“A cada dia, mais cristãos vêm me pedir certificados de casamento e outros documentos para serem utilizados em seu exílio”, lamenta-se Georges Casmoussa, arcebispo siríaco-católico de Mosul, a grande cidade do norte do Iraque.
Casmoussa foi sequestrado em 2005, e o medo da chantagem e da violência religiosa a cada mês leva centenas de cristãos a fugir do Iraque. Desde o dia 20 de fevereiro, 4.000 fugiram de Mosul, segundo a agência da ONU para os direitos humanos.
A reportagem é de Ignacio Cembrero, publicada no jornal El País, 09-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
No Iraque, os cristãos já são menos de 600.000 (3% da população). “Infelizmente, os cristãos iraquianos escrevem agora uma história semelhante à de seus correligionários turcos após a I Guerra Mundial”, assegura o arcebispo.
O exílio não é só um fenômeno iraquiano. Em maior ou menor medida, ele afeta a todos os cristãos do Oriente Próximo. Há algumas décadas, eram 20% da população, mas agora já são menos de 5%.
Para refletir sobre essa queda demográfica, o Papa Bento XVI convocou um Sínodo dos Bispos do OrientePróximo para os dias 10 a 24 de outubro, em Roma.
O debate será inspirado em um documento ( “Instrumentum Laboris” – A Igreja Católica no Oriente Médio: comunhão e testemunho), que o Papa distribuiu aos bispos no domingo passado no final de sua viagem ao Chipre.
Suas 50 páginas foram redigidas a partir das respostas a um questionário enviados aos bispos e às conferências episcopais das Igrejas orientais, assim como a grupos eclesiásticos da região.
Por um lado, o documento reforça que as “correntes extremistas” muçulmanas são uma “ameaça” para os cristãos e, por outro, denuncia “a injustiça política imposta aos palestinos” por Israel, que dificulta inclusive a vida religiosa.
No Iraque e no Líbano, os cristãos foram “as principais vítimas” da guerra. No Egito, o país em que eles são mais numerosos, “o auge do Islã político” e a “retirada” dos coptos da sociedade civil “fazem com que sua existência passe por sérias dificuldades”. Na Turquia, “o conceito de laicidade representa um problema para a plena liberdade religiosa”. Em outros países, que não são nomeados, prevalece o “autoritarismo”, quando não são meras “ditaduras”.
“A relação entre cristãos e muçulmanos é, às vezes ou frequentemente, difícil porque os muçulmanos não distinguem entre religião e política, o que coloca os cristãos na situação delicada da perda de direitos civis”, assinala o texto. “O êxito da coexistência entre cristãos e muçulmanos passa pelo reconhecimento da liberdade religiosa e dos direitos humanos”.
Após constatar que a emigração não cessa, adverte-se: “O desaparecimento dos cristãos significaria a perda desse pluralismo que caracterizou desde sempre os países do Oriente Próximo”.
A propósito:
Em Chipre, o Papa viu de perto o drama dos cristãos do Oriente. O ecumenismo floresce, mas onde reina o Islã não há liberdade de consciência nem de religião. A última vítima é o bispo Luige Padovese, decapitado como São João.
Da primeira visita já feita por um Papa à ilha de Chipre – evangelizada desde os tempos apostólicos e depois terra de limites e conflitos entre o cristianismo e o Islã – a mídia evidenciou os motivos geopolíticos, por outro lado modestos e em grande medida não originados como iniciativa papal: em particular, os de texto de trabalho sobre o qual discutirão no próximo mês de outubro, em Roma, os patriarcas e bispos das Igrejas do Oriente Médio, texto tornado público no domingo, 06 de junho, em Nicósia.
Mas, para compreender o sentido desta viagem na mente de seu autor, o caminho mais direto é a voz sonora de Bento XVI.
O Papa Joseph Ratzinger adora exteriorizar seu pensamento em cada uma de suas viagens em dois momentos fixados de antemão. Nas respostas aos jornalistas durante a viagem aérea ao seu destino. No caso do Chipre, na manhã da sexta-feira, 04 de junho: Entrevista do Santo Padre [em italiano]. E na Audiência Geral no Vaticano, na terça-feira seguinte ao retorno de sua viagem. No caso de Chipre, hoje: Audiência Geral, [em espanhol] 9 de junho de 2010. E depois, naturalmente, o expressou nos discursos pronunciados pelo Papa no lugar, especialmente as passagens em que a sua marca pessoal é mais evidente.
