Se alguém tivesse que pedir a um escritório central de seleção de atores em Hollywood para encontrar alguém para representar um guru espiritual em seu apogeu com seu próprio império de mídia, a escolha provavelmente não se pareceria muito ao padre oblato Ron Rolheiser. Baixo, de óculos e decididamente nada extravagante, Rolheiser é mais parecido a um professor do Ensino Médio com um senso de humor irônico do que a uma versão católica de Joel Osteen, Tony Robbins ou Deepak Chopra.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter.
No entanto, sem uma postura teatral ou qualquer real autopromoção, Rolheiser, 62 anos, tornou-se um dos escritores e palestrantes mais populares sobre espiritualidade católica no mundo de fala inglesa.
Seu livro “The Holy Longing” já vendeu mais de 200.000 cópias, sua coluna semanal é publicada em mais de 60 jornais em vários países, e Rolheiser é perpetuamente requisitado para dar oficinas, retiros e dias de recolhimento em todo o mundo.
Rolheiser baseia-se em diversas fontes, como a Bíblia, São João da Cruz,John Updike para tecer uma abordagem distintamente católica para a vida do início do século XXI. É um estilo que, obviamente, ressoa com uma ampla amostra representativa dos povos.
“Ele nos lembra do que significa ser plenamente humano e como viver uma vida de reconciliação e de graça”, diz Kerry Robinson, diretora executiva da National Leadership Roundtable for Church Management [organização católica para o fomento de práticas administrativas, financeiras e de recursos humanos na Igreja Católica].
Robinson disse que o que ela apreende da leitura de Rolheiser é “uma fé madura, adulta”.
Rolheiser é como aquele pensador raro que pode atrair tanto aqueles que têm doutorado em teologia sistemática, quanto aqueles que têm 20 e poucos anos, completamente secularizados, que provavelmente pensam que Rahner e von Balthasar são os nomes de bandas techno alemães. Enquanto Rolheiser é frequentemente elogiado pelo seu equilíbrio, ele está preocupado com experiências humanas fundamentais, tais como solidão, o medo e a inquietação, e como os recursos espirituais da tradição católica podem ajudar as mulheres e os homens pós-modernos a enfrentá-las.
Aqui está uma história típica de Rolheiser: Arthur Pingolt, leigo e ex-banqueiro de investimentos que se tornou presidente da Oblate Missionary Partnership, diz que há não muito tempo ele deu uma cópia do livro “Against an Infinite Horizon” de Rolheiser para um amigo bastante antigo nos seus 80 anos, que gostou tanto do presente que comprou uma cópia para o seu pároco. Ao mesmo tempo, Pingolt enviou o livro à sua filha, universitária da altamente secular Arizona State University. Duas semanas depois, ela relatou que chegou a reler alguns trechos durante momentos difíceis para encontrar consolação e sabedoria.
Poucos autores católicos têm esse tipo de atração para todas as idades, dentro do maior espectro possível de perspectivas políticas e teológicas e experiências de vida.
Rolheiser foi entrevistado pelo NCR durante o Congresso de Ensino Religioso em Anaheim, encontro anual promovido pela arquidiocese de Los Angeles. Todos os anos, suas sessões são um ímã para imensas multidões. Este ano, os tópicos de Rolheiser foram habitualmente atraentes: “A filantropia do coração” e “Viver em superabundância”.
Os prados canadenses
Rolheiser nasceu nas pradarias de da zona rural de Saskatchewan, no Canadá central, em uma família de imigrantes alemães muito católica de classe média. A fé se difundiu por todo o clã Rolheiser. Um de seus irmãos, Wendelin, agora com 73 anos, também é sacerdote oblato, trabalhando atualmente como missionário entre os povos indígenas do norte do Canadá.
Olhando para trás, Rolheiser diz que o catolicismo da sua juventude, decididamente marcado pelo ethos da Igreja antes do Concílio Vaticano II, era “conservador, mas saudável”.
“Nós íamos à missa nas primeiras sextas-feiras do mês, e eu memorizei todos os três Catecismos Baltimore. Eu ainda sei a maioria deles de cor”, disse Rolheiser. “Eu cresci em um catolicismo conservador que me ancorou e ainda me ancora”.
