que seja menos poluente e com menos recursos.

O sociólogo britânico Fran Furedi explorou o retorno do malthusianismo em uma artigo escrito para o site Spiked. Seu comentário, no dia 7 de dezembro, atacou duramente as propostas da Optimum Population Trust por ser “um organização malthusiana quase zumbi dedicada à causa da redução humana”.

“Durante a maior parte da história, a vida humana tem sido valorizada e vista como possuidora de uma qualidade especial que não poderia ser reduzida”, observou Furedi.

Furedi baseava seus comentários em uma perspectiva humanista e não em uma perspectiva religiosa. “Não há uma única qualidade na perda da vida humana”, argumentou.

Ele também perguntou por que os outros humanistas não se demonstravam interessados em defender a vida humana e defender os ideais desenvolvidos no Renascimento e no Iluminismo.

Perdendo a fé

“Um mundo que pode colocar um sinal de igualdade entre um bebê e o carbono é um mundo que perdeu a fé na humanidade”, lamentou Furedi.

Outro comentário interessante foi publicado no dia 9 de dezembro pelo site australiano On Line Opinion, escrito por Farida Akhter, de Bangladesh. Segundo o artigo, ela é a diretora-executiva de uma organização que trabalha com comunidades em Bangladesh e também dirige uma editora feminista.

Akhter refletia sobre o Informe de Estado do UNFPA e dizia que é uma abordagem simplista considerar que as mulheres podem resolver os problemas ambientais simplesmente reduzindo sua fertilidade.

Lançar como objetivo as nações em desenvolvimento simplesmente não tem sentido, afirmou. Citando dados do relatório da UNFPA, indica que os 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo são os responsáveis por 50% das emissões mundiais de dióxido de carbono.

Então, continuou, mesmo que o crescimento populacional seja reduzido nos países mais pobres, a sua contribuição para a redução das emissões de carbono ou para o consumo de recursos não será significativa.

“Não vamos tornar as mulheres alvo de contraceptivos com o intuito de resolver a mudança climática”, concluiu.

Um sentimento partilhado por Jennie Bristow, editora da publicação britânica Abortion Review.

Ela também escreveu um artigo para Spiked sobre o tema  “população e ecologia”, no dia 6 de outubro.

Bristow defendia o aborto e a contracepção, mas também enfatizava que a história está cheia de exemplos onde estas práticas têm sido imposta às mulheres por parte de autoridades que queriam decidir quantos filhos deveriam nascer.

Respeito

Seu ensaio era crítico à posição pró-vida, mas também argumentava que “devem-se responder sérias questões sobre até que ponto é genuíno o compromisso pela livre eleição entre aqueles que gostariam que as mulheres elegessem em última instância não ter filhos, ou não mais que um certo número de filhos”.

É certo que temos uma responsabilidade com o meio, assinala Bento XVI em sua encíclica “Caritas in Veritate”.

O que está em jogo, porém, é algo mais do que apenas as questões ecológicas, diz o Papa. O respeito pela natureza também inclui o respeito pela vida humana. “Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros”, afirma (n º 51).

Se os dois se opõem, há “uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade”, prossegue o pontífice. Uma contradição proposta por poucas vozes no debate sobre como enfrentar os atuais temas de meio ambiente.

* Valores, bioética e vida social, um ponto de encontro.

sábado, dezembro 19th, 2009

Padre Fernando Pascual, L.C., professor de filosofia e de bioética no Ateneo Pontifício Regina Aspololorum (ROMA), acaba de publicar um livro sobre bioética, intitulado “Valores e vida social: Um ponto de encontro” (El Arca, México, 2009).

–O que propõe com este novo livro?

–Pe. Fernando Pascual: Este livro deseja ser um “ponto de encontro” e de diálogo nos debates sobre temas que envolvem a bioética, que frequentemente estão presentes nos parlamentos, nos meios de comunicação social, nas universidades e nas famílias.

–Os debates sobre aborto, eutanásia, legalização da droga, sentido da sexualidade humana não seriam discussões invencíveis?

–Pe. Fernando Pascual: Os temas que mais afetam nossa vida podem ser tratados sem entusiasmo. É necessário deixar claro em cada debate os princípios que estão em jogo. Quando discutimos sobre estes temas, como aborto ou eutanásia, mexemos com os princípios da sociedade. Um Estado que permite incriminar inocentes como algo legal se auto-destrói.

–Uma afirmação dessas não implicaria em uma atitude intolerante? Como consta em seu livro, existem muitos pontos de vista relacionados à bioética…

–Pe. Fernando Pascual: Há certos temas que ninguém deveria contestar. Por exemplo, existe um consenso social muito amplo contra as posições racistas. Porém quase ninguém consideraria a luta contra o racismo um sinônimo de intolerância. Algo semelhante deveria acontecer a respeito do aborto ou da fecundação artificial. Condenar tais práticas como injustas não significa ser intolerante e sim estar em defesa dos princípios fundamentais da vida social.

–Muitos dirão que este é o ponto de vista da Igreja Católica ou de outros grupos religiosos. Contudo, hoje vivemos em um mundo pluralista e as religiões deveriam se limitar à esfera privada, segundo nos dizem. Não seria assim?

