Artigo da ‘Relativismo’ Categoria

* Comunicado da “Federação portuguesa pela Vida” sobre adoção de crianças por pares gays.

sexta-feira, maio 17th, 2013

Dia 17 de Maio, sexta-feira, serão discutidos e votados no Parlamento Português o Projeto de Lei do Partido Socialista (O ” PT” de lá ) permitindo a co-adoção pelo cônjuge ou unido de fato do mesmo sexo) e o Projeto de Lei do Bloco de Esquerda (Permitindo a adoção por casais do mesmo sexo).A Federação Portuguesa pela Vida (FPV) vem reiterar a sua posição nesta matéria: o princípio da vida está necessariamente ligado à união entre um homem e uma mulher, e todos os diplomas que tenham o efeito de deturpar este dado da natureza são perniciosos e ofendem a dignidade da pessoa humana.

Assim, diante de mais uma obra de engenharia social que os deputados do PS e do BE querem levar a cabo com as crianças portuguesas, a Federação Portuguesa pela Vida lembra que:

1. As crianças têm direito a ter um pai e uma mãe, idealmente, presentes durante a sua infância e juventude. No entanto, ainda que por alguma razão sejam educadas sem a presença do pai ou da mãe, é essencial para o seu processo de desenvolvimento psicoafetivo poderem construir a imagem da mãe ou do pai, normalmente pela presença de uma figura masculina ou feminina na sua vida (tios, avós, etc.);

2.   A adoção visa o estabelecimento um vínculo semelhante ao da filiação, vínculo entre a criança e um pai ou uma mãe. Não existe outra modalidade de vínculo de filiação pois não há outra forma de conceber crianças que não a da união entre um homem e uma mulher. Por isso, vedar a adoção (e co-adoção) por homossexuais é reafirmar que a criança tem o direito a crescer num ambiente o mais próximo possível do que seria o dos seus pais.

3. A adoção existe para proteger o superior interesse da criança, e não o interesse dos pais que querem adotar. A adoção por homossexuais priva a criança de um pai ou de uma mãe, pelo que, subverte aquele princípio e trata a criança como um meio (algo a que outros têm direito) e não um fim.

4.   A adoção (ou co-adoção) por homossexuais é discriminatória, pois priva deliberadamente determinadas crianças de ter um pai ou uma mãe, eliminando definitivamente o elemento masculino ou feminino do ambiente familiar e de intimidade onde a criança crescerá e se desenvolverá até à idade adulta.

15 de Maio de 2013

A Direcção da Federação Portuguesa pela Vida

CONTACTOS PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL:

Abel Matos Santos TM. 919739393 (Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta, Assistente Especialista em Psicologia Clínicado Hospital de Santa Maria, Sexologista e Mestre em Psicologia da Saúde)

Inês Avelar Santos (jurista) TM  918192968

Site da Federação Portuguesa pela Vida: www.federacao-vida.com.pt

* Mais uma tentativa de impor o “casamento” homoafetivo por meios antidemocráticos, denuncia procurador da república.

quarta-feira, maio 15th, 2013
Não existe nenhuma determinação judicial de efeitos abstratos no sentido de impor ao país o “casamento homoafetivo”, apesar das notícias jornalísticas a respeito

Por Paulo Vasconcelos Jacobina

Na sessão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) do dia  14 de maio de 2013, em Brasília, foi aprovada proposta, do respectivo Presidente, de resolução determinando aos órgãos do Poder Judiciário que, em face do julgamento pelo STF da ADPF 132/RJ e da ADI 4.277/DF, se abstenham de recusar a habilitação, a celebração de casamento civil e a conversão de união estável em casamento baseada no fato de os interessados serem pessoas do mesmo sexo. Para dar eficácia à decisão, o membro do Ministério Público Federal lotado no CNJ sugeriu que a recusa de registro de casamento civil baseada na homossexualidade dos proponentes seja comunicada à respectiva corregedoria, para as finalidades que couberem, contra os juízes e oficiais de registro que não quiserem registrar este tipo de “casamento”.

Algumas ponderações sobre o assunto são necessárias.

As decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) na ADPF 132/RJ e ADI 4277/DF vão no sentido de considerar como “família” a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Em nenhum momento o STF determinou que elas têm direito a impor a agente estatal qualquer pretensão de casamento civil; o pedido da PGR na ADPF 132 é expressamente o de reconhecer a união estável de pessoas do mesmo sexo como família.

Na ADI 132, a ementa chega a proclamar a ” Imperiosidade da interpretação não-reducionista do conceito de família como instituição que também se forma por vias distintas do casamento civil.” Ou seja, o reconhecimento da união estável de pessoas do mesmo sexo como “família” passou longe da declaração de uma “impositividade de registrar casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo, sob pena de punição correicional”. Não foi isso que o STF decidiu, apesar das distorções feitas pela imprensa que noticiou o assunto à época.

O que foi pedido pela PGR na ADI 4277 foi o seguinte:

“a) Declarar a obrigatoriedade do reconhecimento como entidade familiar, da união entre pessoas do mesmo sexo, desde que atendidos os mesmos requisitos exigidos para a constituição de união estável entre homem e mulher, e

b) Declarar que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis estendem-se aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo”.

A decisão do STF conclui dizendo que “Reconhecimento que é de ser feito segundo as mesmas regras e com as mesmas consequências da união estável heteroafetiva.”

Foi este pedido que foi procedente, nenhum outro e nada mais. Não existe nenhuma determinação judicial de efeitos abstratos no sentido de impor ao país o “casamento homoafetivo”, apesar das notícias jornalísticas a respeito.

Quanto à ADPF 132, o seu pedido é, expressamente, o de que o STF “declare que o regime jurídico da união estável deve se aplicar, também, às relações homoafetivas”, e foi este pedido que foi julgado integralmente procedente e nenhum outro.

A Constituição Federal de fato é ampla na conceituação de “família”, e foi nessa amplitude que o STF trabalhou. Mas o art. 226, § 3º, da Constituição, quando trata da “conversão da união estável em casamento”, expressamente determina que somente a união estável entre homem e mulher são assim conversíveis: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.” Ou seja, é bastante razoável admitir que a união estável de pessoas de mesmo sexo seja, segundo o STF, considerada como entidade familiar; mas também é bastante razoável admitir que o STF não determinou que tais uniões fossem conversíveis em casamento, porque há disposição constitucional expressa em sentido contrário e não há dispositivo em decisão vinculativa do STF que determine o contrário.

Além disso, o Código Civil expressamente prevê que “O casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz os declara casados.” art. 1514. Este artigo não foi julgado inconstitucional pelo STF em momento nenhum, e não há nenhum artigo de lei que determine qualquer rito matrimonial civil de outra forma. Está em vigor apenas e tão-somente com esta redação. Não se pode ser um legalista estrito, é claro… Mas em direito administrativo cabe ao agente público fazer o que a lei determina; não pode ser punido por não fazer o que a lei, segundo o pensamento de alguns, deveria determinar.

Cabe ao CNJ cumprir a lei e a Constituição, e garantir o cumprimento deles pelo Judiciário. Não reinterpretá-los contra seu texto expresso, e de modo absolutamente ideológico ler numa decisão do STF aquilo que o STF não decidiu, para impor conduta preterlegal a agentes públicos sob pena de punição administrativa.

Por outro lado, a escusa de consciência, quer dizer, o direito de recusar-se a fazer aquilo que viola seus próprios valores religiosos ou morais, está prevista na Constituição, art. 5º, VII, e a ameaça de “responsabilização correicional” punitiva à resistência a ordem manifestamente ilegal do CNJ parece, neste contexto, violar direitos constitucionais fundamentais dos magistrados e cartorários que quiserem resistir à decisão do CNJ.

Os poderes de controle administrativo que o CNJ tem sobre o Poder Judiciário não podem ser amplificados a ponto de transformar-se em meio de alteração do próprio ordenamento jurídico em favor do pensamento “vanguardista” dos componentes momentâneos do CNJ, em tema que não diz respeito a controle do Judiciário, mas a opções do conjunto da sociedade brasileira manifestada em textos legais absolutamente vigentes.

A decisão do CNJ parece, portanto, absurda, diante deste quadro acima; a determinação de levar à corregedoria quem resistir a ela parece bem violenta, e com todo respeito ao Conselho, inconstitucional e ilegal. Uma tentativa antidemocrática de impor uma agenda ideológica à sociedade por meios indiretos. É preciso que estejamos bem atentos.

Paulo Vasconcelos Jacobina é Procurador Regional da República e Mestre em Direito Econômico

* Bonecas são para MENINO? Em algumas escolas, sim! E no Brasil!

terça-feira, maio 7th, 2013
Estado de São Paulo
Ocimara Balmant

No salão de cabeleireiro de mentirinha, João Pontes, de 4 anos, penteia a professora, usa o secador no cabelo de uma coleguinha e maquia a outra, concentradíssimo na função. Menos de cinco minutos depois, João está do outro lado da sala, em um round de luta com o colega Artur Bomfim, de 5 anos, que há pouco brincava de casinha.

Nos cantos da brincadeira do Colégio Equipe, na zona oeste de São Paulo, não há brinquedo de menino ou de menina. Todos os alunos da educação infantil – com idade entre 3 e 5 anos – transitam da boneca ao carrinho sem nenhuma cerimônia.

“O objetivo é deixar todas as opções à disposição e não estimular nenhum tipo de escolha sexista. Acreditamos que, ao não fazer essa distinção de gênero, ajudamos a derrubar essa dicotomia entre o que é tarefa de mulher e o que é atividade de homem”, explica a coordenadora pedagógica de Educação Infantil do Equipe, Luciana Gamero.

Trata-se de um “jogo simbólico”, atividade curricular da educação infantil adotado por um grupo de escolas que acredita que ali é o espaço apropriado para quebrar alguns paradigmas. A livre forma de brincar visa a promover uma infância sem os estereótipos de gênero – masculino e feminino -, um dos desafios para construir uma sociedade menos machista.

“Temos uma civilização ainda muito firmada na questão do gênero e isso se manifesta de forma sutil. Quando uma mulher está grávida, se ela não sabe o sexo da criança, compra tudo amarelinho ou verde”, afirma Claudia Cristina Siqueira Silva, diretora pedagógica do Colégio Sidarta. “Nesse contexto, a tendência é de que a criança, desde pequena, reproduza a visão de que menino não usa cor-de-rosa e menina não gosta de azul.”

Por isso, no colégio em que dirige, na Granja Viana, o foco são as chamadas brincadeiras não estruturadas, em que objetos se transformam em qualquer coisa, a depender da criatividade da criança. Um toco de madeira, por exemplo, pode ser uma boneca, um cavalo ou um carrinho. “Quanto menos referência ao literal o brinquedo tiver, menos espaço haverá para o reforço social”, diz Claudia.

A reprodução dos estereótipos acontece até nas famílias que se enxergam mais liberais. Ela conta que recentemente, em uma brincadeira sobre hábitos indígenas, um menino passou batom nos lábios. Quando a mãe chegou para buscá-lo, falou de pronto: “Não quero nem ver quando seu pai vir isso”.

“Podia ser o fim da experimentação sem preconceitos, que não tem qualquer relação com orientação sexual. Os adultos, ao não entenderem, tolhem essa liberdade de brincar por uma ‘precaução’ sem fundamento”, afirma Claudia.

Visão de gênero.

Se durante a primeira infância esses estímulos são introjetados sem que a criança se dê conta, ao crescerem um pouquinho – a partir dos 5 anos -, elas já expressam conscientemente a visão estereotipada que têm de gênero.

