Por Arquivo maio 1st, 2012

* Juiz extingue ação contra pastor por suposta declaração na TV de natureza “homofóbica”.

terça-feira, maio 1st, 2012


Por Reinaldo Azevedo ( Revista Veja)

Vitória da liberdade de expressão — Juiz extingue ação contra pastor Malafaia e deixa claro: ele não foi homofóbico, e a Constituição brasileira não comporta a censura sob nenhum pretexto

O juiz federal Victorio Giuzio Neto, da 24ª Vara Cível de São Paulo, extinguiu ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal contra o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, contra a TV Bandeirantes e também contra a União. Vocês se lembram do caso: no programa “Vitória em Cristo”, Malafaia criticou duramente a parada gay por ter levado à avenida modelos caracterizados como santos católicos em situações homoeróticas. Já escrevi alguns posts a respeito. Aquele em que em exponho detalhes do caso está aqui . Ao defender que a Igreja Católica recorresse à Justiça contra o deboche, Malafaia afirmou o seguinte:


“É para a Igreja Católica entrar de pau em cima desses caras, sabe? Baixar o porrete em cima pra esses caras aprender. É uma vergonha!”

Acionado por uma ONG que defende os direitos dos gays, o Ministério Público Federal recorreu à Justiça, acusando o pastor de estar incitando a violência física contra os homossexuais. Demonstrei por que se tratava de um despropósito. E o que queria o MPF? Na prática, como escrevi e também entendeu o juiz Victorio Giuzio Neto, a volta da censura. Pedia que o pastor e a emissora fizessem uma retratação e que a União passasse a fiscalizar o programa.

A decisão é primorosa. Trata-se de uma aula em defesa da liberdade de expressão. Fico especialmente satisfeito porque vi no texto muitos dos argumentos por mim desfiados neste blog — embora tenha sido esculhambado por muita gente: “Você não entende nada de direito”. Digamos que fosse verdade. De uma coisa eu entendo: de liberdade. O juiz lembra que o Inciso IX do Artigo 5º da Constituição e o Parágrafo 2º do Artigo 220 impedem qualquer forma de censura, sem exceção. De maneira exemplar, escreve:


Permite a Constituição à lei federal, única e exclusivamente: “… estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no artigo 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente”.

Estabelecer meios legais não implica utilização de remédios judiciais para obstar a veiculação de programas que, no entendimento pessoal, individual de alguém, ou mesmo de um grupo de pessoas, desrespeitem os “valores éticos e sociais da pessoa e da família” até porque seria dar a este critério pessoal caráter potestativo de obstar o exercício de idêntica liberdade constitucional assegurada a outrem.

Mais adiante, faz uma síntese brilhante:

Proscrever a censura e ao mesmo tempo permitir que qualquer pessoa pudesse recorrer ao judiciário para, em última análise, obtê-la, seria insensato e paradoxal.

Excelente!

Afirma ainda o magistrado:

Através da pretensão dos autos, na medida em que requer a proibição de comentários contra homossexuais em veiculação de programa, sem dúvida que se busca dar um primeiro passo a um retorno à censura, de triste memória, existente até a promulgação da Constituição de 1988, sob sofismático entendimento de ter sido relegado ao Judiciário o papel antes atribuído à Polícia Federal, de riscar palavras ou de impedir comentários e programas televisivos sobre determinado assunto.”

O juiz faz, então, uma séria de considerações sobre a qualidade dos programas de televisão, descartando, inclusive, que tenham influência definidora no comportamento dos cidadãos. Lembra, a meu ver com propriedade, que as pessoas não perdem (se o tiverem, é óbvio) o senso de moral porque veem isso ou aquilo na TV; continuam sabendo distinguir o bem do mal. Na ação, o MPF afirmava que os telespectadores de Malafaia poderiam se sentir encorajados a sair por aí agredindo gays. Lembrou também o magistrado que sua majestade o telespectador tem nas mãos o poder de mudar de canal: não é obrigado a ver na TV aquilo que repudia.

Giuzio Neto  analisou as palavras a que recorreu o pastor e que levaram o MPF a acionar a Justiça:
As expressões proferidas não são reveladoras de preconceito se a considerarmos como manifestação de condenação ou rejeição a um grupo de indivíduos sem levar em consideração a individualidade de seus componentes, pois não se dirigiu a uma condenação generalizada através de um rótulo, ao homossexualismo, mas, ao contrário, a determinado comportamento ocorrido na Parada Gay (….) no emprego da imagem de santos da Igreja Católica em posições homoafetivas.
Diante disto, não pode ser considerado como homofóbico na extensão que se lhe pretende atribuir esta ação, no campo dos discursos de ódio e de incentivo à violência, pois possível extrair do contexto uma condenação dirigida mais à organização do evento – pelo maltrato do emprego de imagens de santos da igreja católica – do que aos homossexuais.
De fato não se pode valorar as expressões dissociadas de seu contexto.
E, no contexto apresentado, pode ser observado que as expressões “entrar de pau” e “baixar o porrete” se referem claramente à necessidade de providências acerca da Parada Gay, por entender o pastor apresentador do programa, constituir uma ofensa à Igreja Católica reclamando providências daquela.
(…)
É cediço que, se a população em geral utiliza tais expressões, principalmente na esfera trabalhista, para se referir ao próprio ajuizamento de reclamação trabalhista (…) “vão meter a empresa no pau”. Outros empregam a expressão “cair de pau” como mera condenação social; “entrar de pau” ou “meter o pau”, por outro lado, estaria relacionado a falar mal de alguém ou mesmo a contrariar argumentos ou posicionamentos filosóficos.
Enfim, as expressões empregadas pelo pastor réu não se destinaram a incentivar comportamentos como pode indicar a literalidade das palavras no sentido de violência ou de ódio implicando na infração penal, como pretende a interpretação do autor desta ação.