–Pe. Fernando Pascual: O pluralismo é legítimo naqueles temas em que as diferentes alternativas não implicam em nenhum dano aos inocentes. Mas ele não deveria ser permitido em respeito aos direitos humanos fundamentais. A verdadeira bioética não pode pôr em discussão os princípios básicos da vida social, como, por exemplo, o que nos leva a defender a vida dos mais fracos e indefesos entre os seres humanos. As religiões não podem emudecer quando há grupos que defendem leis contra a vida ou a saúde dos demais.

–Nesta linha de pensamento, o que pretende ao publicar o livro?

–Pe. Fernando Pascual: O subtítulo diz. Busco oferecer um “ponto de encontro” através de algumas reflexões sobre importantes temas da bioética, de uma forma que estes possam ser enfrentados da forma correta, na vida pública. Uma das tarefas mais difíceis da bioética consiste em promover uma cultura da vida (como explicou João Paulo II e como segue propondo Bento XVI),  onde será possível contrapor uma anti-cultura da morte.

–A partir de quais valores se pode propor a bioética na vida social?

–Pe. Fernando Pascual: A partir daqueles valores que garantam o respeito a toda vida humana, desde sua concepção até a sua morte. É uma ideia constante na doutrina católica, mas é também um dos princípios básicos que vêm depois dos direitos humanos. Dizer que todos somos iguais perante a lei faz sentido se o direito básico da vida estiver garantido de modo efetivo a todos, sem discriminação.

–Portanto, deve-se proibir o aborto, a inseminação artificial e a eutanásia no mundo inteiro?

–Pe. Fernando Pascual: Efetivamente. Tudo o que é possível deve ser feito para que seja vencida a mentalidade que é a favor do aborto e da eutanásia. É necessário propor uma cultura de solidariedade. Esta última ideia brilha, com uma força especial, na encíclica que Bento XVI publicou neste ano, “Caritas in Veritate”, na qual toca com profundidade vários temas da bioética. Se trabalharmos sério a fim de defender a dignidade de qualquer ser humano, será possível construir um mundo mais inclusivo e aberto à vida de todos, especialmente para aqueles mais sensíveis e indefesos: os filhos antes do nascimento, os pobres, os doentes, os mais velhos.

Zenit

* Internet, educação e ética.

sexta-feira, novembro 27th, 2009

A internet “sozinha” – ao contrário do que alguns apregoam – não faz com que as pessoas tenham um salto intelectual qualitativo:

Quando o email se popularizou vários acadêmicos deram entrevistas dizendo que era uma Era de Ouro da Palavra Escrita, as crianças escreveriam como nunca, teríamos milhares de novos autores, o ensino do idioma no colégio seria facilitado, etc.

Aí veio o miguxês.

As ferramentas são somente ferramentas, e dar poder às pessoas não necessariamente vai fazer com que elas adquiram responsabilidades. Às vezes, funciona. Outras vezes, no entanto – e, infelizmente, na maior parte das vezes -, as pessoas não mudam (talvez piorem), e utilizam mal o poder que lhes foi concedido.

Na verdade, nada substitui a educação, e “educação” não deve ser confundida meramente com “informação”. Hoje em dia temos muita informação. Qualquer criança “sabe” (= ter informação) muito mais coisa do que um adulto médio de algumas décadas atrás. Mas não sabe o que fazer com isso. Informação em demasia, sem desenvolver os processos intelectuais necessários para processá-la, e sem um senso moral apurado para saber o que fazer com ela, é um desastre.

A internet cria o “miguxês”, mas este não é o único problema dos nossos dias. O excesso de informação, dissociado de uma formação moral decente, cria as aberrações morais hodiernas. Pode-se clonar? Clone-se. Pode-se fertilizar artificialmente? Fertilize-se. Pode-se curar doenças destruindo embriões humanos? Destrua-se e cure-se. Pode-se abortar com segurança? Aborte-se. Et cetera, que esta lista é bem grande.

Na verdade, confunde-se o “pode-se” técnico com o “pode-se” moral. Não lembro quem diz uma frase parecida, mas já a escutei mais de uma vez: [p.s.: Fides et Ratio, 88] ter capacidade técnica de fazer algo não significa que este algo pode ser feito.

As crianças de hoje sabem, do ponto de vista informativo, muito mais do que os adultos de antigamente; mas até mesmo as crianças de antigamente sabiam “certo” e “errado” muito melhor do que alguns adultos dos nossos dias…

O progresso técnico desvinculado da moral é em grande parte responsável pela crise dos nossos dias. Isto obviamente não significa que somos contra o progresso técnico, da mesma forma que não somos contra a internet por causa da nova gramática “miguxa”. Mas somos, sim, contra a desvirtuação das ferramentas, e pregamos, sim, que haja ordem nas coisas. Afinal de contas, há usos mais nobres para a internet que o miguxês. E há usos mais nobres para a ciência que a degradação do ser humano. Os irresponsáveis defensores de uma ciência sem ética correspondem perfeitamente aos “miguxos” da internet, só que num plano mais elevado, mais sério, e mais desastroso.

Jorge Ferraz

Formando personalidades cristãs maduras, conscientes de sua identidade batismal e de sua missão evangelizadora na Igreja e no mundo.
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