De tudo isto emerge que, para Bento XVI, os pontos focais da viagem ao Chipre foram o ecumenismo e o Islã. Mas não exclusivamente.
O ecumenismo
A população do Chipre é em sua grande maioria ortodoxa, e sua Igreja é uma das menores e mais nobres do cristianismo bizantino. Entre Bento XVI e o arcebispo Crisóstomo II se desenvolveu um vínculo inclusive pessoal de amizade e de estima, que se expressou em sua forma simbólica mais elevada no abraço entre os dois, durante a Missa celebrada pelo Papa em Nicósia, no domingo, 06 de junho, com a pequena comunidade católica da ilha presente em sua quase totalidade.
No discurso de despedida de Chipre, o Papa Raztinger associou este abraço ao “abraço profético” de 1964 entre Paulo VI e o patriarca Atenágoras de Constantinopla. Com efeito, o caminho ecumênico levado a cabo desde então registrou com o atual Papa progressos sem precedentes, na vertente da Ortodoxia.
No voo para o Chipre, Bento XVI explicou que são três os elementos que “fazem cada vez mais vizinhas” a Igreja de Roma e as Igrejas do Oriente.
O primeiro é a Sagrada Escritura, lida não como um texto que cada um interpreta à sua maneira, mas como um livro “surgido e desenvolvido no interior do povo de Deus, um livro que vive neste sujeito comum e que somente aqui se mantém sempre presente e real”.
O segundo é a tradição da qual a Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas são portadoras, uma tradição que não apenas interpreta a Escritura, mas que tem nos bispos seus guias e seus testemunhos sacramentalmente instituídos.
E o terceiro elemento é a “regra da fé”, ou seja, a doutrina fixada pelos antigos Concílios e que “é a suma de quanto está na Escritura e abre a porta à sua interpretação”.
É evidente que estes três elementos aproximam a Igreja Católica das Igrejas ortodoxas, mas distanciam ambas do protestantismo. Mas é esta e não outra a contribuição que dá ao caminho ecumênico um Papa como Bento XVI.
A proximidade entre o catolicismo e a ortodoxia é agora tão forte que se chegou a discutir entre as duas partes a questão central que as divide, isto é, o primado do Bispo de Roma.
Justamente em Chipre, em Paphos, patrocinada por Crisóstomo II, teve lugar no passado mês de outubro uma sessão de estudos do mais alto nível entre católicos e ortodoxos, em que se examinou como se viveu no primeiro milênio o primado de Roma, quando as Igrejas do Ocidente e do Oriente estavam ainda unidas. Entre os dias 20 e 27 de setembro próximo, em Viena, as duas delegações voltarão a se encontrar para continuar o trabalho.
O arcebispo de Chipre, Crisóstomo II, é no campo ortodoxo um dos maiores artífices da atual primavera ecumênica, junto com o patriarca de Constantinopla Bartolomeu I, o metropolita de Pérgamo (Turquia),Joannis Zizioulas, e – pela grande Igreja russa – o patriarca de Moscou, Kiril I, e o metropolita de Volokolamsk, Hilarion.
O Islã
Quanto ao segundo centro focal da visita de Bento XVI ao Chipre.
Encaminhando-se, no sábado, 5 de junho, para a Missa na igreja católica da Santa Cruz –, que em Nicósia está exatamente no limite com a zona da ilha ocupada pelos turcos – Bento XVI se encontrou com um velho chefe sufi, Mohammed Nazim Abil Al-Haqqani. Se saudaram, e ambos prometeram rezar um pelo outro. Trocaram entre si pequenos presentes: um rosário muçulmano, uma tabuinha com palavras de paz em árabe e uma medalha pontifícia.
Ao contrário do esperado encontro com o mufti de Chipre, Yusuf Suicmez, a máxima autoridade muçulmana da ilha, se produziu o encontro do Papa com um mestre sufi, isto é, com um expoente de um Islã místico, um Islã que “presumivelmente por influências cristãs coloca o acento no amor de Deus pelo homem e do homem por Deus”, ao contrário de um Deus inacessível “entre cujos 99 nomes falta o de Pai”.
As palavras agora entre aspas são do bispo Luigi Padovese, vigário apostólico para a Anatólia e presidente da Conferência Episcopal católica da Turquia, assassinado em Iskenderun no dia 03 de junho, às vésperas da viagem do Papa ao Chipre, da qual também ele teria participado.
