Artigo da ‘Filosofia’ Categoria

* “Se Deus não existe, tudo é Permitido?”

quinta-feira, fevereiro 11th, 2010

Daniel Martins

Mais lenha acaba de ser adicionada à fogueira acesa por Dostoievski: seria verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido?

Essa semana uma cientista finlandesa e um americano publicaram um artigo comentando diversos estudos sobre psicologia moral e religião, argumentando que é que a moralidade é independente (e anterior) à religiosidade

(Pyysiäinen, I., & Hauser, M. (2010). The origins of religion:evolved adaptation or by-product? Trends in Cognitive Sciences).

Até os ratos sabem o que é certo – existe um senso de cooperação, que é um dos componentes da ética, em animais muitíssimo anteriores na escala evolutiva, que não têm qualquer esboço de religiosidade (a não ser que O guia do mochileiro das galáxias seja não-ficção). Logo, me parece evidente que elementos cognitivos nos trazem um senso de certo e errado muito antes de haver crenças religiosas.

No entanto, não é possível a um observador (tentanto ser) neutro negar outro fato:  desde a Grécia antiga já vigia como parâmetro ético a Regra de ouro, ”não faça para os outros o que não gostaria que fizessem para você”, regra presente com diferentes formulações nas mais diversas culturas.

O advento do cristianismo, contudo, elevou o patamar moral ao transformar o princípio que era passivo – não fazer algo – em ativo: faça para os outros o bem, independente de seus méritos (“ama o teu inimigo”).

Muitos não entendem que “amar” não significa gostar ou ter apreço (o que tornaria essa máxima puro non sense)  mas quer dizer trabalhar ativamente para o bem de todos, independente dos seus méritos. Tal princípio foi de tal forma enraizado na cultura ocidental que mesmo os que buscam uma ética ateia não podem prescindir deste aspecto pró-ativo da moral.

Ou seja, a mim me parece claro que moralidade, lato sensu, é anterior à religião, fincada evolutivamente em nosso cérebro dadas as vantagens de sobrevivência grupal que nos trouxe. A nossa moral coletiva, no entanto,  nosso senso ético,  já não é separável da influência religiosa, sejamos crentes ou não.

***

Talvez sem saber, a pesquisa citada confirma aquilo que sempre soubemos.

O Homem é constitucionalmente aberto à transcedência e aos valores éticos, à moral, mesmo que nem sempre esse homem histórico se identificasse com os valores da fé cristã, surgidos a pouco mais de 2 mil anos.

Essa  suposta descoberta em nada, se for verdade, muda nossas certezas de que o chamado do Homem para Deus e para a verdade é intrínseco a ele e de que seu senso natural religioso e ético confirma essa vocação para algo além dele mesmo.

Mesmo ferido pelo pecado o homem intui que a vida é muito mais do que aquilo que os olhos veem e que a moralidade, mesmo a pagã, possui sementes do verbo e indica o caminho da redenção definitiva operada por Jesus!”

* Santo Agostinho: O Cristianismo como verdadeira religião.

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010

Há uma interessante discussão entre Santo Agostinho e o filósofo pagão Marcos Terêncio Varrão (116-27 a.C.), no livro “A Cidade de Deus”, do santo doutor de Hipona. Primeiro Agostinho expõe o pensamento de Varrão e depois irá argumentar a favor do cristianismo como vera religio.

Aquele filósofo tinha a visão estóica de Deus e do mundo. Deus era para ele entendido como “animam motu ac ratione mundum gubernantem” (”alma que governa o mundo por meio do movimento e da razão”). Essa alma do mundo não era objeto de culto para eles, quer dizer, verdade e religião, inteligência racional e ordenamento do culto estavam em âmbitos diferentes. Dessa forma, a religião não pertence ao âmbito da realidade (res), mas ao âmbito dos costumes (mores).

Sendo assim, não foram os deuses que criaram o Estado, mas foi este que estabeleceu os deuses que deveriam ser adorados, para assim manter a ordem do Estado. A religião é pois um fenômeno político.

Segundo Varrão há três tipos de “teologia”: a theologia mythica, a theologia civilis (politikéé) e a theologia naturalis (φυσιkή). Os teólogos da primeira são os poetas, são os cantores de Deus; os teólogos da segunda são os filósofos, isto é, os sábios que, indo além do costume indagam a realidade, a verdade; os teólogos da teologia civil são os “povos”, que, na sua escolha, não aderiram aos filósofos (e à verdade), mas aos poetas, às suas formas e imagens.  A teologia mítica corresponde ao teatro, que possuía uma característica inteiramente religiosa e cultual; a teologia política corresponde à urbe, porém o espaço da teologia natural seria o cosmos. A teologia mítica teria como conteúdo as fábulas criadas pelos poetas; a teologia estatal, o culto; a teologia natural responderá à pergunta: quem são os deuses?

Dessa forma, a teologia natural seria a desmitologização, o esclarecimento (Ilustração) que vê criticamente para além da aparência mítica e supera pelas ciências da natureza. Culto e conhecimento aqui se separam: o culto permanece necessário como conveniência política; o conhecimento atua como destruidor da religião, e por isso, não pode ser anunciado em público. Varrão ainda diz que a teologia natural ocupa-se da “natureza dos deuses” (que no existem) e as outras duas tratam da divina instituta hominum (as instituições divinas dos homens).  Com isso “a teologia não possui, nenhum deus, apenas ‘religião’; a ‘teologia natural’ não tem religião, apenas uma divindade”.

Santo Agostinho situa o cristianismo, segundo a tríade de Varrão, sem nenhuma dúvida no âmbito da “teologia física”, isto é, no âmbito do esclarecimento filosófico. Com isso continua a tradição antiga, de Paulo (Rom 1) aos apologistas do século II, que, por sua vez, seguem a teologia sapiencial do Antigo Testamento (e os Salmos). Sendo assim, o cristianismo encontra sua preparação interior no conhecimento filosófico e não nas religiões. Para Agostinho, pois, o monoteísmo bíblico se identifica com os conhecimentos filosóficos sobre a razão de ser do mundo.

Dessa forma, a religião cristão não se baseia em poesia ou em política, mas o seu fundamento é o verdadeiro conhecimento. No cristianismo, o conhecimento racional tornou-se religião, e não seu adversário. O cristianismo entendeu-se, desde o início, como a vitória sobre o mito, como vitória do conhecimento, como vitória da verdade e por isso, deve-se considerar a si mesmo como universal, como aquilo que todos os povos buscam. O cristianismo deve ser levado a outros povos, não pela força, mas como a verdade que torna supérflua a aparência. Por isso, o cristianismo é visto como intolerante com os deuses, como inimigo das religiões, até mesmo foi considerado “ateísmo”, pelos pagãos. O cristianismo assim perturbava o aproveitamento político das religiões. O cristianismo colocava em perigo as bases do Estado, não querendo ser uma religião entre as religiões, mas a vitória do conhecimento sobre as religiões.

Quando o Deus alcançado pelo pensamento vem ao nosso encontro no interior de uma religião, como o Deus que age e fala, então pensamento e fé se reconciliam. A partir de Cristo, o monoteísmo judaico torna-se universal, e a unidade do pensamento e a fé, a religio vera, é acessível a todos. Os primeiros cristãos (até a Idade Média) estavam convencidos que o cristianismo era filosofia, a perfeita filosofia, isto é, a filosofia que atingiu a verdade. A filosofia era entendida, então, como arte de viver e morrer corretamente, o que é alcançado só pela luz da verdade.

Da união entre o conhecimento e a fé a teologia cristã trouxe as seguintes correções na idéia filosófica de Deus antiga: 1) o Deus adorado pelos cristãos é realmente natura Deus (Deus por natureza) diferente dos deuses míticos e políticos. Ao mesmo tempo os cristãos sabiam que non tamen omnis natura est Deus (nem tudo o que é natureza é Deus). Deus é Deus por natureza, mas a natureza, enquanto tal, não é Deus. Dá-se então uma separação entre a natureza que engloba tudo e o ser que a fundamenta e lhe dá seu origem. Só assim se separam física e metafísica, natureza criada e Deus criador. Só ao Deus que é reconhecido na natureza (por meio do nosso pensamento) é adorado; 2) o Deus que antecede à natureza, como nos diz a Bíblia, se volta para o homem, não é mera natureza, mas entrou na história, veio ao encontro do homens, que por isso, podem encontrá-lo. Dessa forma o conhecimento racional pode tornar-se religião, porque o próprio Deus do conhecimento entrou na religião.

A conclusão é que no cristianismo o vínculo da religião com a metafísica e o vínculo da religião com a história se harmonizam. A partir de então a metafísica e história passam a constituir a apologia do cristianismo como vera religio. Com o Cristianismo razão e fé se encontram em harmonia, esse encontro “construiu o Ocidente”, renovou a cultura, transformou os povos, unindo-os em uma grande família, apesar de todas as resistências. Segundo Ratzinger, as Universidades, surgidas na Idade Média cristã tiveram a sua origem na pergunta socrática: que é o homem? Só no seio do cristianismo, quando fé e razão se encontraram, se pôde buscar com seriedade uma resposta a essa pergunta.

Bibliografia:

RATZINGER, J. Fé, Verdade Tolerância: o Cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lulio, 2007.

Discurso do Santo Padre Bento XVI para o Encontro na Universidade de Roma “La Sapienza”. 17 de janeiro de 2008.

* Crer em Deus em tempos de tragédia.

segunda-feira, janeiro 18th, 2010

Eu estava no saguão do aeroporto quando um rapaz se aproximou. Suas palavras foram poucas. “Só os limitados intelectualmente acreditam em Deus!” Disse e saiu.

Eu fiquei engasgado com sua afronta. Num primeiro momento o meu desejo era dizer-lhe uns desaforos, mas não tive tempo.
Sua frase me perseguiu ao longo de todo o dia, mas aos poucos ela foi perdendo o seu poder de agressão.

A frase do rapaz me fez lembrar a regra de ouro da Hermenêutica, a ciência da interpretação. “Todo texto pede um contexto.” Eu não tive tempo para compreender o contexto da frase. Não sei qual foi a experiência religiosa que fomentou aquela compreensão. É bem provável que o rapaz tenha sido vítima de um discurso religioso opressor, pouco sensato. Esse discurso sempre fez parte das culturas humanas. Ensina uma crença que passa longe do bom senso. Interpreta o livro santo ao pé da letra, fundamenta em textos descontextualizados, e justifica com parcas teologias as absurdas caricaturas divinas que foram elevadas aos altares.

O insulto do rapaz me fez pensar na forma como creio em Deus.

Fez-me recordar meu tempo de magistério, quando em sala de aula eu vivia o desafio de propor que a religião só é possível quando os joelhos no chão sustentam uma cabeça que não tem medo de pensar. A fé em Deus não é afronta à inteligência. Não é preciso abrir mão da capacidade intelectiva para admitir a transcendência. E sobre isso gostaria de ter falado ao jovem moço.

Crer em Deus é mais trabalhoso do que não crer. Como tão bem sugeria o escritor mineiro, Guimarães Rosa, a fé é o discurso da terceira margem. Requer abstrações muito elaboradas. É através delas que interpretamos o mundo. Deus não nos aliena, mas nos contextualiza. É simples. Eu acredito na proteção divina, mas olho para os dois lados da rua antes de atravessá-la. É uma questão de bom senso. Não posso crer que Deus venha fazer por mim aquilo que só a mim compete. Não sei quem foi que disse, mas há uma frase bastante sugestiva que gosto muito “Nós só temos o direito de esperar pelo impossível depois de termos feito tudo o que nos foi possível.”

É verdade. Crer em Deus dessa forma é razoável. Não é nenhuma afronta à inteligência humana admitir essa crença. A maturidade espiritual nos sugere que a ação humana legitima no tempo a ação de Deus. Só assim podemos compreender o cuidado divino. O bem que Deus quer para o mundo passa o tempo todo pelas escolhas que fazemos. Se eu me descuido das questões do meu tempo é bem provável que Deus perca a oportunidade de agir no espaço onde estou situado. O ser humano é local teológico privilegiado da ação divina.

É por isso que a fé encarnada, vivida e experimentada sem alienações só pode fazer bem à sociedade. O mundo seria bem melhor se os religiosos do nosso tempo pregassem um pouco mais essa parceria: humano-divina. Deus nos concedendo os dons necessários, e nós realizando a tarefa nossa de cada dia. Talvez assim a gente conseguisse diminuir as tragédias no mundo.

Padre Fábio de Melo

* Vivemos como se as verdades e os valores universais não existissem, afirma psicanalista Francês em livro.

domingo, janeiro 17th, 2010

“Vivemos em uma sociedade depressiva”,é  a tese que defende o psicanalista Tony Anatrella no seu livro “Non à la societé dépresive” (“Não à sociedade depressiva”), publicado pelas edições Flammarion.

Para ele, uma sociedade em que o aborto, o divórcio, a homossexualidade, a promiscuidade sexual, a toxicomania, o suicídio dos jovens, são aceitáveis como fenômenos inquestionáveis é uma sociedade doente, à beira da implosão.

E se a ausência de Deus fosse a principal causa desse desastre? Tony Anatrella discute este tema com a revista Francesa Paris Match.

A Revista não é um revista religiosa e as perguntas,bem formuladas,nos trazem respostas preciosas que expressam a realidade Francesa e também Brasileira.

Não se assuste com o tamanho. Leia devagar e veja que  percepção lúcida da sociedade!

Imperdível!

***

Tony Anatrella
Psicanalista, sacerdote de uma diocese de Paris, especialista em psiquiatria social, professor de psicologia clínica, consultor do Conselho Pontifício para a Família .

No seu livro “Não à sociedade depressiva”, o senhor faz uma exposição muito pessimista da sociedade francesa de hoje. Você diz que os homens e as mulheres estão fazendo a greve dos ideais; um desastre, em resumo.

Sim, um desastre. Assistimos nos últimos anos a uma grave degradação do sentido de ideal comum a todos. Só buscamos a nós próprios e acabamos metendo-nos numa rua sem saída. Recusando-nos a buscar qualquer outro ideal que não seja nós mesmos, fechamo-nos num impasse. O uso da fórmula própria dos adolescentes: “Mudar a vida”, prefigura muito bem a recusa da realidade, que leva à impotência.

Querendo libertar-se de Deus, nossas sociedades têm produzido ideologias alienantes e desesperadoras para o homem; ideologias que depois acabam sendo implodidas umas após outras.

É por isso que a depressão é uma doença do sentido de ideal, em que não se sabe mais como encontrar as realidades da vida.

