
Talvez você tenha ouvido falar muito pouco sobre a ideologia do Gênero ou não saiba exatamente do que se trata.
Este estudo preparado pela Comissão Episcopal do Apostolado Leigo da Conferência Episcopal Peruana é fantástico e muito esclarecedor.
Você não pode deixar de ler. Se não der pelo tamanho, imprima para ler depois,mas leia!
Essa Ideologia é absolutamente antagônica ao plano original de Deus e precisamos conhecê-la para evangelicamente combatê-la.
O Assunto é muito sério e requer conhecimento fundamentado.após a leitura se entende uma série de acontecimentos da sociedade Brasileira,que aparentemente parecem desconexos mas que tem um fundo ideológico comum .
Pelo tamanho,postaremos de duas vezes.
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A IDEOLOGIA DO GÊNERO: SEUS PERIGOS E ALCANCES
Comissão Ad-Hoc da Mulher
Comissão Episcopal do Apostolado Leigo
Conferência Episcopal Peruana
APRESENTAÇÃO
Tem-se ouvido durante estes últimos anos a expressão “gênero” e muitos imaginam que é apenas uma outra maneira de se referir à divisão da humanidade em dois sexos. Porém, por detrás desta palavra se esconde toda uma ideologia que pretende, precisamente, modificar o pensamento dos seres humanos acerca desta estrutura bipolar.
Os proponentes desta ideologia querem afirmar que as diferenças entre o homem e a mulher, fora as óbvias diferenças anatômicas, não correspondem a uma natureza fixa que torne alguns seres humanos homens e, a outros, mulheres. Pensam, além disso, que as diferenças de pensar, agir e valorizar a si mesmos são produto da cultura de um país e de uma época determinadas, que atribui a cada grupo de pessoas uma série de características que se explicam pelas conveniências das estruturas sociais de certa sociedade.
Querem se rebelar contra isto e deixar à liberdade de cada um o tipo de “gênero” a que quer pertencer, todos igualmente válidos. Isto faz com que homens e mulheres heterossexuais, os homossexuais, as lésbicas e os bissexuais sejam apenas modos de comportamento sexual produto da escolha de cada pessoa, liberdade que todos os demais devem respeitar.
Não é necessária muita reflexão para se dar conta de quão revolucionária é esta posição e das conseqüências que implicam a negação de que há uma natureza dada a cada um dos seres humanos por seu capital genético. Dilui-se a diferença entre os sexos como algo convencionalmente atribuído pela sociedade e cada um pode “inventar” a si mesmo.
Toda a moral fica à livre decisão do indivíduo e desaparece a diferença entre o permitido e o proibido nesta matéria. As conseqüências religiosas são também óbvias. É conveniente que o público em geral perceba claramente o que tudo isto significa, pois os proponentes desta ideologia usam sistematicamente uma linguagem equívoca para poder se infiltrar mais facilmente no ambiente, enquanto habituam as pessoas a pensar como eles. Este estudo pode auxiliar muito na precisão dos conceitos e chamar a uma tomada de posição em relação à mencionada ideologia.
Mons. Oscar Alzamora Revoredo, S.M.
Bispo Auxiliar de Lima – Membro da CEAL
A IDEOLOGIA DO GÊNERO: SEUS PERIGOS.
“O gênero é uma construção cultural; consequentemente, não é nem resultado causal do sexo nem tão aparentemente fixo como o sexo… Ao teorizar que o gênero é uma construção radicamente independente do sexo, o próprio gênero vem a ser um artifício livre de ataduras; em conseqüência, ‘homem’ e ‘masculino’ poderiam significar tanto um corpo feminino quanto um masculino; ‘mulher’ e ‘feminino’, tanto um corpo masculino quanto feminino”[1].
Estas palavras – que podem parecer extraídas de um conto de ficção científica vaticinando uma séria perda do senso comum no ser humano – não são outra coisa senão um extrato do livro “Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity” (=”O Problema do Gênero: o Feminismo e a Subversão da Identidade”), da feminista radical Judith Butler, que vem sendo usado há vários anos como texto-base em diversos programas de estudos feministas de prestigiadas universidades norte-americanas, onde a perspectiva do gênero vem sendo amplamente promovida.
