Posts Tagged ‘Ética’

* Sorteio de óvulo humano gera polêmica na Grã-Bretanha.

segunda-feira, março 15th, 2010
Fertilização in vitro (Science Photo Library)
Uma clínica de fertilização londrina gerou polêmica no país ao anunciar que fará o sorteio de um óvulo humano para ser implantado e fertilizado em uma clínica nos Estados Unidos.

A ganhadora será escolhida entre as participantes de um seminário para mulheres que desejam se submeter à fertilização artificial, marcado para quarta-feira, cujo objetivo é divulgar a recente parceria da clínica Bridge Center, em Londres, com a clínica americana Genetics and IVF Institute (GIVF), na Virgínia.

A ganhadora do sorteio poderá escolher quem será sua doadora, a partir de um banco de dados com informações como origem racial, histórico médico, formação escolar e aspectos físicos.

O sorteio foi criticado por grupos de estudo da reprodução assistida, como a organização Comentário sobre Ética Reprodutiva (Core, na sigla em inglês), por comercializar material humano, o que é proibido pela lei britânica.

“A capacidade da indústria de fertilização in vitro de mercantilizar a vida humana atinge um novo patamar com essa iniciativa deplorável”, disse Josephine Quintavalle, diretora do instituto.

“Imagine se um dia uma criança descobrir que ele ou ela veio a existir graças a uma descarada iniciativa comercial”, completou.

Parceria internacional

Por meio dessa parceria com o centro americano, a Bridge Centre pretende contornar as rígidas regras britânicas para a reprodução assistida, enviando britânicas para receberem os óvulos nos Estados Unidos.

Na Grã-Bretanha, a remuneração por doação de óvulos é proibida. O máximo que a doadora consegue é uma ajuda de custos de 250 libras, ou R$ 670. Por isso, a oferta de óvulos no país é muito restrita.

A GIVF, porém, conta com doadoras de 19 a 32 anos que chegam a receber US$ 10 mil, ou R$ 17,6 mil, por doação. Dessa forma, há muito mais óvulos disponíveis para doação nos Estados Unidos do que na Grã-Bretanha.

Um dos problemas dessa doação de óvulos é que, para doá-los, as mulheres precisam passar por um tratamento pesado, com uso de medicamentos, para ampliar a produção de óvulos por ciclo menstrual.

Diante desse quadro, a Core demonstrou preocupação com essas mulheres que doam seus óvulos por dinheiro.

“Nós temos, no entanto, uma grande preocupação com o bem-estar dessas mulheres, pois a coleta de óvulos não é de maneira alguma um processo livre de riscos e muitas daquelas envolvidas no mercado mundial de óvulos sofreram significativamente como resultado. As consequências mais sérias incluem morte, perda parcial ou total da fertilidade, várias outras complicações médicas e problemas psicológicos também”, explicou Quintavalle.

“A clínica de fertilização in vitro envolvida nessa iniciativa está alimentando a vulnerabilidade colossal de mulheres ricas e inférteis ao custo do bem-estar de jovens mulheres pobres e igualmente vulneráveis”, acrescentou.

Segundo a Core, a venda de tecidos humanos, como óvulos, é proibido em toda a Europa. Portanto, nenhuma clínica britânica deveria colaborar com esse tipo de medida.

BBC Brasil

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* A Igreja não quer impor aos não crentes suas perspectivas, mas iluminar e despertar as consciências com a verdade.

domingo, março 7th, 2010

Resista a tentação de desanimar na leitura destre magnífico texto.

Imprima e leia com calma essa reflexão e veja que beleza de exposição.

Muito interessante.

Caso não entenda da primeira vez, leia uma outra vez, vale a pena.

****

Comunicar as próprias convicções – Ensaio de Ángel Rodríguez Luño

Num encontro para comunicadores que a Conferência Episcopal Italiana promoveu em Novembro de 2002, João Paulo II mencionava o fato de que “as rápidas transformações tecnológicas estão a determinar, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos, para a formação dos estilos de vida e das mentalidades.

A comunicação gera cultura e a cultura transmite-se mediante a comunicação”. Esse nexo entre comunicação e cultura é uma das principais razões pelas quais o mundo da comunicação suscita grande atração entre aqueles que se interessam pela ética.

”As rápidas transformações tecnológicas estão a determinar, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos e para a formação dos estilos de vida e das mentalidades” (1).

A adequada maturidade moral pessoal não é independente da comunicação e da cultura, que se expressa nos fins e estilos de vida socialmente aceites, nas leis, na celebração dos acontecimentos e personagens do passado que melhor correspondem à identidade moral de uma sociedade.

A cultura possui algumas leis próprias, pelo que as ideias – e os sentimentos que fomentam – têm uma consistência e um desenvolvimento bastante autónomo. É como se as ideias, quando passam ao plano da cultura e da comunicação, se separassem das inteligências que as produziram e começassem a ter uma vida própria, desenvolvendo-se com uma força que depende somente de si mesma. Uma força que depende da sua consistência objectiva e do seu dinamismo intrínseco, talvez diferente da intenção que tinham as pessoas que as puseram em circulação.

Por isso, todos os que desejam influenciar a vida social com o espírito do Evangelho devem estar atentos à íntima relação entre comunicação e cultura; se se deseja intervir positivamente na criação e transmissão de modos de vida e de visões do homem, é preciso atender à consistência e ao previsível desenvolvimento das ideias, mais do que à pretensa intenção das pessoas. Uma atitude polémica, uma resposta brilhante ou feroz podem fazer calar um adversário, mas se não se entende o que se expôs, nem se apreciou a consistência das suas ideias e as possíveis linhas de desenvolvimento que estas tinham, provavelmente não se colaborou no crescimento cultural nem mesmo se ofereceu uma alternativa cultural adequada; e assim, as ideias que foram rejeitadas, reduzindo ao silêncio quem as promoveu, continuarão a ter uma vida longa. Somente se se consegue fazer uma proposta que conserve e supere o que de bom e de verdadeiro havia nas ideias que se considera justo combater, é que se dará um influxo cultural real.

Verdade e liberdade

Em mais de uma ocasião, João Paulo II destacou que o conflito entre verdade e liberdade está presente em boa parte dos problemas que afectam a cultura do nosso tempo (2). A esse mesmo assunto se referiu Bento XVI com o conceito de relativismo (3). Diante das posições relativistas, tem-se a tentação de responder mostrando a sua contradição interna: quem considera que toda a verdade é relativa faz, na realidade, uma afirmação absoluta e, por isso, contradiz-se a si mesmo. Trata-se de uma crítica verdadeira, mas culturalmente pouco eficaz, porque não procura entender os pontos de apoio que sustentam os fundamentos relativistas, nem parece compreender a questão que tentam solucionar.

A partir de uma perspectiva ético-social, as posições relativistas têm o seu ponto de partida baseado no facto de que na sociedade atual existe uma pluralidade de projetos de vida e de concepções do bem, que parece propor uma disjuntiva: ou se renuncia à ideia de julgar os diferentes projectos de vida, ou há que abandonar o ideal ou o modus vivendi caracterizado pela tolerância.

Por outras palavras, um modo de vida tolerante requereria admitir que qualquer concepção de vida tem o mesmo valor ou, pelo menos, tem o mesmo direito de existir como qualquer das outras; se isto não se admite, cai-se num fundamentalismo ético e social.

O raciocínio é bastante enganador, mas apresenta-se com aparência de verdade por causa de um fato inegável, que constitui o seu ponto de apoio: ao longo da história e, inclusive, na atualidade, não faltou quem oprimisse violentamente a liberdade das pessoas e dos povos em nome da verdade. Por isso, para que a mensagem evangélica seja retamente entendida, torna-se necessário evitar qualquer palavra, raciocínio ou atitude que possa fazer pensar que um cristão coerente sacrifica a liberdade em nome da verdade. Se fosse dada esta impressão, ainda que involuntariamente, contribuir-se-ia para consolidar o pressuposto fundamental do relativismo: a ideia de que o amor à verdade e o amor à liberdade são incompatíveis, pelo menos na prática.

A comunicação de convicções cristãs e de conteúdos éticos necessita que seja demonstrada com obras, e não somente com palavras, que entre verdade e liberdade existe uma verdadeira harmonia; isto requer, por um lado, estar profundamente convencido do valor e do significado da liberdade pessoal. Mas, por outro, obriga a distinguir cuidadosamente o terreno ético do terreno político e jurídico. Em primeiro lugar, toda a chamada da autoridade se dirige à liberdade; em segundo lugar, o recurso à coação pode ser legítimo.

Ética e política

Nas questões éticas, a consciência abre-se à verdade, que tem um evidente poder normativo sobre as próprias decisões; está em jogo a relação da consciência pessoal com a concepção que se tem do bem humano, às vezes relacionado com princípios religiosos; por sua vez, o âmbito jurídico e político refere-se às relações entre pessoas ou entre pessoas e instituições, que – enquanto reguladas pelas leis – estão submetidas ao poder coactivo que o Estado e os seus representantes podem usar legitimamente.

Estes dois âmbitos – ético e político – estão muito relacionados, e muitas vezes têm um desenvolvimento paralelo. O homicídio intencional, por exemplo, tem ao mesmo tempo uma grave culpa moral e um crime que o Estado tem o dever de perseguir e punir. Mas ainda neste caso, os dois âmbitos apresentam diferenças significativas. Basta pensar, por exemplo, no perdão. Uma coisa é o perdão da culpa moral e outra, bem diferente, o perdão do crime: é desejável que os parentes da vítima de um homicídio perdoem cristãmente ao culpado, mas não seria admissível que o Estado seguisse sistematicamente uma política de impunidade do homicídio intencional. Afirmar o contrário seria um abuso ideológico ou uma grave ofensa contra o bem comum.

Neste tipo de diferença torna-se necessário distinguir o plano ético do plano político no que se refere aos princípios morais do Evangelho. Para evitar más interpretações, há que oferecer um fundamento ético às mensagens de tipo moral, explicitando que tal verdade não pretende impor-se mediante o uso do poder político de coação; isto é compatível com a existência, noutro tipo de verdades éticas, de uma dimensão ético-política ou ético-jurídica. Nestes casos, deverá ser oferecida, além disso, uma justificação política ou jurídica, ou seja, deverá ser demonstrado não somente que o comportamento em questão é moralmente equivocado, mas também que existem razões específicas pelas quais o Estado a tem que proibir e punir. Razões que não são idênticas às razões éticas, porque não é missão do Estado perseguir a culpa moral, mas promover e tutelar o bem comum, prevenindo e punindo aquelas condutas que o lesionam (que prejudicam a segurança pública, a liberdade e os direitos dos outros, as instituições de interesse social como a família, etc.).

Ética e Estado

Certamente, o Estado promulga, algumas vezes, leis injustas. Nesses casos, o cidadão de reta consciência deveria poder criticá-las com liberdade.

O Concílio Vaticano II afirmou com clareza o direito e o dever da Igreja de “dar o seu juízo moral, inclusive sobre matérias referentes à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas” (4).

Nestes casos, é importante saber dar à legislação equivocada uma resposta culturalmente eficaz. Não é uma tarefa fácil, porque é preciso ir além das contra-posições polémicas, sabendo assumir a parte de verdade da posição contrária. Quando em consciência se deve criticar uma atuação do Estado, requer-se a explicitação de uma fina sensibilidade pelos valores das instituições democráticas, sensibilidade que não se deveria deixar indefinida pelo fato, certamente muito doloroso, de que, numa determinada ação, uma instituição concreta se tenha comportado de modo injusto.

A firmeza nos princípios éticos deve ser – e parecer – compatível com a consciência de que a realização de bens pessoais e sociais num contexto histórico, geográfico e cultural determinado, se caracteriza por uma contingência parcialmente insuperável.

Em questões práticas, é frequente que não exista uma única solução possível. Inclusive nas decisões da Igreja relativas a coisas não necessárias, devem ser contingentes, precisamente porque se referem a uma realidade que depende muito das circunstâncias, que mudam com o passar do tempo; por isso, é necessário aprender a reconhecer que, nesse tipo de decisões, somente os princípios irrenunciáveis expressam o aspecto duradouro (5). Ninguém pode pretender, em questões temporais, impor dogmas, que não existem (6.). Com isto não se quer dizer que tudo neste mundo é contingente, acidental ou opinável; trata-se antes de perceber com clareza que nos assuntos humanos, também os outros podem ter razão: vêem a mesma questão que tu, mas dum ponto de vista diferente, com outra luz, com outra sombra, com outros contornos. – Somente na fé e na moral é que há um critério indiscutível: o da nossa Mãe a Igreja (7).

A autonomia das realidades temporais

No entanto, poderia ocorrer que a doutrina cristã sobre uma determinada matéria ético-social coincida com a que sustentam todos ou uma boa parte dos cidadãos que legitimamente militam num determinado partido político. Nestes casos, poderia originar-se – involuntariamente – uma situação delicada, porque poderia parecer que os cristãos ou inclusive a Igreja, ao proporem os seus ensinamentos, estão a apoiar uma determinada área política e não a apresentar unicamente a mensagem do Evangelho.

