Artigo da ‘Sentido’ Categoria

* “Falamos de adultos vivendo como adolescentes mimados”. A civilização, a barbárie e a defesa dos valores.

quinta-feira, janeiro 10th, 2013

Blogueiro Jorge Ferraz

Muito interessante o artigo do Rodrigo Constantino( http://zezoferreira.blogspot.com.br/2013/01/o-estado-de-bem-estar-social-criou-uma.html ) Analisando a maneira como o homem moderno encara o mundo ao seu redor, o articulista sentencia:

Somos os herdeiros de uma geração mimada, que colheu os frutos do árduo trabalho de seus pais, acostumados com vidas mais duras, com guerras, com diversas restrições. Essa geração, principalmente na década de 1960 e 70, pensou que bastava demandar, e todos os seus desejos seriam atendidos, sabe-se lá por quem.

A tese não é nova. Ela já se encontra na clássica obra do filósofo espanhol Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”; curiosamente, o livro foi escrito no final da década de 20 do século passado, mostrando que o fenômeno se encontrava bem delineado já quarenta anos antes do período histórico citado pelo articulista d’O Globo. A análise, não obstante, é precisa. Não creio que tenhamos melhorado muito de lá para cá.

A idéia de que «[o] Estado de bem-estar social criou uma bomba-relógio, mas ninguém quer pagar a fatura» pode parecer catastrofista para alguns, mas esta recusa em aceitar o diagnóstico só reforça a existência da moléstia. Afinal, como diz o Constantino, a crise não é somente econômica, mas também moral; e o desprezo que a sociedade nutre para com os valores que foram fundamentais à sua construção é a característica mais pungente e universal das crises modernas.

Ortega y Gasset não padece das mesmas limitações de espaço que o Constantino na sua coluna de jornal e, portanto, pode se dar ao luxo de ser mais persuasivo. O filósofo espanhol gasta longas páginas para explicar como o homem moderno deixou de se sentir obrigado pelas circunstâncias exteriores – as intempéries da natureza, os conflitos entre os indivíduos e os povos, a penúria e a escassez de recursos, etc. – para se enxergar como um detentor de direitos ilimitados cujo merecimento é pressuposto como se fosse uma lei básica da natureza.

Em uma palavra: estamos falando do fenômeno que produz adultos vivendo como adolescentes mimados, incapazes de fazer as coisas por conta própria e acreditando sinceramente que a tudo têm direito, bastando-lhes bater o pé e exigi-lo a plenos pulmões. Mas o alto grau de civilização ao qual fomos capazes de chegar (e que possibilita, sim, alguns benefícios perfeitamente inimagináveis a civilizações passadas) não se sustenta por si só, muito pelo contrário: exige o trabalho árduo de homens valorosos que possam mantê-lo. E as atuais circunstâncias nas quais vivemos fazem com que homens assim sejam cada vez mais raros: é a própria civilização que, se mal vivida, enseja e produz a barbárie.

Num tal cenário, são em princípio bem-vindas todas as iniciativas que intentem chamar a atenção para os riscos que corremos, por impopulares que sejam. Mas temo que elas caiam na irrelevância exatamente por pintarem um quadro demasiado tétrico, excessivamente indigesto à sensibilidade moderna. Como – a comparação é-me inevitável – o homem d’A República de Platão que, tendo saído da caverna para ver o mundo verdadeiro, é tratado com escárnio e hostilidade ao voltar para os seus e lhes contar que eles não vêm senão sombras. Penso que é necessário tomar o devido cuidado para evitar este tipo de reação: afinal de contas, não nos interessa simplesmente que as gerações futuras reconheçam o acerto de nossas análises, interessa-nos oferecer a nossa contribuição para evitar (ou pelo menos minimizar) as agruras que se anunciam no horizonte.

Muita água rolou por debaixo da ponte nesses últimos oitenta anos, e alguém pode dizer que a realidade, no geral, tem se mostrado muito mais aprazível do que os vaticínios feitos há tantas décadas por um espanhol que morreu antes do nascimento dos Beatles; à parte a Segunda Guerra, a tensão que se lhe seguiu e alguns conflitos menores aqui e acolá, o mundo ainda parece ser um lugar bem habitável e não parece que estejamos caminhando rumo à borda do penhasco. Por quê, então, ressuscitar estas teorias ultrapassadas, que o decurso dos anos já demonstrou falsas e excessivamente pessimistas?

De minha parte, eu penso que aqueles princípios estão corretos, mas tão corretos que as únicas tentativas de desmenti-los se dão no campo da casuística seletiva: “isto ainda não aconteceu”, “as coisas não estão tão ruins assim”, “em tais e quais aspectos estamos melhores do que há vinte anos”, et cetera. E, exatamente por isso, penso que é desejável apresentar o discurso sob uma ótica mais propositiva.

Eu não sei se o mundo vai se transformar num lugar impossível de se viver (e nem muito menos quando isso se dará); mas sei que ele possui incontáveis problemas que poderiam ser resolvidos se as pessoas tivessem um senso moral mais apurado. Eu não sei se os netos pobres seremos nós ou os nossos filhos; mas sei que diversas coisas foram perdidas ao longo das últimas gerações e recuperá-las vai indiscutivelmente nos enriquecer. Eu não sei quais os limites exatos de flexibilidade moral que uma sociedade pode suportar antes de entrar em colapso; mas sei que existem valores, que eles são uma coisa positiva e, portanto, sempre vale a pena – independente das circunstâncias históricas que nos cerquem – defendê-los e os promover.

* As escolhas estão diante de mim, posso sempre RECOMEÇAR!

terça-feira, janeiro 10th, 2012

* Você sabe diferenciar o necessário do supérfluo?

quinta-feira, agosto 11th, 2011

Por acaso vc está buscando alguma oferta? Sente que seu eletrodoméstico já está ultrapassado? Necessita trocar seu celular por um de última geração? Quer comprar o carro do ano? Pois bem, será que já nos perguntamos o que realmente necessitamos para viver?

Façamos uma lista muito sumária de alguns itens realmente indispensáveis para a existência humana. Sobretudo o ar, sem ele será impossível subsistir; depois a alimentação, tanto água quanto comida sólida, o cardápio não entra em questão; e creio que uma habitação simples, composta de quatro paredes e um teto, para abrigar-se das intempéries, assim como algum agasalho será o suficiente, e pronto. Já temos tudo para viver!

Provavelmente esta lista não agradará a maioria das pessoas acostumadas com os meios de comunicação atuais ou com as cômodas formas de locomoção. Mas por que isto? Porque nos habituamos com o consumismo, uma forma de adquirir o que é supérfluo. Compra-se o que não se quer, com o dinheiro que não se tem.

Mas se poderia objetar que não é possível obrigar uma pessoa a comprar o que ela não quer. Em sentido estrito é verdade. No entanto, consegue-se isto através da persuasão publicitária. Por meio de uma boa argumentação pode-se levar um cidadão a tornar-se um cliente efetivo. As qualidades de um produto parecerão “tentadoras”, somadas às “facilidades” de pagamento. Por fim, a compra. E lá vai o freguês convencido de ter feito um bom negócio…

Já possuidor de seu novo aparato, o comprador terá de “degustar” um manual, às vezes bem recheado, para aproveitar todas as possibilidades do novo produto. Porém, quando ainda nem chegou à metade do manual, já saiu outra mercadoria com mais acessórios e mais uma vez começa a corrida para se manter atualizado com a globalização, que também pode ser entendida com o sentido de moda.

Aqui não se pretende demonstrar que as pessoas devam viver como se estivessem na “Idade da Pedra”; pelo contrário, deseja-se apontar como estão os nossos critérios de escolha em relação àquilo que nos rodeia.

Portanto, voltaremos à questão: há coisas “supérfluas” que são realmente necessárias para nossa vida? A resposta é sim, tudo aquilo que é belo e que nos conduza a pensar em algo superior. Por exemplo, um bonito tapete além de amaciar nossos passos, embeleza o ambiente que compõem. E assim, mil outros “supérfluos” são necessários para dar sentido à vida.

Quem vive sem este senso de distinção e elevação, no fundo, sem se reportar a Deus, vive simplesmente para esta terra e esquece-se que foi criado para outra Vida, que é a eterna.

A tendência atual é fazer tudo descartável, pois virão sempre outras coisas “melhores”, para não dizer mais descartáveis. Vai se tornando cada vez mais difícil encontrar pessoas que apresentem, por exemplo, um relógio pertencente ao seu avô, o qual guardam como uma verdadeira relíquia. Na medida em que os produtos se tornam menos valiosos, simbolicamente, a vida também perde seu sentido.

Quando tivermos que escolher uma decoração para a própria casa, devemos buscar, antes de tudo, aqueles objetos que mais facilmente podem nos levar a considerações das realidades futuras, pela sua beleza e simbologia, e que darão à vida o seu verdadeiro sentido.

