Já verificamos que as normas na Sagrada Liturgia tem seu valor intrínseco, ou seja, que todas as previsões visam a melhor e mais correta vivência do mistério litúrgico (ler mais em A Norma Litúrgica e o Sagrado). Por isso devemos zelar pela riqueza espiritual que as normas buscam proteger, e não apenas porque a Santa Igreja assim nos diz (ainda que este seja um motivo que nos bastasse), mas para nos aprofundar cada vez mais na vivência do Sagrado.
Para tanto, existem diversos objetos litúrgicos que nos auxiliam neste belo e necessário momento de nossas vidas, que recebem o nome de “alfaias litúrgicas”. Por exemplo, podemos citar os vasos, as vestes e os livros litúrgicos.
A natureza e beleza do local e de todas as alfaias alimentem a piedade dos fiéis e manifestem a santidade dos mistérios celebrados.
(Introdução Geral sobre o Missal Romano, 294)
A Santa Sé sempre teve cuidado com tais objetos, desde o material em são feitos quanto à conservação dos mesmos. São diversas as referências em documentos da Igreja:
assegurar que se celebrem as funções religiosas de acordo com as prescrições da sagrada liturgia, que se conserve diligentemente o decoro e a limpeza das igrejas e das alfaias sagradas, principalmente na celebração eucarística e na conservação do santíssimo Sacramento, que se escrevam exatamente e se guardem devidamente os livros paroquiais, que se administrem cuidadosamente os bens eclesiásticos e se cuide da casa paroquial com a devida diligência.
(Código de Direito Canônico, Cân 555, § 1, 3º – negritei)
Sob a autoridade do Ordinário local e respeitando os legítimos estatutos e os direitos adquiridos, o reitor de igreja é obrigado a velar para que as funções sagradas sejam celebradas dignamente, na igreja de acordo com as normas litúrgicas e as prescrições dos cânones, para que se cumpram fielmente os encargos,para que se assegurem a conservação e o decoro das alfaias sagradas e das construções, e para que nada se faça que não convenha de algum modo à santidade do lugar e ao respeito devido à casa de Deus.
(Código de Direito Canônico, Cân 562 – negritei)
326. Na escolha dos materiais para as alfaias, admitem-se igualmente, além dos tradicionais, aqueles que são considerados nobres pela mentalidade atual, são duráveis e se prestam bem para o uso sagrado. (…)
348. Além dos vasos e das vestes sagradas, para os quais se prescreve determinado material, as demais alfaias destinadas ao culto litúrgico ou a qualquer uso na igreja, sejam dignas e condizentes com o fim a que se destinam.
349. Deve-se cuidar de modo especial que os livros litúrgicos, particularmente, o Evangeliário e o lecionário, destinados à proclamação da palavra de Deus, gozando, por isso, de veneração peculiar, sejam na ação litúrgica realmente sinais e símbolos das realidades celestes, e, por conseguinte, verdadeiramente dignos, artísticos e belos.
350. Além disso, deve-se atender com todo o cuidado às coisas que estão ligadas diretamente com o altar e a celebração eucarística, como sejam, por exemplo, a cruz do altar e a cruz que é levada em procissão.
(Introdução Geral sobre o Missal Romano – negritei)
Junto com o mestre de cerimônias, mas dependente dele, o sacristão prepara as celebrações do Bispo. O sacristão deve dispor cuidadosamente os livros destinados à proclamação da Palavra de Deus e à recitação das orações, os paramentos e demais coisas necessárias para a celebração. Deve cuidar do toque dos sinos para as celebrações sagradas. Procure observar o silêncio e a modéstia dentro da sacristia e no vestiário. Não descure as alfaias que se conservam na tradição local, antes as guarde nas melhores condições. Aquilo que for introduzido de novo, escolha-se de acordo com a arte contemporânea, posto de parte, contudo, o prurido de mera novidade.