No Colégio Santa Maria, no momento de jogar futebol, os meninos tentavam brincar apenas entre eles, não permitindo que as meninas participassem. Foi a hora de intervir. “Explicamos que não deveria ser assim e começamos a propor, por exemplo, que os meninos fossem os cozinheiros de uma das brincadeiras”, diz Cássia Aparecida José Oliveira, orientadora da pré-escola da instituição.

Na oficina de pintura, todos foram convidados a usar só lápis cor-de-rosa – convite recusado por alguns. “Muitos falam ‘eu não vou brincar disso porque meu pai diz que não é coisa de menino’. Nesses casos, a gente conversa com a família. Entre os convocados, os pais de meninos são a maioria. “Um menino gostar de balé é sempre pior do que uma menina querer jogar futebol. E, se não combatemos isso, criamos uma sociedade machista e homofóbica.”

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,bonecas-sao-para-menino-em-algumas-escolas-sim,1028463,0.htm

* O absolutismo relativista exige que toleremos as mentiras como se fossem verdades, e que não “toleremos” as verdades, como se fossem mentiras.

quarta-feira, maio 1st, 2013

Pe. Anderson Alves

O absolutismo relativista exige que toleremos as mentiras como se fossem verdades, e que não “toleremos” as verdades, como se fossem mentiras.

Vimos anteriormente que o ateísmo e o relativismo modernos são profundamente contraditórios[i]. O ateísmo porque pretende ser verdadeiro e relativista, “des-construindo” todas as verdades e normas morais, a partir de uma verdade absoluta: a inexistência de Deus; dessa verdade “divina” o ateísmo deduz uma regra moral absoluta: é proibido ter regras. O ateísmo relativista pretende assim negar o valor de todos os dogmas e certezas morais a partir de um novo dogma, que cria uma nova moralidade, na qual os valores absolutos são relativizados ou transformados.

O relativismo, por sua vez, é contraditório porque pretende afirmar que todas as afirmações, inclusive as contraditórias, são sempre verdadeiras (ou sempre falsas). Mas quem diz que duas afirmações contraditórias podem ser verdadeiras, deve aceitar que duas contraditórias não podem ser verdadeiras.

Essa evidente contradição levaria a renúncia a uma vida humana, na qual se julga, dialoga e se vive em sociedade. Em outras palavras, quem não aceita o princípio de não-contradição, torna-se semelhante a um vegetal. As consequências disso é que o relativismo e o ateísmo absolutos são reciprocamente excludentes; e o relativismo só pode ser verdadeiro quando é relativo, ou seja, parcial, aplicado ao modo de expressar ou de conhecer uma verdade, e não à verdade mesma.

Isso nos faz reconhecer o justo relativismo da verdade, pois essa é sempre relativa à inteligência de quem conhece. E a verdade é única na inteligência divina, pois Deus, ao conhecer a si mesmo, conhece todas as coisas. A verdade humana, porém, é múltipla, pois cada coisa tem sua verdade intrínseca, mas a conhecemos parcialmente, através de muitos juízos verdadeiros. De fato, o conhecimento humano é discursivo e progressivo e até hoje nenhuma ciência pode dizer que conhece totalmente o objeto estudado. A realidade que está diante de nós é sempre mais rica do que conhecemos. Por isso ela é como uma janela pela qual nos chega a luz da verdade e da bondade divinas e infinitas.

Entretanto, não podemos deixar de constatar que vivemos num ambiente cultural impregnado de relativismo. Não de um relativismo absoluto, que é essencialmente contrário à razão humana, mas sim de um absolutismo relativista. De fato, as filosofias relativistas ainda não conseguiram destruir a racionalidade humana e continuamos pensando a partir da convicção de que é possível conhecer a verdade e de que afirmações contraditórias não podem ser ao mesmo tempo verdadeiras. Mesmo assim o relativismo se expande na cultura atual, não através da Lógica, mas pela força da repetição superficial de afirmações “dogmáticas”. Desse modo, não há dúvidas de que vivemos em um ambiente onde reina não um relativismo absoluto, mas sim um absolutismo relativista.

Absolutismo relativista significa, pois, os esforços para se impôr uma cultura mundial relativista, que tenta destruir os valores tradicionais. Pretende-se assim convencer aos povos de que tudo é relativo, pois a verdade não existe (ou tudo é verdade, o que dá no mesmo) e todos os comportamentos morais são igualmente bons (ou igualmente maus). Tudo o que é contraditório parece ser hoje válido e tolerável. A única coisa que não se tolera é que se mostre as contradições e a irracionalidade do mesmo relativismo. O absolutismo relativista exige que toleremos as mentiras como se fossem verdades, e que não “toleremos” as verdades, como se fossem mentiras.

Na Ética o absolutismo relativista se manifesta principalmente em dois modos. No Positivismo e no chamado “pensamento débil”. Ambos dizem que a Ética só pode ser descritiva. Embora esses sistemas sejam opostos, as conclusões a que chegam são semelhantes.

O Positivismo diz que o método das ciências experimentais deve ser aplicado a todas as ciências. Ora, as ciências só descrevem a realidade, sem prescrever nada. Por isso a Ética deve apenas dizer como as pessoas se comportam. O argumento dado é logicamente válido, mas há uma premissa que deve ser discutida: por que a Ética deve ter o mesmo método das ciências experimentais? Essa é uma afirmação filosófica, que só pode ser imposta pela força, uma vez que não se sustenta racionalmente. De fato, a dita afirmação não pode ser justificada por métodos experimentais e a conclusão do raciocínio é autocontraditória: diz que as ciências não devem ser normativas, mas essa afirmação é já uma norma no âmbito científico.

Outro sistema importante é o chamado “pensamento débil”. Diz que o filósofo moral deve descrever os modelos de comportamento para facilitar o diálogo entre as culturas. Forma-se assim uma mesa redonda, semelhante à de um jogo de cartas, na qual não se chega a nenhuma conclusão. E isso se apresenta como uma exigência da “democracia”. E o argumento dado diz: os homens são todos iguais; quando dois homens possuem opiniões diversas, ambas devem ser aceitas, pois é antidemocrático ou politicamente incorreto dizer que uns homens tem razão e outros se equivocam[ii].

Quem pensa assim deveria antes de tudo esclarecer o que significa a afirmação de que “todos os homens são todos iguais”. Se significasse que possuem uma mesma dignidade, estamos de acordo. Mas se quer dizer que tudo o que os homens afirmam, em razão da dignidade comum, seja sempre verdadeiro, isso é um absurdo. Da dignidade da natureza humana não se deduz que o conhecimento de todos os seres humanos seja sempre verdadeiro. E tampouco se deduz que sempre dizemos a verdade. De fato, o homem pode, não só se equivocar, mas também mentir, manipular, tentar dominar a quem parece ser mais fraco. E não se entende como o erro ou a mentira pode sustentar uma “democracia”. Dito de outro modo: o principal equívoco do “pensamento débil” está em estabelecer como critério de verdade não a relação do juízo intelectual com a coisa conhecida, mas sim o juízo com a dignidade de quem o profere. Da dignidade do ser humano, de fato, não se deduz a verdade de todos os seus conhecimentos, nem a bondade moral de todos os seus atos.

Portanto, o Positivismo e o “pensamento débil” expressam bem o atual absolutismo relativista: a tentativa de impor pela força de repetições afirmações contraditórias, como se fossem verdades absolutas, negando o que realmente é verdadeiro e bom. O dito absolutismo, última forma de pensamento universal, desrespeita as culturas verdadeiramente humanas. Pois se a Ética fosse somente descritiva, os filósofos poderiam falar sobre as diversas culturas, mas não falar com elas. E isso ofende a dignidade e a racionalidade humana, que como tal está aberta ao diálogo sincero em busca de uma verdade condivisível por todos os homens[iii].

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[i] Cfr. http://www.zenit.org/pt/articles/o-ateismo-e-uma-escolha-racionalhttp://www.zenit.org/pt/articles/o-relativismo-relativo-ou-a-justa-relatividade-da-verdade

[ii] Cfr. A. Vendemiati, In prima persona. Lineamenti di etica generale, 3ª ed., UUP, Città del Vaticano 2008, cap. 1.

[iii] Cfr. R. Spaemann, ¿Qué es la ética filosófica? Em Limites, acerca de la dimensión ética del actuar, Ediciones Internacionales Universitarias, Madrid 2003, pp. 19-20.

(29 de Abril de 2013) © Innovative Media Inc.

* O Relativismo relativo ou a justa relatividade da verdade.

terça-feira, abril 9th, 2013
Então a afirmação tudo é relativo implica que duas afirmações contraditórias possam ser verdadeiras?

Por Pe. Anderson Alves

Em outra ocasião dizíamos que o relativismo e o ateísmo absolutos são incompatíveis[i]. Pois quem afirma ser verdade que Deus não exista, não poderia negar a existência da verdade. De modo que o ateísmo absoluto nos mostra que relativismo não pode ser absoluto, só pode ser relativo. E isso é comprovado se partimos da afirmação dos que dizem que o relativismo não nega a existência da verdade, mas somente diz que ela é sempre relativa. De fato, a afirmação de que “tudo é relativo” é muito comum nos nossos dias e pode significar algo equivocado e também algo certo.

Equivocado quando quer significar que duas afirmações contraditórias podem, ao mesmo tempo, ser verdadeiras. Pois quem afirma isso deveria aceitar que duas afirmações contraditórias não podem ser contemporaneamente verdadeiras (uma vez que essa é a contraditória da afirmação anterior). Mas quem diz que duas afirmações contraditórias podem e não podem ao mesmo tempo ser verdadeiras, não sabe realmente o que fala. A inteligência e a linguagem humanas, se querem continuar sendo reconhecidas como tais, não aceitam contradições.

“Tudo é relativo” pode significar também algo bem preciso: que a verdade indica sempre uma relação. De fato, a verdade se dá quando se afirma aquilo que é, ou se nega aquilo que não é. Em outras palavras, a verdade se dá quando a inteligência apreende o que as coisas são e as expressa em juízos. De modo que “tudo é relativo” significa que toda verdade é relativa a uma inteligência: a de quem a conhece.

E a inteligência pode ser tanto a divina quanto a humana. A divina fundamenta toda verdade natural existente, porque Deus pensa todas as coisas e depois as cria (inclusive o processo evolutivo). E a correspondência daquilo que as coisas são com o pensado por Deus sobre as coisas é a verdade natural de todas elas, intrínsecas às mesmas. O intelecto humano, por sua vez, não conhece todas as verdades, mas está em potência para conhecê-las. Sendo assim, a relação do intelecto divino com as coisas é essencial para as coisas, pois sem essa relação as coisas não podem existir; a relação do intelecto humano com as coisas naturais é acidental, pois ainda que o homem não as conhecesse, essas existem e são dotadas de uma racionalidade e de leis próprias e cognocíveis. Santo Tomás de Aquino chega a dizer que se não houvesse nenhuma inteligência, nem a divina nem a humana (o que é impossível), não haveria nenhuma verdade[ii].

Então a afirmação “tudo é relativo” implica que duas afirmações contraditórias possam ser verdadeiras? Evidentemente não, pois afirmar que duas contraditórias são verdadeiras implica aceitar que duas afirmações contraditórias não são verdadeiras, o que é um absurdo. Dizer que cada verdade é relativa a um intelecto quer dizer que a verdade só existe porque é conhecida por Deus e pode ser conhecida pela inteligência humana, mas não implica que a inteligência humana conhece infalivelmente a verdade. A inteligência humana não é nem a divina nem a angélica e pode se equivocar. Mas também só essa inteligência pode reconhecer o próprio erro.

