Posts Tagged ‘Moral’

* O padrão moral do ocidente foi moldado pela Igreja Católica.

segunda-feira, junho 17th, 2013

Josenildo Melo

O intuito de escrever sobre a Igreja Católica e sua História não é de menosprezar as outras religiões e muito menos tornar a Igreja em palavras e na História superior a outras religiões, ideologias e pensamentos; o que nos faz escrever é a necessidade de que todos nós, cristãos católicos e não católicos devemos conhecer verdadeiramente a nossa História! 

O Padrão moral do ocidente foi moldado pela Igreja, baseado na sacralidade e na dignidade da vida humana, por considerá-la “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26). A Igreja sempre insistiu no valor único e irrepetível de cada pessoa, em virtude de sua alma imortal. O pobre, o fraco ou doente eram tratados com desprezo pelos não cristãos e muitas vezes abandonados. Isto é que fez a caridade católica tão importante e algo novo no mundo.

A Igreja Católica pregou contra e aboliu a prática do infanticídio que era considerada moralmente aceita pelos antigos gregos e romanos. Platão disse, por exemplo, que um velho pobre e doente que não pudesse trabalhar, poderia ser abandonado a morrer.
Le Goff afirma que Sêneca escreveu “Nós afogamos as crianças que nascem doentes e anormais”. Segundo Vicente Currol (2002), meninos deformados, e mesmo meninas saudáveis, mais inconscientes nas sociedades patriarcais, eram abandonados; em consequência disso a população masculina ultrapassava em até 30% a população no antigo mundo romano.

Jerome Carcopio, em sua obra “Daily Life in Ancient Rome” (A Vida Diária na Roma Antiga), disse que: “os açougueiros da arena foram parados ao comando dos imperadores cristãos”.
Os historiadores consideram que esta grande reforma na moral da humanidade, foi devido quase que exclusivamente à Igreja Católica. Outro ponto importante onde a moral católica moldou o Ocidente foi na questão da guerra justa. Nem em Platão ou Aristóteles encontramos algo que possa se comparar com a famosa questão “Sobre a Guerra” na suma Teológica de S. Tomás de Aquino.

Os filósofos antigos trataram da questão da guerra, mas não criaram uma teoria da “guerra justa” ( ou da auto defesa) como fez a Igreja. O primeiro a tratar da questão da guerra justa foi Santo Agostinho no século IV; para ele a guerra seria justa somente para enfrentar uma agressão. São Tomás de Aquino colocava três condições para uma guerra justa: primeiro, a autoridade que autoriza uma guerra; não pode ser declarada por uma pessoa qualquer; segundo, uma causa justa é necessária; quando houver uma agressão injusta; e terceiro, é necessário que haja uma reta intenção, o desejo do avanço do bem e do afastamento do mal. (IIa, IIIae, q.40, art. 1).

Foi a Igreja também quem ajudou a abolir as lutas dos gladiadores até a morte, como entretenimento das pessoas; o que era contra a dignidade humana e o valor de cada pessoa. O Cristianismo santificou o corpo, o fez bendito, morada da alma e do Espírito Santo. Cristo colocou o ser humano acima de qualquer condição ou qualidade para integrar a irmandade universal.

O ser humano é o maior dom de Deus e a Família algo sagrado. A Igreja respeita a individualidade humana, mas preserva, sobretudo a Família. No mundo contemporâneo muitos exacerbam-se em pregar anti-valores; devemos respeitar o direito de escolha de cada pessoa humana mas A FAMÍLIA tem a proteção de Deus, do Estado e da Igreja. A tolerância é sinônimo de civilidade e verdadeira compreensão do respeito às ideologias, mas não existe nada mais sagrado do que A FAMÍLIA.


BIBLIOGRAFIA: AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. Uma História que não é Contada. Editora Cléofas, 2010. Professor Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP.


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* Igreja nega suposta “aprovação” da “pílula do dia seguinte” divulgada pela Mídia.

sexta-feira, fevereiro 22nd, 2013

ACI


A Pontifícia Academia para a Vida (PAV) no Vaticano precisou que é “falsa e enganosa” a informação que circula há alguns dias sobre a suposta aprovação por parte deste dicastério ou do Cardeal alemão Joachim Meisner da pílula do dia seguinte –que tem um potencial efeito abortivo– para que seja usado em hospitais católicos da Alemanha em casos de estupro.


O dicastério divulgou esta informação em um correio eletrônico enviado ao grupo ACI no último 19 de fevereiro, escrito sob as indicações do presidente da PAV, Dom Ignacio Carrasco da Paula.

No texto que leva a assinatura do Dr. Gaetano Torlone, membro da PAV, destaca-se que “o Cardeal (Joachim Meisner, Arcebispo de Colônia) em sua declaração afirma simplesmente que na assistência às mulheres que sofreram um estupro o processo é complexo e vai mais além do aspecto farmacológico”.

Nestes casos, precisa o correio eletrônico de Torlone, “é lícito (nesses casos de violência e estrupo) usar fármacos anticoncepcionais, mas não é nunca lícito usar fármacos abortivos porque nunca é lícito assassinar a um ser humano”.

O texto assinala que, em sua declaração, “O Cardeal fala de fármaco, de qualquer fármaco que impeça a concepção e não da pílula do dia seguinte”.

O Dr. Torlone explicou ainda que “naturalmente a vida humana começa com a concepção (ou fecundação). Isto significa que qualquer ação voluntária que produza a expulsão do nascituro, antes que tenha alcançado a capacidade de sobreviver fora do ventre materno, representa um aborto pois produz a morte do nascituro”.

“Então –precisa Torlone– impedir voluntariamente a nidação do embrião é uma ação abortiva, um pecado muito grave”.

O membro da PAV disse ademais que “não conhecemos as declarações do Cardeal Meisner aos meios locais que, em qualquer caso, não têm particular relevância para a Pontifícia Academia para a Vida. Conhecemo cardeal, sua fé, sua fidelidade à Igreja, sua abnegação, seu serviço à diocese que lhe foi confiada pelo Senhor”.

As mensagens da PAV foram enviadas ao grupo ACI logo depois de uma nota de esclarecimento explicando detalhadamente que nem o Papa Bento XVI nem seu secretário, Dom Georg Ganswein deram sua aprovação para o uso da pílula do dia seguinte nos hospitais católicos da Alemanha em casos de estupro, como afirmava erroneamente uma nota da agência EFE difundida por diversos meios.

A pílula do dia seguinte tem três mecanismos: impede a ovulação (anovulatório), espessa a mucosidade cervical (anticoncepcional) e impede a nidação do óvulo já fecundado (o que a torna um potencial abortivo).

Estes mecanismos são informados pela Food and Drug Administration (FDA), o organismo governamental que garante a salubridade dos mantimentos e dos remédios nos Estados Unidos.

***

O fato.

A Igreja Católica alemã anunciou que aceitará o uso de certos tipos de “pílula do dia seguinte” para mulheres estupradas.

A Conferência Episcopal Alemã disse que hospitais mantidos pela Igreja agora vão assegurar o tratamento médico, psicológico e emocional adequado para vítimas do estupro e que isso inclui o uso de medicamentos que evitam a gravidez sem provocar um aborto.

“Isso pode incluir medicação com (certas)  ’pílulas do dia seguinte’, desde que isso tenha um efeito profilático, e não abortivo”, disse ele em nota. “Métodos médicos e farmacêuticos que induzem à morte de um embrião continuam sem poder ser usados.”

Isso significa que não haverá alteração na proibição da Igreja Católica à chamada pílula abortiva, com base no medicamento mifepristone ou RU-486, comercializada sob os nomes Mifegyne ou Mifeprex.

A Igreja continua sendo veementemente contra o aborto e o controle artificial da natalidade.

Por outro lado..

Dois renomados peritos questionaram a existência de qualquer tipo de pílula do dia seguinte que careça de um mecanismo abortivo antiimplantatorio, como afirmou recentemente uma declaração da Conferência Episcopal Alemã que autorizou o uso destes fármacos em casos de estupro.

Os bispos concordaram em permitir o uso da “pílula do dia seguinte” nos hospitais católicos em casos de estupro, “partindo da premissa de que seus princípios não sejam abortivos, mas anticoncepcionais”.

“Métodos médicos ou farmacêuticos que levem à morte do embrião continuam proibidos”, acrescenta a declaração dos bispos alemães publicada em site em 22 de fevereiro.

A respeito deste texto a Dra. Vierling questionou que exista uma nova fórmula da pílula que seja apenas anticoncepcional.

“Esse fármaco tem ao menos quatro efeitos e não há pílula no mundo que possa dissociar-se destas quatro fases”, explicou. Estas incluem, disse, a “acidificação da vagina, que destrói o esperma”, a prevenção da ovulação, um efeito abortivo ao impedir a passagem do embrião ao útero e o efeito que impede que o óvulo fecundado seja implantado.

“Mas à luz da informação que os bispos alemães deram, eles querem remarcar que sempre é melhor evitar a concepção de um novo ser humano que abortá-lo”, indicou.

Sobre este tema, o doutor Justo Aznar, membro da Pontifícia Academia para a vida (PAV) e Diretor do Estudo de Ciências da Vida da Universidade Católica de Valência (Espanha), declarou ao grupo ACI estar surpreso com a declaração dos bispos alemães e assinalou um “desconhecimento técnico”.

Aznar precisou que a pílula do dia seguinte comercializada atualmente “na metade dos casos atua com um mecanismo anticoncepcional e na outra metade com um mecanismo antiimplantatorio”. O perito, assim como a Dra. Vierling, nega a existência de um fármaco com efeitos exclusivamente anticoncepcionais distribuído sob o nome de “pílula do dia seguinte”.

Ainda mais..

Após a aprovação por parte dos bispos alemães do uso da pílula do dia seguinte em hospitais católicos no caso de estupro, peritos de várias partes do mundo advertiram para o alto potencial abortivo do fármaco.