Bem, meus caros, acho que vocês já haviam lido algo semelhante aqui, não?, escrito por este “não-especialista em direito”, como sempre fazem questão de lembrar os petralhas. Caminhando para a conclusão de sua decisão,  observa:
Por tudo isto e diante da clareza das normas acima transcritas, impossível não ver na pretensão de proibição do pastor corréu de proferir comentários acerca de determinado assunto em programa de televisão, e da emissora de televisão deixar de transmitir, uma clara intenção de ressuscitar a censura através deste Juízo.”

Mas e quem não se conforma com fim da censura na TV? O juiz dá um conselho sábio, com certo humor e uma pitada de ironia:
Para os que não aceitam seu sepultamento – e de todas as normas infraconstitucionais que a previram – restam alternativas democráticas relativamente simples para a programação da televisão: a um toque de botão, mudar de canal, ou desliga-la. A queda do IBOPE tem poderosos efeitos devastadores e mais eficientes para a extinção de programas que nenhuma decisão judicial terá.

Caminhando para o encerramento
Sábias palavras a do juiz federal Victorio Giuzio Neto! Tenho me batido aqui, como vocês sabem, contra certa tendência em curso de jogar no lixo alguns valores fundamentais da Constituição em nome de alguns postulados politicamente corretos que nada mais são do que os “preconceitos do bem” de grupos de pressão influentes. Os gays têm todo o direito de lutar por suas causas. Mas precisam aprender que não podem impor uma agenda à sociedade que limite a liberdade de expressão, por exemplo, ou a liberdade religiosa.

No caso em questão, a ação era, em essência, absurda. É claro que o contexto deixava evidente que o pastor recorria a uma linguagem metafórica — de uso corrente, diga-se. Se alguém foi vítima de preconceito nessa história, esse alguém foi Malafaia. Não fosse um líder evangélico — e, pois, na cabeça de alguns, necessariamente homofóbico —, não teria sido importunado por uma ação judicial. Há um verdadeiro bullying organizado contra os cristãos, pouco importa a denominação religiosa a que pertençam. Infelizmente, a “religião” que mais cresce no mundo hoje é a cristofobia.

Eu, que tenho criticado com certa frequência a Justiça, a aplaudo desta vez.


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* Motivado pelo trabalho da Cáritas na Espanha, publicitário realiza comercial gratuitamente.

terça-feira, maio 1st, 2012

Alejandro Toledo um reconhecido publicitário e diretor de videoclips, acaba de realizar um comercial grátis para a Cáritas espanhola, motivado por seu trabalho social em Madrid ( capital da Espanha), logo depois de ter visto um ex-companheiro de trabalho recebendo mantimentos em um refeitório administrado por esta organização.

No dia 11 de abril Toledo contou à Rádio Nacional da Espanha que descendo a rua Martínez Campos, em Madrid, viu de longe “um rapaz com quem havia trabalhado e que tinha tido bastante êxito no mundo da publicidade. Eu o segui para cumprimentá-lo e saudá-lo e de repente eu o vejo entrar em um refeitório social e me disse: ‘O este rapaz faz aqui?’. E então o vi saindo com uma bolsa de comida. Ele ia perfeitamente vestido, com uma bolsa de comida que acabava de retirar da Cáritas”.

Isto motivou Alejandro Toledo a colocar toda sua experiência ao serviço da Cáritas de Madrid, à qual ofereceu grátis um vídeo promocional. Alejandro Toledo, que vive em Los Angeles (Estados Unidos), trabalhou anteriormente em produções para a Marlboro, Ford, Mercedes, Loewe, Renfe, Acciona e videoclips para o cantor Alejandro Sanz.

Ele disse que sua intenção era realizar “algo um pouco mais potente para tentar arrecadar recursos: uma página da qual fosse pudesse descarregar o vídeo pelo preço de um euro, mas não tínhamos infra-estrutura”. Ele destacou que todas as pessoas envoltas no vídeo trabalharam grátis, e que um produto como o qual foi entregue à Cáritas vale 40.000 euros. Do mesmo modo, contou que a menina que aparece no spot publicitário é sua própria filha, que também colaborou um malabarista de rua “que já havia aparecido anteriormente em um vídeo que fiz para o Alejandro Sanz”.

Durante o diálogo, Toledo recordou que já tinha feito um trabalho para a Comunidade de Madrid “no qual teve que visitar vários refeitórios sociais, e sempre me tinha ficado muito surpreso por encontrar ali gente com gravata, com terno, gente que não imaginava que dependia da caridade para ter o que comer devido à crise econômica que assola a Espanha e outros países europeus.

Nesse sentido, disse que para o novo vídeo “voltei a percorrer todos os refeitórios sociais e de novo me surpreendi, certamente com o trabalho da Cáritas, mas sobre tudo com os usuários dos refeitórios sociais: gente como nós” que também necessita da caridade para viver.


