Artigo da ‘liberdade religiosa’ Categoria

* Bispos indianos repudiam “Lei contra a blasfêmia”. Leia e entenda.

domingo, fevereiro 28th, 2010

Os bispos indianos repudiaram hoje a introdução de novas leis contra a blasfêmia, promovidas pelo governo de Meghalaya, no nordeste da Índia, após a divulgação de uma imagem de Jesus Cristo fumando e segurando uma lata de cerveja em um livro usado nas escolas deste estado.

Em um comunicado da Conferência dos Bispos Católicos da Índia (CBCI), os religiosos se dizem “profundamente ofendidos pela imagem blasfematória de Cristo publicada nos livros escolares” e afirmam apoiar “as ações legais promovidas pelo governo do estado de Meghalaya contra os responsáveis”.

Contudo, não aprovam a iniciativa do estado de promulgar uma lei “antiblasfêmia”. Sobre a questão, enfatizam que já existe no Código Penal indiano um artigo que prevê penas contra ações que “firam os sentimentos religiosos da população”.

“Este tipo de lei pode ser distorcido ou manipulado por grupos fundamentalistas, como ocorre no vizinho Paquistão, o que não faz bem aos crentes”, esclarecem os bispos, que pedem ainda ao governo do país que “promova, garanta e defenda o respeito aos símbolos religiosos de todas as comunidades crentes, em toda a Índia”.

No Paquistão, a lei contra a blasfêmia é apontada como um dos motivos da constante violência contra os cristãos. A medida, de 1973, estabelece que a difamação de Maomé ou a profanação do Alcorão seja punida com a morte e prisão perpétua.

No segundo semestre do último ano, um massacre deixou pelo menos sete cristãos mortos e 20 feridos em Gorja, no centro paquistanês. As casas de 100 religiosos também foram queimadas porque eles teriam profanado uma cópia do livro sagrado muçulmano.

(ANSA)

* Corte de Estraburgo não pode exigir remoção de crucifixos das escolas Italianas.

terça-feira, fevereiro 23rd, 2010

O Conselho da União Europeia (representante dos governos dos Estados-membros) afirmou que a Corte Europeia de Direitos Humanos, sediada em Estrasburgo, não tem competência sobre assuntos relacionados às tradições e culturas nacionais, de modo que não podem proibir que se coloquem crucifixos nas escolas da Itália.

Uma pequena, mas significativa, reação ao laicismo que corrói o Ocidente, sobretudo a Europa.

Iniciativas semelhantes já avançavam na outrora católica Espanha, onde se exigia – tendo por base a decisão da corte de Estrasburgo – a retirada dos símbolos religiosos de monumentos públicos.

Leia mais em Religión en libertad.

* Tribunal europeu julga contra religião nas carteiras de identidade na Turquia.

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010

Um tribunal europeu ordenou à Turquia a eliminar a seção de filiação religiosa das carteiras de identidade dos cidadãos, afirmando que a prática é uma violação dos direitos humanos.

As minorias religiosas e, em especial, cristãos convertidos na Turquia têm enfrentado discriminação por causa da declaração obrigatória de religião em suas carteiras de identidade, que foi aplicada até 2006. Desde então, os cidadãos estão autorizados a deixar o campo “religião” da sua carteira de identidade em branco.

O acórdão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (ECHR) “é uma coisa boa”, disse Zekai Tanyar, presidente da Aliança Protestante Turca, citando preconceitos contra cristãos convertidos.

“[A religião na carteira de identidade] pode custar o emprego das pessoas”, disse ele. “Tem sido usada para decidir se uma pessoa consegue um emprego ou não, como as pessoas olham para eles, se elas são aceitas para um posto de trabalho ou um processo seletivo de algum tipo. Portanto, eu acho que [a decisão] é uma coisa boa e adequada”.

Tanyar disse que os mesmos princípios se aplicam no caso dos muçulmanos que vivem em um país que tinha preconceitos contra os mesmos. Para os convertidos na Turquia, ter de declarar a sua religião nas suas carteiras de identidade, “na prática, e na experiência das pessoas, tem sido negativo.”

