Posts Tagged ‘Autoridade’

* Paulo, pai de 10 filhos! Seu testemunho.

quarta-feira, março 21st, 2012

Zenit

Por Salvatore Cernuzio

“São José é um verdadeiro pai e senhor que protege e acompanha no caminho terreno aqueles que o veneram, como protegeu e acompanhou Jesus que crescia e se tornava adulto”.

Assim escreveu São Josemaria Escrivá, explicando como este “homem comum, pai de família, trabalhador que ganhou a vida com o esforço das suas mãos”, ajude a conhecer a Humanidade de Cristo, porque foi eleito por Deus para ser seu pai na terra.

São José é, portanto, um exemplo para todos os pais : modelo de pai ideal que ensina a aceitar esta tarefa como uma eleição, mais do que uma missão.

E numa época em que a figura do pai foi tão desvalorizada ao ponto de ser considerada não necessária ou secundária e onde a mesma paternidade é considerada muitas vezes um “obstáculo”, ainda existem pessoas que quiseram concretizar o que São José ensinou dizendo incondicionalmente sim à vontade de Deus.

É a história de Paulo, 57 anos, casado há 34, pai de 10 filhos, seis homens e 4 mulheres, que mantém tudo com um único salário de freelancer.

Não um herói, nem um santo ou um fanático, mas um homem qualquer que experimenta a cada dia a providência de Deus na sua família e que nesta entrevista ao ZENIT quis contar a alegria da paternidade celeste”.

Paulo, desde o 68 até hoje assistiu a uma rejeição gradual de certos valores, incluindo, em particular, a figura do pai, compreendido como principal referência de autoridade. Como vives esse papel, sobretudo sendo o pai de uma família tão numerosa?

Paulo: A realidade mostra que as pessoas nascem, geralmente, por meio de um pai e de uma mãe e crescem de modo harmonioso e satisfatório – poderíamos dizer integrado – quanto mais essas pessoas, pai, e mãe, desempenham o seu papel de acordo com características específicas e, especialmente, em comunhão uns com os outros.

Não tenho portanto dúvidas particulares sobre a validez, e mais, sobre a absoluta necessidade de uma figura paterna respeitável e reconhecida. O fato de existirem fortes correntes e influências culturais e sociais contrárias, mais que um obstáculo são um estímulo. O problema é corrigir em si mesmo aquelas fragilidades e debilidades que tendem a estragar e impedir o exercício da paternidade…

Você se refere ao que?

Paulo: À incapacidade de amar inerente na natureza humana, que às vezes te empurra ou até mesmo te obriga a tomar dos filhos a vida para ti ao invés de doar a tua para eles.

Dar a vida, às vezes, também pode significar dizer não e sem dúvida quer dizer responsabilizar-se de todo o peso material, moral e espiritual que a relação com outro diferente de ti e dependente de ti corresponde.

Para responder a pergunta mais diretamente em primeiro lugar posso dizer que vivo o meu papel de pai com temor e tremor, em constante luta com a minha inadequação que é, no entanto, apoiada pela graça do matrimônio.

Você já teve dificuldade para exercer plenamente a tua autoridade de pai?

Paulo: As principais dificuldades não vieram de fora. Deixando de lado momentos particulares, nunca desejei uma aceitação da minha autoridade fácil, talvez ditada pelo hábito, pelo conformismo ou pelo medo.
As verdadeiras dificuldades sempre vieram da minha inclinação para transformar a autoridade em autoritarismo com a consequente pretensão de obediência onde ela não era causada por uma verdadeira autoridade.

Também diante dos fracassos que existem – um filho que desobedece, ou cai em sérias dificuldades, ou se revolta ou toma um rumo errado, etc. – A soberba te empurra a deixar tudo e a fechar-te em ti mesmo, enquanto que a humildade te ajuda a aceitar a correção do Senhor por meio da história e a recomeçar a cada dia de novo.

Ter muitos filhos é, certamente, uma graça e um dom do Senhor, mas muitas vezes é também fonte de preocupação ou problemas, como podem ser aqueles econômicos, do trabalho ou até mesmo do juízo dos outros ou da mesma família de origem. Deste ponto de vista qual tem sido a tua experiência?

Paulo: Os problemas, as preocupações não faltam nestes anos e continuam, junto com grandes alegrias e satisfações. A subsistência material causou certamente angústias, mas também nos permitiu experimentar a providência de forma multifacetada e, por vezes, emocionante.

Tenho que dizer então que a dialética seja com as famílias de origem, seja com o ambiente ao redor, em certos períodos apertado, eu e minha mulher não o vivemos como um limite, mas como uma ocasião para aprofundar e testemunhar na possibilidade de uma vida mais rica e mais plena. O dado fundamental para gerar os filhos foi o reconhecimento de um poder superior e de uma eleição: Deus é o autor da vida (eterna), nos ama e nos elege como seus colaboradores para transmitir a vida (eterna) para a nossa felicidade, de pais e filhos. Tudo isso se realiza no combate da fé e na liberdade, nossa e dos filhos.

