Posts Tagged ‘Ética’

* Existe esperança para cultura centrada apenas na ciência?

terça-feira, agosto 31st, 2010

Pe. François Bandet, EP

A fim de melhorar o entendimento da ciência quotidiana, é necessário tomar em conta duas características da ciência que influenciam tremendamente: a sua refletividade e a sua tecnicalidade.

Por refletividade, entendemos o meio de integração da dimensão da consciência no campo da ciência e, a partir daí, atingindo uma dimensão filosófica.

Pela sua tecnicalidade, a ciência distancia-se de toda a teoria e torna-se exclusivamente a técnica. Os dados tornam-se o mais importante e no seu caminho tentam “possuir” as leis da natureza.

Como a ciência sempre desejou “transformar” o mundo, está ligada à humanidade no seu ato de ser, no seu corpo e no seu espírito, tocando atualmente em problemas políticos, éticos e colocando em questão a própria humanidade.

Surge então um dilema para a humanidade: seguir a mentalidade lógica e técnica da ciência, olhando por cima de todas as considerações éticas, criando tensões e conflitos e concentrando-se na expansão e no desenvolvimento da “transformação” do mundo; ou encontrar (ou inventar) uma nova moralidade ética para justificar as novas conquistas.

Através da sua capacidade de transformar o mundo, a ciência criou novos problemas para a humanidade. Considerada, formalmente, um elemento de unificação, tornou-se hoje muito controversa devido aos excessos que produziu. Pense-se, por exemplo, nos atuais problemas e desastres ecológicos.

O futuro do homem e a sua existência parecem encontrar-se totalmente e irreparavelmente ligados à ciência e à tecnologia de amanhã. Por isso se deve desenvolver uma nova relação com a Fé, que deve ser respeitada e encorajada.

O conflito que surge pode ser encontrado ao nível do homem, da sua existência e da urgência de submeter a ciência aos valores morais humanos. Por outro lado, a Fé não deve mostrar um desinteresse em relação à ciência; poderá até tornar-se uma forte fonte de inspiração para ajudar a encontrar um senso de moralidade que irá fazer com que se produzam abundantes frutos de diálogo e unidade no mundo.

A ambiguidade da ciência moderna reside no fato de ter contribuído para o progresso da humanidade, mas que também está na origem de várias tensões, aberrações e desastres.

Cada vez se torna mais evidente que não é possível lidar com o problema do significado da vida, com questões éticas, e com um sistema de valores, no contexto de uma cultura centrada apenas na ciência.

BANDET. François. Estará a ciência oposta à Fé?

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* A Igreja é contra o progresso da bioética?

segunda-feira, agosto 23rd, 2010
Por Pe. Gonzalo Miranda L.C.*

Dignitas personae vinte anos após Donum vitae.

A ciência e a técnica prosseguem em seu avanço, que nem sempre e necessariamente comporta um avanço em termos humanos. O Magistério da Igreja analisa sempre com interesse as novas descobertas, invenções e aplicações tecnológicas; analisa-as de um ponto de vista ético, no horizonte do respeito e da promoção da dignidade da pessoa humana, cada ser humano em si.

Em 1987, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a instrução intitulada “O respeito pela vida humana nascente e a dignidade da procriação”. Nesta, apresentava a posição do Magistério católico universal sobre as problemáticas éticas ligadas à aplicação das técnicas de reprodução assistida, então aplicadas em grande escala e com recurso de métodos de fecundação extra-corpórea há apenas dez anos.

Em dezembro de 2008, a mesma Congregação apresentou uma nova instrução, desta vez de título “Instruções sobre algumas questões de bioética”. Apesar da amplitude sugerida por este título, a temática é essencialmente a mesma da Donum vitae.

O novo texto se apresenta com um caráter de atualização, aprofundamento e esclarecimento. Atualização porque, no curso destes vinte anos, muitas novidades surgiram no âmbito da reprodução artificial e assuntos correlatos.

Algumas destas inovações já eram anunciadas nos anos oitenta, outras apenas mais tarde. Pense na crioconservação de embriões humanos, com todos os problemas éticos, psicológicos e sociais implicados. Pense nas tecnologias de diagnóstico pré-natal e na possível eliminação de embriões indesejados. Pense nas propostas de clonagem “terapêutica” ou ainda de congelar os ovócitos ou fazer diagnósticos nos próprios embriões. Um longo etcétera.

No que se refere aos valores em jogo, aos bens a serem protegidos e aos princípios éticos que podem iluminar o uso das novas tecnologias, não era preciso abrir novos caminhos.

Convinha, porém, afrontar explicitamente estas novas fronteiras. O Magistério da Igreja pretende ser dinâmico, propor a luz da razão e da fé para amparar os católicos e todos aqueles que se dispõem a ouvi-lo nos meandros antigos e novos, e frequentemente tortuosos, que se apresentam a nós.

O trabalho de aprofundamento é sempre incompleto. É sempre possível – e com frequência conveniente – ir além. Também neste sentido, o Magistério nos ampara e ilumina. A nova Instrução nos propõe uma avaliação mais articulada do status ontológico do embrião humano, com base nos ensinamentos anteriores, de cunho predominantemente ético. Trata-se, como sabemos, do ponto central e também do punctum dolens, de todas as disputas e posições referentes ao que a técnica é capaz de fazer com os embriões: desde sua produção até sua destruição, passando por sua seleção e manipulação. A iluminação teológica do problema, proposta na primeira parte, enriquece toda nossa compreensão da dignidade inviolável do ser humano que se encontra – como todos nós já nos encontramos um dia – nos primeiros momentos de sua existência e desenvolvimento.

Muitos esperavam por um serviço de esclarecimento sobre esta série de problemas éticos, sobre os quais ainda não se dispunha de um ensinamento magisterial claramente definido e sobre os quais as opiniões de diversos autores divergiam, mesmo entre aqueles que alegavam defender com sinceridade os valores promovidos pela doutrina católica.

Seria eticamente admissível a adoção pré-natal, única via disponível para dar oportunidade aos embriões humanos congelados ou abandonados a prosseguirem em sua existência? Quais intervenções artificiais podem ser consideradas “complementares” e não “substituitivas” ao ato conjugal em vista da assistência à procriação, à luz do ensinamento ofertado pelo Papa XII e sintetizado pela Donum vitae? Podem-se aceitar pesquisas que tenham como objetivo a obtenção de células-tronco do tipo embrionárias, mas que não envolvam a formação ou destruição de embriões humanos? É moralmente aceitável a utilização de medicamentos e tratamentos, tais como vacinas, obtidos a partir de estudos que lançam mão de material biológico de origem ilícita?

Sobre alguns destes dilemas, a Instrução oferece um discernimento claro e articulado – por exemplo, no que se refere ao uso de material biológico humano de origem ilícita.

Com relação às técnicas para obtenção de células-tronco pluripotenciais sem a produção de embriões, o texto convida à prudência, uma vez que ainda não está claro qual seria o status ontológico do resultado obtido. Sobre o tema das técnicas “complementares”, simplesmente se reitera a doutrina de Pio XII e da Donum vitae, sem aplicá-la à análise das técnicas em questão: a incorretamente denominada “inseminação artificial” e a GIFT (Transferência de Gametas para as Trompas). A propósito do debate relativo à adoção pré-natal, abriu-se nova discussão sobre a correta interpretação do texto da Instrução.

Após quase vinte anos de debates sobre o tema da adoção, a Santa Sé se manifestou expressamente a respeito. Se o fez da forma como fez, é por que há um motivo.

A instrução é parte integrante do assim chamado “Magistério ordinário”, ao qual devemos (e desejamos) dar aquele religiosum voluntatis et intellectus obsequium que nossa fé exige e que nos é lembrado no Concílio Vaticano II (GS, 25), conforme enfatizou oportunamente Dom Francisco Ladaria, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, na ocasião da apresentação pública da Instrução. Este obsequium, no entanto, não implica em que não se deva esforçar para compreender melhor aquilo que o texto nos ensina, e eventualmente distinguir daquilo que o texto não nos ensina. E que não se deva também aprofundar, aplicar e defender a doutrina por ele oferecida.

* P. Gonzalo Miranda foi secretário operativo do Centro de Bioética da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Roma, de 1993 a 2001. Em 2001, fundou a Faculdade de Bioética do Ateneu Pontifício Regina Apostolorum (APRA). De 2001 a 2006, foi decano da Faculdade de Bioética da mesma universidade. Professor titular de bioética e de teologia moral na APRA, é membro do Conselho Diretivo do Centro de Bioética da Universidade Católica do Sagrado Coração, membro da Federação Internacional dos Centros de Bioética de Inspiração Personalista (FIBIP) e membro da Federação Internacional de Faculdades de Medicina Católicas (AIFMC).

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* “Ella”: Surge novo anticoncepcional abortista.

quarta-feira, julho 21st, 2010

Por Carmen Elena Villa

Um novo fármaco classificado entre os anticoncepcionais de emergência estará disponível dentro das próximas semanas nas prateleiras das farmácias norte-americanas para qualquer mulher maior de 17 anos.