Por outro lado, vê-se a necessidade de se utilizar de certos aparelhos que facilitarão o trabalho humano, mas estes não podem ser o centro da vida e dos pensamentos. Basta ressaltar o tempo que muitas pessoas dispensam a determinados aparelhos e o tempo em que pensam em Deus durante o dia.

A partir do momento que o estilo de vida “moderno” afasta-nos das considerações acerca de Deus, chegou à hora de rever a própria vida.

Thiago de Oliveira Geraldo

* Redescobrir a capacidade de “maravilhar-se” pode regenerar o homem!

sexta-feira, junho 3rd, 2011

O homem é um todo substancial, harmonioso, constituído de um corpo cuja forma é a alma, e potências: vegetativa, sensitiva e intelectiva, que interatuam. Assim, se alguém, durante um passeio pelo campo, se encontra com um touro furioso, produz-se no organismo uma série de reações em cadeia: a glândula suprarrenal injeta imediatamente adrenalina no sangue, o coração se acelera, os brônquios se dilatam e a respiração também se acelera. A sensação de medo provoca reações fisiológicas que colocam o corpo em um estado correspondente à alma. Existem, pois, os estados físicos de medo, vaidade, coragem e muitos outros.


Entretanto, existe também o estado físico provocado pelo maravilhoso, que produz enorme bem estar e dispõe para o esforço e para a dedicação ao bem. A saúde se beneficia, uma série de indisposições orgânicas entram em ordem e se enfrentam melhor os estados de aflição e angústia. O deleite produzido pelo senso do maravilhoso é insuperável. Uma “experiência do maravilhoso” está ao alcance do homem e, quando bem assimilada, produz no organismo um efeito que poderá ser comparado a alguns medicamentos e antidepressivos. O que não quer dizer que os medicamentos não devam ser utilizados, mas a “maravilho-terapia” poderá favorecer uma recuperação mais rápida e eficaz.

Bosques, campinas, montanhas, as variações do céu diurno e noturno, as auroras e os ocasos, o mar majestoso… são remédios naturais postos por Deus à nossa disposição. Mas não são os únicos; também as obras humanas, as netas de Deus, segundo expressão de Dante.1

Faz parte da arte de bem viver o aproveitar tudo o que possa ser objeto de contemplação. O maravilhoso é o melhor da realidade e aponta para o Absoluto. Os medievais eram especialistas nesta arte e fomentavam com naturalidade a “celestialização” das coisas; tudo o que faziam tendia ao ápice do maravilhoso. Comentava Dr. Plinio Corrêa de Oliveira que “a alma maravilhável é uma alma maravilhosa, capaz de fazer maravilhas”.2

O homem de hoje não perdeu a capacidade de admirar, por mais que a sociedade lhe faça muitos outros convites. É preciso proporcionar-lhe ocasiões para, maravilhando-se, discernir nas coisas aquilo que elas têm de belo, de bom e de verdadeiro, ou sua ausência, e com isto poder voltar-se para o essencial: Deus.

Dom Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, descreve a adesão daquele que deixa “seduzir-se” pela Beleza que salva: “É no interior da evidência objetiva, que se deixa perceber a partir do sujeito com a primeira reação do ‘espanto’ e da ‘admiração’, que se encontra já a força que leva o homem a reconhecê-la como bela e, portanto, boa e verdadeira e por isso mesmo cheia de sentido para ser amada e seguida”.3

Mons. João S. Clá Dias, EP


1 – ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. X vol. Trad. de Pinto de Campos J.; Augusto Falcão C. e Della Ninna A., São Paulo [s. d.]. Vol. II.  Inferno, canto XI, verso 105.

2 – CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A admiração é a nossa estrela de Belém: Pronunciamento. São Paulo, 13 maio 1988.

3 – FISICHELLA, Rino. Introdução à Teologia Fundamental. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2006. p. 142.


* Michael Douglas, ator americano, diz que câncer o fez dar mais valor à família

terça-feira, maio 31st, 2011

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Michael Douglas e Katherine Zeta-Jones em foto de maio de 2010, anterior à notícia do câncer (Bryan Bedder/Getty)

O ator americano Michael Douglas confessou que o câncer na garganta que superou há poucos meses o fez abandonar o isolamento, valorizar mais a família e curtir a intimidade com sua mulher e filhos.

Depois da doença, para ele, a maior riqueza é ver as crianças brincando pela casa e estar com Catherine Zeta-Jones. “Antes, era importante ter um tempo só para mim. Preferia não ter ninguém ao meu redor. Acho que a luta contra o câncer derrubou a última barreira que eu havia construído ao meu redor”, disse Douglas em entrevista à revista feminina alemã Frau im Spiegel.

À mulher, o ator não economizou elogios. ”Catherine é muito forte. Sofreu e nunca se queixou. Me deu apoio permanentemente com amor”, comentou o protagonista de filmes como Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme e Instinto Selvagem.

Apesar de tudo o que passou, Douglas relatou com bom humor a visita que recebeu de seus filhos pequenos, Carys e Dylan, durante a quimioterapia no hospital. ”Eles ficaram impressionados com a quantidade de máquinas”, contou o ator. “Acharam o cenário parecido com o do filme Guerra nas Estrelas.”

Michael Douglas perdeu 15 quilos na luta contra o câncer, em um tratamento que definiu como “excruciante”. Disse ainda que agora já se sente como antes da doença. ”Só tenho de ganhar peso, mas tudo caminha bem. O importante é que o câncer não voltou.” O ator disse que durante o tratamento contou com a força de vontade herdada de seu pai, Kirk Douglas. Eles têm uma relação “maravilhosa”, disse Michael Douglas, que vem melhorando nas últimas duas décadas, após anos de desavenças.

Curado, o ator faz planos de voltar às telas. ”Vou esperar até o outono (primavera no Brasil), quando terei recuperado totalmente meu peso e minha energia.”

(Com agência EFE)

* Como ter coragem de falar do amor de Deus, enquanto temos diante dos olhos tantas tragédias humanas?

sábado, abril 23rd, 2011

Apresentamos a homilia que o padre Raniero Cantalamessa, ofmcap., pronunciou  na celebração da Paixão do Senhor presidida por Bento XVI na Basílica de São Pedro.

* * *

“Verdadeiramente este era o Filho de Deus!”

Homilia de Sexta-feira Santa 2011 na Basílica de São Pedro

Na sua paixão – escreve São Paulo a Timóteo – Jesus Cristo “deu o seu testemunho fazendo sua bela profissão” (1 Tm 6, 13). Nós nos perguntamos, testemunho de quê? Não da verdade de sua vida e de sua causa. Muitos morreram, e ainda hoje morrem, por uma causa equivocada, acreditando que seja justa. A ressurreição, esta sim testemunha a verdade de Cristo: “Deus deu a todos prova segura sobre Jesus, ressuscitando-o dos mortos”, diz o apóstolo, no Areópago de Atenas (At 17, 31).

A morte não testemunha a verdade, mas o amor de Cristo. De tal amor se constitui, de fato, a prova suprema: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Pode-se objetar que há um amor maior do que dar a vida por seus amigos, é dar sua vida pelos seus inimigos. Mas foi isso precisamente que Jesus fez: “Cristo morreu pelos ímpios – escreve o apóstolo na Carta aos Romanos –. A rigor, alguém morreria por um justo; por uma pessoa muito boa talvez alguém se anime a morrer. Mas eis aqui uma prova brilhante do amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5, 6-8). “Amou-nos quando éramos inimigos, para poder nos tornar amigos” [1].

Uma certa unilateral “teologia da cruz” pode fazer-nos esquecer o essencial. A cruz não é só juízo de Deus sobre o mundo, refutação de sua sabedoria e revelação de seu pecado. Não é NÃO de Deus ao mundo, mas o seu SIM de amor: “A injustiça, o mal como realidade não pode ser simplesmente ignorado, deixado como está. Deve ser eliminado, vencido. Apenas esta é a verdadeira misericórdia. E que agora, já que os homens não são capazes de fazê-lo, Deus mesmo o faz – esta é a bondade incondicional de Deus” [2].

* * *

Mas como ter coragem de falar do amor de Deus, enquanto temos diante dos olhos tantas tragédias humanas, como a catástrofe que se abateu sobre o Japão, ou as mortes no mar nas últimas semanas? Permanecer em completo silêncio seria trair a fé e ignorar o significado do mistério que celebramos.

Há uma verdade a se proclamar com força na Sexta-feira Santa. Aquele que contemplamos sobre a cruz é Deus “in persona”. Sim, é também o homem Jesus de Nazaré, mas esta é uma pessoa com o Filho do Pai Eterno. Até que não se reconheça e leve a sério o dogma fundamental da fé cristã – o primeiro definido dogmaticamente em Niceia – que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o próprio Deus, da mesma substância do Pai, a dor humana permanecerá sem resposta.