Sendo assim, quando uma afirmação é verdadeira a sua contraditória necessariamente será falsa. Isso quer dizer que se uma pessoa diz “isso que está diante de mim é um computador”, não pode dizer no mesmo tempo “isso que está diante de mim não é um computador”. Quem está certo da verdade da primeira afirmação, não pode aceitar a verdade da segunda. Isso é o princípio básico de coerência do pensamento e da linguagem humana. Quem nega esse primeiro princípio se torna incapaz de fazer qualquer afirmação, de raciocinar, de dialogar, de viver em sociedade. Se torna, para continuar com o exemplo de Aristóteles, semelhante a um vegetal, com quem não é educado discutir.

E quando alguém diz: “isso é a tua verdade, mas não é a minha verdade”: há algum sentido? Certamente nesse caso deve-se analisar o conteúdo das duas afirmações e ver se ambas são realmente contraditórias e depois investigar se ambas são falsas, ou se alguma é verdadeira. No caso de que uma seja verdadeira, a sua contraditória será necessariamente falsa. E isso não implica discriminação com ninguém, pois é próprio de pessoas de inteligência considerar mais o que se diz do que quem o diz, num diálogo. Pode ocorrer que as duas afirmações não sejam contraditórias, mas verdades complementares, ou duas falsidades. É necessário saber, então, qual é o critério último para que uma afirmação seja verdadeira ou falsa. Já iniciamos aqui uma resposta, mas a aprofundaremos em outra ocasião.

O que importa agora é deixar claro que toda verdade se refere a uma inteligência. Nesse sentido, toda verdade é relativa, inclusive a verdade divina, relativa à inteligência (Logos) de Deus. E isso é o justo relativismo da verdade. Por outro lado, afirmar um relativismo absoluto, ou seja, dizer que toda afirmação é necessariamente verdadeira (ou necessariamente falsa), inclusive aquelas contraditórias, significa afirmar algo tão ilógico e antinatural que seria melhor não dizer nada: “sobre o que não se pode falar, se deve silenciar”[iii].

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[i] Cfr. http://www.zenit.org/pt/articles/e-possivel-um-relativismo-absoluto Cfr. também:http://www.zenit.org/pt/articles/o-ateismo-e-uma-escolha-racional

[ii] S. Tomás de Aquino, De Veritate q. 1, a. 2.

[iii] L. WITTGENSTEIN, Tractatus logico-philosophicus, prop. 7.

* Para ONDE caminha a humanidade? Corte holandesa aprova Associação de Pedófilos.

sexta-feira, abril 5th, 2013

Martijn Uittenbogaard, presidente da associação Martijn

ACI

Em uma decisão controvertida, um Tribunal de recurso na Holanda aprovou a existência de uma associação de pedófilos, que, em primeira instância, havia sido dissolvido no ano passado, considerando que esta não seria “uma ameaça para a desintegração da sociedade”.

De acordo com o jornal ABC de Madri, a associação Martijn, que defende o sexo consensual entre crianças e adultos, poderá continuar suas funções, uma vez que o Tribunal de apelação de Arnhem, Leeuwarden, salientou que “o trabalho da associação é contrário à ordem pública, mas não há uma ameaça de desintegração da sociedade”.

Apelando para a “liberdade de expressão”, o Presidente da Associação Martijn Uittenbogaard, apelou a decisão de um tribunal em Assen, que ordenou a dissolução do grupo de pedófilos em junho de 2012.

Fundada em 1982, a associação Martijn, cuja sede era no distrito judicial de Arnhem, Leeuwarden, diz que ele é a favor da aceitação do sexo consentido entre adultos e crianças, mas indica que eles são contra qualquer tipo de abuso sexual.

O recurso levantado contra a associação afirmava que os antecedentes criminais de alguns membros do abuso sexual poderiam estar relacionados com a associação, mas que eles nunca haviam cometido um crime tipificado como pedofilia.

“O texto e imagens publicadas no site de Martijn são legais e nunca estimularam adultos a terem relações sexuais com crianças”, acrescenta o Tribunal que proferiu a controvertida decisão.

O Tribunal porém assinalou que a associação é contrária a certos princípios da lei dos Países Baixos, porque “banaliza os perigos do contato sexual com crianças e fala bem destes contatos”.

Por sua parte, o Presidente da associação, através de sua conta no Twitter, escreveu que “ainda existem sábios juízes, felizmente”.

No dia 21 de novembro de 2011, o Tribunal de Leeuwarden rejeitou abrir um processo contra a associação. No entanto, o ex-presidente do mesma entidade, Ad van den Berg, foi condenado em 18 de outubro de 2011 na cidade de Haarlem a três anos de prisão, por posse de fotografias, filmes e revistas de pornografia infantil.

* O Homem moderno confunde VERDADE com sinceridade.TODOS, assim, “tem razão” e Deus se torna dispensável.

terça-feira, abril 2nd, 2013

Dom Estevão Bettencourt (OSB)

O Homem precisa da religião para praticar o bem?


O mundo de hoje diz: «Em matéria de Religião, o essencial é o procedimento reto e bondade para com todos os homens. As questões de credo ficam sempre obscuras. Doutro lado, a celebração de ritos é secundária. Há muitas almas boníssimas que não praticam cerimonial algum».


Para julgar adequadamente o conteúdo das proposições acima, deveremos considerar de per si cada um dos dois aspectos que elas abordam :

1) Religião e Verdade,

2) Religião e culto externo.

1. Religião e Verdade


A mentalidade moderna tem posto em xeque não somente este ou aquele ensinamento do Cristianismo (a Divindade de Jesus, a presença real do Senhor na Eucaristia…), mas também o próprio conceito de «verdade religiosa»; quem professa alguma verdade em nome da Religião e quer defender os direitos que a mesma tem, de não ser equiparada ao erro, parece propugnar «dogmatismo» estreito, hedionda mesquinhez de espírito, diante da qual alguns contemporâneos «se escandalizam». Parece que em Religião o conceito de verdade é relativo; Religião seria, primariamente, manifestação do sentimento ou do bom senso de cada indivíduo, não, porém, algo que se possa e deva exprimir em fórmulas universais destinadas a serem reconhecidas por todos os homens. Cada um, por conseguinte, teria o direito de fazer «sua» religião, de acordo com seus critérios pessoais, e todos teriam a obrigação de dizer que as diversas formas de religião assim concebidas são boas, contanto que os respectivos adeptos pratiquem o bem.


«Praticar o bem», tal seria simplesmente o ideal do homem. A filosofia religiosa e a teologia seriam secundárias, seriam valores subjetivos, reservados ao foro particular de cada um.

Não teriam razão os que assim pensam ?


A resposta a esta questão decorrerá claramente de uma análise das causas de tal atitude. Ora parece que são três os motivos desse relativismo religioso.


1) O homem moderno está muito imbuído da mentalidade procedente dos métodos das ciências físicas e matemáticas; tais métodos, que se baseiam estritamente no visível e ponderável, parecem ao filho do nosso século ser os únicos que levem à posse segura da verdade; nos setores em que a pesquisa empírica não tem aplicação (como seriam os da metafísica e da teologia), julgam muitos pensadores que não se pode chegar à certeza.

Sendo assim, as proposições que não possam ser provadas por tais métodos (como é o caso das proposições religiosas) só parecem interessar ao sentimento e à vida afetiva de indivíduos; preconiza-se o respeito para com essas fórmulas; julga-se, porém, que são arbitrárias, válidas apenas para quem as queira adotar.


À luz desta concepção, tende-se a fazer das noções de Deus e das relações do homem com Deus (noções que não podem ser formuladas em laboratório), algo de cada vez mais vago e pálido; «Deus» e «Religião» se tornam, aos poucos, conceitos tão diluídos que muitos facilmente os removem, sem julgar que nisto haja algum detrimento real.

Paul Claudel o observava muito bem: «A tentação do homem moderno consiste em fazer crer que não é necessária a crença em Deus para se praticar o bem». O homem se consumaria na prática do bem igualmente, tendo ou não tendo Religião.


Com outras palavras ainda: em se tratando de Religião, a mentalidade cientificista moderna leva o homem a não se preocupar muito com a VERDADE; contenta-se apenas com SINCERIDADE ou com as disposições pessoais dos indivíduos «religiosos»; substitui-se assim a noção de verdade (valor objetivo) pela de sinceridade (valor subjetivo); julga-se que pouco importa o que alguém professa (catolicismo, protestantismo, espiritismo, budismo…), contanto que o professe sinceramente.


— Ora não é preciso grande esforço para se averiguar quão vã é tal posição.


A sinceridade com a qual alguém professa uma ideologia ou propugna uma causa, não é, de modo nenhum, argumento em favor dessa causa ; o fato de que há comunistas sinceros não justifica o comunismo, como também o fato de que há católicos sinceros ainda não justifica o Catolicismo. A sinceridade é uma disposição subjetiva, independente das qualidades do objeto ao qual ela se aplica; mesmo as causas mais desastrosas tiveram adeptos fanáticos, de cuja sinceridade não nos seria lícito duvidar.


Ninguém nega o valor da sinceridade ou da boa fé. A boa fé, porém, (disposição subjetiva) não dispensa o seu complemento necessário que é a verdadeira fé (ou a apreensão da realidade objetiva tal como ela é).


Em última análise, deve-se dizer que a atitude relativista do homem contemporâneo frente a tudo que é metafísico e religioso, significa decrepitude ou cansaço da mentalidade moderna: quem renuncia a verdades objetivas para se prender unicamente a critérios subjetivos na orientação de sua conduta, sofreu uma deformação em sua mentalidade. O homem que só admite certeza no setor das ciências positivas, fecha-se intencionalmente a toda uma ordem de coisas ainda mais ricas do que as coisas visíveis; os objetos sensíveis sugerem conclusões contingentes, muito sujeitas a ser reformadas (basta lembrar como os cientistas vão sucessivamente remodelando suas explicações dos fenômenos); ao contrário, a realidade que fica além do empírico, a realidade metafísica, é, como dizia o filósofo grego Aristóteles (+322 a. C.), «necessária, eterna e imutável», oferecendo, por isto, certeza tal que as ciências empíricas geralmente não conseguem obter.


Donde se vê que uma das tarefas mais prementes que incumbem ao homem moderno, é a de confiar de novo na sua inteligência; esta, utilizada sem preconceitos, indica ao estudioso a existência do Mistério ou de uma Inteligência transcendente; indica, sim, a existência de Deus e das realidades invisíveis; ora, não há dúvida, a inteligência humana, feita para captar a verdade, tem como vocação primária a apreensão de tais realidades não sujeitas à contingência da matéria. Não se justifica, portanto, o relativismo no setor religioso; existe o Mistério, mas existe também intelecto humano capaz de o apreender aos poucos. Cf. «P. R.» 8/1958, qu. 2.

Não repetimos aqui o que já foi dito em «P. R.» 20/1959, qu. 1, em favor das possibilidades de chegarmos ao conhecimento da verdade.


2) Outro motivo, afim ao anterior, que explica a indiferença moderna em relação à fé, é o primado que hoje em dia se atribui à ação e aos valores práticos, com detrimento para os valores especulativos. Muitos tendem a julgar o Cristianismo e, em particular, o Catolicismo pelas suas manifestações externas; em consequência, assim como há os que muito admiram a Igreja por causa dos benefícios (educação, instrução, morigeração…) prestados à humanidade, há também os que dela se afastam por causa de maus exemplos dados pelos cristãos; para não poucos contemporâneos a pior objeção existente contra a fé cristã é o comportamento decepcionante de irmãos tidos como católicos. Ao averiguá-lo, esses observadores julgam poder definir peremptoriamente a sua atitude de condenação; não consideram aquilo que a fé católica ensina, nem olham para os valores objetivos que a mesma encerra, independentemente da infidelidade dos seus pretensos adeptos.