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* Cidade do México,”Cidade da Desesperança” e da morte dos inocentes pelas próprias mães.

terça-feira, maio 1st, 2012

O semanário “Desde la Fé”, pertencente a Arquidiocese da Cidade do México publicou um artigo onde classifica a capital mexicana como a “Cidade da Desesperança” e classificou a lei do aborto como “injusta e que nunca poderá ser motivo de comemoração com datas nefastas que deveriam estremecer a nossa consciência”.

O editorial afirma que “o direito de uma mulher em cuidar de si mesma e decidir sobre seu próprio desenvolvimento, não deve ser confundido nunca, com a decisão arbitrária de atentar contra outra vida humana em seu estado mais vulnerável e frágil, como o de uma criança no ventre de sua mãe”.

O texto prossegue apontando que “o aborto, tal como se pratica no Distrito Federal, tem se convertido na principal escola de deseorientação aos jovens e no principal motivo de irresponsabilidade no exercício de sua sexualidade. Não é uma casualidade que nestes últimos anos, tenha disparado o número de jovens que ficam grávidas, com a total falta de respeito à vida”.

O semanário recordou que “alguns defensores dos direitos humanos guardam um cúmplice silêncio diante do genocídio que se está praticando no Distrito Federal”.

Segundo a publicação pertencente a Arquidiocese Mexicana, a Igreja Católica na Cidade do México se pergunta se “é um direito humano matar um ser humano indefeso. Infelizmente, entre aqueles que aspiram por algum cargo político na capital mexicana, se encontram aqueles que aprovaram estas leis injustas e desumanas na Assembleia Legislativa do Distrito Federal”.

O editorial afirma que “não podemos nos acostumar à violência dos crimes, devemos trabalhar como sociedade para recuperar a segurança, não somente combatendo e reprimindo os delinquentes, mas, sobretudo, recuperando os valores éticos que orientam a sociedade. Isto começa quando somos capazes de questionar leis que atentam contra a vida humana e contra sua dignidade incontestável. O testemunho do verdadeiro fiel, está por cima destas leis: é o testemunho de quem ama e respeita a vida humana como primeiro passo de humanidade”.

No seminário também se destacou que “diante da inoperância, e muitas vezes da cumplicidade das políticas locais, as Forças Armadas tem saído às ruas para aplicar um pouco de segurança aos cidadãos contra os narcotraficantes e os sequestradores. Por isso o repúdio contra estes crimes é unânime. Este problema mostra algo muito mais grave e muito mais profundo: tem se perdido o respeito pela vida humana e a sua dignidade”. (LB/JS)

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* O “aiatolá dos ateus”, o vazio do ateísmo e a presença esmagadora da religião na história da humanidade.

terça-feira, maio 1st, 2012


Em síntese: Richard Dawkins critica a religião considerando caricaturas da mesma ou crendices, superstições, magia… quer extinguir as religiões e acabar com a fé no mundo inteiro. Um colega, porém, Alstaír Mc Grat, ex-ateu que se tornou religioso, observa que Dawkins se refere a falsas imagens da Religião, não podendo portanto sustentar-se a posição de Dawkins. O ato de fé é o ato mais nobre que o homem possaefetuar.


A revista SUPERINTERESSANTE de agosto 2007 publicou uma reportagem sobre o zoólogo norte-americano Richard Dawkins, o aiatolá dos ateus, que afirmava: “Meu grande sonho é a destruição completa das Religiões” e “A pior coisa das religiões é a ideia de fé”. Essas acusações se baseiam em caricaturas da Religião e crendices supersticiosas, que vêm expostas logo no início da reportagem e que aqui serão em parte transcritas:


“João reza todos os dias diante de uma Chaleira de porcelana que está no céu em órbita entre a Terra e Marte. Ele só namora moças que também acreditam na Chaleira e nunca usa camisas verdes, pois isto é uma grande ofensa ao Todo-Poderoso.

Ricardo, vizinho de João, acredita que o mundo foi criado por um gigantesco monstro voador feito espaguete. Todo mês se encontra com um grupo de espagueteiros para cantar músicas sobre como o monstro é bacana. Um belo dia, depois do café da manhã (sem pão, pois sua religião proíbe comer pão e comidas feitas com farinha), Renato veste uma camisa verde e sai para trabalhar. Ao encontrar-se com ele, João fica muito chateado com sua roupa… Ricardo promete que vai usar camisa verde menos vezes” (p. 86).


Ora inegavelmente qualquer pessoa autenticamente religiosa repudia tal caricatura da Religião, mas nem por isto cai no ateísmo.


Vejamos, pois, o que é a fé e o que é a Religião.

1. A Fé: que é?


Responderemos por três etapas.

1) A Fé é um ato da inteligência; portanto não é um sentimento vago, mas é expressão da mais nobre faculdade que o homem tem: o intelecto,que tenta aplicar-se ao objeto mais nobre que possa ser concebido, ou seja, a Deus.

2) Esse ato do intelecto é movido pela vontade, pois o objeto da fé transcende os limites do intelecto humano (a verdade é mais ampla do que o alcance do nosso intelecto). Sendo assim, o objeto da fé não obriga a um assentimento, não é tão evidente que force a adesão de quem o contempla. A vontade, portanto, deve mover o intelecto para que diga Sim ou Não.