No Brasil, a Dra. Renata Gusson Martins, Farmacêutica-Bioquímica, especialista em Biologia Molecular explica que diante da dificuldade de saber o exato momento da ovulação o uso da pílula é como uma “roleta russa”, nem os médicos, nem as mulheres podem ter certeza absoluta que esta não atuou como um abortivo.

“O levonorgestrel, princípio ativo da “pílula do dia seguinte”, é uma progesterona sintética. Por ser um hormônio, seu mecanismo de ação é complexo e interfere em diversas funções fisiológicas. No sistema reprodutor, pode impedir a ovulação, provocar o espessamento do muco cervical, inviabilizando a movimentação dos espermatozoides e, finalmente, provocar o atrofiamento do endométrio”, explicou a Dra. Renata, que também atua no movimento pró-vida no Brasil.

Segundo perita brasileira, que também possui mestrado em Ciências pela Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, “os fabricantes da “pílula” afirmam que ela garante uma contracepção se tomada até 72 horas após a relação sexual. Entretanto, ao lermos as bulas de tais medicamentos, nos deparamos com uma insistente afirmação de que eles não são abortivos. Além disso, diversos artigos científicos reforçam que “não se tem evidências de que o levonorgestrel atue no endométrio”. Diante dessa afirmação, foi-se criando um consenso de que a “pílula do dia seguinte” teria somente um efeito contraceptivo, mas não abortivo”.

Porém, contrariando essa posição, podemos questionar: se uma mulher mantiver relação sexual no dia de sua ovulação, a fecundação pode ocorrer poucos minutos após a relação. Ademais, os fabricantes garantem, como vimos, que a “pílula” impede a gravidez se tomada até 72 horas após o coito. Portanto, como afirmar que os efeitos do levonorgestrel são apenas contraceptivos se a gravidez já ocorreu? Diante de um embrião humano formado, a única maneira de impedir a continuação da gravidez é o aborto. Portanto, seguindo esta lógica, podemos afirmar que a “pílula” é sim abortiva”, asseverou.

“Temos aqui um problema bastante sério: o medicamento que pode impedir a ovulação é o mesmo que pode impedir a implantação. O efeito contraceptivo e abortivo estão igualmente presentes. Se ela for tomada antes da fecundação, atuará como contraceptivo. Se for tomada depois, atuará como abortivo.  Na prática, contudo, é improvável saber se já ocorreu ou não a fecundação”,


“A questão que surge é muito relevante: o uso da “pílula do dia seguinte” é moralmente correto?” Segundo a Dra. Gusson a resposta é “não”.

“Dizer o contrário seria o mesmo que afirmar que não há problema nenhum em brincar de roleta-russa”, concluiu.

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* “Falamos de adultos vivendo como adolescentes mimados”. A civilização, a barbárie e a defesa dos valores.

quinta-feira, janeiro 10th, 2013

Blogueiro Jorge Ferraz

Muito interessante o artigo do Rodrigo Constantino( http://zezoferreira.blogspot.com.br/2013/01/o-estado-de-bem-estar-social-criou-uma.html ) Analisando a maneira como o homem moderno encara o mundo ao seu redor, o articulista sentencia:

Somos os herdeiros de uma geração mimada, que colheu os frutos do árduo trabalho de seus pais, acostumados com vidas mais duras, com guerras, com diversas restrições. Essa geração, principalmente na década de 1960 e 70, pensou que bastava demandar, e todos os seus desejos seriam atendidos, sabe-se lá por quem.

A tese não é nova. Ela já se encontra na clássica obra do filósofo espanhol Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”; curiosamente, o livro foi escrito no final da década de 20 do século passado, mostrando que o fenômeno se encontrava bem delineado já quarenta anos antes do período histórico citado pelo articulista d’O Globo. A análise, não obstante, é precisa. Não creio que tenhamos melhorado muito de lá para cá.

A idéia de que «[o] Estado de bem-estar social criou uma bomba-relógio, mas ninguém quer pagar a fatura» pode parecer catastrofista para alguns, mas esta recusa em aceitar o diagnóstico só reforça a existência da moléstia. Afinal, como diz o Constantino, a crise não é somente econômica, mas também moral; e o desprezo que a sociedade nutre para com os valores que foram fundamentais à sua construção é a característica mais pungente e universal das crises modernas.

Ortega y Gasset não padece das mesmas limitações de espaço que o Constantino na sua coluna de jornal e, portanto, pode se dar ao luxo de ser mais persuasivo. O filósofo espanhol gasta longas páginas para explicar como o homem moderno deixou de se sentir obrigado pelas circunstâncias exteriores – as intempéries da natureza, os conflitos entre os indivíduos e os povos, a penúria e a escassez de recursos, etc. – para se enxergar como um detentor de direitos ilimitados cujo merecimento é pressuposto como se fosse uma lei básica da natureza.

Em uma palavra: estamos falando do fenômeno que produz adultos vivendo como adolescentes mimados, incapazes de fazer as coisas por conta própria e acreditando sinceramente que a tudo têm direito, bastando-lhes bater o pé e exigi-lo a plenos pulmões. Mas o alto grau de civilização ao qual fomos capazes de chegar (e que possibilita, sim, alguns benefícios perfeitamente inimagináveis a civilizações passadas) não se sustenta por si só, muito pelo contrário: exige o trabalho árduo de homens valorosos que possam mantê-lo. E as atuais circunstâncias nas quais vivemos fazem com que homens assim sejam cada vez mais raros: é a própria civilização que, se mal vivida, enseja e produz a barbárie.

Num tal cenário, são em princípio bem-vindas todas as iniciativas que intentem chamar a atenção para os riscos que corremos, por impopulares que sejam. Mas temo que elas caiam na irrelevância exatamente por pintarem um quadro demasiado tétrico, excessivamente indigesto à sensibilidade moderna. Como – a comparação é-me inevitável – o homem d’A República de Platão que, tendo saído da caverna para ver o mundo verdadeiro, é tratado com escárnio e hostilidade ao voltar para os seus e lhes contar que eles não vêm senão sombras. Penso que é necessário tomar o devido cuidado para evitar este tipo de reação: afinal de contas, não nos interessa simplesmente que as gerações futuras reconheçam o acerto de nossas análises, interessa-nos oferecer a nossa contribuição para evitar (ou pelo menos minimizar) as agruras que se anunciam no horizonte.

Muita água rolou por debaixo da ponte nesses últimos oitenta anos, e alguém pode dizer que a realidade, no geral, tem se mostrado muito mais aprazível do que os vaticínios feitos há tantas décadas por um espanhol que morreu antes do nascimento dos Beatles; à parte a Segunda Guerra, a tensão que se lhe seguiu e alguns conflitos menores aqui e acolá, o mundo ainda parece ser um lugar bem habitável e não parece que estejamos caminhando rumo à borda do penhasco. Por quê, então, ressuscitar estas teorias ultrapassadas, que o decurso dos anos já demonstrou falsas e excessivamente pessimistas?

De minha parte, eu penso que aqueles princípios estão corretos, mas tão corretos que as únicas tentativas de desmenti-los se dão no campo da casuística seletiva: “isto ainda não aconteceu”, “as coisas não estão tão ruins assim”, “em tais e quais aspectos estamos melhores do que há vinte anos”, et cetera. E, exatamente por isso, penso que é desejável apresentar o discurso sob uma ótica mais propositiva.

Eu não sei se o mundo vai se transformar num lugar impossível de se viver (e nem muito menos quando isso se dará); mas sei que ele possui incontáveis problemas que poderiam ser resolvidos se as pessoas tivessem um senso moral mais apurado. Eu não sei se os netos pobres seremos nós ou os nossos filhos; mas sei que diversas coisas foram perdidas ao longo das últimas gerações e recuperá-las vai indiscutivelmente nos enriquecer. Eu não sei quais os limites exatos de flexibilidade moral que uma sociedade pode suportar antes de entrar em colapso; mas sei que existem valores, que eles são uma coisa positiva e, portanto, sempre vale a pena – independente das circunstâncias históricas que nos cerquem – defendê-los e os promover.

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* Hipnose! Existem fortes reservas morais à luz da fé Católica quanto a seu uso.

domingo, outubro 28th, 2012

Fonte: Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


A hipnose é um estado de sono em que o paciente fica sujeito às sugestões ou à vontade de um operador (podendo perdurar a influência deste  mesmo depois de cessado o transe).

Em estado de hipnose, portanto, o indivíduo perde a sua personalidade em grau maior ou menor, pois é, até certo ponto, destituído da sua faculdade de raciocinar e da sua vontade própria. Em tais circunstâncias, arrisca-se a cometer atos que não cometeria em estado de lucidez.


Tem sido muito debatida a questão: será que o hipnotizador possui poder sugestivo necessário para obrigar o paciente a realizar até mesmo ações que contrariem a sua consciência?


O Dr. Júlio Camino (Como se hipnotiza, Madrid), médico que tem a experiência de milhares de casos de hipnotismo, afirma categoricamente que o hipnotizador pode induzir o paciente a crimes gravíssimos. Cita, por exemplo, o caso de uma senhora hipnotizada a quem ele sugeriu que no dia seguinte envenenasse toda a sua família, lançando na respectiva comida um pó que o hipnotizador lhe consignou (e que naturalmente era inofensivo). Pois bem, chegada a hora prevista, a senhora, já liberta da hipnose, julgando que ninguém a via, atirou nos alimentos de seus familiares o presumido veneno; entrementes os interessados e o médico às ocultas a espreitavam!

Nem todos os autores são do parecer do Dr. Camino; há quem assegure que o conflito psíquico provocado no paciente por uma ordem imoral pede chegar a despertá-lo do sono hipnótico. Contudo a tese de Camino parece demais comprovada pelos fatos para que dela se possa duvidar.


Além disso, sabe-se que a hipnose tem consequências psíquicas e físicas daninhas para o paciente: pode deformar-lhe a personalidade, reduzir-lhe a liberdade de arbítrio, excitar-lhe paixões para com o hipnotizador, assim como influir nocivamente sobre o coração e as grandes artérias do organismo.