Esta confusão poderia motivar acusações de intromissão ou de falta de respeito para com o Estado; acusações que talvez sejam um simples pretexto político, ou inclusive mal intencionadas; mas o que se deve ter em conta quando se procura informar a cultura com o espírito do Evangelho, é esclarecer serenamente aquela aparência de verdade que podem conter estas condenações. Dois tipos de considerações são oportunas.

A primeira é que todos os cidadãos – também os que formam parte de um órgão legislativo ou de um partido político – têm o direito e o dever de apoiar as soluções que em consciência consideram úteis para o bem do próprio país, alegando – se for possível – as razões que justificam a sua convicção.

Cada um é livre para consultar livros especializados que considera fiáveis, ou de falar com quem entender; se um cidadão se pode inspirar em determinada teoria política ou económica, também pode apoiar-se na Doutrina Social da Igreja. As soluções políticas são medidas pelo seu valor intrínseco e pelas razões que as justificam. Questionar as fontes utilizadas por cada cidadão para formar as suas convicções seria uma falta de respeito à autonomia da consciência dos outros. É fácil ver que a radicalização de tal atitude levaria a conclusões absurdas: por exemplo, afirmar que o Estado, para reforçar o seu estado laical, deveria favorecer o que a Igreja condena, como a escravidão.

A segunda consideração oportuna é a necessidade de se ter uma ideia clara acerca da distinção existente entre a missão do Estado e a da Igreja. A este propósito, Bento XVI deu indicações muito úteis. A distinção entre o que é de César e o que é de Deus, com a consequente autonomia das realidades temporais, pertence à estrutura essencial do cristianismo (8). É tarefa do Estado interrogar-se sobre o modo de realizar a justiça concretamente aqui e agora; neste campo, a Doutrina Social da Igreja apresenta-se como uma ajuda, que “não pretende outorgar à Igreja um poder sobre o Estado. Tampouco quer impor aos que não compartilham da fé as suas próprias perspectivas e modos de comportamento” (9).

Tal doutrina argumenta com base na razão e no direito natural e reconhece que a construção de um justo ordenamento da vida social é uma tarefa política, que “não pode ser uma obrigação imediata da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a Igreja tem o dever de oferecer, mediante a purificação da razão e da formação ética, a sua contribuição específica, para que as exigências da justiça sejam compreensíveis e politicamente realizáveis.

A Igreja não pode, nem deve, empreender por conta própria a iniciativa política de fazer a sociedade o mais justa possível. Não pode, nem deve, substituir-se ao Estado. Mas também não pode, nem deve, ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela através da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre exige também renúncias, não pode afirmar-se nem prosperar” (10).

A realização da justiça é um ponto em que a fé e a política se aproximam. Por isso requer-se uma atenção cuidadosa para que ninguém, com boa vontade, possa pensar que a fé cristã se identifica com uma das partes políticas existentes na sociedade. Certamente, a fé cristã tem algo a dizer às diversas culturas políticas dos homens e dos povos; mas a fé pressupõe a liberdade e oferece-se à liberdade, que por ela se deve amar com as palavras e com as obras.

1 – João Paulo II, Discurso ao Congresso nacional italiano de agentes da cultura e da comunicação, 9-11-2002, n. 2.

2 – Cf. por exemplo: Litt. enc. Redemptor hominis, 4-03-1979, n. 12; Litt. enc. Centesimus annus, 1-05-1991, nn. 4, 17 y 46; Litt. enc. Veritatis splendor, 6-08-1993, nn. 34, 84, 87 y 88; Litt. enc. Fides et ratio, 14-09-1998, n. 90.

3 – Cf. por exemplo: Discurso ao Convênio diocesano promovido pela diocese de Roma sobre o tema “Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé”, 7-6-2005; Discurso ao Corpo Diplomático acreditado diante da Santa Sé, 8-01-2007; Discurso a uma Delegação da “Académie des Sciences Morales et Politiques” de Paris, 10-02-2007; Discurso inaugural da V Conferência do Episcopado Latinoamericano, 13-5-2007.

4 – Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 76.

5 – Cf. Bento XVI, Discurso aos Cardeais, Arcebispos, Bispos e Prelados superiores da Cúria Romana, 22-12-2005.

6 – Temas Actuais do Cristianismo, n. 77.

7 – Sulco, n. 275.

8 – Cf Bento XVI, Litt. enc. Deus caritas est, 25-12-2005, n. 28.

9 – Ibid.

10 – Ibid.

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* Congregação para a Doutrina da Fé apresenta documento sobre questões de bioética.

domingo, janeiro 24th, 2010

Com o objetivo de atualizar a Donum vitae (1987), a Congregação Pontifícia para a Doutrina da Fé apresentou a instrução Dignitas personae sobre algumas questões de bioética.

Com 33 páginas e publicada em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, português e polonês, a instrução é fruto de um estudo que teve início em 2002 pela Congregação para a Doutrina da Fé.“

O documento, aprovado pelo papa, faz parte do Magistério ordinário do sucessor de Pedro e é de natureza doutrinal”, explica o secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Luis Francisco Ladaria.

“A instrução motiva a investigação biomédica que respeita a dignidade de todos os seres humanos e da procriação. Ao mesmo tempo, exclui como eticamente ilícitas diversas tecnologias biomédicas”, acrescenta.

Já o presidente da Pontifícia Academia para a vida, dom Rino Fisichella, disse que o documento expressa a “própria contribuição autorizada na formação da consciência não somente dos que crêem, mas dos que tratam de escutar as argumentações que se apresentam e debatê-las”.

A professora associada de Bioética da Universidade Católica do Sagrado Coração, Maria Luisa Di Pietro, disse que antes de examinar as questões que o documento apresenta como as técnicas de ajuda à fertilidade, a fecundação in vitro, o congelamento de embriões, “é necessário recordar os três bens fundamentais sobre o que rege cada uma dessas decisões: o reconhecimento da dignidade da pessoa humana desde a concepção até a morte natural; a unidade do matrimônio; os valores especificamente humanos da sexualidade”.

Já o presidente emérito da Pontifícia Academia para a Vida, dom Elio Sgreccia, acrescentou que o documento apresenta as novas propostas terapêuticas que compreendem a manipulação do embrião ou do patrimônio genético humano.

CNBB

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* Valores, bioética e vida social, um ponto de encontro.

sábado, dezembro 19th, 2009

Padre Fernando Pascual, L.C., professor de filosofia e de bioética no Ateneo Pontifício Regina Aspololorum (ROMA), acaba de publicar um livro sobre bioética, intitulado “Valores e vida social: Um ponto de encontro” (El Arca, México, 2009).

–O que propõe com este novo livro?

–Pe. Fernando Pascual: Este livro deseja ser um “ponto de encontro” e de diálogo nos debates sobre temas que envolvem a bioética, que frequentemente estão presentes nos parlamentos, nos meios de comunicação social, nas universidades e nas famílias.

–Os debates sobre aborto, eutanásia, legalização da droga, sentido da sexualidade humana não seriam discussões invencíveis?

–Pe. Fernando Pascual: Os temas que mais afetam nossa vida podem ser tratados sem entusiasmo. É necessário deixar claro em cada debate os princípios que estão em jogo. Quando discutimos sobre estes temas, como aborto ou eutanásia, mexemos com os princípios da sociedade. Um Estado que permite incriminar inocentes como algo legal se auto-destrói.

–Uma afirmação dessas não implicaria em uma atitude intolerante? Como consta em seu livro, existem muitos pontos de vista relacionados à bioética…

–Pe. Fernando Pascual: Há certos temas que ninguém deveria contestar. Por exemplo, existe um consenso social muito amplo contra as posições racistas. Porém quase ninguém consideraria a luta contra o racismo um sinônimo de intolerância. Algo semelhante deveria acontecer a respeito do aborto ou da fecundação artificial. Condenar tais práticas como injustas não significa ser intolerante e sim estar em defesa dos princípios fundamentais da vida social.

–Muitos dirão que este é o ponto de vista da Igreja Católica ou de outros grupos religiosos. Contudo, hoje vivemos em um mundo pluralista e as religiões deveriam se limitar à esfera privada, segundo nos dizem. Não seria assim?

–Pe. Fernando Pascual: O pluralismo é legítimo naqueles temas em que as diferentes alternativas não implicam em nenhum dano aos inocentes. Mas ele não deveria ser permitido em respeito aos direitos humanos fundamentais. A verdadeira bioética não pode pôr em discussão os princípios básicos da vida social, como, por exemplo, o que nos leva a defender a vida dos mais fracos e indefesos entre os seres humanos. As religiões não podem emudecer quando há grupos que defendem leis contra a vida ou a saúde dos demais.

–Nesta linha de pensamento, o que pretende ao publicar o livro?

–Pe. Fernando Pascual: O subtítulo diz. Busco oferecer um “ponto de encontro” através de algumas reflexões sobre importantes temas da bioética, de uma forma que estes possam ser enfrentados da forma correta, na vida pública. Uma das tarefas mais difíceis da bioética consiste em promover uma cultura da vida (como explicou João Paulo II e como segue propondo Bento XVI),  onde será possível contrapor uma anti-cultura da morte.

–A partir de quais valores se pode propor a bioética na vida social?

–Pe. Fernando Pascual: A partir daqueles valores que garantam o respeito a toda vida humana, desde sua concepção até a sua morte. É uma ideia constante na doutrina católica, mas é também um dos princípios básicos que vêm depois dos direitos humanos. Dizer que todos somos iguais perante a lei faz sentido se o direito básico da vida estiver garantido de modo efetivo a todos, sem discriminação.

–Portanto, deve-se proibir o aborto, a inseminação artificial e a eutanásia no mundo inteiro?

–Pe. Fernando Pascual: Efetivamente. Tudo o que é possível deve ser feito para que seja vencida a mentalidade que é a favor do aborto e da eutanásia. É necessário propor uma cultura de solidariedade. Esta última ideia brilha, com uma força especial, na encíclica que Bento XVI publicou neste ano, “Caritas in Veritate”, na qual toca com profundidade vários temas da bioética. Se trabalharmos sério a fim de defender a dignidade de qualquer ser humano, será possível construir um mundo mais inclusivo e aberto à vida de todos, especialmente para aqueles mais sensíveis e indefesos: os filhos antes do nascimento, os pobres, os doentes, os mais velhos.

Zenit

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* Clonagem humana: Você saberia responder a essas perguntas?

sábado, dezembro 5th, 2009

O que é a clonagem?

É o procedimenteo científico que consiste em pegar o material genético de um organismo para obter outro idêntico, denominado clone. Através da clonagem, não há uma união de óvulos com espermatozóides.

Em que consiste a clonagem terapêutica?

É um termo ainda enganoso, pois ainda não proporcionou nenhum resultado real. A técnica consiste em pegar o material genético de uma célula de um paciente para depois fazer a sua fusão com um óvulo. Isto formaria um embrião “sintético”. Deste embrião são extraídas as células-mãe, que seriam controladas para desenvolver-se como células de uma natureza específica (musculares, neurológicas, etc.).

Estas células “perfeitas” seriam implantadas no paciente para supostamente curar a imperfeição orgânica ou a doença.

A clonagem terapêutica é o único caminho médico pelo qual se poderiam obter estes resultados?

Definitivamente não. Lamentavelmente, os cientistas partidários da clonagem escondem o fato de que as células-mãe, ou neutrais, que podem ser convertidas em outras células específicas podem ser obtidas de indivíduos adultos e não de embriões. E mais ainda, mesmo que este processo seja mais trabalhoso, não só é eticamente legítimo, como inclusive tem apresentados alguns resultados mais prometedores do que as pesquisas com células emrionárias.

Quais doenças podem ser tratadas por meio da clonagem terapêutica?

Até agora nenhuma. Os cientistas partidários da clonagem vêm trabalhando sobre a suposição de que as células-mãe obtidas do embrião sintético poderiam ser utilizadas no tratamento de diabetes, mal de Parkinson e de Alzheimer, fibrose quística, esclerose múltipla, acidentes neurovasculares, alguns tipos de câncer, leucemia, artrite reumática e algumas doenças cardiovasculares.

Quais são as principais objeções a estas técnicas?

São duas. A primeira é de caráter ético: a clonagem de seres humanos se baseiam na suposição de que um ovo fecundado, a pesar de possuir todo o código genético de um ser humano, e desde o ponto de vista genético, só se distingue do ser humano pelo seu tamanho, não é uma pessoa. São utilizados até mesmo eufemismos como o de “pré-embrião”, para esconder assim o fato objetivo do caráter humano do sujeito que está sendo manipulado.

O segundo de caráter científico, é que a carreira da clonagem, se transformou em algo muito próximo a uma farsa, pois vem-se difundindo a idéia de que esta prática poderia ser a panacéia para quase todas as enfermidades humanas, quando não existe ainda nem um só resultado científico positivo na cura de doenças.