A decisão do ECHR veio depois de um turco muçulmano apresentar uma petição impugnando a sua carteira de identidade, que declarou a sua religião como “Alevi” e não muçulmano. Os alevis praticam uma forma de islamismo xiita, que é diferente do da maioria muçulmana sunita.

O tribunal decidiu em uma votação de 6 contra 1 que qualquer menção de religião em uma carteira de identidade violava os direitos humanos. O país foi considerado estar em violação da Convenção Europeia dos Direitos Humanos – da qual a Turquia é uma das signatárias – especificamente o artigo 9º, que trata da liberdade de religião e de crença; artigo 6º, que está relacionado ao devido processo legal, e artigo 12, que proíbe a discriminação.

A presença da “religião” na carteira de identidade turca, obriga as pessoas a divulgar, contra sua vontade, informação sobre um aspecto de suas convicções pessoais, o tribunal decidiu.

Embora o governo tivesse argumentado que a indicação da religião nas carteiras de identidade não obrigava os turcos a divulgar suas convicções religiosas, o ECHR considerou que o Estado estava fazendo avaliações da fé de pretendentes a cargos públicos, violando assim o seu dever de neutralidade e imparcialidade.

Em um comunicado sobre a decisão desta semana, primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan disse que a decisão estava em consonância com as intenções do governo.

“Eu não vejo a decisão da ECHR como anormal”, disse ele, segundo o jornal turco Taraf. “Não será muito importante se ele for removido”.

O ECHR é independente da União Europeia, que a Turquia pretende aderir. As sentenças do ECHR são vinculativas para os membros do Conselho da Europa, da qual a Turquia é membro, e devem ser implementadas.

Um Passo na Direção Certa

Advogados de direitos humanos elogiaram a decisão da ECHR, dizendo que é um pequeno passo na direção da democracia e do secularismo na Turquia.

“Isso está relacionado com a liberdade religiosa geral em nosso país”, disse o advogado de direitos humanos Orhan Kemal Cengiz. “Eles assumem que todos são muçulmanos e escrevem isso automaticamente em sua carteira de identidade, de modo que este é um bom lembrete de que, em primeiro lugar, nem todo mundo é muçulmano neste país e, segundo, que ser um muçulmano não é uma parte indispensável de ser turco “.

O advogado disse que o acórdão teria implicações positivas para as minorias religiosas na Turquia, que estão sujeitas à intolerância da população de maioria muçulmana.

Em 2000, a vizinha da Turquia, Grécia, um país de maioria cristã ortodoxa, tirou a seção de religião das identificações nacionais a fim de cumprir as normas europeias de direitos humanos e das convenções, causando tumulto entre os nacionais.

“Na Turquia, Grécia ou qualquer outro país europeu, racismo ou a intolerância e a xenofobia não são ocorrências raras se a [religião] é escrita em seu cartão e, se você é um grupo minoritário, faz de você mais suscetível a comportamentos racistas, xenófobos ou outros comportamentos intolerantes”, Cengiz disse. “Há momentos em que a declaração [religiosa] pode ser muito perigosa”.

Implicações internacionais
Ainda não se sabe qual, eventualmente, seria o efeito da decisão do ECHR sobre o resto do Oriente Médio.

Devido à sua história, poder econômico e localização estratégica, a Turquia é vista como líder na região. Como a Turquia, muitos países do Oriente Médio têm um lugar para filiação religiosa em seus cartões de identificação. Ao contrário da Turquia, declarar a filiação religiosa é obrigatório na maioria desses países e é quase impossível mudar, mesmo sob ordem judicial.

Segundo a Human Rights Watch (HRW), a identificação religiosa é usada como uma ferramenta para negar emprego e até direitos básicos ou serviços para as minorias religiosas em muitos países do Oriente Médio.

“É um problema sério do ponto de vista dos direitos humanos”, disse Joe Stork, diretor adjunto para o Médio Oriente e o Norte da África para a HRW, uma organização internacional de direitos humanos. “É especialmente problemático quando essa exigência torna-se uma base para a discriminação”.

