* A Igreja é santa? “Quando algo está ferido é difícil entender que outras partes do corpo estão sãs”
sábado, março 13th, 2010Entrevista com o teólogo Miguel De Salis
O tema da santidade da Igreja está contido no volume Concidadãos dos santos e familiares de Deus. Estudo histórico-teológico sobre a santidade da Igreja, escrito pelo sacerdote português Miguel de Salis, professor da Faculdade de Teologia da Pontíficia Universidade Santa Cruz.
–No Prefácio do cardeal José Saraiva Martins, prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos, em seu livro, fala da santidade como “dom de Deus” e “resposta do homem a Deus”. Falta esse dom na Igreja do século XXI?
–Miguel De Salis: Creio que não. Não faltam nem o dom nem a resposta. Basta pensar no rastro deixado por pessoas como Madre Teresa, Padre Pio, Maximiliano Kolbe, Piergiorgio Frassati, João Paulo II e tantos outros, por mencionar alguns dos personagens importantes que marcaram a história recente.
–É possível ver a santidade através de alguma notícia publicada recentemente?
–Miguel De Salis: É possível, mas às vezes é difícil de encontrá-la. Algumas notícias mostram feridas, e quando algo está ferido é difícil entender que outras partes do corpo estão sãs.
Entretanto, sabemos que todos os cristãos aqui na terra devem se converterem a cada dia, e é necessária uma purificação para poder ver a santidade. O Concílio Vaticano II recordava na Lumen Gentium (8) que “a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação”.
–Mas isso justifica o pecado?
–Miguel de Salis: De forma alguma. Todo pecado é uma ação contra Deus e contra sua Igreja. Com certeza, ainda que houvesse somente um caso comprovado de abuso, se trataria de um ato gravíssimo em total contraste com o Evangelho, uma violência tremenda contra um filho de Deus. Não há que ter medo da verdade. Nossa fé é fundamentada por Cristo, não nos homens nem no fato de ter uma vida em que o pecado dos demais não se faz sentir tanto.
–Então, como compreender algumas das acusações dirigidas aos pastores da Igreja que não intervieram a tempo sobre alguns abusos?
–Miguel de Salis: O Catecismo da Igreja (827) recorda que “todos os membros da Igreja, incluindo seus ministros, devem se reconhecer pecadores. Em todos, até o final dos tempos, o joio do pecado se encontra misturado com o bom trigo do Evangelho.
A Igreja reúne portanto os pecadores alcançados pela salvação de Cristo, mas sempre em caminho de santificação”. É possível, como tem demonstrado a história, que aqueles que formam a Igreja atuem de forma contrária ao Evangelho, mas há muitos pastores (a Igreja tem mais de 5 mil bispos) que servem aos fiéis com uma dedicação e generosidade únicas. Basta pensar nos bispos presos na China, Vietnã e outros lugares do mundo. Ao invés de fazer a soma de tudo isso, deixe que Deus faça. Creio que isso nos convida a não desanimar.
Diante da experiência contrastante da santidade e do pecado na Igreja, é oportuno revisar experiências parecidas já vividas na história da Igreja e compreendê-las antes de inventar uma nova resposta. Isso supõe olhar ao nosso redor. Você percebe, quase com surpresa, que Deus segue habitando em nosso meio apesar de tudo. E isso tem duas consequências fundamentais.
Em primeiro lugar, nossa esperança não é ingênua nem inconsciente, mas está enraizada na certeza da ajuda de Deus.
A segunda consequência é a responsabilidade de todos os fiéis na Igreja, fundada pelo chamado de Deus, a colaborar na missão. Em outras palavras, diante do pecado do outro é necessário responder com santidade e não com outro pecado. E ninguém disse que a resposta santa deve ser sempre passiva. Há espaço para a criatividade humana: os santos eram criativos.
–A Igreja é verdadeiramente santa?
–Miguel de Salis: Tradicionalmente se explica a santidade da Igreja distinguindo dois aspectos. O primeiro é que é objetivamente santo nela: os sacramentos, a Palavra de Deus, a presença de Cristo e do Espírito Santo, a lei moral e todos os demais dons que Deus lhe deu para que realize a missão confiada.
O segundo inclui os frutos da santidade causada pelos dons divinos oferecidos, quer dizer, os santos e a habitual vida na graça de Deus, vivida aqui na terra. Mas essa forma de participar na santidade da Igreja não consegue explicar bem a influência do pecado na Igreja e, portanto, em sua santidade vivida.
–Então, como o senhor explica esses dois elementos nos tempos atuais?
–Miguel de Salis: Sempre haverá um pouco de desordem na vida da Igreja e sempre haverá desafios que esperam uma resposta criativa que requer trabalho e tempo.
A vida cristã é assim na terra: existe sempre a Cruz e esta é a porta de entrada ao Céu e à terra novos.
Coloco um exemplo: o venerável Newman dizia, depois de estudar a história da Igreja antiga, que atrás de cada Concílio havia sempre uma grande confusão. Ainda existem confusões hoje, e talvez mais amplas através da mídia.
–Parece adequado o comportamento dos sacerdotes em países diversos?
–Miguel de Salis: Olhe o número de sacerdotes que em todo o mundo serve aos fiéis, são cerca de 400 mil. Celebram a missa, fazem catequese, cuidam dos enfermos, ajudam as famílias… O bem não faz ruído nem aparece nos jornais, mas o mal sim.
Basta olhar o número de sacerdotes mortos nesses últimos anos por seu compromisso com as pessoas mais pobres, ou o número de sacerdotes que sofrem perseguição por causa da fé e da defesa dos direitos humanos.
Todavia, é necessário entender que frequentemente as notícias são apresentadas de tal maneira que nos chamam a atenção. E em tempos onde a secularização é tão forte, como agora, a proporção de comportamentos equivocados entre os sacerdotes está nos mesmos níveis, ou menores, que a proporção entre os cidadãos que compõem as sociedades ocidentais.
Isso não exclui que tenham existido casos graves que podem não ter sido tratados adequadamente, e por isso a hierarquia tomou nota e tentou resolver os problemas, pedindo o perdão se necessário.
-Mas não parece que há detrás um comportamento contraditório?
–Miguel de Salis: Claro. Quando experimentamos o contraste em que um cristão faz e o que pretende fazer, encontramos a contradição. Nestes casos é tão contraditório quanto um membro fiel laico como um membro da hierarquia ou um religioso.
O dom da liberdade humana pode se dirigir a fazer o bem ou o mal, também enquanto formarmos parte da Igreja, sejamos ou não sacerdotes. Isso não deve assustar, se se tem fé em Deus e não no comportamento dos homens de Deus. Ao mesmo tempo, não devemos renunciar ou se acostumar contra o incentivo ao pecado, porque Deus pediu para nós transmitirmos com nossa vida o amor que ele tem por nós. Seguindo a atitude de Cristo, estamos chamados a responder com a santidade e a conversão na qual Deus nos ajuda com sua graça.
Zenit





















O arcebispo Claudio María Celli, presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, apresentou no Brasil o primeiro diretório global em linha dos meios de comunicação católicos, 
Da Folha de São Paulo