A clonagem é sempre imoral?

Não. Não existem objeções morais quanto às clonagens animais, uma técnica que se pratica há alguns anos de maneira experimental. Esta prática, além de melhorar a reprodução de animais de abate, barateando o custo de certas carnes, poderia eventualmente ser utilizado par salvar espécies em extinção. Existe, entretanto, uma questão que deve deixar ainda aberta a dúvida sobre esta prática inclusive em animais: ainda se desconhece se a reprodução por clonagem pode trazer mal formações genéticas perigosas ainda desconhecidas pelos cientistas e que poderiam ser fonte de novas doenças e mal formações animais e humanas.

Fonte: ACI

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* CNBB condena “prece da propina” de acusados no DF

terça-feira, dezembro 1st, 2009

O secretário-geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara Barbosa, condenou nesta segunda-feira a “bênção” realizada pelo presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Leonardo Prudente, e pelo corregedor da Casa, Junior Brunelli, registrada em vídeo gravado em investigações da Polícia Federal (PF). No vídeo, os dois, acusados de participar do esquema de pagamento de propina organizado pelo governo de José Roberto Arruda (DEM), aparecem pedindo a Deus que tire “pessoas ímpias e más” de seus caminhos e que proteja o secretário de Relações Institucionais da gestão do político democrata, Durval Barbosa.

O deputado Júnior Brunelli, que em outro vídeo aparece recebendo maços de dinheiro, é quem pede a intervenção divina para a ajuda. Barbosa é réu em 37 processos e denunciou o esquema de suposto pagamento da base aliada do governo de José Roberto Arruda (DEM) por conta da delação premiada, acordo feito com a Justiça para diminuição de pena em uma eventual condenação judicial.

O “mensalão” do governo, cujos vídeos foram divulgados neste fim de semana, é resultado das investigações da operação Caixa de Pandora, da PF. O esquema de desvio de recursos públicos envolvia empresas de tecnologia para o pagamento de propina aos parlamentares.

“Lamento que a religião esteja tão banalizada a ponto de as pessoas não a verem como serviço a Deus e ao próximo, mas como servir-se da fé e do próximo. Isso é uma inversão total de valores. Estamos perplexos como o que já vimos nesse caso e queremos que as investigações sejam ágeis e que, o quanto antes, a ética possa prevalecer e os fatos possam ser esclarecidos”, observou o secretário-geral da CNBB.

Questionado, Leonardo Prudente não comentou o vídeo em que aparece participando da oração. Na gravação, Brunelli diz que o sangue divino purificaria suas “imperfeições” e pede ajuda de Deus para enfrentar uma “guerra”.

“Pai, quero te agradecer por estarmos aqui, sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos, mas é o teu sangue que nos purifica. Pai, nós somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele, contra nossas vidas. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham, Senhor, armas para nos ajudar essa guerra. Acima de tudo, Senhor, todas as armas que podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha”, diz Brunelli na oração.

***

A que ponto !

Jesus já havia falado sobre isso quando diz que nem todos que o chamam de Senhor herdarão o reino dos céus.

Ética,coerência,honestidade são atributos dos filhos de Deus que entendem a fé como sendo muito mais do que frequentar templos e dizer orações..

Tem a ver com a vida e como se vive!

Tem a ver com as decisões e com os valores que norteiam as decisões.

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* Enérgico chamado de coalizão cristã nos EUA para defender vida, matrimônio e liberdade religiosa.

sábado, novembro 28th, 2009

Uma proeminente coalizão de mais de 150 líderes cristãos: bispos católicos, ministros evangélicos e diversos acadêmicos assinaram a “Declaração de Manhattan”, um manifesto no qual insistem a defender a sacralidade da vida humana, o Matrimônio e a liberdade religiosa.

Esta declaração dada a conhecer recentemente é um “forte chamado” aos cristãos dos Estados Unidos para aderir-se à mesma e informa às autoridades civis que os assinantes “sob nenhuma circunstância” abandonarão sua consciência cristã.

“Somos cristãos os que nos reunimos indo além das linhas das diferenças eclesiásticas para afirmar nosso direito –e o que é mais importante, sublinhar nossa obrigação– de falar e atuar em defesa destas verdades. Assinalamos aos nossos irmãos crentes que nenhum poder da terra, cultural ou político, intimidar-nos-á com o silêncio ou a aquiescência”, diz a declaração.

Os assinantes explicam que reconhecem “o dever de cumprir com as leis (…) a menos que estas normas sejam gravemente injustas ou requeiram que quem as cumpra façam algo injusto ou imoral”.

Deste modo precisam que “não cumpriremos nenhuma norma que obrigue as nossas instituições a participar de abortos, investigações que destruam embriões, suicídio assistido e eutanásia , ou qualquer ato anti-vida; tampouco abençoaremos uniões imorais que queiram equiparar-se ao matrimônio, nem nos calaremos para proclamar a verdade, que conhecemos, sobre a moralidade e a imoralidade, do matrimônio e a familia”.

“Sempre e totalmente daremos a César o que é de César, mas sob nenhuma circunstância daremos ao César o que é de Deus”, precisam.

Depois de denunciar a política abortista do governo, recordam a necessidade de custodiar o matrimônio que é a união para sempre entre um homem e uma mulher sobre a qual se funda a autêntica família.

Sobre esta declaração o vaticanista italiano Sandro Magister assinala que “não cai no ar mas em um momento crítico para a sociedade e a política dos Estados Unidos: precisamente enquanto a administração de Barack Obama está empenhada em excesso em fazer acontecer um plano de reforma da atenção de saúde nos Estados Unidos”.

“Defendendo a vida humana desde a concepção e o direito à objeção de consciência, o chamado responde dois pontos postos em perigo pelo projeto de reforma atualmente em discussão no Senado”, acrescenta.

Sobre a reforma debatida no Congresso, Magister assinala que “o perigo foi destampado graças a uma premente ação de lobby conduzida em plena luz do dia pelo episcopado católico. Depois que o voto final tinha garantido tanto o direito à objeção de consciência assim como o bloqueio de qualquer financiamento público ao aborto, a conferência episcopal tinha reivindicado este resultado como um ‘triunfo’”.

“Mas agora –prossegue– no Senado a batalha tornou a começar do início, sobre um texto base que de novo a  Igreja julga inaceitável. A Conferência Episcopal já dirigiu aos senadores uma carta indicando as modificações que queria que fossem contribuídas a todos os pontos controvertidos”.

Entre os assinantes desta declaração estão o Arcebispo de Filadélfia, Cardeal Justin Rigali, o Arcebispo Emérito de Detroit, Cardeal Adam Maida; o Arcebispo de Denver, Dom Charles Chaput, o Arcebispo de Nova Iorque, Dom Timothy Doam; o Arcebispo de Washington, Dom Donald Wuerl, e outros 9 bispos católicos mais.

Também assinaram a declaração: o metropolita Jonah Paffhausen, primado da igreja ortodoxa dos Estados Unidos, Peter Akinola, primado da igreja anglicana da Nigéria; o Dr. James Dobson, fundador da Focus on the Family (Enfoque à Família); o Dr. William Donohue, Presidente da Catholic League; Robert Duncan, primado da igreja anglicana da América do Norte; o Pe. Joseph D. Fessio, fundador e editor da Ignatius Press; William Owens, diretor da Coalizão de Pastores Afro-americanos; entre outros.

Para ler um resumo do manifesto e a análise completa do vaticanista Sandro Magister, o leitor pode ingressar em:
http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1341135?sp=e

A declaração completa, em inglês, com a possibilidade de assiná-la: http://manhattandeclaration.org/

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* Internet, educação e ética.

sexta-feira, novembro 27th, 2009

A internet “sozinha” – ao contrário do que alguns apregoam – não faz com que as pessoas tenham um salto intelectual qualitativo:

Quando o email se popularizou vários acadêmicos deram entrevistas dizendo que era uma Era de Ouro da Palavra Escrita, as crianças escreveriam como nunca, teríamos milhares de novos autores, o ensino do idioma no colégio seria facilitado, etc.

Aí veio o miguxês.

As ferramentas são somente ferramentas, e dar poder às pessoas não necessariamente vai fazer com que elas adquiram responsabilidades. Às vezes, funciona. Outras vezes, no entanto – e, infelizmente, na maior parte das vezes -, as pessoas não mudam (talvez piorem), e utilizam mal o poder que lhes foi concedido.

Na verdade, nada substitui a educação, e “educação” não deve ser confundida meramente com “informação”. Hoje em dia temos muita informação. Qualquer criança “sabe” (= ter informação) muito mais coisa do que um adulto médio de algumas décadas atrás. Mas não sabe o que fazer com isso. Informação em demasia, sem desenvolver os processos intelectuais necessários para processá-la, e sem um senso moral apurado para saber o que fazer com ela, é um desastre.

A internet cria o “miguxês”, mas este não é o único problema dos nossos dias. O excesso de informação, dissociado de uma formação moral decente, cria as aberrações morais hodiernas. Pode-se clonar? Clone-se. Pode-se fertilizar artificialmente? Fertilize-se. Pode-se curar doenças destruindo embriões humanos? Destrua-se e cure-se. Pode-se abortar com segurança? Aborte-se. Et cetera, que esta lista é bem grande.

Na verdade, confunde-se o “pode-se” técnico com o “pode-se” moral. Não lembro quem diz uma frase parecida, mas já a escutei mais de uma vez: [p.s.: Fides et Ratio, 88] ter capacidade técnica de fazer algo não significa que este algo pode ser feito.

As crianças de hoje sabem, do ponto de vista informativo, muito mais do que os adultos de antigamente; mas até mesmo as crianças de antigamente sabiam “certo” e “errado” muito melhor do que alguns adultos dos nossos dias…

O progresso técnico desvinculado da moral é em grande parte responsável pela crise dos nossos dias. Isto obviamente não significa que somos contra o progresso técnico, da mesma forma que não somos contra a internet por causa da nova gramática “miguxa”. Mas somos, sim, contra a desvirtuação das ferramentas, e pregamos, sim, que haja ordem nas coisas. Afinal de contas, há usos mais nobres para a internet que o miguxês. E há usos mais nobres para a ciência que a degradação do ser humano. Os irresponsáveis defensores de uma ciência sem ética correspondem perfeitamente aos “miguxos” da internet, só que num plano mais elevado, mais sério, e mais desastroso.

Jorge Ferraz

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* Ser humano nunca deve se reduzir a simples corpo.

sexta-feira, novembro 20th, 2009

“O corpo de um ser humano, desde os primeiros estágios de sua existência, nunca pode ser reduzido ao conjunto das suas células”: assim afirmou ontem Dom Zygmunt Zimowski, presidente do Conselho Pontifício da Saúde, no Instituto Internacional de Teologia Pastoral Sanitária Camillianum, na abertura do novo ano acadêmico.

Segundo o presidente do conselho, o “sim” à vida “deve ser colocado no centro da reflexão ética sobre a pesquisa biomédica, que reveste uma importância cada vez maior no mundo de hoje”.

Dom Zimowski explicou que as ciências médicas desenvolveram de modo considerável seus conhecimentos sobre a vida humana nos estágios iniciais da sua existência, até conhecer melhor as estruturas biológicas do homem e o processo da sua geração.

“Este desenvolvimento – afirmou – é certamente positivo e merece ser apoiado, quando serve para superar ou corrigir patologias e contribui para restabelecer o desenvolvimento normal dos processos generativos.”

“Mas – acrescentou –, e é preciso dizer isso com clareza, é negativo e, portanto, não pode ser compartilhado, quando implica a supressão de seres humanos ou usa meios que causam dano à liberdade da pessoa ou que são adotados para fins contrários ao bem integral do homem.”

O prelado explicou que “o grande desafio da vida humana tem a ver antes de mais nada e sobretudo com o seu início” e existe uma tentativa de transladar ao início da vida da concepção à nidação, o que suporia um “pleno nulla osta ético para o aborto, porque passam 15 dias do momento da fecundação do óvulo até o momento da nidação no útero materno”.

Retomando as palavras de João Paulo II na Novo millennio ineunte, Dom Zimowski precisou que a Igreja deve realizar uma tarefa de radicalidade evangélica, sem temor às críticas, porque a defesa da vida “está na agenda eclesial da caridade” e responde ao “dever de comprometer-se no respeito de cada ser humano desde a concepção até seu ocaso natural”.

“Da mesma forma – comentou –, o serviço ao homem nos obriga a gritar, oportuna e inoportunamente, que os que se valem das novas potencialidades da ciência, especialmente no campo da biotecnologia, não podem desatender às exigências fundamentais da ética, apelando talvez a uma discutível solidariedade que acaba por discriminar entre vida e vida, desprezando a realidade própria de cada ser humano.”