Stork disse que carteiras de identidade não devem ter declaração de religião de jeito nenhum. Ele disse que a decisão europeia pode eventualmente ser utilizada em argumentos jurídicos nos tribunais do Oriente Médio, mas haverá um longo tempo antes da mudança ser realizada.

“O governo egípcio não vai acordar amanhã e dizer: – Poxa, vamos fazer isso’”, disse Stork.
Egipto, em particular, é notório por usar a religião em carteiras de identidade com o fim de sistematicamente discriminar os cristãos coptas e convertidos ao cristianismo. Apesar de tomar um dia para mudar a religião do cristianismo ao islamismo em sua carteira de identidade, o inverso é praticamente impossível.

* Onde é mais difícil viver a fé no mundo?

domingo, fevereiro 7th, 2010

Athar Hussain/Reuters / Muçulmanos no Paquistão: pena de morte para quem difamar o Islã Muçulmanos no Paquistão: pena de morte para quem difamar o Islã

Pesquisa mostra quais são os países em que as minorias religiosas sofrem mais intervenção do Estado e da sociedade

Aproximadamente 70% da po­­pulação mundial vive em países onde a religião é altamente restringida pela ação do governo e da sociedade.

O Brasil, porém, é considerado um dos mais liberais do mundo para o exercício da fé. Ín­­dia e China mantêm controles rígidos sobre cultos religiosos e a Europa iluminista avança sobre o credo islâmico.

Estas são algumas conclusões retiradas do estudo “Global Res­­trictions on Religion” (Restrições Globais à Religião), realizado pelo think tank americano Pew Forum on Religion & Public Life Divul­­gada no mês passado, a pesquisa realizada em 198 países traça um amplo panorama das limitações impostas à prática religiosa.

Países europeus fecham cerco ao Islamismo

Na média, os países europeus alcançam índices moderados de Restrições Governamentais (RG) e Hostilidades Sociais (HS). Al­­guns microestados, como Mol­­dávia (4,6 em RG e 3,5 em HS) e Bielo-Rússia (6,1 em RG e 1,9 em HS), têm índices um pouco acima da média no continente.

A Europa, porém, entrou re­­centemente no radar da intolerância religiosa, após a França (3,4 em RG e 3,0 em HS) e a Suíça (1,0 em RG e 1,9 em HS) proporem legislação impedindo a exibição de símbolos muçulmanos.

Na França, um projeto de lei prevê a proibição do uso de ni­­qab (vestimenta que cobre todo o corpo) por mulheres muçulmanas no país. Em novembro do ano passado, a Suíça proibiu a construção de novos minaretes – torres de templos muçulmanos usados para convocar às orações.

Para Silas Guerriero, da USP, a escalada contra o islamismo na Europa ultrapassa a guerra ao extremismo, e pode ser entendida como uma reação ao crescimento da religião fundada por Maomé. “O ataque de 11 de se­­tem­­bro é apenas um ponto dentro de um processo pelo qual passam muitos países europeus. O Islamismo cresce mais rapidamente, enquanto que o catolicismo decresce”, diz.

Em 32% dos países pesquisados ocorrem interferências no li­­vre exercício da fé em grau “muito alto”. Dentre estes, estão algumas das nações mais populosas do mundo, como a China, a Índia e a In­­donésia, o que contribui pa­­ra elevar a soma final da população em territórios onde a fé é su­­per­­vi­­sio­­nada. O resultado numérico, no en­­tanto, não significa que 70% do mundo sofra perseguições por cau­­sa da religião. Ge­­ralmente, os ca­­sos estão relacionados às minorias religiosas presentes nesses países.

Pontos comuns

A maior dificuldade em traçar um paralelo religioso entre as na­­ções é equilibrar as características de cada cultura e o rigor metodológico de uma pesquisa ampla. Para Silas Guerriero, coordenador da Pós-Graduação em Ciên­­cias da Religião da Universidade de São Paulo (USP), “os diversos países possuem as mais diferentes relações entre o Estado e a religião. Há desde aqueles em que a liberdade de expressão religiosa é garantida pelo Estado até aqueles países que estão próximos de uma teocracia, em que a religião única se confunde com o próprio Estado. A re­­ligião faz parte da es­­fera social. Seria impossível separar essas esferas de maneira definitiva”.