De quem e como fostes ajudados em tudo isso e de que modo vistes a atuação do Senhor na tua vida?

Paulo: Fui ajudado pela Igreja por meio de um caminho de iniciação cristã vivido numa comunidade de irmãos. O Senhor se manifestou de muitos modos, mas sobretudo me permitiu exercitar “indignamente” o papel de Catequista para adultos, presenteando-me uma pregação que me moveu a reconhecer-me pecador, fazendo-me experimentar o perdão e a misericórida, a reconciliação e a comunhão com Deus, com os irmãos, com minha mulher e com os filhos, sempre com percursos de “morte e ressurreição, desolação e consolo”

Como já mencionado também do ponto de vista material, o Senhor sempre proveu trabalho e recursos, educando-me e levando-me ao conhecimento de mim mesmo para ensinar-me a misericórdia e o amor pelos outros.
Devo dizer honestamente que eu me esforço para não arruinar a Sua obra, até hoje, toda vez que me foi concedido confiar Nele eu não me decepcionei.

[Tradução Thácio Siqueira]

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* O esvaziamento -de inspiração marxista- da identidade paterna na sociedade moderna.

sexta-feira, março 16th, 2012

Em sessenta e oito houve um movimento juvenil de contestação global e de oposição radical à sociedade burguesa e capitalista, no qual foram negados o sistema de valores, os estilos de vida e a figura do pai, entendida como principal referência, real e simbólica, da autoridade.

Este movimento provocou uma revolução cultural, cujos efeitos são sentidos na sociedade atual, na qual se difundiu, em grande parte da população, uma visão atéia e materialista da vida.

Nos anos setenta, movimentos estudantis surgiram quase que contemporaneamente, na Itália, nos Estados Unidos, na Alemanha, na França, mas, enquanto nos outros países a revolução durou pouco, na Itália demorou décadas e seus efeitos perduram ainda hoje.

O centro das contestações era a Universidade e os protestos procuravam minar um elemento basilar da relação educacional: a autoridade.

A crítica ao conceito de autoridade atingiu não somente as Universidades na figura do docente, mas também e sobretudo, a família, que era considerada uma instituição funcional para o desenvolvimento do sistema capitalista e para a exploração da classe operária por parte dos “patrões”.

Esta era considerada uma “válvula de escape” na qual podiam acalmar as tensões de caráter psicológico-existencial, que, em vez poderiam ter sido canalizadas para a luta revolucionária.

A autoridade na família era representada pelo pai, símbolo da lei e da proibição e, enquanto tal, contestável, pois, como dizia um slogan do momento, no qual uma inteira geração de jovens se reconhece: “é proibido proibir”.

As proibições eram consideradas um impedimento ao exercício da liberdade e com esta, a expressão das necessidades mais profundas do individuo, reprimidas pela sociedade burguesa, considerada repressiva.

Também no confronto da Igreja a contestação voltou-se para a autoridade, ou seja, para os bispos e principalmente para o Papa, vigário geral de Cristo.

Os efeitos da ideologia de sessenta e oito são fortemente sentidos ainda hoje no que diz respeito à demolição progressiva do conceito de autoridade, principalmente a paterna.

Para certa cultura dentro da família o pai não representa mais a autoridade e muitas vezes, delega à mãe competências que são suas: como consequência os filhos não a vivem como uma presença competente que possa “fazê-los crescer” como pessoas maduras e responsáveis.

Na verdade, o termo “autoridade” deriva do latim auctoritas, que vem, por sua vez de auctor, derivado de augere, que significa “fazer crescer”.

O educador é, essencialmente, o auctoritas que faz o jovem crescer favorecendo a sua formação intelectual e moral e, se no pai tal autoridade não é reconhecida, é impedida a sua atividade de educador e o processo de maturação dos filhos é prejudicado, que necessitam de personalidade com autoridade com quem confrontar (e mesmo desencontrar), para desenvolver o pensamento crítico e realizar escolhas responsáveis.

A crise da figura paterna comporta, necessariamente, a crise da família enquanto tal.

É possível sair desta situação escutando os ensinamentos da Igreja, que apresenta como modelo de pai, São José e, como modelo de família, a família de Nazaré, que viveu plenamente a Palavra de Deus (cfr.Ef 5, 21-32): Maria acolhe, escuta, consola e São José é a autoridade, que guia com amor a família.

O Papa recentemente valorizou o papel do pai, apresentando a si mesmo como um pai de família. Dirigindo-se aos paroquianos de São João de La Salle, o Pontífice disse: “antes de tudo gostaria de dizer, com todo o meu coração, obrigado por esse acolhimento cordial, caloroso. Obrigado ao bom Pároco por suas belas palavras, obrigado por este espírito de família que encontro. Somos realmente a família de Deus e o fato de verem também o papai, è para mim uma coisa muito bela que me encoraja!” (Bento XVI, Visita Pastoral a Paróquia romana de São João Batista de La Salle em Torino, 4 março 2012).