O jovem Rolheiser foi educado pelas irmãs ursulinas, que, sob um regime único no Canadá rural da época, podiam ensinar em escolas públicas da região. Sua erudição e cultura foram um primeiro chamariz de Rolheiser para a vida religiosa.
“Elas foram de longe as melhores professoras”, disse Rolheiser. “Essas irmãs eram como um farol de luz – elas vinham com mestrado, sabiam literatura e arte, e assim por diante”.
Rolheiser também conheceu os Oblatos de Maria Imaculada. Na época, os oblatos estavam auxiliando sua paróquia local. Entrar na ordem parecia ser uma progressão natural para Rolheiser, mesmo que ele nunca tenha frequentado o seminário menor, porque, naquela época, seus pais já tinham esgotado seus recursos ao enviar seus dois irmãos mais velhos para a escola.
Rolheiser fez seus estudos de graduação em teologia no Newman Theological College, em Edmonton, no Canadá, e na Universidade de San Francisco no início dos anos 70, e continuou com um mestrado e um doutorado na Universidade de Louvain, na Bélgica, no início dos anos 80. Ele passou a maior parte de sua carreira docente em teologia em Edmonton, com uma temporada como superior provincial do Canadá central de 1991 a 1997 e na administração geral em Roma, de 1998 a 2004.
Em 2005, Rolheiser tornou-se presidente da Escola de Teologia dos Oblatos, em San Antonio, um posto que ainda mantém. Para alguém tão devorado pelas ideias como Rolheiser, assumir um exigente cargo administrativo não seria necessariamente a sua primeira escolha, mas ele disse que isso faz parte da vida religiosa.
“Eu não estaria fazendo esse trabalho se não fosse pela nossa própria comunidade”, disse ele. “Eu sou como uma dona-de-casa… Eu gostaria que a minha carreira seguisse por um caminho diferente, mas agora a família precisa de mim”.
Equilibrar as várias demandas que ele enfrenta, disse Rolheiser, requer “uma enorme disciplina em sua vida” – uma disciplina, disse, que ele está consciente de que não pode manter para sempre. No máximo, disse Rolheiser, ele acha que pode ficar mais cinco anos como reitor do seminário, com um ano sabático em algum momento intermediário.
Conectando fios diferentes
Até hoje, Rolheiser publicou sete livros, com um oitavo, sobre a Eucaristia, previsto para ser publicado pela editora Doubleday neste mês. O título de trabalho é “Our One Great Act of Fidelity”, baseado em uma ideia antiga do escritor católico inglês Ronald Knox: os cristãos, ao longo da história, ignoraram grande parte do que Jesus lhes pediu para fazer, como perdoar seus inimigos e dar a outra face. Há realmente apenas um pedido que a Igreja consistentemente tem conseguido honrar, disse Knox: “Fazei isto em memória de mim”.
Rolheiser diz que as ideias para os seus livros vêm de três fontes básicas: a fé de sua juventude, sua ampla leitura e sua própria experiência de vida. Em termos de leitura, Rolheiser disse que o truque é abranger materiais divergentes de forma ampla, para ver quais ligações improváveis eles podem despertar.
“Às vezes, suas melhores ideias vêm ao conectar fios diferentes”, disse.
“Agora, por exemplo, eu estou lendo Charles Taylor sobre o secularismo. Esse é o meu tipo de leitura pesada. Estou lendo Ruth Burrows sobre a oração e estou lendo um romance de Barbara Kingsolver. A questão é que não estou mantendo-os em categorias separadas. Tento colocá-los juntos, para ver o que eles podem dizer uns aos outros”.
Pelo menos em termos comerciais, o livro de maior sucesso de Rolheiser é “The Holy Longing”, publicado pela Doubleday em 1999. Após abri-lo com uma meditação básica sobre o desejo e a inquietação humanos, Rolheiser apresenta alguns “princípios inegociáveis” da espiritualidade cristã, e depois aplica-os a temas centrais, como a Igreja, o mistério pascal, justiça e paz, e sexualidade.
Esses “princípios inegociáveis” são:
- A oração a moralidade privadas;
- Justiça Social;
- Delicadeza de coração e espírito;
- Comunidade como um elemento constitutivo do verdadeiro louvor.
Rolheiser afirma que uma ênfase excessiva em um ou mais desses quatro princípios irá produzir uma “espiritualidade fraturado”.