3) A vontade, porém, só move o intelecto depois do exame das credenciais sobre as quais se apoia cada proposição de fé. Cabe então ao intelecto humano averiguar as razões em virtude das quais o indivíduo pode e deve crer (): estude o Evangelho, a história, a paleografia… e chegue eventualmente à conclusão: “Não é absurdo crer; não é infantilismo ter fé”. Há razões suficientemente fortes para que o homem diga Sim ao objeto de fé, sem trair sua dignidade de homem adulto.

4) Portanto o homem crê inteligentemente. E a própria razão sadiamente crítica que aponta o caminho da fé. Assim evitam-se as superstições e crendices que não resistem ao crivo da razão.


Esse assentimento dado ao Transcendental corresponde às mais íntimas aspirações do ser humano, que sabe ser ele pequeno demais para bastar a si. Todo ser humano é uma demanda ansiosa de Vida plena, de Amor sem traição de Verdade sem erro… E crê inteligente e razoavelmente que tais objetivos não serão frustrados, pois ele estudou a temática com a sua razão. Extirpar a fé de um homem ou de uma população é retirar-lhe um dos mais fortes esteios de sua vida, é condená-lo a só conhecer o que é passageiro e ilusório, como se verifica no caso de muitos ateus ().


A vida presente, com suas lacunas e frustrações, pede uma outra vida, em que os valores conculcados no presente serão devidamente reabilitados.


Se a fé tem por objeto algo não evidente por si mesmo, ela é um ato livre. Pode ser traída e rejeitada, como acontece nos casos em que as paixões predominam sobre o intelecto e a vontade. Daí haver falsas expressões da fé, que causam escândalo aos não crentes, mas que não são autênticos gestos de fé.


Aliás o senso de justiça obriga a lembrar os grandes benefícios que a Religião proporcionou à humanidade.


2. Religião: valores


1. É fato evidente que a Religião suscitou elevado número de homens e mulheres que se doaram aos irmãos e irmãs mais necessitados, fundando escolas, hospitais, asilos e outras obras de caridade. Durante séculos estas também ficavam a cargo exclusivo dos religiosos.

Foi a Religião que evangelizou os povos bárbaros e os habilitou a construírem o cenário europeu, que está na vanguarda do progresso humano.

Nos primórdios da civilização a religião desenvolveu importante papel, estimulando o homem a descobrir os valores da natureza que redundariam em tipo de vida mais confortável.


3. Religião - elemento propulsor


Longe de se prender à ignorância e à covardia, a Religião tem sido sempre poderoso estímulo da cultura: verifica-se que as grandes conquistas da civilização no decorrer dos séculos foram empreendidas primeiramente por interesses religiosos. Para ilustrar isto, os geógrafos apontam longa série de instituições culturais que a Religião inspirou ou, ao menos, fomentou pujantemente:


a) A casa. O domicílio do homem difere do ninho ou do antro do animal irracional não só por sua complexidade, mas principalmente por ser em seus primórdios um santuário religioso. Com efeito, o tipo característico da casa entre os romanos, por exemplo, se deve ao culto do fogo sagrado, fogo junto ao qual residiam os deuses Lares e Penates; para defender dos profanos o fogo santo, os homens construíram em torno dele um enquadramento, no qual aos poucos conceberam a ideia de estabelecer sua própria residência.

Algo de semelhante se deu entre os gregos, os quais diziam que o fogo havia ensinado os homens a construir seu domicílio. O fogo parece ter entrado nas casas em geral primeiramente a título religioso; só posteriormente foi dentro de casa utilizado para fins domésticos (aquecer, cozinhar…); ainda há tribos antigas que deixam a cozinha com o seu fogo fora de casa, só introduzindo no domicílio o fogo de caráter religioso. - Numerosos são os vestígios de crenças religiosas na arquitetura e na localização das casas, na disposição de portas, janelas e poços, entre os diversos povos.


b) As cidades. Também a formação e a configuração das cidades foram fortemente inspiradas por motivos religiosos. Era em torno de um templo ou de um recinto de culto que se ia aglomerando a população de uma região, dando assim origem a uma aldeia ou cidade; Enéias, por exemplo, fundou a cidade de Lavinium, levando para o santuário do mesmo nome os deuses de Tróia; na Idade Média era em torno de uma igreja situada no alto de uma colina, ou em torno de um mosteiro, que frequentemente se fundavam as cidades (tenham-se em vista os nomes compostos com moutier, mosteiro: Romainmoutier, Moyenmoutier, Noirmoutier…; em alemão Münster…).


Observe-se também que desde cedo se foram construindo cidades entre os egípcios, os mesopotâmios, os cretenses, porque a religião lhes favorecia; julgavam que os deuses queriam cidades; as grandes cidades gregas nasceram em período de efervescência religiosa. Ao contrário, os germanos, os celtas, os albaneses só tardiamente conheceram cidades, porque a sua sabedoria religiosa não as fomentava; foram não raro estrangeiros que entre eles fundaram as cidades.


c) A agricultura. Foi também muito estimulada por concepções religiosas, que atribuíam a certas plantas um valor sagrado ou uma função qualquer no culto. Tal foi o caso da figueira, que na índia traz o nome defícus religiosa; os gregos diziam que o figo era símbolo de iniciação a melhor vida. A oliveira gozou de semelhante estima. - O ópio, ao contrário, sendo proibido pelo budismo e o islamismo, é cultivado com estranha irregularidade no Oriente.


