
“Eu sou a mãe do lindo amor…”. O cardeal Angelo Scola, patriarca de Veneza, está recebendo as notas do discurso da Festa do Redentor. Partindo dos trechos das Escrituras sobre o “lindo amor”, ele irá abordar temas delicados como a sexualidade, pedofilia, virgindade e celibato.
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Jornal Corriere della sera
Por que essa escolha?
Pela dificuldade que nós cristãos temos de divulgar que o estilo de vida afetivo e sexual indicado pela Igreja é bom e conveniente para o homem de hoje. Do contrário, parece quase que esta proposta não somente seja ultrapassada, incapaz de satisfazer o desejo humano de alegria plena, mas também que seja de fato contrária a liberdade e irreal, incapaz de levar em consideração aquilo que o homem aprendeu a respeito de si mesmo e a respeito do mundo das emoções, dos afetos, das relações com o outro, graças a uma longa história e as recentes descobertas científicas. Ouvi tudo isso como uma provocação dizendo que os homens e as mulheres de hoje, talvez involuntariamente, arriscam a perder algo profundo, perdem uma grande chance de realização, se colocam a parte da proposta cristã ligada a vida afetiva e sexual.
Mas em que se baseia essa proposta?
Me parece que a idéia bíblica do ‘lindo amor’, que a tradição cristã aprofundou, seja particularmente adequada, exatamente pela sua capacidade de conjugar o amor e a beleza, de vê-lo surgir desta e percebê-lo como ‘difusor’ de beleza, capaz de fazê-la brilhar no rosto dos outros. Os pais da Igreja referem-se ao tema bíblico do ‘lindo amor’ não somente à Nossa Senhora mas também a Jesus. Tomás fala da beleza como do ‘esplendor da verdade’; para Boaventura aquele que contempla Deus, ou seja, que o ama, se torna completamente belo. Mas esta capacidade muitas vezes falta a experiência sexual dos homens e das mulheres de hoje. Viver a beleza significa arrancar da sexualidade o dualismo entre espírito e corpo; como se segurássemos a sexualidade no animalesco e depois em partes tivéssemos ímpetos espirituais de intenção de lindo amor.
Pascal dizia que o homem está no meio do caminho entre o animal e o anjo, mas deve ficar bem atento em não cuidar somente de um ou outro; cada um de nós, inseparável da alma e do corpo, deve considerar a dimensão sexual do próprio eu por toda a vida, do nascimento a morte.
Patriarca, o senhor conhece a crítica feita aos homens da Igreja: falam de coisas que não vivem, por vezes de maneira anormal, e não lhe dizem respeito.
Acabei de dizer que ‘cada homem e cada mulher’ devem considerar a dimensão sexual por toda a vida! Certo, quem é chamado a virgindade ou ao celibato o faz de forma única mas, fique bem claro, sem mutilações psicológicas e espirituais. A mensagem cristã vem levada em vasos de argila, e portanto, que homens da Igreja possam cair em contradições trágicas e graves nos níveis afetivos e sexuais, não invalida por si a proposta como tal. Obviamente não o digo para encobrir escândalos.
Como sair do escândalo da pedofilia?
O Santo Padre, a partir da ‘ Carta aos Católicos da Irlanda’, soube encarar a situação de modo claro e decidido: uma condenação sem meios termos pela gravidade extrema deste pecado e deste crime. As palavras-chave – misericórdia, justiça em leal colaboração com as autoridades civis, e penitência – fazem com que se possa confrontar qualquer caso. O Papa não subestima a responsabilidade de cada membro do único corpo eclesiástico e, principalmente, do colégio episcopal. É um escândalo que diz respeito a toda a Igreja, chamada a uma profunda penitência e a uma reforma que não poderá deixar nenhum nível da sua missão de fora. Uma coisa, porém, me tocou neste caso: aqueles que deveriam falar, para ajudar-nos a entender as raízes deste mal e tentar eliminá-lo, estão quietos.
A quem se refere?
Aos psicólogos, aos educadores, aos pedagogos, aos homens chamados a aprofundar estes lados obscuros do eu. A imprensa denunciou o fenômeno com ênfase compreensível, em termos até justificáveis, mas indiscutivelmente de maneira excessiva.
O senhor fala da necessidade de reforma na Igreja.
Como o Santo Padre nos indicou, os casos terríveis de pedofilia e as comprovadas responsabilidades de cobertura ingênua ou negligência por parte das autoridades clamam fortemente a condição de realidade sempre em reforma da Igreja. Bento XVI exige penitência, chegar as raízes da misericórdia, ou seja, ir de encontro pessoalmente ao Tu de Cristo, e relembra que os inimigos mais perigosos da Igreja vem do meio dela e não de fora.
Mas em que consiste a reforma?