Enquanto muitos poderiam continuar considerando o termo “gênero” apenas como uma forma cortês de se dizer “sexo”, para evitar o sentido secundário que “sexo” possui em inglês, e que, portanto, “gênero” se refere a seres humanos masculinos e femininos, existem outros que, já há alguns anos, decidiram difundir toda uma “nova perspectiva” do termo. Esta perspectiva – para a surpresa de muitos – refere-se ao termo “gênero” como “papéis socialmente contruídos”.
A IV Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher, realizada em setembro de 1995 em Pequim [China], foi o cenário escolhido pelos promotores da nova perspectiva para lançar uma forte campanha de convencimento e difusão. É por isso que desde a mencionada Conferência, a “perspectiva do gênero” tem se infiltrado em diferentes âmbitos, não apenas dos países industrializados como também dos países em desenvolvimento.
DEFINIÇÃO DO TERMO “GÊNERO”
Precisamente na Conferência de Pequim, muitos dos delegados participantes que ignoravam esta “nova perspectiva” do termo em questão, solicitaram aos seus principais promotores uma definição clara que pudesse trazer luz ao debate. Assim, a direção da Conferência da ONU publicou a seguinte definição:
“O gênero refere-se às relações entre mulheres e homens baseadas em papéis definidos socialmente que são atribuídos a um ou outro sexo”.
Esta definição causou confusão entre os delegados da Conferência, principalmente entre aqueles provenientes de países católicos e da Santa Sé, que pediram uma maior explicitação do termo, já que se pressentia que este [vocábulo] poderia encobrir uma agenda inaceitável que incluiria a tolerância das orientações e identidades homossexuais, entre outras coisas. Foi então que Bella Abzug, ex-deputada do Congresso dos Estados Unidos, interveio para complementar a nova interpretação do termo “gênero”:
“O sentido do termo ‘gênero’ evoluiu, diferenciando-se da palavra ’sexo’ para expressar a realidade de que a situação e os papéis da mulher e do homem são construções sociais sujeitas a mudança”.
Restava claro, assim, que os partidários da “perspectiva do gênero” propunham algo muito mais temerário como, por exemplo, que “não existe um homem natural ou uma mulher natural; que não há conjunção de características ou de uma conduta exclusiva de um só sexo apenas, nem sequer na vida psíquica”[2]. Logo, “a inexistência de uma essência feminina ou masculina nos permite rejeitar a suposta ’superioridade’ de um ou outro sexo e questionar no possível se existe uma forma ‘natural’ de sexualidade humana”[3].
Diante de tal situação, muitos delegados questionaram o termo assim como a sua inclusão no documento. No entanto, a ex-deputada Abzug advogou duramente a seu favor:
“O conceito de ‘gênero’ está encravado no discurso social, político e legal contemporâneo. Tem integrado a planificação conceitual, a linguagem, os documentos e programas dos sistemas das Nações Unidas… As tentativas atuais de diversos Estados Membros de apagar o termo ‘gênero’ na Plataforma de Ação e substituí-lo por ’sexo’ é uma tentativa insultante e degradante de revogar as conquistas das mulheres, de nos intimidar e de bloquear o progresso futuro”.
A paixão de Bella Abzug no sentido de incluir o termo em Pequim chamou a atenção de muitos delegados. No entanto, o assombro e desconcerto foi ainda maior quando um dos participantes difundiu alguns textos empregados pelas feministas do gênero, professoras de reconhecidos colégios e universidades dos Estados Unidos. De acordo com a lista de leituras obtida pelo delegado, as “feministas do gênero” defendem e propagam as seguintes definições:
- Hegemonia ou hegemônico: idéias ou conceitos aceitos universalmente como naturais, porém que, na realidade, são construções sociais.
- Desconstrução: a tarefa de denunciar as idéias e a linguagem hegemônica (isto é, aceitas universalmente como naturais), com o objetivo de convencer as pessoas a crerem que suas percepções da realidade são construções sociais.
- Patriarcado, patriarcal: institucionalização do controle masculino sobre a mulher, os filhos e a sociedade, que perpetua a posição subordinada da mulher.