— Ante tal tendência, o católico reconhecerá, sem hesitação, que a fé deve ser eficaz, que a conduta de vida há de ser coerente com a crença e que a verdade tem por fim transformar as almas; não há dúvida, nas origens do Cristianismo, foi o teor de vida exemplar dos cristãos que para muitos pagãos se tornou a prova palpável da origem divina da Igreja.


Mas, reconhecendo isso, o bom cristão não poderá deixar de lembrar aos seus observadores a distinção vigente entre a verdade em si e a conduta pessoal, subjetiva, dos que professam a verdade: «A verdade nada tem que ver com o número de pessoas que ela persuade», dizia Claudel muito sabiamente.


Sim; a verdade permanece de pé e tem sempre valor destinado a todos os homens, ainda que os filhos da verdade não lhe deem testemunho prático. A verdade não se desvirtua pelo fato de que não é traduzida por atos concretos. Ela fica sendo sempre capaz de transformar a vida de quem a abrace, embora este ou aquele indivíduo que a profere não leve, por fraqueza humana, uma conduta de vida consequente. «Muitas mentiras não extinguem a existência da verdade» (Daniélou).


3) Em terceiro lugar, como fator de indiferença perante a fé, pode-se apontar o orgulho de que muitas vezes está imbuído o cidadão do século XX.


Esse garbo desregrado se dissimula sob formas sutis. Em última análise, o homem contemporâneo sabe que quem aceita a fé, aceita ao mesmo tempo a irrupção, em sua vida, de Alguém que nunca mais o deixará entregue a si mesmo; aceitar a fé implica renunciar ao desejo que cada um tem de bastar a si, para aceitar a condição de ser englobado numa corrente de vida que talvez leve a pessoa a sair da sua mediocridade e a atingir objetivos mais elevados do que os que ela quisera atingir. Em outros termos: aceitar a Deus e aceitar o seu amor, como Ele se manifesta no Catolicismo, significa abraçar a perspectiva de ser desapossado da posição de «alfa e ômega» que cada um tende a atribuir a si mesmo. «Deus primeiro nos amou», diz S. João (1 Jo 4,10), de sorte que ao homem compete aceitar esse amor e corresponder-lhe dignamente.


Em suma: a fé a muitos aparece como uma ameaça à sede de autonomia que o filho do século XX traz em si. É por isto que grande número de nossos contemporâneos, sem ter a ousadia de renegar diretamente o Criador, preferem forjar o seu conceito «próprio» de Deus e de Religião; preferem dizer eles mesmos quem é o Senhor e como se chega até Ele, emancipando-se destarte de qualquer autoridade objetiva, devidamente credenciada para propor as verdades religiosas.


— Sem dificuldade, percebe-se quanto o homem moderno, nutrindo tal atitude, engana a si mesmo. Não pode haver Religião sem fé, sem adesão da razão a verdades de ordem superior, que o homem não abarca com sua exígua inteligência, mas que se lhe incutem por estarem devidamente credenciadas. Sim; deve-se levar em conta, de um lado, que Deus, por definição, é o Ser absoluto, infinitamente mais rico do que o homem; por conseguinte há de ter seus mistérios.

Doutro lado, tendo criado o homem por benevolência, Deus não podia deixar de lhe revelar algo de seus desígnios, assim como os meios necessários para que o homem volte ao Criador. Pois bem; tal revelação divina foi feita e há de ser aceita, por vias objetivas, por um magistério anterior e superior ao indivíduo, devendo este, por conseguinte, prestar fé. Não há dúvida, é mais cômodo ao intelecto humano criar ou inventar do que simplesmente aceitar a realidade religiosa já feita. Essa «comodidade», porém, é ilógica; desvirtua o conceito de Religião, pois Religião significa entrega do homem a Deus, Ser vivo, pessoal e transcendente. Será sempre preciso reconhecer que Deus precede o homem,… que há efeitos sobre os quais este não pode dispor, enfim… que ao homem toca necessariamente entrar numa ordem de coisas que ele não inventou.


De resto, observa-se que a fé de modo nenhum suprime a pesquisa racional; deixa aberto vasto campo de estudos ao qual se aplica a inteligência: basta lembrar quanto a Revelação cristã estimulou o desenvolvimento da Filosofia e da especulação intelectual na Idade Média. Do seu lado, a inteligência humana, aplicando-se logicamente ao estudo, chega à conclusão de que a única posição verdadeiramente razoável é a de quem tem fé. Sim; a razão aos poucos descobre a existência do Mistério e do Transcendente que está na raiz de toda a realidade; ora, tendo-o descoberto, é consentâneo com os seus próprios ditames que ela profira um ato de fé ou de adesão ao Mistério ou ao Absoluto.


2. Religião e culto divino


2.1. Mencionamos acima a marcante tendência do homem moderno à atividade. A multiplicação de tarefas que o progresso do saber e da técnica acarretou, parece solicitar toda a atenção do cidadão, não deixando lugar nem tempo para grandes manifestações religiosas. Dir-se-ia que as energias dedicadas aos atos religiosos são sequestradas à construção da cidade dos homens, cidade dos homens onde tanta miséria requisita incessante colaboração.


Vejamos os graves senões que nesse modo de pensar se encerram.


A essência da Religião e, em particular, do Cristianismo está em que o homem reconheça sua dependência em relação a Deus e se una o mais possível ao Senhor; o amor ao próximo e o alívio da sorte alheia têm que ser considerados como efluxos vivos desse amor a Deus.


Ora o homem não pode limitar suas relações com Deus ao plano do invisível, pois o ser humano é essencialmente um composto de alma e corpo, dotado de índole social; a vida do homem se desenvolve normalmente 1) mediante o uso de suas faculdades corpóreas e 2) em ambiente comunitário; cf. «P. R.» 15/1959, qu. 3.

Por isto deve-se dizer que o homem que não reserva periodicamente algum espaço de tempo para a oração (ou seja, para a procura explícita da união com Deus), e para a oração comunitária, tal homem não vive como homem; sua vida está mutilada. Pertencer à comunidade, aperfeiçoar-se na comunidade (família, escola, igreja, profissão civil ou religiosa…) são elementos essenciais à personalidade humana, elementos sem os quais esta definha.


Esta afirmação é corroborada pelo fato de que os homens sempre experimentaram a necessidade de consagrar mediante ritos coletivos ao menos as fases essenciais da sua existência, ou os atos nos quais lhes parece tocar o mistério de Deus e da vida: o nascimento (surto da vida), o casamento (contrato que visa multiplicar a vida) e a morte (extinção da vida); sempre que o homem se viu colocado diante da realidade básica, que é a vida, ele procurou entrar em contato com Deus de maneira comunitária e sensível.


De modo especial, o Cristianismo requer dos seus membros a prática dos sacramentos. Sim; o Cristianismo é essencialmente a Encarnação do Divino no humano. Em primeiro lugar, Cristo é o Filho de Deus feito homem; os que tomaram contato com a sua Divindade invisível, tomaram-no por meio da sua carne sensível. Por sua vez, a Igreja é a continuação da Encarnação; Cristo Lhe confiou os mistérios de Deus e da Redenção, que Ela traz encerrados dentro de moldes sensíveis e humanos; por isto ninguém pode tomar contato com as riquezas de Cristo a não ser por meio da estrutura visível ou dos sacramentos da Igreja. Quem despreza a Igreja por causa da índole sensível dos sacramentos, está-se afastando de Cristo e vai-se privando dos tesouros de santificação e Redenção que o Salvador nela depositou.


Pode-se dizer que Cristo é o Grande Sacramento ou o Sacramento primordial; Ele se fez Filho do homem para que o homem se tornasse filho adotivo de Deus; e, na qualidade de Filho do homem, multiplicou pães, transformou água em vinho, tendo em vista por essa via levar os homens até a sua Divindade, ou mesmo até o Pai Celeste. Ora os sacramentos não são senão água, pão, vinho, óleo, gestos e palavras que Cristo hoje em dia administra por meio da sua Igreja (ou do seu Corpo prolongado) a fim de comunicar aos homens a filiação divina. Em consequência, vê-se que anticristão seria querer afastar-se do plano sacramental; o cristão que o pretendesse, deixaria de ser cristão no sentido pleno da palavra, por muito que praticasse a beneficência para com os indigentes (não é preciso ser cristão para ter pena dos que sofrem; basta ter o senso humanitário ou filantrópico natural, que é comum a todos os indivíduos, antes mesmo que professem alguma crença religiosa positiva).


Não sem razão, pode-se julgar que a recusa do aspecto sacramental e ritual do Cristianismo é inspirada pelo orgulho do homem contemporâneo; o recurso aos elementos materiais e sensíveis (água, pão, vinho, óleo…) instituídos por Cristo como canais da graça parece ser algo de pequenino demais para o cidadão do século XX, o qual pouco compreende que Deus se revela aos humildes e pequenos (cf. Mt 11,25).


2.2. Dir-se-á, porém: apesar de tudo, não é mais útil e premente praticar a caridade (dando de comer a quem tem fome, vestindo a quem está desnudo.. .) do que ir à Missa e participar de assembleias litúrgicas ?


— Vista a necessidade da oração, e da oração coletiva (ou seja, do culto comunitariamente prestado a Deus), responderemos que por motivo nenhum o cristão poderá menosprezar esse culto, instaurado pelo próprio Cristo.


Os homens procuram construir as cidades dos homens neste mundo; mas, para que tais cidades tenham consistência, deverão deixar que Deus construa a Sua Cidade entre eles; se Deus não construir a Sua Cidade, nem os homens construirão a deles. Ora o Supremo Senhor edifica Sua Cidade por meio dos Sacramentos; é principalmente através destes que o Redentor age no mundo, comunicando-lhe valores eternos, que servirão de esteio para os valores temporais.


«O serviço explícito de Deus constitui uma experiência tão fundamental quanto o serviço do próximo. Estas duas exigências são igualmente incoercíveis. Um cristão se engana sempre que minimiza uma ou outra. O mundo não será digno deste nome se nele uma e outra não forem respeitadas. Um mundo sem adoração é mundo tão desumano quanto um mundo sem fraternidade. A verdadeira cidade, diz La Pira, é aquela em que Deus e o homem têm cada qual a sua casa» (J. Daniélou, Défense du pratiquant, em «Études» janv. 1958,12).


A construção da cidade dos homens e o culto do Deus não são incompatíveis entre si. É preciso mesmo dizer que, se os cristãos foram, nesta ou naquela fase da história, infiéis às suas tarefas sociais, isto não se deve a um presumido excesso de amor a Deus e à casa de Deus. É vã a censura, feita aos cristãos, de que a sua fé os subtrai aos afazeres temporais. As energias consagradas ao Senhor não são furtadas aos homens, porque, na verdade, o amor aos homens só é eficaz quando sustentado pelo amor a Deus e ao seu santuário.


2.3. Em último lugar, o observador não cristão poderia apontar o caso de mais de um cristão para quem a Religião se limita aos atos do culto… Há, sim, quem muito viva na igreja, sem pensar em aliviar a sorte do próximo na cidade. Tal tipo de fiéis não redunda em desabono do ritual cristão ?