d) Os animais. Também não poucos animais têm recebido veneração religiosa. Em vários casos a passagem do animal selvagem para o estado de animal doméstico se fez mediante o estado de animal sagrado. O elefante, por exemplo, antes de ser animal doméstico, era animal sagrado na índia. No antigo Egito, os gatos sagrados eram numerosíssimos (descobriram-se milhares de múmias desse felino); julga-se com probabilidade que foram domesticados por constituírem objeto de culto religioso. Outros animais entraram no convívio do homem, a fim de honrarem a Divindade pela sua beleza; assim a íbis, no Egito; o pavão, na índia; o gamo, no Japão.


e) A indústria. Não menos profunda é a influência benéfica da Religião no desenvolvimento da indústria. A fabricação de laticínios, por exemplo, está em grande parte a serviço do culto no Oriente; nos templos do Tibete centenas de lamparinas ardem dia e noite, alimentadas por manteiga; os “lamas” têm o rosto, as pernas e as mãos untados com manteiga. A fabricação do papel e do livro têm dependido muito das necessidades do culto e da piedade; o mesmo se dá com os têxteis e a metalurgia.


f) O comércio. Está claro que as aglomerações vultosas de fiéis motivadas pela religião acarretam intensificação benéfica do comércio; as primeiras moedas eram objetos estimados por seu caráter ritual ou seu valor religioso. A contabilidade dos bancos e escritórios tem suas origens nos templos da Mesopotâmia, onde os sacerdotes, movidos por respeito sagrado, faziam o inventário de tudo que dizia respeito ao culto e ao sustento do templo.


g) Os transportes, as vias e as pontes devem grande parte do seu incremento ao fervor religioso de peregrinos e missionários. Não raro a afluência a determinado santuário provocou a abertura de estradas, assim como a multiplicação e o aperfeiçoamento de veículos. – Em particular, as pontes têm sido obras de sacerdotes ou de pessoas dedicadas a Deus. Com efeito, os romanos pagãos, por exemplo, julgando que os rios tinham algo de  agrado, reservavam a construção de pontes a um grupo especial de sacerdotes. Entre os cristãos da Idade Média, era a caridade que levava os fiéis a formar confrarias construtoras de pontes: havia os “Irmãos Pontífices”, aos quais se devem as pontes de Avinhão e do Espírito Santo, sobre o Ródano (França).


h) Por fim, note-se outrossim que no surto das artes está em geral a inspiração religiosa; as primeiras peças literárias das antigas e modernas civilizações são documentos religiosos; costumam estar redigidos em poesia, que é a forma literária mais correspondente ao entusiasmo sagrado (tenham-se em vista, por exemplo, as obras de Homero e dos “teólogos” gregos). A pintura e a escultura não são menos tributárias à Religião.


Em suma, registra-se o seguinte: sempre que nos é dado observar as origens ou as fases iniciais de determinada cultura, verificamos que as suas diversas manifestações estão todas indistintamente fundidas com a Religião; é no seio materno da Religião que elas nascem e por muito tempo são nutridas.


Donde se vê que considerar a Religião como algo de pré-lógico ou como produto da covardia do homem significa, de certo modo, lançar uma nota de desprezo sobre a própria cultura humana, que nasceu no seio da Religião.

Vêm a propósito aqui as observações de famoso geógrafo contemporâneo:


“A maioria dos homens atesta sobre a Terra a existência do sobrenatural; a espécie humana, em graus diversos, mas de maneira geral, é religiosa; esta, aliás, vem a ser uma de suas características; o “homo faber etsapiens” é também primordialmente um homo religiosus. Por obra dele, a terra está impregnada de religiosidade. A pujante tarefa cultural dos homens não foi efetuada somente em vista da instalação da espécie humana sobre o globo, mas parte muitas vezes grandiosa desses esforços foi empreendida mais ou menos diretamente a fim de proclamar ou exaltar a existência de seres sobrenaturais ou sagrados…


A religião nos aparece como um dos grandes fatores que transformam a face da Terra e, em qualquer caso, como o motivo de atividades caracteristicamente humanas… À semelhança do homem, o animal (irracional) lutou contra os elementos da natureza; mas o que somente o homem fez, foi dar vulto à ideia da Divindade sobre a face do globo. A Geografia religiosa vem a ser a Geografia mais especificamente humana…” (P. Deffontaines, Géographie et Religions. Paris 1948, 8.12).


4. Conclusão


A religiosidade é um elemento integrante da pessoa humana. O homem bem pode ser considerado um peregrino do Absoluto, um viandante rumo ao Eterno e Infinito. Até os materialistas marxistas procuram um novo estado de coisas e a plena satisfação de seus anseios através da mística do martelo e da foice. Os atritos que a religião causou entre os homens se devem, em grande parte, à valorização dos bens espirituais, que os antigos e medievais julgavam ser superiores aos bens materiais. A religião inspirou a entrega de tudo, até da própria vida, para não renegar o Valor Supremo que é Deus. Quando se avalia o passado, não se pode deixar de levar em conta esse traço próprio da mentalidade de nossos ancestrais.


Acontece, porém, que esse elemento integrante da pessoa humana – o senso religioso – não pode ser cego ou desligado da razão. É esta que distingue entre si fé e crendice. É com a inteligência que o homem crê, e não com os olhos da mente fechados pela cegueira do sentimentalismo ou das emoções.


Compete aos cristãos dar testemunho da autêntica religião, para que, mediante este testemunho claro e firme, o irmão que busca o Absoluto, embora não tenha fé, se entusiasme pela beleza de uma vida santa,… heroicamente santa.