Tais efeitos justificam as graves restrições que a Moral cristã faz ao uso da hipnose. Não é lícito ao homem alheiar-se à sua responsabilidade e colocar-se abaixo do nível da moralidade, pois Deus tendo feito o homem animal racional, deseja que ele proceda como ser racional e consciente. Sem razões imperiosas não se justifica que alguém se arrisque a cometer atos degradantes ou a servir aos interesses pecaminosos de outrem, manifestando segredos, revelando nomes que deveriam ficar ocultos, etc.


A consciência cristã veda, por conseguinte, a hipnotização praticada a título de mero divertimento. Não se lhe opõe, porém, desde que se tenha em mira curar ou aliviar um caso patológico, como a alucinação, a loucura, a insônia, a neurastenia, as dores resultantes de intervenção cirúrgica.


Em tais casos, devidamente diagnosticados, o cuidado do hipnotizar só poderá ser confiado a médico perito, comprovadamente honesto, que trabalhe em presença de testemunhas moralmente idôneas e com o consentimento do paciente ou de seus responsáveis.


A liceidade da hipnotização nessas circunstâncias reconhecida por declarações do Santo Ofício promulgadas em 1840, 1847 e 1899, as quais ao mesmo tempo não deixavam de chamar a atenção para os perigos da dita praxe. O Santo Padre Pio XII, aos 24 de fevereiro de 1957, num discurso dirigido a médicos, pronunciou-se sobre a anestesia em geral, considerando explicitamente a hipnose; eis um dos trechos que aqui nos interessam:


“Pretendo-se obter uma baixa da consciência e, por meio dela, das faculdades superiores, de maneira que se paralisem os mecanismos psíquicos de domínio utilizados constantemente pelo homem para .se governar e dirigir; este abandona-se então sem resistência ao jogo das associações de idéias, dos sentimentos e impulsos volitivos. Os perigos de tal estado são evidentes: pode acontecer que se libertem assim impulsos instintivos imorais… Suspender os dispositivos de domínio torna-se especialmente perigoso, quando se chega a provocar a revelação dos segredos da vida privada, pessoal ou familiar, e da vida social… Há certos segredos que se não devem revelar a ninguém, nem sequer, como diz uma fórmula técnica, uns viro prudenti o! silentii teraci!… Por isto não se pode deixar de aprovar o uso de narcóticos na medicação pré-operatória, para evitar tais inconvenientes…


Não queremos que se estenda pura e simplesmente à hipnose em geral o que dizemos da hipnose a serviço do médico. Com efeito, esta, como objeto de investigação científica, não pode ser estudada por quem quer que seja, mas só por um sábio sério e dentro dos limites morais que valem para toda atividade científica. Não é este o caso de qualquer círculo de leigos ou eclesiásticos que a praticassem como coisa interessante, a título de pura experiência ou mesmo por simples passatempo” (texto transcrito da “Revista Eclesiástica Brasileira” XVII [1957] 477s).

***

Paulo Pedrosa

A hipnose, além de ser inócua para realizar uma cura física ou moral, é um método muito perigoso. Além de perigo de dano físico, fisiológico, psíquico e intelectual, constitui principalmente uma perigo moral.

As pessoas mais susceptíveis à hipnose são ou histéricos ou os que sofrem de alguma neurose. Estes, pela hipnose, podem ser levados à loucura. O mecanismo cerebral é muito delicado, e a prática constante de hipnose pode tirar este mecanismo delicado do eixo. As sugestões hipnóticas estabelecem idéias e sentimentos, sentidos e razões em conflito, e viciam o funcionamento da mente.

Portanto, o hipnotismo é perigoso, e uma prática moralmente detestável. No processo de sugestão o indivíduo aliena sua liberdade e sua razão, se submetendo à dominação de outro. Ninguém tem o direito de abdicar desta forma ao seu direito à consciência para renunciar seus deveres para com a sua personalidade”

Fonte, Hypnotism, Catholic Encyclopedia, http://www.newadvent.org/cathen/07604b.htm

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* A verdadeira felicidade!

sexta-feira, outubro 5th, 2012

Mesmo entre as diversas opiniões existentes na atualidade, a ordem moral prevalece sobre todas as demais relacionadas com o operar humano, pois diz respeito ao homem enquanto tal, e as outras ao homem em face a fins particulares.(1)

Para São Tomás, a moral não se restringe ao âmbito dos religiosos e muito menos a uma atitude particular, mas sustenta ele que o ato humano praticado afeta o ser humano no seu conjunto – “o homem enquanto homem e enquanto moral”.(2)

Entretanto, o ser humano não é inerte, mas movimenta-se em direção à felicidade que é própria à sua natureza, ou seja, a bem-aventurança. Portanto, o homem percorre uma caminhada neste mundo a fim de atingir a meta de plena felicidade – apesar de não a alcançar por inteiro nesta vida.(3)

Se a moral tomista, portanto, nos coloca diante da perspectiva da unidade do ser humano enquanto praticante do ato e desejoso da felicidade com vistas a um fim último, pode-se dizer que uma força intrínseca move o homem à prática do bem.4

A expressão “força intrínseca” ressalta o papel criador de Deus, que opera por meio das três Pessoas da Santíssima Trindade. Isto incorre em que o homem contém em si certas verdades estabelecidas por Deus, não com o intuito de aprisioná-lo numa moral cruel, mas de libertá-lo para a verdadeira felicidade que consiste em praticar os atos moralmente bons e, com isto, assemelhar-se mais a Ele.5

1 Cf. JOÃO PAULO II. La perenne validità dell’etica tomista. In: Doctor Comunnis. Roma, 1992, ano XLV, n. 1, p. 4.

2 S Th I-II, q. 21, a. 2.

3 Cf. PIEPER, Josef. Felicidade e contemplação, lazer e culto. São Paulo: Herder, 1969, p. 17-18.

4 Cf. Veritatis Splendor, n. 7.

5 Cf. LAUAND, Luiz Jean. Tomás de Aquino, hoje. Curitiba: Champagnat, 1993, p. 41.

Por Thiago de Oliveira Geraldo

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* Menor infrator a partir dos 15 anos terá direito a visita íntima no Piauí.

sexta-feira, agosto 31st, 2012

A Secretaria de Ação Social do Governo do Estado do Piauí publicará, na próxima semana, uma portaria que introduz nos Centros de Recuperação de menores infratores o sistema de “visita íntima”.

A medida inicialmente, será aplicada apenas para os jovens que se encontram recolhidos ao CEM(masculino) e CEF (feminino) em Teresina e alcançará adolescentes a partir dos 15 anos de idade.

Eles terão direito a receber a namorada ou o namorada para intimidades por um período de três horas uma vez por semana.

A portaria se baseia em legislação vigente nacional e tem o acompanhamento do Ministério Público e do Conselho Tutelar. Para elaborar o documento, a secretaria formou uma Comissão composta por profissionais da área como, médico, psicólogo, assistente social, pedagogo e advogado. O Conselho Tutelar vê com reservas esse tipo de manifestação.

JÁ EXISTE

A visita íntima é comum nos presídios do país. Mas, para jovens infratores, menores de idade é novidade no sistema carcerário brasileiro. Numa rápida enquete feita pela TV Antena 10 nesta 5ª feira, a população se mostrou contrária a medida.

Fonte: http://www.180graus.com/geral/menor-infrator–a-partir-dos-15-anos-tera-direito-a-visita-intima-no-piaui-556506.html

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* Na Moral? bem..Qual moral?

sexta-feira, agosto 31st, 2012

Na moral

PERCIVAL PUGGINA

Que tal ser fiel ao desejo?”Ao fechar o programa com essa interrogação, Pedro Bial proclamou sua opção contra o casamento, contra a fidelidade conjugal, e optou pela degradação do humano.


Pois não é que dia desses me peguei assistindo o programa “Na moral”? Por Deus. Estava ali, deitado, zapeando, e me deparo com Pedro Bial entrevistando convidados. Como peguei o bonde andando, presumo que a pauta fosse sobre arranjos de convívio sexual. Um terreno complicado, onde há de tudo. E havia, mesmo, um pouco de quase tudo.

A personagem central da primeira entrevista que assisti era uma senhora muito dadivosa que se alternava entre dois cônjuges. Ora com um, ora com outro. Levava a vida assim, contando com o consentimento de ambos, por sinal, presentes à entrevista. Um dos homens, mesmo sem ser chamado às falas a respeito, fez seu comercialzinho aduzindo que, pessoalmente, não descartava relacionar-se, também, com outros do mesmo sexo, desde que fossem interessantes. Enquanto assistia aquilo, fiquei pensando que, muito em breve, com a multiplicação de tais casos, o Supremo Tribunal Federal será chamado a sacramentá-los. E o fará, numa sessão em que o Congresso, lá do outro lado da praça, ouvirá doutas repreensões por silenciar ante assunto de tamanha relevância e interesse social.

Assim, face à  omissão legislativa, em nome dos princípios da liberdade, da igualdade e da dignidade da pessoa humana, o STF tomará em suas mãos a deliberação sobre os aspectos jurídicos desses enroscos sexuais. São coisas que existem desde que o mundo é mundo. Já são tema para novela. Novidade é a colher torta do Estado se metendo no meio. Aliás, já existem advogados da tese. E em Tupã, interior do São Paulo, li outro dia, um conluio desse tipo foi formalizado em cartório.

Seguiu-se uma entrevista sobre suingue (eis aí mais uma, STF!). No caso, o marido levava a esposa para assistir seu desempenho com outras mulheres em festas de casais liberais. Surpreendentemente, ele não admitia a recíproca por ser muito ciumento… Noutro bloco, com som e imagem distorcidos, o Bial ouviu mulheres e homens, casados regularmente, que mantinham relações extraconjugais clandestinas valendo-se, para tanto, de sites de relacionamento.

Por fim, a produção do programa arranjou-lhe um petisco adicional, uma extravagância, coisa inaudita, beirando ao escândalo – tira as crianças da sala, meu bem!: um casal formado por homem e mulher (o esclarecimento é politicamente corretíssimo), que viviam seu matrimônio há 42 anos. Quarenta e dois anos? E nunca pularam a cerca? Nunca, segundo informaram.