Trata-se da pílula “Ella” ou “EllaOne”, aprovada em 17 de junho pelo Food and Drug Administration (FDA), agência do governo dos EUA de controle de alimentos e medicamentos.

A pílula é eficaz até cinco dias após o intercurso sexual. Segundo o laboratório farmacêutico francês HRA Pharma, que produz o fármaco, trata-se de uma “versão melhorada” da pílula do dia seguinte.

Como age?

“EllaOne” contém uma substância chamada acetato de ulipristal (CDB-2914), um modulador seletivo dos receptores da progesterona. Atua bloqueando a ação da progesterona, hormônio produzido pelo organismo da mulher para induzir as transformações necessárias para acolher o óvulo fecundado, fixando-o no útero.

O ulipristal é tóxico para o embrião, e pode provocar sua morte no caso de já estar implantado no útero.

A substância tem efeitos semelhantes aos da mifepristona e da pílula RU-486, introduzidos no mercado norte-americano há cerca de 10 anos.

Manipulação

Erin Gainer, diretor da HRA Pharma, declarou que “a contracepção de emergência representa uma necessidade terapêutica real”.

“Nosso objetivo é garantir a disponibilidade do EllaOne para os milhões de mulheres que podem dele necessitar”, acrescentou. “Pretendemos colocar em marcha, mediante nossas estruturas comerciais e de marketing e nossa rede de parceiros privilegiados, projetos que assegurem este objetivo”.

O professor Lucio Romanos, diretor do departamento de ciências obstétrico-ginecológicas , urológicas e de medicina reprodutiva da Universidade de Nápoles “Federico II”, destacou que a campanha de promoção do novo fármaco “apresenta a gravidez, quando não planejada, como uma doença a ser tratada”.

Por sua vez, o Population Research Institute, convida a refletir sobre a possibilidade de um fármaco “impedir a gravidez cinco dias após uma relação sexual”, esclarecendo que “os espermatozóides podem alcançar a trompa e fecundar o óvulo em poucos minutos”.

A HRA Pharma insiste que a pílula não é abortiva. “Segundo seu ponto de vista, a gravidez não se inicia com a concepção, mas com a implantação do embrião no útero da mãe, cinco a sete dias depois”, afirma o comunicado do Population Research Institute.

Para a entidade, a estratégia envolve uma campanha de desinformação, manipulando a linguagem para iludir a consciência das mulheres.

Pontos contrários

Diversos grupos pró-vida nos EUA têm se pronunciado contra o fármaco, defendendo a vida desde sua concepção. Beth Lauver, diretora do apostolado arquidiocesano Respect Life, afirmou que a inovação consiste simplesmente “em outra forma de aborto precoce”.

Para o Dr. Brian Gosser, do Centro Médico Saint Anthony de South County, o principal aspecto de controvérsia em relação ao fármaco reside “na questão moral sobre quando de fato a vida tem início”.

“Se acreditarmos, tal qual ensina a Igreja, que a vida se inicia no momento em que o óvulo e o espermatozóide se unem, então evidentemente qualquer fármaco que atue impedindo a implantação do embrião é abortivo, e portanto, moralmente inaceitável”, afirmou.

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* Metáfora do esporte e o caso Bruno: a inteireza é determinante!

quarta-feira, julho 14th, 2010

A citação do caso Bruno foi usado para ilustrar de forma concreta e atual essa reflexão.

Aqui não se entra no mérito da culpa pessoal do jogador,que pertence a Justiça, nem o caso foi citado originalmente no artigo que se mantem em sua “inteireza” abaixo, sem citar o jogador.

Porém,ao ler o artigo não tem como não lembrar-se deste lastimável caso ainda em análise pela justiça.

***

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
“É muito pouco, e não raramente desastroso, associar talentos ao dinheiro”, diz arcebispo
No contexto do recente torneio Mundial de Futebol, em que o esporte, usado como metáfora, “contribui para explicar os desafios de viver adequadamente este dom que é a vida”, fica evidente que a construção de um talento vitorioso depende de muitos fatores, “de um conjunto de articulações e investimentos para dar frutos”.“Quando não se pode contar com a conjugação de vários fatores, o talento, por mais especial que seja, corre sempre o risco de perder força e de não alcançar metas possíveis da sua inerente constituição.

“O sucesso que se almeja para a vida, em cada uma das suas etapas e, em função de metas definidas, exige âncoras para fazer florescer os talentos”, destaca o arcebispo.

Segundo Dom Walmor, a cultura tem uma grande responsabilidade nesse contexto. “O substrato cultural, considerado nas suas diversidades, é determinante para que o florescimento de talentos e as responsabilidades assumidas possam chegar a bom termo”.

Ele cita também a importância do equilíbrio emocional, “capaz de sustentar um indivíduo em condições necessárias para se manter o ritmo e recuperar-se das perdas reavendo, em tempo hábil, a capacidade de retomar metas na direção da vitória proposta”.

“O equilíbrio emocional tem tudo a ver com a configuração afetiva de cada um, que, por sua vez, remete ao substrato familiar e cultural que ampara o modo de viver”, explica.

De acordo com o arcebispo, o talento “precisa dessa ambientação, que inclui investimentos de toda ordem, emoldurados por uma cultura consistente”. “Essa consistência, envolvendo variados aspectos emocionais, comportamentais e morais, é o substrato que mantém um indivíduo na condição de alcançar metas.”

O prelado considera que “é muito pouco, e não raramente desastroso, associar talentos ao dinheiro. Isto se verifica de modo muito prejudicial quando, pela força do talento, se é projetado para uma condição em que o volume de dinheiro e de benesses conquistados não tem sustentação humanística, espiritual e moral”.

Aqui se considera “o desafio permanente de saber perder – com elegância e sem perder a cabeça – além da capacidade exigente de administrar a vitória, na parcialidade de sua duração”.

“Se o talento permite antecipar condições favoráveis de vitória, esta pode se esvair facilmente quando não há um lastro de humanidade e de formação integral, escolar, familiar e social que mantenha os indivíduos talentosos equilibrados nos embates próprios da proposta de vitória.”

Segundo Dom Walmor, essa leitura aplica-se “no âmbito do esporte, que se joga e se projeta em todas as condições da vida, sobretudo, no exercício de responsabilidades cidadãs e nas tarefas de importância social e política no conjunto do funcionamento de uma sociedade”.

“A perda do equilíbrio emocional e a falta de substrato humanístico e moral são constatáveis, trazendo enormes prejuízos, nos mais diversificados âmbitos da vida. A consequência aponta para o comprometimento da qualidade dos resultados das atividades e responsabilidades assumidas”, afirma.

Dom Walmor assinala ainda que “a estatura humanística, com a qual se precisa contar para exercer a cidadania e cumprir os cargos e encargos assumidos, é resultado e fruto de um investimento grande e empenhado, com alcance social e político de importância decisiva”.

“Do contrário, projetado pelo talento e ajudado pela oportunidade, na hora crucial em que o equilíbrio e a elegância humanística são imprescindíveis, o medo pode colocar as chances de conquistas em risco. Não se vence apenas pelos talentos. A inteireza é sustentáculo e é determinante”, afirma.

(Alexandre Ribeiro)

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* Para aqueles que preferem a escuridão, a luz é uma acusação.

sábado, julho 10th, 2010

 Vós sois a luz do mundo..

" Vós sois a luz do mundo.."

Uma reflexão sábia que questiona nossa capacidade de fazer diferença no mundo.

Impressiona-me a quantidade de pessoas que saem por aí a repetir conceitos e “verdades” sem fundamento em nada, a não ser em sua opinião pessoal elevada ao grau máximo de pretensão de que a verdade sempre deve coincidir com opinião dela e,  se não coincidir, a verdade, claro, está “errada”.

Não podemos nos omitir de fazer diferença no mundo, diferença para o bem porque já tem MUITA gente  fazendo diferença para o mal.

Continua verdade, ainda de maneira mais categórica ainda nos dias de hoje, o que Jesus afirmou sobre o sal que não salga e que, portanto, não serve para nada.

A omissão, seja de que natureza for, não é apenas um vazio, é também abrir espaço para que o mal pareça mais forte e para que as pessoas continuem caminhado pela vida seguindo a voz do mais forte ou, por falta de convicções pessoais, seguindo a maioria, como manada, como ovelhas sem pastor.

Nessa perspectiva, é preferível um ateu honesto do que um Cristão omisso.

Pelo menos o ateu,” filho do nada”, é coerente com suas convicções, ao passo que o cristão omisso, mas do que negar suas convicções nega sua essência e sua identidade evangelizadora mais profunda.

Deixa de ser sal,torna-se “insosso”, não serve mais para salgar o mundo.

***

Dan Kennedy, presidente de Human Life

Indivíduos e nações têm a capacidade de realizar grande bem e extremo mal. O mesmo ocorre com instituições e profissões.