— Na verdade, muito se deve lamentar a existência de tais cristãos. Sua atitude, pouco ou nada influente na vida social, em parte terá dado motivo à reação dos não católicos contra o culto católico. Contudo o proceder incoerente dos que vão à Missa, mas não difundem os frutos da Missa no mundo, ainda tem significado: exprime na sociedade o desejo de não romper com Deus, mas de manter contato com Ele.


«Não louvarei o cristão para quem o Cristianismo se reduz a alguns atos religiosos. Mas também não lhe atirarei a primeira pedra. Nele respeitarei o pavio que ainda fumega, o caniço que pode ser reerguido. Quando essa chamazinha se tiver extinto por completo teremos entrado no mundo das trevas, da morte espiritual, dos casamentos meramente civis e dos enterros meramente civis. Vivemos num mundo em que pode haver dedicação aos interesses da humanidade, do progresso ou da ciência, mas em que essa dedicação imola vidas humanas ao monstruoso ídolo que é o orgulho coletivo do homem» (J. Daniélou, ibd. 6).


À guisa de comentário, seja lícito repetir: o cristão que frequenta o culto, mas não irradia devidamente a sua caridade no convívio social, é certamente merecedor de censura; contudo ele ainda constitui de certo modo um testemunho contra a total laicização da vida humana (casamentos e enterros meramente civis), laicização que está em frontal oposição às concepções mais espontâneas da natureza humana, como já tivemos ocasião de notar (cf. pág. 281).


Para sintetizar quanto até aqui foi dito, parece não haver melhor conclusão do que a que um profundo e equilibrado observador de nossos tempos assim formula:

«Está claro que, se não há Cristianismo sem sacramentos, os sacramentos não bastam para fazer um verdadeiro cristão. A prática dos sacramentos é a condição primária, sem a qual não existe Cristianismo autêntico. É por isto que a diminuição da mesma será sempre grave sintoma; contudo a prática sacramental é apenas um ponto de partida. De um lado, a carência de prática sacramental é motivo de condenação para aqueles que desprezam os sacramentos; de outro lado, porém, a prática sacramental por si só não justifica aqueles que deixam infecundos os sacramentos» (J. Daniélou, ibd. 13).

* Uma entrevista que foca a relação da Fé religiosa (não só católica) e a modernidade.

sábado, março 23rd, 2013

Entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé sobre a Igreja Católica, Papado, Relativismo, Verdade.
A Entrevista foi feita ANTES da eleição do Papa Francisco e ele se coloca muito bem, com uma predominância pela visão laical.

Suas ponderações são muito interessantes, embora alguns pontos exijam reflexão.

O tema da entrevista é amplo, focado mais na relação da religião com a modernidade. O resultado final porem é MUITO POSITIVO.

Assista, pois vale a pena.

* Se a Bíblia é uma só, porque os cristãos divergem?

sábado, março 2nd, 2013

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

1. A raiz do mal

1.1. Para explicar a atual divergência de crenças cristãs, levar-se-ão em conta dois fatores capitais:

1) uma observação geral impõe-se imediatamente: tudo que é humano, é sempre marcado pelo cunho do individual; o homem tende sempre a imprimir sua índole pessoal às suas palavras e às suas obras. Até mesmo a Religião (diríamos mesmo: de modo particular, a Religião) é afetada por essa tendência, pois é professada e vivida por homens. Com efeito, a Religião, em virtude da sua finalidade de unir o homem com Deus (o Valor Máximo), solicita a personalidade toda da criatura, fazendo-a vibrar com tudo que ela tem de mais íntimo ; os temperamentos mais diversos (exaltados ou melancólicos, místicos ou racionalistas) se exprimem espontaneamente através das fórmulas religiosas, chegando por vezes a tomar atitudes apaixonadas, pois a Religião toca os mais profundos anelos do homem.

Ainda por outro motivo a Religião é setor em que muito facilmente prorrompem os subjetivismos humanos: toda profissão de fé religiosa tem de per si consequências na vida prática do respectivo sujeito; ora, se este se acha preso a certos hábitos dos quais não tenha a coragem de se desvencilhar, tal indivíduo, consciente ou inconscientemente, tende a conceber a sua Religião ou a sua «fé» de modo tal que não interfira na sua conduta de vida. A experiência o comprova bem: é comum encontrarem-se pessoas que, embora sejam inteligentes e cultas, rejeitam verdades óbvias ou comumente aceitas, fazendo a sua religião própria, ou simplesmente abandonando toda crença religiosa, a fim de não desdizerem ao gênero de vida que levam.

2) Conhecedor dessa índole natural do homem, o Senhor Deus, querendo entregar às criaturas a sua Palavra de Verdade e Vida, houve por bem muni-la de um meio que a preservasse dos mal-entendidos. Com efeito; instituiu um magistério visível, órgão de interpretação autêntica, que, por assistência do próprio Deus, seria capaz de guardar e transmitir a todas as gerações o genuíno sentido da Palavra Revelada. Tal magistério é o da Santa Igreja de Cristo, a qual desde os tempos de Jesus até hoje ininterruptamente se faz ouvir.

Uma parte da Verdade divina revelada por via meramente oral foi no decorrer dos tempos consignada por escrito, a fim de atender a necessidades ocasionais dos fiéis desta ou daquela região, desta ou daquela época; assim é que surgiram paulatinamente, desde os tempos de Moisés (séc. XIII a.C.) até os de São João Evangelista (fim do séc. I d. C.), os escritos (narrativas, cartas, pequenos livros didáticos) do Antigo e do Novo Testamento ou da Escritura Sagrada (Bíblia); os respectivos autores nunca tiveram a intenção de resumir nesses escritos toda a Revelação Divina, mas apenas quiseram focalizar aspectos da mesma, em vista de circunstâncias esporádicas do povo de Deus; em torno desses livros, permanecia o conjunto da Revelação Divina, a ser transmitida oralmente de geração em geração; deve-se mesmo dizer que essa tradição oral (guardada fielmente por assistência do Espírito Santo) ficava sendo o critério para se interpretar a Escritura Sagrada.

Anterior à Bíblia, a tradição oral é como que a mãe da Bíblia, mãe sem a qual a Escritura não pode ser devidamente entendida. Ora — seja lícito repetir — essa tradição ainda hoje vive e é afirmada pelo ensinamento oficial da Santa Igreja.

Eis, porém, que no séc. XVI, após outros pretensos reformadores menos importantes, Lutero tomou como base de uma nova forma de Cristianismo o princípio de que a Bíblia é fonte de doutrina, fonte capaz de se explicar a si mesma sem as luzes do magistério da Igreja. Com isto, o «Reformador» esperava conseguir um Cristianismo preservado de qualquer possível corrupção humana: Lutero julgava que a Igreja e as gerações de cristãos anteriores haviam errado decisivamente e que lhe cabia o privilégio de «redescobrir» o Evangelho.

Como se podia prever, porém, este parecer comprovou-se ilusório.
E como ?

Entende-se que, se Lutero atribuía a si o direito de se emancipar do magistério da Igreja para se tornar novo «mestre», muitos discípulos seus, nos séculos subsequentes, se julgaram habilitados a fazer outro tanto em relação ao «Reformador», de sorte que novos «Luteros» ou novos «Reformadores»— Reformadores da própria Religião reformada — foram surgindo (Wesley, Smith, Helen White…); assim o processo de reformar o Cristianismo se foi ramificando e ampliando em ritmo crescente até nossos dias, quando chega a haver mais de oitocentas seitas, sem que se possa prever o termo final do afã de «redescobrir» o Evangelho. A causa dessa multiplicação de reformas e seitas é, antes do mais, a renegação de um magistério visível, instituído por Deus e independente do senso subjetivo dos «videntes» (que não podem deixar de surgir na história dos séculos).
Em consequência, percebe-se claramente o dilema:

a) ou o cristão aceita a Escritura Sagrada com a Revelação oral que a antecedeu e a acompanha e sem a qual a Escritura não pode ser mantida acima dos subjetivismos humanos,

b) ou o cristão, consciente ou inconscientemente, chega a renegar o Cristianismo inteiro, guardando apenas palavras e rótulos que só encobrem as concepções individualistas e mais ou menos contraditórias de tais ou tais «videntes».

Basta lembrar que foi justamente das escolas protestantes que procederam os exegetas liberais modernos, os quais mutilaram a Escritura Sagrada e chegaram a negar a Divindade de Cristo.

1.2. A esta altura, porém, talvez diga alguém: «Então requer-se fé, e fé na face humana da Igreja, para abraçar o Cristianismo !»

– Não há dúvida alguma responde o fiel católico. «O justo vive da fé», afirma o Apóstolo três vezes (cf. Gál 3,11; Rom 1,17; Hebr 10,38), repetindo palavras do profeta Habacuque (cf. Hab 2,4). A fé é a artéria central da vida cristã.
— Mas… fé não somente em Deus? Fé também na Igreja visível ?

— Sim. Note-se que o mistério donde o Cristianismo deriva seu nome, é o mistério de Cristo ou o mistério de Deus feito homem; Deus se dignou falar aos homens na plenitude dos tempos — assim como já antes, no Antigo Testamento — por meio de sinais humanos, ou seja, de maneira objetiva, perceptível a todos; é bem lógico, por conseguinte, que também após a vinda de Cristo o Todo-Poderoso não queira ser atingido senão através dessa realidade divino-humana que é o Cristo prolongado em seu Corpo Místico ou a Igreja Esta enquanto Cristo nela vive, é uma sociedade sobrenatural infalível; enquanto, porém, é representada por homens e tem uma face humana (o mistério da Encarnação consistiu justamente em colocar o Divino dentro do humano), é marcada pelas deficiências inerentes aos homens; essas deficiências porem, não contaminam em absoluto sua pureza intrínseca nem impedem que a Igreja, por seus ministros, comunique aos homens a multiforme graça de Deus (como a carne de Cristo padecente e mortal não foi empecilho, mas, ao contrário fator positivo, para que Deus se entregasse ao gênero humano).

De resto, o Senhor não exige que a fé prestada à Igreja seja uma fé cega. A todo homem toca o direito de examinar as credenciais da Santa Igreja Católica, antes de professar adesão a esta ; fazendo isto, o estudioso verifica que o próprio Cristo nos Evangelhos dotou a Igreja de um magistério infalível (cf. Mt 16,17-19 ; 28,19s ; Lc 22,31s) ; verifica outrossim que a existência deste magistério é comprovada pela história dos fatos, pois, sempre que os homens quiseram denegar fé à face humana e visível da Igreja, para tributá-la apenas a Cristo e aos Evangelhos, nem sequer guardaram fé no Cristo e nos Evangelhos, mas retorceram de diversos modos a mensagem cristã.

Mais amplas considerações sobre o magistério da Igreja se encontram em «P. R.» 13/1959, qu. 2; 14/1959, qu. 2 e 3.

2. Breve reflexão sobre a divisão entre cristãos

2.1. A história dá a ver que na origem das divisões entre os discípulos de Cristo estão geralmente alguns fatores clássicos, que se poderiam assim discriminar: em determinada época, um cristão julga que seus irmãos na fé, até mesmo os que mais autoridade possuem, estão errando por seu gênero de vida e pelo seu modo de entenderem a mensagem de Cristo. Tal cristão então, inspirado por grande fervor, concebe um Cristianismo reformado, puro, que ele pretende justificar mediante proposições do Evangelho. Esse homem bem intencionado, porém, deixa-se empolgar ou obcecar por seu ideal; aos poucos coloca a sua intuição acima de qualquer exigência da caridade; deixa que o espírito de crítica nele prepondere sobre o amor ao próximo; com isto corrói mais do que conserta ; por fim sequestra-se da massa dos «pecadores cristãos», levando consigo um grupo de discípulos, com os quais passa a constituir uma «igrejinha» ou uma seita própria… É isto, sim, o que acontece quando o homem se guia pela razão sem atender ao coração ou quando a inteligência gera uma espécie de intelectualismo frio, unilateral; desencadeia-se então a ruptura e forma-se um novo credo entre os cristãos. Jacques Maritain diz muito acertadamente : «Se, em vez de ficar no coração, a pureza sobe à cabeça, ela produz sectários e hereges» (Humanisme intégral 265).