Neste contexto, o prelado afirmou que a vida do homem está no coração da mensagem de Cristo, porque “o homem, grande e maravilhosa figura vivente, é mais precioso aos olhos de Deus que toda a criação: é o homem, e para ele existem o céu e a terra, o mar e a totalidade da criação, e é à sua salvação que Deus deu tanta importância, a ponto de não poupar sequer seu próprio Filho”.

“No plano de Deus Criador – acrescentou – tudo foi criado para o homem, mas o homem foi criado para servir Deus e para oferecer-lhe toda a criação” e por isso a defesa da vida entendida como caridade “está necessariamente ao serviço da cultura, da política, da economia, da família, para que em todas as partes se respeitem os princípios fundamentais dos quais depende o destino do ser humano e o futuro da civilização.”

Por Antonio Gaspari
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* Cuidar da vida até à morte: Contributo para a reflexão ética sobre o morrer.

sexta-feira, novembro 20th, 2009
Publicamos a seguir a Nota pastoral da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), intitulada “Cuidar da vida até à morte: Contributo para a reflexão ética sobre o morrer”. O texto foi difundido por Agência Ecclesia, ao final da Assembleia plenária da CEP em Fátima
A nota é bem profunda e objetiva” dar um contributo para o debate em curso e oferecer aos católicos algumas linhas de orientação que devem ser tidas em conta nas suas reflexões.

Interessante porque aborda a morte sob a ótica da fé e também as questões éticas relacionadas ao morrer de forma verdadeiramente humana.

O documento apresenta a visão cristã de um problema antropológico, não apenas confessional,o morrer dignamente.
Remete a eutanásia,suicidio assistido  e temas relacionados.
Vale a pena ler até o fim e salvar no computador.

Excelente!

* * *

1. A discussão em curso na nossa sociedade

A dignidade da pessoa na fase final da vida tem sido, nos últimos meses, objecto de debate na sociedade portuguesa. A opinião pública, e os cidadãos em particular, são confrontados com muitos dos problemas que, justamente, são motivo de preocupação e de reflexão, sejam eles de natureza ética, social, assistencial ou económica.

Muitas das questões actualmente em discussão são de todos os tempos, pois têm a ver com a dificuldade em integrar a morte no horizonte da própria vida. Outras são típicas da nossa época, porque resultam das condições que as novas possibilidades da medicina nos proporcionam. Uma observação atenta das intervenções que surgem nos meios de comunicação social mostra uma grande falta de rigor na terminologia usada; e é visível que, por vezes, se pretende validar opções inaceitáveis (morte directa de um paciente) aplicando o termo “eutanásia” a situações que não o são de facto,  e que podem ser eticamente aceitáveis.

Os Bispos de Portugal, sabendo da importância destes problemas, da intenção que, a nível político, se tem manifestado no sentido de produzir legislação neste âmbito e perante a ambiguidade de muitos dos conceitos que são usados, pretendem, com esta intervenção, dar um contributo para o debate em curso e oferecer aos católicos algumas linhas de orientação que devem ser tidas em conta nas suas reflexões.

2. A visão cristã de um problema não confessional

Será conveniente recordar que esta não é uma discussão de carácter religioso ou confessional, embora algumas posições possam ser incompatíveis com a visão cristã da vida e do homem. Ao pensar sobre opções de carácter jurídico ou ético, é necessário, portanto, questionarmo-nos sobre aquilo que é importante para uma vida verdadeiramente humana, sobre o que é decisivo na realização da pessoa, sobre os valores autênticos de humanidade, sobre o modelo de sociedade em que queremos viver.

É a este nível que se torna decisivo o contributo das intuições que brotam da fé cristã. A revelação bíblica mostra-nos a existência humana como resultado da bondade divina, isto é, como um dom que suscita em nós gratidão e não nos dispensa da responsabilidade de cuidar dele. Para o crente, a vida não está à inteira disposição de quem quer que seja, não é arbitrariamente disponível, mas tem de ser respeitada como a condição básica de realização pessoal. A vida humana é prévia a qualquer projecto pessoal, por isso ninguém é senhor absoluto da sua própria vida e muito menos senhor da vida dos outros. O valor da vida humana não brota das valorizações que a sociedade atribui ou dos critérios que no momento são socialmente significativos, mas de uma dignidade prévia a qualquer criteriologia. O suporte desta dignidade é a própria condição humana, que, para o cristão, tem origem na bondade criadora de Deus e no amor salvífico de Jesus Cristo.

Esta visão crente da vida leva-nos também a encarar com realismo os limites naturais da existência humana, já que, numa perspectiva de fé, a realização plena e definitiva da pessoa só é possível na vida em Deus. O testemunho dos mártires cristãos mostra-nos que não é sensato para o crente lutar pela vida a todo o custo. O horizonte da eternidade valoriza e, ao mesmo tempo, relativiza a vida biológica de cada pessoa. Por outro lado, a afirmação da convicção de que só Deus é o Senhor da vida, não retira ao homem a sua responsabilidade de procurar as melhores opções para cuidar da vida que tem diante de si. Cada pessoa deve ser respeitada como sujeito da sua própria existência e nunca simplesmente como objecto do qual se possa dispor arbitrariamente.

3. O morrer na cultura actual

Estas convicções da fé cristã necessitam permanentemente de ser confrontadas com os desafios e as exigências de cada época. Algumas características da cultura contemporânea deram origem a um modo próprio de abordar não só os problemas relacionados com o processo de morrer, mas também a própria morte e o sofrimento humano.

Por um lado, tornou-se dominante uma concepção de autonomia em que a liberdade individual é elevado a direito absoluto. O homem actual quer não só ser protagonista da sua própria história, mas ter nas mãos todos os processos da sua vida. É neste sentido que parece aliciante poder antecipar a morte ou prolongar o processo de morrer, de acordo com o que no momento for tido como mais vantajoso.

Por outro lado, os desenvolvimentos técnico-científicos no campo biomédico levantam problemas inéditos e apresentam questões inevitáveis. As novas possibilidades que nos são oferecidas pela medicina também tornam mais complexas as situações com que nos deparamos no âmbito dos cuidados de saúde e do acompanhamento a doentes terminais. A diversidade de opções gera perplexidade a quem tem de decidir.

A estes factores circunstanciais acresce o facto de o próprio processo de morrer se ter transformado: o morrer tornou-se mais longo; na maior parte das vezes morre-se em hospitais ou centros clínicos, nos ambientes anónimos e frios das instituições; o sofrimento associado a longas doenças terminais causa uma insegurança adicional; diversos factores contribuem para que os moribundos vivam uma solidão preocupante; o excesso de tecnologia põe em causa os esforços por humanizar o cuidado dos doentes.

4. Critérios éticos

É num contexto marcado por estes desafios que tanto os profissionais de saúde como todas as pessoas envolvidas com estas situações necessitam de critérios éticos que orientem no sentido de uma autêntica humanização da fase terminal da vida.

4.1. A obrigação moral de garantir à vida humana uma especial protecção está testemunhada em preceitos primordiais da humanidade, com expressões diversas em todas as culturas, e codificada no mandamento bíblico do Decálogo: “Não matarás” (Dt 5,17). A consciência moral das gerações que nos precederam e o próprio magistério da Igreja procuraram, ao longo dos tempos, com os recursos culturais de cada época, encontrar expressões e concretizações actualizadas deste mandamento, no sentido de elevar e purificar as exigências morais nele contidas. O respeito por este imperativo é certamente incompatível com qualquer forma de agressão directa à vida humana, sempre que ela não ponha em causa a existência de outras pessoas.

4.2. Consequentemente, é eticamente inaceitável qualquer forma de eutanásia, isto é, qualquer “acção ou omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte” (1). Nem sequer o objectivo de eliminar o sofrimento ou livrar a pessoa de um estado penoso pode legitimar a eutanásia, tanto mais que a medicina e a sociedade dispõem de outros meios para socorrer os pacientes em fase terminal. Equivalente à eutanásia, do ponto de vista ético, é qualquer forma de ajuda ao suicídio, também designado suicídio assistido.

A eutanásia é concretização de um desejo que o homem contemporâneo tem de se apoderar da morte, antecipando-a para a situar no momento que ele próprio determina, resultado de um medo angustiante e desesperado perante o sofrimento. A eutanásia é frequentemente apresentada como um gesto de humanidade ou de compaixão que pretende respeitar a dignidade com que cada ser humano quer viver. Na realidade, porém, e numa linha de princípio, qualquer forma de eutanásia constitui uma renúncia a acompanhar a pessoa doente, traduz a falta de empenho de uma sociedade em procurar meios que permitam viver dignamente todas as fases da existência humana. É, por isso, uma violação, ainda que consentida, da dignidade fundamental que se deve reconhecer a cada ser humano. A eutanásia ou a ajuda ao suicídio são formas desumanas de lidar com a pessoa que vive o seu processo de morrer, constituem “uma ofensa à dignidade da pessoa humana, um crime contra a vida e um atentado contra a humanidade” (2).

4.3. Distinta desta atitude de agressão à vida humana, é a legítima renúncia a recorrer a todos os meios para manter viva uma pessoa em estado terminal. A obstinação terapêutica, também conhecida por “encarniçamento terapêutico” ou “distanásia”, seria precisamente o recurso a um conjunto de intervenções médicas já desproporcionadas face ao bem global que a pessoa poderá vir a experimentar.

Do ponto de vista da ética, reconhece-se uma diferença fundamental entre matar e deixar morrer, quando esta última opção não for equivalente a negligência, mas for concretização do respeito pelo curso normal da vida humana. Esta distinção ética encontra apoio também na já referida concepção cristã da vida, segundo a qual a vida humana é um valor fundamental ainda que não absoluto. É moralmente legítimo, portanto, renunciar aos meios que tenham por finalidade prolongar a vida quando da sua aplicação não se esperem resultados terapêuticos ou ela implique o sacrifício de valores fundamentais para a pessoa em causa.

Também esta renúncia a “tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida” (3) pode ser considerada uma opção de respeito pela vida, já que proteger a vida não significa prolongá-la a todo o custo. O respeito pela vida humana não se reduz a uma protecção incondicional da vida biológica, mas deve incluir também o empenho por garantir todos os elementos que tornam humana essa vida. O direito a uma morte digna pode significar também não esgotar todos os meios médicos, quando tal signifique apenas um prolongamento do morrer.

4.4. Na procura de critérios éticos é fundamental também a distinção entre matar e acompanhar o morrer. Esta última é a opção concretizada, por exemplo, nos cuidados paliativos. Trata-se de aceitar todos os cuidados e intervenções médicas que tenham por objectivo tornar o sofrimento mais suportável, diminuindo ou eliminando a dor, proporcionando todo o acompanhamento humano possível e criando as necessárias condições para um cuidado global (holístico) à pessoa em causa. O Magistério católico ensina, já há várias décadas, que é moralmente aceitável suprimir a dor por meio de narcóticos, mesmo que isso implique limitar a consciência ou abreviar a vida (4).

Parece-nos que seria de evitar a expressão “ajudar a morrer”, dada a sua acentuada ambiguidade, não sendo claro o que se quer indicar com ela, e tendo em conta que as expressões equivalentes noutras línguas são usadas para referir aquilo que designámos por “suicídio assistido”.

5. Opção por um morrer humano

Recordamos que todas as orientações éticas têm como objectivo encontrar concretizações de um morrer verdadeiramente humano. O que está em causa é a preservação da dignidade da pessoa em algo que é decisivo e constitutivo de todo o projecto pessoal de vida. Isto inclui certamente fazer aquilo que é razoavelmente possível para que o paciente preserve as condições de sujeito da sua própria história. Na medida do possível, “não se deve privar o moribundo da consciência de si mesmo, sem motivo grave” (5), uma vez que também nos momentos finais da vida cada pessoa deve estar em condições de poder assumir as suas responsabilidades morais, de relacionar-se com as pessoas que lhe são significativas e de viver todo este processo no contexto da sua relação com Deus.

Uma humanização do morrer é incompatível com a eliminação do sujeito que morre, pois não tem em conta a globalidade das suas necessidades. As súplicas de quem sofre, muitas vezes desejando terminar com a situação de dor, mais do que um desejo de morrer, são sobretudo o apelo a uma presença marcada pelo amor, a formas concretas de solidariedade e expressões da necessidade de perspectivas de esperança. Para isto, é necessário criar condições que humanizem a fase terminal, para que a pessoa possa ter um morrer humano: disponibilizar os meios que retirem ou reduzam o mais possível a dor, dar ao doente acesso aos meios médicos de que necessita, assegurar um acompanhamento humano personalizado, garantir ao paciente que não será abandonado à solidão em nenhum momento da sua fase final, permitir-lhe a presença das pessoas que lhe são mais queridas, facilitar-lhe a vivência das suas convicções religiosas e a satisfação das suas necessidades espirituais, possibilitar um acompanhamento psicológico, respeitar os seus valores e legítimos desejos, criar condições de confiança.