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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* A ciência em busca da alma?

terça-feira, maio 1st, 2012

A revista GALILEU refere novas experiências feitas por cientistas diversos no intuito de descobrir o que no ser humano existe além do corpo e que os religiosos chamam “alma”. Todavia não concebem a noção de espírito, julgando que a alma se reduz a uma corrente fluída ou coisa semelhante. Por isto não chegaram até hoje a conclusão alguma.


A revista GALILEU apresenta uma reportagem intitulada “Em Busca da Alma”, com a seguinte ementa: “Cientistas debruçam-se sobre o maior enigma da existência humana. E já especulam que redes cerebrais e até física quântica podem explicar o que há além de nossos corpos”. - Passamos a expor algumas das mencionadas experiências e o conceito cristão de alma humana.


1. As pesquisas


A reportagem começa por relatar o caso de um paciente gravemente enfermo, que dizia ver uma família inteira (pais e filhos) “desencarnada” a lhe desejar os melhores resultados de uma cirurgia no cérebro, à qual se submeteria em breve. - Pergunta a reportagem: não seria o caso de admitir uma vida no além?


Também os casos de projeciologia ou pretensamente “da alma que sai do corpo e passeia pelos ares” não seriam a prova de que há dois componentes do ser humano, dos quais um pode separar-se do outro e contemplar do alto as manobras dos homens neste mundo?


Estes fatos, significativos como eram, foram submetidos ao crivo da ciência. Isto foi efetuado pelo médico norte-americano Duncan MacDougall, que resolveu pesar pacientes em estado terminal antes e depois de morrerem. Conseguiu o beneplácito de seis indivíduos, que foram submetidos a tal experiência, e verificou que perdiam entre 11 e 43 gramas depois que morriam - na média algo como 21 gramas. Para o pesquisador, este seria o peso da alma, que, ao ‘desencarnar’, torna o corpo mais leve.


Tal conclusão, porém, não foi aceita pelos cientistas em geral; a pequena baixa de peso foi atribuída à perda natural de água do corpo, uma vez que ele pára de funcionar.


Retomando esse tipo de pesquisa, o Dr. Gerard Nahum propôs acompanhar a morte de um paciente com diversos tipos de detector; se algo saísse do corpo do moribundo juntamente com seu último suspiro, este algo seria detectado pelas radiações emitidas pelo detector. Todavia não conseguiu, em parte alguma, pessoas que se oferecessem para a realização do teste.

Insistindo na pesquisa, o Dr. Peter Brugger, da Universidade de Zurique (Suíça) retornou aos casos de saída para fora do corpo e julgou poder situar o princípio vital do homem na área têmporo-parietal do cérebro. A viagem astral não implicaria passeio fora do corpo, mas seria “um truque produzido pelos circuitos cerebrais do sujeito. Peter Brugg rejeitou assim as viagens fora do corpo, qualificando-as como projeções do cérebro do indivíduo; é o que se chama “alucinação” em Parapsicologia. Para confirmar tal conclusão, o médico suíço lembrava o caso de pessoas que têm um membro amputado; referem a sensação de que a parte do corpo perdida ainda continua onde estava. Tal conjunto de falsas sensações é chamado “criação de membro fantasma”; prova que o cérebro é capaz de produzir as mais sofisticadas ilusões. As experiências até aqui descritas ainda deixam dúvidas, pois os animais inferiores também têm cérebro, mas não fazem o que o homem faz.

Há então quem diga que a resposta procurada está na Física quântica, e num estranho conjunto de regras que explica o funcionamento das coisas na escala de átomos e partículas, os menores seres que existem, como nos parece. - O físico britânico Roger Penrose, da Universidade de Oxford, resolveu investigar os segredos da consciência e concluiu que as fagulhas do pensamento consciente estão ligadas a fenômenosquânticos, que ocorrem numa escala muito menor e mais misteriosa do que a dos neurônios e outras células cerebrais.


Assim a ciência contemporânea procura na área da matéria a explicação daquilo que a fé chama “alma humana”.

Veremos, a seguir, como entender a alma humana, que, na verdade não se reduz a um órgão ou parte de um órgão material.


2. Alma humana: que é?


2.1. Princípio vital

É por um princípio vital que os viventes são vivos. Esse princípio é chamado anima (em latim), alma (em português). A sua existência se depreende das seguintes observações:

1) O vivente animal está profundamente imerso no mundo material. Consta de água (60%), substâncias orgânicas (35,6%), substâncias minerais (4,4%). Mais: quatro elementos simples (oxigênio, carbono, hidrogênio, nitrogênio) constituem 95% da matéria viva. Oito elementos simples (cálcio, enxofre, fósforo, sódio, potássio, cloro, magnésio, ferro) constituem 4,99% da mesma. Outros elementos, 0,01%.

2) Ao mesmo tempo, porém, o vivente emerge acima do mundo meramente químico por algo que se chama o seu princípio vital (anima). É a anima que dá a animação ou faz o ser animado, vivente.

Todos os elementos estão em contínuo fluxo no organismo vivo. O metabolismo faz que sejam assimilados e eliminados constantemente. Periodicamente (no homem, de sete em sete anos), o vivente não é, materialmente, mais o mesmo. Todavia o que assegura a unidade e a continuidade do vivente, cuja matéria está em constante troca, é o seu princípio vital ou a sua anima. Esta dá e conserva a organização dos elementos materiais.