Antes de “The Holy Longing”, os títulos anteriores de Rolheiser haviam vendido entre 10.000 a 15.000 cópias, o que não é ruim para um livro do nicho católico, mas dificilmente é o suficiente para despontar nas listas de best-sellers do mercado de massa. “The Holy Longing”, no entanto, se tornou um fenômeno e catapultou Rolheiser para a lista “A” de autores católicos contemporâneos.
Rolheiser credita a Eric Major, que na época era o editor de religião da Doubleday, a ideia básica.
“Nós estávamos tomando uma cerveja em um pub na Inglaterra”, lembrou Rolheiser, “e ele disse: ‘Não escreva um livro acadêmico. Escreva um livro que, como pai, eu possa dar para os meus filhos adultos que não são praticantes, para explicar-lhes como eu entendo o cristianismo e porque eu ainda vou à igreja, e que eu possa ler nos dias em que eu não estou muito seguro’”.
O padre jesuíta James Martin, ele também um escritor reconhecido sobre espiritualidade católica, chamou o capítulo sobre sexualidade em “The Holy Longing” como “a melhor abordagem curta que eu já li sobre o assunto”.
“Eu não sei dizer o número de vezes que eu recomendei esse livro, ou esse capítulo, para as pessoas, ou o número de vezes que eles me agradeceram por ter feito isso”, disse Martin.
Rolheiser disse pensar que o segredo para o sucesso de “The Holy Longing” é que ele oferece um guia básico para o crescente deserto dos recursos espirituais de hoje.
“Vivemos em uma cultura, e uma cultura religiosa, de uma pluralidade riquíssima”, disse. “Somos ricos em tudo, exceto em clareza”.
“Você vai a uma livraria religiosa hoje, e é como ir ao Tower Records [loja de música e filmes], em Londres“, disse. “Você fica sobrecarregado. Você tem milhares de discos, e todos eles tem capas atrativas, por isso você precisa de um guia para saber o que é bom. Essa é a forma que muitas pessoas veem a espiritualidade. Eu sou cristão, eu sou católico romano – o que é essencial?”.
“The Holy Longing”, disse Rolheiser, foi a sua tentativa de apresentar esses princípios.
Três fomes espirituais
Aproveitando o sucesso de “The Holy Longing”, outros livros de Rolheiser começaram a encontrar uma audiência maior, e os convites a falar em eventos em todo o mundo católico começaram a aparecer. Uma década e meia depois, Rolheiser pode já ter falado sobre os princípios da espiritualidade católica para mais pessoas, em uma ampla variedade de situações, do que qualquer outra pessoa do universo católico de fala inglesa.
Dentre outras coisas, essa experiência deu a Rolheiser um discernimento único sobre as fomes espirituais que atualmente permeiam os católicos atentos que tentam dar sentido ao mundo do século XXI.
Ele destaca três temas centrais que parecem estar borbulhando hoje:
- Um déficit generalizado de interioridade;
- Individualismo e isolamento;
- O ritmo assustador da mudança.
Quanto ao primeiro ponto, disse Rolheiser: “Nós temos uma cultura tecnológica e informativamente muito ocupada e pressionada. Você anda por um aeroporto, e todos estão com seus telefones celulares, todo mundo com seu iPod. A tecnologia está tornando-nos as pessoas mais comunicativas e as mais eficientes do que nunca, mas eu acho que isso está impactando severamente em nossa interioridade”.
O problema, segundo ele, é a falta de tempo para cultivar uma vida interior.
“Quando nós pensamos hoje?”, perguntou. “Como disse Thomas Friedman em “O mundo é plano”, algumas pessoas chamam isso de “multitasking” [multitarefa], mas eu chamo isso de estar desatento a mais de uma coisa de cada vez. Muitas vezes hoje, se você perguntar a uma pessoa o que é realmente profundo em sua mente, ela não pensou sobre isso há muito tempo”.
Sobre a questão de um sentimento propagado de isolamento, Rolheiser disse que o individualismo da cultura ocidental é um grande dom, mas também tem seu preço.
“Nós somos o povo mais livre que já andou neste planeta”, disse, “mas o preço que pagamos é que as estruturas de nossa família são fracas, as estruturas de nossa comunidade são fracas, e as nossas estruturas eclesiais estão se tornando fracas”.