Numa sociedade cada vez mais dominada pela exigência de produtividade material e regida por critérios de utilidade, é fundamental transmitir a todos os pacientes, e com maior razão aos que se encontram em estado terminal, que a sua vida é sempre preciosa e valorizada, mesmo nas circunstâncias dolorosas em que se encontram, que não são um fardo para os outros, e que a sua vida continua a ser significativa para a comunidade a que pertencem.

Sabemos que num mundo onde só têm visibilidade os bem-apresentados, os corpos atléticos e estéticos, se torna difícil aceitar como parte da vida social um corpo desfeito pela doença e martirizado pela dor. Na perspectiva cristã, o sofrimento, a doença e a morte são partes da vida e têm de ser integradas no projecto pessoal de vida. Também por isso, a humanização do morrer deve incluir um respeito profundo pela pessoa doente e um cuidado dedicado das suas necessidades. Um morrer humano e digno exige todas as condições de um acompanhamento global da pessoa que tenha em consideração todos os aspectos da vida humana.

Uma vida humana nunca perde sentido nem dignidade. Também o envelhecer e o morrer se integram no sentido da vida humana e reflectem a dignidade humana da pessoa. “O amor para com o próximo […] torna capaz de reconhecer a dignidade de cada pessoa, mesmo quando a doença veio pesar sobre a sua existência. O sofrimento, a idade avançada, o estado de inconsciência, a iminência da morte não diminuem a dignidade intrínseca da pessoa, criada à imagem de Deus” (6).

6. Uma sociedade com lugar para todos e uma vida com espaço para a morte

O recurso aos princípios éticos não ignora que as circunstâncias concretas escapam habitualmente a todas as tentativas de regulamentação jurídica ou deontológica. Aos cristãos pede-se que façam a sua reflexão sobre estes problemas em diálogo com os homens e mulheres de boa vontade, certamente à luz dos dados da sua fé, num esforço por procurar um nível elevado de moralidade.

Mesmo admitindo que algumas situações são demasiado complexas para proferirmos juízos prévios, e sabendo que nenhum preceito moral tem em conta a diversidade de situações que a vida apresenta, a legitimação jurídica da eutanásia ou do suicídio assistido teria como consequência uma pressão inevitável sobre todas as pessoas cuja vida não correspondesse aos padrões de realização que são dominantes em determinada sociedade. Facilmente surgiria um grupo de não desejados, vistos como peso da sociedade. Pessoas gravemente doentes ou em estado terminal não podem ter de modo algum a impressão de serem indesejadas, mas devem sentir de modo reforçado que são preciosas e queridas, e que a sociedade não se dispensa de fazer tudo o que está ao seu alcance para as valorizar e integrar.

Para além da discussão sobre a legitimidade moral de optar por alguma forma de auto‑determinar o final da vida, parece-nos fundamental reavivar uma leitura da vida humana, suportada pela fé cristã mas também pelas tradições humanistas da nossa cultura, em que a morte seja integrada como momento significativo da vida de uma pessoa e ao sofrimento seja reconhecida a possibilidade de se integrar no horizonte de sentido da existência humana. A este propósito pode ser iluminadora a afirmação de São Paulo: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). Como explica João Paulo II, “morrer para o Senhor significa viver a própria morte como acto supremo de obediência ao Pai […]; viver para o Senhor significa também reconhecer que o sofrimento, embora permaneça em si mesmo um mal e uma prova, sempre se pode tornar fonte de bem” (7). O cristão encontra o sentido redentor do sofrimento humano, unindo‑se a Cristo, no mistério da sua paixão, morte e ressurreição.

Antecipar a morte, pelo suicídio assistido ou pela eutanásia, ou prolongar desproporcionadamente o processo de morrer, tem como resultado uma expropriação da morte, retirando ao indivíduo a possibilidade de um morrer pessoal, no respeito pelos tempos necessários a uma integração da dor e da morte no sentido global da existência humana. A doença e a morte são processos pessoais, que, ao mesmo tempo, exprimem a individualidade de cada pessoa e determinam a atitude pessoal perante a própria história. De facto, a maneira de morrer pode ser decisiva quanto ao sentido de toda uma vida. A morte não é um problema a solucionar, mas um mistério que envolve e provoca toda a vida.

7. Gratidão e esperança

Por último, os Bispos de Portugal desejam enaltecer e agradecer:

– o exemplo de generosa dedicação de tantas e tantos que acompanham e servem doentes crónicos, deficientes profundos e outras pessoas que dependem fundamentalmente da ajuda que recebem;

– o empenho dos profissionais de saúde que se dedicam à investigação para a superação da dor e aos que se entregam aos cuidados paliativos, oferecendo a qualidade de vida possível a incontáveis pessoas em situações de grande debilidade;

– o testemunho de tantas pessoas com doenças graves, profundamente limitadas, que são um exemplo de aceitação e alegria e nos desafiam a sair da mediocridade estéril do egoísmo em favor de um amor generoso sem fronteiras…

Todos estes são a melhor resposta a quem julga ser uma boa causa promover a legalização da eutanásia; os seus testemunhos são maravilhosos hinos à vida, que devemos sempre proteger.

Fátima, 12 de Novembro de 2009

NOTAS:

1 – JOÃO PAULO II, Evangelium vitae, Vaticano 1995, n. 65.

2 – CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração sobre a Eutanásia (5.05.1980), in: AAS 72 (1980), II.

3 – CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração sobre a Eutanásia (5.05.1980), in: AAS 72 (1980), IV.

4 – Cf. PIO XII, Discurso a um grupo internacional de médicos (24.02.1957), in: AAS 49 (1957), 145; CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração sobre a Eutanásia (5.05.1980), in: AAS 72 (1980), 547; JOÃO PAULO II, Evangelium vitae, Vaticano 1995, 65.

5 – PIO XII, Discurso a um grupo internacional de médicos (24.02.1957), in: AAS 49 (1957), 145.

6 – JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes no XIX Congresso Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde, 12.11.2004, n. 3.

7 – JOÃO PAULO II, Evangelium vitae, Vaticano 1995, 67.

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* Mudança na lei da “Homofobia” que previa prisão a quem falasse contra a homossexualidade.

sexta-feira, novembro 6th, 2009

A relatora da proposta que torna crime a discriminação contra homossexuais, senadora Fátima Cleide (PT-RO), apresentou esta semana na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) uma versão em que ameniza o teor do chamado PL da Homofobia.

Na tentativa de demover a resistência de parlamentares ligados aos segmentos religiosos, Fátima enxugou substancialmente o texto anterior e excluiu qualquer menção direta a homossexuais, bissexuais, lésbicas ou transgêneros, termos substituídos pela expressão “orientação sexual”.

Os 12 artigos previstos no texto original foram reduzidos a quatro. O artigo oitavo, que previa a livre manifestação da afetividade ao universo LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) foi simplificado com a retirada do detalhamento da escolha sexual. Além de encurtar a proposta, o novo texto também veda a discriminação de idosos e deficientes físicos, práticas já passíveis de punições em outras leis.

As alterações feitas pela relatora dividem entidades do campo LGBT, mas foram recebidas com simpatia pelo principal opositor ao projeto no Senado, senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). Ele sinaliza a possibilidade de um acordo, mas pede mais tempo para discutir o assunto. A relatora, entretanto, defende que o texto seja votado pela comissão ainda este ano.

O novo texto tira o caráter específico do projeto, que havia sido concebido exatamente para defender os direitos do público LGBT, que não conta com uma lei exclusiva para assegurar sua liberdade. A nova versão também reduz as punições previstas. Os acusados de discriminação ou preconceito estarão sujeitos a reclusão de um a três anos em caso de impedir acesso a bares restaurantes ou locais semelhantes e abertos. O projeto original, o PL 122/06, previa reclusão de um a cinco anos.

O substitutivo apresentado amplia as leis que já proíbem a discriminação – mas que hoje se restringem a raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. Ele passa a tipificar também como crime o preconceito por “gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”.

“Congresso homofóbico”

Fátima Cleide ( foto)admite ter cedido às manifestações dos parlamentares contrários para fazer as mudanças no novo texto, mas diz que não havia outra saída. Segundo ela, as alterações demonstram sua boa vontade para retomar o assunto.

“Não é possível que essa proposta continue parada com o novo texto. Se isso ocorrer, a sociedade pode falar com tranquilidade que o Congresso é homofóbico”, diz a senadora. “O projeto foi encurtado, mas não perde em nada na aplicabilidade e garantia dos direitos de quem sofre preconceito”, defende a petista.

A Comissão de Assuntos Sociais do Senado deverá realizar uma última audiência pública, a pedido de Marcelo Crivella, antes de apreciar o novo texto da relatora. “Estamos articulando o debate com as entidades religiosas. As mudanças poderão ajudar. Mas ainda é preciso construir um consenso”, argumenta o senador. Devem participar do encontro, que ainda não tem data marcada, representantes de segmentos religiosos, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Resistência religiosa

Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do fundador da entidade, Edir Macedo, Crivella é taxativo ao dizer que os debates sobre o novo texto na comissão ainda devem se prolongar.

“Estamos empenhados em coibir a discriminação contra o homem. Agora, não vamos deixar de manifestar a posição da igreja. Da forma como o texto inicial foi apresentado, não dava para votar”, avalia. “O projeto só passou na Câmara porque era uma sessão de quinta-feira com plenário esvaziado”, completa.

O principal argumento apresentado pelos segmentos religiosos é que o projeto vai contra as liberdades individuais. Crivella alega que a proposta fere o direito de liberdade de culto, expressão, fé e opinião, uma vez que o assunto é tema recorrente em cultos religiosos. Com a aprovação da lei, pastores e padres ficam impedidos de fazer qualquer observação discriminatória contra o público LGBT, por exemplo.

De acordo com a relatora na CAS, o texto ainda tem um longo caminho de tramitação no Congresso até virar lei. Caso seja aprovado pelo colegiado, será enviado para a Comissão de Direitos Humanos antes de seguir para o plenário. Como tende a ser modificado pelos senadores, o projeto deve retornar à Câmara, onde foi aprovado em 2006. A proposta original é de autoria da ex-deputada Iara Bernardi (PT-SP).

Fonte: Último minuto

***

A Igreja não é, e nunca será, a favor do preconceito contra pessoas que tem essa “opção” sexual,porém como a lei estava sendo formulada desrespeitando outros direitos, como a livre expressão e a pregação da palavra de Deus.

Em hipótese nenhuma a perseguição, o assassinato e outras manifestações intransigentes de “combate” a homossexualidade são aceitáveis,mesmo na defesa da verdade, que seria assim mortalmente atingida pelos meios intoleráveis que comprometeriam o seu licito fim de afirmação da verdade de Deus sobre o homem.

Afirma-se,com muita segurança, a heterossexualidade como sendo o designio original de Deus,confirmado de forma inquestionável pela lei natural;àqueles que não se sentem felizes com essa “opção” a Igreja apresenta a boa nova de Jesus Cristo capaz de oferecer um novo sentido para suas vidas.

O suposto preconceito propalado pela midia por parte da Igreja em relação a esse tema,na verdade é apenas o conceito que – em comunhão com outras expressões religiosas e com inúmeros setores da sociedade- é acreditado e defendido pela fé cristã,sem significar o desrespeito a outras opiniões sobre o assunto nem o direito que as pessoas tem de conduzir suas vidas segundo seus valores,sejam eles quais forem.

Apenas pensamos diferente,defendemos nossa opinião e anunciamos a todos a esperança de uma vida nova diante da inevitabilidade como o tema,pleno de ideologia e,sim, de preconceito contra os que não querem essa vivência para suas vidas, é apresentado.

***

- À proposito do tema, veja essa notícia vinda da Argentina:

Advogados católicos se pronunciam contrários à lei que legalizaria “matrimônio” homossexual

A Corporação de Advogados Católicos (Argentina), denunciou os projetos de lei que pretendem legalizar o” matrimônio “homossexual no país e explicou que “o requisito que exige nossa lei civil de acordo ao qual o matrimônio deve ser celebrado entre um homem e uma mulher, não pode ser modificado por legislador algum”.

No comunicado que responde aos dois projetos de lei que se debate na Câmara de Deputados, os advogados recordam que “o matrimônio é uma instituição da ordem natural, que existe gravada na mente e no coração dos homens; ou seja, que é própria da natureza humana, apoiada na natureza sexuada do homem, que está orientada à fecundação e a diferenciação sexual a complementaridade, encontrando a mesma orientada ao serviço da intercomunicação inter-pessoal, e dessa maneira, à perfeição dos integrantes do casal”.

“A mesma natureza impele a que se estabeleça certa sociedade entre o homem e a mulher, e nisso consiste o matrimônio, existindo uma abismal diferencia com a união de duas pessoas do mesmo sexo, na qual fica excluída a geração em forma natural”, adicionam.