- Perversidade polimorfa, sexualmente polimorfo: os homens e as mulheres não sentem atração por pessoas do sexo oposto por natureza, mas sim por um condicionamento da sociedade. Com efeito, o desejo sexual pode ser dirigido a qualquer um.
- Heterossexualidade obrigatória: força-se as pessoas a pensar que o mundo está dividido em dois sexos que se atraem sexualmente um ao outro.
- Preferência ou orientação sexual: existem diversas formas de sexualidade – inclusive homossexuais, lesbianas, bissexuais, transexuais e travestis – que são equivalentes à heterossexualidade.
- Homofobia: medo de relações com pessoas do mesmo sexo; pessoas que são contrárias aos homossexuais (o termo se baseia na noção de que a idéia contra os homossexuais tem suas raízes na exaltação das tendências homossexuais).
Essas definições foram extraídas do material obrigatório do curso “Reimagem do Gênero”, produzido por um prestigioso colégio norte-americano. Além disto, as seguintes afirmações constam da bibliografia obrigatória do mesmo:
- “A teoria feminista já não se pode dar ao luxo de apenas pregar uma tolerância ao ‘lesbianismo’ como ‘estilo alternativo de vida’ ou fazer alusão à amostragem das lésbicas. Retardou-se demasiadamente uma crítica feminista da orientação heterossexual obrigatória da mulher”[4].
- “Uma estratégia apropriada e viável do direito ao aborto é a de informar a toda mulher que a penetração heterossexual é uma violação, seja qual for sua experiência subjetiva contrária”[5].
As afirmações citadas poderiam parecer suficientemente reveladoras sobre a perigosa agenda dos promotores desta “perspectiva”. Contudo, existem ainda outros postulados que as “feministas do gênero” propagam cada vez com maior força:
“Cada criança é enquadrada em uma ou outra categoria com base na forma e tamanho dos seus órgãos genitais. Uma vez feito este enquadramento, nos convertemos no que a cultura pensa que cada um é: feminino ou masculino. Ainda que muitos creiam que o homem e a mulher são expressão natural de um plano genético, o gênero é produto da cultura; e o pensamento humano, uma construção social que cria a ‘verdadeira natureza’ de todo indivíduo”[6].
É assim que para as “feministas do gênero” isto “implica classe e a classe pressupõe desigualdade. Lutar mais para desconstruir o gênero conduzirá muito mais rapidamente à meta”[7].
O FEMINISMO DO GÊNERO
Porém, em que consiste o “feminismo do gênero” e qual é a diferença com o comumente chamado “feminismo”? Para compreender mais profundamente o debate em torno do “termo gênero” vale a pena responder a esta questão.
O termo “feministas do gênero” foi cunhado primeiramente por Christina Hoff Sommers, em seu livro “Who Stole Feminism?” (”Quem Roubou o Feminismo?”), a fim de distinguir o feminismo de ideologia radical, surgido em finais da década de 1960, do movimento feminista anterior, que visava a igualdade. Eis as palavras de Hoff Sommers:
“O feminismo de igualdade é simplesmente a crença na igualdade legal e moral dos sexos. Uma feminista de igualdade quer para a mulher o que quer para todos: tratamento justo, ausência de discriminação. Pelo contrário, o feminismo do ‘genero’ é uma ideologia que pretende abranger tudo, segundo a qual a mulher norte-americana está presa em um sistema patriarcal opressivo. A feminista de igualdade opina que as coisas melhoraram muito para a mulher; a feminista do ‘gênero’ pensa que pioraram; enxergam sinais de patriarcado onde quer que estejam e pensam que a situação ficará ainda pior. Entretanto, isto carece de fundamento na realidade norte-americana. As coisas nunca estiveram melhores para a mulher; hoje 55% dos estudantes universitários são mulheres, enquando que a diferença salarial continua caindo”[8].
Ao que parece, este “feminismo do gênero” teve uma forte presença na Conferência de Pequim. É o que afirma Dale O’Leary, autora de numerosos ensaios sobre a mulher e participante da Conferência de Pequim; ela assegura que durante todas as reuniões de trabalho aquelas mulheres que se identificaram como feministas advogaram persistentemente pela inclusão da “perspectiva do gênero” no texto, definindo “gênero” como “papéis socialmente construídos” e usando a palavra “gênero” para substituir a palavra “mulher” ou a expressão “masculino e feminino”.