Bento XVI evitou cuidadosamente circunscrever sua viagem a este fato trágico. A diplomacia vaticana, muito ocupada em evitar qualquer rusga com a Turquia e o Islã em geral, fez a sua parte para convencer o Papa que excluísse rápida e taxativamente que se tenha tratado de um assassinato “político ou religioso”.
Mas esta versão submissa e contraproducente – desmentida cada dia pelos fatos ,como trouxeram imediatamente à luz o jornal dos bispos italianos, o Avvenire, e a agência do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras, a Asia News – não impediu que o Papa Ratzinger desse os passos de verdade que se havia prometido dar em direção ao mundo muçulmano.
O primeiro passo foi a denúncia da “triste” situação real, que para o Chipre significa a ocupação por parte da Turquia da parte setentrional da ilha, a expulsão dos cristãos que ali moram e a destruição sistemática das igrejas.
Ao receber o Papa como hóspede, o arcebispo Crisóstomo II ressaltou tudo isto com palavras cortantes. E BentoXVI lhe fez eco deste modo, ao final da viagem: “Estas noites passadas, alojando-me na nunciatura apostólica, que se encontra na zona de amortecimento da ONU, vi algo da triste divisão da ilha, assim como da perda de uma parte significativa do legado cultural que pertence a toda a humanidade. Escutei também os cipriotas do norte que desejam voltar em paz para as suas casas e lugares de culto, e fiquei profundamente comovido com seus lamentos”.
A este reconhecido estado de coisas o Papa não respondeu com o oferecimento de conselhos políticos ou estratégicos, mas sobretudo exortando a uma “paciência” ativa, também a propósito das incessantes explosões de violência que devastam todo o Oriente Médio. Disse durante o voo para Chipre:
“Devemos quase imitar Deus, sua paciência. Após todos os casos de violência, não perder a paciência, não perder a coragem, não perder a longanimidade de recomeçar; criar as disposições do coração para começar sempre de novo, com a certeza de que podemos avançar, de que podemos alcançar a paz, de que a solução não é a violência, mas a paciência do bem”.
Em segundo lugar, ao falar aos diplomatas e através deles aos governos da região, o Papa voltou a propor a sabedoria política de Platão, de Aristóteles, dos estóicos, porque “para eles, assim como para os grandes filósofos árabes e cristãos que seguiram suas pegadas, a prática da virtude consiste em agir conforme a reta razão, na busca de tudo o que é verdadeiro, bom e belo”, começando por essa “lei natural que pertence à nossa comum condição humana”.
Bem sabe Bento XVI que os “grandes filósofos islâmicos” abertos à cultura grega pertencem a séculos muito distantes e que depois de Averróis tudo isto se interrompeu. Mas ao recordar este antecedente histórico o Papabispo Padovese, com raciocínios muito ratzingerianos. mostrou que também para o Islã é possível e necessária uma revolução iluminista, análoga à vivida pelo cristianismo. Em Regensburg explicou por que a empresa é extremamente árdua, mas desde então segue lançando uma e outra vez ao mundo muçulmano a proposta de soldar a fé ao “logos” e, em consequência, à liberdade de consciência e de religião, até agora inexistentes nos países islâmicos, como também o sabia e explicava o
Sobre este pano de fundo, o encontro do Papa com o mestre sufi – figura à margem das correntes islâmicas dominantes – simbolizou o encontro com “outro” Islã, com muçulmanos que não são inimigos, mas “irmãos apesar das diferenças”.
A cruz
Mas, não apenas o ecumenismo e o Islã estiveram presentes na agenda da viagem do Papa. Surpreendentemente, Bento XVI dedicou à cruz, a cruz de Jesus, sua meditação mais intensa, pregando em uma igreja dedicada justamente ao santo madeiro.
A todos os que sofrem – disse – a cruz “oferece a esperança de que Deus pode converter sua dor em alegria, sua morte em vida”. A cruz faz isto a partir do lugar em que nenhum poder terreno é capaz. “E se, em consonância com os nossos merecimentos, nós teremos parte no sofrimento de Cristo, alegremo-nos porque teremos uma felicidade muito maior quando sua glória se revelar”.
Requer-se de coragem para se dirigir deste modo a pessoas que sofrem a ocupação injusta de suas casas e terras, o exílio forçado, a destruição dos sinais de sua própria fé, num quadrante no qual o único Estado em que os cristãos gozam de liberdade é o de Israel.
Mas, a cruz é o feliz escândalo da fé cristã. É o estandarte triunfal que o Papa Bento eleva e oferece ao mundo.