Não há dúvida, na origem dos cismas sucessivamente verificados entre os cristãos no decorrer dos séculos, encontra-se um núcleo de verdade ou uma intuição sadia. O mal, porém, consistiu em que esta absorveu a atenção dos respectivos «iluminados», a ponto de fazer fermentar os ânimos e violar as exigências da caridade, a qual é prudente e paciente.
São palavras do Sto. Padre o Papa Pio XI:

«Todas as vezes que o zelo reformador… se tornou expressão e explosão da paixão, turvou em lugar de esclarecer, destruiu em vez de construir, e mais de uma vez veio a ser o ponto de partida para aberrações mais fatais do que os males que se pretendiam sanear» (ene. «Mit brennender Sorge», 14 de março de 1937. Acta Apostolicae Sedis 1937, pág. 154).

Para o cristão, não pode haver autêntica renovação senão em comunhão com o todo ou com o grande Corpo da Igreja ; os verdadeiros místicos ou iluminados (como S. Francisco de Assis, S. Domingos, S. João da Cruz, Sta. Teresa de Jesus…) conseguiram sempre resultados estupendos de reavivamento cristão, mostrando-se humildes e guardando reverência para com as autoridades da Igreja (estas, em última análise, são instituídas por Deus e, ainda que não sejam sempre pessoalmente santas, não deixam de ser instrumentos manejados pelo Senhor e portadores da respectiva graça de estado).

Em poucas palavras, a mentalidade que o reformador cismático nutre em seu íntimo se poderia assim traduzir: «A Igreja errou; eu, porém, não estou errando ; prevaleça, por conseguinte, meu ponto de vista, ainda que eu tenha que romper com a comunidade». Ora tal mentalidade já é afoita e perigosa no plano das instituições humanas ; em se tratando, porém, das coisas de Deus, é mortal, pois nada há de tão alheio às obras de Deus quanto a divisão e a ruptura entre os homens.

Ainda se poderia lembrar que, além de divergências propriamente religiosas, certas diferenças de índole nacional ou política têm motivado, às vezes sorrateira e inconscientemente, a separação entre os cristãos. Mais de uma tentativa de refazer, no decurso da história, a unidade entre os dissidentes e a Santa Igreja foi entravada pela intervenção de fatores não teológicos, mas nacionalistas e mesquinhos.

2.2. É sobre este fundo de idéias que, mais oportuna do que nunca, ressoa a norma recentemente formulada por S. S. o Papa João XXIII ao tratar da planejada união entre os cristãos:

«Haja unidade nas coisas essenciais, liberdade nas coisas acidentais, e caridade em todas as coisas» (ene. «Ad Petri Cathedram», 29 de junho de 1959).

Este principio, entre outras coisas, quer dizer o seguinte: o discípulo de Cristo não pode pactuar com o erro nem aceitar a mínima corrupção da verdade entregue pelo Senhor aos Apóstolos e ininterruptamente transmitida, sob a assistência do Espírito Santo, de geração a geração até hoje. Antes morrer do que desvirtuar de algum modo a mensagem da autêntica Tradição cristã. Contudo, embora não possa legitimar o erro, o católico tem que amar o homem que erra; Cristo morreu por todos os indivíduos humanos, mesmo pelos que hoje consciente ou inconscientemente não são fiéis à mensagem do Evangelho ; o verdadeiro seguidor de Cristo, prolongando o amor do Divino Mestre, deverá consequentemente querer bem a todos os homens, ainda que causem graves danos à Verdade e ao Bem. «Ódio ao pecado, mas amor à pessoa do pecador», diria S. Agostinho; destruamos, portanto, o erro, mas procuremos a todo transe salvar o homem que erra.

Donde se vê quão injustificadas são as querelas religiosas, principalmente quando acarretam incriminações pessoais, com detrimento geralmente grave para a caridade; não se pode dizer que tais litígios sejam sustentados em nome do Evangelho ou por amor genuíno ao Senhor Jesus; em verdade, não são mais do que expansões da paixão, que, em hipótese nenhuma, poderiam agradar a Cristo e construir o Reino de Deus. O sincero amigo do Divino Mestre, ao defender a Verdade, mostrar-se-á também amigo do seu contendente…

* Ideologia do gênero: Na Suécia, quem engravida não são “mulheres”, mas “pessoas”.

quinta-feira, fevereiro 21st, 2013

O governo progressista e “esclarecido “da Suécia decretou por lei que já não existem mulheres grávidas no país. Em vez de mulheres grávidas, o governo sueco decidiu por decreto-lei que irão passar a haver apenas “pessoas grávidas”.

A razão desta mudança ontológica, progressista, moderna e revolucionária, prende-se com o fato insofismável e verificado cientificamente, segundo o qual uma mulher pode agora mudar de sexo sem fazer qualquer intervenção cirúrgica a nível da genitália.

A ciência política sueca, altamente sofisticada e elaborada, demonstrou empiricamente que uma mulher pode passar a ser homem apenas “porque quer ser homem”. Assim, segundo a avançada ciência política sueca, basta que uma mulher diga o seguinte:“Eu quero ser homem!” — e passa automaticamente a ser homem.

A genialidade desta verificação científica da ciência política sueca deriva da sua semelhança com o Ovo de Colombo: nunca ninguém tinha pensado nela. A ciência política sueca verificou e demonstrou empiricamente que uma mulher pode ser homem apenas dependendo da sua vontade.

Fonte: original em Sueco, use tradutor google
http://rod.se/steriliseringskravet-lyfts…%A5n-lagen

* A verdade: “Não somos nós a possuí-la, é ela quem nos possui!”

quarta-feira, fevereiro 20th, 2013

“A Igreja do amor é também a Igreja da verdade”!!

Desde o início do seu pontificado, Bento XVI pôs em relevo a centralidade do testemunho da verdade evangélica. Um desafio que, na verdade, poderíamos dizer que está no “DNA” do cristão Joseph Ratzinger que, em 1977, para o seu lema episcopal, escolheu a fórmula “Cooperatores Veritatis”, (”Colaboradores da Verdade”), extraída de uma passagem da terceira Carta de São João.

“Quantos ventos de doutrina conhecemos nestas últimas décadas, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensamento!” Nós, contudo, “temos uma outra medida: o Filho de Deus”, que “nos dá o critério para discernir entre o verdadeiro e o falso, entre engano e verdade“.

Quando Joseph Ratzinger pronuncia estas palavras a 18 de Abril de 2005, ainda é “apenas” o decano do Colégio Cardinalício. Mas, neste momento, é fácil ver que naquela homilia sobre a “ditadura do relativismo” o futuro Pontífice indicava já à Igreja um dos desafios mais urgentes dos nossos tempos. No fundo e sempre: testemunhar a verdade.

Mas o que é a verdade, ou melhor,quem é a verdade para Bento XVI, e – podemos possuí-la?

“É claro que não somos nós que possuímos a verdade, mas é ela a possuir-nos: Cristo que é a verdade, pegou-nos pela mão, e no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento sabemos que a sua mão nos segura firmemente. Ser sustentados pela mão de Cristo torna-nos livres e seguros ao mesmo tempo”. (Discurso à Cúria Romana, 21 de Dezembro de 2012)

Portanto, a verdade é uma Pessoa, Jesus Cristo. Por outro lado, observa Bento XVI na sua primeira Encíclica “Deus caritas est”, no início do Cristianismo “não está uma decisão ética ou uma grande ideia”, mas sim, precisamente “o encontro” com esta Pessoa. Quanto mais autêntico for este encontro, adverte o Papa, tanto mais somos chamados a aceitar sacrifícios e perseguições: “Quem participa na missão de Cristo deve inevitavelmente enfrentar tribulações, contrastes e sofrimentos, porque entra em conflito com as resistências e os poderes deste mundo”. (Audiência para as Pontifícias Obras Missionárias, 21 de Maio de 2010)

Mas a verdade, não se cansa de afirmar Bento XVI, não está separada da caridade. Ao mesmo tempo, explica na Caritas in veritate, “sem verdade, a caridade degenera no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, a preencher arbitrariamente”. E’, adverte, “o risco fatal do amor numa cultura sem verdade”. Eis, então, que a fé, bem longe de ser um obstáculo, se torna a luz que ilumina o caminho para a verdade:

“Diante de tal atitude que tende a substituir a verdade com o consenso, frágil e facilmente manipulável, a fé cristã oferece, pelo contrário, uma contribuição real também no âmbito ético-filosófico, não fornecendo soluções pré-constituídas para problemas concretos, como a investigação e experimentação biomédica, mas propondo perspectivas morais fiáveis dentro das quais a razão humana pode investigar e encontrar soluções válidas.” (Audiência à Congregação para a Doutrina da Fé, 15 de Janeiro de 2010).

* Pode ser verdade que não exista nenhuma verdade? Reflexões sobre o ateísmo e o relativismo.

quinta-feira, janeiro 31st, 2013


Por Pe. Anderson Alves

Em um texto anterior[i], nos perguntávamos se fosse possível conciliar o relativismo e o ateísmo. E víamos que, segundo três famosos ateus (Nietzsche, Adorno e Horkheimer) o ateísmo, ao negar a origem do conhecimento e ao tomar como verdade a inexistência de Deus, cai numa contradição insuperável[ii].

De fato, quem nega a existência da verdade, não poderia coerentemente afirmar que Deus não existe. Entretanto, sabemos que há quem se esforce muito por conciliar relativismo e ateísmo, colocando um ateísmo indiscutível e dogmático como fundamento do relativismo e construindo um sistema de pensamento no qual se parte da negação de Deus e, a partir dessa verdade quase “divina”, afirma-se um relativismo moral e cognitivo radical.

Um pensador que colocou em íntima relação o ateísmo com o tema da verdade foi F. Nietzsche, autor que se considerava «ateu por instinto». De fato, seu ateísmo voluntarista tinha como consequência a afirmação de um forte relativismo e a verdade era considerada como «um exército de metáforas, metonímias», «ilusões das quais se esqueceu a sua natureza ilusória», «moedas nas quais as imagens foram consumidas»[iii]. Em outro texto famoso, ele fazia uma interessante observação: «receio que não possamos nunca afastar-nos de Deus porque ainda acreditamos na Gramática»[iv]. Desse modo, o ateísmo radical deveria conduzir a uma sociedade sem ciências, sem explicações últimas, na qual o homem só seria capaz de conhecer seus próprios estados de ânimo. Porém, tudo isso parte de uma afirmação com valor de verdade absoluta: «Deus morreu, Deus continua morto, nós o matamos»[v]. O “teomicídio” seria, pois, o ato supremo de uma vontade que busca uma autonomia absoluta, e não de uma demonstração racional. E aquele gesto traria consigo um relativismo radical, mas não certamente absoluto.