Não se pode dizer que “a questão de Jó permanece sem resposta”, que nem mesmo a fé cristã teria uma resposta ao sofrimento humano, se de saída se recusa a resposta que ela afirma ter. O que se faz para assegurar a alguém que certa bebida não contém veneno? Bebe-se antes dele, na frente dele! Assim fez Deus com os homens. Ele bebeu o amargo cálice da paixão. Não pode ser assim tão envenenado o sofrimento humano, não pode ser apenas negatividade, perda, absurdo, se o próprio Deus escolheu prová-lo.

No fundo do cálice deve haver uma pérola.

O nome da pérola nós conhecemos: Ressurreição! “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18), e ainda “Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Ap 21, 4).

Se a corrida da sua vida acaba aqui, seria muito desesperador pensar nos milhões, talvez bilhões, de seres humanos que iniciam em desvantagem, mergulhados na pobreza e no subdesenvolvimento desde o ponto de partida, até mesmo sem poder participar da corrida. Mas não é assim. A morte não só elimina as diferenças, mas as derruba. “Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado” no inferno (cf. Lc 16, 22-23).

Não podemos aplicar de forma simplista este esquema à realidade social, mas ele está lá para nos alertar que a fé na ressurreição não deixa ninguém em seu silencioso viver. Lembra-nos que a máxima “viver e deixar viver” nunca deve se tornar a máxima “viver e deixar morrer”.

A resposta da cruz não é apenas para nós, cristãos, é para todos, porque o Filho de Deus morreu por todos. Há no mistério da redenção um aspecto objetivo e um aspecto subjetivo; é o fato em si, e a tomada de consciência e resposta de fé a ele. O primeiro se estende para além do segundo. “O Espírito Santo – diz o texto do Concílio Vaticano II – de um modo conhecido por Deus, dá a todos a oportunidade de estar associados ao mistério pascal” [3].

Um dos modos de estar envolvido no mistério pascal é próprio do sofrimento: “Sofrer  – escreveu João Paulo II na sequência do atentado que sofreu e da longa convalescença – significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à humanidade” [4]. O sofrimento, cada sofrimento, mas especialmente o dos inocentes, põe em contato de modo misterioso, ‘conhecido só a Deus’, com a cruz de Cristo.

* * *

Depois de Jesus, aqueles que têm dado a ele o seu belo testemunho e que têm bebido do cálice são os mártires! As histórias de suas mortes eram intituladas inicialmente “passio”, paixão, como o sofrimento de Jesus que acabamos de escutar.

O mundo cristão volta a ser visitado pela prova do martírio, que se acreditava finda com a queda dos regimes totalitários ateus. Não podemos silenciar perante este testemunho. Os primeiros cristãos honravam seus mártires. Os atos de seus martírios eram lidos e distribuídos entre as igrejas com grande respeito. Hoje mesmo, Sexta-feira Santa de 2011, em um grande país asiático, os cristãos oraram e marcharam em silêncio pelas ruas de algumas cidades para protestar contra a ameaça que paira sobre eles.

Há uma coisa que distingue os atos autênticos dos mártires dos legendários, verificada depois que finda a perseguição. Nos primeiros, quase não há vestígios de polêmica contra os perseguidores, toda a atenção é concentrada no heroísmo dos mártires, não sobre a perversidade dos juízes e carrascos.

São Cipriano ordenaria aos seus dar 25 moedas de ouro para o carrasco que cortaria a cabeça. Eles são discípulos de alguém que morreu dizendo: “Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem”. “O sangue de Jesus – recorda o Santo Padre em seu último livro – fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação [5].

Também o mundo se inclina diante dos testemunhos modernos da fé. Isso se explica por exemplo pelo sucesso inesperado na França do filme “Homens e Deuses”, que conta a história de sete monges cistercienses assassinados em Tibhirine em março de 1996. E como não ficar admirados com as palavras escritas em seu testamento por um político católico, Shahbaz Bhatti, assassinado por causa de sua fé no mês passado? Sue testamento é deixado também para nós, seus irmãos na fé, e seria ingratidão deixá-lo cair no esquecimento.

“Foram-me propostos – escrevia ele – altos cargos no governo e me pediram para abandonar a minha batalha, mas eu sempre recusei isso, mesmo sob o risco da minha própria vida. Eu não quero popularidade, não quero posições de poder. Eu só quero um lugar aos pés de Jesus. Quero que a minha vida, o meu caráter, as minhas ações falem por mim e digam que estou seguindo Jesus Cristo. Esse desejo é tão forte em mim que eu me considerarei privilegiado se, no meu esforço e na minha luta para ajudar os necessitados, os pobres, os cristãos perseguidos de meu país, Jesus quisesse aceitar o sacrifício da minha vida. Eu quero viver para Cristo e por Ele quero morrer.”

Parece ressoar o mártir Inácio de Antioquia, quando veio a Roma e sofreu o martírio. O silêncio das vítimas não justifica a culpável indiferença do mundo para com seu destino. “O justo perece sem que ninguém se aperceba; as pessoas de bem são arrebatadas e ninguém se importa (Is 57,1)”!

* * *

Os mártires cristãos não são os únicos, temos visto, a sofrer e morrer ao nosso redor. O que podemos oferecer aos que não crêem, além da certeza da nossa fé de que há um resgate para a dor? Podemos sofrer com os que sofrem, chorar com os que choram (Rm 12, 15). Antes de anunciar a ressurreição e a vida, na frente das irmãs enlutadas de Lázaro, Jesus chorou (Jo 11, 35).

Neste momento, sofrer e chorar em particular com o povo japonês, imerso em uma das mais terríveis catástrofes naturais da história. Podemos dizer a esses nossos irmãos em humanidade que estamos admirados por sua dignidade e exemplo de postura e ajuda mútua que deram ao mundo.

A globalização tem ao menos este efeito positivo: a dor de um povo se torna a dor de todos, suscita a solidariedade de todos. Dá-nos a chance de descobrir que somos uma família humana, ligada no bem e no mal. Ajuda-nos a superar as barreiras de raça, cor e religião. Como diz o verso de um de nossos poetas, “Homens, paz! Na extensa terra, grande é o mistério” [6].

Mas devemos também recolher o ensinamento de eventos como este. Terremotos, furacões e outros desastres que atingem inocentes e culpáveis nunca são um castigo de Deus. Dizer o contrário disso significa ofender a Deus e os homens. Mas servem de alerta: neste caso, a advertência de não se iludir que bastam a ciência e a técnica para se salvar. Se não formos capazes de estabelecer limites, nós mesmos podemos nos tornar, estamos vendo, a ameaça mais grave de todas.

Também houve um terremoto no momento da morte de Cristo: “O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mt 27, 54). Mas houve um outro ainda “maior” no momento de sua ressurreição: “E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela” (Mt 28, 2).

Assim será sempre. A cada terremoto de morte sucederá um terremoto de ressurreição de vida. Alguém disse: “Agora só um deus pode nos salvar” (”Nur noch ein uns kann Gott retten” [7]). Temos a garantia de que o fará porque “de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16).

Notas originais em italiano:

1. S. Agostino, Commento alla Prima Lettera di Giovanni 9,9 (PL 35, 2051).

2. Cf. J. Ratzinger – Benedetto XVI, Gesù di Nazaret, II Parte, Libreria Editrice Vaticana 2011, pp. 151.

3. Gaudium et spes, 22.

4. Salvifici doloris, 23.

5. J. Ratzinger – Benedetto XVI, op. cit. p.211.

6. G. Pascoli, I due fanciulli.

7. Antwort. Martin Heidegger im Gespräch, Pfullingen 1988.

Fonte: Zenit

* Massacre no Rio de Janeiro, Deus se omite ou Deus permite?

domingo, abril 10th, 2011

Renato Varges, Comunidade de Aliança Shalom, RJ

Enchentes, deslizamentos, desmoronamentos e mais de 1000 mortos na região serrana do Rio de Janeiro;

terremoto seguido de um devastador tsunami arrasa cidades inteiras no Japão e deixam mais de 20 mil mortos. Estes dois episódios trágicos já seriam suficientes para que o início de 2011 ficasse marcado como um dos mais tristes da história.

Mas, eis que na manhã do dia 07 de abril, fomos novamente surpreendidos pela dor e perplexidade diante do massacre brutal de pelo menos 12 adolescentes numa escola de Realengo, no Rio de Janeiro.

Inevitavelmente surgem os comentários, questionamentos, dúvidas e até acusações: Onde estava Deus? Seria Ele incapaz de impedir o mal? Como afirmar Seu amor diante de tragédias que causam sofrimento e morte? Como Deus pode se omitir e não salvar Seus filhos amados? Se Deus é amor, como é possível tanta dor e tristeza?

Perguntas deste tipo costumam compor o cenário de episódios dramáticos como os que temos testemunhado. No entanto, não há uma resposta lógica e direta que faça os homens compreenderem perfeitamente estes males. Diante de uma chacina sem precedentes nacionais como a que ocorreu no Rio de Janeiro, pouco adianta buscar explicações que nos permitam racionalmente entender como é possível tamanha violência e brutalidade.