2.2. Três tipos de princípio vital


Distinguem-se três graus de vida e, por conseguinte, três tipos de princípio vital:

1) Vida vegetativa: possui apenas quatro propriedades básicas: nutrição, crescimento, reprodução, irritabilidade.

2) Vida sensitiva: além de nutrir-se, crescer, reproduzir-se e irritar-se, é capaz de conhecer… Conhecer pelos sentidos orgânicos (externos e internos) objetos concretos, materiais: esta cor, este som, este odor, este gosto, esta temperatura, esta dureza…

3) Vida intelectiva: além de ter as propriedades vegetativas e sensitivas, é dotada de conhecimento das essências, das noções universais, abstratas. Por exemplo, das imagens de flor bela, paisagem bela, criança bela, melodia bela, atitude bela… deduzimos a noção universal de BELEZA (harmonia das partes componentes do ser). Paralelamente, chegamos à noção de JUSTIÇA, AMOR, BONDADE, HOMEM…


Por conseguinte, distinguem-se o princípio vital vegetativo, o sensitivo e o intelectivo. Pode-se falar também de alma vegetativa, alma sensitiva e alma intelectiva. Na linguagem comum, porém, alma costuma designar apenas o princípio vital humano.


A alma vegetativa e a sensitiva são materiais, pois as funções que elas preenchem no corpo, não ultrapassam os limites da matéria; até mesmo o conhecimento sensitivo é o conhecimento do concreto corpóreo,que se faz mediante os órgãos corpóreos dos sentidos.


A alma intelectiva, porém, é espiritual, pois as suas funções ultrapassam os limites da matéria. Pelo conhecimento intelectual a pessoa lêdentro (intelligit, intus legit), isto é, abstrai do concreto, corpóreo, material… para formar um conceito imaterial: BELEZA (não esta flor bela, nem esta paisagem bela concretamente), JUSTIÇA (não esta justa sentença, este justo comportamento, concretamente)…


É pelo AGIR, que conhecemos o SER. Onde há agir imaterial, que transcende a matéria, somos logicamente levados a concluirá existência de um princípio de agir ou de um ser imaterial, que transcende a matéria ou, ainda, é espiritual.


2.3. Espírito


Espírito é o ser real que não tem corpo, isto é, carece de extensão, quantidade, peso, tamanho…, mas é dotado de inteligência e vontade. Vê-se assim que a palavra espírito tem acepção mais ampla do que o vocábulo alma. A chave abaixo exprime a diferença:

Espírito                 incriado, não unido à matéria: Deus

criado, não unido à matéria: anjo

criado, unido à matéria, para nela se aperfeiçoar: alma humana (espiritual)

O espírito que é o princípio vital do organismo humano, é chamado alma humana intelectiva (). Esta, portanto, é espiritual ou não material. Se a alma humana é espiritual, também é imortal, pois a imortalidade é propriedade de todo espírito ().

Procuremos agora considerara alma humana e sua espiritualidade.


2.4. Espiritualidade da alma humana


Para averiguar se a alma humana é espiritual ou não, devemos levar em conta o seguinte princípio: o ser e o agir de determinada realidade devem ser correlativos entre si. Consequentemente, se vejo que determinada substância tem por efeito “salgar” alimentos, digo obviamente que o seu ser consta de cloro e sódio (NaCI); se outra substância é corrosiva, suporei que seja um ácido, como o ácido sulfúrico (H2S04).Se, pois, desejo saber se a alma humana é espiritual ou se é material: se verificar que as atividades da alma humana ultrapassam as virtualidades da matéria, concluirei que o próprio ser da alma humana é imaterialou espiritual.

Analisemos, pois, as atividades da alma humana:


1) Percepção do universal


É certo que o ser humano, além de conhecer os objetos concretos, singulares e materiais que lhe ocorrem, é também capaz de conceber noções abstratas, universais, percebendo o essencial; é apto a reconhecer proporções, relações de dependência ou causalidade e de finalidade.

Com efeito, depois de ver um homem, uma mulher, uma criança, um ancião, um gordo, um magro…, a inteligência humana se emancipa das diferenças motivadas por cor, tamanho, sexo, idade… define todos esses indivíduos como participantes da mesma essência ou natureza; são todos seres humanos, iguais entre si pela natureza (que a inteligência apreende), embora diferentes uns dos outros pelos aspectos que os olhos percebem.

Paralelamente, depois de ver diversos objetos belos (uma flor, uma paisagem, um animal, uma escultura…), a inteligência humana se emancipa dos elementos extrínsecos e concretos que apreende, e formula a definição da beleza. A partir da percepção de situações justas e injustas, formula as noções universais de justiça e injustiça.

A Psicologia Experimental, por sua vez, corrobora estas afirmações mediante a seguinte experiência:

Disponha-se uma série de vasilhas fechadas, na primeira das quais se coloca o alimento de um macaco. O animal, posto diante de tal série, não sabe onde encontrar a sua ração; o operador então abre a primeira vasilha e lhe mostra o seu alimento.

Repita-se a experiência, encerrando na segunda vasilha o alimento, e não na primeira. O animal, recolocado diante da série, é guiado pela memória sensitiva e, recordando-se do ocorrido no dia anterior, vai à primeira vasilha. O operador então o coloca diante do segundo recipiente, do qual o animal se serve.