Do jeito que a coisa anda, tratou-se, obviamente de um programa banal, tratando tais temas como se banalidades fossem. Nada de novo em qualquer das situações focadas. Coisas melhores e piores são exibidas todos os dias. E ninguém tem nada que ver com a intimidade alheia.

O completo absurdo, o motivo pelo qual escrevo, veio pouco depois, no encerramento do programa. O apresentador encarou a câmera, fez um discurso resumindo cada uma das situações que apresentara e sublinhou o surpreendente feito do casal casado, fiel, a caminho das bodas de ouro. E arrematou com uma pergunta que, apesar de dirigida aos telespectadores, fustigou a aparentemente insólita situação vivida por ambos: “Que tal ser fiel ao desejo?”

Ao fechar o programa com essa interrogação, o apresentador proclamou sua opção contra o casamento, contra a fidelidade conjugal, e optou pela degradação do humano. Fidelidade ao desejo, conforme proposto pelo jornalista, se expressa numa vida desregrada, sobre a qual não se impõem os freios da razão e do amor.

Publicado no jornal Zero Hora.

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* Aids: O que Uganda ensina ao Brasil e ao mundo!

quinta-feira, junho 21st, 2012

Falei quase nada sobre Aids até agora, o que é uma falha, visto que a doença virou uma marca registrada desse continente.

Então é bastante apropriado que eu toque no assunto aqui, em Uganda. Aids é uma obsessão nesse país, quase uma mania nacional. Por onde você anda, vê centros clínicos, ONGs, igrejas, escolas, com aconselhamento de prevenção ou tratamento para HIV/Aids etc. etc. E placas, cartazes, faixas, tudo que se refere à doença.

De vez em quando é bom ver uma história de sucesso nesse continente, só para variar, e o combate à Aids em Uganda é um sucesso inquestionável. Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%.

Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais.

Uganda trata a Aids de uma maneira como nós nunca faríamos no Brasil. Uma maneira inusitada, para dizer o mínimo. E assumidamente moralista.

Um exemplo do que acontece por aqui: imagine que você é um oficial do governo e precise traçar uma estratégia para reduzir a incidência de Aids junto a caminhoneiros. Em vários países, esse é um grupo delicado: estão sempre longe de casa, cruzam fronteiras, são cercados por prostitutas o tempo todo. São potencialmente um fator de disseminação da doença. E muitos chegam em casa e podem contaminar suas esposas.

A meu ver, a lógica mandaria que se propagandeasse o uso de camisinhas entre caminhoneiros. Mas veja como é o cartaz do governo de Uganda que vi na sede de uma ONG: (em cima)

Diz o pôster: “um motorista responsável se importa com sua família; ele é fiel a sua mulher”. O foco não é tentar fazê-lo se proteger quando dormir com prostitutas. Mas tentar convencê-lo, antes de tudo, a não ter a relação sexual. Parece ingênuo, mas o governo acha que funciona. E talvez funcione mesmo.

No Brasil, a ênfase das campanhas contra Aids é no sexo seguro: use camisinha, em outras palavras. Em Uganda, a promoção dos preservativos é apenas a perna mais fraca de um tripé que conta também com a promoção de abstinência e a fidelidade.

O slogan do governo é ABC: A é a inicial de abstinência, B é de “be faithful”, ou seja fiel, e C é para condom, ou camisinha.

Uganda é um país com forte influência das igrejas católica e evangélicas. O presidente, Yoweri Museveni, é, a exemplo de George Bush, um “born again christian”, ou seja, um cristão renascido, que descobriu sua fé no meio da vida. A primeira-dama, Janeth, é ainda mais religiosa.

Não surpreende, então, que o governo coloque tanta ênfase nas letras A e B. Abstinência é direcionada aos jovens, principalmente de menos de 25 anos, idade média em que eles se casam, incentivando-os a se manter virgens até o altar.

O B é dedicado aos casais, pedindo que sejam fiéis. Só em último caso, se a pessoa não conseguir se abster ou for um pulador de cerca contumaz, vem o C: pelo menos use camisinha.

Percebeu a diferença? O enfoque tradicional em vários países, inclusive no Brasil, é centrar fogo na camisinha. Em Uganda, camisinha é um último caso, quase o recurso dos pecadores.

Hoje conversei com representantes de duas ONGs, esperando ouvir algumas críticas à política do ABC. Nada. Aprovam 100%. Há um consenso nacional em torno do tema. Sobra para organizações estrangeiras descerem o pau, dizendo que é irreal esperar que um jovem de 20 anos se mantenha virgem.

Mas os números estão aí, desafiando o que diz a lógica e a convicção de muitos (como eu). São um tapa na cara dos céticos.

Fonte:

http://penaafrica.folha.blog.uol.com.br/arch2008-05-01_2008-05-31.html

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* Confundindo técnica e ética: fecundação “tri-parental” aprovada na Grã-Bretanha.

terça-feira, junho 19th, 2012

Blogueiro Jorge Ferraz

Eu li no Meio Bit o Cardoso explicando uma nova técnica (dita “terapêutica”) para “corrigir” defeitos mitocondriais e possibilitar que mães portadoras de certas doenças genéticas possam ter filhos saudáveis. À parte a retórica anti-clerical do articulista (que, neste texto, encontra-se particularmente furibunda), o que interessa é o seguinte: existem algumas doenças causadas por defeitos nas mitocôndrias. Como as mitocôndrias vêm somente da mãe (já estão presentes no óvulo), uma mulher com mitocôndrias doentes irá necessariamente passá-las para seus filhos. Dependendo de alguns fatores que não são mencionados no texto, a doença pode não se manifestar, mas mesmo assim a pessoa terá um DNA mitocondrial defeituoso (e, se for uma mulher, vai repassá-lo para os seus filhos, etc.). E estas doenças mitocondriais podem ser bem graves, de modo que é natural que se queira encontrar uma forma de evitá-las.

A nova técnica é simples : como as mitocôndrias não ficam no núcleo do óvulo (e sim no citoplasma), basta pegar dois óvulos (de mulheres distintas), tirar os dois núcleos e enxertar o do óvulo da mulher que tem mitocôndrias defeituosas no outro (da mulher que tem mitocôndrias sãs). O resultado é um óvulo “híbrido”, com o núcleo de uma mulher (que é a parte que contém a carga genética) e o resto (citoplasma e membrana) da outra mulher. A partir daqui, segue-se um procedimento normal de fertilização in vitro, e a criança nascida assim irá herdar a carga genética de sua mãe, mas não o seu DNA mitocondrial. O procedimento foi recentemente aprovado por um comitê ético britânico.

Bom… o que dizer? Foi feita, no texto, uma crítica à (inevitável…) comparação da técnica com a história do monstro do Dr. Frankenstein. E a comparação é bastante pertinente, porque no fundo a idéia de “montar” um corpo a partir de partes dos corpos de outras pessoas está presente em um caso e em outro: a diferença é somente a escala. É claro que o procedimento é imoral. Mas, ao contrário do que possa parecer, a imoralidade está na fertilização in vitro, já incontáveis vezes condenada e cujos (incontáveis) problemas já deram abundantes provas de sua existência. O problema evidentemente não está em querer mitocôndrias saudáveis; o problema está na idéia de se produzir seres humanos em laboratórios. Não me espanta nada que esta “fecundação com três pais” tenha sido aprovada, uma vez que – como disse o Cardoso e, infelizmente, é verdade – «[h]oje qualquer clínica de subúrbio faz bebês de proveta, e ninguém em sã consciência consideraria essas crianças algo fora do normal».

O problema, repetimos, não está no fim almejado. O fim é sem dúvidas bom. Se fosse possível dar à mãe uma pílula que agisse nos seus ovários e alterasse as mitocôndrias lá presentes (tornando-as sadias), isto certamente não seria imoral. Não vale a pena entrar neste casuísmo de curar (ou melhor, de prevenir) doenças genéticas levantado pela matéria, porque a resposta é bastante óbvia: se se está empregando um meio intrinsecamente mau (como a fecundação in vitro), elencar os benefícios trazidos pela técnica não faz nenhuma diferença. É errado criar bebês (ditos) de proveta independentemente do quão “bom” seja o bebê resultante do procedimento, e isto porque errada é a fertilização in vitro considerada em si mesma, e não dependendo da proficiência técnica que se adquira em executá-la.

No fundo, trata-se da velha e evidente diferença (totalmente imperceptível para os “cientólatras” deslumbrados com o progresso científico) entre a capacidade técnica e a permissão ética: poder fazer algo [= conseguir] não significa que se possa fazê-lo[= ser lícito]. Os que foram ofuscados pelo recente progresso técnico perdem-se completamente na semelhança entre as palavras e simplesmente não enxergam a polissemia aqui presente. A questão não é somente se existe tecnologia para tanto ou se os resultados obtidos são “seguros”: a questão envolve os meios que são empregados.

Era bastante óbvio que as coisas chegariam a este ponto. A Igreja já o dissera:

As técnicas de fecundação in vitro podem abrir possibilidade a outras formas de manipulação biológica ou genética dos embriões humanos, tais como as tentativas ou projetos de fecundação entre gametas humanos e animais e de gestação de embriões humanos em úteros de animais bem como a hipótese ou projeto de construção de úteros artificiais para o embrião humano.”