É instrutivo que a história seja repleta de evidências de que respeitadas instituições culturais (por exemplo, o mundo acadêmico, os tribunais, os meios de comunicação, a ciência) possam se tornar infectados com a corrupção moral mais radical. No passado, elas “ratificaram” o mal — escravidão, genocídio e outras atrocidades — como “bom”.

As instituições culturais exercem uma influência poderosa umas nas outras e, quando se corrompem, aceleram o mundo político a aceitar o mal como bom. O desejo de agir conforme a moda faz com que muitas pessoas de bom grado sufoquem aquela vozinha baixa que protesta contra o mal que se mascara como totalmente bom.

Toda nossa geração vive a beira da história, e só um tolo creria que sua geração é imune aos males do passado. E assim permanece. “Nunca mais” é, em si, nunca bom o suficiente. A própria ostentação da condenação e o distanciamento elaborado de nossas vidas da injustiça do passado pensamos que garante nossa inocência.

Mas o mal muda seu disfarce; a injustiça aparece em diferente forma. De novo, o mundo político se torna infectado com cegueira para com seus próprios campos de massacres.E assim é em nossa época.

Certas instituições culturais, comercializando em sua autoridade, aprovam o mal moral radical como “bom”. Em verdadeiro estilo elitista, elas travam guerra contra a humanidade sancionando o aborto como a solução para a gravidez não planejada, a eugenia como meio de filtrar uma porção de doenças (por exemplo, filtrando aqueles que as sofrem) e a eutanásia como um tratamento compassivo para o sofrimento no final da vida. Esses são os campos de massacres hoje. Esses são os males sancionados da moda em nossa época.

Escrito no coração

A verdade realmente nos liberta. Para parafrasear G.K. Chesterton: os princípios morais universais que transcendem os governos e a história humana são a única coisa que nos libertam de nos tornarmos escravos do favorecido mal de nossa era.

Esses princípios morais não são um mistério.

Certas verdades morais estão escritas no coração humano. Como o título inteligente de um dos livros do Professor J. Budziszewski deixa claro, há certas coisas que “não podemos saber”*, não importa quantas pessoas finjam conhecer.A história fornece testemunho inspirador dessas almas inflexíveis, livres da cegueira míope de sua era, que falaram e viveram esses princípios. E o mundo é melhor por isso.

Em nossa época, temos também de assumir essa luta. Sem essa contínua luta, a eventual negação de qualquer direito, de qualquer pessoa ou grupo, por qualquer motivo será imposta pelos fortes contra os fracos.

Não devemos permitir que o desejo de adaptação aos modismos sufoque a voz da consciência em nossa época. Precisamos dar testemunho da verdade com nossas palavras e nossas ações, seja qual for a circunstância em que nos achemos. Para a maioria de nós, isso não exige gestos magníficos, ou debate intenso, mas simples declarações de convicção, para nossas famílias, nossos colegas e nossos vizinhos.

Nossa responsabilidade como cidadãos tem de nos conduzir a informar nossas autoridades eleitas acerca de nossa posição sobre certas questões, e nosso voto pelos candidatos precisa refletir nossas convicções.

Em nosso trabalho voluntário, e as instituições beneficentes para as quais doamos, em mil pequenas maneiras podemos alimentar uma cultura da vida. Esse é o importante trabalho que somos chamados para fazer.Nós todos conhecemos o provérbio, é melhor acender uma vela do que praguejar a escuridão. Não é fácil.

Para aqueles que preferem a escuridão, a luz é uma acusação.

Se ousarmos acender uma vela e dispersar as sombras, seremos condenados como inimigos da liberdade e inimigos do “bem”. Esse é um pequeno sacrifício a se fazer ao defender o direito à vida dos membros desfavorecidos, fracos e vulneráveis da família humana.

O que a história registrará sobre nossa geração? O que as futuras gerações escreverão sobre nossa era depende de nós. Nas palavras de Winston Churchill, “Preparemo-nos pois para o nosso dever”. Podemos estar certos de que prevaleceremos. A luz ainda brilha na escuridão, e a escuridão não a venceu.*J. Budziszewski, What We Can’t Not Know, Spence Publishing

original em inglês: http://www.lifesite.net/ldn/viewonsite.html?articleid=10061405

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* Doação de sêmem. Como se sente um filho fruto de uma ‘ transação comercial’ ?

terça-feira, junho 29th, 2010

A Posição da Igreja sempre foi de rechaço a esse procedimento. Sempre! As pesquisas  como as divulgadas aqui apenas confirmam – cada vez  mais-  as razões pelas  quais não se pode acolher impunimente qualquer tipo de “avanço científico” sem ir nas raizes éticas e humanas que lhe darão o seu verdadeiro sentido e legitimidade.

***

Por Pe. John Flynn, LC

O aumento constante de inseminações artificiais e a utilização de esperma de doadores está levando a um crescente número de crianças que não conhecem a identidade de seus pais biológicos. Uma recente pesquisa considera que as consequências disso são refletidas na vida adulta.

Um estudo publicado pela Commission on Parenthood’s Future (My Daddy’s Name is Donor: A New Study of Young Adults Conceived Through Sperm Donation – O nome de meu pai é Doador: Um novo estudo sobre adultos jovens concebidos por doação de esperma), tem como autores Elizabeth Marquardt, Norval D. Glenn e Karen Clark.

Segundo o estudo, entre 30 mil e 60 mil crianças nascem a cada ano nos Estados Unidos por meio de doação de esperma. Trata-se, contudo, de uma estimativa por baixo, pois nenhum organismo recolhe estatísticas deste procedimento. Além disso, este é o primeiro estudo sério para avaliar o bem-estar de quem agora é adulto. A pesquisa também comenta que a doação de esperma é um fenômeno internacional. Pessoas de todo o mundo buscam doadores de esperma nos Estados Unidos devido à falta de regulamentações, e países como Dinamarca, Índia e África do Sul proporcionam também doadores de esperma para um crescente mercado de turismo de fertilidade.

Os autores fazem uma interessante comparação entre doação de esperma e adoção. A adoção é regida por normas estritas. Os pais adotivos são estudados de forma cuidadosa antes de adotar. Quando se trata da doação de esperma, pelo contrário, as mulheres vão buscar doadores em catálogos on-line que comparam qualidades físicas, inteligência e níveis profissionais, e tudo que necessitam fazer é pagar a transação.

Apesar da comparação com a adoção, os autores observam que com muita frequência seus amigos e colegas comentavam que a doação de esperma é quase como uma adoção. Para começar, esta não leva em conta as dificuldades que muitas crianças adotadas enfrentam com separações de suas origens biológicas, afirma a pesquisa.

Além disso, as crianças adotadas podem se conformar pensando que talvez suas mães os entregaram após uma luta difícil ou devido à circunstâncias extremas. Com a concepção de doador, a criança se dará conta de que somente foi uma transação comercial sem que o doador nunca pensasse em tê-la.

Danos

Para estudar a situação dos adultos concebidos por meio da doação de esperma, os autores entrevistaram mais de um milhão de lares e, depois, apresentaram uma mostra representativa de 485 adultos entre 18 e 45 anos que diziam que suas mães haviam utilizado esperma doado. Foram comparados com um grupo de 562 adultos que foram adotados quando crianças, e 563 adultos que cresceram com seus pais biológicos.

Aprendemos que, em média, os adultos jovens concebidos por meio da doação de esperma sofrem mais, estão mais confusos e se sentem mais isolados de suas famílias”, indica a pesquisa.

Não menos de 65% dos adultos concebidos por estas doações concordaram durante a entrevista com a seguinte afirmação: “O doador de esperma é a metade do que sou hoje”. As mães ainda admitem sua curiosidade por saber quem são os pais de seus filhos.

Um pouco menos da metade destes adultos expressou seu mal-estar com suas origens. Muitos deles afirmaram que têm uma preocupação frequente.

Alguns deles se sentem como monstros – o resultado de experimentos de laboratório – enquanto que outros têm problemas de identidade. O fato de que o processo misture dinheiro também é fator de preocupação para muitos.

Outros expressaram seu mal-estar por terem sido um produto desenhado para satisfazer os desejos de seus pais. Não menos de 70% admitem ter perguntado como era a família de seu doador de esperma.

As preocupações da descendência dos doadores de esperma não se limitam a temas como a identidade ou a família, mas isso se estende ao médico. A pesquisa aponta que alguns doadores geraram dezenas de crianças, e há casos de cem ou mais. Assim que, adultas, estão preocupados por não conhecer seus meio-irmãos, ou que seus filhos possam se encontrar com o filho de um meio-irmão.

O tema da doação anônima de esperma tem sido um assunto polêmico em muitos países nos últimos anos. As críticas levaram Grã-Bretanha, Suécia, Noruega, Holanda, Suíça e algumas zonas da Austrália e Nova Zelândia a proibirem esta prática, observa a pesquisa. Nos Estados Unidos e Canadá, contudo, não existem restrições. A Igreja Católica se opõe a todos os procedimentos de inseminação artificial, mas como a pesquisa deixa claro, ainda que não se esteja de acordo com isso, há boas razões para estar a favor do direito das crianças saberem quem é seu pai e pôr fim à paternidade anônima.