Do mesmo modo, afirmam que “resulta sem dúvida errôneo qualificar de injusta discriminação o fato de não admitir a celebração do matrimônio entre duas pessoas de igual sexo, pois em tal caso a discriminação tem fundamento e se justifica, dada a essencial disparidade existente entre esse suposto e o do casal heterossexual”.

“Por outra parte –indicam– neste caso tampouco se violou a garantia de igualdade ante a lei, que implica gozar de iguais direitos nas mesmas circunstâncias, já que não se pode afirmar que sejam iguais as circunstâncias dos casais heterossexuais unidos em matrimônio, um de cujos fins naturais é a procriação, e quem, por ser do mesmo sexo, não podem procriar”.

“Outorgar a estas últimas o direito a contrair matrimônio constituiria em boa parte um contra-sentido básico, além de uma perda do perfil da instituição matrimonial, que não interessa à sociedade promover”, concluem.

Fonte : ACI

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* Ex-ministro da Saúde rebate argumentos de feministas que impulsionam aborto no Peru

terça-feira, outubro 20th, 2009

O Ex-ministro da Saúde, Luis Solari, rebateu os argumentos das organizações feministas que impulsionam o aborto eugênico e lamentou que estes grupos insistam às mulheres, a quem dizem defender, “a que matem os seus filhos”.

Em um debate organizado pelo programa jornalístico A Semana na Televisão Nacional do Peru, Solari enfrentou a Gina Yáñez, diretora do grupo feminista Manuela Ramos, que advoga por liberalizar o aborto no país.

Solari explicou que várias organizações feministas recebem dinheiro do exterior para promover o aborto no Peru e desmentiu o argumento feminista sobre os supostos 400 mil abortos clandestinos que se praticariam por ano no país.

Solari explicou que em 1994 os que fabricaram o relatório encontraram que “no Peru haviam 54 mil abortos e multiplicaram a cifra por cinco, e no 2006 a multiplicou por sete. Apoiado em quais critérios?”, questionou.

“Eu fui Ministro da Saúde, eu procurei estas cifras. Não existem em nenhuma parte do Ministério de Saúde as cifras que aparecem nesta mentira oficial”, precisou.

Referindo-se logo ao aborto eugênico, Solari explicou que com este pretexto em outros países se detecta a Síndrome de Down e as mulheres se submetem a abortos legais.

Dirigindo-se a Yáñez, Solari destacou que a ativista já disse em público que introduzir o aborto por violação e má formações “é o primeiro passo para despenalizar o aborto porque isso é o que a sua organização patrocina em todos os lugares”.

Depois de comentar que é inadmissível que se promova a morte de uma criança por nascer, Solari recordou a Yáñez que “sua organização recebe recursos do exterior”, de países que não assinaram todas as leis que defendem o não-nascido no Peru. Ante a afirmação, e já alterada, Yáñez respondeu: “Mas isso não tem nada a ver!”

“Tem muito a ver –precisou Solari– porque se sua organização (Manuela Ramos) recebe dinheiro de países que não têm estas leis. Por que esses países promovem que aqui abortemos as pessoas? Que sigam abortando em seu país, que sigam abortando em seus países. Coisas às quais me oponho também”.

“É preciso ser claro. O Peru é dos peruanos. Os direitos das mulheres contêm deveres, todos os direitos têm deveres. O direito de uma mãe inclui o dever de defender a vida de seu filho”, explicou Solari.

“Eu não posso conceber que hajam mulheres (como as da organização Manuela Ramos) que insistam a outras mulheres a matarem a seus filhos”, adicionou.

Para ver a entrevista completa em espanhol, ingresse em: (primeira parte) http://www.youtube.com/watch?v=12hs_N_L2-c&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=NXPs-4tLNiw&feature=related (segunda parte)

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* Cientistas enviam ao STF defesa a aborto de anencéfalos

quinta-feira, outubro 8th, 2009

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) documento com a posição da comunidade científica e médica sobre a interrupção da gravidez em caso de fetos anencéfalos, quando há má-formação do cérebro e do córtex do bebê, havendo apenas um “resíduo” do tronco encefálico.

A SBPC é a favor do que chama de “antecipação terapêutica do parto”.

Uma ação da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde (CNTS) pede a legalização do aborto em casos de anencefalia e está na pauta do STF, ainda sem data para julgamento.

De acordo com a SBPC, o documento tem o apoio formal do Ministério da Saúde e de 28 entidades, entre sociedades científicas e associações da sociedade civil.

A SBPC argumenta que a anencefalia é uma “anomalia incompatível com a vida”, sem possibilidade de sobrevida para o feto e que aumenta a freqüência de complicações para a mãe durante a gestação. “Prolongar a vivência do luto de um filho nessa situação é torturar o ser humano, é submetê-lo a tratamento desumano e degradante”, diz o documento.

A entidade defende que o STF garanta às mulheres “o direito de escolha” de levar ou não adiante a gestação após diagnóstico de anencefalia. Na avaliação da SBPC, a antecipação terapêutica do parto não pode ser chamada de aborto, pois não se trata de tirar a vida, uma vez que o feto anencéfalo não tem possibilidade de sobreviver.

Fonte : Folha de São Paulo

***

Só uma pergunta : Por que não aproveitam e não matam também  aquelas pessoas que , por razões diversas ,estão desenganadas por doenças crônicas ou incuráveis? é só fazer  um levantamento,devem ser milhares de pessoas que LUTAM com todas as forças pela vida!! por que não,cientistas?

Afinal,elas também não terão chances de sobreviver,não é?

Essa colocação de que ” a antecipação terapêutica do parto não pode ser chamada de aborto, pois não se trata de tirar a vida, uma vez que o feto anencéfalo não tem possibilidade de sobreviver.” é.. RIDICUL A !

Realmente, o conhecimento não é tudo…

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* PT.Partido historicamente identificado com aborto.

terça-feira, outubro 6th, 2009

A história do aborto no Brasil confunde-se com a história do PT e de outros partidos de índole comunista, como o PC do B e o PPS.

Coube ao PT em 1989 a “glória” de ter instalado no município de São Paulo o primeiro (des)serviço de aborto financiado com o dinheiro público (Portaria 692/89). Isso ocorreu enquanto Luiza Erudina (do PT) era prefeita e enquanto Eduardo Jorge (do PT) era secretário de saúde.

Em 1991, o mesmo Eduardo Jorge, desta vez como deputado federal do PT por São Paulo, proporia, juntamente com Sandra Starling (deputada federal do PT por Minas Gerais) um projeto (PL 20/91) que pretendia obrigar todos os hospitais do SUS a imitarem o mau exemplo da capital paulista.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o PT sempre liderou de longe a autoria de projetos abortistas, em nível tanto federal, como estadual e municipal. Para se ter uma idéia da liderança petista, em 2002 havia oito projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional com o objetivo de legalizar e/ou favorecer a prática do aborto. Seis eram de autoria do PT, um do PTB e um do PPB!

Com a ascensão de Lula à presidência da República, o que era ruim ficou pior. Em 2004, o Ministro da Saúde Humberto Costa lançou a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, toda ela voltada para fomentar a impunidade do aborto. Em 2005, ele fez uma reedição piorada da Norma Técnica “Prevenção e Tratamento dos Agravos da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes”, editada pela primeira vez em 1998 pelo então Ministro José Serra. No mesmo ano foi editada a Portaria 1145/2005, com a novidade de conter um formulário pronto, apto para a falsificação de estupros e o aborto em série.

Em 27 de setembro de 2005, a secretária especial de Políticas para Mulheres Nilcéa Freire entregou à Câmara dos Deputados o anteprojeto de descriminalização do aborto elaborado por uma Comissão Tripartite, em cuja participação a CNBB não foi admitida. A proposta normativa do governo, consagrando o aborto como um direito inalienável de toda mulher, e propondo sua total liberação, foi adotada em 04 de outubro de 2005 pela deputada Jandira Feghali (PC do B/RJ), como substitutivo ao Projeto de Lei 1135/91. A oposição pró-vida, porém, foi muito grande, e a votação do projeto ficou para o próximo mandato.

Em 22 de maio de 2006, o Partido dos Trabalhadores, em seu 13º Encontro Nacional, aprovou as “Diretrizes para a Elaboração do Programa de Governo do Partido dos Trabalhadores (Eleição presidencial de 2006)”, contendo como propósito para o segundo mandato a “descriminalização do aborto e a criminalização da homofobia” (item 35). Em 27 de setembro, atendendo às propostas do 13º Encontro Nacional do PT, o presidente Lula inclui em seu programa de governo 2007- 2010 a legalização do aborto: “criar mecanismos nos serviços de saúde que favoreçam a autonomia das mulheres sobre o seu corpo e sua sexualidade e contribuir na revisão da legislação(Programa Setorial de Mulheres, p. 19).

No segundo mandato, o governo Lula insistiu, sobretudo por meio do novo Ministro da Saúde José Gomes Temporão, em aprovar o Projeto de Lei 1135/91, dizendo e repetindo que “o aborto é uma questão de saúde pública”. A proposta, porém, foi rejeitada duas vezes: na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) da Câmara dos Deputados por 33 votos a zero (em 07/05/2008) e na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) por 57 votos contra 4 (09/07/2008). Inconformado com a derrota, em 13/08/2008, o deputado José Genoíno (PT/SP) apresentou um recurso (Recurso 0201/08) para que o projeto abortista fosse apreciado pelo plenário da Câmara. Dos 66 deputados que assinaram o recurso, 31 (46,97%) eram do PT.

No 3º Congresso do Partido dos Trabalhadores (PT), ocorrido entre agosto e setembro de 2007, foi aprovada a resolução “Por um Brasil de mulheres e homens livres e iguais”, que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público”.

No 10º Encontro Nacional das Mulheres do PT realizado em Brasília nos dias 17 e 18 de maio de 2008, foi aprovada uma resolução propondo a instalação de uma Comissão de Ética para os parlamentares antiabortistas, com “orientação para expulsão daqueles que não acatarem e não respeitarem as resoluções partidárias relativas aos direitos e à autonomia das mulheres”.

No dia 11 de novembro de 2008, os deputados Luís Bassuma (PT/BA) e Henrique Afonso (PT/AC) receberam a notificação da Comissão de Ética do Diretório Nacional do Partido. Em 17 de setembro de 2009, ambos foram punidos. O motivo alegado é que eles “infringiram a ética-partidária ao ‘militarem’ contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT a respeito da descriminalização do aborto[1]. Esse foi o entendimento unânime do Diretório Nacional. Os dois tiveram seus direitos partidários suspensos: Luiz Bassuma por um ano e Henrique Afonso por 90 dias. Segundo a decisão, Bassuma será imediatamente substituído pela Bancada Federal na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF). Quando a Henrique Afonso, ele não será reconduzido à mesma Comissão. Bassuma recebeu ainda a recomendação de retirar os projetos de lei de sua autoria “que contrariam a resolução do 3º Congresso” (aborto).

Como entender a punição dos dois deputados

A presença de políticos antiaborto dentro do PT sempre foi muito importante. Não para a causa pró-vida, mas para a causa abortista. O Partido permitia que eles fizessem algum discurso em defesa da vida e até, em certos casos, que votassem contra o aborto. Mas impunha como condição que a atuação deles fosse periférica, superficial, de modo a não impedir a aprovação de um projeto pró-aborto nem a rejeição de um projeto pró-vida.

Assim, o PT permitiu que Hélio Bicudo (PT/SP) em 23/04/1996, votasse a favor da PEC 25A/95, que pretendia incluir em nossa Constituição o direito à vida “desde a sua concepção”. Seu voto foi um entre 32 que votaram “sim” contra 356 que votaram “não”. Como não havia perigo de que a proposta pró-vida fosse aprovada, o Partido não se importou com aquele voto dissidente.

O PT ainda permitiu que o mesmo Hélio Bicudo fizesse um solene discurso contra o aborto em 28/08/1997, quando estava para ser votado o PL 20/91. No entanto, misteriosamente ele se ausentou na hora da votação. Sua ausência foi decisiva para que o projeto abortista fosse aprovado na Comissão de Constituição, Justiça e Redação.

De maneira análoga, o PT permitiu que a deputada Ângela Guadagnin (PT/SP) em 6/3/2001 emitisse, como relatora, um parecer favorável ao PL 947/1999, que pretendia instituir o Dia do Nascituro. No entanto, ela estranhamente não compareceu no dia 25/04/2001, quando o projeto estava para ser votado. Sem a presença da relatora, não pôde haver votação. E assim, essa proposição pró-vida foi sendo protelada indefinidamente até ser arquivada.

Os petistas “pró-vida” sempre contribuíram para que se criasse a falsa idéia de que o PT não é um partido abortista. A presença deles interessava ao Partido, a fim de atrair os votos dos cristãos. Por que então Luiz Bassuma e Henrique Afonso foram punidos?