O mistério do sofrimento está profundamente ligado ao mistério de nossa humanidade. Por isso, João Paulo II nos ensina que no fundo de cada sofrimento experimentado pelo homem, aparece inevitavelmente a pergunta: por que? É uma pergunta acerca da causa, da razão e também da finalidade (para que?); trata-se sempre, afinal, de uma pergunta acerca do sentido”.1

Portanto, o questionamento humano sobre o sofrimento é uma afirmação intuitiva de que este traz consigo um sentido e, portanto, sempre há um conteúdo a ser descoberto e lições a serem aprendidas.

A primeira lição a ser aprendida é que o mal jamais pode ser obra de Deus.

Quem nos revela isso é Jesus Cristo em sua conversa com o jovem rico quando afirma que Deus é Bom (Mt 19,17). Se Deus é Bom, tudo que Ele faz é bom e seu ato criador é a mais sublime expressão dessa bondade absoluta. (cf. Gen 1, 10). Se tudo que existe é bom, concluímos que o mal é sempre a negação do exercício do bem e nunca um sinal de desprezo e descaso de um deus omisso e vingativo.

A segunda lição é que, pela Sua bondade absoluta, Deus criou a natureza humana dotada de liberdade para que o homem entre em comunhão com Ele por amor e não por opressão.

Assim, todo homem deve exercer sua liberdade no espaço do amor de Deus. Quando o homem rejeita esta liberdade vinculada à caridade, está negando o exercício do bem e fazendo uma livre opção pelo mal, pelo pecado e, consequentemente, pela morte (cf. Rm 6, 23). Portanto, Deus não pode interferir no dom da liberdade, mesmo que o preço a ser pago seja que os inocentes e justos sofram a maldade dos maus.

No entanto, nesta misteriosa busca pelo sentido do sofrimento, a fé nos introduz nas chagas gloriosas do Ressuscitado que passou pela cruz e ai nos ensina a mais bela e fundamental lição. Quando Santo Agostinho afirma que Deus soberanamente bom, não permitiria de modo algum a existência de qualquer mal em suas obras, se não fosse poderoso e bom a tal ponto de poder fazer o bem a partir do próprio mal, ele tem a Paixão de Cristo como o mais perfeito exemplo. No sacrifício redentor de Jesus, o sofrimento humano reveste-se de uma dimensão completamente nova, pois é associado ao amor, que cria o bem extraindo-o do mal, extraindo-o da mais profunda dor. No mistério da Cruz de Cristo podemos dar sentido ao sofrimento humano, pois foi por este caminho que a humanidade recebeu o bem supremo da Redenção.

Portanto, somente associado ao amor, o sofrimento humano pode ganhar sentido e ser vivido como uma via e não como um ponto de chegada. Somente pelo trilhar desta via o sofrimento pode ser retirado do mundo, não pela sua eliminação, mas pela sua elevação à ordem do amor, quando o homem “enfrenta uma fatalidade que não pode ser mudada e transforma tragédia pessoal em triunfo, converte sofrimento em conquista, onde, não sendo capaz de mudar uma situação, é desafiado a mudar a si próprio”2.

Por isso, mediante nossa fé em Jesus Cristo e iluminados pela verdade do amor, podemos afirmar que a morte destes adolescentes e a dor consequente dela não podem ser desprovidas de sentido. Tomada pelo assombro, pela perplexidade e por um profundo sofrimento, a sociedade encontra-se diante de um desafio: acolher com esperança e entusiasmo a certeza de que, misteriosamente, Deus transforma o mal em bem maior. Se o sofrimento não pode ser evitado pelo homem, que encontre sentido no amor e seja transformado em instrumento do bem e salvação para o próximo.

Na certeza que Deus Pai esteve presente na inocente Paixão e Morte de Seu Filho, permitindo o derramamento do Seu sangue pra nele gerar o bem eterno da Redenção, cremos que este mesmo Pai também manifesta a Sua presença de amor mediante o derramamento do sangue inocente destes adolescentes do Rio de Janeiro. Assim, na certeza que o sacrifício redentor de Cristo gerou na humanidade uma vida nova, esperamos que a morte destes estudantes desperte no seio da sociedade a fecunda esperança de transformar, em Cristo, todo sofrimento em amor, todo desespero em paz, toda desordem em justiça, todo descaso em respeito, todo desprezo em compaixão, todo individualismo em fraternidade e toda morte em vida ressuscitada.

  1. João Paulo II. O sentido cristão do sofrimento humano. Parágrafo 9, Paulinas, 1998.
  2. Viktor Frankl. Em busca de sentido, p.101.

* Enquanto dá tempo, faça sua vida valer a pena!

terça-feira, janeiro 25th, 2011

* Se Deus é bom por que o sofrimento?

sexta-feira, janeiro 14th, 2011


Cada um de nós já se confrontou um dia ou de uma maneira permanente com o sofrimento, na própria vida ou naqueles que nos rodeiam. Nessa altura há uma quebra. Tudo desaba… E surge a questão do por quê, e sobretudo do por que eu? O que eu fiz de mal?… É o esmagamento ou a revolta pela qual nós podemos nos afastar de Deus.

Reação totalmente humana e normal. Porque o homem não é feito para o sofrimento. Este, pela ruptura no conforto da nossa vida e pela brecha que ele opera no coração, vem revelar a sede interior da felicidade que habita cada um de nós. No fundo, o sofrimento toca no mistério mais profundo do nosso ser, lembrando-nos o bem para o qual fomos feitos (a felicidade) e do qual estamos privados. Manifesta-se como uma privação.

É por isso que, espontaneamente, não o podemos aceitar, porque em si ele é inaceitável. Ele nos mete medo e nós o rejeitamos. Porque fomos feitos para a vida. Ao mesmo tempo, nós somos conduzidos mais longe que o medo: numa timidez, numa espécie de respeito e mais profundamente ainda de compaixão. No entanto, apesar de tudo o que podemos fazer concretamente, nós ficamos desarmados. É que o sofrimento, o meu e o do outro, toca esse mistério que é tão próximo de mim porque é meu, e que ao mesmo tempo me ultrapassa tanto: mistério do homem, mistério do mal e da suas raízes enterradas na história e na alma humana.ÞEntão, com efeito, é a Deus que fazemos a pergunta do porquê, a Deus como Criador e Senhor do mundo. E é grande a tentação de suspeitar que Deus é o autor do mal. “Se Deus fosse bom, não permitiria, não agiria assim…” É no fundo o que se passa depois do pecado original (ver Q 31). Deus não mudou. Fomos nós que mudamos.

Mas talvez tenhamos alguma coisa a descobrir perto Daquele que nos salvou do Mal: “Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis alívio para as vossas almas” (Mt 12,28-29). É uma das palavras de Jesus Cristo, do qual a Escritura diz: “Ele tomou sobre si as nossas doenças e carregou as nossas dores” (ls 53,4). Ele que foi morto injustamente, para que “nas suas feridas nós encontremos a salvação”. (ls 53,5).

O que nos mostra a sua vida e o que é dito d’Ele no Evangelho? Não é um Deus justiceiro que se aproxima de nós, mas um Deus humilde, “servo sofredor” que vem assumir completamente a condição de homem com o seu sofrimento para nos consolar e ajudar a transportá-Lo.

Deus não veio suprimir o sofrimento, não veio para o explicar, mas veio enchê-lo com Sua presença”, diz Paul Claudel.

Enchê-lo completamente.

Cristo vai mais longe. Ele oferece o seu sofrimento para nos salvar, e todos os nossos com o seu, abrindo um caminho de vida. E nos convida a aprender d’Ele. É o que faz aquela jovem diabética de 18 anos: “Jesus nos ama e não permite que carreguemos um sofrimento demasiado pesado. Ele confia em nós e faz-nos participar de sua missão que é de levar o mundo inteiro para o Pai. É uma alegria participar numa missão em que o coordenador é Deus!”. 

* Será que você padece de neofilia?

terça-feira, julho 20th, 2010

O que escolho?

O que escolho?

Inácio Almeida -    Gaudium Press

Vivemos na era da informação e nunca foi tão fácil o acesso ao conhecimento. Todos os dias somos constantemente bombardeados por notícias oriundas dos quatro cantos do mundo. Hoje tomamos conhecimento de um furacão que assola o Golfo do México, de um terremoto nas ilhas do Pacífico, de uma leve queda da bolsa de Nova York. A preocupação de nos mantermos informados é cada vez maior.

Por outro lado, parece que o homem nunca foi tão desconhecedor da essência das coisas, e de modo especial, daquelas que passam em seu próprio interior (…). Tal a facilidade de acesso à informação acabou também por gerar uma certa banalização do saber. O tempo se tornou cada vez menor e, entretanto, muitas são as coisas que se deseja conhecer.