Num terceiro ensaio, coloque-se o alimento fechado no terceiro recipiente: guiado pelas impressões sensíveis do ensaio anterior, o macaco se dirige para o segundo vaso… Caso se multipliquem as experiências, verifica-se que o animal procura de cada vez o recipiente em que no ensaio anterior encontrou o que lhe interessava. Nunca chega a abstrair dessas diversas experiências a lei da progressão que as rege. Nunca se desvencilha das notas concretas da vasilha em que, por último, encontrou a sua ração, deduzindo que não é o fato de ser a segunda, a terceira ou a quarta vasilha que interessa, mas o fato de ser a vasilha n + 1(fórmula em que n designa o número da experiência anterior). Ora uma criança sujeita a tal tese, depois de quatro ou cinco experiências, consegue abstrair a lei n + 1 do fenômeno.

Destes ensaios se conclui que o animal, por mais semelhante que seja ao homem, jamais se desembaraça da percepção do concreto, material; ele percebe o primeiro, o segundo, o terceiro objetos… postos à sua frente, mas é incapaz de perceber a proporção que há entre esses objetos:

1 = n + 1

2 = n + 1

3 = n + 1

4 = n + 1

5 = n + 1

Na coluna da esquerda temos acima a lista dos termos concretos, particulares, ao passo que na coluna da direita temos a fórmula universal e a indicação de proporção. Ora passar da coluna da esquerda para a da direita, percebendo a constante n + 1 por debaixo das variações 2, 3, 4, 5… é algo que só a inteligência faz, porque só esta abstrai do concreto. O animal irracional não se eleva ao abstrato, universal. Por conseguinte, o irracional não tem princípio de conhecimento ou princípio vital imaterial ou espiritual; a alma do macaco ou do animal irracional é material. Ao contrário, o homem, que é capaz de abstrair do concreto singular, possui um princípio vital ou uma alma imaterial ou espiritual.

Observe-se também: não há transição entre o material e o imaterial (ou espiritual). O espiritual não é a matéria rarefeita ou gasosa energética, pois mesmo a matéria rarefeita e a energia elétrica são dimensionáveis mediante números ou estão sujeitas à quantidade, ao passo que o espírito não é quantitativo nem comensurável.


2) A consciência de si mesmo


Verifica-se que os animais têm conhecimento de objetos que os cercam, ameaçando-os ou favorecendo-os. O ser humano, além deste tipo de conhecimento, possui o conhecimento de si mesmo ou a autoconsciência; o homem não somente sente dor, mas sabe que sente dor ou que está lesado fisicamente; este fator aumenta enormemente a sua dor, pois o sujeito humano percebe que a sua moléstia o impede de trabalhar devidamente, o que pode prejudicar a sua família, a sua carreira, o seu ideal… Possuindo o conhecimento dos objetos e de si mesmo, o homem concebe o plano de ordenar o mundo e a si mesmo, dominando fatores estranhos ao seu ideal, superando paixões desregradas, cultivando boas tendências, etc. Isto tudo escapa às possibilidades de um animal irracional, pois este conhece o seu objeto concreto, singular, e é incapaz e se emancipar das notas concretas deste e de se voltar para si mesmo de maneira sistemática a fim de se conhecer. O ser humano, ao contrário, realiza esta introspecção, porque o seu princípio de conhecimento (intelecto) é capaz de ultrapassar o seu objeto concreto, material para atingir o próprio sujeito…


3) A cultura e o progresso


Verifica-se que o homem intervém no ambiente natural que o cerca, modificando-o de acordo com as suas intenções e os seus planos; cria assim a cultura, que se sobrepõe à natureza, adaptando-a ao homem; assim é que surgem casas, estradas, cidades, fábricas, artefatos… Essa atividade científica e técnica, social e ética, artística e religiosa, não é o produto de processos fisiológicos apenas ou de fatores materiais e econômicos tão somente, mas se deve à ação intelectiva e planejadora da inteligência e à liberdade de arbítrio do ser humano. Com efeito, ao conhecer a natureza que o cerca, o homem apreende as relações entre meios e fins ou as proporções entre diversos termos e concebe projetos para melhorar o seu ambiente (o seu habitat natural, a sua alimentação, o seu vestuário, as expressões de sua arte, de seus sentimentos religiosos…); vai assim construindo civilizações sucessivas… Ora o animal é incapaz de progredir em suas expressões, porque é guiado por instintos; assim o animal, embora certeiro e apurado em seus movimentos instintivos, é incapaz de dar contas a si mesmo do que faz e dos porquês da sua atividade; é, por isto, incapaz de se corrigir ou de se ultrapassar. Em última análise, a raiz da diferença entre o comportamento do homem e o do animal reside no fato de que o homem tem um princípio vital ou um princípio de atividades imaterial ou espiritual, ao passo que o animal tem uma alma material ou confinada pelas potencialidades da matéria.

São estas algumas reflexões que o cristão oferece a quem se põe em busca da alma.

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



Observa-se uma diferença entre intelectivo e racional.

Intelectivo é todo ser que conhece noções universais, distinguindo essência e acidentes.

Racional é o ser cuja inteligência não é intuitiva, mas progressiva, passando de premissas a conclusões para estabelecer novas premissas e chegar a ulteriores conclusões.

O ser humano, por exemplo, é intelectivo racional (aos poucos vai penetrando a verdade). Deus e os anjos são intelectivos não racionais, mas intuitivos.

Vê-se que não há meio-termo entre matéria e espírito ou entre corpo material e alma espiritual.

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Comentários
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