De fato, todas as pessoas familiarizadas com os objetivos do “feminismo do gênero” reconheceram imediatamente a conexão entre a mencionada ideologia e o rascunho do “Programa de Ação” de 27 de fevereiro, que incluía propostas aparentemente inocentes e termos particularmente ambíguos.
NEO-MARXISMO
Nas palavras de Dale O’Leary, a teoria do “feminismo do gênero” se baseia em uma interpretação neo-marxista da História. Começa com a afirmação de Marx de que toda a história é uma luta de classes, do opressor contra o oprimido, em uma batalha que se resolverá somente quando os oprimidos perceberem sua situação, levantarem-se em revolução e imporem uma ditadura dos oprimidos. A sociedade será totalmente reconstruída e surgirá a sociedade sem classes, livre de conflitos, que assegurará a paz e a prosperidade utópicas para todos.
O’Leary acrescenta que Frederick Engels foi quem assentou as bases da união entre o Marxismo e o Feminismo. Para isto, cita o livro “A Origem da Família, da Propriedade e do Estado”, escrito pelo pensador alemão em 1884, que assinala:
“O primeiro antagonismo de classes da História coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher unidos em matrimônio monogâmico; e a primeira opressão de uma classe por outra, com a do sexo feminino pelo masculino”[9].
Segundo O’Leary, os marxistas clássicos acreditavam que o sistema de classes desapareceria uma vez que se eliminasse a propriedade privada, se facilitasse o divórcio, se aceitasse a ilegitimidade, se forçasse a entrada da mulher no mercado de trabalho, se colocasse as crianças em creches e se eliminasse a religião. Porém, para as “feministas do gênero”, os marxistas fracassaram por se concentrar em soluções econômicas, sem atacar diretamente a família, que era a verdadeira causa das classes.
Nesse sentido, a feminista Shulamith Firestone afirma a necessidade de se destruir a diferença de classes, mais ainda a diferença dos sexos:
“…para assegurar a eliminação das classes sexuais requer que a classe subjugada (as mulheres) se levante em revolução e apodere do controle da reprodução; se restaure à mulher a propriedade sobre seus próprios corpos, como também o controle feminino da fertilidade humana, incluindo tanto as novas tecnologias quanto todas as instituições sociais de nascimento e cuidado das crianças. E assim como a meta final da revolução socialista era não apenas acabar com o privilégio da classe econômica como também a própria distinção das classes econômicas, a meta definitiva da revolução feminista deve ser igualmente – e diversamente do primeiro movimento feminista – não só acabar com o privilégio masculino como também com a própria distinção dos sexos: as diferenças genitais entre os seres humanos já não importam culturalmente”[10].
QUANDO A NATUREZA INCOMODA
É claro, portanto, que para esta nova “perspectiva do gênero”, a realidade da natureza incomoda, atrapalha e, assim, deve desaparecer. A esse respeito, a própria Shulamit Firestone dizia:
“O ‘natural’ não é necessariamente um valor ‘humano’. A humanidade começou a ultrapassar a natureza; já não podemos justificar a continuidade de um sistema discriminatório de classes por sexos tendo por base suas origens na Natureza. De fato, apenas por razão de pragmatismo começa a parecer que devemos desfazer-nos dela”[11].
Para os apaixonados defensores da “nova perspectiva”, não se devem fazer distinções porque qualquer diferença é suspeita, má, ofensiva. Dizem ainda que toda diferença entre o homem e a mulher é construção social e, por conseguinte, precisa ser alterada. Buscam estabelecer uma igualdade total entre homem e mulher sem considerar as naturais diferenças entre ambos, especialmente as diferenças sexuais; mais ainda, relativizam a noção de sexo de tal maneira que, segundo eles, não existiriam dois sexos, mas sim muitas “orientações sexuais”.
Com efeito, os mencionados promotores do “gênero” não encontraram melhor opção do que declarar guerra à natureza e às opções da mulher. Segundo O’Leary, as “feministas do gênero” denigrem o respeito pela mulher com a mesma veemência com que atacam a falta de respeito, já que para elas o “inimigo” é a diferença.