Seguindo esta tendência, a imprensa passou a narrar, então, os fatos de um modo cada vez mais sucinto, rápido e simplista. São as denominadas pílulas da informação. Sobre a razão disto, os publicitários argumentam que qualquer informação, um pouco mais profunda ou que apresente maior riqueza de detalhes, pode cansar o leitor. Sendo assim, quanto menor for a notícia, maior é a probabilidade de que ela seja lida.

Esta hipertrofia da informação também se encontra nos ambientes acadêmicos. Os professores que precisam ensinar a geração da imagem devem sempre fazer uso de novo métodos, de novas ferramentas didáticas, para tentar atrair a atenção dos alunos. ‘Parece que o culto à magreza também afetou aos meios acadêmicos. Os livros, os artigos, as conferências devem ser curtas, ninguém dispõe de muito tempo para ler ou escutar. O único modo de sobreviver está em ser rápido, curto’.

Todavia, para que a informação possa realmente alcançar o grande público, não basta que ela seja breve ou simples. Ela também deve vir acompanhada de outro elemento, que, para as atuais gerações, converteu-se em algo verdadeiramente indispensável. Tal elemento é o que comumente chamamos de “novidade”.

Há muito tempo a indústria de entretenimento está atenta a este fenômeno, pois sabe que existe um público que sempre está atrás de um novo computador, um novo celular, um novo aparelho de mp3.

O principal problema é que aquele que busca a mais recente novidade ainda não foi capaz de utilizar todos os recursos oferecidos pelo equipamento anterior. É o desejo do novo pelo simples fato de ser novo. Enquanto para alguns este desejo de possuir o último lançamento não oferece consequências mais profundas, para outros, a ânsia por novidades se transforma em uma verdadeira obsessão.

De acordo com a Associação Psiquiátrica Americana, este problema já tem um nome e pode ser considerado como uma das maiores “enfermidades psicológicas” do século XXI. Chama-se neofilia, um neologismo latino que significa “amor à novidade”. Seu principal “sintoma” consiste neste desejo sem freio de possuir tudo o que é novo, principalmente aquilo que se refere ao campo da cibernética.

Para saber se você padece de neofilia, veja alguns exemplos:

- Comprou um celular e ainda sem usar todos os seus recursos já está pensando em comprar outro.

- Quando vai ao supermercado, sempre passa no setor dos eletrônicos para ver a “última novidade”.

- Busca assistir, pela mídia, a todos os “lançamentos cibernéticos” e, ao saber que algum amigo vai realizar uma viagem ao exterior sempre pede que ele lhe compre alguma coisa.

- Deseja trocar de computador a cada seis meses.

- Acessa sua caixa de e-mails diversas vezes ao dia e se entristece quando não encontra nenhuma mensagem.

- Ao possuir qualquer equipamento eletrônico, em pouco tempo se decepciona com o que tem e sente uma frustração interior. Em seguida, deposita toda a sua esperança em um novo lançamento.

- Acredita que tudo aquilo que vem escrito “novo” ou “último lançamento” deve ser necessariamente considerado melhor.

- Não resiste ao ver um amigo com algum equipamento que você ainda não possui.

- Armazena milhares de músicas sem jamais ter tempo de escutar todas. Sua alegria está em dizer somente que possui um grande arquivo musical.

- Costuma criticar aqueles amigos que não sabem usar estas novas tecnologias.

- Sempre está baixando novos programas na internet que prometem a “solução para todos os seus problemas”.

Bulimia intelectual ou Síndrome de Fausto

Ainda que a neofilia se identifique com o consumismo ou com o desejo incontrolável por novidades, existe também outra “enfermidade” que, mesmo sendo menos recorrente, também representa um dos traços que marcam nossa época. Ela é conhecida como “bulimia intelectual” e está associada ao desejo exagerado de conhecer tudo.

Por esta razão, alguns autores também a denominaram “Síndrome de Fausto”. Tal patologia recebeu este nome em função da amarga lamentação do personagem Fausto, na obra homônima de Goethe. Nela, o escritor alemão descreve muito bem o percurso final daquele que se entrega ao incontrolável desejo de conhecer tudo.

“(…) Ah! Já estudei filosofia, jurisprudência, medicina e também, por desgraça, teologia. Tudo isto com profundidade extrema e grande esforço. E agora me vejo, pobre louco, sem saber mais do que sabia no princípio. Tenho os títulos de mestre e doutor e há 10 anos que arrasto meus discípulos para cima e para baixo, em direção reta ou curva e vejo que não sabemos nada. Isto consome meu coração. Claro está que sou mais sábio do que todos estes néscios doutores, mestre, escritores e frades; não me atormentam nem os escrúpulos, nem as dúvidas. Não temo o inferno, nem o demônio.

Entretanto, sinto-me privado de toda a alegria; não creio saber nada com sentido, nem me dá orgulho poder ensinar algo que melhore a vida dos homens e mude seu rumo. Não tenho bens, nem dinheiro, nem honra, nem distinções perante o mundo. Nem sequer um cachorro quererá viver nestas circunstâncias. Por esta razão, entreguei-me à magia: para ver se, pela força e pela palavra do espírito, são revelados a mim certos mistérios; para não ter que dizer com suor amargo o que não sei; para conseguir reconhecer o que o mundo contém em seu interior (…)”.

* ‘A ditadura da felicidade superficial’ nada tem a ver com uma vida repleta de sentido.

sexta-feira, junho 25th, 2010

Uma entrevista muito interessante onde o profissional aborda a dor e o sofrimento em uma perspectiva que se aproxima da visão cristã.

Não é uma entrevista “religiosa”. Ele fala como profissional da área de saúde psicologica e suas afirmações deves ser vistas dentro deste contexto.

***

Fonte: Revista Veja

O psicólogo americano Steven Hayes, de 57 anos, está causando alvoroço entre seus colegas de profissão. Em seu novo livro, Saia de Sua Mente e Entre em Sua Vida, publicado no fim do ano passado nos Estados Unidos, ele rompe com um método em voga na psicologia há trinta anos: a terapia cognitiva, que instrui pacientes a se livrar de seus pensamentos e sentimentos negativos.

Hayes diz que, ao contrário, é preciso aceitar a dor e o sofrimento como parte da vida. Suas teorias causam especial impacto no tratamento de distúrbios como a depressão e os transtornos de ansiedade.

Autor de 27 livros e centenas de artigos científicos, nos últimos dez anos Hayes recebeu mais de 5 milhões de dólares do governo americano para avançar em seus estudos. Ex-presidente da Associação de Terapias Cognitivas Comportamentais, ele está há onze anos sem ter um ataque de síndrome do pânico, que o aflige desde os 29 anos. Hayes concedeu a seguinte entrevista de sua casa no estado de Nevada, onde mora com a mulher, a psicóloga gaúcha Jacqueline Pistorello, e três de seus quatro filhos.

Veja – Por que o senhor diz que felicidade não é normal?

Hayes – Muita gente tem um conceito distorcido de felicidade. O mais comum é vê-la como ausência completa de dor e como uma seqüência de momentos nos quais a pessoa se sente bem. É fácil preencher a vida com uma série de episódios efêmeros de bem-estar, como sair com os amigos ou beber um bom vinho. São diversões que podem trazer satisfação momentânea, mas na manhã seguinte a vida não estará melhor e não haverá como evitar que aconteçam coisas ruins. Todos sabemos que um dia vamos morrer, todos nós lembramos da perda de um amigo querido, de algum erro que cometemos, de dramas, traições ou doenças. A diferença entre o homem e outras criaturas está na capacidade que ele tem de usar suas habilidades cognitivas para remoer os erros e infortúnios do passado e temer as incertezas do futuro. Por isso o normal é sentir dor e sofrer.

Veja – Qual o problema em tentar evitar a dor?

Hayes – Ao fazermos isso, acabamos criando uma série de medos e fobias, que aumentam ainda mais o sofrimento. O conceito de que felicidade é como a ausência de sentimentos ruins nos leva a reagir à dor de uma maneira que limita nossa vida. Ou seja, que só piora as coisas. Isso nos deixa menos abertos a estabelecer novos relacionamentos, leva-nos a evitar lugares que tragam lembranças do passado ou situações desagradáveis. Dessa forma, perdemos a oportunidade de um envolvimento real com o que acontece a nossa volta. Isso também nos impede de ir atrás do que realmente queremos. Em casos extremos, como na depressão, quem tenta a todo custo evitar a dor começa a ficar entorpecido. Passa a não sentir nada, apenas um vazio profundo.

Veja – O suicídio é uma dessas formas de fuga da dor ou essa idéia é apenas um lugar-comum?

Hayes – Trata-se da explicação mais plausível na maior parte dos casos. Muitos suicídios são um último esforço para acabar com a própria dor. Em seis de cada dez casos os suicidas deixam escrito, em bilhetes, que não agüentavam mais sofrer. Há uma mensagem nisso tudo: evitar os sentimentos dolorosos é rejeitar a própria vida. Aceitá-los como parte da existência é a melhor atitude. Até onde sabemos, depois de mortos não sentimos mais nada. E não há vantagem nisso.