É certo que hoje muitos pensam que o relativismo seja o fundamento do ateísmo, mas isso se deve a um modo superficial de examinar o problema. Se o relativismo é total, se não há nenhuma verdade, jamais pode ser verdade que Deus não exista. De modo que, surpreendentemente, o ateísmo mesmo coloca limites ao relativismo. Em outras palavras, pode existir um ateísmo relativista, ou seja, um ateísmo a partir do qual se deduz o relativismo, mas não um relativismo ateu.

Então, é impossível um relativismo absoluto? Coloquemos de outro modo a questão: pode ser verdade que não existe nenhuma verdade? Só há duas respostas possíveis: “sim, é verdade que não existe nenhuma verdade”. Ora, quem diz isso, assume, talvez inconscientemente, que há alguma verdade; e se alguém disser “não, não pode ser verdade que não exista a verdade”, certamente estaria usando melhor a sua razão e teria encontrado a resposta lógica. De modo que, com uma resposta ou outra, a conclusão é sempre a mesma: não pode existir um “relativismo absoluto”, a verdade sempre faz parte do nosso pensamento e discurso.

A consequência disso é, que por incrível que pareça, o relativismo só pode ser relativo, uma vez que só pode ser parcial. Isso porque é sempre necessário aceitar que há alguma verdade, que algo pode ser conhecido. Certo tipo de relativismo pode ser aceito para as opiniões, que são afirmações de algo pouco fundamentado, de modo quando se opina se há receio de que a afirmação contrária seja a verdadeira. Mas nem tudo na nossa comunicação é simples opinião.

Aristóteles dizia que como a verdade é uma realidade primeira do nosso pensamento, quem nega a verdade, afirma a verdade. Ou seja, quem nega que ela exista, sabe já o que ela seja e supõe que é verdade a sua não existência, o que é uma contradição em termos. Outro modo de fugir ao compromisso com a verdade seria assumir a posição cética, ou seja, aquela postura de certos pensadores que dizem não ser possível nem afirmar, nem negar a verdade. Quem assume essa posição, certamente se livra da linguagem e da “Gramática”, mas isso traz consigo uma consequência nefasta: não negar nem afirmar algo, faz o ser humano se tornar semelhante a uma planta, com quem não é educado discutir.

O relativismo só pode, pois, ser relativo, ou seja, só pode ser aplicado a algumas afirmações e nunca a todas. A verdade não pode jamais ser excluída da vida e da linguagem humana, a menos que alguém se conforme em viver como uma planta. F. Nietzsche só pôde dizer que a verdade é «um exército de metáforas», uma «ilusão», uma moeda sem valor porque sabia perfeitamente o que é uma metáfora, uma ilusão, uma moeda com valor. Negar a verdade implica sempre aceitar a verdade, assim como negar Deus implica pressupor a sua existência.

Então, temos que colocar agora a incômoda questão: afinal de contas, o que é a verdade? Platão dizia que «verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são, falso o que diz como as coisas não são»[vi]. E Aristóteles afirmou algo tão simples quanto essencial: «Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é a verdade»[vii]. A verdade se dá quando o nosso discurso expressa o que as coisas realmente são.

Em que sentido então pode ser aceito o relativismo? Já iniciamos aqui a resposta, mas a aprofundaremos numa outra ocasião. O que importa agora é deixar clara a conclusão a que chegamos: o relativismo não pode ser absoluto, só pode ser, por incrível que pareça, relativo.

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.
[i] Cfr. http://beta.zenit.org/pt/articles/o-ateismo-e-uma-escolha-racional

[ii] M. HORKHEIMER e Th.ADORNO, Dialettica dell’illuminismo, Einaudi, Torino 1966, p. 125: «Percebemos “que também os não conhecedores de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, alimentamos ainda o nosso fogo no incêndio de uma fé antiga dois milênios, aquela fé cristã que era já a fé de Platão: ser Deus a verdade e a verdade divina”. Sendo assim, a ciência cai na crítica feita à metafísica. A negação de Deus implica em si uma contradição insuperável, enquanto nega o saber mesmo».
[iii] Cfr. F. NIETZSCHE, Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, ed. Hedra, São Paulo 2007.
[iv] Cfr. IdemCrepúsculo dos Ídolos, ed. Companhia das Letras, São Paulo 2006.
[v] IdemA Gaia ciência, ed. Hemus, Curitiba 2002, p. 134.
[vi] PLATÃO, Crátilo 385 b; cfr. também Sofista, 262 e
[vii] ARISTÓTELES, Metafísica, IV, 7, 1011 b 26 e segs.

* Igreja católica cresce nos países nórdicos – conhecidos pelo seu secularismo e protestantismo liberal.

sábado, janeiro 26th, 2013

Revista católica inglesa The Tablet

Os países que compõem a Escandinávia estão entre os mais seculares do mundo. No entanto, a partir de pequenos começos, a Igreja Católica está se expandindo e experimentando um aumento constante de vocações, estimulado pela relativa liberdade para expressar seus pontos de vista.

Quando a Conferência dos Bispos Nórdicos se encontrou na Islândia em setembro passado, observou-se uma tendência nova e estimulante. A Igreja Católica está crescendo na Escandinávia e está mostrando sinais de vitalidade de várias maneiras, sendo uma delas o crescente número de vocações, tanto ao sacerdócio secular, quanto às ordens religiosas.

Um mês depois, no Sínodo dos Bispos, em Roma, o Papa Bento XVI mencionou a Noruega entre os países onde a Igreja está experimentando uma renovação. Ele concluiu: “Vemos hoje, onde ninguém esperaria, como o Senhor está presente e é poderoso, e como ele continua sendo eficaz através do nosso trabalho e da nossa reflexão”.

Atualmente, dos cerca de 282 mil católicos registrados nos países escandinavos, há 31 candidatos se preparando para o sacerdócio. Olhando para trás ao longo dos últimos 15 anos, isso indica um crescimento pequeno e constante – embora não impressionante – de vocações e da população católica. Em proporção ao número total de católicos, os países escandinavos têm mais seminaristas e pessoas nos primeiros estágios da vida consagrada do que muitas outras regiões da Europa. A Arquidiocese de Viena, na Áustria, por exemplo, tem 30 seminaristas de um total de 1,3 milhão de católicos.

A Conferência dos Bispos Nórdicos fornece as seguintes estatísticas:

- A Suécia tem nove seminaristas em formação para o sacerdócio secular e oito se preparando para a ordenação em ordens religiosas de um total de 103.500 católicos (de uma população de quase 9,5 milhões).

- A Noruega tem nove seminaristas de um total de 115.600 católicos (população: 4,9 milhões).

- A Dinamarca tem dois seminaristas de um total de 40.400 católicos (população: quase 5,6 milhões).

- A Finlândia tem dois seminaristas de um total de 11.900 católicos (população: 5.4 milhões).

- A Islândia tem um seminarista de um total de 10.500 católicos (população: 319 mil).

Além disso, o Neocatecumenato tem 18 candidatos em formação na Dinamarca e 15 na Finlândia. Em termos de vocações para as congregações femininas, parece que as irmãs contemplativas estão se saindo melhor do que as irmãs de ordens apostólicas, embora não haja estatísticas disponíveis.

Como esses números encorajadores podem ser explicados?

A análise impressionista a seguir se baseia em entrevistas informais, assim como em minhas próprias reflexões. Ela não é de modo algum um abrangente estudo sociológico.

O amor por Jesus Cristo e o sentimento de um chamado constituem uma motivação absolutamente central para os candidatos, vários dos quais foram recebidos na Igreja Católica já adultos.

Matteus Collvin, um dos seminaristas suecos, aponta que a intensa busca de Deus durante um processo de conversão eclesial pode se assemelhar ou conduzir a uma exploração igualmente completa do caminho pessoal de serviço.

O fato de a religião hoje fazer parte da esfera pública, enquanto ela era quase um tabu há apenas duas décadas, facilita a busca, de acordo com Collvin. Mesmo que o catolicismo e o sacerdócio católico ainda sejam percebidos como algo muito estranho pela sociedade em geral, os candidatos sentem que o crescente interesse pela religião (incluindo por suas formas não tradicionais) faz com que o seu modo de vida seja suficientemente aceito.

O bispo da diocese católica de Estocolmo, Anders Arborelius, diz que os candidatos se instalaram bem e se sentem em casa tanto na cultura católica, quanto na cultura sueca tradicional, que está se tornando mais pluralista. Alguns candidatos têm um progenitor sueco nativo e outro que é imigrante católico. Essa mistura forma alguém que discerne e se torna criticamente leal à Igreja, assim como aos valores e aos costumes da sociedade civil.

Em algumas questões e valores éticos, no entanto, o catolicismo e o pensamento geral são inconciliáveis. Mas sentir-se familiarizados com ambos torna os candidatos capazes de navegar as águas morais, mesmo que nem sempre sejam capazes de desfazer a tensão.

Dom Arborelius também sugere que a Igreja Católica na Escandinávia tem a vantagem de estar menos entrelaçada com os sentimentos e as estruturas nacionais, em comparação, por exemplo, com a Igreja em Flandres ou no País Basco. Os católicos praticantes são estimulados pelo desafio missionário de ser uma comunidade minoritária, que não esteve em uma posição dominante no passado.

Ao contrário da Igreja Luterana na Escandinávia, a Igreja Católica não faz parte do sistema dominante na sociedade. Apesar de uma separação oficial entre Igreja e Estado, o controle e a influência política sobre as Igrejas luteranas ainda é ativo sob muitas formas. A Igreja Católica, ao contrário, é menos dependente e parece mais livre para manifestar os seus pontos de vista, independentemente da opinião pública.

Uma série de iniciativas promissoras foram tomadas na Escandinávia nos últimos anos, que desenvolveram a comunidade católica em geral e promoveram vocações em particular. Três delas se destacam. A irmã Marie Ronnegård, do Convento de São Domingos, em Rögle, no sul da Suécia, está impressionada com a rede de católicos jovens e comprometidos na Noruega. O trabalho com jovens noruegueses foi construído sobre bases lançadas pelas gerações passadas. Autores como Sigrid Undset e várias personalidades carismáticas franciscanas e dominicanas deram ao catolicismo um rosto atraente. Grandes grupos de acólitos são cuidadosamente formados, e o clero é altamente profissional no encorajamento que oferece aos possíveis candidatos ao sacerdócio.

Em segundo lugar, na região de Gotemburgo, na Suécia, os franciscanos e várias pessoas da paróquia principal da cidade também trabalham extensivamente com a geração jovem.

Em terceiro lugar, em 2010, houve a inauguração do Newman Institute, em Uppsala, a primeira universidade católica na Suécia desde a Reforma. Administrada pela Companhia de Jesus, ela oferece cursos de filosofia, teologia e estudos culturais. Sua graduação em teologia é credenciada pelo Estado, e um pedido de reconhecimento da graduação em filosofia acaba de ser enviado à Autoridade Sueca de Ensino Superior.

O seminário da diocese católica de Estocolmo ocupa uma nova ala do Newman Institute. Embora a formação sacerdotal costumava ocorrer predominantemente em Roma, a Igreja Católica da Suécia se beneficia agora de um seminário local. Os seminaristas frequentam os cursos do Newman Institute, juntamente com leigos de toda aEscandinávia, cerca de 60% deles através do ensino à distância.

Como a comunidade católica é pequena, surgiu um tipo de rede familiar. A Igreja Católica como organização é – talvez surpreendentemente – horizontal, ao invés, o que reflete a cultura de gestão escandinava geral, como descrita nos livros Moments of Truth (ou, traduzido literalmente, Chore pelas Pirâmides!), de Jan Carlzon, o inspirador ex-presidente das Linhas Aéreas Escandinavas. Os bispos geralmente conhecem os fiéis pelo nome, e, embora os títulos sejam usados, a conversa rapidamente se desloca para o mais familiar pronome da segunda pessoa.