Este texto foi escrito vinte e cinco anos atrás. Eu nem vou insistir no seu caráter profético: vou me ater ao fato de que era óbvio. Uma vez que a vida deixa de ser um dom sublime para ser um produto de uma manipulação técnica, como esperar que ela continue detendo o respeito absoluto do qual é digna?Como esperar, aliás, que ela tenha qualquer respeito? É infelizmente próprio do ser humano desrespeitar o que lhe é inferior e não zelar pelo que ele pode substituir. Quando os seres humanos passaram a ser produtos de laboratório, estavam abertas as portas para os maiores abusos e arbitrariedades. Só não viu quem não quis. E é triste constatar que até hoje perdurem os que não querem ver. A vida humana vai sendo cada vez mais coisificada e, no entanto, eles saúdam cada passo desta triste marcha tecendo-lhe rebuscadas loas! A meus ouvidos, soam como trombetas de um Apocalipse auto-produzido, de um fim do mundo principiado por iniciativa humana. Nestes tempos de Rio+20 convém deixar claro: as catástrofes globais antropogênicas realmente sérias não são as ecológicas, e sim as morais. Nestas, sim, é inegável a ação humana deletéria. Com estas, sim, é urgente nos preocuparmos. Estas, sim, são uma evidente ameaça concreta à humanidade e portanto devem ser combatidas com afinco.

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* Separar em categorias estanques o “normal”, o “lícito” e o “moral”, como se fossem mundos isolados e sem relação mútua, supõe uma concepção adulterada da realidade.

sexta-feira, março 30th, 2012

André Gonçalves Fernandes

O que é freqüente é normal?

E o que é normal é necessariamente lícito?

Eis uma das inúmeras questões da moralidade coletiva deste século. A moral é um assunto de foro particular e, portanto, relacionada ao indivíduo.

O homem, contudo, vive em sociedade e, indissoluvelmente, tem uma vida individual encadeada com a vida coletiva, e, por consequência, a vida moral está condicionada (e não determinada) naturalmente pela situação social em que se vive, pelo conjunto de usos e costumes, de regras e pressões sociais.

Diante da natureza pessoal da moral, o fator categórico é a liberdade: o homem é dotado de responsabilidade, o homem realiza sua vida, mas, evidentemente, na medida em que as circunstâncias o consentem. Todavia, o projeto é próprio. Cada qual vislumbra seus projetos de vida e tenta realizá-los, mas sob o influxo das inumeráveis circunstâncias sociais.

A liberdade, sempre fundamental e decisiva, faz também com que o homem seja responsável por seus atos: eu sou responsável, não pelo conteúdo último da minha vida nem por aquilo que me afeta do exterior, mas sim por aquilo que escolho, prefiro e decido dentro das possibilidades. Eu sou eu mais minhas circunstâncias.

O homem atual é afetado por uma série de interpretações da realidade que, muitas vezes, têm uma conotação moral. Surgem modos de vida e de família, de relacionamento humano e de ética política, que são, sob certo ângulo de vista, juízos valorativos, favoráveis ou desfavoráveis conforme o caso concreto e, não raro, apresentam-se como normais só porque são frequentes.

Penso que esta identificação emerge com algum perigo: considerar o frequente como normal, o normal como lícito e o lícito legalmente como se fosse moral. A conclusão nem sempre é válida. Pode haver situações frequentes que não são normais. Pode haver conjunturas normais, mas que, apesar disso, nem por isso são lícitas. Pode haver coisas lícitas legalmente, porém que não o são moralmente.

Lembre-se que a palavra “moral” deriva do substantivo latino “moris”, que significa costume. Ou seja, os costumes têm um caráter moral, vivem-se como algo que tem condição moral e, evidentemente, a moral é afetada pelos costumes. Desde pequeno, sempre se ouve falar de “bons costumes” ou “maus costumes”, diante dos quais o homem, saliente-se, é sempre livre.

Em última análise, o homem pode acatar as infinitas vigências sociais ou resistir a elas, mas deve submetê-las ao ponderável. A vigência é algo dotado de força e, logo, devo sopesá-la, precisamente porque exerce pressão. No entanto, no final das contas, sempre posso recusar ou aceitar, com veemência ou mesmo frouxamente. Não se trata de tarefa fácil e, na prática, a vida coletiva fica influenciada por este sistema de pressões.

Quando se age de acordo com os bons costumes, eles criam, em suma, hábitos. Em razão disso, não se circunscrevem a fazer bons cidadãos do ponto de vista da conduta externa, o que se dá por intermédio das leis. Também influenciam a moralidade do homem, ao contribuir para formar virtudes.

No terreno da moral, sendo a vida social uma realidade moral, a boa ação só é alcançada pelo hábito das potências humanas especificamente pessoais: prudência, em relação à razão prática, e justiça, fortaleza e temperança, por parte da vontade. O homem não tem outro modo de agir neste campo.

Como a maioria das virtudes não são inatas, mas adquiridas pela repetição de atos, as leis, compelindo a agir segundo uma virtude, acabam conseguindo que quem as obedece alcance as virtudes correspondentes. O motorista que cumpre o Código de Trânsito assume, com o tempo, o hábito de dirigir prudentemente, respeitando a si e aos outros condutores e pedestres.Eis um importante aspecto das relações entre o lícito legalmente e a moral.

As leis não são indiferentes no que toca à formação e ao comportamento morais do homem. Pelo contrário, influem neles intensamente, contribuindo, de modo notável, para dotar com maior vigor os bons costumes.

Separar em categorias estanques o normal, o lícito e o moral, como se fossem mundos isolados e sem relação mútua, supõe uma concepção adulterada da realidade. Hoje, é propagada pelos defensores dessa utopia que chamam de Estado moralmente neutro, assunto já abordado em outros artigos.

As condutas frequentes, tidas como normais, quando em desacordo objetivamente com o lícito legal ou até mesmo a moral, afetam a ordem humana de maneira danosa, pois maculam o efeito proporcionado pelas ações praticadas segundo aqueles ditames.

Na ordem humana, o homem tende a agir segundo as virtudes ou os correspondentes vícios. Por isso, o normal, o lícito e o moral caminham sempre de mãos dadas. Pretender uma postura dissonante é cair no mais puro irrealismo. Não existe alternativa. Como canta Bono Vox, vocalista da minha banda predileta, na faixa que dá o nome ao seu recente álbum, “no, no line on the horizon, no, no line”.

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* Aborto: A objeção de consciência é um direito previsto no código de ética médica. Nenhum profissional está obrigado a prestar atendimento que esteja em desacordo com suas convicções”.

sábado, março 17th, 2012

Lígia Formenti – O Estado de S. Paulo.

Anteontem, a ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para Mulheres, havia afirmado que, embora existam 63 serviços credenciados na rede pública para fazer o aborto legal no País, muitos na prática não funcionam porque médicos alegam objeção de consciência.

O aborto é permitido no País nos casos de gravidez resultante de estupro e de risco para a vida da mulher. As duas possibilidades estão previstas no Código Penal brasileiro.

“A objeção de consciência é um direito previsto no código de ética médica. Nenhum profissional está obrigado a prestar atendimento que esteja em desacordo com suas convicções”, afirmou Vital.

No entanto, assim como a ministra, o vice-presidente do CFM avalia que mulheres autorizadas por lei a interromper a gravidez não podem ficar sem assistência médica.

Consciência

Durante reunião no Conselho Nacional de Saúde, Eleonora afirmou que, diante da negativa do médico em fazer o aborto, uma opção seria substituir o profissional por outro que não apresente problemas de consciência para prestar atendimento. O vice-presidente do CFM tem entendimento semelhante.

Vital observa que, se um profissional vai trabalhar num serviço de referência para atendimento à mulher vítima de violência, ele sabe que poderá ser requisitado a fazer abortamento legal.

“Ele tem de fazer a objeção antes mesmo de ingressar no serviço. Aos gestores, cabe montar uma equipe de forma que ele seja poupado a fazer tal atendimento.” Mas, nos casos em que ele está sozinho nos serviços, a objeção de consciência tem de ser avaliada com cuidado.

Atualmente, existem 557 centros para atendimento das mulheres e 63 capacitados para fazer o aborto. De acordo com o Ministério da Saúde, outros 30 estão sendo capacitados para também fazer a interrupção da gestação nos casos previstos na legislação.

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* A “assombrosa” fé dos descrentes e ateus. Artigo IMPERDÍVEL e IRREFUTÁVEL.

domingo, fevereiro 12th, 2012

Você precisa ler este artigo até o fim,devagar,sorvendo cada palavra.

I R R E F U T Á V E L !!

***

Poucas coisas me admiram mais, neste mundo, do que a assombrosa fé dos ateus.Eles não acreditam em Deus, mas acreditam cegamente no Acaso.

Se você lhes perguntar: “Como surgiu o mundo? Como apareceu a vida? Como se processaram as coisas para que se desse algo de tão extraordinariamente complexo, preciso, ordenado e fantástico como é o organismo de um besouro ou de uma gazela?

Como se produziu a maravilha extasiante de um olho: o cristalino, a córnea, a retina, a íris, o seu funcionamento harmônico em precisa conexão com o sistema nervoso, com o cérebro, com o sistema circulatório…?” invariavelmente o ateu responderá: “Foi por Acaso”.

Você pode perguntar: “Um acaso só?” Ele sorrirá com ar de suficiência e esclarecerá, como se segredasse a sabedoria aos ignorantes: “Milhões, milhões de Acasos, meu amigo, ao longo de milhões de anos”. E a palavra milhões — que não explica, sozinha, absolutamente nada — o deixará perfeitamente satisfeito, como se fosse a explicação genial, “racional” e completa de toda a questão.

No entanto, os que se têm dado ao trabalho de analisar cientificamente as possibilidades de que apenas duas dúzias desses milhões de acasos se produzissem, chegam à conclusão de que, pelo cálculo de probabilidades, essa conjunção de eventos fortuitos, perfeitamente concatenados, é tão improvável que, na prática, fica sendo impossível.

Não há probabilidade alguma que consiga explicar satisfatoriamente como, do nada, possa surgir algo; ou que, da matéria inerte — numa cadeia de mirabolantes casualidades — venham a brotar a paineira, a onça, o dourado e o gavião.

E, já que falamos em bichos, talvez o leitor ache interessante uma afirmação feita por um cientista da NASA, altamente qualificado nesses assuntos. É muito mais provável — dizia este professor — que uma lagartixa, um camundongo e um pardal façam por acaso (só passeando, arrastando e deixando à toa pedacinhos de metal, areia, etc.) um computador de última geração, do que o pretenso surgimento do universo — desde as galáxias até às borboletas — sem que tenha havido como causa de tudo uma Inteligência suprema, criadora, ordenadora e providente, ou seja, sem Deus.