O problema existencial vai evoluindo. As pessoas estão atualmente num estado de tristeza pela perda do ideal a partir do qual a vida é possível.

Os depressivos têm a impressão de estarem despojados da sua vida e incapazes de antecipar o seu futuro.

O senhor afirmaria que nós estamos em vias de suicidar-nos coletivamente e que se trata de um problema de saúde pública?

Nós corremos o risco de destruir-nos progressivamente se vivermos dessa herança. É o “destroy” de Duras. O instinto de morte toma lugar vez por outra nas nossas sociedades. O individuo encontra-se só em face de si mesmo e sem o suporte de uma sociedade que se vê sem futuro.

Vivemos no império do efêmero, numa sociedade que só vê o presente, incapaz de arriscar-se na construção do futuro. O presente acaba sendo apenas como um intervalo até a morte. Mas, como viver o presente se o futuro não tem mais sentido?

Não se diz, num impulso depressivo, que “é preciso matar o tempo”?

Sim. Além disso, certos cantores e comediantes são um reflexo da sociedade. É isso que explica em primeiro lugar o seu sucesso: Gainsbourg (1), brincando de forma suicida com a morte, Coluche (2), destemido diante dela, e Jim Morrison (3), que praticamente suicidou-se. As suas existências estavam voltadas para a procura fascinante da morte e não para a procura do amor pela vida.


(1) Serge GAINSBOURG, (1928-1991), muito popular na França, de pais judeus emigrados da Rússia foi pintor, pianista de bar, diretor de filmes, compositor, cantor. Viciado em às drogas, teve uma vida cheia de escândalos.

(2) Michel Gerard Joseph COLUCCI (COLUCHE, 1944-1985), Ator, humorista debochado e grosseiro, que ridicularizava os valores morais, familiares e religiosos. Realizador de espetáculos para TVs, Rádios e music-halls, morre pouco depois aos 41 anos ao entrar na traseira de um caminhão com a moto que usava em suas exibições. A desorientação da sua vida se pode resumir nesta declaração dele “Rendre l´âme, d´accord, mais à qui? (“Entregar a alma, de acordo, mas a quem?”).

(3) Jim MORRISON (1943-1971), compositor americano, vocalista do conjunto The Doors. Viciado em drogas, suas letras refletem as tensões do seu tempo – a cultura da droga, o movimento contra a guerra, a arte de vanguarda. Com a sua morte prematura Morrison foi uma vitima voluntária das forças destrutivas da cultura pop. Sua angústia perante a vida se vislumbra numa das suas declarações : We´re more interested in the dark side of life, the evil thing, the night time (“Estamos mais interessados no lado negro da vida, no mal, na noite”). Morreu afogado numa banheira de um hotel em Paris após ter desmaiado sob efeito do álcool e da heroína.


E muitos jovens querem identificar-se com esses “modelos”, adotando o seu tipo de pensamento. Eles têm-se deixado entusiasmar pela tentativa de morrer, própria da psicologia depressiva observada em numerosas canções e “sketches” que exprimem o sofrimento pela perda dos sonhos aos que o indivíduo não quer renunciar e luta para conseguir.

A necessidade de viver o instante presente e não pensar no futuro é uma atitude corrente da adolescência, mas que se encontra ainda em muitos adultos que vivem sem ter consciência da História. O drama da sociedade de hoje é querer privar-se de referências e não admitir que elas existem.

Olhemos para os apresentadores do tempo da TV francesa. Eles anunciam diariamente o nome de quem será a festa religiosa do dia seguinte sem fazer referência ao seu titulo de santo, abolindo desse modo a referência inicial e o sentido da festa. Ou ainda o caso de um jovem animador de rádio que conta uma história mirabolante envolvendo homens das cavernas para explicar a origem da terça-feira de Carnaval, que é simplesmente um dia de grande festividade que precede a abertura da Quaresma. Estamos em vias de fabricar todo tipo de colagens culturais.

Também se diz que nós vivemos atualmente como se não tivéssemos raízes e, sem referências, a sociedade está condenada a morrer.

Sem ideal, uma sociedade não tem futuro. Na nossa sociedade depressiva, vivemos sob uma mentira social, como se não tivéssemos raízes. Assim, acreditemos ou não, chegamos a ter vergonha de reconhecer que os nossos valores procedem do cristianismo, vergonha dos nossos pais, em resumo das nossas origens.

Uma sociedade incapaz de assumir o seu passado dentro do seu presente é uma sociedade condenada a morrer. Não há futuro para quem não tem em conta o seu passado. Mesmo os pensadores iluministas do século XVIII não sonharam jamais em negar as suas raízes, ou seja, o cristianismo.

Se muitas crianças não freqüentam mais a catequese hoje, não é somente por razões religiosas, mas porque os adultos não sabem mais que esperança devem transmitir, eles próprios não acreditam mais no seu papel educativo e abdicaram da formação da inteligência e da vida interior dos filhos.

O senhor disse em algum lugar que antigamente se batizava em vistas ao futuro...

Hoje, plantamos, cultivamos e construímos para o instante presente. Não fazemos nada para as gerações que virão. Construímos edifícios com materiais que envelhecem rapidamente e que não preservam a intimidade, como é o caso do o vidro.

Como é que chegamos a esta situação?

A sociedade depressiva não é uma fatalidade. Foi gerada por nós mesmos que nos tornamos cada dia mais e mais individualistas, desvalorizando as ligações simbólicas em que se refletem o sentido da existência, como a moral e a religião, acreditando que cada um pode ser auto-suficiente, fabricando a sua própria lei e seus valores. Numa palavra, regredimos.

Vivemos como se as verdades e os valores universais não existissem. Desse modo, não há mais comunicação possível na sociedade. Estamos pulverizando-nos e perdendo progressivamente o domínio da realidade.

O senhor emprega a palavra “moral”; eis um termo muito desprezado hoje em dia.

Tem-se acreditado ingenuamente que se poderia viver sem apelar para uma dimensão moral. Se falamos mais desse tema ultimamente, é porque buscamos restabelecer uma ligação quebrada que traz o risco de desumanizar-nos. A moral é a arte de escolher atitudes ou comportamentos aceitando sermos esclarecidos por referências que nos ultrapassam e que não dependem de nós.

Confrontar a nossa experiência com as realidades morais favorece o aprofundamento na nossa vida interior e desenvolve em nós a arte de escolher o comportamento que melhor nos convém.

A moral é o que faz a vida possível. Somente aqueles que não resolveram os seus complexos enxergam-na como um impedimento, um limite.

Eis porque alguns consideram ruim aceitar as instituições quando essas representam uma dimensão moral da existência. Durante muito tempo, as idéias do século XVIII e XIX regulam a vida dos indivíduos, às vezes com efeitos negativos. O século XX, libertou-nos de muitas imposições, mas também nos levou a rejeitar as instituições e todas as demais referências, como adolescentes invadidos por um sentimento de poder fazer de tudo.

Como explicar a debilidade interior, a astenia e a fadiga de que todos têm se queixado, tanto as crianças como os adultos?

Se as nossas sociedades são depressivas, é porque perderam a confiança em si mesmas: já não sabem mais nada para além do cotidiano do individuo, o porquê se deve viver, amar, trabalhar, procriar e morrer.

Estamos no impasse de não ter mais o sentido de um destino comum a não ser o de cada um cuidar do seu bem-estar pessoal.

As pessoas instalam-se na tristeza de não mais encontrar objetivos de interesse nem sentido em saírem de si mesmas. O problema do deprimido resume-se no sentimento de não poder existir nem pelos outros nem através de um ideal.

Falta-nos espiritualidade para enfrentar a vida e o resultado é que sempre estaremos diante de situações de tensão permanente.

Atualmente, as crianças não são mais convidadas a refletir sobre o sentido da existência. É o reino de uma falsa espontaneidade, onde os instintos se exprimem num estado primitivo.

É também o reino da mediocridade. Vejamos os rabiscos nas paredes, os grafites, que exprimem um defeito de comunicação, de interioridade. Estamos vivendo bem no meio de uma crise de ideais.

O senhor fala de dificuldades, de melancolia; o senhor disse também que jamais foi dada tanta importância à sexualidade como hoje, que o único lugar onde as pessoas têm a impressão de atuar e existir é precisamente no campo da sexualidade, na afetividade.

Passamos de um excesso a outro. No século XIX, sob a influencia de Rousseau, a sexualidade era vista com desconfiança, e era então supercontrolada. A proibição tomava o lugar do desejo, favorecendo este último. No teatro de bulevar, as pecas de Feydeau (4) são o exemplo disso. O século XX liberou-se desses hábitos hipócritas, mas acabamos caindo no extremo oposto.


(4) Georges Feydeau (1862-1921), procedente duma velha família nobre francesa, autor e ator de teatro popular, atinge pleno êxito em 1892, aos 30 anos. De caráter taciturno, dedica-se a uma intensa vida noturna, vicia-se no jogo, perde fortunas e o seu casamento começa a ruir. Divorcia-se em 1916, pela pressão da esposa, que quer evitar a perda de seu patrimônio e a educação adequada dos filhos. Suas peças são indiferentes a qualquer moralidade e profundidade psicológica do se humano. Morre de sífilis com 58 anos.


O que o senhor diz do espantoso desenvolvimento de condutas perversas, notadamente das incestuosas, ou dos abusos com crianças, que não cessam de aumentar?

Atualmente, também tem sido estimulada a sexualidade das crianças e dos adolescentes, erotizando-os. A revolução sexual, se é que aconteceu, contribuiu principalmente para liberar a sexualidade infantil e, conseqüentemente, para infantilizar a vida sexual em busca de uma comunicação melhor entre os homens e as mulheres. Dentro de tal confusão, que desvia a criança para o mundo adulto, encaminhamo-nos para uma sociedade infantil que nega a maturidade e fica deprimida por acreditar que o impulso sexual é um fim em si mesmo. Ficar prisioneiro da sexualidade pueril, em vez de entusiasmar-se para construir algo mais elaborado, conduz à miséria sexual e ao proletariado afetivo.

O senhor é muito crítico com relação a educação sexual, quando a acusa de erotizar.

A educação sexual é necessária. Mas ela deve informar, educar os filhos, dando-lhes as respostas para as suas perguntas sem as ultrapassar; deve começar em casa, pelo exemplo de amor conjugal oferecido pelos pais. Entretanto, quando assistimos à série de TV “Le bonheur de la vie” (“A felicidade da vida”), exibida pela rede France 3, ficamos preocupados por ver reunidas todas as banalidades e aberrações psicológicas que têm sido cometidas nesta matéria. A educação sexual que tem sido imposta nas escolas está manipulando a sexualidade juvenil, pois através da desinformação, os adultos acabam exibindo a sua própria sexualidade e buscando desfrutá-la com as crianças, numa conduta totalmente pederástica. Expor tudo indiscriminadamente é tão nefasto como silenciar. Como ficar insensível, por exemplo, diante da profusão de obras com caráter pornográfico oferecida às crianças? Trata-se mais de uma provocação que de uma educação real. Tal atitude não ajuda nem a tarefa de pensar a sexualidade com responsabilidade nem o desenvolvimento de um imaginário erótico.

Deveremos sofrer em breve as conseqüências dessa prática, que sequer está fundamentada teoricamente.

Segundo a sua opinião, a liberação do aborto contribui a deprimir a sociedade por trazer como conseqüência graves problemas psicológicos.

Jamais vi uma mulher abortar com prazer. O aborto é na maior parte das vezes visto como um gesto extremo. Ele insere a morte no ato de dar a vida, e não é porque tecnicamente seja algo perfeitamente realizável que não apresenta problemas psicológicos e morais. As pessoas recusam-se a refletir sobre as conseqüências do aborto, e suas repercussões sobre a moral na sociedade.

Daqui a alguns séculos, certamente as gerações futuras nos verão como uns bárbaros, à semelhança dos antigos, que abandonavam os recém-nascidos nas praças públicas ou nos bosques, sem que isso fosse considerado um comportamento inumano. Foi sob a influência da Igreja que começamos a pensar o recém nascido como uma pessoa, basta lembrar-se da atuação de São Vicente de Paulo.

Quanto mais uma sociedade respeita a vida da criança, mais respeita a vida humana.

Nossa sociedade vive com um sentimento de culpa frente à procriação, do qual procede a subvalorização afetiva da criança, como se, agindo assim, se pudesse fazer perdoar.

Temos, efetivamente, uma relação deprimente com respeito à fecundidade. Ter filhos não é meramente um direito, como se quer fazer crer, mas um dever a assumir, e em face do qual muitos os pais e a sociedade devem estar engajados.

A maior parte das religiões, especialmente a judaica, a cristã e a muçulmana, recusa o aborto em nome do respeito à vida. Mesmo ainda que nem todas reconheçam o embrião como um ser humano, todas reconhecem que ele é um ser humano em potência.

Somente a Federação Protestante da França tem uma posição ambivalente quando se pergunta: “Não se pode ser ao mesmo tempo contra o aborto e militar a favor de uma lei do mal menor?”.

A lei Viel de 1975 esclarece no seu preâmbulo sobre o caráter excepcional do aborto, que não pode ser nem banalizado nem utilizado como meio contraceptivo. Percebemos que restam somente uns fiapos da lei quando olhamos para o que se pratica por aí: cerca de 200.000 abortos anuais.

Quais são os problemas psicológicos causados pelo aborto?

O filho é verdadeiramente o sinal do sentido do outro, mas ao mesmo tempo está hoje carregado de um sentimento de desconfiança nas nossas representações coletivas. A insegurança que existe na nossa sociedade origina-se em parte da incerteza que preside o nascimento dos filhos, mas também de um sentimento de culpabilidade do qual as pessoas não conseguem libertar-se.

De maneira geral, três problemas podem surgir: O eugenismo, que consiste, dentro de um movimento narcisista, em selecionar as características e os atributos do filho à imagem do próprio ideal, ou seja, de si mesmo; a seguir o infanticídio, ou o fato de impedir que as gerações se sucedam umas às outras; e finalmente o poder de Demiurgo (5) do pai, o poder decidir a vida ou a morte da sua progenitura.


(5) Segundo Platão, o Deus que cria o Universo, organizando a matéria preexistente


Cada um à sua maneira exprime uma incapacidade de acolher um filho que seja diferente de si mesmo. Pode ser útil lembrarmos do filme “E. T.” (1982), o grande sucesso de Steven Spielberg. Não seria o ”E. T.” o símbolo da criança do futuro, esse estrangeiro que provem da nossa sexualidade, que as nossas sociedades não podem mais acolher sem que seja programado ou selecionado?