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* Você entende o exercício da autoridade na Igreja como uma espécie de “domínio”?

sábado, dezembro 17th, 2011

Recordou o Papa na audiência geral de 26 de maio de 2010 (grifos meus):

“O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade?

As experiências culturais, políticas e históricas do passado recente, sobretudo as ditaduras na Europa do Leste e do Oeste no século XX, tornaram o homem contemporâneo suspeitoso em relação a este conceito. [...] Mas precisamente o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, recorda com vigor que a autoridade, em qualquer âmbito, quando é exercida sem uma referência ao Transcendente, se prescindir da Autoridade suprema, que é Deus, acaba inevitavelmente por se voltar contra o homem.

É importante então reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e só um meio e que, necessariamente e em cada época, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus com a própria intangível dignidade e chamada a realizar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercida na responsabilidade diante de Deus, do Criador. Uma autoridade tão intensa, que tenha como única finalidade servir o verdadeiro bem das pessoas e ser transparência do único Bem Supremo que é Deus, não só é alheia aos homens, mas, ao contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, rumo à salvação.

A Igreja está chamada e compromete-se a exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo o poder no Céu e na terra (cf.Mt 28, 18).

De facto, através dos Pastores da Igreja Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem nesta sua missão de se ocupar do Povo de Deus, de ser educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, cuidassem “para que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, a uma caridade sincera e activa e à liberdade com que Cristo nos libertou” (Presbyterorum ordinis, 6). Portanto, cada Pastor é o meio através do qual o próprio Cristo ama os homens: é mediante o nosso ministério queridos sacerdotes é através de nós que o Senhor alcança as almas, as instrui, guarda e guia.”

“Se esta tarefa pastoral se funda no Sacramento, contudo a sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser Pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3, 15) é preciso um radicamento profundo na amizade viva com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação sacerdotal, uma disponibilidade incondicionada a conduzir o rebanho confiadoaonde o Senhor quer e não na direcção que, aparentemente, parece mais conveniente ou mais fácil.”

“Nos últimos decénios, utilizou-se muitas vezes o adjectivo “pastoral” quase em oposição ao conceito de “hierárquico”, assim como, na mesma contraposição, foi interpretada também a ideia de “comunhão”. Talvez seja este o ponto sobre o qual pode ser útil uma breve observação sobre a palavra “hierarquia”, que é a designação tradicional da estrutura de autoridade sacramental na Igreja, ordenada segundo os três níveis do Sacramento da Ordem: episcopado, presbiterado, diaconado.

Prevalece na opinião pública, para esta realidade “hierárquica”, os elementos de subordinação e jurídico; por isso para muitos a ideia de hierarquia parece estar em contraste com a flexibilidade e com a vitalidade do sentido pastoral e também ser contrária à humildade do Evangelho. Mas este é um sentido da hierarquia compreendido mal, historicamente também causado por abusos de autoridade e por carreirismo, que são precisamente abusos e não derivam do ser próprio da realidade “hierárquica”. A opinião comum é que “hierarquia” é sempre algo relacionado com o domínio e assim não correspondente ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas, como eu disse, esta é uma interpretação errada, que tem origem em abusos da história, mas não corresponde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia.

Comecemos com a palavra. Geralmente, diz-se que o significado da palavra hierarquia seria “domínio sagrado”, mas o verdadeiro significado não é este, é “origem sagrada”, ou seja: esta autoridade não provém do próprio homem, mas tem origem no sagrado, no Sacramento; submete portanto a pessoa à vocação, ao mistério de Cristo; faz do indivíduo um servo de Cristo e só como servo de Cristo ele pode governar, guiar para Cristo e com Cristo.

Por isso quem entra na Ordem sagrada do Sacramento, a “hierarquia”, não é um autocrata, mas entra num vínculo novo de obediência a Cristo: está ligado a Ele em comunhão com os outros membros da Ordem sagrada, do Sacerdócio. E também o Papa ponto de referência de todos os outros Pastores e da comunhão da Igreja não pode fazer o que quiser; ao contrário, o Papa é guardião da obediência a Cristo, à sua palavra resumida na “regula fidei”, no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e à sua Igreja. Hierarquia implica por conseguinte um tríplice vínculo: antes de tudo com Cristo e com a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois o vínculo com os outros Pastores na única comunhão da Igreja; e, por fim, o vínculo com os fiéis confiados a cada um, na ordem da Igreja.”

“O modo de governar de Jesus não é o do domínio, mas é o serviço humilde e amoroso do Lava-pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra o seu ápice no madeiro da Cruz, que se torna juízo para o mundo e ponto de referência para a prática da autoridade, que seja verdadeira expressão da caridade pastoral.”

Texto na íntegra aqui.

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