(Cerimonial dos Bispos, 37 – negritei)
A Igreja preocupou-se com muita solicitude em que as alfaias sagradas contribuíssem para a dignidade e beleza do culto, aceitando no decorrer do tempo, na matéria, na forma e na ornamentação, as mudanças que o progresso técnico foi introduzindo.
(Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, 122)
Muitos se questionam porque deveríamos cuidar do bens materiais, se o que nos importa sãos os bens espirituais. Não seria um preciosismo desnecessário da Igreja? Por que devemos nos preocupar com estes objetos? A resposta novamente vai além de meras letras frias.
Temos que nos lembrar que Deus nos deu o tinha de melhor, seu próprio Filho, por amor e para oferecer a salvação aos homens. E toda a celebração litúrgica tem como objetivo e razões: adoração, contrição, ação de graças e pedir o que precisamos (conforme o Cardeal Francis Arinze - veja aqui).
Como poderíamos estar diante de Deus de forma indigna? Como poderíamos adorar a Deus com as vestes sujas e rasgadas? Estaríamos oferecendo o melhor a Deus estando com as alfaias mal cuidadas? Devemos lembrar que a celebração eucarística é centro de toda a nossa vida cristã:
A celebração da Missa, como ação de Cristo e do povo de Deus hierarquicamente ordenado, é o centro de toda a vida cristã tanto para a Igreja universal como local e também para cada um dos fiéis. Pois nela se encontra tanto o ápice da ação pela qual Deus santifica o mundo em Cristo, como o do culto que os homens oferecem ao Pai, adorando-o pelo Cristo, Filho de Deus.
(Introdução Geral sobre o Missal Romano, 16)
Assim, temos que zelar pela mais bela celebração do culto a Deus. Não se trata de celebração de um aniversário, mas sim de adoração a Deus. Não podemos oferecer qualquer coisa a Ele, mas apenas o melhor.
Sim, devemos participar de digna e com o coração direcionado ao Sagrado (veja mais AQUI
), mas também devemos ter tudo dignamente preparado para a celebração eucarística, para que seja bela. Não se trata de uma beleza decorativa (o que significa que não devemos preparar tudo para que seja bonito para os olhos dos outros), mas a beleza como forma de adoração a Deus.
O Papa Bento XVI já se manifestou nesse sentido:
35. (…)
Concluindo, a beleza não é um factor decorativo da acção litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há-de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à acção litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza.
36. A beleza intrínseca da liturgia tem, como sujeito próprio, Cristo ressuscitado e glorificado no Espírito Santo, que inclui a Igreja na sua acção. (…)
38. Durante os trabalhos sinodais, foi várias vezes recomendada a necessidade de superar toda e qualquer separação entre a arte da celebração (ars celebrandi, isto é, a arte de celebrar rectamente) e a participação plena, activa e frutuosa de todos os fiéis: com efeito, o primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a condigna celebração do mesmo; a arte da celebração é a melhor condição para a participação activa (actuosa participatio). Aquela resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa (1 Pd 2, 4-5.9).
(Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis- negritei)
Portanto, tenhamos cuidado com todas as alfaias litúrgicas. Tenhamos zelo pelos instrumentos que nos levarão à melhor e mais correta adoração ao Sagrado.
Para tanto, estejamos atentos para que as vestes estejam sempre limpas e sem rasuras, que os livros estejam devidamente conservados, que os vasos estejam em perfeita ordem. Que se busquem locais adequados para sua conservação, em que não haja risco de se danificar nenhuma das alfaias sagradas.
E quando se for manusear qualquer dos objetos litúrgicos, que seja feito com o devido respeito. Não é uma ferramenta de trabalho, mas sim instrumentos do Sagrado.
Shalom.!
André Luiz de Oliveira Brandalise ( Colaborador do Blog)
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Twitter: @alobrandalise
E-mail: andrebrandalise@yahoo.com.br
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