Uma sociedade que inscreve a morte no imaginário dos nascimentos futuros é uma sociedade com incertezas e sem esperança.

E a AIDS, esse drama da nossa sociedade moderna? Há hoje um debate em torno dos preservativos e muitos criticaram a Igreja e o Papa  por suas posições com relação a eles.

A AIDS é efetivamente um drama e devemos arregaçar as mangas e meter mãos à obra para sermos solidários com os doentes.

Resta o problema da prevenção. A Igreja não estigmatiza os preservativos na África, mas fala do sentido do amor humano; ela está exercendo a sua função e abordando o tema a partir do plano moral. É ridículo condenar o Papa e Igreja por nos convidarem ao amor verdadeiro.

Esta atitude revela a recusa por parte da sociedade em refletir verdadeiramente sobre a sexualidade, mantendo-se somente nas propostas técnicas ou sanitárias, tomando o meio pelo fim.

A sexualidade responde a diversas motivações da personalidade: silenciar uma angústia, compensar uma atitude depressiva, exprimir uma tendência parcial ou a sua ligação com a pessoa amada.

Não se fala nunca da profilaxia. Certamente a AIDS não é uma fatalidade; pode ser evitada se são tomadas todas as medidas realmente eficazes para evitar a contaminação.

Mas distribuição de preservativos nas escolas é um sinal de que os adultos desistiram, de que não tem nada a dizer aos adolescentes sobre o amor humano.

Sem excluir outros aspectos, é importante refletir com os jovens sobre o que cada um procura através da sexualidade.

Contudo, os jovens terão relações sexuais cada vez mais precoces…

A adolescência tem sido sempre o período do despertar dos sentimentos e das inquietações sexuais. O fato de o ambiente incitar os adolescentes a viver suas experiências sentimentais não quer dizer que os jovens de 15 a 19 anos sejam sexualmente ativos na sua grande maioria. É importante saber o que se passa na psicologia juvenil, que nem sempre reúne todas as condições psicológicas do amor humano.

O adolescente tem a tendência a buscar a si próprio, a ressentir-se e a valorizar-se através do outro, mas sem poder reconhecê-lo por ele mesmo. O apegamento a qualquer um é uma etapa, mas ainda não é o amor; é por isso que essas relações não se sustentam, e os adultos em vez de guardar distâncias, valorizam essas uniões efêmeras. O ambiente atual não favorece de nenhuma maneira a maturidade afetiva.

O divórcio tem aumentado de forma impressionante. Ele participa também da sociedade depressiva?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que não há divórcio bem sucedido. O divórcio é um fracasso afetivo a partir do qual cada um experimenta a dor por uma confiança atraiçoada, por um projeto inacabado ou por um erro de escolha. Não é um negócio privado, mas um problema da sociedade com custos humanos, sociais, econômicos, morais e espirituais, sem falar do sofrimento psíquico que provoca.

Motivos confusos, problemas de identidade, desenvolvimentos pessoais divergentes, dificuldade de franquear certas etapas, carência de uma concepção moral e filosófica que permitam orientar os projetos de vida e de resolver os conflitos: são estas algumas das razões do divórcio. Depois de vários anos, o divórcio está em aumento sem que por outro lado à instituição do matrimônio tenha sido questionada.

Para o filho, o divórcio é uma rachadura que corre o risco de colocar em perigo a unidade e a construção da sua personalidade, mesmo se alguns cheguem a recuperar-se. É então que começam a nascer todas as angústias e as incertezas futuras da vida.

A homossexualidade não seria um reflexo de uma sociedade permissiva?

É uma das traduções da nossa sociedade depressiva. Quando o imperativo da reprodução da espécie curva-se ao ideal social, a homossexualidade fortifica-se. Mas é uma minoria.

Cada vez que a sociedade entra em crise, homossexualidade é valorizada. Tenta-se fazer dela um direito e inscrevê-la dentro da lei, ou então a homossexualidade não teria o mesmo valor que a heterossexualidade.

Seria um contra-senso que um contrato unindo dois homossexuais tenha o mesmo direito que o matrimônio. A sociedade depressiva põe tudo no mesmo saco.

A homossexualidade é uma anomalia ? Está ganhando terreno…

As causas da homossexualidade devem ser procuradas sobretudo no desenvolvimento psíquico do indivíduo. São numerosas e podem ser resumidas ao relativo fracasso de colocar a bissexualidade psíquica em seu devido lugar. A bissexualidade psíquica não significa que tenhamos dois sexos ao mesmo tempo (o andrógino), mas que adquirimos a possibilidade de comunicar-nos com o outro sexo na nossa vida psicológica.

Nos anos 70, a homossexualidade era utilizada para liberar-se de um compromisso social, desenvolver uma sensibilidade, exprimir a própria liberdade. A homossexualidade desempenhava um papel sintomático, a homossexualidade, tal como a religião, era um espaço disponível para exprimir a própria liberdade no plano privado (sexo) e social (convivência).

Parece-me que hoje as relações homossexuais são mais temidas do que procuradas, porque elas evocam a castração, ou seja, a incapacidade de aceder ao outro sexo. O declínio que notamos nas novas gerações é o declínio que se manifesta numa homossexualidade que certamente não aparecerá como uma forma original de afirmação.

E a toxicomania? O senhor a coloca também na conta da sociedade depressiva?

Sim, é uma doença que nasce do estado depressivo ou da curiosidade, e traz consigo a inibição e a neutralização progressiva das funções essenciais à vida psíquica.

O toxicômano duvida de si mesmo e dos outros, e , nessa ausência de confiança, desconfia até daqueles que o aconselham a tratar-se.

É preciso tratar a toxicomania tendo em conta a profunda angústia que revela. É o toxicômano que cria a toxicomania, e não a sociedade, senão todos seriamos drogados.

Isso não quer dizer que a sociedade não tenha a responsabilidade de combater esse flagelo. O toxicômano é também conseqüência da deficiência em que vivem os adolescentes que estão nessa situação por se recusarem a enfrentar os esforços psíquicos próprios da sua idade.

O silêncio, a permissividade e a passividade dos pais favorecem a prática da toxicomania, assim como o absenteísmo escolar, o roubo do dinheiro familiar e a exclusão social progressiva.

Uma desmoralização patogênica é o terreno predileto para o desenvolvimento da toxicomania. Os jovens comportam-se desde muito cedo como se não pudessem contar mais com os seus pais.

Vive-se cada vez menos na família a prática de estar juntos. Cada um exerce as atividades que quer, sendo raros os momentos de compartilhar o convívio.

Em resumo, a toxicomania é uma modalidade de fuga do interior de si mesmo, como era , há alguns anos atrás o engajamento na política.

É essa a doença do adolescente intimista que não acha bom esclarecer o que se passa verdadeiramente dentro dele.

O uso da droga não perdeu já um pouco da sua motivação “mística” dos anos 60, quando se erigia como a religião do “além” e como uma viagem de iniciação em direção aos “longínquos interiores”?

Hoje o uso da droga apóia-se mais sobre a curiosidade e a transgressão. Quando se proíbe proibir e quando se nega o espírito das leis, o adolescente fica entregue à sua solidão sem os meios de encontrar a realidade.

Fumar um “baseado” entre amigos não é jamais a escolha da liberdade, mas a da satisfação das paixões. Não esqueçamos que adolescência é um período de maturação das novas competências do indivíduo, da procura das suas possibilidades e dos seus limites.


O senhor disse certa vez que a prevenção é um falso problema…

As verdadeiras causas da toxicomania são a desordem do adolescente em face às suas mutações psíquicas, os fracassos escolares, etc…

O objeto do debate não deveria ser a droga, mas o aprendizado da vida, da qualidade da existência conjugal dos pais, a real preocupação por adquirir uma formação, a transmissão de uma moral e de uma fé.

Perdemos o nosso tempo para dar prazer – e que prazer!… – a um toxicômano, tolerando que use heroína e conduza-se progressivamente à morte. A droga estigmatiza uma sociedade depressiva que aceita deixar os indivíduos se entrincheirarem em si e esconderem-se para morrer no prazer do sofrimento.

Como o senhor explica o crescimento do suicídio?

A taxa de suicídios revela a saúde mental de uma sociedade. É a primeira causa de mortalidade na Europa.

O suicídio tornou-se nestes últimos anos um problema de saúde publica. O ambiente atual favorece o desenvolvimento de personalidades de caráter psicótico, sádico, irracional, depressivo e narcisista que chocam com a realidade, não podendo fazer outra coisa senão implodir em movimentos depressivos ou suicidas.

Tem-se insistido muito sobre a forte elevação dos suicídios entre jovens, esquecendo que 55% dos que se suicidam tem mais de 55 anos. A Hungria e a França são os paises que registram o maior número de suicídios em pessoas idosas.

Entre 1950 e 1976, na França, o suicídio tinha uma taxa de 15 pessoas por cada 100.000 habitantes ano.

A taxa de suicídio entre os 15 e 24 anos triplicou depois de 1960. Outras condutas suicidas preenchem o relatório: é o caso da anorexia, das depressões, das vítimas de certos acidentes. Em matéria de tentativas de suicídio, estima-se em 40.000 por ano entre os 15 e 24 anos, sendo o total de 135.000 de todas as idades.

Como explicar esse fenômeno?

Não é raro que um suicida tenha se preparado por um longo tempo e o tente por ocasião de um acontecimento “favorável”.

Um complexo de decepção, de frustração, de angústia podem ser o gatilho do suicídio. Suicidando-se o individuo não tem forçosamente o desejo de matar-se, mas sim de quebrar um ambiente insuportável, de dormir e poder acordar sendo diferente.

O suicídio pode ser resumido a partir de várias tendências:

– A fuga para escapar de uma situação de mágoa que é intolerável, uma maneira de romper com o mundo que o rodeia;

– A tristeza profunda: a melancolia do sujeito que se culpa de tudo e mostra pela sua atitude que o sentimento de auto-estima está gravemente atingido.

– A nostalgia: a pessoa sente o mundo como vazio, identifica-se com a sua infância, e tendo a perdido, parece que perdeu a vida.

– O castigo: para expiar uma culpa real ou imaginária.

– A auto-desvalorização: o indivíduo acha que não vale mais nada e sente-se desprezível aos seus próprios olhos e aos dos outros.

– O crime: atentar contra a própria vida arrastando o outro para a morte.

– A vingança: o sujeito quer simplesmente infligir uma ferida, o mais profundamente possível, naqueles que se encontram implicados em acontecimentos do passado, com a finalidade de criar neles remorsos.

– A chantagem: uma forma de fazer pressão no próximo para obter um bem, ameaçando-o, por exemplo, de privá-lo de amor.

– O suicídio-sacrifício: fuga disfarçada para evitar uma situação intolerável “glorificando esta fuga, fazendo-a passar por um sacrifício com a finalidade de valorizar a própria imagem que se anela deixar”.

– Finalmente existe também a condenação divina e o jogo. Por exemplo, a roleta russa, ou entrar numa auto-estrada na contramão, à noite, com as luzes do carro apagadas, ou queimar uma placa de “Pare”. É a morte-desafio, como uma prova dada a si mesmo e aos outros de que se tem o poder de triunfar sobre ela.

É por esta razão que esse tipo de herói está condenado à morte prematura, tal como o já mencionado Coluche, e Balavoine e Sabine (6) no rali Paris-Dakar. O seu ideal não se acomoda de jeito nenhum com o fato de envelhecer, de amadurecer, de suportar a fadiga; querem ser imortais, o seu combate não tem outro sentido a não ser o de sentirem-se vencedores, e eles serão vencedores graças à morte que lhes dará a imortalidade, enquanto que, se continuam vivendo, correrão o risco de serem esquecidos; pensam que serão mais presentes mortos do que vivos.


(6) Daniel BALAVOINE (1952-1986), cantor, ativista das manifestações estudantis de 1968 na França e mais tarde em causas sociais e políticas. Amante do perigo e da velocidade, participa do rali Paris-Dakar em 1983, 1985 e em 1986. Thierry SABINE (1969-1986), esportista de motocross, aventureiro, idealizador, organizador e diretor durante 10 anos do rali Paris-Dakar. Balavoine e Sabine morreram juntos quando o helicóptero que pilotavam foi atingido por uma tempestade de areia no deserto.



Como o senhor vê o futuro? Estamos condenados? Não há nenhuma solução para sair desta sociedade depressiva?

Não estamos vivendo algo inédito na História. O drama da sociedade depressiva aparece ao longo dos séculos, e consiste em querer desligar-se do passado, imaginando “mudar a vida” nos pontos que temos dificuldade de assumir.

A concepção moderna do sentido da vida está marcada pela sedução do desespero, mas a atitude depressiva remonta ao século XVIII. Será de espantar que estas idéias tenham tido eco nas nossas mentalidades modernas?

A crise atual é moral. Liberar-se do masoquismo moral é a aposta da sociedade depressiva. Para sair dessa situação temos somente uma solução: redescobrir o sentido de um ideal. Alguns querem fazer crer que hoje estamos desligados de uma moral do dever, enquanto celebramos o triunfo dos direitos individuais, estamos entrando numa sociedade pós-moralista.

Alguns prevêem o fim da religião, mais precisamente o fim do cristianismo, como se os valores que nasceram graças a ele e estão na fonte da nossa civilização pudessem ser arrancados.

A nossa laicidade repousa sobre uma contradição: a religião cristã desenvolveu sua reflexão sobre o homem a partir da imagem de Deus.

É olhando para essa transcendência que o homem pôde tomar consciência de si mesmo. Hoje, tudo dá a entender que queremos esquecer essa dimensão.

Mas sem esse Deus que é o fundamento do sentido do outro, é ainda possível pensar o ser e a moral? A resposta está longe de ser evidente.

Precisamente essa dimensão de Deus da qual o senhor está falando, está cada vez mais e mais ausente. Faz anos que se anuncia à morte de Deus. Além do mais, suprimiu-se do ensino toda referência religiosa e os jovens não conhecem mais nada sobre o tema, nem sequer num plano cultural. Isso não é grave?

Constata-se de um ponto de vista antropológico que a dimensão religiosa faz parte da estrutura do homem. Contudo, uma corrente de pensamento anunciou, durante os anos 60, a morte de Deus.