Veja – Quando encostamos a mão numa panela quente, o reflexo natural é afastá-la imediatamente. Não está na natureza humana evitar a dor?

Hayes – Em termos. O problema é que estamos vivendo uma espécie de ditadura da felicidade. Aceitar a dor sempre fez parte dos costumes e tradições humanas. Hoje, pela primeira vez na história da humanidade, existem tecnologia, remédios e terapias para acabar com a dor. Isso não é lá muito sábio. Ao buscar um desses recursos, corre-se o risco de cometer um erro que tornará aquela dor inevitável, transformando a vida em uma espiral infinita de sofrimento.

Veja – O senhor pode dar um exemplo?

Hayes – Imagine alguém que tenha sido traído pelo parceiro no passado e, por isso, só consegue ter relacionamentos superficiais, em que o risco de se magoar é pequeno. Esses relacionamentos servirão para distrair ou para aplacar a solidão, mas nunca atingirão o nível de envolvimento e intimidade desejado. Nesse caso, a persistência do medo de sentir dor acaba tendo um efeito permanente na vida do indivíduo. É como se sua mente sabotasse sua própria vida.

Veja – Que tipo de felicidade se deve buscar?

Hayes – A pessoa deve definir o que realmente quer da vida a longo prazo, descobrir quais são seus próprios valores e viver de acordo com eles. Isso é ser feliz. Para alguns, significa ajudar os outros e sentir-se útil para a sociedade. De nada adianta querer se sentir feliz o tempo todo. Vamos imaginar uma situação de dor extrema: a morte iminente da mãe. O filho está a seu lado para dizer quanto a ama e ouvir o que ela tem a lhe falar. É óbvio que esse não é um momento feliz. Tem, no entanto, um significado valioso para a vida daquele filho. Imaginemos uma outra cena, de aparente felicidade: um homem rindo, dançando, tomando um bom drinque e, no fim da festa, indo para casa com uma loira escultural. À primeira vista, ele está feliz. E se eu disser que essa é a décima vez que ele se embebeda neste mês? E se disser que ele está bebendo para esquecer os problemas em casa, que acabou de conhecer a mulher com quem saiu e não vai se lembrar de nada no dia seguinte? Uma situação aparentemente prazerosa pode ser destrutiva e não acrescentar nada, em termos emocionais, a seus protagonistas. Nosso conceito de felicidade está ligado a emoções de curto prazo. Essa correlação nunca foi verdadeira.

Veja – Como essa idéia pode ser transformada em tratamento psicológico?

Hayes – Uma etapa da terapia de aceitação e comprometimento, que defendo no meu último livro, consiste em ajudar os pacientes a encontrar seus valores e objetivos. Um dos exercícios que proponho é que eles escrevam seu próprio epitáfio, uma frase que considerem digna de ser colocada em seu túmulo. O resultado em geral é algo próximo de “aqui jaz Sally, que amava muito seus filhos”, não “aqui jaz Sally, que tinha uma casa enorme” ou “aqui jaz Sally, que sofria de ansiedade”. Ou seja, queremos que nossa vida seja lembrada pelos valores que seguimos. As artimanhas que usamos para não sentir dor nos desviam de nossos objetivos. E é por eles que vale a pena viver. Nosso trabalho é ir na direção oposta à de nossos medos. Tentamos conseguir, com muito cuidado, fazer o paciente explorar a tristeza, a depressão e a ansiedade que ele sente, para percebê-las e observá-las.

Veja – Não é um processo muito arriscado?

Hayes – O que nós propomos não é tentar mudar os pensamentos ruins, mas que eles sejam aceitos e deixem de influenciar o comportamento do paciente. O processo consiste em se distanciar aos poucos de todos os pensamentos, tantos os negativos como os positivos. O resultado é que as obsessões vão se diluindo. Em um caso grave, obtém-se sucesso quando o paciente começa a ter consciência do que o aflige. Um paciente psicótico dá sinais de melhora quando muda o pensamento “eu sou a rainha de Sabá” para “eu estou pensando que sou a rainha de Sabá”. O segundo passo é o paciente descobrir que tipo de vida quer ter e tentar conquistá-lo, sem permitir que o medo de sentir dor o desvie de seus objetivos.

Veja – Que técnicas o senhor utiliza?

Hayes – Eu ensino os pacientes a identificar seus sentimentos e a tratá-los como se fossem objetos. Uma das técnicas consiste em resumir os pensamentos ruins em uma única palavra e dizê-la alto e rápido por 45 segundos. Aos poucos, a palavra perde seu sentido e o paciente começa a ouvir apenas um ruído. Com isso, ele se dá conta de que não vale a pena se estressar ou acabar com sua vida por causa daquela palavra, daquele ruído. Outras vezes, pedimos para o paciente cantar seus pensamentos negativos ou repeti-los imitando a voz de um personagem de desenho animado. Funciona também na voz de um político impopular. O propósito não é ridicularizar o paciente, mas fazê-lo notar que se trata apenas de um pensamento. Essa técnica vale para todo tipo de problema, desde memórias desagradáveis, medos, traições, culpa até dependência de substâncias químicas.

Veja – Em quanto tempo os resultados aparecem?

Hayes – Em alguns casos, em poucas horas. Certa vez obtive bons resultados com psicóticos em apenas três dias. Com pessoas que sofrem de alcoolismo ou dependência química são necessárias ao menos 25 sessões. Muitas vezes, a mente insiste em não cooperar. Quando pensamos em algo, a tendência é julgarmos o pensamento como certo ou errado. O que eu tento fazer é sair desse caminho óbvio. Por isso a mente protesta.

Veja – Quase 20% da população mundial terá depressão em algum momento da vida. Por que essa doença se tornou tão comum?

Hayes – Não é só a depressão. Nas últimas décadas assistimos ao rápido crescimento de uma série de doenças psicológicas. Isso inclui desde os transtornos de humor, como a depressão e o distúrbio bipolar, até os de ansiedade, como a síndrome do pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo e o stress pós-traumático. A explicação é que não sabemos mais lidar com nossas experiências negativas. Muitos depressivos pioram em decorrência de um processo que chamamos de rejeição dos sentimentos: você tenta não sentir o que está sentindo, e o resultado é que sente mais ainda.

Veja – Por que isso ocorre com mais freqüência na atualidade?

Hayes – No mundo moderno esse processo é intensificado por dois motivos. O primeiro é que, com a tecnologia fazendo tudo mais fácil, somos pressionados a acertar sempre e a conseguir tudo o que queremos. Com isso, temos dificuldade em lidar com nossos limites e com os percalços do cotidiano. No passado, as pessoas aprendiam a se decepcionar e a aceitar suas fraquezas de maneira mais saudável. Basta olhar para as tradições religiosas que antes tinham grande aceitação: os fiéis jejuavam porque essa era uma forma de simular a dor dos antepassados ou de um salvador. O segundo motivo é a ditadura da felicidade superficial, que nada tem a ver com uma vida repleta de sentidos. Hoje você diz às crianças que elas devem se sentir bem de dia e de noite, e se elas não conseguem é porque há algo errado. O resultado é que elas se tornam incapazes de lidar com o desconforto de uma maneira saudável. No futuro, essas crianças serão mais vulneráveis a problemas de saúde mental.

Veja – O senhor está dizendo que a tendência para querer evitar o sofrimento a qualquer custo é o único fator de risco para a depressão?

Hayes – Não. O histórico familiar conta muito. A propensão à doença é maior quando há casos de depressão, transtornos de ansiedade ou alcoolismo na família. Esses três distúrbios andam juntos, e na raiz de todos eles está a dificuldade em lidar com a dor. Em geral as mulheres tendem a ter mais depressão que os homens. Por uma questão cultural e educacional, elas são estimuladas a agir passivamente ao lidar com emoções negativas.

Veja – Como distinguir depressão de tristeza?

Hayes – Os sintomas da depressão avançam por um período maior, no mínimo por semanas. Quando está deprimido, o paciente não quer sentir mais nada. A metáfora usada é a de um buraco que se abre no chão e suga todas as suas emoções e energias. Um dos principais sintomas é a falta total de interesse na vida. O indivíduo não quer mais saber de comida, sexo ou qualquer atividade que costumava lhe interessar.

Veja – O que o senhor acha do uso de remédios antidepressivos em combinação com a terapia?

Hayes – Tenho algumas ressalvas aos remédios que não tiveram sua eficácia comprovada, como alguns antidepressivos. A indústria faz bilhões de dólares com esses remédios, e seus resultados muitas vezes são pífios. O Prozac, por exemplo, foi anunciado como uma revolução no tratamento da depressão. Em uma pesquisa recente, ele teve nos voluntários um efeito apenas um pouco melhor do que o de placebo. Com resultados como esses, o melhor seria tomar pílulas de açúcar em vez de antidepressivos. Outras vezes, combinar remédio e terapia é improdutivo, porque a droga, além de causar dependência, interfere no que o paciente faz no consultório. Tranqüilizantes contra a ansiedade, por exemplo, prejudicam os efeitos das terapias de exposição, aquelas em que o paciente enfrenta situações nas quais é obrigado a vencer os próprios medos.