Porque eles foram longe demais. Bassuma ousou apresentar um projeto para revogar a não punição do aborto em caso de estupro (PL 5364/2005), desarquivou o “Estatuto do Nascituro” (PL 478/2007) e propôs a proibição do abortivo conhecido como “pílula do dia seguinte” (PL 1413/2007). Henrique Afonso atreveu-se a propor a sustação da aplicação da Norma Técnica do aborto no SUS (PDC 42/2007).

A decisão do Diretório Nacional deixou claro que dentro do PT só se admite uma militância pró-vida do tipo “faz-de-conta”. Tudo o que ultrapassa a mera ficção e põe em risco a causa abortista do Partido deve ser punido.

E o respeito à consciência?

O respeito à consciência dentro do PT é algo excepcional, como se vê no artigo 13, XV do seu Estatuto: “São direitos do filiado: … excepcionalmente, ser dispensado do cumprimento de decisão coletiva, diante de graves objeções de natureza ética, filosófica ou religiosa, ou de foro íntimo, por decisão da Comissão Executiva do Diretório correspondente, ou, no caso de parlamentar, por decisão conjunta com a respectiva bancada, precedida de debate amplo e público”.

A consciência de cada filiado fica portanto submetida à decisão do Partido. Se o PT não permitir, o filiado não pode agir segundo sua consciência.

Conclusão:

De tudo o que ocorreu, fica evidente que um cristão não pode votar no PT e muito menos filiar-se a esse partido. Não se trata de uma questão de simples preferência partidária. Trata-se literalmente de uma questão de vida ou morte, ou seja, de defesa do direito humano fundamental à vida, em favor dos mais inocentes e indefesos. Um partido que faz todo o possível para que esse direito não seja reconhecido pelo Estado e não permite aos seus filiados promover eficazmente esse direito não cumpre um requisito fundamental para poder ser votado, ao menos se existem outros partidos que defendam esse direito ou, pelo menos, deixem os seus filiados defendê-lo.

Não se trata de fazer política partidária, mas do dever de dar aos outros, a todo o povo, a necessária informação sobre radicais incompatibilidades de um partido político ou de um determinado político com as convicções mais fundamentais da ética cristã e mesmo natural. A história (de governos eleitos pelo povo, que desprezaram os direitos humanos fundamentais) não ensinou já o suficiente a responsabilidade de cada um pelo seu voto? Por isso, existe o dever de se informar e de informar os outros.

Roma, 3 de outubro de 2009, Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, presidente do Pró-Vida de Anápolis

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- A Ciência Pode Explicar Tudo?

quinta-feira, setembro 24th, 2009

Artigo espetacular que analisa a questão da razão e da ciência como resposta definitiva para o homem em detrimento da religião,vista como “supertição”, e da falsa suposição de que homens verdadeiramente inteligentes não podem ter fé nem serem católicos “de Igreja”

Ao prepará-lo,lembrei-me de muitos dos meus irmãos  universitários e estudantes de maneira geral que são confrontados pela ” ciência e conhecimento” de muitos professores e cursos onde a a dimensão religiosa é ridicularizada e parece ,COM O TEMPO, esvaziar o sentido do sagrado daqueles que fazem destes ” Mestres ” de algumas salas de aula, quase deuses,conhecedores do bem e do mal.

O artigo é um pouco longo mas de conteúdo denso,materia prima para quem quer caminhar dentro de uma fé inteligente,capaz de responder aos anseios de verdade que o homem de hoje tem,inclusive o cientista, o ateu e ” aquele Professor “,(todos nós temos um professor “especial” ) a quem dedicamos esse artigo,rsrs..

Para os que acreditam, Deus está no princípio.Para os cientistas, Deus está no final de todas as suas reflexões.” (Max Planck).

Não importa se no início ou no fim. O  DEUS  ETERNO  ALÍ  ESTARÁ!

***

O físico alemão Otto Hahn, inventor da fissão do átomo de urânio, estava internado num campo de concentração inglês, junto com outros eminentes cientistas. Quando, em agosto de 1945, recebeu a notícia de que Hirosshima tinha sido arrasada por uma bomba atômica, sentiu um profundíssimo sentimento de culpa. As suas pesquisas sobre a fissão do urânio tinham acabado por se utilizar para produzir um massacre terrível. Foi tal a sua angústia que tentou abrir as veias nos arames farpados que cercavam o campo. Depois que os seus companheiros conseguiram dissuadi-lo, o velho professor fez-lhes, desolado, a seguinte confissão:”Acabo de perceber que a minha vida não tem mais sentido. Pesquisei pelo puro desejo de revelar a verdade das coisas e todo o meu saber científico acaba de se converter num enorme poder aniquilador”.

A experiência pessoal de Otto Hanh foi, na realidade, a experiência amarga de toda uma época. Uma aflitiva impressão de fracasso invadiu os espíritos de todos os que tinham lutado com tanta tenacidade por levar o conhecimento científico a máxima altura possível, convencidos de fazer com isso um grande bem a humanidade. Tinham trabalhado penosamente com a profunda convicção de que o aumento do saber teórico e o incremento da felicidade humana estavam inequivocamente vinculados. Acreditavam que fomentar o conhecimento científico teria sempre um valor positivo, que significaria automaticamente cotas mais elevadas de felicidade e igualdade. Pensaram que se tratava de um bem inquestionável e que, portanto, se traduziria indubitavelmente em bem-estar para o homem.

Mas esse entusiasmo plurissecular, que já tinha aberto fendas nas tricheiras de Verdun (uma das batalhas mais sangrentas da 1ª guerra), ruiu estrepitosamente com os horrores da 2ª guerra mundial. O terrível poder destruidor das armas nucleares, os intensivos bombardeios da população civil, o extermínio sistemático e profundamente cruel de toda uma raça e um saldo de cinquenta milhões de mortos puseram tragicamente de manifesto que o saber teórico pode traduzir-se num saber técnico, e este, por sua vez, num amplo poder sobre a realidade, mas, por desgraça, todo esse domínio não leva automaticamente a uma maior felicidade dos homens se aqueles que detem esse poder não possuem uma consciência ética proporcional a sua responsabilidade.

Após séculos de febril incremento do saber científico, a idéia de que o progresso humano é sempre contínuo e não pode haver retrocesso revelou-se uma farsa irritante. O ideal do domínio científico e a consequente forma de humanismo desfizeram-se em pedaços ao entrarem em colisão com a obstinada realidade da história. Era patente que o futuro não devia caracterizar-se por essa ingênua crença no progresso como princípio motor de uma civilização, mas que era preciso alicerçá-lo em valores mais altos e seguros.

História de uma Desilusão.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, depois da sua experiência pessoal em diversos campos de concentração, chegou à conclusão de que não foram os ministérios nazistas de Berlim os verdadeiros responsáveis por aquelas atrocidades, mas a filosofia niilista do século XIX.

Se o homem é um simples produto de uma natureza mutável, um simples macaco evoluído, então, da mesma forma que o macaco pode ser enjaulado num zoológico, o homem pode ser encarcerado num campo de extermínio. Se o homem é um simples animal, ainda que extraordinariamente adestrado, e fazemos sabonetes com gordura animal, por que não fazê-lo com gordura humana?

O filósofo Edmund Husserl, esclarecido pela falência do mito do eterno progresso por ocasião da Segunda Guerra mundial – na qual viu, entre outras ocasiões, aquela racionalização perfeita da matança em massa de milhões de inocentes – percebeu claramente que a ciência, por força do seu método, não pode ser um princípio motor da vida humana. “O mundo da objetividade científica – escreveu – é um mundo fechado e inóspito. A forma pela qual o homem moderno, na segunda metade do séc. XIX, se deixou determinar totalmente pelas ciências positivas e cegar pela prosperidade a elas devida, significou pôr de lado as questões decisivas para uma humanidade autêntica. As ciências que só comtemplam meros fatos fazem com que os homens só enxergassem meros fatos”.

Procurar o conhecimento científico objetivo das coisas é lícito e fecundo. Mas considerar esse modo de conhecer como modelo, como a única forma rigorosa de conhecimento, é uma parcialidade inaceitável, já que empobrece enormemente o homem.

A Ilustração – o Iluminismo – pretendia alcançar o ideal renascentista que sonhava entregar o homem a si mesmo, torná-lo livre, permitindo-lhe viver sob o império exclusivo da razão. A esperança de que o homem atingiria a felicidade para sempre num mundo já dominado e sem segredos, por meio de uma ciência que tudo conheceria e tudo poderia, veio a ser um sonho que nunca se alcançaria e que o horror gigantesco das duas Guerras Mundiais converteu em algo pior que um pesadelo.

O domínio da realidade escapava ao molde estreito do pensamento racionalista. E o perigo não derivava da ciência em si, mas dessa mentalidade que levava a considerar que só se pode conhecer aquilo que é mensurável, controlável, verificável, e a desprezar os aspectos da realidade que resistem a esse tipo de controle e cálculo.

Essa pretensão de domínio sem limites deixava o homem numa situação de desamparo. Logo se viu que a ciência, que tinha dominado com o seu prestígio o Século das Luzes, não podia, por si só, plenificar a vida do homem. Não era sua missão. A ciência não fala de valores, de sentido, de metas nem de fins, e o ser humano precisa de tudo isso para preservar a sua dignidade e ser feliz.

O otimismo ilustrado previra horizontes paradisíacos, mas a utopia científica mostrou como nunca a sua impotência. Não há dúvida de que o progresso científico foi grande e que esse desenvolvimento é uma coisa boa, ou pelo menos, não tem porque ser má. Mas, hoje em dia, muito poucos acreditam que tudo isso seja a panacéia, que possa fazer algo mais do que transferir a inquietação de uns temas para outros. O domínio das coisas é muito elevado, mas necessita de um humanismo válido que lhe dê sentido. Porque, do contrário, pode embriagar-se com os seus próprios êxitos e crescer em direções aberrantes para a dignidade do homem.

A técnica permite desenvolver meios de comunicação extremamente poderosos, rápidos, atraentes, sugestivos, mas esses meios podem ser uma arma de primeira grandeza para manipular as consciências, moldar as vontades e os sentimentos dos homens.

A ciência precisa de alguns limites para a sua pretensão de soberania.

Toda a grande conquista traz consigo uma inevitável ambivalência: um avanço num aspecto e um retrocesso em outro, talvez não menos valioso. O aumento de poder não corre sempre paralelamente ao aumento do domínio do homem sobre esse poder. A ciência não pode abandonar-se a sua própria dinâmica, mas deve ser regulada por uma instância externa que a oriente e lhe dê sentido.

O Processo Científico Implica um Declive Religioso?

A Idade Moderna começou por cultivar insistentemente as questões de método. Bacon, Descartes e Spinoza, por exemplo, concentraram a sua filosofia em torno da busca de um método rigoroso que lhes permitisse chegar à certeza e assentar a vida sobre convicções sólidas, inquebrantáveis, inexpugnáveis. Como as ciências avançam sobre dados seguros e conferidos, verificados pela experiência, foram surgindo pensadores convencidos de que, sempre que a ciência descobria um segredo, a religião dava um passo atrás. Parecia-lhes que o progresso da ciência reduzia inexoravelmente o domínio do religioso, cada dia mais confinado. Em contraposição ao que consideravam o crédulo espírito medieval, o homem moderno haveria de encontrar, apenas com a força da sua razão, um método sem fendas. E o grande modelo do pensamento autêntico era, para eles, o saber matemático.

Se se trabalha com a devida lógica, articulando bem os diversos passos do raciocínio – afirmavam -, chega-se em matemática a conclusões apodícticas, inquestionáveis. A ordem no raciocínio torna-se a chave do pensamento e do conhecimento retos. E essa ordem é estabelecida pela razão, pois a razão é o grande privilégio do homem. Por esse caminho – acabavam por concluir -, o homem basta-se a si mesmo, já que a razão lhe oferece recursos de sobra para descobrir as leis da realidade e conseguir um rápido domínio sobre ela. Mas de novo a passagem do tempo veio mostrar como esse domínio só é possível em termos quantitativos, naquilo que pode submeter-se a cálculo e medida. Mas o espírito escapa ao método matemático e à lógica cartesiana. Ao possibilitar a opção livre, o espírito torna possíveis muitas coisas que denunciam a insuficiência do modelo racionalista. Poderiam citar-se muitos exemplos.

Um dos mais característicos é a tentativa racionalista de explicar a inteligência humana. É difícil saber exatamente o que é o pensamento, mas, se eu reduzo o problema a uma questão de neurônios, posso conseguir uma tranqüilizadora impressão de exatidão: 1.350 gramas de cérebro humano, constituído por 100.000 milhões de neurônios, cada um dos quais forma entre 1.000 e 10.000 sinapses e recebe a informação que lhe chega dos olhos através de 1.000.000 de axônios acumulados no nervo ótico. Por sua vez, cada célula viva pode ser explicada pela química orgânica….Deste modo, posso pretender explicar a inteligência num plano biológico, a biologia em termos de processos químicos e a química em forma de matemática. Pois bem, qualquer leitor medianamente crítico perguntar-se-á o que têm a ver as porcentagens de carbono e hidrogênio, os neurônios e toda a matemática associada a esses processos, com algo tão humano e tão pouco matemático como conversar, entender uma piada, captar um olhar de carinho ou compreender o sentido da justiça.