Os homens e as sociedades, sobretudo na Europa Ocidental, habituaram-se a viver sem Deus, mas celebrando todas as festas religiosas e apoiando-se sobre um sistema de valores originados no cristianismo. Diante dessa negação, assistimos ao ressurgimento do esoterismo, dos médiuns e clarividentes, da bruxaria, da feitiçaria e a aparição de curandeiros e chefes de seitas que criam o seu poder sobre os outros a partir de uma empresa financeira, sexual e mágica, como uma noticia recente dos Estados Unidos nos mostra com respeito a um dissidente de uma igreja adventista que se acha o próprio Cristo!

As ciências parapsicológicas (transmissão de pensamento, predições, horóscopos) e as crenças mais irracionais tomaram o lugar de uma vida religiosa abandonada e sem cultivo. Os pais igualmente abriram mão deste tipo de educação para seus filhos e não os inscrevem mais nas aulas de catecismo.

Atualmente, assistimos a um movimento inverso, em que os filhos reprocham seus pais por não os terem batizado nem os ter iniciado no conhecimento de Deus. Esses jovens sem formação religiosa e sem firmeza na sua crença estão prontos para acreditar em não importa o quê.

Quanto mais a realidade for bizarra, estranha e insólita, mais será digna de crédito. É o retorno do paganismo.

Por não terem uma concepção coerente do mundo, os jovens, e também os adultos, serão permeáveis à primeira crendice que apareça, sobretudo quando favorece o imaginário. É por isso que a formação religiosa é indispensável para os filhos, para lhes permitir exercer a sua razão sobre os objetos da crença, e em particular sobre a forma como os homens descobriram o Deus do qual nos fala a Bíblia e de que maneira, a partir desta experiência, concretizaram-se as verdades para construir um patrimônio espiritual.

O senhor não teme que alguns o acusem de clericalismo?

A religião, o cristianismo em particular, tem uma dimensão social, e não unicamente privada, que não pode ser substituída pela cultura ou pela política.

O judeu-cristianismo não faz mais parte do patrimônio cultural da nossa sociedade: não se pode ir visitá-lo como se faz com as ruínas de certos lugares dos nossos antepassados gauleses, para compreender melhor a nossa história, a arte e os simbolismos que nos rodeiam. Mas o judeu-cristianismo é o fundamento da nossa sociedade. Todos os nossos valores são herança do passado, mesmo que alguns deles tenham conquistado autonomia.

Esquecer essas raízes é correr o risco de desvitalizá-los e de os tornar uma loucura. Como continuar a justificá-los e valorizá-los sem saber donde procedem?

Na maior parte das sociedades, e em particular na nossa, a religião foi sempre um fator de integração social. É totalmente absurdo fazer disso uma questão privada.

Se a Igreja reivindica, e com razão, o caráter intrinsecamente social da sua missão, ela não tem a pretensão de contrariar as liberdades. É preciso pelo menos admitir essa evidência sem fazer um amálgama com as seitas e as tendências integristas, que têm uma tradição mais de alienação mórbida que de humanismo e de progresso. Esse não é o caso das tradições judaica e cristã.

É uma redução falar da “revanche de Deus” ou dos “políticos do Céu”, que se abaterão sobre o mundo. É preciso reconhecer o lugar da religião na nossa sociedade e salvaguardar o “espírito”, e não regredir fiando-nos de uma elucubração sociológica que não tem em conta a dimensão religiosa.

No fundo o laicismo, pela sua rejeição do religioso, tem a sua parte de responsabilidade na depressão atual.

O laicismo desenvolve-se em grande parte pela negação do cristianismo: age como se a Igreja não devesse existir, como se não se devesse ser ouvida nunca. Há uma agressividade doentia em relação à Igreja, que é – será necessário dizer? – constituída por vários milhões pessoas na França.

Fazem a Igreja falar de todos os temas possíveis para, ao mesmo tempo, ridicularizar o seu discurso.

Ela foi a primeira a denunciar os riscos do eugenismo com a utilização das técnicas relacionadas com a fecundidade, mas os meios de comunicação deformam ou ignoram as suas propostas.

Essa injustiça flagrante não anima os bispos e padres a falarem através desses meios, porque sabem que seu discurso será pinçado pelos conformistas intelectuais da moda.

A maior parte das festas religiosas são também silenciadas. Considera-se positivo informar o publico quando inicia do Ramadã e explicar o seu significado para os muçulmanos. Mas por que o silencio quase total na Quarta-feira de Cinzas, que abre o período da Quaresma para os cristãos?

Resumindo, ainda que estas festas existam, os meios de comunicação acreditam na idéia de que a sua existência não deve ser salientada.

Estará havendo por tanto não somente a rejeição do religioso, mas também escárnio das convicções religiosas?

Escárnio, que expressa decepção, medo e agressividade.

Os cristãos vêem não somente as suas convicções serem transformadas com escárnio, mas também negadas, sobretudo no momento das festas religiosas, que são a maioria dos dias de descanso.

O dia de Todos os Santos não é nem de longe a festa dos crisântemos; o Natal não é a festa dos brinquedos; a Terça-feira de Carnaval não é a festa dos crepes e das lantejoulas; também o feriado de Páscoa, não é o das auto-estradas, dos ovos e coelhos de chocolate. Esse desvio de sentido é uma mentira cultural. Como você quer que os mestres não se queixem dos seus alunos porque não saberem se localizar cultural e religiosamente?

Ao desprezar Deus, a Igreja, seus valores e seus ritos, é de si mesmo que o homem contemporâneo fala, sem respeito, sem nenhuma valoração positiva, e dessa maneira ele mesmo se desvaloriza.

Negar as referências cristãs e a dimensão social do religioso que presidiu a fundação da nossa cultura é o suicídio.

A sociedade acelera a sua destruição quando esquece os três lugares em que se reflete sobre a vida: a política, a moral e a religião.

* Ninguém “me rouba de mim..”

sábado, dezembro 26th, 2009

Há um novo crime que está ficando cada vez mais comum na nossa era de informática. É chamado de “furto de identidade”.

O ladrão furta informações pessoais sobre uma outra pessoa, muitas vezes por meio de um computador, e usa aquelas informações de várias maneiras, geralmente para acessar os bens financeiros da vítima. Apenas esse último fato explica por que ninguém tenta roubar a minha identidade!

Se alguém roubar a sua identidade, você deixa de ser você? É claro que eu entendo que na verdade o que é furtado são números da carteira de habilitação, RG ou contas financeiras. Mas estou curioso pela descrição do crime, porque acredito que a verdadeira identidade de uma pessoa não consiste em tais informações. Números de identificação, sejam dados pelo governo ou por instituições financeiras, não determinam quem somos. São, na verdade, apenas uma maneira impessoal de distinguir uma pessoa de outra. O que é exatamente que me identifica?

É o meu nome? São informações históricas distintas como a data do meu nascimento ou a minha idade? Muitas vezes nos identificamos nos referindo a relacionamentos pessoais. Eu sou filho de Stanley e Barbara, marido da Debbie e pai de David e Jonathan. Esses relacionamentos, com certeza, me distinguem de muitas outras pessoas (pelo que eu saiba a Debbie só tem um marido!), mas isso te diz muito sobre mim?

Se eu te disser que sou um cristão, já falei muito sobre mim. Você ainda não sabe muito sobre a minha personalidade, se sou quieto ou falador, Tipo A ou Tipo B, mas você pode deduzir certas coisas sobre meu caráter, porque ser cristão idealmente sugere tais coisas.

Um ladrão pode pegar minha habilitação ou RG na tentativa de “assumir a minha identidade” e invadir meus bens financeiros. Fofoqueiros podem roubar minha boa reputação ao contar mentiras sobre a minha conduta e podem até afetar os meus relacionamentos com as pessoas. No entanto, meu caráter e minha personalidade determinam quem sou, a minha identidade, e não estão sujeitos a roubo. Posso entregar o meu bom caráter ao mudar meu estilo de vida, mas ninguém pode “roubá-lo” de mim. Minha identidade como um cristão não é algo que outros podem tirar a força de mim, nem mesmo Satanás, mas eu posso escolher entregar aquele relacionamento com Deus pela minha conduta (João 10:27-29).

Qual é a sua identidade?

Allen Dvorak

* Valores, bioética e vida social, um ponto de encontro.

sábado, dezembro 19th, 2009

Padre Fernando Pascual, L.C., professor de filosofia e de bioética no Ateneo Pontifício Regina Aspololorum (ROMA), acaba de publicar um livro sobre bioética, intitulado “Valores e vida social: Um ponto de encontro” (El Arca, México, 2009).

–O que propõe com este novo livro?

–Pe. Fernando Pascual: Este livro deseja ser um “ponto de encontro” e de diálogo nos debates sobre temas que envolvem a bioética, que frequentemente estão presentes nos parlamentos, nos meios de comunicação social, nas universidades e nas famílias.

–Os debates sobre aborto, eutanásia, legalização da droga, sentido da sexualidade humana não seriam discussões invencíveis?

–Pe. Fernando Pascual: Os temas que mais afetam nossa vida podem ser tratados sem entusiasmo. É necessário deixar claro em cada debate os princípios que estão em jogo. Quando discutimos sobre estes temas, como aborto ou eutanásia, mexemos com os princípios da sociedade. Um Estado que permite incriminar inocentes como algo legal se auto-destrói.

–Uma afirmação dessas não implicaria em uma atitude intolerante? Como consta em seu livro, existem muitos pontos de vista relacionados à bioética…

–Pe. Fernando Pascual: Há certos temas que ninguém deveria contestar. Por exemplo, existe um consenso social muito amplo contra as posições racistas. Porém quase ninguém consideraria a luta contra o racismo um sinônimo de intolerância. Algo semelhante deveria acontecer a respeito do aborto ou da fecundação artificial. Condenar tais práticas como injustas não significa ser intolerante e sim estar em defesa dos princípios fundamentais da vida social.

–Muitos dirão que este é o ponto de vista da Igreja Católica ou de outros grupos religiosos. Contudo, hoje vivemos em um mundo pluralista e as religiões deveriam se limitar à esfera privada, segundo nos dizem. Não seria assim?

–Pe. Fernando Pascual: O pluralismo é legítimo naqueles temas em que as diferentes alternativas não implicam em nenhum dano aos inocentes. Mas ele não deveria ser permitido em respeito aos direitos humanos fundamentais. A verdadeira bioética não pode pôr em discussão os princípios básicos da vida social, como, por exemplo, o que nos leva a defender a vida dos mais fracos e indefesos entre os seres humanos. As religiões não podem emudecer quando há grupos que defendem leis contra a vida ou a saúde dos demais.

–Nesta linha de pensamento, o que pretende ao publicar o livro?

–Pe. Fernando Pascual: O subtítulo diz. Busco oferecer um “ponto de encontro” através de algumas reflexões sobre importantes temas da bioética, de uma forma que estes possam ser enfrentados da forma correta, na vida pública. Uma das tarefas mais difíceis da bioética consiste em promover uma cultura da vida (como explicou João Paulo II e como segue propondo Bento XVI),  onde será possível contrapor uma anti-cultura da morte.

–A partir de quais valores se pode propor a bioética na vida social?

–Pe. Fernando Pascual: A partir daqueles valores que garantam o respeito a toda vida humana, desde sua concepção até a sua morte. É uma ideia constante na doutrina católica, mas é também um dos princípios básicos que vêm depois dos direitos humanos. Dizer que todos somos iguais perante a lei faz sentido se o direito básico da vida estiver garantido de modo efetivo a todos, sem discriminação.

–Portanto, deve-se proibir o aborto, a inseminação artificial e a eutanásia no mundo inteiro?

–Pe. Fernando Pascual: Efetivamente. Tudo o que é possível deve ser feito para que seja vencida a mentalidade que é a favor do aborto e da eutanásia. É necessário propor uma cultura de solidariedade. Esta última ideia brilha, com uma força especial, na encíclica que Bento XVI publicou neste ano, “Caritas in Veritate”, na qual toca com profundidade vários temas da bioética. Se trabalharmos sério a fim de defender a dignidade de qualquer ser humano, será possível construir um mundo mais inclusivo e aberto à vida de todos, especialmente para aqueles mais sensíveis e indefesos: os filhos antes do nascimento, os pobres, os doentes, os mais velhos.

Zenit

* Ecopanteísmo. Você sabe o que a Igreja pensa sobre isso?

quarta-feira, dezembro 16th, 2009

O respeito à natureza está estreitamente relacionado ao respeito à pessoa humana, pois “o livro da natureza é único”.

Portanto, o respeito pelo meio ambiente não pode estar contra o respeito à pessoa humana, à sua vida e à sua dignidade. Ao contrário, o homem é superior ao resto da criação e por isso tem o dever de cuidar dela e protegê-la.

Assim afirma o Papa Bento XVI em sua mensagem por ocasião do próximo Dia Mundial da Paz, que será celebrado em 1º de janeiro de 2010, e que dedicou este ano à questão do respeito ao meio ambiente, necessário para promover a paz do mundo.

Na mensagem, o Papa adverte contra as atuais tendências filosóficas que levam a considerar o ser humano como um perigo para o meio ambiente e que inclusive propugnam o controle da população como uma medida de proteção da natureza.

Bento XVI explica que “uma visão correta da relação do homem com o ambiente impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa”.

“Se o magistério da Igreja exprime perplexidades acerca de uma concepção do ambiente inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, fá-lo porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os outros seres vivos.”

Deste modo, adverte o Papa, “chega-se realmente a eliminar a identidade e a função superior do homem, favorecendo uma visão igualitarista da ‘dignidade’ de todos os seres vivos”.

Este “igualistarismo” falso faz parte, explica, de um “novo panteísmo com acentos neopagãos que fazem derivar apenas da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, a salvação para o homem”.

“Ao contrário, a Igreja convida a colocar a questão de modo equilibrado, no respeito da ‘gramática’ que o Criador inscreveu na sua obra, confiando ao homem o papel de guardião e administrador responsável da criação, papel de que certamente não deve abusar, mas também não pode abdicar”, esclarece.

O Papa explica que “há uma espécie de reciprocidade: quando cuidamos da criação, constatamos que Deus, através da criação, cuida de nós”.

“Com efeito, a posição contrária, que considera a técnica e o poder humano como absolutos, acaba por ser um grave atentado não só à natureza, mas também à própria dignidade humana”, acrescenta.

Ecologia humana

Neste sentido, o Papa sublinhou que uma verdadeira proteção da natureza está intimamente relacionada com o respeito à dignidade da pessoa, o que se chama de “ecologia humana”.

“Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros”, afirma o pontífice.

Neste sentido, sublinha a importância de uma educação na responsabilidade ecológica que “salvaguarde uma autêntica ecologia humana”.

É necessário afirmar, “com renovada convicção, a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade da pessoa e a missão insubstituível da família, onde se educa para o amor ao próximo e o respeito da natureza”.