Especificamente, redescobrir o nexo entre o lindo amor e a sexualidade. Mostrar que a satisfação plena do desejo é encontrar o verdadeiro rosto do outro, sobretudo na relação homem-mulher. E aprender, de novo, como a esfera da sexualidade exija ser integrada no eu através de uma grande virtude, infelizmente em desuso: a castidade. Para redescobri-la precisamos de coragem para falar sobre a maneira na qual vivemos hoje a esfera sexual.
A que maneira se refere?
Cito o exemplo mais sofisticado. Os mais recentes estudos da neurociência, como os de Helen Fisher, remetem a todas as dimensões do amor, inclusive ‘o amor romântico’, a simples modificações neuronais do nosso cérebro. Fim da liberdade e da criatividade também neste âmbito? É verdade que temos necessidade de comer e beber, como os animais; mas não comemos e bebemos como animais, pelo contrário, a cozinha se tornou uma arte, um aspecto de civilização; e isto vale muito mais para a dimensão sexual. Uma presunção reducionista como aquela de Fisher é uma variante da tentação de conceber o homem como simples experimento de si mesmo. Assim se cria uma mentalidade, um clima no qual o desejo, a energia da liberdade que encontra a realidade, se torna livre de sentido, e a dimensão sexual assume uma fisionomia quase animalesca. Mas, este um homem e uma mulher, quando estão em si, não podem aceitá-lo.
Castidade e sexualidade são sentidas como antíteses.
A castidade mantém o “Eu” em ordem. Eliminá-la significa reduzir o amor a mera habilidade sexual, veiculada por uma sub-estrutura de relações humanas que se fundamenta em um grave equívoco e isto está na idéia de que no homem exista um ‘instinto sexual’ como ocorre com os animais.
A psicanálise demonstra que não é verdade: também no nosso inconsciente mais profundo nada se joga sem envolvimento do eu. O sacrifício e o distanciamento requeridos pela castidade mantêm o eu pessoal unido, abrindo caminho para uma possessão mais autêntica. O sacrifício não anula a posse, é a condição que o expõe. Os doutores da Igreja falavam de propósito de ‘ gaudium’ (gozo). O puro prazer, que por sua natureza acaba logo, pede para ser inserido no gozo, pois se ficar fechado em si mesmo anula lentamente a posse, o enfraquece, o deprime. Me impressiona o fato de que quando digo estas coisas aos jovens, encontro mais surpresa do que crítica.
Gozo e sexualidade parecem conceitos incompatíveis com a doutrina católica.
Não é assim. A mensagem bíblica foi a primeira, historicamente falando, a fazer ver a diferença sexual de uma ótica absolutamente positiva e criativa, como dom de Deus. Mas como em todas as coisas humanas, o positivo, o bem, o verdadeiro nunca são baratos. Mas sem o belo, o bom, o verdadeiro, a vida se enfraquece, não há em si energia para conduzir ao marasmo do real.
No livro dos Provérbios, entre as coisas muito árduas para compreender, o autor considera ‘a estrada do homem em uma jovem mulher’. A mulher é a figura daquela que está no início: eu saio dela ao nascer. Então quando o homem e a mulher se encontram fazem ao mesmo tempo a experiência de recomeçar aquilo que de qualquer forma já conheciam e de dar vida a uma novidade. Aqui existe a inextirpável raiz da fecundidade. O amor objetivo nunca é uma relação a dois. O aprendemos através da Trindade.
Mas o que a reforma da Igreja tem a ver com isso?
Tem tudo a ver! Fundamental para a reforma da Igreja é reencontrar testemunhas confiáveis do lindo amor, que Cristo, com uma infinidade de santos na sua grande maioria anônimos, introduziu na história. Penso em tantas gerações vividas na lógica do lindo amor. Penso nos meus pais, nos olhos com os quais meu pai aos noventa anos olhava minha mãe também com noventa, doente, debilitada por um câncer violento nos rins. Penso nos casais antigos que quase todos os domingos, no final da missa, vem me dizer: ‘Esta semana são cinqüenta’, ou ‘esta semana são sessenta anos de casados’. Que amor teria sobrevivido melhor ao eu do que esta ligação indissolúvel? Objetivamente não há comparação entre a densidade de uma experiência assim definitiva e o passar indefinido de uma sequência de relações precárias. No fim, seja a necessidade de amar definitivamente, seja a fragilidade sexual serão marcadas pelo terror da morte. Para amar verdadeiramente devo ser amado definitivamente, ou seja, além da morte; e é isto que Jesus veio fazer. Se há um delito que nós cristãos cometemos, é não mostrar o dom estupendo de Jesus: dar a vida para nos fazer entender a beleza do amor objetivo e efetivo. Isso sempre tem um caráter nupcial, inseparável conexão de diferença, dom de si e fecundidade. O outro não está fora do meu eu, o outro me permeia todos os dias; a minha própria concepção está ligada a este permear-me. Por isso humanizar a sexualidade através da castidade é um recurso capital para vencer a aposta do pós-moderno, para o homem do terceiro milênio que queira salvar o caminho do lindo amor, o qual nos faz gozar verdadeiramente a vida.