No entanto, é evidente que nem toda diferença é má, nem muito menos irreal. Tanto o homem quanto a mulher – criados à imagem e semelhança de Deus – têm suas próprias particularidades naturais que devem ser colocadas à serviço do outro, para alcançar um enriquecimento mútuo. Isto – claro está – não significa que os recursos pessoais da feminilidade sejam menores que os recursos da masculinidade; apenas significa que são diferentes.
Nesse sentido, se aceitamos o fato de que o homem e a mulher são diferentes, uma diferença estatística entre homens e mulheres que participam de uma certa atividade poderia ser mais do que uma amostra de discriminação: o simples reflexo destas diferenças naturais entre homem e mulher.
Não obstante, diante da evidência de que estas diferenças são naturais, os promotores da “nova perspectiva” não questionam suas teorias, preferindo mais atacar o conceito de natureza.
Além disso, consideram que as diferenças de “gênero” – que, segundo eles, existem em razão de uma construção social – forçam a mulher a ser dependente do homem e, por isso, a liberdade para a mulher não consistirá em agir sem restrições indevidas, mas em libertar-se dos “papéis de gênero socialmente construídos”. Nesse sentido, Ann Ferguson e Nancy Folbre afirmam:
“As feministas devem encontrar modos de apoio para que a mulher identifique seus interesses com a mulher, antes do que com seus deveres pessoais para com o homem no contexto da família. Isto requer estabelecer uma cultura feminista revolucionária autodefinida da mulher, que possa sustentar a mulher ideológica e materialmente ‘fora do patriarcado’. As redes de apoio contra-hegemônico material e cultural podem prover substitutos mulher – identificados da produção sexo-afetiva patriarcal, que proporcionem às mulheres maior controle sobre seus corpos, seu tempo de trabalho e seu sentido de si mesmas”[12].
Com esse fim, Ferguson e Folbre propõem quatro áreas principais de “ataque”:
1. Pleitear apoio econômico oficial para o cuidado das crianças e os direitos reprodutivos.
2. Pleitear liberdade sexual, que inclui o direito à preferência sexual (direitos homessexuais-lésbicos).
3. O controle feminista da produção ideológica e cultural (é importante porque a produção cultural afeta os fins, o sentido de si mesmo, as redes sociais e a produção de redes de criação e afeto, amizade e parentesco social).
4. Estabelecer ajuda mútua: sistemas de apoio econômico à mulher, desde redes de identidade exclusiva com a mulher até grupos de mulheres nos sindicatos que lutem pelos interesses femininos no trabalho assalariado.[13]
UMA BOA DESCULPA: A MULHER
Após revisar a peculiar “agenda feminista”, Dale O’Leary evidencia que o propósito de cada ponto da mesma não é melhorar a situação da mulher, mas separar a mulher do homem e destruir a identificação de seus interesses com os de suas famílias. Mesmo assim – acrescenta a especialista – o interesse primordial do feminismo radical nunca foi o de melhorar diretamente a situação da mulher, nem aumentar sua liberdade; ao contrário, para as feministas radicais ativas, as melhorias menores podem obstar a revolução da classe sexo/gênero.
Esta afirmação é confirmada pela feminista Heidi Hartmann, que radicalmente afirma:
“A questão da mulher nunca foi a ‘questão feminista’. Esta se dirige às causas da desigualdade sexual entre homens e mulheres, do domínio masculino sobre a mulher”[14].
Não foi em vão que durante a Conferência de Pequim a delegada canadense Valerie Raymond manifestou seu interesse no sentido de que a Conferência abordasse, paradoxalmente, “não como uma ‘Conferência da Mulher’”, mas com “os temas que deveriam ser enfocados através de uma ‘ótica do gênero’”
Assim, diz O’Leary, a “nova perspectiva” tem como objetivo impulsionar a agenda homossexual-lésbica-bissexual-transexual e não os interesses das mulheres comuns e correntes.
PAPÉIS SOCIALMENTE CONSTRUÍDOS
Para tratar deste ponto, tomemos a definição de “gênero” fornecida por um panfleto que circulou na Reunião do Comitê Preparatório de Pequim (ComPrep) preparado pelas partidárias da perspectiva em questão:
“Gênero se refere aos papéis e responsabilidades da mulher e do homem que são determinadas socialmente. O gênero se relaciona com a forma com que nos faz perceber e se espera que pensemos e atuemos como mulheres e homens, pela forma como a sociedade encontra-se organizada e não por nossas diferenças biológicas”.