“É preciso preservar o patrimônio humano da sociedade. Este patrimônio de valores tem a sua origem e está inscrito na lei moral natural, que é fundamento do respeito da pessoa humana e da criação”, acrescenta o Papa.

“Não se pode pedir aos jovens que respeitem o ambiente, se não são ajudados, em família e na sociedade, a respeitar-se a si mesmos: o livro da natureza é único, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a da ética pessoal, familiar e social.”

Bento XVI sublinha que a Igreja “tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo”.

“Com efeito, a degradação da natureza está intimamente ligada à cultura que molda a convivência humana, pelo que, quando a ‘ecologia humana’ é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental.”

* Galileu Galilei e seu legado para o mundo.

terça-feira, dezembro 15th, 2009

Por Edward Pentin

Quatrocentos anos depois de ter inventado o primeiro telescópio, o legado de Galileu Galilei continua vivo, enquanto ainda influencia a forma como o mundo vê a ciência e como a ciência vê o mundo e, certamente, o universo.

Seu grau de impacto no mundo científico e na Igreja foi analisado detalhadamente em uma fascinante conferência em Roma, organizada pela Pontifícia Universidade Lateranense.

Intitulado “1609-2009: Do telescópio de Galileu à Cosmologia Evolutiva – Ciência, Filosofia e Teologia em diálogo”, o encontro de 3 dias reuniu uma série de conferencistas de primeira categoria, incluindo dois Nobéis de Física, cosmólogos, teólogos e filósofos. O evento acontece no final do Ano Internacional da Astronomia, para celebrar a invenção de Galileu em 1609.

A conferência começou, logicamente, esclarecendo os mitos que ainda existem no referente a Galileu e sua relação com a Igreja. O Dr. Own J. Gingerich, antigo professor e pesquisador de astronomia e de história da ciência na Universidade de Harvard, apresentou a história da controversa.

Eliminou rapidamente a acusação mais famosa e ao parecer mais irrefutável: que a Igreja torturou Galileu. Enviou-se uma carta ao astrônomo italiano, afirmava Gingerich, que indicava que deveria ser “interrogado por uma veemente manifestação de heresia” e que concluía “sendo mostrados legalmente os instrumentos de tortura”.

Não obstante, Gingerich afirmou que Galileu “certamente não foi torturado e suspeito que tampouco tenham lhe mostrado os instrumentos de tortura, mas estava em seu terceiro interrogatório quando percebeu que não haveria debate, que não seria capaz de sustentar que o sistema copernicano deveria ser levado a sério”. A partir de então, estava disposto a “confessar de qualquer forma que lhe fosse pedida, a aceitar a prisão domiciliar e a ser devolvido a Florença”.

O professor Gingerich dizia que era especialmente importante ver o caso de Galileu dentro do seu contexto. “É preciso compreender que a maioria das pessoas pensava que o sistema copernicano era totalmente ridículo; além disso, ninguém queria adotar o sistema copernicano.”

O astrônomo americano fez também uma observação especialmente pertinente: que a controversa de Galileu “mudou essencialmente a forma de fazer ciência, porque hoje a ciência trabalha sobretudo pela persuasão e não pelas provas, e Galileu influenciou muito para que isso ocorresse”.

Era de descobrimentos

No entanto, os avanços na astronomia foram, desde então, impressionantes, e muitos deles ocorreram durante os últimos 15 a 20 anos. “Estamos em uma era de grandes descobertas e fazendo grandes progressos”, afirmava o professor George F. Smoot, ganhador do prêmio Nobel de Física em 2006 por seu trabalho para ajudar a entender a teoria do Big Bang.

Graças ao telescópio especial Hubble e ao mais recente observatório espacial Planck, lançado pela Agência Espacial Europeia, os astrônomos podem agora ver o universo com um detalhe muito maior. Smoot, cuja tarefa é cartografar a superfície do começo do universo, comparava dois mapas do globo para ilustrar quanto se progrediu. Um mostrava todos os continentes cartografados mais ou menos como em um atlas medieval; o segundo mostrava a terra com grande detalhe topográfico. O primeiro representava o que sabíamos do universo em 1992; o segundo, o que conhecemos hoje.

Os telescópios atuais levaram ao descobrimento de pelo menos 100 bilhões de galáxias no universo, observou Smoot, levando-o a apresentar uma questão cosmológica provocante: “Se o propósito do universo é que o ser humano pudesse viver nele, por que fazer tantas galáxias? Claramente seria mais que suficiente criar o sistema solar; no entanto, há muitas, muitas galáxias distribuídas de formas estranhas e evoluindo ao longo do tempo. Por isso, a questão que se tem em cosmologia é explicar toda esta série de fatores”. Acrescentou que os astrônomos esperam que Planck os ajude a compreender melhor a natureza fundamental da criação do espaço e do tempo, que “é muito crítica”.

Muito além da observação

Em sua mensagem aos participantes da conferência, Bento XVI afirmou que a lição de Galileu é também um convite a ir além do que se pode observar. As questões sobre a imensidade do universo, sua origem e seu fim “não admitem uma única resposta de caráter científico”, afirmou. “Quem observa o cosmos, seguindo a lição de Galileu, não poderá deter-se somente naquilo que observa com o telescópio; deverá ir muito além, interrogando-se sobre o sentido e o fim ao qual se orienta toda a criação”. Neste contexto, observou o Papa, a filosofia e a teologia têm um importante papel “para aplanar o caminho rumo a ulteriores conhecimentos”.

Alguns oradores destacaram que Galileu valorizava a Escritura, observando que ele gostava de citar o cardeal Cesare Baronio, que afirmava: “A Bíblia foi escrita para nos mostrar como ir ao céu, e não como está o céu”. Mas Galileu insistia em que a Bíblia não deveria ser interpretada ao pé da letra ou como um instrumento de prova da ciência. Ao fazê-lo, esperava que esta visão fomentasse a reconciliação entre a fé e a ciência (seus detratores, no entanto, assumiram a postura oposta e viram nisso uma tentativa de interferir na teologia).

No entanto, segundo o arcebispo Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, a postura de Galileu sobre o literalismo ensina algo muito relevante ao mundo de hoje: que tais interpretações da Bíblia conduzem ao fundamentalismo. O prelado italiano, que é também um renomado erudito da Bíblia, afirmou que os textos bíblicos são “uma realidade viva” e, portanto, implicam no risco do fundamentalismo. Mas também destacou que, através da Bíblia, pode-se chegar a apreciar a “estética da criação”. “O homem não pode jamais estar presente na criação somente estudando-a do ponto de vista científico – explicou. Ao estudar o universo do ponto de vista científico, o cientista se deixa envolver pela linguagem simbólica e recorre às emoções estéticas, poéticas.”

“Da contemplação estética da criação dimanam grandes questões existenciais – afirmou Dom Ravasi – e este é um dos nossos grandes empobrecimentos.” Não é que a humanidade não tenha progredido na ciência, mas “é o homem que não progrediu na contemplação da beleza da criação”.

Citando G. K. Chesterton, afirmou que “estamos perecendo não por falta de maravilhas, mas por falta de capacidade de maravilhar-nos”. O arcebispo depois pediu a crentes e a não-crentes que descobrissem “o valor secreto, o valor poético” da criação.

Ordem ou desordem?

Como uma observação interessante, o professor Smoot afirmou em sua conferência que o universo é “extremamente ordenado” e parece que chegará a estar inclusive mais ordenado.

Isso levou um participante do auditório a perguntar sobre a observação do professor, questionando se, como se pensa comumente, o universo está se expandindo e esfriando a uma temperatura uniforme e, portanto, se tornará mais desordenado, um processo conhecido em termodinâmica como entropia crescente.

A conclusão lógica é que, se isso é assim, então o universo se dirige a uma possível morte, ou o que os astrofísicos chamam de “morte quente”, na qual toda a energia do cosmos terminará como uma distribuição homogênea de energia termal, de maneira que não se possa extrair força de nenhuma fonte.

O professor Smoot respondeu dizendo, em primeiro lugar, que a parte mais precoce do universo tem uma baixa entropia. Depois continuou: “A entropia é maior onde não há buracos negros e nosso conhecimento atual é que a maioria da entropia do universo está nos grandes buracos negros”.

“A entropia específica é ainda bastante baixa e, ainda que o universo tenha começado extremamente ordenado, tornou-se menos ordenado. Ainda que pareça ordenado, quando se observa como se distribuem as galáxias e a matéria escura, atualmente está mais desordenado que quando começou, com quase uma uniforme distribuição.”

“Esta desordem está aumentando e um dos principais debates de hoje é se esta entropia continuará crescendo sempre ou se em algum momento esta informação se perderá e se apagará e se chegará a um novo Big Bang.”

“Esta é uma das questões interessantes da cosmologia atual: inclusive ainda que pareça que nos ordenamos mais, não é assim.”

* Lua nova, o filme. Jornal vaticano emite opinião.

terça-feira, novembro 24th, 2009

O jornal L’Osservatore Romano (LOR) publicou em sua edição desta sexta-feira um artigo no qual critica a nova produção “Lua Nova (New Moon)”, saga de “Crepúsculo”, uma história que relata o triângulo amoroso entre um vampiro vegetariano, um lobisomem e uma adolescente solitária que não encaixa em seu ambiente.

Esta segunda parte da saga mostra a protagonista Bela Swan, deprimida pela partida de seu noivo Edward Cullen, o vampiro, que a deixa para não colocar a vida de sua amada em perigo. Assim se aproxima de seu amigo Jacob Black, quem na realidade é um lobisomem.

“Em Lua Nova –diz LOR– Bela acaba de cumprir 18 anos mas está cheia de cicatrizes não curadas, não só exteriores, é uma moça próxima aos lobisomens que vive em equilíbrio entre dois mundos e foi ferida por quem deveria tê-la protegido”.

O jornal vaticano assinala que este filme “já gerou comentários de muitos (críticos profissionais e não profissionais, bloggers e outros) e a repetição até o cansaço do já foi dito e ouvido sobre o primeiro episódio: se trataria de pura propaganda moralmente perigosa, de um ‘elogio à repressão sexual em si mesma’, de uma espécie de anúncio cristão camuflado como best seller juvenil”.

Com esta tendência, diz o artigo, “terei que tirar o chapéu” para a autora Stephanie Meyers, que escreveu a saga e “que foi capaz de dourar a pílula para encobrir o severo alerta obscurantista com alguns” clichês “para ir criando uma máquina de dinheiro que funciona à toda potência em todo o mundo”.

Depois de comentar o tratamento pouco claro da produção sobre a sexualidade, LOR descreve que no filme “existe uma zona escura, uma hostil ansiedade comum a todos os personagens principais, assim como o medo a serem divididos pelo tempo que passa (apenas para Bela, a protagonista, pois Edward, o vampiro, terá sempre 17 anos) e o terror de decepcionar a pessoa amada, de perdê-la para sempre ou de causar-lhe um mal irremediável, como sucedeu com o Romeu” de Shakespeare.

Como em Crepúsculo, “a opção por fazer que os ‘monstros’ assim como os vampiros e os lobisomens falem é um eficaz instrumento expressivo fazendo que a própria pessoa esteja diante do enigma da liberdade e do misterioso impulso de morte que envenena a vida gerando violência, infelicidade e caos no mundo dos humanos, a ‘ferida original’ que todos têm dentro”.

É melhor, prossegue o artigo do LOR, “evitar chamar ‘pecado’ (seu aroma a incenso poderia alarmar aos laicistas) à ‘ferida original’ que pode ser traduzida como a sombra que envolve as relações de amizade ou amor, que transforma à chamada sociedade civil em uma instância de crueldade e ferocidade”.

Pode-se ver, ademais, “a facilidade com a que um afeto profundo ou inclusive uma relação de simples empatia se transforma em uma relação de poder, e o gosto amargo da ‘espinhosa realidade’, como escrevia Rimbaud, que se revela na contínua repetição do mecanismo de ‘tensão para o cumprimento, desilusão, reação violenta’”.

O texto assinala também que a “cada certo tempo o registro constantemente alto do roteiro faz tropeçar os diálogos em qualquer ingenuidade e não faltam algumas estupidezes e quedas da tensão, sobre tudo nas cenas rodadas na Itália, em Montepulciano (…) mas os intérpretes parecem convincentes (ao menos até agora) e irônicos inclusive fora do set: ‘75 por cento do mérito é dos cabelos’, responde Robert Pattinson (Edward) ao ser perguntado pelo êxito planetário do bom vampiro, um pouco James Dean, um pouco ícone dark de quem vive na cidade mais chuvosa dos Estados Unidos”.

De outro lado, o perito em cinema do Pontifício Conselho para a Cultura, Dom Franco Perazzolo, assinalou que a esta produção constitui “um vazio mais perigoso que qualquer tipo de mensagem desviada”.

O gênero vampiresco combina uma série explosiva de imagens que sempre atrai às jovens gerações para os extremos, depois do qual se encontra o vazio“, disse.

Fonte : ACI

* Substituir Deus pela própria autonomia?

sexta-feira, novembro 20th, 2009

“Quem pretende substituir Deus com sua própria autonomia perde a própria vida, porque rechaça quem a criou e encaminhou ao cumprimento definitivo e glorioso de seu plano de salvação.”

Com estas palavras pronunciadas durante a homilia, o cardeal secretário de Estado vaticano, Tarcisio Bertone, convidou os membros do Conselho Nacional das Associações Médicas Católicas Italianas (AMCI) a refletir sobre a crise moral que assola a sociedade moderna.

Na sexta-feira passada, na Capela Paulina do Palácio Apostólico, dentro da Cidade do Vaticano, o secretário de Estado transmitiu à AMCI o “mais vivo alento para prosseguir em vossa missão”.

“O Papa –afirmou o purpurado– acompanha-os com a oração e envia sua bênção, estendendo-a a todos os sócios” da instituição.

Abordando os desafios da modernidade, o cardeal Bertone recordou que “a atividade do médico católico se revela útil não apenas para os fins da saúde física, mas também, de certo modo, da saúde moral e espiritual do paciente”.

Isso –continuou– porque “corpo e espírito estão no homem tão unidos que um influencia no outro, e vossa tarefa principal é tutelar e promover a vida em sua realização integral”.

O cardeal referiu-se à crise de civilização que caracteriza nosso tempo, em que “a própria medicina, que por sua natureza deve tender à defesa e ao cuidado da vida humana, em alguns de seus setores presta-se cada vez mais a realizar atos contra a pessoa”.

Neste sentido, destacou “a urgência de educar na cultura da vida”.