Só pelo raciocínio, sem necessidade de fé, grandes filósofos pagãos como Platão e Aristóteles — insuperados em muitas das suas idéias — chegaram à conclusão de que o mundo postula, racionalmente, a existência de um Criador, que é pura Inteligência e puro Poder.

Qualquer cristão bem formado sabe, de fato, que não precisa da fé para chegar ao conhecimento da existência de Deus e dos seus atributos (inteligência, poder, bondade, etc.), porque, para isso, basta a razão. Aqueles que o ateu julga “crédulos”, neste ponto são muito mais racionais do que ele.

Qual é a pauta da “vida boa”?

O que acabamos de considerar tem enorme importância quando se pensa na qualidade moral da nossa vida. Quando e por que podemos dizer que agimos bem ou que agimos mal? Quando se pode afirmar que fizemos o certo ou que fizemos o errado? Há, por acaso, algum princípio, algum valor seguro, alguma pauta clara que permita avaliar a bondade ou a malícia dos nossos pensamentos, palavras e ações?

Talvez alguém diga: “Sim, a pauta é a nossa consciência”. Quem diz isso está afirmando que o que fazemos de acordo com o que a nossa consciência sente é bom, e o que fazemos contra a voz íntima da consciência é errado.

A resposta parece boa —e está certa, sem dúvida, a segunda parte —, mas talvez não reparemos que dizer que é bom o que fazemos de acordo com a nossa consciência — sem mais — é uma afirmação equivalente a dizer que termos olhos é sempre o meio certo para enxergar a estrada que devemos seguir com o carro, ou com os nossos pés. De acordo com isso, se perguntarmos: “Há algo que nos permita afirmar se o dia é claro ou escuro, se perto de nós há gente ou não, se pela rua vem vindo carros, se alguém nos aponta uma arma?”, a resposta deverá ser sempre: “Sim, a nossa vista”.

Só que essa resposta, enunciada de maneira tão simplista, é uma estupidez. Todos sabemos que a vista pode ser boa ou má, sadia ou doente, nítida ou confusa, ou até cega e nula. Uma má vista pode confundir uma janela do vigésimo andar com a porta de acesso à escada do prédio e levar a pessoa de boa fé a despencar e morrer. Exatamente a mesma coisa acontece com a consciênciaEm princípio, poderia e deveria enxergar o bem, o justo, o certo, mas para isso precisaria estar sadia, e não moralmente doente. Infelizmente, a consciência não é Deus, nem é uma voz pura e infalível (por exemplo, Hitler, Goering e Goebbels acreditavam firmemente que a monstruosidade de eliminar os judeus era um dever de consciência para o bem do mundo; e em consequência, enchiam de vítimas as câmaras de gás, seguindo fielmente essa sua “consciência” desvairada) . Tal como a vista, é evidente que a consciência pode estar doente, gravemente doente, e ter, então, erros fatais de avaliação e, portanto, de conduta moral.

Não nos esqueçamos de que, afinal, a consciência é um juiz, que avalia uma decisão a tomar, uma conduta, uma omissão, e diz: “Isto está certo”, “Isto não tem nada demais”, “Isto está errado”. Mas, nesta avaliação, o que é absolutamente decisivo é saber qual é o referencial, a “norma de valor” que permite julgar o certo e o errado.

Por que você diz “isto está certo”? Com base em quê? Há ou não há “valores”, “verdades” morais que iluminem sem erro a nossa consciência? Há valores que permitam dizer, com lucidez e segurança: “Isto está bem, isto está mal”? Há, enfim, normas que sinalizem e balizem sem engano o caminho da vida, da “vida boa”, certa e honesta?

Nesta matéria, tudo depende da posição que se adote. Se é a dos que só acreditam no Acaso, a “pauta”, a “norma” moral terá umas características (ou nenhuma, como veremos); se é a dos que sabem que existe um Deus criador e ordenador do universo, terá outras.

Tudo é permitido?

Justamente pela relação que tem com este assunto, vem a propósito lembrar um bem conhecido episódio do romance de Dostoievski, Os Irmãos Karamázovi. Os três irmãos estão no centro do enredo, juntamente com um criado do pai, filho bastardo deste e, portanto, meio-irmão dos três. O intelectual da família, Ivã Karamazov, repete filosoficamente a famosa frase: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Essas palavras gravam-se na mente doentia e descrente do meio-irmão, Smerdiákov, e levam-no a assassinar, por ódio e cobiça, o pai. No final do romance, o parricida justifica-se cinicamente perante Ivã, dizendo que nada mais fez do que aplicar a filosofia deste: dado que para ele — ateu como Ivã — Deus não existia, nada o impedia, moralmente falando, de matar o pai.

E não deixava de ter a sua razão. Com efeito, se Deus não existe, se tudo apareceu por uma conjunção fortuita de acasos, se não passamos todos do resultado de muitas cegas coincidências sem sentido nem orientação, se somos apenas matéria que, por mera ciranda de casualidades, deu de ter dois braços, duas pernas, dois olhos e a capacidade de ser consciente — se as coisas são mesmo assim, então, que sentido tem falar do bem, do mal e dos valores morais?

Esses pedaços de matéria pensante que seríamos nós, jogados sem nenhuma explicação nem finalidade sobre a terra, por que haveriam de ter mais lei do que a da bruta matéria sem alma, por que não se ocupariam exclusivamente, com feroz voracidade, de aproveitar-se ao máximo de tudo, e de defender-se ao máximo de tudo e de todos os que incomodassem?

Sem lei nem rei

É impossível falar em bem e mal, em verdades morais que sejam normativas, em valores válidos e estáveis num mundo assim; isso seria tão absurdo como falar da rota certa de um barco que não tem rumo predeterminado, nem bússola, nem carta de navegação, e se limita a rodopiar loucamente no centro de um redemoinho.

Se não se admite a existência de Deus criador, não há modo de encontrar uma base sólida, um fundamento firme para uma lei moral digna de ser tomada em consideração pela nossa consciência. E, realmente, até agora, todas as tentativas de elaborar uma ética sem Deus têm sido falhas. Quando muito, o ateu pode chegar a “fabricar” uma moral de puras convenções, de acordos passageiros e arranjos circunstanciais, mas essa “moral” não tem referenciais claros que delimitem a fronteira entre o bem e o mal; então, torna-se uma farsa e, no meio dessa comédia, a consciência não passa de uma bailarina esquizofrênica. Não pode ser séria a consciência que dança como um urso domesticado, conforme o pandeiro que, a cada momento, tocam as eventuais conveniências e os arranjos interesseiros.

Deste modo, sendo tudo relativo, chega-se a aberrações como as que o nosso século vem contemplando: hoje o racismo é um mal abominável — e é mesmo, aos olhos de Deus —, mas já foi julgado um bem gloriosíssimo em vários países, em pleno século XX (veja-se o Terceiro Reich, a África do Sul e parte sensível da população da América do Norte); hoje, matar crianças não-nascidas e acabar com velhos e doentes incômodos (eutanásia) é considerado um bem, um avanço das sociedades “progressistas”, mas, durante milênios, foi julgado um assassinato covarde e vil.

Se Deus não existe, tudo fica no ar, tudo é relativo: vale qualquer coisa, ou seja, impera o caos. No epicentro do caos, que espécie de consciência terá a possibilidade de julgar?

Pensando nisto, talvez Riobaldo, o jagunço protagonista de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, tenha tanta razão como Ivã Karamazov. O nosso sertanejo diz, a certa altura: “Se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma”. Sábio Riobaldo! Sim. O que se pode fazer, se nada tem sentido, se nada tem valor, se nada vale nada, se nada leva a nada? Assim não se pode viver.

Ciência ou conto de fadas?

No meio desta barafunda, o curioso é que o descrente, depois de ter minado as bases da moral, não se resigna a viver sem moral. Gosta de falar da sua “consciência” e da sua “moralidade”; adora ser considerado “honesto”, “correto”, “cumpridor do dever” e “ilibado”. Indigna-se de ser chamado corrupto. Como conseguir isso “nas areias movediças de um relativismo total”, onde “tudo é convencional, tudo é negociável”? (João Paulo II: Encíclica Evangelium vitæ, n. 20).

A solução, para o materialista ateu ou agnóstico— ou para o seu equivalente, o cristão sem fé nem convicções — é relativamente simples. Ou, por outra, as soluções são simples, porque, no mínimo, são duas.

A primeira consiste em tergiversar, em esvaziar de sentido e de conteúdo os valores morais autênticos (os que o crente vê contidos na lei de Deus: a justiça, o amor, a sinceridade, a fraternidade…) e embutir neles um novo sentido deturpado. A bela palavra, porém, continua a ser mantida e valorizada, pelo seu magnetismo e o seu prestígio moral. “Amor”, por exemplo, que bela palavra! Tem ainda muito prestígio? Então, conserva-se e até se apresenta como sagrada e intocável; mas muda-se-lhe o sentido: emprega-se agora exclusivamente para designar o sexo descomprometido, egoísta e animalizado. A mesma coisa se faz com os “derivados” do amor e, assim, ao adultério chama-se “namoro”; à garota de programa e à prostituta cara “namoradas”; à licenciosidade, “liberdade”. E a palavra “família”, libertada da sua “ridícula” acepção “convencional” (pai, mãe e filhos) passa a aplicar-se a um rancho abagunçado de mulher com o seu “namorado” de turno, mais três ou quatro ex-maridos — os tios —, e vários filhos, que já são incapazes de identificar o seu próprio pai; ou, então, de pares ou “casais” das mais variadas espécies, gêneros e combinações.

O segundo expediente do materialista consiste em fazer moral na base de afirmações gratuitas, autênticos “dogmas de fé” proclamados com o aprumo de quem possui o carisma de infalibilidade.