“Tudo isso isola as pessoas”, disse Rolheiser, “por isso, há muita de solidão e medo profundos. Quem sou eu, quem me ama, quem se preocupa se eu estou vivo ou morto?”.
Rolheiser disse que, enquanto há uma certa libertação ao se “nomear” essa realidade, a espiritualidade cristã tem que fazer mais do que condenar o hiperindividualismo. Ela também deve oferecer um antídoto.
“É como um alcoólatra”, disse. “Eu sei que eu tenho um problema, mas o que eu faço com ele?”.
Finalmente, disse Rolheiser, cada vez mais pessoas hoje consideram que viver em uma “aldeia global” em constante mudança é mais alarmante do que estimulante.
“Se você não tem raízes profundas, isso pode ser muito assustador”, disse.
“As pessoas se encontram em um mar de infamiliaridade, um mar de novidade, por isso coisas como o Islã ou a imigração ou qualquer coisa começam a parecer realmente assustadoras. Há muito medo declarado em um sentimento inconsciente, e às vezes quase consciente, de ‘aonde tudo isso está indo?”.
“Eu vejo muitas de nossas políticas civis, e muitas políticas da nossa Igreja às vezes, sob essa luz”, afirmou Rolheiser. “Muitas das nossas atitudes às vezes são baseadas no medo, impulsionadas por raiz voltada a encontrar algo em que se agarrar”.
Ficar abaixo da polarização
Rolheiser disse que, enquanto essas forças estão entre as verdadeiras fontes da inquietação de hoje, muitas vezes, em círculos católicos, há uma confusão preliminar que deve ser eliminada.
Em geral, disse Rolheiser, é preciso “ficar abaixo” do atual clima de polarização e lutas internas na Igreja.
Sempre que ele fala a grupos católicos, disse, “essa polarização será direta, independentemente se for falada ou não falada. As tribos estão ali, e elas estão lhe avaliando, estão medindo uns aos outros”.
“O que isso costuma significar é que as questões eclesiais se tornam centrais”, disse Rolheiser. “Elas não são necessariamente as nossas perguntas mais profundas de todas. Elas se referem ao poder, a quem deve ser ordenado, a como o Papa está lidando com a crise dos abusos sexuais, e assim por diante”.
Rolheiser disse que aprendeu a sua abordagem de “ficar abaixo” dessas preocupações superficiais com Henri Nouwen, os escritor espiritual católico holandês.
“Sua premissa era de que o que é mais profundamente pessoal e privado é também o mais universal. Ele daria nome a esse tipo de experiência profundamente privada e guardada, muitas vezes caótica, solitária e até mesmo pecaminosa, e as pessoas diriam, ‘Esse cara acertou. É assim mesmo que eu estou me sentindo”.
Rolheiser disse que ele tenta fazer a mesma coisa – dar nome à experiência humana elementar à espreita das preocupações e reclamações ostensivas de alguém.
“Você tem que dizer: ‘Olhe, você está preocupado com a política, você está preocupado com a sua hipoteca, você está preocupado com quem vai ser ordenado, e você acha que seu pároco é muito liberal ou conservador. Esse não é o seu real problema’”, disse Rolheiser.
“Por baixo disso, eis uma pessoa assustada e solitária, que tem essas qualidades extraordinárias, mas que também está frustrado com elas”, disse. “Todas aquelas outras coisas têm o seu lugar relativo, mas esse não é realmente seu lugar. Vamos falar sobre o que realmente está acontecendo. “
Fazendo isso, disse Rolheiser, boa parte da polarização esquerda/direita desaparece, já que as pessoas fazem conexões no nível de suas preocupações mais profundas – suas “santos anseios”.
A boa notícia, disse Rolheiser, é que a tradição espiritual católica contém um conjunto único de recursos para canalizar esses anseios em direções saudáveis.
“Os Padres da Igreja primitiva costumavam dizer isto, e ainda é uma grande frase:” Deus escreveu dois livros. Deus escreveu a Bíblia, e Deus escreveu a natureza. Você deve aprender a como ler ambos os dois’”, disse Rolheiser.
“Uma das razões pelas quais eu sou católico é que eu acho que nós temos a tradição intelectual mais rica”, afirmou. “Temos 1.700, 1.800 anos de trabalho sobre esse segundo livro”.