“Por um lado, assiste-se à eliminação de vidas humanas nascentes ou que se encontram no fim; por outro, torna-se cada vez mais difícil para a consciência distinguir o bem do mal no que afeta o próprio valor fundamental da vida humana”, explicou.

Referindo-se à encíclica Caritas in veritate, o secretário de Estado vaticano denunciou a “concepção material e mecanicista da vida humana” que reduz o amor sem verdade a “uma casca vazia que preencher arbitrariamente” e pode comportar efeitos negativos para o desenvolvimento humano integral.

Segundo o purpurado, para educar na cultura da vida, é necessário “poder contemplar em todo ser humano o reflexo da beleza e do amor de Deus”.

Porque “sem Deus o homem deixa de perceber a si mesmo como ‘misteriosamente outro’ em relação às diversas criaturas terrenas, e é considerado como um de tantos seres vivos, como um organismo que, quando muito, alcançou um estado muito elevado de perfeição”, afirmou.

O secretário de Estado vaticano denunciou então o aborto e as mortes por causa da fome. “Há vidas que não são notícia e cuja perda não dá sobressaltos”, lamentou.

“Há batalhas sacrossantas para salvar a vida de condenados à pena de morte e para salvaguardar o direito à vida também dos que cometeram graves delitos –acrescentou–, enquanto se considera legal e justa a morte de inocentes, com leis aprovadas por maiorias em Parlamentos civis.”

“A emotividade ou as ideologias e as razões políticas substituem na prática a consciência retamente iluminada”, constatou.

Em resposta aos que pretendem substituir Deus pela sua própria autonomia, o cardeal Bertone propôs “o testemunho dos crentes que reafirmam a primazia de Deus sobre tudo: este é de fato o único caminho que conduz o homem a sua plena realização”.

* Cuidar da vida até à morte: Contributo para a reflexão ética sobre o morrer.

sexta-feira, novembro 20th, 2009
Publicamos a seguir a Nota pastoral da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), intitulada “Cuidar da vida até à morte: Contributo para a reflexão ética sobre o morrer”. O texto foi difundido por Agência Ecclesia, ao final da Assembleia plenária da CEP em Fátima
A nota é bem profunda e objetiva” dar um contributo para o debate em curso e oferecer aos católicos algumas linhas de orientação que devem ser tidas em conta nas suas reflexões.

Interessante porque aborda a morte sob a ótica da fé e também as questões éticas relacionadas ao morrer de forma verdadeiramente humana.

O documento apresenta a visão cristã de um problema antropológico, não apenas confessional,o morrer dignamente.
Remete a eutanásia,suicidio assistido  e temas relacionados.
Vale a pena ler até o fim e salvar no computador.

Excelente!

* * *

1. A discussão em curso na nossa sociedade

A dignidade da pessoa na fase final da vida tem sido, nos últimos meses, objecto de debate na sociedade portuguesa. A opinião pública, e os cidadãos em particular, são confrontados com muitos dos problemas que, justamente, são motivo de preocupação e de reflexão, sejam eles de natureza ética, social, assistencial ou económica.

Muitas das questões actualmente em discussão são de todos os tempos, pois têm a ver com a dificuldade em integrar a morte no horizonte da própria vida. Outras são típicas da nossa época, porque resultam das condições que as novas possibilidades da medicina nos proporcionam. Uma observação atenta das intervenções que surgem nos meios de comunicação social mostra uma grande falta de rigor na terminologia usada; e é visível que, por vezes, se pretende validar opções inaceitáveis (morte directa de um paciente) aplicando o termo “eutanásia” a situações que não o são de facto,  e que podem ser eticamente aceitáveis.

Os Bispos de Portugal, sabendo da importância destes problemas, da intenção que, a nível político, se tem manifestado no sentido de produzir legislação neste âmbito e perante a ambiguidade de muitos dos conceitos que são usados, pretendem, com esta intervenção, dar um contributo para o debate em curso e oferecer aos católicos algumas linhas de orientação que devem ser tidas em conta nas suas reflexões.

2. A visão cristã de um problema não confessional

Será conveniente recordar que esta não é uma discussão de carácter religioso ou confessional, embora algumas posições possam ser incompatíveis com a visão cristã da vida e do homem. Ao pensar sobre opções de carácter jurídico ou ético, é necessário, portanto, questionarmo-nos sobre aquilo que é importante para uma vida verdadeiramente humana, sobre o que é decisivo na realização da pessoa, sobre os valores autênticos de humanidade, sobre o modelo de sociedade em que queremos viver.

É a este nível que se torna decisivo o contributo das intuições que brotam da fé cristã. A revelação bíblica mostra-nos a existência humana como resultado da bondade divina, isto é, como um dom que suscita em nós gratidão e não nos dispensa da responsabilidade de cuidar dele. Para o crente, a vida não está à inteira disposição de quem quer que seja, não é arbitrariamente disponível, mas tem de ser respeitada como a condição básica de realização pessoal. A vida humana é prévia a qualquer projecto pessoal, por isso ninguém é senhor absoluto da sua própria vida e muito menos senhor da vida dos outros. O valor da vida humana não brota das valorizações que a sociedade atribui ou dos critérios que no momento são socialmente significativos, mas de uma dignidade prévia a qualquer criteriologia. O suporte desta dignidade é a própria condição humana, que, para o cristão, tem origem na bondade criadora de Deus e no amor salvífico de Jesus Cristo.

Esta visão crente da vida leva-nos também a encarar com realismo os limites naturais da existência humana, já que, numa perspectiva de fé, a realização plena e definitiva da pessoa só é possível na vida em Deus. O testemunho dos mártires cristãos mostra-nos que não é sensato para o crente lutar pela vida a todo o custo. O horizonte da eternidade valoriza e, ao mesmo tempo, relativiza a vida biológica de cada pessoa. Por outro lado, a afirmação da convicção de que só Deus é o Senhor da vida, não retira ao homem a sua responsabilidade de procurar as melhores opções para cuidar da vida que tem diante de si. Cada pessoa deve ser respeitada como sujeito da sua própria existência e nunca simplesmente como objecto do qual se possa dispor arbitrariamente.

3. O morrer na cultura actual

Estas convicções da fé cristã necessitam permanentemente de ser confrontadas com os desafios e as exigências de cada época. Algumas características da cultura contemporânea deram origem a um modo próprio de abordar não só os problemas relacionados com o processo de morrer, mas também a própria morte e o sofrimento humano.

Por um lado, tornou-se dominante uma concepção de autonomia em que a liberdade individual é elevado a direito absoluto. O homem actual quer não só ser protagonista da sua própria história, mas ter nas mãos todos os processos da sua vida. É neste sentido que parece aliciante poder antecipar a morte ou prolongar o processo de morrer, de acordo com o que no momento for tido como mais vantajoso.

Por outro lado, os desenvolvimentos técnico-científicos no campo biomédico levantam problemas inéditos e apresentam questões inevitáveis. As novas possibilidades que nos são oferecidas pela medicina também tornam mais complexas as situações com que nos deparamos no âmbito dos cuidados de saúde e do acompanhamento a doentes terminais. A diversidade de opções gera perplexidade a quem tem de decidir.

A estes factores circunstanciais acresce o facto de o próprio processo de morrer se ter transformado: o morrer tornou-se mais longo; na maior parte das vezes morre-se em hospitais ou centros clínicos, nos ambientes anónimos e frios das instituições; o sofrimento associado a longas doenças terminais causa uma insegurança adicional; diversos factores contribuem para que os moribundos vivam uma solidão preocupante; o excesso de tecnologia põe em causa os esforços por humanizar o cuidado dos doentes.

4. Critérios éticos

É num contexto marcado por estes desafios que tanto os profissionais de saúde como todas as pessoas envolvidas com estas situações necessitam de critérios éticos que orientem no sentido de uma autêntica humanização da fase terminal da vida.

4.1. A obrigação moral de garantir à vida humana uma especial protecção está testemunhada em preceitos primordiais da humanidade, com expressões diversas em todas as culturas, e codificada no mandamento bíblico do Decálogo: “Não matarás” (Dt 5,17). A consciência moral das gerações que nos precederam e o próprio magistério da Igreja procuraram, ao longo dos tempos, com os recursos culturais de cada época, encontrar expressões e concretizações actualizadas deste mandamento, no sentido de elevar e purificar as exigências morais nele contidas. O respeito por este imperativo é certamente incompatível com qualquer forma de agressão directa à vida humana, sempre que ela não ponha em causa a existência de outras pessoas.

4.2. Consequentemente, é eticamente inaceitável qualquer forma de eutanásia, isto é, qualquer “acção ou omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte” (1). Nem sequer o objectivo de eliminar o sofrimento ou livrar a pessoa de um estado penoso pode legitimar a eutanásia, tanto mais que a medicina e a sociedade dispõem de outros meios para socorrer os pacientes em fase terminal. Equivalente à eutanásia, do ponto de vista ético, é qualquer forma de ajuda ao suicídio, também designado suicídio assistido.

A eutanásia é concretização de um desejo que o homem contemporâneo tem de se apoderar da morte, antecipando-a para a situar no momento que ele próprio determina, resultado de um medo angustiante e desesperado perante o sofrimento. A eutanásia é frequentemente apresentada como um gesto de humanidade ou de compaixão que pretende respeitar a dignidade com que cada ser humano quer viver. Na realidade, porém, e numa linha de princípio, qualquer forma de eutanásia constitui uma renúncia a acompanhar a pessoa doente, traduz a falta de empenho de uma sociedade em procurar meios que permitam viver dignamente todas as fases da existência humana. É, por isso, uma violação, ainda que consentida, da dignidade fundamental que se deve reconhecer a cada ser humano. A eutanásia ou a ajuda ao suicídio são formas desumanas de lidar com a pessoa que vive o seu processo de morrer, constituem “uma ofensa à dignidade da pessoa humana, um crime contra a vida e um atentado contra a humanidade” (2).

4.3. Distinta desta atitude de agressão à vida humana, é a legítima renúncia a recorrer a todos os meios para manter viva uma pessoa em estado terminal. A obstinação terapêutica, também conhecida por “encarniçamento terapêutico” ou “distanásia”, seria precisamente o recurso a um conjunto de intervenções médicas já desproporcionadas face ao bem global que a pessoa poderá vir a experimentar.

Do ponto de vista da ética, reconhece-se uma diferença fundamental entre matar e deixar morrer, quando esta última opção não for equivalente a negligência, mas for concretização do respeito pelo curso normal da vida humana. Esta distinção ética encontra apoio também na já referida concepção cristã da vida, segundo a qual a vida humana é um valor fundamental ainda que não absoluto. É moralmente legítimo, portanto, renunciar aos meios que tenham por finalidade prolongar a vida quando da sua aplicação não se esperem resultados terapêuticos ou ela implique o sacrifício de valores fundamentais para a pessoa em causa.

Também esta renúncia a “tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida” (3) pode ser considerada uma opção de respeito pela vida, já que proteger a vida não significa prolongá-la a todo o custo. O respeito pela vida humana não se reduz a uma protecção incondicional da vida biológica, mas deve incluir também o empenho por garantir todos os elementos que tornam humana essa vida. O direito a uma morte digna pode significar também não esgotar todos os meios médicos, quando tal signifique apenas um prolongamento do morrer.

4.4. Na procura de critérios éticos é fundamental também a distinção entre matar e acompanhar o morrer. Esta última é a opção concretizada, por exemplo, nos cuidados paliativos. Trata-se de aceitar todos os cuidados e intervenções médicas que tenham por objectivo tornar o sofrimento mais suportável, diminuindo ou eliminando a dor, proporcionando todo o acompanhamento humano possível e criando as necessárias condições para um cuidado global (holístico) à pessoa em causa. O Magistério católico ensina, já há várias décadas, que é moralmente aceitável suprimir a dor por meio de narcóticos, mesmo que isso implique limitar a consciência ou abreviar a vida (4).

Parece-nos que seria de evitar a expressão “ajudar a morrer”, dada a sua acentuada ambiguidade, não sendo claro o que se quer indicar com ela, e tendo em conta que as expressões equivalentes noutras línguas são usadas para referir aquilo que designámos por “suicídio assistido”.

5. Opção por um morrer humano

Recordamos que todas as orientações éticas têm como objectivo encontrar concretizações de um morrer verdadeiramente humano. O que está em causa é a preservação da dignidade da pessoa em algo que é decisivo e constitutivo de todo o projecto pessoal de vida. Isto inclui certamente fazer aquilo que é razoavelmente possível para que o paciente preserve as condições de sujeito da sua própria história. Na medida do possível, “não se deve privar o moribundo da consciência de si mesmo, sem motivo grave” (5), uma vez que também nos momentos finais da vida cada pessoa deve estar em condições de poder assumir as suas responsabilidades morais, de relacionar-se com as pessoas que lhe são significativas e de viver todo este processo no contexto da sua relação com Deus.

Uma humanização do morrer é incompatível com a eliminação do sujeito que morre, pois não tem em conta a globalidade das suas necessidades. As súplicas de quem sofre, muitas vezes desejando terminar com a situação de dor, mais do que um desejo de morrer, são sobretudo o apelo a uma presença marcada pelo amor, a formas concretas de solidariedade e expressões da necessidade de perspectivas de esperança. Para isto, é necessário criar condições que humanizem a fase terminal, para que a pessoa possa ter um morrer humano: disponibilizar os meios que retirem ou reduzam o mais possível a dor, dar ao doente acesso aos meios médicos de que necessita, assegurar um acompanhamento humano personalizado, garantir ao paciente que não será abandonado à solidão em nenhum momento da sua fase final, permitir-lhe a presença das pessoas que lhe são mais queridas, facilitar-lhe a vivência das suas convicções religiosas e a satisfação das suas necessidades espirituais, possibilitar um acompanhamento psicológico, respeitar os seus valores e legítimos desejos, criar condições de confiança.

Numa sociedade cada vez mais dominada pela exigência de produtividade material e regida por critérios de utilidade, é fundamental transmitir a todos os pacientes, e com maior razão aos que se encontram em estado terminal, que a sua vida é sempre preciosa e valorizada, mesmo nas circunstâncias dolorosas em que se encontram, que não são um fardo para os outros, e que a sua vida continua a ser significativa para a comunidade a que pertencem.