Temos que agüentar tais afirmações, monotonamente repetidas, por exemplo, na questão do aborto. Com incansável perseverança, um punhado de deputados federais, adeptos de uma ideologia política relativista, laicista e atéia, proclama, com a solenidade de quem define um dogma, que a lei deveria permitir o aborto até aos três meses, ou seis, ou nove meses de gravidez, pois até esse limite de tempo o feto não é ainda ser humano. Novidade? Não, velharia. Mas afirmada e repisada com majestosa empáfia.

Caso perguntemos as “razões”, o fundamento racional para esse conceito e essa lei, a resposta será o silêncio, simplesmente um “porque sim”, “porque estamos de acordo em afirmar isso”, uma vez que não há razão nenhuma — filosófica, antropológica, biológica, etc. —, que permita dizer que somos seres humanos noventa dias depois de sermos concebidos e não o somos aos oitenta e nove dias. Por que não noventa e um ou cento e três? Ninguém sabe responder.

A moral relativista só é capaz de “convenções” — “é assim porque convencionamos que assim fosse”— , nunca de “convicções” e, menos ainda, de “verdades”.

À falta de verdade racional, precisa de inventar o dogma laicista, a “fé irracional”.

Isto é o que faz o descrente e os seus congêneres. Pratica constantemente o que ele acusa os cristãos de fazer: — “Vocês querem impor crenças, convicções de sua fé à legislação de um país laico, não-confessional. Isto é intolerável!”.

Ora, o que se dá no caso do aborto — e em muitos outros — é exatamente o contrário. Os abortistas descrentes querem impor-nos um ato de fé, muito mais violento que os que eles dizem que a Inquisição requeria: “Creio que só somos homens a partir do terceiro, sexto, sétimo ou nono mês, creio sem prova nenhuma, sem ciência nenhuma, sem razão nenhuma”. Pelo contrário, os que acreditam em Deus são os que, neste caso, em vez de invocarem a fé, apelam apenas para a razão e para a ciência. Porque, cientificamente, está mais do que provado que, desde o primeiro momento da concepção, já existe um ser humano pleno e em marcha, em desenvolvimento, exatamente o mesmo ser humano — geneticamente, biologicamente — que será aos cinco anos, ou aos quinze, ou aos sessenta.

Um dos maiores geneticistas modernos, o professor francês Jerôme Lejeune, descobridor da etiologia da síndrome de Down, foi convidado certa vez como perito por um tribunal americano que julgava um crime de aborto: as razões científicas que apresentou em favor do caráter humano do feto foram de tal ordem que reduziu ao silêncio os que as contraditavam.

Como vemos, quando os crentes combatem o aborto, estão sendo racionais, e, quando os ateus o defendem, estão fazendo e pretendendo impor — mais uma vez — um incrível ato de fé.

Saindo para a luz

Mas saber que Deus existe, poder olhar o mundo e a vida a partir dessa certeza, é como sairmos à luz do dia, após termos vagueado, errantes, por um labirinto de sombras que jamais conduzirá à parte nenhuma.

Luz solar para a vida é, com efeito, contemplarmo-nos a nós mesmos como aquilo que realmente somos: obra de Deus, feitura de Deus, seus filhos.

Deus criador, certamente, não fez o mundo de maneira impensada, como que por um descuido; seria absurdo só imaginar isso. Deus criou o mundo e, dentro dele, o homem, agindo como quem é: a suma Sabedoria, o supremo Amor.

Isto significa, para já, que o homem não só não é fruto do acaso, como é o fruto de um pensamento e de um querer divinos. Para expressá-lo com a nossa linguagem comum: o homem — como, de resto, toda a criação — é um projeto modelo ideal do ser humano e, ao mesmo tempo, a idéia exata daquilo que é a verdade e o bem,a lei moral, que a teologia cristã chama lei eterna (porque existe eternamente em Deus e é válida eternamente, para todos os seres humanos). idealizado por Deus.

Desde sempre, esteve na mente de Deus o do homem, daquilo que o pode levar à plenitude e à felicidade. Essa idéia do do homem, concebida pela Sabedoria de Deus, é precisamente a Santo Tomás, concisamente, resume a questão dizendo que a lei eterna — norma moral suprema para a consciência do homem — é “a razão da divina Sabedoria que conduz tudo ao devido fim” (Suma Teológica, I-II, quest. 93, art. 1). O que equivale a dizer: a Sabedoria divina “sabe”; a Sabedoria divina conhece a razão por que isto e não aquilo é umbem para o homem. Em suma, só Deus conhece perfeitamente o que o homem é e aquilo que o conduz à sua realização.

Essa idéia, esse plano sobre o homem, Deus o descortina nos mandamentos da sua lei: fundamentalmente, nos Dez Mandamentos. É exatamente isso que a Encíclica Veritatis splendor de João Paulo II recorda com limpidez: “Deus, que é o único bom (cf. Mt 19,17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e, devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos” (n. 35).

Nesta última frase aparece uma expressão interessante: “propõe”. Isto quer dizer que os mandamentos “mandam”, certamente, mas não nos são “impostos” à força por Deus. O ser humano foi criado livre; não é pura matéria, cegamente submetida a umas leis físicas às quais não se pode subtrair. Dotado por Deus de uma alma espiritual e imortal — imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26) —, o homem é chamado a atingir o seu fim de modo consciente e voluntário, livremente. E é a sua consciência que, conhecendo a lei que lhe propõe o bem, deve julgar se — em conformidade com essa lei — as suas escolhas e as suas ações estão certas ou erradas.

“Na intimidade da consciência — lê-se na Constituição Gaudium et spes do Concílio Vaticano II —, o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar e a fazer o bem e evitar o mal, no momento oportuno a voz dessa lei soa-lhe nos ouvidos do coração: faze isto, evita aquilo [...]. Obedecer a ela é a própria dignidade do homem, que será julgado de acordo com essa lei” (n. 16).

Já desde os primórdios do Cristianismo, o ensinamento moral apresentava a decisão livre de obedecer “à voz dessa lei” como absolutamente determinante do significado e do bom termo da existência. A Didaqué ou Doutrina dos doze Apóstolos, um escrito cristão do século I, começa assim: “Há dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande”. O caminho da vida — explica — consiste em amar a Deus e o próximo e observar todos os outros mandamentos. Pelo contrário, quem despreza os mandamentos e se entrega às paixões, hipocrisias, orgulho, adultério, rapinagens, etc., esse envereda pelo caminho da morte. “Filho, fica longe de tudo isso”, exorta o autor anônimo desse antiquíssimo escrito (itens I e II).

Se o homem observar, com fé e amor, a santa lei de Deus, andará na verdade (Jo 3,4) e viverá (Lc 10,28). Se optar pela falsa lei do egoísmo e da conveniência, perderá a vida (Mt 16,25-26).

O “não” positivo que permite dizer “sim”

Não sei se reparou, mas cada proibição da lei de Deus, quando bem entendida, é o não imprescindível para poder dizer um sim amoroso e feliz. Se Deus nos proíbe que odiemos, e nos manda dizer não ao ódio, é para que possamos dizer um sim total ao amor, para que fiquemos liberados para o amor sem fim. Se Deus nos diz: “Não pecarás contra a castidade”, “Não cometerás adultério”, é para que, dizendo nãoao sexo egoísta, possamos dizer sim ao amor profundo e fiel, vivido com a alma e com o corpo, dentro do matrimônio santo, generoso e fecundo.

Dizer não à devassidão e à impureza é “afirmar jubilosamente” — como dizia São Josemaria Escrivá — que a castidade é própria de enamorados que sabem entregar-se e aprendem a dar-se, iluminando o mundo com o seu “dom” sorridente…

Este é um dos preciosos ensinamentos da Encíclica Evangelium vitæ de João Paulo II, que assenta a defesa da vida — contra os crimes do aborto e da eutanásia — sobre as bases firmes do preceito negativo: “Não matarás”. Vale a pena transcrever alguns trechos:

“Os mandamentos de Deus ensinam-nos o caminho da vida. Os preceitos morais negativos, isto é, aqueles que declaram moralmente inaceitável a escolha de determinada ação, têm um valor absoluto para a liberdade humana: valem sempre e em todas as circunstâncias sem exceção. Indicam que a escolha de determinado comportamento é radicalmente incompatível com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana, criada à sua imagem […].

“Já neste sentido, os preceitos morais negativos têm uma função positiva importantíssima: o «não» que exigem incondicionalmente aponta o limite intransponível abaixo do qual o homem livre não pode descer, e simultaneamente indica o mínimo que ele deve respeitar e do qual deve partir para pronunciar inumeráveis «sins», capazes de cobrir progressivamente todo o horizonte do bem, em cada um dos seus âmbitos” (n. 75).

Este é o magnífico panorama que a lei divina desvenda à consciência moral. Estando, como estamos, tão propensos a saltar fora do caminho, a afundar no egoísmo, a errar e perder-nos, é natural que o fato de descobrir essas verdades nos mova a elevar a Deus um cântico de agradecimento por ter inscrito nos nossos corações, e ter-nos ensinado tão claramente, pela Revelação divina, o caminho santo da lei:Quanto amo, Senhor, a vossa lei; durante o dia todo eu a medito…; os vossos mandamentos são a verdade; a vossa palavra é um facho que ilumina os meus passos, é uma luz no meu caminho; correrei pelo caminho dos vossos mandamentos, porque sois Vós que dilatais o meu coração (Sl 119,32.97.105.151).

(Adaptação de um texto do livro de F. Faus: A voz da consciência)

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* A Filosofia do nosso tempo fez da NEUTRALIDADE perante qualquer valor o seu único dogma aceitável.

segunda-feira, novembro 28th, 2011

João Pereira Coutinho

A Benetton ainda existe. Quem diria. Caminho pelas ruas e vejo a última campanha polémica da marca: grandes líderes mundiais em beijos apaixonados.

As parelhas são óbvias em sua óbvia diferença ou inimizade. Temos Barack Obama beijando o presidente chinês Hu Jintao. O israelense Benjamin Netanyahu beijando o palestino Mahmoud Abbas. O premiê sul-coreano beijando o ditador norte-coreano Kim Jong-il.