A ciência moderna, com as suas descobertas maravilhosas, com as suas leis de uma exatidão assombrosa, oferece a tentação – um empenho que se deu em Descartes com uma força irresistível – de querer conhecer toda a realidade com uma exatidão matemática. Mas costuma-se esquecer algo essencial: que a matemática é exata à custa de considerar unicamente os aspectos quantificáveis da realidade. E reduzir toda a realidade ao quantificável é uma notável simplificação, é um reducionismo. Poderíamos replicar como aquele velho professor universitário, quando um aluno fazia alguma afirmação reducionista: “Isso é como se eu lhe perguntasse o que é esta mesa, e você me respondesse: cento e cinqüenta quilos”.

As grandezas matemáticas prestaram e prestarão um grande serviço à ciência, e à humanidade no seu conjunto, mas sempre prestaram um péssimo serviço quando se quis empregá-las de um modo exclusivista. A totalidade do real nunca poderá ser expressa só em cifras, porque as cifras expressam unicamente grandezas e a grandeza é apenas uma parte da realidade. E não é questão de dar mais números ou com mais decimais. Por muitos ou muito exatos que sejam, oferecem sempre um conhecimento notoriamente insuficiente. Você pesa 70 quilos, mas não é 70 quilos. E mede 1,83 metros, mas não é 1,83 metros. As duas medidas são exatas, mas você é muito mais que uma soma exata de centímetros e quilos. As suas dimensões mais genuínas não são quantificáveis: não podem ser determinadas numericamente as suas responsabilidades, a sua liberdade real, a sua capacidade de amar, a sua simpatia por tal pessoa ou a sua vontade de ser feliz.

Não querer reconhecer uma realidade alegando que não pode ser medida experimentalmente, seria proceder mais ou menos como um químico que se negasse a admitir as propriedades especiais dos corpos radioativos, sob o pretexto de que não obedecem às mesmas leis que explicam o que acontece com os outros corpos já conhecidos. Acima da ciência há outra face da realidade: a mais importante, e também a mais interessante do ser humano, aquela em que aparecem aspectos tão pouco quantificáveis como, por exemplo, os sentimentos – não é possível pesá-los, mas nada pesa mais do que eles na vida. Um pensamento ou um sentimento não podem honestamente ser qualificados como materiais. Não têm cor, sabor ou extensão, e escapam a qualquer instrumento que sirva para medir propriedades físicas. “Os fenômenos mentais – afirma John Eccles, Prêmio Nobel de Neurocirurgia – transcendem claramente os fenômenos da fisiologia e da bioquímica”.

“A ciência, apesar dos seus progressos incríveis – escreve o médico e pensador Gregório Maranón -, não pode nem poderá nunca explicar tudo. Cada vez ganhará mais terreno no campo daquilo que hoje parece inexplicável. Mas os limites fronteiriços do saber, por muito longe que cheguem, terão sempre pela frente um infinito mundo de mistério”.

A Fé Desaparecerá Quando a Sociedade Amadurecer?

Em um dos seus livros, López Quintás conta que um dia, ao entardecer, depois de visitar a catedral de Notre-Dame, enquanto vagueava pela velha Paris, deparou, sem querer, com um pequeno edifício abandonado, com as suas sórdidas janelas cruzadas por sarrafos de madeira. Aquela construção quase em ruínas era o famoso “Templo da Nova Religião da Ciência” que o filósofo francês Augusto Comte tinha erigido fazia século e meio. O contraste foi tão brusco como expressivo. O templo com o qual se pretendera dar culto ao progresso científico estava em ruínas. A velha catedral, pelo contrário, irradiava as suas melhores galas, como na sua brilhante época medieval. A música combinava nela com a harmonia das linhas arquitetônicas, com as belas palavras dos oradores, com o magnífico esplendor litúrgico que num dia de Natal, anos atrás, emocionara o grande poeta Claudel, até levá-lo à conversão.

A história daquele templo esquecido está aparentada com a da Ilustração, que no seu tempo se ergueu com o sonho de “despojar o homem dos grilhões irracionais das crenças e conhecimentos supersticiosos baseados na autoridade e nos costumes”. O pensamento ilustrado da Enciclopédia considerava os conhecimentos religiosos como “simples e ingênuas explicações sobre a vida dadas pelo homem não científico”. Na sua aversão à fé, uma multidão de pensadores deleitava-se em atribuir a origem mais baixa possível ao sentimento religioso. Concebiam os nossos antepassados como “seres perpetuamente atemorizados, empenhados em conjurar as forças hostis do céu e da terra mediante práticas irracionais”. Viam a Deus como um simples “produto do medo das civilizações primitivas, num tempo em que esses espíritos atrasados ainda acreditavam em fábulas”. A teoria de Comte sobre a evolução humana através dos três estados – religiosidade, pensamento filosófico e conhecimento científico – gozou na sua época de grande aceitação e em sua honra foi erigido aquele templo dedicado à “Nova Religião da Ciência”.

Não é curioso que a ciência adquirisse essa faceta religiosa? Foi efetivamente um curioso fenômeno de substituição. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Com efeito, entronizar uma bonita mocinha parisiense na catedral de Notre–Dame – como fizeram durante a Revolução Francesa – , dando–lhe o título de “Deusa Razão”, não parece que fizesse parte das ciências experimentais. Por trás de tudo aquilo latejava o empenho ateu de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, e o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana.

Passaram-se menos de dois séculos, e o estado de abandono em que se encontra hoje aquele templo laico é talvez um fiel reflexo do abandono da concepção do homem que tanta força teve na sua época. Aquela ilusão segundo a qual o advento da era científica permitiria eliminar o mal do mundo acabou por ser um doloroso engano. As suas hipóteses acabaram por estar mais impregnadas de ingenuidade do que a que eles atribuíam às épocas históricas anteriores.

A Ciência Pode Explicar Tudo?

Um olhar sobre o progresso científico com um pouco de perspectiva histórica deixa-nos espantados com a rapidez com que as máquinas são ultrapassadas e vão parar nos museus. Muitas afirmações das revistas científicas atuais provavelmente serão motivos de riso ou de assombro para as gerações futuras, talvez em menos tempo ainda. A história da ciência adverte-nos, com teimosa insistência, sobre um fato irrefutável: poucas teorias científicas conseguem manter-se em pé, mesmo que por poucos séculos; muitas vezes, só por alguns anos; e em alguns casos, menos ainda. A maioria das afirmações da ciência vai sendo substituída, uma atrás da outra, pouco a pouco, por outras explicações mais complexas e mais fundamentadas dessa mesma realidade. Eram hipóteses tidas como certas durante uma série de anos, ou de séculos, e que um dia se descobre que estão superadas. Umas vezes, são englobadas dentro de teorias mais completas, das quais a antiga hipótese é um corolário ou um simples caso particular. Outras ficaram obsoletas e desapareceram por completo do âmbito científico. A postura própria da ciência experimental deve ser, portanto, extremamente cautelosa nas suas afirmações.

“Uma cilada perniciosa” – escrevia John Eccles pouco depois de ter recebido o Prêmio Nobel pelas suas pesquisas em neurocirurgia – surge da pretensão de alguns cientistas, mesmo eminentes, de que a ciência não demorará a proporcionar uma explicação completa de todas as nossas experiências subjetivas. É uma pretensão extravagante e falsa, que foi qualificada ironicamente por Popper como “materialismo promissório”. É importante reconhecer que, mesmo que um cientista possa manifestar essa pretensão, não se comportaria como cientista, mas como um profeta mascarado de cientista. Isso seria cientificismo, não ciência, embora impressione fortemente os profanos que pensam que a ciência produz de forma incontroversa a verdade. O cientista não deve pensar que possui um conhecimento certo de toda a verdade. O máximo que nós, os cientistas, podemos fazer é chegar mais perto de um entendimento verdadeiro dos fenômenos naturais mediante a eliminação de erros em nossas hipóteses. É da maior importância para os cientistas que apareçam perante o público como o que realmente são: humildes buscadores da verdade”.

Em contrapartida, a imodéstia costuma caminhar a par da ignorância. A auto-suficiência com que alguns falam reflete uma atitude muito pouco científica, pois os cientistas sensatos nunca conferem a categoria de dogma às suas hipóteses. O cientificismo orgulhoso prestou sempre um péssimo serviço ao rigor da verdadeira ciência.

A Razão Precisa da Fé?

O combate que o homem trava contra o mal excede infinitamente os meios da razão e da ciência. É o que demonstram fatos tão atuais como o racismo, a droga ou o alcool. Ou como todos esses terríveis crimes cometidos por totalitarismos ateus sistemáticos e pretensamente científicos ao longo do século XX: desde o genocídio nazista de Hitler até o de Pol Pot no Camboja, passando pelos do lenismo, do stalinismo ou do maoísmo.

O pior é que a maior parte desses crimes em massa foram cometidos em nome de teorias que, na sua época, receberam o aplauso de milhões de pessoas. Foram autênticos infernos fabricados por homens que procuravam um mundo perfeito que se bastasse a si mesmo e já não tivesse necessidade de Deus.

E assim como, lendo Lênin, se podia notar que os direitos do indivíduo não iam ser respeitos num sistema comunista, do mesmo modo, estudando as premissas da Ilustração, viu-se claramente que a Modernidade não atenderia às necessidades globais do ser humano. Não basta a razão para que uma sociedade seja justa, solidária e equilibrada. Para que haja equilíbrio na pessoa e na sociedade, é preciso atender, juntamente com a razão, à vontade e à sensibilidade. A pessoa e a sociedade, devem ter por objetivo procurar o bem, a verdade e a beleza; e isso significa falar de vontade, inteligência e sentimentos; e, por sua vez, de ética, de ciência e de arte. Quando se idolatra um método da inteligência, como é a razão, sem elevar à sua altura a ética e a estética, desenquilibram-se o indivíduo e a sociedade. Esse foi o fracasso da Ilustração.

Fracassou por ter pensado que da razão deriva automaticamente a ética, coisa que se demonstrou falsa ao ser confrontada com a realidade. A razão não pode ser salva pela razão. Isso seria ilusório. Esses crimes demonstram o que o homem pode chegar a fazer. E vimos como a razão não os impediu.

Os ilustrados pensavam que, mostrando ao homem o que é racional, este o adotaria, e a razão seria suficiente para organizar a sociedade. Mas não foi assim. Não basta proclamar o que é racional para que os homens o pratiquem.

O comportamento humano está cheio de sombras e de matizes alheias à razão, que desembestam cada qual por sua conta movendo as molas da vontade e do coração. Reconhecer os perigos que a razão encerra – afirma Jean–Marie Lustiger – é salvar a sua honra. Conceber a razão como a grande soberana, independente do bem que o homem deve procurar, é mais ou menos como pôr-se nas mãos de um computador: é um instrumento muito capaz, processa grande quantidade de dados que toma do exterior, todo o seu desenvolvimento é perfeitamente lógico, mas alguém tem de garantir que está bem programado. A verdadeira fé é um guia insubstituível, pois a razão pode extraviar-se.

Não quero, com isto, menosprezar a razão, antes pelo contrário. A razão é uma das mais nobres capacidades que distinguem a espécie humana, e alegra-nos ver os seus triunfos, bem como conquistas da ciência e a sua luta por construir um mundo melhor. Mas convém nunca esquecer a limitação humana, e igualmente a ordem natural imposta por Deus, que permite ao homem preservar a sua dignidade e evitar erros.

A história está cheia de cadáveres ideológicos, e ninguém acha estranho encontrá-los perfeitamente alinhados quando olha pra trás com a disposiçào de aprender. E, entre eles, espalhados ao longo dos séculos, pode-se ver toda uma legião de profetas que foram anunciando – sobretudo nos últimos duzentos anos – o próximo e definitivo desaparecimento da religião e da Igreja.

No entanto, a história mostra que são precisamente aqueles que, com tanta paixão, lançam essas condenações e essas profecias os que desaparecem uns após outros, enquando a Igreja continua adiante depois de dois mil anos, e a religiosidade continua a ser uma constante em todas as civilizações de todos os tempos.

A Igreja, que presenciou catástrofes que varreram impérios inteiros, testemunha pela sua mera subsistência e força que palpita nela. “Os povos passam – observa Napoleão -, os tronos e as dinastias desmoronam-se, mas a Igreja permanece”. É uma realidade que leva a pensar que o fato religioso faz parte da natureza do homem, e que a Igreja está animada de um espírito que não é de origem humana.

Fonte: É Razoável Crer? Questões Atuais sobre a Fé – AGUILÓ Alfonso – Tradução: Roberto da Silva Martins – Editora Quadrante – São Paulo 2006 – Coleção Vértice; 60.

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