A pesquisa também analisou temas sociais e psicológicos. Perguntados se antes dos 25 anos tiveram problemas com a lei, 21% dos filhos de doadores disseram que sim. Os números correspondentes aos filhos adotados e aos filhos que cresceram com seus pais biológicos foram de 18% e 11% respectivamente. Os resultados são similares para problemas como o álcool e o uso de substâncias.

Estes resultados permanecem constantes mesmo quando se controlam os resultados de variáveis sócio-econômicas e de outro tipo.

Em relação aos fatores variáveis, uma série de fatos interessantes surgiram no estudo. Por exemplo, 36% dos filhos de doadores disseram não ter crescido como católicos, em comparação com 22% das famílias adotivas e 28% que cresceram com seus pais biológicos. Esta é uma descoberta que chama a atenção, comenta a pesquisa, dada a oposição da Igreja Católica perante este tipo de prática.

32% dos adultos filhos de doadores disseram que o catolicismo é sua religião. Em contrapartida, um grande número de católicos nos outros dois grupos de controle havia abandonado a Igreja.

Segredo

Outra dificuldade que os filhos de esperma doado sofrem é o segredo sobre suas origens. Na maioria dos casos, os pais deixam que os filhos criem a princípio a ideia de que estão biologicamente relacionados com ambos. 

Isso tem como elemento de comparação 27% para os que foram adotados e 18% para os que cresceram com seus pais biológicos. A preocupação de que o pai tenha mentido mostra resultados similares.

Não é de surpreender que uma grande maioria dos adultos concebidos por meio da doação de esperma expresse seu apoio a saber tudo. Isto inclui a identidade do doador e o direito a ter algum tipo de relação com ele. Também dizem que queriam saber sobre a existência e o número de seus meio-irmãos. Atualmente, a lei nos Estados Unidos não dá nenhum destes direitos. Protege, de fato, os doadores e as clínicas de fertilidade, à custa das crianças concebidas.

Mas os problemas não terminam com o segredo. Os resultados do estudo mostraram que 44% dos adultos concebidos por doação se sentiam cômodos com a concepção por doação, sempre que os pais digam a verdade a seus filhos, preferencialmente desde pequenos. Contudo, 36% tinham reservas, ainda que seus pais dissessem a verdade, e 11% afirmaram que isso é difícil para os filhos, ainda que os pais lidem bem o assunto.

De fato, a pesquisa comenta que “somente a franqueza não parece resolver as potenciais perdas, a confusão e os riscos que derivam de filhos concebidos deliberadamente faltando ao menos um de seus pais biológicos”.

A pesquisa conclui com uma série de recomendações. Entre elas estava a observação sobre a questão do histórico médico, fundamental para determinados tratamentos. E ainda questionava: “Uma boa sociedade pode criar intencionalmente filhos desta forma?”

Uma pergunta digna de reflexão.

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* Rotula-se objetivos politicos como direitos humanos.Isso dilui os verdadeiros direitos.

sexta-feira, junho 25th, 2010
André Gonçalves Fernandes

Em uma análise comparativa dos três planos nacionais de direitos humanos (PNDH I, II e III – 1996, 2002 e 2010), nota-se um aumento progressivo do rol de direitos humanos. Se, por um lado, não me parece razoável que o rol fique estagnado ao número original, por outro lado, esse inchaço gera um efeito negativo: diluindo-se o conteúdo semântico da expressão, a proteção torna-se tanto menos eficaz.

Vários dos chamados direitos de terceira ou quarta geração podem ser reduzidos no conteúdo original da Declaração Universal, sem necessidade de outras convenções. Por exemplo, o direito à saúde ou à proibição de discriminação. Para proteger tais valores, existem outros meios mais eficazes e realistas.

Não duvido que, daqui a pouco, alguém irá propor que as férias remuneradas e que o desfrute proporcionado a partir dos benefícios do progresso científico sejam considerados direitos humanos. Sem dúvida, são louváveis objetivos econômicos e sociais. Mas transformá-los em direitos humanos parece piada: o abismo semântico que os separa é igual ao que separava o mundo dos vivos do Hades grego…

Há uma tendência preocupante em se rotular como “direitos” todos os tipos de objetivos políticos. Ao se agir desta forma, corre-se o risco de diluição do conceito de direito humano e de perda de vista de seus fundamentos. Evidentemente, não há nada errado em se dar maior atenção às injustiças sociais e econômicas.

Preocupa-me apenas a idéia de que nada deve ser posto acima de outros direitos, que todas as partes de um todo são igualmente importantes. Há direitos mais relevantes que outros. Não se pode colocar o direito à vida no mesmo plano do direito ao descanso semanal remunerado ou do direito ao lazer.

O direito de um geralmente implica num dever de outro e, cada vez mais, este outro está atendendo pelo nome de Estado. Com relação aos direitos civis e políticos, não interferir é dever do Estado. Essa postura não tem qualquer custo econômico. Logo, não há nenhuma razão para que os cidadãos dos países pobres não possam gozar dos mesmos direitos políticos daqueles que habitam os países ricos.

Quanto aos direitos econômicos e sociais, um governo pode sempre, com ou sem razão, proclamar suas boas intenções e pedir escusas para descumprir suas promessas sob o argumento “não temos dinheiro”, como se assiste hoje no debate relativo à reforma previdenciária nos países europeus ou na reformulação do sistema de saúde público americano, que, apesar das falhas, ainda é melhor que qualquer corredor “terminal” de um posto de saúde do SUS…

Portanto, é razoável supor que uma parcela dos direitos humanos não seja universalmente respeitada. A realidade empírica e o retrospecto histórico nos dão uma dura lição. E se alguns direitos humanos – aqueles propriamente ditos – não são respeitados (basta lembrar do anacronismo político reinante no eixo Cuba – Venezuela – Coréia do Norte – Irã), é mais difícil insistir que “os outros” o sejam, sobretudo se a implementação depende de uma ação estatal.

Mas não é só. Paradoxos acontecem. Um governante comprometido apenas ideologicamente pode tentar lavar as mãos, oferecendo boas condições econômicas e sociais ao seu povo, ao invés de direito ao voto ou à liberdade de expressão. Ou seja, os cidadãos não têm liberdade de opinião, mas tem cuidados de saúde e de educação. E, não raro, a plebe, quanto mais ignorante, mais se deixa levar por esta cantilena que, ontologicamente, acaba por reduzir sua vida a uma mera existência bovina…

Qualificar de “direito humano” qualquer objetivo social ou econômico, por mais nobre que seja, importa em tornar menor o peso específico dos direitos genuinamente humanos: a liberdade de expressão, de religião, a liberdade de associação, o direito à vida, o direito à liberdade, à propriedade e à segurança das pessoas. É preciso concentrar a atenção sobre estes direitos humanos fundamentais e enveredar esforços para que sejam universalmente respeitados.

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* Bispos europeus criticam a lei que protegeria animais mas não os embriões humanos.

domingo, junho 20th, 2010

A Comissão dos Episcopados da Comunidade Européia (COMECE) criticou duramente um projeto da diretiva da União Européia que busca proteger os animais em investigações científicas, mas que deixaria desprotegidos e totalmente disponíveis para experimentar com eles aos embriões humanos.

Em um comunicado dado a conhecer pelo L’Osservatore Romano, os prelados da Europa assinalam que “as experiências realizadas a partir de células embrionárias humanas não devem ser considerados uma alternativa às experiências com animais. Existe o perigo de cancelar a diferença entre animal e ser humano”.

Os bispos, que elogiaram o projeto para defender aos animais, expressam entretanto sua total oposição a que os embriões humanos fiquem desprotegidos e sejam usados para experiências científicas: “para defender aos animais, o texto atual estabelece que, quando for possível, será necessário usar um método ou uma estratégia de experimentação cientificamente satisfatória que não implique o uso de animais vivos. Esta fórmula muito geral permitiria, por exemplo, introduzir experimentos que utilizem células estaminais embrionárias humanas”.

“Como conseqüência –advertem os bispos– alguns estados membros europeus, que não têm uma legislação explícita sobre as células estaminais embrionárias humanas, poderiam ver-se constrangidos, em base a esta legislação, a aplicar métodos que utilizem tais células mesmo se este uso for muito controvertido desde o ponto de vista ético”.

Pelas razões expostas, os bispos da COMECE solicitam à UE “excluir explicitamente métodos alternativos de experimentação nos quais se implique o uso de células embrionárias e fetais humanas, respeitando assim a competência dos estados membros no que diz respeito às próprias decisões éticas”.

Finalmente os prelados pedem um debate honesto e aberto sobre as alternativas científicas “assim como sobre o assunto ético fundamental, que é a de saber se nossa sociedade prefere destruir e instrumentalizar embriões humanos para reduzir o número de experiências científicas com animais”.

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* Grupo nos EUA fabrica 1ª célula sintética. Implicações éticas e morais são profundas.

sexta-feira, maio 21st, 2010

O artigo é de Fernando Reinach, biólogo, e publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-05-2010.