A análise do Pew Forum, realizada entre 2006 e 2008, desdobrou-se em duas vertentes: Restri­­ções Governamentais (RG), que abrangem as ações do Estado para controlar manifestações religiosas; e Hostilidades Sociais (HS), que comportam os atos de violência ou intimidação praticado por indivíduos ou grupos sociais.

Em cada uma dessas vertentes, os pesquisadores formularam quesitos para a formação dos respectivos índices. Um dos pontos que formam o índice de Restrições Governamentais, por exemplo, é a obrigatoriedade de algum tipo de educação religiosa em escolas públicas. No índice de Hostili­­da­­des Sociais, um dos fatores relevantes é se existem, no país pesquisado, conflitos armados motivados por diferenças religiosas.

Fonte: Gazeta do Povo

* França: A liberdade religiosa e os Muçulmanos.

domingo, fevereiro 7th, 2010

A liberdade religiosa que se quer laica
Desejável o compromisso entre valores fundados na História da comunidade que acolhe e as idiossincrasias dos que são acolhidos

A França recusou, esta semana, a cidadania a um marroquino por este obrigar a mulher a usar véu integral. Foi a primeira vez que a naturalização pelo casamento foi negada e foi-o com o argumento do desrespeito demonstrado pelos valores da República.

A decisão, tomada poucos dias após a divulgação das conclusões da comissão parlamentar que defendeu a proibição do uso do véu islâmico integral nos serviços públicos, relançou o debate há muito presente na sociedade francesa.

Seis anos após a proibição do uso de sinais religiosos considerados ostensivos nas escolas públicas, a medida agora proposta pela Missão de Informação sobre o Uso Integral no Território Nacional conta com a aprovação de 57% da população. Um sinal da ameaça diariamente sentida no país europeu que alberga a maior comunidade islâmica da Europa Ocidental? Ou um produto da História e um sinal dos tempos? Ou será apenas mais uma conquista do Estado em prol da laicidade da República?

Em nome das menos de duas mil as mulheres que usam véu integral em França têm sido esgrimidos argumentos pró e contra a decisão. Pela liberdade das mulheres que actualmente são obrigadas pelos maridos ou pelas famílias a tapar a cara e os cabelos, uns, pelo direito das que usam o véu de livre vontade o continuem a fazer, mesmo em serviços públicos, hospitais e transportes.

Por estes dias, a França e o Mundo falam da violação do direito à liberdade religiosa que a medida encerra, quando há também quem lembre que o país sempre procurou que fossem os imigrantes a adaptar-se e a integrar-se nos usos, costumes e valores franceses e que a proibição do uso de véus em serviços públicos é apenas mais uma medida balizada nesse mesmo espírito. André Gerin, deputado que preside à Missão de Informação, fala da necessidade de um “Islão republicamente compatível”, lembrando que “não há razão para não resolver com os muçulmanos o que foi resolvido com os católicos, os protestantes e os judeus”.

Menosprezar as condicionantes que conduziram a França a assumir o pioneirismo na proibição do uso do véu integral nos serviços públicos é optar por uma leitura linear e simplista da realidade. “À luz do Direito Constitucional, seria fácil verificar que houve violação da liberdade religiosa”, constata Jonatas Machado, professor na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Estudioso de questões relacionadas com a liberdade religiosa, Jonatas Machado lembra que não podemos ignorar a presença da História. “A interpretação das normas constitucionais depende muito da História de um povo”, adverte. E, no caso, “os franceses tiveram um trajecto de luta pela laicidade” que não deve ser esquecido quando se trata de perceber uma recomendação como a da comissão parlamentar pela proibição do uso do véu em serviços públicos, da burqa, que tapa a totalidade do rosto e do corpo, e do niqab, que deixa os olhos a descoberto.