Veja – O senhor teve seu primeiro ataque de pânico aos 29 anos. Como isso mudou a sua vida?

Hayes – Eu tive síndrome do pânico e agorafobia. Tinha medo de lugares e situações em que não poderia ser socorrido caso passasse mal. Cheguei a um ponto em que não podia entrar em um elevador, participar de reuniões ou mesmo falar ao telefone. Foi algo realmente doloroso, porque não podia seguir plenamente a vida que tinha escolhido. Dar aulas era um suplício. Meu primeiro ataque aconteceu logo depois de me divorciar e, por isso, não pude ser o pai que gostaria de ter sido para meu filho mais velho. Eu estava empenhado em uma guerra dentro da minha própria cabeça.

Veja – Como o senhor se curou?

Hayes – Durante dois anos, eu não podia entrar em lugares pequenos nem muito abertos. Tudo o que eu fazia girava em torno da doença. Foi quando me dei conta de que, se não reagisse, ela acabaria enterrando minha carreira. Aos poucos, comecei a aprender a aceitar a dor e a ver meu problema com certo distanciamento. Ter passado por essa experiência hoje me ajuda a compreender meus pacientes. Faz onze anos que não tenho uma crise. Quando a última ocorreu, aprendi a nunca dizer nunca. Sempre digo que ainda não estou curado. Nunca estarei. Sou uma pessoa com síndrome do pânico em recuperação. É o mesmo que ser um ex-alcoólatra.

* Qual é o sentido da dor no mundo contemporâneo?

segunda-feira, março 22nd, 2010
Cardeal Comastri fala do tema no congresso “A Igreja ao serviço do amor pelos que sofrem”

Por Carmen Elena Villa

Não há nada mais seguro neste mundo que a morte. Paradoxalmente, este é um tema vetado e inclusive proibido em muitos ambientes e espaços desta época.

Sobre este fenômeno, referiu-se o cardeal Angelo Comastri, arcipreste da Basílica de São Pedro, durante sua conferência: “A dor e o sofrimento têm sentido para o homem contemporâneo?”.

O purpurado interveio durante o congresso “A Igreja ao serviço do amor pelos que sofrem”, realizado esta semana na Nova Sala do Sínodo, no Vaticano, para comemorar os 25 anos de fundação do Conselho Pontifício para a Pastoral no Campo da Saúde.

Tema evitado

O cardeal se referiu aos termos sofrimentomorte, que são como “duas irmãs que se chamam mutuamente e que andam de mãos dadas”, definindo a morte como “a consumação dos sofrimentos”.

Com alguns exemplos e estatísticas, o cardeal ilustrou como a mentalidade contemporânea procura cada vez mais o conforto, fugindo da dor e da sempre inevitável morte.

“Por que tanto silêncio sobre o problema da morte? Por que circula tanto medo da morte, que é um passo iniludível de cada pessoa que nasce? E, como consequência, por que tanto medo da doença e do sofrimento?”, perguntou-se.

Como resposta, afirmou que a morte “acaba com a falsa visão da vida que se apoderou dos homens no século XX”.

Aproveitou para aludir ao pensador francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), que dizia que o homem “nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso”.

“Abramos os olhos! – exortou. E façamos que os jovens abram os olhos, eles que, como mariposas, giram em volta de falsas luzes da modernidade e caem dentro, morrendo nesciamente!”

O cardeal Comastri criticou os sistemas econômicos que reduzem o homem a um ser produtivo e se esquecem do verdadeiro sentido da sua vida: “O homem, de fato, não vive só de pão: ele precisa entender por que come pão, por que vive e… por que morre. Se ele renunciar a isso, renunciará à humanidade!”.

Indicou que “não podemos aceitar a solução do niilismo, isto é, a solução que pensa que o homem vem do nada e voltará ao nada”.

Sobre a morte como tema evitado na sociedade consumista, o cardeal concluiu que “a civilização do consumo só quer ter consumidores, bocas que comem, corpos que buscam sensações, mas não buscam nenhum sentido, nenhum significado para as suas vidas”.

No entanto, afirmou que no coração humano sempre existe a possibilidade de florescer a nostalgia de um sentido do viver, sofrer e morrer.

“Devemos saber que existe este drama: o drama de uma cultura que rejeitou Deus e que não está arrependida desta rejeição, mas percebe que tem uma sensação de vazio.”

Assim, o purpurado recordou o testemunho de um jovem italiano – cujo pseudônimo era Ricciardetto – que, em 1970, descobriu que padecia de uma doença terminal: “Se eu tivesse o consolo da fé, poderia me refugiar nela e lá encontraria a resignação necessária. Mas infelizmente perdi a fé há muito tempo”.

E para dar um exemplo recente da forma cristã de lidar com a dor, citou a jovem venerável Benedetta Bianchi Porro, que morreu aos 27 anos, em 1964, depois de sofrer uma prolongada paralisia em seu corpo: “Neste abismo de dor, Benedetta se encontrou com Jesus e sua dor se transformou em um ‘lugar’ no qual vive a esperança e sobretudo a caridade”, indicou o cardeal.

E concluiu sua conferência recordando como Benedetta começou a evangelizar por meio de cartas que escrevia a pessoas que viviam uma situação como a sua: “Esta é a notícia maravilhosa que Benedetta grita com sua história comovente: Deus também mora na dor e, portanto, a dor não é mais dor, não é mais causa de desespero, não é mais um sem-sentido”.

Entre os corredores da Nova Sala do Sínodo, escutavam-se comentários muito positivos dos participantes. Este evento acadêmico teve um caráter instrutivo, no qual, através de palestras e mesas redondas, procurou-se formar os agentes da pastoral da saúde.

Também teve um caráter espiritual, por meio de conferências – como a do cardeal Comastri – que exortavam a refletir sobre o sentido da dor. Teve, igualmente, um sentido artístico, com a mostra de pintura de Francesco Guadanuolo, inaugurada dentro deste evento, e o concerto de música clássica, da última quarta-feira. Por último, teve um sentido litúrgico, com a Eucaristia presidida pelo Papa Beto XVI em São Pedro.

ACI

* Onda de suicídios de adolescentes alarma autoridades na Índia.

segunda-feira, fevereiro 1st, 2010

ZUBAIR AHMED
da BBC, em Mumbai

O clima no pequeno apartamento de Mumbai onde Neha Sawant vivia é sombrio desde que a adolescente de 11 anos foi encontrada enforcada em uma corda presa pela janela.

Isso já faz várias semanas, mas seus pais ainda não superaram o choque. Eles parecem confusos e cansados.
A avó de Neha, ainda perplexa, diz em uma voz embargada: “Nossos cérebros não estão funcionando. Ainda não podemos acreditar nisso”.

Aos 11 anos, Neha é uma das adolescentes mais jovens a cometer suicídio em Mumbai. Mas as estatísticas sugerem que mais e mais adolescentes estão se matando na cidade, que é o centro financeiro da Índia.

Ocorrência diária

Inexplicavelmente, os suicídios de adolescentes se tornaram quase uma ocorrência diária no Estado de Maharashtra – um dos mais desenvolvidos do país – e em sua capital, Mumbai.

O total de suicídios de adolescentes desde o começo do ano até o dia 26 de janeiro já era de 32, numa média de mais de um por dia.

Apesar de não haver nenhum dado do mesmo período em 2009 para comparação, há um consenso entre as autoridades preocupadas de Mumbai de que os suicídios de adolescentes estejam saindo de controle.

Também há um entendimento geral entre psicólogos e professores de que a principal razão para o alto número de mortes de adolescentes é a crescente pressão sobre as crianças para que se saiam bem nos exames escolares.

Mais de 100 mil pessoas cometem suicídio todos os anos na Índia, e três pessoas por dia tiram suas próprias vidas em Mumbai.

O suicídio é uma das três principais causas de morte entre as pessoas de 15 a 35 anos e tem um impacto psicológico, social e financeiro devastador sobre as famílias e os amigos.

Campanha

A diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Catherine Le Gals-Camus, observa que mais gente morre por conta de suicídio em todo o mundo do que por todos os homicídios e guerras combinadas.

“Há uma necessidade urgente de uma ação global coordenada e intensificada para prevenir essas mortes desnecessárias. Para cada morte por suicídio há um grande número de familiares e amigos cujas vidas são devastadas emocionalmente, socialmente e economicamente”, diz ela.

Em Mumbai, as autoridades estão tão alarmadas com o tamanho do problema que começaram uma campanha, com o slogan “A Vida é Bela”, visando ajudar os estudantes a lidar com a pressão acadêmica.