Outro elemento que promove as vocações é o fato de que os católicos praticantes dos países nórdicos em geral falam favoravelmente sobre o sacerdócio e a Igreja Católica. Eles se identificam fácil e naturalmente com o catolicismo. Há uma atmosfera de otimismo sem negar, contudo, os problemas existentes e a necessidade de melhorias. Aqueles que pensam em uma possível vocação podem se motivar por representar uma comunidade católica com a qual outros católicos podem desejar se associar. Padres, irmãs e irmãos provavelmente são respeitados, embora não sejam nem excessivamente venerados, nem irremediavelmente desrespeitados.

A Ir. Marie Ronnegård, do Convento de São Domingos, lembra que, quando ela frequentava a escola secundária nos anos 1980, os alunos eram premiados com notas altas por desconstruir e criticar um assunto. Em sua opinião, esse ato de rasgar as coisas levou a uma atitude cínica, ao invés. Ao contrário, o ensino católico oferece uma visão de mundo coerente e mais significativa, embora permita ainda tanto a reflexão crítica quanto o debate. Para quem vem da tradição dominicana, isso só pode ser visto como encorajador.

Mais em geral, a prioresa do Convento de São Domingos, Ir. Sofie Hamring, afirma que todas as explicações sociológicas são secundárias ao amor essencial por Jesus Cristo. O Espírito Santo está agindo. Não obstante seu foco em aspectos teológicos, a Ir. Sofie defende que a Suécia tem estado na vanguarda em termos do questionamento de valores morais, mas não necessariamente sempre para melhor.

Nas últimas décadas, a Suécia assumiu a liderança no liberalismo, e as pessoas têm podido experimentar quase tudo, sem limites ou fronteiras. O que estamos experimentando agora é uma contrarreação a esse liberalismo, uma reação que pode vir à tona em outros países também.

* Pecados “modernos”? Pesquisa revela nomes e situações diferentes para os MESMOS e velhos pecados.

quinta-feira, janeiro 24th, 2013

Fonte Gospel Prime

O catolicismo reconhece os sete pecados “capitais”: inveja, gula, ira, soberba, luxúria, avareza e preguiça.

Os tempos mudaram…um novo estudo do Instituto Barna examinou quais as tentações as pessoas parecem enfrentar mais comumente e como conseguem lidar com essas “iscas” morais e éticas.  A pesquisa foi realizada em conjunto com um projeto de livro de Todd Hunter (Evangélico) chamado “Nossos Pecados Favoritos”.

Curiosamente, parece que a tecnologia tem gerado uma nova categoria de pecados. A pesquisa mostra quase metade dos entrevistados (44%) dizem que são tentados a gastar muito tempo com isso, incluindo vídeo games, internet, televisão e vídeo. Outra “nova” tentação relacionada à mídia é expressar raiva ou “detonar” alguém por mensagem de texto ou e-mail. Em geral, uma em cada nove pessoas (11%) diz que se sente tentado a fazer isso às vezes ou frequentemente.

Embora os pecados sexuais não sejam novos, ver pornografia online continua a crescer e assumir um papel de destaque. Cerca de um em cada cinco entrevistados (18%) diz que são tentados seguidamente a ver pornografia ou conteúdo sexual na internet. Os homens (28%)  confessam sentirem-se mais tentados a ver pornografia que as mulheres (8%).

Não é de estranhar que os mais jovens, que nasceram em um mundo mais voltado à tecnologia, são mais propensos que a média a lidarem com essas tentações modernas. Mais da metade dos entrevistados com menos de 20 anos (53%) dizem que ser fortemente tentados a passar tempo demais online e um quarto (25%) diz sentir vontade de usar a tecnologia para expressar sua raiva contra as outras pessoas.

Pecados mais antigos como “comer muito” (gula) continua sendo um dos primeiros nas listas de tentações (55%). Já a conduta sexual imprópria é admitida por menos de um em cada dez pessoas (9%). Como era de se esperar, as pessoas mais velhas tem menos problemas com tentações relacionadas ao sexo (3%).

Por outro lado, cerca de um terço dos entrevistados admitem que gastam mais do que deviam  (35%), um em cada quatro (26%), diz que fazer fofoca ou dizer coisas negativas sobre os outros é uma tentação comum. Inveja ou ciúme (24%) ainda é um pecado mais corriqueiro que  mentir ou trapacear (12%) e logo após vem a tentação a usar álcool ou drogas (11%).

Enquanto as pessoas que viveram séculos atrás não considerariam a procrastinação e a ansiedade como atitudes pecaminosas, essas parecem ser as tentações que as pessoas estão mais propensas a admitir.

Três em cada cinco (60%) dizem que são tentados a se preocupar ou ficar ansiosos o tempo todo. O mesmo número diz que procrastinação é um grave tentação para eles. Na mesma linha, 41% admitem que são tentados a ser preguiçosos e não se dedicar tanto ao trabalho quanto deveriam.  Curiosamente, nas tentações relacionadas com o trabalho, os evangélicos são mais propensos que os católicos a vê-las assim (57% dos protestantes acreditam que a procrastinação é uma tentação e 40% admitem ser preguiçosos os números de católicos são, respectivamente, 51% e 28%)

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David Kinnaman, presidente do Grupo Barna, foi um dos lideres do estudo e fez uma breve análise dos resultados, destacando quatro pontos:

* Primeiro, o conceito de moralidade está passando por uma mudança. Um exemplo disso é a forma como a tentação “virtual” cresceu. Para os líderes religiosos, essa mudança reforça a importância da inclusão de tecnologia como parte de uma discussão mais ampla sobre a espiritualidade e mordomia do tempo.

* Segundo, os mais jovens parecem ter uma perspectiva moral distinta quando comparada com as gerações mais velhas. Aparentemente, eles não veem a tentação como algo a ser evitado, mas sim uma característica da vida moderna.

* Terceiro, problemas no trabalho está no topo da lista de tentações atualmente. Prova disso é que os entrevistados parecem mais preocupados com a procrastinação e produtividade, reforçando os conceitos de preguiça e inveja como “pecados capitais”.

* Por fim, apenas 1% das pessoas são capazes de perceber que ceder à tentação é, de fato, um pecado. A maioria dos entrevistados parecem ver a tentação mais como um fluxo constante de altos e baixos que as pessoas precisam lidar. Isso revela uma longa distância entre os conceitos de pecado e de santidade e o pensamento moderno.

* Poderia ser verdade que não haja nenhuma verdade e, ao mesmo tempo, ser verdade que Deus não existe?

quarta-feira, janeiro 23rd, 2013


Pe. Anderson Alves

A pergunta que colocamos aqui deve ser bem entendida: não perguntamos se os ateus são racionais, coisa que seria absurda; nem mesmo perguntamos se os ateus são inferiores aos teístas, ou se a crença em Deus “não necessariamente torna uma pessoa melhor”, como apareceu numa recente pesquisa no Brasil[1].

O que questionamos agora é se o ateísmo, enquanto sistema de pensamento seja coerente. Mais precisamente, nos perguntamos se é sensato afirmar a não existência de Deus e contemporaneamente o relativismo. Poderia ser verdade que não haja nenhuma verdade e, ao mesmo tempo, ser verdade que Deus não existe?

Talvez haja quem pense que a questão aqui proposta seja absurda. E pode vir à mente do leitor a recordação do jovem Ivan, personagem de Irmãos Karamázov, que defendia que se Deus e as religiões não existissem, tudo passaria a estar permitido. Aquele personagem manifestava assim o desejo de uma liberação: ao livrar-se da crença em Deus, o homem ficaria livre de todo dogmatismo, tanto teórico, quanto moral. A negação de Deus traria o fim da “lei natural” e do dever de amar o mundo e ao próximo.

A mesma liberação quis experimentar F. Nietzsche ao declarar a morte de Deus, ou melhor, ao dizer que os homens o haviam assassinado. De modo que para eles a negação ou “morte” de Deus não estaria fundamentada no relativismo, mas seria a origem mesma do relativismo. A afirmação da não existência de Deus seria uma escolha, algo indiscutível e impossível de ser demonstrado a partir de verdades anteriores. E aceitá-lo seria assumir a crença num novo dogma que faria desmoronar todos os demais dogmas. O ateísmo fundaria assim o relativismo na moral e no conhecimento humano.

Embora isso seja claro, é comum pensar que o relativismo funde o ateísmo; que as pessoas que não aceitam Deus, fazem-no porque não querem aceitar a existência da verdade, à qual deveriam se submeter. Isso é um absurdo. O ateísmo parte de uma afirmação que tem valor de verdade absoluta: Deus não existe. Se essa afirmação não fosse tomada pelos ateus como verdade, eles simplesmente deixariam de ser ateus. O relativismo para eles se dá somente nas “verdades” inferiores e todos deveriam se submeter ao imperativo único da nova moral: é proibido estabelecer regras morais.

O interessante é que F. Nietzsche e outros conhecidos filósofos ateus reconheceram que afirmar o relativismo cognoscitivo e o ateísmo é em si mesmo contraditório. O motivo seria que o relativismo implica a afirmação da não existência de verdades absolutas; mas isso se funda, por sua vez, numa verdade absoluta: a não existência de Deus.

Sendo assim, a afirmação da não existência de Deus implica a afirmação da sua existência. Outros pensadores ateus que perceberam bem as contradições do ateísmo contemporâneo foram M. Horkheimer e Th. Adorno. De fato, eles diziam numa obra conjunta, A Dialética do Iluminismo, citando a Nietzsche: «Percebemos “que também os não conhecedores de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, alimentamos ainda o nosso fogo no incêndio de uma fé antiga dois milênios, aquela fé cristã que era já a fé de Platão: ser Deus a verdade e a verdade divina”. Sendo assim, a ciência cai na crítica feita à metafísica. A negação de Deus implica em si uma contradição insuperável, enquanto nega o saber mesmo»[2].

Esses autores, ateus e relativistas, que se reconhecem como “não conhecedores e antimetafísicos” alimentam a verdade de sua fé ateia naquela cristã, já presente em Platão: a fé na existência da verdade divina. De modo que só pode afirmar a não existência de Deus, quem aceita que há uma verdade absoluta, divina. Em outras palavras, só pode negar a Deus quem previamente o afirma. Por isso, o ateísmo, ao negar a Deus e a verdade das coisas (que é sempre relativa ao sujeito que a conhece e é progressiva), reivindica para si mesmo o caráter absoluto, próprio do mesmo Deus[3], estabelecendo assim um novo dogmatismo. Portanto, o ateísmo não existe; nada mais é do que uma espécie de idolatria que consiste no colocar-se a si mesmo e as próprias convicções pessoais, por mais contraditórias que possam ser, no lugar de Deus, o único que garante toda a verdade.

***

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.


[1] Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/1206138-tendencia-conservadora-e-forte-no-pais-diz-datafolha.shtml

[2] Cfr. F. NIETZSCHE, La gaia scienza, Mondadori, Milano 1971, p. 197; M. HORKHEIMER e Th.ADORNO, Dialettica dell’illuminismo, Einaudi, Torino 1966, p. 125.

[3] Para a elaboração do presente texto me foram úteis as reflexões presentes em: U. GALEAZZI, Il coraggio della ragione. Tommaso d’Aquino e l’odierno dibatitto filosofico, Armando, Roma 2012, pp. 22-38.

A Igreja não é autora da verdade humana, sujeita às revisões de cada tempo, mas depositária da VERDADE revelada por Deus, em Cristo Jesus.
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