No filme Jurassic Park, cientistas purificam o DNA de dinossauros extintos, preservado no intestino de pernilongos fósseis, e injetam esse DNA em um óvulo de jacaré. Instruído pelo conjunto de genes presentes no genoma do dinossauro, o ovo se desenvolve e o que eclode é dinossauro.

Como toda obra-prima de ficção científica, Jurassic Park leva ao extremo uma ideia que, apesar de teoricamente possível, é de difícil execução. Júlio Verne usou essa fórmula ao descrever uma viagem à Lua e as aventuras em um submarino quase cem anos antes de esses feitos se tornarem realidade. No caso de Jurassic Park, escrito por Michael Crichton em 1990, a ficção se tornou realidade em menos de 20 anos.

Usando como única fonte de informação um arquivo de computador contendo a sequência do DNA de uma bactéria, um grupo de cientistas sintetizou ,utilizando métodos químicos, o genoma dessa bactéria e colocou esse enorme pedaço de DNA no interior de uma célula de outra espécie de bactéria, da qual havia retirado todo o DNA. Instruída pelo conjunto de genes desse genoma sintético, surgiu uma nova bactéria, capaz de viver e se reproduzir.

Fica mais fácil de entender o experimento, feito com duas espécies de bactérias, usando como exemplo duas espécies de mamíferos. Na primeira etapa, partindo da sequência do genoma de um cavalo, contida num arquivo de computador, sintetizamos uma molécula de DNA com essa mesma sequência.

Num segundo passo, o DNA presente no interior de uma célula de baleia é retirado. No terceiro passo, colocamos o DNA sintético de cavalo na célula da baleia. No quarto passo, cuidamos dessa célula híbrida e observamos o aparecimento de um cavalo. Se você ainda não percebeu as implicações éticas e morais do experimento, troque, na sentença acima, a palavra “cavalo” por “ser humano” ou “Getúlio Vargas”.

Para muitos, esse feito tecnológico significa que a vida foi finalmente criada no laboratório. Craig Venter o líder do projeto, não hesitou em usar a palavra “creation” (criação) no título do artigo que descreve o experimento e sugere, no texto, que esse feito abre a possibilidade de que, para preservar um ser vivo, basta guardar a sequência do seu genoma em um arquivo de computador, pois ele poderá ser recriado quando desejarmos. E mais: que, com essa tecnologia, o homem poderá criar novos seres vivos, algo semelhante ao descrito no Gênesis.

Nas próximas semanas, as implicações éticas e teológicas desse feito tecnológico serão debatidas exaustivamente. Minha impressão inicial é que esse experimento demonstra definitivamente que toda a informação necessária para criar um ser vivo pode ser guardada em um arquivo de computador. Por outro lado, demonstra que ainda não somos capazes de transformar essa informação em um ser vivo, pois foi necessário utilizar uma célula desprovida de DNA, derivada de um outro ser vivo, nas etapas finais do experimento.

Não há dúvida de que, nos próximos anos, seres vivos criados para cumprir tarefas específicas estarão entre nós. Eles serão criados por empresas como a Synthetic Genomics, que financiou grande parte desse experimento e detém as patentes desta nova tecnologia.

***

Entendendo melhor a questão:

Folha de São Paulo

Para bom entendedor, meia bactéria basta. Embora Craig Venter tenha anunciado a primeira “Célula Sintética”, na realidade seu grupo não criou um organismo a partir do zero. Ele provou que é capaz de recriar e fazer funcionar um organismo ultrassimples apagando seu software biológico e enxertando outro muito parecido.

Não é pouca coisa. O software, no caso, é o genoma, coleção de genes necessários para a bactéria Mycoplasma mycoides viver e se reproduzir.

Venter conseguiu a façanha com um milhar de genes. Ao todo, cerca de 1 milhão de letras A, T, C ou G, cuja sequência a equipe escreveu num computador e depois sintetizou numa longa fita de DNA.

O estudo representa um salto para a engenharia genética. Até agora, ela se limitava a inserir uma dezena de genes estranhos em organismos, como soja ou de milho, para que adquirissem características desejáveis, como resistência a pragas. Agora se manipulam genomas inteiros.

O homem chegou mais perto, portanto, do cenário inquietante que levou à Conferência de Asilomar, em 1975. Dois anos após a invenção da tecnologia de DNA recombinante, preocupados com danos potenciais da nascente biotecnologia ao ambiente e à saúde, 140 pesquisadores se reuniram na praia californiana para traçar diretrizes de biossegurança.

Venter não foi longe o bastante para suscitar uma nova Asilomar. Embora alguns tipos de Mycoplasma sejam patogênicos (capazes de causar doenças), a recriada teve quatro genes ligados à virulência deletados. Deve ser inofensiva.

Além disso, nada impede incluir também alguns genes suicidas. Eles detonariam a autodestruição da célula assim que ela entrasse em contato com algum elemento do ambiente fora do laboratório.

Melhor dizendo: a complexidade inerente a qualquer organismo pode, sim, impor limites às fantasias biotecnológicas. O próprio Venter relata que a troca espontânea de uma só letra, em meio ao milhão de caracteres enxertados, bastava para desativar todo o genoma.

Há fronteiras objetivas, assim, para aquilo que o homem pode pôr e dispor num genoma. E isso num ser simplório como Mycoplasma, que nem núcleo celular tem (a bactéria é classificada como organismo procarioto). Mesmo no baixo clero dos seres unicelulares há organismos mais complexos, ditos eucariotos, como os parasitas causadores da malária e do mal de Chagas, com núcleos definidos e DNA organizado em vários cromossomos.

Está longe o tempo – se é que algum dia virá – em que a biologia será capaz de sintetizar células cardíacas para remendar corações infartados, por exemplo. O genoma humano é milhares de vezes maior que a bactéria inventada por Venter. Nossos 46 cromossomos são estruturas complexas, cuja estrutura contribui para definir quais genes serão ou não lidos pela célula, e quando.

Apesar da retórica, Venter é honesto a respeito. Quando fala de aplicações, restringe-se a conceitos menos grandiloquentes e mais rentáveis, no médio prazo: bactérias capazes de produzir hidrogênio a partir de água, assim como leveduras produzem álcool a partir de açúcares. Os biocombustíveis brasileiros que se cuidem.

Problema: bactérias também se destacam na produção de toxinas poderosas, como as do antraz e do botulismo. São os cavalos de batalha da guerra biológica. Genomas sintéticos soam como armas de sonho, se o seu custo vier a cair tão rápido quanto o de outras ferramentas biotecnológicas.

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* Clínica nos EUA oferece seleção cosmética abortiva. Olhos azuis são mais importantes que a vida?

segunda-feira, maio 10th, 2010
Na clínica americana, pais podem selecionar cor dos olhos e dos cabelos

Uma clínica dos Estados Unidos iniciou uma polêmica ao oferecer a casais que querem ter filhos a chance de escolher características como cor do cabelo ou dos olhos do bebê.

A clínica Fertility Institutes, de Los Angeles, dirigida por um dos pioneiros dos tratamentos de fertilização artificial na década de 70, Jeff Steinberg, espera para 2010 o nascimento do primeiro bebê com características escolhidas pelos pais.

A clínica de Steinberg também oferece a escolha do sexo dos bebês.

Especialistas britânicos criticam a clínica americana e afirmam que o serviço vai desviar a atenção das pessoas de como a mesma tecnologia pode proteger crianças de doenças herdadas dos pais.

A ciência que envolve as escolhas nos bebês é baseada em uma técnica de laboratório chamada de pré-implantação de diagnóstico genético (PGD, na sigla em inglês).

A técnica envolve a retirada de uma célula de um embrião muito novo, antes que ele seja implantado no ventre da mãe.

Os médicos então selecionam um embrião que seja livre de genes indesejáveis – ou, neste caso, um embrião com os traços físicos desejados como cabelo loiro e olhos azuis – para continuar com a gravidez e descartar outros embriões.

Seleção cosmética

Um casal pode querer um bebê com a pele mais escura para ajudar na prevenção de câncer de pele, se já tiver um filho que tenha desenvolvido o melanoma. Mas outros pais podem simplesmente querer um menino com cabelos loiros.

A clínica de Steinberg oferece a seleção cosmética para pacientes que já passaram por exames genéticos para problemas gerados por cromossomos anormais em seus embriões.

“Nem todos os pacientes serão qualificados para esses exames e não damos garantias de uma ‘previsão perfeita’ de coisas como cor do cabelo ou dos olhos”, afirma o site da cínica.

Steinberg, por sua vez, diz que a capacidade de oferecer este tipo de serviço para casais que querem ter filhos já existe há anos, mas foi ignorada pela comunidade médica.

“É hora de todos tirarem a cabeça da areia”, afirmou o médico. “Eu não diria que é um caminho perigoso. É um caminho desconhecido.”

Dilema moral

Gillian Lockwood, especialista britânica em fertilidade e integrante do comitê ético do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, questiona se é moralmente correto usar a ciência desta forma.