“Corremos o risco de cair numa atitude maniqueísta se apenas classificarmos a questão da proibição do uso do véu em locais públicos como questão de direitos humanos”, concorda Helena Vilaça, socióloga das religiões docente na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que lembra o curioso percurso da laicidade em França, desde a lei que a aprovou, no início do século XX. “Em França, o catolicismo cedeu ao Islão o lugar que tinha na História em relação à laicidade”, explica a investigadora. “De forma inesperada, o contexto laico francês acabou por estar mais próximo do catolicismo”, acrescenta, alertando para o facto de, apesar da aparência,”a França ter, hoje, a questão da laicidade muito menos radicalizada do que há duas ou três décadas”.

E apesar do número de pessoas sem religião estar a aumentar – segundo dados do Inquérito Europeu de Valores, em 2008, 42% dos franceses eram católicos, quando em 1999 eram 53 % – actualmente,” não há um preconceito e um obstáculo tão grande ao diálogo com o religioso” como no passado. “O final do século XX e o início do século XXI tem sido uma aprendizagem para a laicidade francesa”, considera Helena Vilaça.

Como se justifica, então, a opção pela proibição do uso do véu islâmico integral nos serviços públicos, hospitais e transportes? Em parte, com a presença e com o crescimento da comunidade islâmica em França – calcula-se que seja constituída por cerca de cinco milhões de pessoas e representa já 10% da população do país. “Boa parte dos franceses sente-se ameaçada por esta questão, além de que há uma referência cultural que é católica”, refere Helena Vilaça. “A burqa e os elementos do islamismo não têm uma matriz judaico-cristã”, refere também Jonatas Machado, lembrando que os árabes foram, ao longo dos séculos, sempre entendidos como “o outro”. “Não podemos deitar fora 2000 anos de história e fazer de conta que não existiram”, insiste o professor de Direito de Coimbra.

Concepção distinta tem o constitucionalista Bacelar Gouveia, catedrático na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, ao considerar a proibição do uso do véu islâmico como “uma limitação inadmissível da liberdade religiosa”, de tal maneira que é uma lei que “não tem sido replicada noutros países”. O professor de Direito relativiza, ainda, a ostentação dos símbolos na base da proibição. “Há outros símbolos ostensivos que não são objecto de proibição, como por exemplo os dos punks”, referiu.

Para o sociólogo das religiões Moisés Espírito Santo é normal que a França exija a observância de comportamentos conformes aos valores e costumes do país, tal qual é exigido pelas próprias nações árabes aos estrangeiros que as visitam. O investigador lembra, ainda, que o uso do véu não é um costume “genuinamente corânico”, mas antes um uso da Arábia Saudita e do Afeganistão, que a maiorias das mulheres muçulmanas não adopta, além de que há já normas literalmente expressas no Corão e cuja prática é proibida há muito nos países ocidentais.

Risco de guetização

Teresa Toldy, teóloga docente na Universidade Fernando Pessoa, explica o paradoxo que a proibição poderá criar. “O que vai acontecer às mulheres que usam véu?”, questiona. “Algumas deixarão de poder sair à rua e se a ideia é proteger os direitos das mulheres, o resultado será o contrário: haverá uma restrição dos direitos”, alerta. “Já a pressão exercida junto das que são emigrantes pode vir a ser tão grande que leve as famílias a voltar ao país de origem”, considera. “Não sabemos até que ponto é que a proibição afectará as mulheres e até que ponto não irá contribuir para a sua guetização”, acrescenta a socióloga Helena Vilaça.

“Há o risco de se cair no radicalismo e de ver mulheres que nunca usaram o véu passarem a fazê-lo como reforço de identidade”, alerta a docente da Universidade Fernando Pessoa.

“A tolerância e o convívio devem ser a solução”, considera Teresa Toldy, realçando “que quando as restrições são colocadas sempre ao mesmo grupo, podem levar ao radicalismo”. “Quanto mais aberto for o espaço público às minorias, melhor serão os progressos de integração”, esclareceu Helena Vilaça, que não deixa, no entanto, de estar optimista quanto ao futuro. “Apesar desta medida, estou optimista”, confessou. “Haverá cada vez mais franceses muçulmanos a participar na vida pública e acredito que a França caminhe para ser um país pluralista”, explicou. “As Igrejas enquanto instituições presentes na esfera pública é uma característica da Modernidade”, notou.

Fonte: Jornal de Noticias- Portugal

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