Sabemos que num mundo onde só têm visibilidade os bem-apresentados, os corpos atléticos e estéticos, se torna difícil aceitar como parte da vida social um corpo desfeito pela doença e martirizado pela dor. Na perspectiva cristã, o sofrimento, a doença e a morte são partes da vida e têm de ser integradas no projecto pessoal de vida. Também por isso, a humanização do morrer deve incluir um respeito profundo pela pessoa doente e um cuidado dedicado das suas necessidades. Um morrer humano e digno exige todas as condições de um acompanhamento global da pessoa que tenha em consideração todos os aspectos da vida humana.

Uma vida humana nunca perde sentido nem dignidade. Também o envelhecer e o morrer se integram no sentido da vida humana e reflectem a dignidade humana da pessoa. “O amor para com o próximo […] torna capaz de reconhecer a dignidade de cada pessoa, mesmo quando a doença veio pesar sobre a sua existência. O sofrimento, a idade avançada, o estado de inconsciência, a iminência da morte não diminuem a dignidade intrínseca da pessoa, criada à imagem de Deus” (6).

6. Uma sociedade com lugar para todos e uma vida com espaço para a morte

O recurso aos princípios éticos não ignora que as circunstâncias concretas escapam habitualmente a todas as tentativas de regulamentação jurídica ou deontológica. Aos cristãos pede-se que façam a sua reflexão sobre estes problemas em diálogo com os homens e mulheres de boa vontade, certamente à luz dos dados da sua fé, num esforço por procurar um nível elevado de moralidade.

Mesmo admitindo que algumas situações são demasiado complexas para proferirmos juízos prévios, e sabendo que nenhum preceito moral tem em conta a diversidade de situações que a vida apresenta, a legitimação jurídica da eutanásia ou do suicídio assistido teria como consequência uma pressão inevitável sobre todas as pessoas cuja vida não correspondesse aos padrões de realização que são dominantes em determinada sociedade. Facilmente surgiria um grupo de não desejados, vistos como peso da sociedade. Pessoas gravemente doentes ou em estado terminal não podem ter de modo algum a impressão de serem indesejadas, mas devem sentir de modo reforçado que são preciosas e queridas, e que a sociedade não se dispensa de fazer tudo o que está ao seu alcance para as valorizar e integrar.

Para além da discussão sobre a legitimidade moral de optar por alguma forma de auto‑determinar o final da vida, parece-nos fundamental reavivar uma leitura da vida humana, suportada pela fé cristã mas também pelas tradições humanistas da nossa cultura, em que a morte seja integrada como momento significativo da vida de uma pessoa e ao sofrimento seja reconhecida a possibilidade de se integrar no horizonte de sentido da existência humana. A este propósito pode ser iluminadora a afirmação de São Paulo: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). Como explica João Paulo II, “morrer para o Senhor significa viver a própria morte como acto supremo de obediência ao Pai […]; viver para o Senhor significa também reconhecer que o sofrimento, embora permaneça em si mesmo um mal e uma prova, sempre se pode tornar fonte de bem” (7). O cristão encontra o sentido redentor do sofrimento humano, unindo‑se a Cristo, no mistério da sua paixão, morte e ressurreição.

Antecipar a morte, pelo suicídio assistido ou pela eutanásia, ou prolongar desproporcionadamente o processo de morrer, tem como resultado uma expropriação da morte, retirando ao indivíduo a possibilidade de um morrer pessoal, no respeito pelos tempos necessários a uma integração da dor e da morte no sentido global da existência humana. A doença e a morte são processos pessoais, que, ao mesmo tempo, exprimem a individualidade de cada pessoa e determinam a atitude pessoal perante a própria história. De facto, a maneira de morrer pode ser decisiva quanto ao sentido de toda uma vida. A morte não é um problema a solucionar, mas um mistério que envolve e provoca toda a vida.

7. Gratidão e esperança

Por último, os Bispos de Portugal desejam enaltecer e agradecer:

– o exemplo de generosa dedicação de tantas e tantos que acompanham e servem doentes crónicos, deficientes profundos e outras pessoas que dependem fundamentalmente da ajuda que recebem;

– o empenho dos profissionais de saúde que se dedicam à investigação para a superação da dor e aos que se entregam aos cuidados paliativos, oferecendo a qualidade de vida possível a incontáveis pessoas em situações de grande debilidade;

– o testemunho de tantas pessoas com doenças graves, profundamente limitadas, que são um exemplo de aceitação e alegria e nos desafiam a sair da mediocridade estéril do egoísmo em favor de um amor generoso sem fronteiras…

Todos estes são a melhor resposta a quem julga ser uma boa causa promover a legalização da eutanásia; os seus testemunhos são maravilhosos hinos à vida, que devemos sempre proteger.

Fátima, 12 de Novembro de 2009

NOTAS:

1 – JOÃO PAULO II, Evangelium vitae, Vaticano 1995, n. 65.

2 – CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração sobre a Eutanásia (5.05.1980), in: AAS 72 (1980), II.

3 – CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração sobre a Eutanásia (5.05.1980), in: AAS 72 (1980), IV.

4 – Cf. PIO XII, Discurso a um grupo internacional de médicos (24.02.1957), in: AAS 49 (1957), 145; CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração sobre a Eutanásia (5.05.1980), in: AAS 72 (1980), 547; JOÃO PAULO II, Evangelium vitae, Vaticano 1995, 65.

5 – PIO XII, Discurso a um grupo internacional de médicos (24.02.1957), in: AAS 49 (1957), 145.

6 – JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes no XIX Congresso Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde, 12.11.2004, n. 3.

7 – JOÃO PAULO II, Evangelium vitae, Vaticano 1995, 67.

* Desespero do ateísmo.Filhos do nada cada vez mais sós?

quinta-feira, outubro 22nd, 2009

Um milhão de nova-iorquinos passa bem sem Deus. E tu?”. Esta é apenas uma das mensagens que vão estar espalhadas pelas estações de metro de Manhattan, uma iniciativa de um grupo de oito organizações ateístas, a partir de Outubro de 2009.

Trata-se, segundo um comunicado do grupo, auto-intitulado “coligação da razão”, de parte de uma campanha publicitária destinada a atrair a atenção sobre os que não acreditam em Deus.

De acordo com Michael De Dora, director executivo de uma das organizações que integram a coligação, o objectivo é também promover o diálogo e a reflexão sobre religião e moralidade, já que, alega, as pessoas “não precisam da religião para serem boas pessoas e membros produtivos na sociedade”.

A rede de metro de Nova Iorque é uma das mais movimentadas do mundo, com mais de 5 milhões de utilizadores por dia e um total de 1,6 mil milhões de passageiros em 2008.

***

Respeitamos e nos questionamos: Para que essa ” evangelização” atéia ?

Não é  do atéismo a ” proclamação”,como é próprio das religiões.

O Ateísmo é um espécie de vazio,ausência..não é uma afirmação de nada, mas a negação não só de Deus mas do próprio homem,reduzido apenas à razão e a prova material para suas  certezas,fato que apenaso o empobrece e o reduz.

Será que está dificil para os ateus viverem cada vez mais sós neste mundo que, a despeito de tanta dor e desorientação,onde o relativismo ” tenta ” ser resposta,mais do que nunca busca no transcendente a esperança e o sentido da própria existência?

Os ateus podem até não  serem religiosos, mas humanos nunca conseguirão deixar de ser.

Quem clama pela transcendência não é a lógica nem a razão isolada,mas o humano! o ser inteligente! o ser “religioso” por natureza, confirmado pela antropologia ,pela história e pelo simples bom senso.

O Ateísmo nunca morrerá,quem morrerão serão os ateus que concluirão então que viveram uma vida seca e sem sentido e agora,talvez ,uma eternidade sem Deus.

Digo talvez, porque a Deus pertence o julgamento e não nos cabe julgar ninguém,ninguém mesmo.

A ELE o louvor e a glória agora e para sempre !!! Deus amante do homem,de todos os  homens,dos ateus,inclusive!

***

A propósito,Leia abaixo artigo sensato e cheio de sabedoria,escrito por Dom Aloisio Oppermann.

O papa esteve na República Checa, entre 26 e 28 de setembro deste ano de 2009. Esse país é o mais agnóstico do mundo (uns 60 % da população). Mas isso não impediu de Bento XVI pronunciar notável palestra na Universidade de Praga (com casa cheia), em atitude de total respeito do público, e com abertura intelectual de mestres e alunos.

Falou abertamente sobre o sentido antropológico da fé em Deus, e do retorno às raízes cristãs do povo checo. O comunismo educou várias gerações no agnosticismo. Pode-se dizer que esse encontro do Papa foi um sucesso.

Mas ato contínuo, um prêmio Nobel de literatura, europeu, insultou Sua Santidade, exatamente por demonstrar o grande sentido de vida, que a fé num Deus Criador imprime. Este, diferente dos checos (que são agnósticos em busca de devassar o mistério divino), é um militante ateu. Supera até o marquês de Pombal em intenções anti-eclesiais. É bom saber que nenhum ateu militante aceita a metafísica. É como discutir a cor de uma árvore, dizendo que o critério da vista não vale.

Tenho observado, repetidas vezes, uma grande violência de palavras por parte de militantes do ateísmo. Pode ser que os pensadores tranqüilos do ateísmo existam. Mas eu não tenho experiência disso. O que costuma acontecer, é que eles, antes de tudo, insultem a inteligência dos seus contendores. Nas palavras deles, os únicos inteligentes ficam do seu lado. Os outros são mentecaptos, idiotas, iludidos, e de baixo Q.I. O segundo gesto costumeiro é o insulto público, a ponto de assustar, e fazer tremer a vítima até as bases. O que se quer com essas duas atitudes ( desclassificar os adversários e assusta-los)? É impedir o diálogo. É calar, envergonhados, todos os que tem outro ponto de vista e querer silencia-los para sempre. Numa briga doméstica se costuma dizer que aqueles que mais gritam, são os que tem menos razão. A teologia cristã concorda em dialogar com os que não aceitam um Ser Superior, que sempre existiu. Mas não se pode aceitar os argumentos de quem se refugia em teorias complicadíssimas, e não aceita as razões do bom senso. “As perfeições de Deus podem ser contempladas, pela inteligência, nas obras que realizou” (At 1, 20).

* Ir além da “esquerda” e da “direita”,a chave da liberdade na Europa e na América.

sexta-feira, outubro 16th, 2009

Bento XVI deixou claro em muitas ocasiões que o cristianismo não acredita nos messias políticos. E novamente ele nos lembra que só a fé no verdadeiro Messias –Jesus Cristo– permitirá influenciar na política de um modo profundamente ético.

Suas palavras, em sua viagem à República Tcheca, um país que comemora o vigésimo aniversário da queda do comunismo, têm implicações importantes em toda Europa e no continente americano, dois lugares cuja história é inseparável do cristianismo.

Falando na República Tcheca, no encontro ecumênico, o Papa observou que “quando a Europa escuta a história do cristianismo, escuta a si mesma. Seus conceitos de justiça, liberdade e responsabilidade social, junto com as instituições culturais e legais estabelecidas para preservar estas ideias e transmiti-las às gerações futuras, estão determinados por sua herança cristã”.

E –explicou o Papa Bento XVI– o cristianismo não deve limitar-se às margens da sociedade. A liberdade religiosa deve ser protegida, e o cristianismo deve ter voz no debate público, na formação da consciência do continente, e em buscar um consenso moral.

Falando aos membros do governo Tcheco, no sábado, disse: “gostaria de enfatizar o papel insubstituível do cristianismo na formação da consciência de cada geração e na promoção de um consenso ético básico que sirva a toda pessoa que chama este continente de sua casa”.

E observou que os crentes devem vir para a política a partir da perspectiva do seu cristianismo –e não alterar o cristianismo para uma interpretação política. Afirmou que “a sensibilidade para a verdade universal não deve ser ofuscada por interesses especiais, por mais importantes que sejam, porque apenas conduziriam a novos casos de fragmentação social ou discriminação, que grupos interessados ou lobbys pretendem superar”.

A outra margem

O que Bento XVI disse sobre a Europa vale igualmente para o continente americano. Os cristãos devem levar a verdade do cristianismo para influenciar na formação da consciência de suas nações.

No mesmo dia que ele falava sobre a necessidade de uma voz pública para a religião e a ética na praça principal de Praga, celebrava-se na cidade do México um simpósio sobre liberdade religiosa no hemisfério americano. Tratava sobre a história –e o futuro– da liberdade religiosa no continente americano.

Na América, como na Europa, toda história do continente é dos “cristãos batizados”. No continente americano, cada país foi fundado por cristãos, a maioria por católicos, e igualmente importantes, cada país –incluindo os Estados Unidos e Canadá– tem uma forte tradição católica.

A fé no continente americano manteve-se bastante vibrante. Na verdade, desde os dias do bispo Zumárraga, primeiro bispo do México, que trabalhou pela liberdade religiosa nos Estados Unidos conduzida por John Carroll e muitos outros.

Nos dias de hoje, a Igreja Católica tem sido parte da experiência americana –e da consciência americana– em cada passo do caminho, tanto na questão dos direitos civis, como na liberdade religiosa ou o direito à vida.

A contribuição da Igreja para a ordem social no continente americano ocorreu em cada um dos seus cantos.

Historicamente, fundamentada na verdade imutável, a contribuição da Igreja para a consciência dos Estados não tem sido limitada pelo lugar, país, tipo de governo ou ideologia política dos poderosos.

Às vezes essa mensagem foi bem recebida, mas outras vezes tem sido pregada pagando-se um preço elevado.

Olhando adiante

Então, como se apresenta o futuro da política na Europa e no continente americano?

Sugiro que comecemos por considerar como a doutrina social católica pode moldar a totalidade de nossas plataformas políticas. Em outras palavras, o cristianismo deve ser adicionado à “ética política” do Estado, e se deve permitir a fazê-lo. Todos deveriam evitar a tentação de aplicar seletivamente a doutrina social católica para esses cargos onde nos convém.

Deveríamos começar lembrando que muito antes de que existisse uma “ala esquerda” ou “ala direita”, existia o Evangelho e que, muito depois de quando esses rótulos políticos caírem no esquecimento, o Evangelho permanecerá. Como pessoas de fé antes de políticos, todos temos a responsabilidade de proteger o Evangelho da manipulação de qualquer filosofia política, incluindo a nossa.

O Papa Bento XVI explicou na República Tcheca que o fundamento em Deus, assim como a busca e o compromisso com as verdades universais, é a chave para a verdadeira liberdade e o governo justo.

Há tempos ele fala disso. Ele o fez tanto para as Nações Unidas em 2008, como em seu livro de 1987 “A Igreja, Ecumenismo e Política”, escrito exatamente quando o comunismo começou a desmoronar na Europa.