Psicólogos visitam escolas públicas em Mumbai uma vez por semana para treinar professores que lidam com problemas dos estudantes.

Reuniões

A escola Sharadashram Vidyamandir conta com vários ex-alunos ilustres no país, como os ex-jogadores de críquete da seleção indiana Sachin Tendulkar e Vinod Kambli.

A escola vem promovendo reuniões de pais e mestres nas quais os pais podem receber dicas de como combater as pressões que as crianças enfrentam.

Apesar disso, as sessões não preveniram a morte de Shushant Patil, de 12 anos. Ele foi encontrado enforcado num banheiro da escola no dia 5 de janeiro.

Mangala Kulkarni é diretora da ala feminina da escola. Ela diz que as famílias precisam adotar uma postura mais ativa quando se trata de evitar que os estudantes se sintam estressados.

“As crianças não percebem que elas têm mais caminhos do que apenas o sucesso acadêmico. Elas precisam ser levadas a perceber isso por suas famílias desde a infância”, diz.

Um serviço telefônico de ajuda em Mumbai, chamado Aasra, vem operando há vários anos para tentar combater o problema.

O diretor do serviço, Johnson Thomas, diz que os problemas que as crianças enfrentam hoje têm várias facetas.

“Elas enfrentam pressão dos colegas, têm problemas de comunicação com seus pais, relacionamentos desfeitos, pressão acadêmica e medo do fracasso”, afirma.

O Ministério do Interior estima que para cada suicídio de adolescente em Mumbai há 13 tentativas.

Cinema

Uma teoria por trás do recente aumento dos suicídios é a influência do lançamento recente de um filme de grande sucesso do cinema indiano, 3 Idiots (Três Idiotas), que tem uma cena na qual um estudante de engenharia é mostrado cometendo suicídio após um resultado medíocre nas provas.

O impacto do filme tem sido debatido e analisado em programas de televisão em horário nobre, com muitos especialistas acusando-o diretamente pelo problema.

Mas a psicóloga Rhea Timbekar, de Mumbai, argumenta que seria errado culpar o filme, o qual ela diz que se esforça para explicar que os pais não deveriam pôr muita pressão sobre seus filhos.

Timbekar diz que ela recentemente encontrou uma criança que não havia comido por quatro dias.

Os pais da criança disseram que estavam bravos com o filho porque ele tinha obtido apenas uma nota de 89% nos exames e era o terceiro aluno da classe, não mais o primeiro como nos anos anteriores.

“Pais assim precisam receber aconselhamento”, defende ela.

Timbekar diz que outra explicação para o alto índice de suicídios de adolescentes é o fato de muitas crianças lerem sobre histórias de suicídios nos jornais e decidirem tentar a mesma coisa elas mesmas.

Explicação simplista

Dilip Panicker, um conhecido psicólogo de Mumbai, diz porém que somente a pressão dos exames é uma explicação muito simplista para o problema.

“Em um certo nível, as pressões da escola e as expectativas dos pais são uma razão válida, mas elas sempre existiram”, ele diz.

“Na verdade, os pais costumavam bater nos filhos na nossa época. O que mudou é que hoje as crianças estão mais atentas, têm mais exposição. Elas são mais independentes. Então, elas se culpam pelo fracasso e tomam atitudes extremas”, afirma.

Alguns psicólogos argumentam ainda que a definição de adolescente precisa ser revista em 2010.

“O que fazíamos aos 14 ou 15 anos, as crianças de 11 estão fazendo hoje”, diz Rhea Timbekar.

Ela destrói a teoria de que as crianças são mais espontâneas ao cometer suicídio, ao contrário dos adultos que começariam com uma ideia, desenvolveriam um plano e terminariam com uma ação.

“Uma criança não acorda simplesmente numa manhã e decide que vai se matar naquele dia”, ela argumenta. “Alguma coisa se perdeu nas suas vidas muito antes, e os suicídios são uma manifestação disso.”

O declínio do sistema familiar tradicional da Índia também está sendo responsabilizado pelo problema.

Em uma cidade como Mumbai, onde é comum que ambos os pais trabalhem, as crianças tendem a se tornar reclusas e a passar muito tempo diante da televisão.

Para Dilip Panicker, há uma solução simples para o problema. “Se os pais amarem os filhos incondicionalmente, com todos os seus sucessos e fracassos, o problema poderia ser reduzido consideravelmente“, diz.

* A Cruz é o sofrimento com um sentido.Um sentido divino e transcendente.

sexta-feira, janeiro 22nd, 2010
Sidney Silveira

A efusão do sangue de Cristo na Cruz é a causa meritória da nossa saúde eterna. É da Cruz que nos vem todo e qualquer benefício espiritual. Toda a espiritualidade católica baseia-se na Cruz e dela se nutre. Retire-se a Cruz, e haverá uma queda contínua até o seu abismal avesso: o prazer hedônico, doentio, fetichizado, cego, pervertido, invertido, insaciável, utilitarista.

A Cruz é o sofrimento com um sentido — um sentido divino, transcendente. Afastar-se da Cruz é perder o significado da dor de amor e, portanto, da própria vida humana. Aproximar-se da Cruz é tornar sagrado o sofrimento. É sacrum facere. A Cruz é o amor em seu ápice pletórico insuperável.

Sem a Cruz, só nos resta cair na depressão psicológica — ou, como diziam os latinos, no pecado da acídia —, pois como suportar as dores, os males, as doenças, as traições, a morte, as faltas e as incompletudes que parecem constituir toda a nossa existência, sem acabar por descrer da excelência a que estamos destinados? Só a Cruz pode dar sentido a tudo isso. A Cruz dá perfeito sentido à vida e à morte.

Sem a Cruz, só nos resta cair na languidez de uma feérica atividade da imaginação, pois, quem não consegue encontrar nenhum sentido para a inevitável dor que as vezes acompanha o viver, há de viver imaginando como fugir da dor. E dar asas à imaginação, como diziam os Padres do Deserto, é dar armas para o demônio.

Sem a Cruz, só nos resta sucumbir às atitudes mais antiéticas possíveis. Sempre que se apresentar a ocasião, o homem para quem a dor e os males não têm sentido fará de tudo para minimizar os seus problemas, a qualquer custo. Só na Cruz pode haver verdadeira ética; as demais éticas estão, em relação à da Cruz, como o imperfeito está para o que é perfeito.

Sem a Cruz, só nos resta cair no individualismo, esse vício mental terrível. Para o individualista (sempre uma pessoa sumamente problemática), não existe verdadeira doação de amor, mas apenas ações torpemente interesseiras, movidas ou pelo desejo de auto-satisfação ou pela inveja — como no caso da anticatólica teoria de René Girard, uma “diabolice” de péssimo gosto. Se essa teoria satânica fosse correta, não haveria boas ações, em sentido próprio, mas as haveria apenas por analogia de atribuição extrínseca. Um católico que acreditasse nisso seria um católico, literalmente, sem Cruz.
Sem a Cruz, só nos resta perder o sentido espiritual da beleza, mais cedo ou mais tarde. A beleza, sem a Cruz, é a beleza física, a beleza emparedada na imanência, num plano meramente sensível, limitado e limitante. A beleza, com a Cruz, é a beleza da vontade que escolheu o bem do próximo — por amor a Deus —, e também da inteligência que assimilou as verdades fundamentais.
Tudo isso (e muito mais) veio-me à mente hoje, ao reler o belíssimo texto intentio cordis, do Nougué, onde se reafirma a eterna verdade do pó que somos e do pó que havemos de ser — os quais só alcançam sentido humano na Cruz.
Amar a Cruz, no entanto, é uma meta, um desafio. Algo que só se consegue com o auxílio da Graça. Senti-o eu mesmo, quanto extraí um câncer, há três anos, e agora, quando um insidioso problema de saúde me acomete. É difícil, sim, mas não há outro caminho para o cristão.
Dizia o Padre Pio: “A verdadeira dor é a que nos causam as pessoas que amamos”.
Fonte: Contra impugnantes

* “Deus sussurra em nossos prazeres,fala em nossas consciências e brada em nosso sofrimento”.

quinta-feira, janeiro 21st, 2010

Um terremoto em nossas consciências! É disso que precisamos, e é isso que, em última instância, o terremoto do Haiti e as outras tragédias recentes acabaram por desencadear.

O filósofo cristão C.S. Lewis chama a dor de Megafone de Deus. Segundo ele, “Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas brada em nosso sofrimento. A dor é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo”

Que triste é constatar que só após um acontecimento hediondo como este os homens puderam dar as mãos. Foi necessário um terremoto de gigantescas proporções para despertar o mundo do seu sono. Contudo, ao menos deram-se as mãos! E enquanto as destras se estenderem em solidariedade e amor ao próximo, restará alguma esperança para a humanidade.

Arnaldo Jabor

A Igreja não é autora da verdade humana, sujeita às revisões de cada tempo, mas depositária da VERDADE revelada por Deus, em Cristo Jesus.
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