“Se chegarmos ao ponto de decidirmos qual gene ou combinação de genes são responsáveis pelos olhos azuis ou cabelo loiro, o que você vai fazer com todos aqueles outros embriões que são ruivos ou têm olhos verdes?”

A pesquisadora alerta ainda para a possibilidade de “transformar bebês em produtos que as pessoas escolhem em uma prateleira”.

“Este é inevitavelmente um caminho escorregadio do processo de fertilização, que cria muito mais embriões do que os que podem ser implantados”, diz Josephine Quintavalle, fundadora da organização Comment on Reproductive Ethics.

“Escolhas sempre serão necessárias”, acrescenta. “Você escolhe ter oito bebês ou aqueles que têm o nariz mais bonito?”

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* Eugenia de mercado? nova terapia genética e a questão ética do filho produzido em laboratório.

segunda-feira, abril 19th, 2010
Pesquisadores britânicos da Universidade de Newcastle desenvolveram uma técnica sem precedentes que possibilita a criação de embriões humanos contendo DNA de um homem e de duas mulheres. O estudo foi recentemente publicado na revista “Nature”.

O objetivo do estudo foi desenvolver um tratamento preventivo para doenças hereditárias causadas por disfunções mitocondriais.

Em um comunicado, o Centro do Ateneu de Bioética da Universidade Católica de Roma expressou sua discordância em relação a estudos dessa natureza, afirmando se tratarem de “um retorno à seleção de indivíduos humanos”.

“Supostamente em nome da saúde das futuras gerações, embriões humanos são fabricados e destruídos em pesquisas sobre novas terapias genéticas”, declara o comunicado.

Disfunções mitocondriais

As mitocôndrias são as organelas responsáveis pela geração de energia em nível celular.

Cerca de uma em cada 200 crianças nasce com mutações no DNA mitocondrial, mas a maior parte dos casos são assintomáticos. Uma em cada 6.500 crianças, porém, pode desenvolver uma greve doença – que pode ser letal – devido a estas mutações.

Crianças acometidas por disfunção mitocondrial apresentam, nas fases mais graves da doença, sintomas como atrofia muscular, cegueira, insuficiência cardíaca e hepática, dificuldades de aprendizagem e diabetes.

O DNA mitocondrial é independente daquele contido no núcleo da célula, e é transmitido apenas da mãe para a criança.

Até o momento, não se conhece tratamento eficaz para a disfunção mitocondrial congênita, e as mães com histórico familiar da doença devem decidir entre não ter filhos ou correr os riscos de ter uma criança portadora da doença.

Como funciona?

O procedimento consiste em unir um óvulo a um espermatozóide mediante fecundação in vitro. Após um dia de incubação, o DNA nuclear é retirado do embrião e implantado em outro óvulo, cujo núcleo foi previamente removido.

O embrião assim resultante contém o DNA nuclear de um pai e uma mãe, e o DNA mitocondrial da doadora do segundo óvulo. Caso se desenvolva, será uma criança com o patrimônio genético de um pai e duas mães.

Em humanos, o material genético mitocondrial contém cerca de 37 genes; os mais de 23 mil genes restantes conhecidos estão todos no núcleo celular.

Em declarações dadas à revista “Nature”, o coordenador do projeto de pesquisa, professor Doug Turnbull, comparou o procedimento à troca de bateria de um computador. O fornecimento de energia, explicou, permite o funcionamento adequado, sem alterar as informações armazenadas em disco.

De qualquer modo, a troca de material genético mitocondrial envolve necessariamente a destruição de pelo menos um embrião, do qual o DNA mitocondrial sadio é extraído.

Alguns membros do Centro Ateneu de Bioética da Universidade Católica de Roma declararam, em relação ao novo procedimento, que “é perturbadora a miopia ética, seja de quem autoriza, seja de quem pratica tais pesquisas”.

“Sob o pretexto da saúde hoje se pode empreender qualquer ação”, disseram os médicos e pesquisadores do Centro. “A eugenia de mercado se afirma tranquilamente junto à opinião pública”.

A instituição expressou também preocupação com relação aos eufemismos frequentemente utilizados na divulgação de pesquisas dessa natureza. “Nenhuma sutileza teórica nem nenhum linguajar científico sofisticado pode nos impedir de notar de que estamos de fato minando os fundamentos de uma concepção, construída a duras penas, de homem como sujeito, que não pode ser produzido ou fabricado”.

O médico ginecologista colombiano Carlos Alberto Gómez Fajardo, declarou que as técnicas de fecundação in vitro e de transferência embrional para obter embriões livres de doenças inserem-se na mesma dinâmica de morte seletiva de embriões.

“Trata-se de mais um capítulo da imposição de uma dinâmica do ‘Baby to carry home’ (“Bebê à venda”), na qual um filho é visto como um produto da tecnocracia e a da dinâmica de mercado”, acrescentou.

Segundo divulgado pela “Nature”, 80 embriões foram criados e desenvolvidos em laboratório por um período de seis a oito dias, até que atingissem o estágio de blastocisto – que compreende um agregado de cerca de 100 células. Em seguida, os embriões foram destruídos.

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* “Body Worlds”. Exposição “artística” de corpos humanos reais e plastificados, o que pensar?

segunda-feira, abril 19th, 2010
Bispo de Calgary, Canadá, alerta sobre a exposição “Body Worlds”
Existem questões éticas e morais que devem ser consideradas ao expor corpos humanos reais, afirma o bispo de Calgary (Alberta), Dom Frederick Henry. Ele afirma em um artigo, publicado no website da diocese, sobre a exposição de fama internacional Body Worlds, que será aberta ao público na cidade canadense dia 30 de abril.

A exposição apresenta corpos humanos reais que foram submetidos a plastinação, a qual permite aos visitantes ver detalhes da anatomia humana.

Dom Henry recorda em seu artigo as críticas realizadas por alguns de seus irmãos bispos.

Quando a exposição Body Worlds chegou a Cincinnati, o arcebispo Pikarczyk afirmou: “a exibição pública de corpos plastinados, sem identificação, e expostos sem reverência é indigna e inadequada”.

Em Kansas City, o bispo Finn e o arcebispo Naumann se queixaram: “isso representa uma espécie de ‘taxidermia humana’ que degrada as pessoas reais que, por meio de seus corpos, uma vez viveram, amaram, oraram e morreram.

Por sua vez, Dom Henry ilustra algumas das questões morais implicadas na exposição. “A preocupação da Igreja pela dignidade humana é estendida ao corpo mesmo que a alma não esteja mais presente”, expica.

“Os corpos dos mortos merecem respeito e caridade, preservando a dignidade outorgada por Deus à pessoa humana”, conta.

“Outra questão importante é se os corpos foram obtidos de uma forma apropriada”, adverte o bispo de Calgary, e afirma que “há duas questões, de privacidade e transparência, para serem resolvidas”.

O prelado reconhece que “se pode argumentar que isso também legitima o valor educativo do uso de modelos plastinados para ensinar anatomia”.

Mas, acrescenta, quando os corpos estão expostos “brincando ou colocados em movimentos atléticos ou macabros, cruzamos a linha da educação para entrar no mundo do entretenimento, arte e amostras comerciais questionáveis”.

Nesse contexto, o bispo pergunta: “quem ganha com esse tipo de produção?”

E conclui, repetindo que a moral e a ética deveriam ser consideradas pelos possíveis visitantes da exposição Body Worlds.

Se as crianças devem ou não visitar essa exposição é uma decisão dos pais, afirma. É apropriada para elas? Provavelmente não. Deveria estar relacionada com um tipo particular de curso ou estudo? Provavelmente, e esperamos que não só anatomia e economia”.

Zenit

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* Sorteio de óvulo humano gera polêmica na Grã-Bretanha.

segunda-feira, março 15th, 2010
Fertilização in vitro (Science Photo Library)
Uma clínica de fertilização londrina gerou polêmica no país ao anunciar que fará o sorteio de um óvulo humano para ser implantado e fertilizado em uma clínica nos Estados Unidos.

A ganhadora será escolhida entre as participantes de um seminário para mulheres que desejam se submeter à fertilização artificial, marcado para quarta-feira, cujo objetivo é divulgar a recente parceria da clínica Bridge Center, em Londres, com a clínica americana Genetics and IVF Institute (GIVF), na Virgínia.

A ganhadora do sorteio poderá escolher quem será sua doadora, a partir de um banco de dados com informações como origem racial, histórico médico, formação escolar e aspectos físicos.

O sorteio foi criticado por grupos de estudo da reprodução assistida, como a organização Comentário sobre Ética Reprodutiva (Core, na sigla em inglês), por comercializar material humano, o que é proibido pela lei britânica.

“A capacidade da indústria de fertilização in vitro de mercantilizar a vida humana atinge um novo patamar com essa iniciativa deplorável”, disse Josephine Quintavalle, diretora do instituto.

“Imagine se um dia uma criança descobrir que ele ou ela veio a existir graças a uma descarada iniciativa comercial”, completou.