Vale assinalar que o termo “papéis” distorce a discussão. Seguindo o estudo de O’Leary, “papel” se define primariamente como parte de uma produção teatral na qual uma pessoa, especialmente vestida e maquiada, representa um personagem conforme um roteiro escrito.
O emprego do termo “papel” ou da expressão “papéis desempenhados” transmite necessariamente a sensação de algo artificial que é imposto a uma pessoa.
Quando se substitui “papel” por outro vocábulo – tal como “vocação” – põe-se de manifesto como o termo “papel” afeta nossa percepção de identidade. Vocação envolve algo autêntico, não artificial, um chamado para ser o que somos. Respondemos à nossa vocação para realizar nossa natureza ou desenvolver nossos talentos e capacidades inatos. Nesse sentido, por exemplo, O’Leary destaca a vocação feminina para a maternidade, pois a maternidade não é um “papel”.
Quando a mãe concebe um filho, empreende uma relação duradoura com outro ser humano. Esta relação define a mulher, lhe coloca certas responsabilidades e afeta quase todos os aspectos da sua vida. Não está representando o papel de mãe; é uma mãe. A cultura e a tradição certamente influem sobre o modo de como a mulher cumpre as responsabilidades advindas da maternidade, mas não criam mães – esclarece O’Leary.
Entretanto, os promotores da “perspectiva do gênero” insistem em dizer que toda relação ou atividade dos seres humanos é resultante de uma “construção social”, que outorga ao homem uma posição superior na sociedade e, à mulher, uma [posição] inferior. Segundo esta perspectiva, o progresso da mulher requer que se liberte toda a sociedade desta “construção social”, de modo que o homem e a mulher sejam iguais.
Para isso, as “feministas do gênero” assinalam a urgência de “desconstruir estes papéis socialmente construídos”; segundo elas, podem ser divididos em três categorias principais:
1. Masculinade e Feminilidade: consideram que o homem e a mulher adultos são construções sociais; que, na realidade, o ser humano nasce sexualmente neutro e que logo é socializado em homem ou mulher. Esta socialização – afirmam – afeta a mulher negativa e injustamente. Por isso, as feministas propõem depurar a educação e os meios de comunicação de todo estereótipo e de toda imagem específica de gênero, para que as crianças possam crescer sem que sejam expostas a trabalhos “sexo-específicos”.
2. Relações Familiares: pai, mãe, marido e mulher… As feministas não apenas pretendem que se substituam estes termos “gênero-específicos” por palavras “gênero-neutras”, como também aspiram a que não haja diferenças de conduta nem responsabilidade entre o homem e a mulher na família. Segundo Dale O’Leary, esta é a categoria dos “papéis socialmente construídos” a que as feministas atribuem maior importância porque consideram que a experiência das relações “sexo-específicas” na família são a principal causa do sistema de classes “sexo/gêneros”.
3. Ocupações ou Profissões: o terceiro tipo de “papéis socialmente construídos” abrange as profissões que uma sociedade atribui a um ou outro sexo.
Embora as três categorias de “construção social” já pudessem ser suficientes, o repertório das “feministas do gênero” inclui ainda outra: a reprodução humana que – segundo afirmam – também é socialmente determinada. A esse respeito, Heidi Hartmann afirma:
“A forma com que se propaga a espécie [humana] é determinada socialmente. Se biologicamente a pessoa é sexualmente polimorfa e a sociedade estivesse organizada de modo que se permitisse por igual toda forma de expressão sexual, a reprodução seria resultado apenas de alguns encontros sexuais: os heterossexuais. A divisão estrita do trabalho por sexos, uma invenção social comum a toda sociedade conhecida, cria dois gêneros bem separados e a necessidade de que o homem e a mulher se juntem por razões econômicas. Contribui assim para orientar suas exigências sexuais para a realização heterossexual e para assegurar a reprodução biológica. Nas sociedades mais criativas, a reprodução biológica poderia ser assegurada mediante outras técnicas”[15].
Continua no próximo post..
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