Convida-nos a continuar o que o filósofo francês Jacques Maritain chamou de uma das grandes realizações do cristianismo na sociedade moderna: “a evangelização da consciência secular”.

Pede-nos que sejamos, como disse em Praga, aqueles que “hoje, no país e no continente, tratam de aplicar sua fé com respeito, mas com decisão, no âmbito público, com a esperança de que as normas sociais e políticas se ajustem ao desejo de viver a verdade, que cada homem e mulher livre possui”.

Continuar este evangelização da consciência, numa nova evangelização, é nossa tarefa como cristãos.

E os políticos e cidadãos conscientes em ambos os lados do Atlântico deveriam prestar atenção a isto. Nós devemos evangelizar nossa cultura, e devemos assegurar que a liberdade religiosa seja protegida e não relegada às margens da sociedade por uma cultura que considera o secularismo relativista como a chave para uma liberdade falsa e efêmera.

Enquanto buscamos a liberdade, e para melhorar esses países e continentes onde vivemos, deveríamos ter em mente as palavras do Papa Bento XVI em Praga:

“A liberdade procura uma finalidade e por este motivo exige uma convicção. A verdadeira liberdade pressupõe a busca da verdade —do verdadeiro bem— e por conseguinte encontra o seu próprio cumprimento precisamente no facto de conhecer e de fazer aquilo que é reto e justo. Por outras palavras, a verdade é a norma-guia para a liberdade, e a bondade é a sua perfeição.”

“Para os cristãos, a verdade tem um nome: Deus. E o bem tem um rosto: Jesus Cristo”. Esta é a incumbência que o Papa Bento XVI nos deu. Agora, cabe a nós prestar atenção em suas palavras e atuar de forma que possamos ser testemunhas –e contribuir– para a construção da civilização do amor.

Carl Anderson

***

A liberdade e a Verdade são palavras corriqueiras em nossos dias.

A pergunta que fica é se nós sabemos REALMENTE o que elas significam e,se compreendendo seus conceitos, sermos capazes -de pelo evangelho- levar o homem de hoje a este encontro que ele tanto almeja!

Um encontro com a verdade que o liberte e o faça capaz de amar de maneira livre, sendo homem de forma plena!

Essa é a questão.Não “qualquer ” verdade, mas a verdade de Deus, em Jesus Cristo.

“Espiritualidade” empresarial ?

segunda-feira, setembro 7th, 2009

A apoteose científica, tecnológica e virtual dos tempos modernos está provocando o surgimento de uma nova corporação dentro das corporações. Em vez de estimular o estresse, tentar-se eliminá-lo. Em vez de promover a competividade do porteiro ao executivo número 1, procura-se dar conforto e segurança a todos. Em vez de exigir criatividade com o chicote, cria-se clima para que as pessoas encontrem, em paz, a inspiração.

Um paraíso? Bem perto disso. Onda passageira ou não, algumas empresas estão recorrendo à religião – seja ela qual for – para espantar seus males e levantar o astral cada vez mais combatido de seus empregados.

Não se trata de religiosidade revelada, por exemplo, pelo publicitário Nizan Guanaes, que se define como católico apostólico e baiano e filho de Xangô. Ele mantem em sua sala, na agência DM9/DDB, vasos com espadas de São Jorge e comigo ninguém pode, além da imagem da Mãe Menininha do Gantois, dois duentes e uma imagem de Santo Antônio (1195/1231), o malagroso Santo Português casamenteiro, protetor dos pobres, das mulheres grávidas e dos viajantes, filho de nobres que se tornou em erudito franciscano.

Esses fevoroso melange religioso de Nizan, porém, é de certa forma um retrato da criatividade da diversidade de crenças que adentram a vida das empresas, incorporando a seu glossário palavras como “alma” e “espiritualidade”. Só Deus – seja ele chamado de Maomé ou Xangô.

Em São Paulo, todos os dias Itamar de Paula Marques, diretor geral da industria alimentícia Superbom, chega ao trabalho ás 6h30 da manhã e se prepara para o ritual: pregar o Evangelho a seus funcionários. O executivo é adpto da Igreja Adventista do 7º Dia, assim 50% de seus 170 funcionários. ” A religião está em primeiro plano, depois vem a indústria”, diz ele. Em São João do Meriti, na Bixada Fluminense, muito provalvemente Arthur Sendas, presidente das Casa Sendas,estará rezendo no mesmo horário, como católico fervoroso que é. O dono da maior rede varejista do Estado do Rio.

Bem acima da linha do Equador, muda o fuso horário, mas o fenômeno espíritualista ganha e megalomania americana. Nos Estado Unidos, meca das manias coletivas, a religião chega ao mundo financeiro, fazendo proliferar os fundos mútuos baseados na fé para atender a investidores católicos, islãmicos, luteranos, que evitam investir em indústrias de cigarros, bebidas, jogos e companhias com maus precedentes em relação ao meio ambiente.

Um deles reuniu 300 funcionários de todos os níveis durante 24 horas no deserto de New Mexico, para se comungar com a natureza de inspiração para a construção de novos produtos.Ainda nos Estados Unidos executivos estão adotando o hábito de se reunir no café fa manhã para ouvir conferêcias espirituais.

O fenômeno da religiosidade parece ser um reflexo das mudanças no mundo dos negócios. As pessoas estão trabalhando mais – o equivalente a um mês a mais cada ano em comparação com uma década atrás. Comem na empresa, fazem ginástica na empresa, namoram e casam na empresa e é ali que sofrem diariamente pressões de todos os tipos, além de conviver com ameaças do desemprego. Nesse clima perverso, uns se apegam à religião; outros trocam empregos milionários por qualidade de vida, realização pessoal, essas coisas que a maioria sonha e uma minoria realiza. “Mais e mais pessoas buscam o caminho da espiritualidade em busca de ajuda para enfrentar tudo isso”, diz um consultor americano que tem como clientes Goldman Sachs, Sun Microsystems e Ford. Dez anos atrás seria impossivel imaginar a existência de grupos de oração na multinacional de consultoria Deloitte & Touche.

Para as empresas esses programas espirituais não representam apenas um esforço para acabar com o estresse dos empregados, mas sim para liberar a produtividade.

O que, para os críticos, é outra fantasia de administração, algo como a onda de soluções japonesas para aumentar a produtividade dos empregados e o lucro dos patrôes. Pelo sim ou pelo não, tudo indica que,nestas alturas,rezar, se não for o melhor remédio contra as pressões, alivia. No mínimo, enquanto você reza estará livre de explodir e falar tudo o que sempre quis e nunca teve coragem, correndo o risco de perder o emprego.

fonte: Revista Dinheiro

***

Deus é uma necessidade vital para todos os homens.

Infelizmente na busca por sentido de vida muitos buscam Deus em qualquer lugar que use a palavra “deus” .

Talvez  por omissão nossa que não evangelizamos como deveríamos, muitos tem a falsa compreensão de que “todos os caminhos levam a Deus” e de o que importa é ter “alguma “espiritualidade;alguns chegam a fazer uma mistura sincretica com religiões  e conceitos que são absolutamente antagônicos,o que apenas revela a ausência de base minima nessa matéria.

Contraraindo o senso comum e relativista, NEM TODOS OS CAMINHOS LEVAM A DEUS,embora se reconheçam buscas honestas pela verdade na grande maioria dos que trilham essa procura.

Muitos que se dizem “católicos” não conseguem perceber contradição entre a fé católica e outras vivências religiosas,achando que ter posição a esse respeito se enquandra na “intolerância religiosa” demonstrando não saber  nem o que é intolerância nem  o que é a verdadeira fé católica .

Outros acham que,sendo a fé algo “interior” e “sentimental” não tem fundamento doutrinário e, “se tem” fica subordinado às percepções e “certezas” pessoais,já que “religião não se discute”.

Na verdade,nem uma nem outra são verdadeiras.

A fé Católica tem fundamentos bem definidos e sabe em que e em QUEM crer.

Essa fé respeita outras religiões mas esse respeito não consiste em negar aquilo que ela crê.Essa fé dialoga e convida todos à reflexão sincera na busca da verdade revelada po Jesus, o filho único de Deus!

Não deixa de ser positiva essa abertura das empresas para o religioso.A gente torce, no entanto,que essa busca conduza ao encontro com a Verdade !

Veja o que nos Diz, sobre isso Cardeal Ratzinger:

“As religiões são consideradas todas equivalentes. Mas isso é falso. Existem, de fato, formas religiosas degeneradas e corruptas, que não edificam o homem, mas o alienam; a crítica marxista à religião não era de todo vazia, e também religiões nas quais se deve reconhecer uma dimensão moral e uma correta colocação no caminho da verdade podem corromper-se. No hinduísmo existem aspectos formidáveis, mas também aspectos negativos. E o Islã, apesar de toda a sua grandeza, corre sempre o risco de perder o equilíbrio, dando espaço à violência e deixando a religião escorregar para a exterioridade e o ritualístico.”

“A fórmula encontrada pelos grandes teóricos do ecumenismo é que devemos ir adiante, prosseguir no nosso caminho. Não se trata de propor anexações, mas de esperar que o Senhor desperte a fé em todos os lugares e ofereça uma meta comum aos seus diversos caminhos, para que desemboquem numa só Igreja. Como católicos, estamos convencidos de que esta Igreja única já existe em sua forma fundamental na Igreja Católica, mas pensamos que também esta esteja num caminho em direção ao futuro.”

“Suicídio Assistido” lucra com famosos sem fé e “fartos” da Vida.

quarta-feira, setembro 2nd, 2009

Após 54 anos felizes juntos, eles decidiram acabar com suas próprias vidas, em vez de continuar lutando contra sérios problemas de saúde’’. Foi assim que os filhos de Edward Downes, um dos mais renomados maestros britânicos, e Joan, produtora de tevê, anunciaram  o suicídio dos pais.

Edward Downes começou a carreira no início dos anos 50 na Royal Opera House, em Londres, foi diretor da Filarmônica da BBC e também dirigiu a Ópera de Sidney, na Austrália.

O casal morreu após tomar barbitúricos fornecidos pela Dignitas, uma polêmica associação de assistência ao suicídio de Zurique que tem a lei a seu lado, mas divide a população. A Suíça é o único lugar do mundo onde esse ato pode ser cometido por estrangeiros.

A abertura atrai idosos e pacientes terminais de outros países para o que já foi chamado de “turismo da morte’’. A maioria é do Reino Unido, como o maestro Downes, 85 anos, e sua mulher, a coreógrafa Joan, 74 anos.

Com a morte do casal, chega a 116 o número de britânicos ajudados pela Dignitas a terminar seus dias voluntariamente desde 1998, do total de mais de mil.

Joan tinha câncer no fígado e pâncreas e os médicos haviam lhe dado poucas semanas de vida. Downes, que por 50 anos foi maestro da Royal Opera House, uma das mais importantes do mundo, se rendeu às debilidades causadas pela idade. Os filhos, que acompanharam os pais em Zurique, contaram que eles morreram de mãos dadas, dez minutos após tomarem o barbitúrico.

Os dois filhos serão interrogados quando voltarem ao Reino Unido, mas a própria polícia britânica admite que é mera formalidade. A lei britânica pune com até 14 anos de prisão o suicídio assistido, mas até hoje ninguém foi processado por ajudar a cometer o ato na Suíça.

Criticada por todos os lados em seu país, os serviços da Dignitas também provocam enorme polêmica no Reino Unido, onde a morte voluntária tem cada vez mais interessados.

A controvérsia atingiu o auge em dezembro do ano passado, quando a tevê britânica exibiu um documentário intitulado “O turista suicida’’, mostrando as últimas horas do professor universitário americano Craig Ewert, 59 anos, portador de uma grave doença neurológica, que se matou há dois anos na Suíça.

Há cerca de um mês, o jornal londrino The Guardian acrescentou pólvora ao debate, com uma reportagem mostrando que muitos pacientes britânicos que puseram fim à própria vida com a ajuda da Dignitas sofriam de doenças que não necessariamente levariam à morte, como tetraplégicos.

Protegida por uma lei de 1941, a Dignitas tem como único critério para ajudar alguém a se suicidar que a pessoa “sofra de uma doença que inevitavelmente leve à morte, ou deficiência inaceitável, e queira finalizar a vida e o sofrimento’’.

Fonte: Folhapress

* * * *

O caso de um casal inglês que se “fez suicidar” pela empresa Dignitas de Zurique, dividiu dois países: Suíça e Inglaterra.

Foram Sir Edward Downes considerado “um dos melhores diretores de orquestra britânicos da pós-guerra” seguno “El País”, e sua esposa lady Joan ex-bailarina, produtora e coreógrafa.

Engrossaram o mundo dos “famosos” (acha-se que isto é sinônimo de “felizes”), mas não tinham fé, só viram os prazeres e esqueceram do destino trascendente do homem.

Idosos e pacientes terminais ingleses alimentam um “turismo da morte” até a Suíça. 116 britânicos foram mortos pela Dignitas num total de mais de mil desde 1988.

Entretanto, Dignitas não encontra local para funcionar pelo repúdio dos moradores dos bairros onde se instalou.

A Corte Européia de Direitos Humanos e o Supremo suíço emitiram acórdãos favoráveis a Dignitas. Mas a indignação popular não arredou e um advogado cedeu sua própria casa para o horrendo ato.

O imoral negócio rende 10 mil francos suíços (R$ 18.400) por suicídio. Há mais quatro clínicas semelhantes na Suíça, mas nenhuma aceita estrangeiros.

O jornal londrino “The Guardian” mostrou que muitos não tinham as doenças mortais que diziam. Na realidade, não se resignavam a não tirar mais prazeres da vida.

***

Essa famigerada entidade presta serviço de Suicidio para aqueles “fartos da vida ” ou doentes terminais que não conseguem perceber sentido no sofrimento e lhes dá “assistência” para que sejam mortos,com permissão por escrito,pondo fim a suas “vidas”…

Este “Serviço” revela onde as pessoas são capazes de chegar quando entendem a vida apenas como fama,dinheiro, saúde de ferro ou perfeita,prazer e nenhum desconforto de natureza nenhuma.

O sentido para a própria vida não é comprado em shopping nem é conquistado por dinheiro. Diz respeito a perguntas e respostas que em Deus são plenamente respondidas.

Como bem disse o ateu Nietzche em um raro momento de lucidez religiosa e transcendente: “QUEM NÃO TEM UM PORQUE OU UM PARA QUE VIVER,NÃO SUPORTA QUALQUER COMO..”

Formando personalidades cristãs maduras à luz da Verdade,a serviço da Igreja e dos homens de boa vontade.
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