Parceria internacional

Por meio dessa parceria com o centro americano, a Bridge Centre pretende contornar as rígidas regras britânicas para a reprodução assistida, enviando britânicas para receberem os óvulos nos Estados Unidos.

Na Grã-Bretanha, a remuneração por doação de óvulos é proibida. O máximo que a doadora consegue é uma ajuda de custos de 250 libras, ou R$ 670. Por isso, a oferta de óvulos no país é muito restrita.

A GIVF, porém, conta com doadoras de 19 a 32 anos que chegam a receber US$ 10 mil, ou R$ 17,6 mil, por doação. Dessa forma, há muito mais óvulos disponíveis para doação nos Estados Unidos do que na Grã-Bretanha.

Um dos problemas dessa doação de óvulos é que, para doá-los, as mulheres precisam passar por um tratamento pesado, com uso de medicamentos, para ampliar a produção de óvulos por ciclo menstrual.

Diante desse quadro, a Core demonstrou preocupação com essas mulheres que doam seus óvulos por dinheiro.

“Nós temos, no entanto, uma grande preocupação com o bem-estar dessas mulheres, pois a coleta de óvulos não é de maneira alguma um processo livre de riscos e muitas daquelas envolvidas no mercado mundial de óvulos sofreram significativamente como resultado. As consequências mais sérias incluem morte, perda parcial ou total da fertilidade, várias outras complicações médicas e problemas psicológicos também”, explicou Quintavalle.

“A clínica de fertilização in vitro envolvida nessa iniciativa está alimentando a vulnerabilidade colossal de mulheres ricas e inférteis ao custo do bem-estar de jovens mulheres pobres e igualmente vulneráveis”, acrescentou.

Segundo a Core, a venda de tecidos humanos, como óvulos, é proibido em toda a Europa. Portanto, nenhuma clínica britânica deveria colaborar com esse tipo de medida.

BBC Brasil

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* A Igreja não quer impor aos não crentes suas perspectivas, mas iluminar e despertar as consciências com a verdade.

domingo, março 7th, 2010

Resista a tentação de desanimar na leitura destre magnífico texto.

Imprima e leia com calma essa reflexão e veja que beleza de exposição.

Muito interessante.

Caso não entenda da primeira vez, leia uma outra vez, vale a pena.

****

Comunicar as próprias convicções – Ensaio de Ángel Rodríguez Luño

Num encontro para comunicadores que a Conferência Episcopal Italiana promoveu em Novembro de 2002, João Paulo II mencionava o fato de que “as rápidas transformações tecnológicas estão a determinar, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos, para a formação dos estilos de vida e das mentalidades.

A comunicação gera cultura e a cultura transmite-se mediante a comunicação”. Esse nexo entre comunicação e cultura é uma das principais razões pelas quais o mundo da comunicação suscita grande atração entre aqueles que se interessam pela ética.

”As rápidas transformações tecnológicas estão a determinar, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos e para a formação dos estilos de vida e das mentalidades” (1).

A adequada maturidade moral pessoal não é independente da comunicação e da cultura, que se expressa nos fins e estilos de vida socialmente aceites, nas leis, na celebração dos acontecimentos e personagens do passado que melhor correspondem à identidade moral de uma sociedade.

A cultura possui algumas leis próprias, pelo que as ideias – e os sentimentos que fomentam – têm uma consistência e um desenvolvimento bastante autónomo. É como se as ideias, quando passam ao plano da cultura e da comunicação, se separassem das inteligências que as produziram e começassem a ter uma vida própria, desenvolvendo-se com uma força que depende somente de si mesma. Uma força que depende da sua consistência objectiva e do seu dinamismo intrínseco, talvez diferente da intenção que tinham as pessoas que as puseram em circulação.

Por isso, todos os que desejam influenciar a vida social com o espírito do Evangelho devem estar atentos à íntima relação entre comunicação e cultura; se se deseja intervir positivamente na criação e transmissão de modos de vida e de visões do homem, é preciso atender à consistência e ao previsível desenvolvimento das ideias, mais do que à pretensa intenção das pessoas. Uma atitude polémica, uma resposta brilhante ou feroz podem fazer calar um adversário, mas se não se entende o que se expôs, nem se apreciou a consistência das suas ideias e as possíveis linhas de desenvolvimento que estas tinham, provavelmente não se colaborou no crescimento cultural nem mesmo se ofereceu uma alternativa cultural adequada; e assim, as ideias que foram rejeitadas, reduzindo ao silêncio quem as promoveu, continuarão a ter uma vida longa. Somente se se consegue fazer uma proposta que conserve e supere o que de bom e de verdadeiro havia nas ideias que se considera justo combater, é que se dará um influxo cultural real.

Verdade e liberdade

Em mais de uma ocasião, João Paulo II destacou que o conflito entre verdade e liberdade está presente em boa parte dos problemas que afectam a cultura do nosso tempo (2). A esse mesmo assunto se referiu Bento XVI com o conceito de relativismo (3). Diante das posições relativistas, tem-se a tentação de responder mostrando a sua contradição interna: quem considera que toda a verdade é relativa faz, na realidade, uma afirmação absoluta e, por isso, contradiz-se a si mesmo. Trata-se de uma crítica verdadeira, mas culturalmente pouco eficaz, porque não procura entender os pontos de apoio que sustentam os fundamentos relativistas, nem parece compreender a questão que tentam solucionar.

A partir de uma perspectiva ético-social, as posições relativistas têm o seu ponto de partida baseado no facto de que na sociedade atual existe uma pluralidade de projetos de vida e de concepções do bem, que parece propor uma disjuntiva: ou se renuncia à ideia de julgar os diferentes projectos de vida, ou há que abandonar o ideal ou o modus vivendi caracterizado pela tolerância.

Por outras palavras, um modo de vida tolerante requereria admitir que qualquer concepção de vida tem o mesmo valor ou, pelo menos, tem o mesmo direito de existir como qualquer das outras; se isto não se admite, cai-se num fundamentalismo ético e social.

O raciocínio é bastante enganador, mas apresenta-se com aparência de verdade por causa de um fato inegável, que constitui o seu ponto de apoio: ao longo da história e, inclusive, na atualidade, não faltou quem oprimisse violentamente a liberdade das pessoas e dos povos em nome da verdade. Por isso, para que a mensagem evangélica seja retamente entendida, torna-se necessário evitar qualquer palavra, raciocínio ou atitude que possa fazer pensar que um cristão coerente sacrifica a liberdade em nome da verdade. Se fosse dada esta impressão, ainda que involuntariamente, contribuir-se-ia para consolidar o pressuposto fundamental do relativismo: a ideia de que o amor à verdade e o amor à liberdade são incompatíveis, pelo menos na prática.

A comunicação de convicções cristãs e de conteúdos éticos necessita que seja demonstrada com obras, e não somente com palavras, que entre verdade e liberdade existe uma verdadeira harmonia; isto requer, por um lado, estar profundamente convencido do valor e do significado da liberdade pessoal. Mas, por outro, obriga a distinguir cuidadosamente o terreno ético do terreno político e jurídico. Em primeiro lugar, toda a chamada da autoridade se dirige à liberdade; em segundo lugar, o recurso à coação pode ser legítimo.

Ética e política

Nas questões éticas, a consciência abre-se à verdade, que tem um evidente poder normativo sobre as próprias decisões; está em jogo a relação da consciência pessoal com a concepção que se tem do bem humano, às vezes relacionado com princípios religiosos; por sua vez, o âmbito jurídico e político refere-se às relações entre pessoas ou entre pessoas e instituições, que – enquanto reguladas pelas leis – estão submetidas ao poder coactivo que o Estado e os seus representantes podem usar legitimamente.

Estes dois âmbitos – ético e político – estão muito relacionados, e muitas vezes têm um desenvolvimento paralelo. O homicídio intencional, por exemplo, tem ao mesmo tempo uma grave culpa moral e um crime que o Estado tem o dever de perseguir e punir. Mas ainda neste caso, os dois âmbitos apresentam diferenças significativas. Basta pensar, por exemplo, no perdão. Uma coisa é o perdão da culpa moral e outra, bem diferente, o perdão do crime: é desejável que os parentes da vítima de um homicídio perdoem cristãmente ao culpado, mas não seria admissível que o Estado seguisse sistematicamente uma política de impunidade do homicídio intencional. Afirmar o contrário seria um abuso ideológico ou uma grave ofensa contra o bem comum.

Neste tipo de diferença torna-se necessário distinguir o plano ético do plano político no que se refere aos princípios morais do Evangelho. Para evitar más interpretações, há que oferecer um fundamento ético às mensagens de tipo moral, explicitando que tal verdade não pretende impor-se mediante o uso do poder político de coação; isto é compatível com a existência, noutro tipo de verdades éticas, de uma dimensão ético-política ou ético-jurídica. Nestes casos, deverá ser oferecida, além disso, uma justificação política ou jurídica, ou seja, deverá ser demonstrado não somente que o comportamento em questão é moralmente equivocado, mas também que existem razões específicas pelas quais o Estado a tem que proibir e punir. Razões que não são idênticas às razões éticas, porque não é missão do Estado perseguir a culpa moral, mas promover e tutelar o bem comum, prevenindo e punindo aquelas condutas que o lesionam (que prejudicam a segurança pública, a liberdade e os direitos dos outros, as instituições de interesse social como a família, etc.).

Ética e Estado

Certamente, o Estado promulga, algumas vezes, leis injustas. Nesses casos, o cidadão de reta consciência deveria poder criticá-las com liberdade.

O Concílio Vaticano II afirmou com clareza o direito e o dever da Igreja de “dar o seu juízo moral, inclusive sobre matérias referentes à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas” (4).

Nestes casos, é importante saber dar à legislação equivocada uma resposta culturalmente eficaz. Não é uma tarefa fácil, porque é preciso ir além das contra-posições polémicas, sabendo assumir a parte de verdade da posição contrária. Quando em consciência se deve criticar uma atuação do Estado, requer-se a explicitação de uma fina sensibilidade pelos valores das instituições democráticas, sensibilidade que não se deveria deixar indefinida pelo fato, certamente muito doloroso, de que, numa determinada ação, uma instituição concreta se tenha comportado de modo injusto.

A firmeza nos princípios éticos deve ser – e parecer – compatível com a consciência de que a realização de bens pessoais e sociais num contexto histórico, geográfico e cultural determinado, se caracteriza por uma contingência parcialmente insuperável.

Em questões práticas, é frequente que não exista uma única solução possível. Inclusive nas decisões da Igreja relativas a coisas não necessárias, devem ser contingentes, precisamente porque se referem a uma realidade que depende muito das circunstâncias, que mudam com o passar do tempo; por isso, é necessário aprender a reconhecer que, nesse tipo de decisões, somente os princípios irrenunciáveis expressam o aspecto duradouro (5). Ninguém pode pretender, em questões temporais, impor dogmas, que não existem (6.). Com isto não se quer dizer que tudo neste mundo é contingente, acidental ou opinável; trata-se antes de perceber com clareza que nos assuntos humanos, também os outros podem ter razão: vêem a mesma questão que tu, mas dum ponto de vista diferente, com outra luz, com outra sombra, com outros contornos. – Somente na fé e na moral é que há um critério indiscutível: o da nossa Mãe a Igreja (7).

A autonomia das realidades temporais

No entanto, poderia ocorrer que a doutrina cristã sobre uma determinada matéria ético-social coincida com a que sustentam todos ou uma boa parte dos cidadãos que legitimamente militam num determinado partido político. Nestes casos, poderia originar-se – involuntariamente – uma situação delicada, porque poderia parecer que os cristãos ou inclusive a Igreja, ao proporem os seus ensinamentos, estão a apoiar uma determinada área política e não a apresentar unicamente a mensagem do Evangelho.

Esta confusão poderia motivar acusações de intromissão ou de falta de respeito para com o Estado; acusações que talvez sejam um simples pretexto político, ou inclusive mal intencionadas; mas o que se deve ter em conta quando se procura informar a cultura com o espírito do Evangelho, é esclarecer serenamente aquela aparência de verdade que podem conter estas condenações. Dois tipos de considerações são oportunas.

A primeira é que todos os cidadãos – também os que formam parte de um órgão legislativo ou de um partido político – têm o direito e o dever de apoiar as soluções que em consciência consideram úteis para o bem do próprio país, alegando – se for possível – as razões que justificam a sua convicção.

Cada um é livre para consultar livros especializados que considera fiáveis, ou de falar com quem entender; se um cidadão se pode inspirar em determinada teoria política ou económica, também pode apoiar-se na Doutrina Social da Igreja. As soluções políticas são medidas pelo seu valor intrínseco e pelas razões que as justificam. Questionar as fontes utilizadas por cada cidadão para formar as suas convicções seria uma falta de respeito à autonomia da consciência dos outros. É fácil ver que a radicalização de tal atitude levaria a conclusões absurdas: por exemplo, afirmar que o Estado, para reforçar o seu estado laical, deveria favorecer o que a Igreja condena, como a escravidão.

A segunda consideração oportuna é a necessidade de se ter uma ideia clara acerca da distinção existente entre a missão do Estado e a da Igreja. A este propósito, Bento XVI deu indicações muito úteis. A distinção entre o que é de César e o que é de Deus, com a consequente autonomia das realidades temporais, pertence à estrutura essencial do cristianismo (8). É tarefa do Estado interrogar-se sobre o modo de realizar a justiça concretamente aqui e agora; neste campo, a Doutrina Social da Igreja apresenta-se como uma ajuda, que “não pretende outorgar à Igreja um poder sobre o Estado. Tampouco quer impor aos que não compartilham da fé as suas próprias perspectivas e modos de comportamento” (9).

Tal doutrina argumenta com base na razão e no direito natural e reconhece que a construção de um justo ordenamento da vida social é uma tarefa política, que “não pode ser uma obrigação imediata da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a Igreja tem o dever de oferecer, mediante a purificação da razão e da formação ética, a sua contribuição específica, para que as exigências da justiça sejam compreensíveis e politicamente realizáveis.

A Igreja não pode, nem deve, empreender por conta própria a iniciativa política de fazer a sociedade o mais justa possível. Não pode, nem deve, substituir-se ao Estado. Mas também não pode, nem deve, ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela através da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre exige também renúncias, não pode afirmar-se nem prosperar” (10).

A realização da justiça é um ponto em que a fé e a política se aproximam. Por isso requer-se uma atenção cuidadosa para que ninguém, com boa vontade, possa pensar que a fé cristã se identifica com uma das partes políticas existentes na sociedade. Certamente, a fé cristã tem algo a dizer às diversas culturas políticas dos homens e dos povos; mas a fé pressupõe a liberdade e oferece-se à liberdade, que por ela se deve amar com as palavras e com as obras.

1 – João Paulo II, Discurso ao Congresso nacional italiano de agentes da cultura e da comunicação, 9-11-2002, n. 2.

2 – Cf. por exemplo: Litt. enc. Redemptor hominis, 4-03-1979, n. 12; Litt. enc. Centesimus annus, 1-05-1991, nn. 4, 17 y 46; Litt. enc. Veritatis splendor, 6-08-1993, nn. 34, 84, 87 y 88; Litt. enc. Fides et ratio, 14-09-1998, n. 90.

3 – Cf. por exemplo: Discurso ao Convênio diocesano promovido pela diocese de Roma sobre o tema “Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé”, 7-6-2005; Discurso ao Corpo Diplomático acreditado diante da Santa Sé, 8-01-2007; Discurso a uma Delegação da “Académie des Sciences Morales et Politiques” de Paris, 10-02-2007; Discurso inaugural da V Conferência do Episcopado Latinoamericano, 13-5-2007.

4 – Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 76.

5 – Cf. Bento XVI, Discurso aos Cardeais, Arcebispos, Bispos e Prelados superiores da Cúria Romana, 22-12-2005.

6 – Temas Actuais do Cristianismo, n. 77.

7 – Sulco, n. 275.

8 – Cf Bento XVI, Litt. enc. Deus caritas est, 25-12-2005, n. 28.

9 – Ibid.

10 – Ibid.

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* Congregação para a Doutrina da Fé apresenta documento sobre questões de bioética.

domingo, janeiro 24th, 2010

Com o objetivo de atualizar a Donum vitae (1987), a Congregação Pontifícia para a Doutrina da Fé apresentou a instrução Dignitas personae sobre algumas questões de bioética.

Com 33 páginas e publicada em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, português e polonês, a instrução é fruto de um estudo que teve início em 2002 pela Congregação para a Doutrina da Fé.“

O documento, aprovado pelo papa, faz parte do Magistério ordinário do sucessor de Pedro e é de natureza doutrinal”, explica o secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Luis Francisco Ladaria.

“A instrução motiva a investigação biomédica que respeita a dignidade de todos os seres humanos e da procriação. Ao mesmo tempo, exclui como eticamente ilícitas diversas tecnologias biomédicas”, acrescenta.

Já o presidente da Pontifícia Academia para a vida, dom Rino Fisichella, disse que o documento expressa a “própria contribuição autorizada na formação da consciência não somente dos que crêem, mas dos que tratam de escutar as argumentações que se apresentam e debatê-las”.

A professora associada de Bioética da Universidade Católica do Sagrado Coração, Maria Luisa Di Pietro, disse que antes de examinar as questões que o documento apresenta como as técnicas de ajuda à fertilidade, a fecundação in vitro, o congelamento de embriões, “é necessário recordar os três bens fundamentais sobre o que rege cada uma dessas decisões: o reconhecimento da dignidade da pessoa humana desde a concepção até a morte natural; a unidade do matrimônio; os valores especificamente humanos da sexualidade”.

Já o presidente emérito da Pontifícia Academia para a Vida, dom Elio Sgreccia, acrescentou que o documento apresenta as novas propostas terapêuticas que compreendem a manipulação do embrião ou do patrimônio genético humano.

CNBB

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