E o Papa Bento 16, claro, que nunca pode ser esquecido nessas ocasiões solenes, beijando com solenidade o imã da Grande Mesquita do Cairo.

A mensagem da Benetton, como sempre, é “simpática”, “leve” e “divertida”: para que tanto ódio quando um beijo cura tudo?

Divulgação/Benetton
Campanha da Benetton apresentou montagem com Hu Jintao e Obama, presidentes da China e dos EUA, respectivamente
Campanha da Benetton apresentou montagem com Hu Jintao e Obama, presidentes da China e dos EUA, respectivamente

De fato. Se, em 1939, Winston Churchill vestisse Benetton, ele saberia que a melhor forma de lidar com Adolf Hitler não seria derrotá-lo ou eliminá-lo. Seria, simplesmente, beijá-lo.

O problema da campanha da Benetton é que ela revela, de forma cristalina e aparentemente inofensiva, o que existe de ilógico na mensagem pacifista. Porque não há nada de mais ilógico do que a ideia “consensual” de que todos os seres humanos têm igual mérito moral.

Não interessa o que você é. Não interessa o que você faz. Para a Benetton, não existem diferenças entre um democrata e um ditador; não existem diferenças entre alguém que respeita os direitos humanos e quem os nega ou viola.

A Benetton é pacifista. E o pacifismo não discrimina: nunca atribui a nenhum sujeito uma qualidade moral distinta de acordo com a sua conduta ou caráter. Para a Benetton, somos todos iguais: criminosos ou respeitadores da lei; fundamentalistas ou tolerantes – somos todos, numa palavra, beijoqueiros.

Eis, em propaganda publicitária, a filosofia do nosso tempo. Um tempo que fez da neutralidade perante qualquer valor o seu único dogma aceitável. “É proibido proibir!”, dizia-se no maio parisiense de 1968. Hoje, é proibido condenar.

E se as vítimas, ou as famílias das vítimas de alguns desses ditadores ou torcionários, ainda alimentam um grão de ódio pelas injustiças dos carrascos, a Benetton tem um conselho para elas: fechar os olhos, juntar os lábios – e beijá-los.

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* Minha vida moral “particular” faz diferença para a sociedade em que vivo?

sexta-feira, novembro 4th, 2011

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A quantidade e complexidade de leis que regem a sociedade brasileira podem ser indicativas do desejo e procura da moralidade. Um valor que precisa e deve ser edificado no recôndito da consciência moral de cada pessoa.

A sociedade se sustenta também da vida moral de seus cidadãos. E as raízes dessa vida estão na subjetividade de cada pessoa. Esse núcleo recôndito da personalidade de cada um tem força determinante nos rumos da sociedade. Vale a lembrança, segundo narra o evangelista Mateus no capítulo 23, daquela advertência que Jesus Mestre faz aos seus discípulos referindo-se aos escribas e fariseus. Jesus disse: “Os escribas e fariseus sentaram-se no lugar de Moisés para ensinar. Portanto, tudo o que eles vos disserem fazei e observai, mas não imiteis suas ações. Pois eles falam e não praticam. Amarram fardos pesados e insuportáveis e os põem nos ombros dos outros, mas eles mesmos não querem movê-los, nem sequer com um dedo.”

Falar não basta. Legislar não é suficiente. É indispensável cultivar uma ilibada vida moral, não só em função de méritos pessoais, mas como contribuição decisiva e determinante nos rumos da sociedade. No mistério e na dignidade de toda pessoa humana está uma fonte indispensável para se alcançar equilíbrio na sociedade e na configuração de sua cultura, marcada pelo sentido de respeito à vida e a convicção sobre o que a cidadania exige de cada um.

A cidadania não é uma opção como a que se faz por um time esportivo, que se pode renunciar, trocar, nutrir revoltas ou localizar-se na indiferença. A cidadania depende visceralmente da condição moral de cada sujeito. Seu comprometimento é pela vida na sociedade. Ora, a pessoa não pode ser entendida de maneira redutiva, unicamente como uma individualidade, edificada por si mesma ou sobre si mesma. Também não pode ser entendida apenas como um papel funcional dentro de um sistema. Cada pessoa está integrada numa teia de relações. Estas relações não são uma simples e maquinal inserção no conjunto material, embora sejam luar de sua realização e da sua liberdade. Há, pois, uma característica de toda pessoa que é sua abertura à transcendência. Trata-se de uma abertura ao infinito e a todos os seres criados. É uma abertura a Deus e aos outros.

Associado a este entendimento está a dimensão única de cada pessoa. Esta singularidade remete ao seu núcleo constitutivo central, sua subjetividade, como centro de consciência e de liberdade. Esta singularidade pressupõe de todas as instituições um irrestrito respeito. E também um compromisso de ordem moral com a nucleação de princípios e valores que definem sua vida moral.

Cada pessoa pode configurar sua cidadania, nos balizamentos próprios de sua cultura e de seu contexto social e político, contribuindo com uma vida moral sustentadora da indispensável sociabilidade humana. Ao se compreender a pessoa como um ser social está se referindo à sua subjetividade relacional. Isso significa dizer que a consciência é iluminada pela compreensão que abarca a vivência de um ser livre e responsável, capaz de reconhecer e praticar a necessidade de integrar-se e colaborar com os próprios semelhantes. Isto é, tem uma vida moral que o capacita para a comunhão com os outros na ordem do conhecimento e do amor.

O Catecismo da Igreja Católica define esta sociedade como “um conjunto de pessoas ligadas de maneira orgânica por um princípio de unidade que ultrapassa cada uma delas. Assembleia ao mesmo tempo visível e espiritual, uma sociedade que perdura no tempo; ela recolhe o passado e prepara o futuro.”

A vida comunitária se torna, então, uma característica própria na formação da sociedade. O agir social não é uma arbitrariedade ou a simples satisfação impulsiva dos próprios desejos, gerando manipulações ou cegando para o sentido de respeito e apreço pela dignidade do outro. Chamada à vida social, a pessoa humana constitui a sua cidadania nos alicerces da sua vida moral. Comprometida, a vida moral consequentemente compromete a cidadania. São inevitáveis os prejuízos danosos para a sociedade. Sem investimento e cultivo da vida moral, a sociedade claudica.

É verdade que a sociabilidade humana indispensável para a construção de uma sociedade justa e solidária não desemboca, por si só, na comunhão das pessoas. Isto quando a vida moral está envenenada pela soberba, egoísmo, pelos fechamentos individualistas e a nefasta opressão do outro. A vida moral de cada cidadão dá à sociedade um rumo adequado, com mais justiça e solidariedade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo é arcebispo metropolitano de Belo Horizonte – MG

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* A Igreja fundamenta sua moral e ética na “lei natural”. Você a entende?

quarta-feira, setembro 7th, 2011
Como há leis que regem os movimentos dos corpos (leis físicas), suas transformações (leis químicas) e o funcionamento dos organismos (leis biológicas), há também as que dirigem os atos livres dos homens (leis morais).
Em face destas últimas, manifesta-se a liberdade humana, ao passo que aquelas outras atuam, necessariamente, no plano do determinismo. Todas as leis elaboradas pelos homens na sociedade fundam-se na lei natural, cuja transgressão as torna iníquas. E dizer que se fundam na lei natural é o mesmo que dizer que são conformes à reta razão e à eqüidade. Fora disso, de lei conservam apenas o nome.
Usa-se, neste caso, a expressão lei natural porque:
1) ela tem sua causalidade intrínseca na própria natureza humana, cujas inclinações naturais a manifestam (elemento ontológico);
2) ordena o homem para os fins ou bens que lhe permitem realizar a sua natureza em toda a plenitude (elemento teleológico);
3) é conhecida universalmente por todos à luz natural da razão (elemento gnoseológico).
Em suma, a lei natural, no sentido de lei moral, consiste em normas segundo as quais o homem viverá como homem – sem se deixar animalizar, arrastado por tendências inferiores ou dominado pelas paixões – observando sempre a justiça e procedendo retamente para com todos. Seus primeiros princípios são de evidência imediata, a partir daquele princípio primeiríssimo: bonum faciendum, malum vitandum, o bem deve ser feito e o mal, evitado.

Quanto a saber o que é o bem para o homem, isto resulta do conhecimento da natureza humana, quer dizer, da observação e da experiência. Daí procedem os princípios secundários da lei da natureza, conforme a ordem das inclinações naturais, assim enumeradas por Santo Tomás de Aquino (1225?-1274), no Tratado das Leis da Summa Theologiæ (Ia. IIae., q. 94, a. 2):
1) inclinação conforme à natureza que o homem tem de comum com todas as substâncias (as substâncias tendem para a conservação de seu ser, donde, para o homem, o direito à vida);
2) inclinações fundadas na natureza que lhe é, sob certo aspecto, comum com os animais irracionais (cabe aqui considerar a união dos sexos e conseqüentemente o direito à constituição da família e à educação dos filhos, com as peculiaridades do homem enquanto ser racional e não numa união meramente instintiva);
3) inclinações próprias do ser racional (o conhecimento da verdade, a religião, a vida em sociedade). Esta análise das inclinações humanas e dos preceitos da lei da natureza que lhes correspondem é feita depois de ter Santo Tomás de Aquino apontado na lei natural uma “impressão da lei divina em nós”, definindo-a como “participação da lei eterna na criatura racional”, participatio legis aeternae in rationali creatura (Ia. IIae., q. 91., a. 2).

Guiados pelo instinto, os animais têm a percepção sensível natural, e estão inflexivelmente submetidos à ordem universal, mas sem o conhecimento dela. Este conhecimento é alcançado pelos seres inteligentes, e por isso mesmo o homem é capaz de descobrir a ordem da natureza, formulando as leis físicas, químicas e biológicas; e tem ainda a faculdade de distinguir o bem do mal e, partindo daí, conhecer os primeiros princípios de sua conduta moral. Ora, toda esta ordem moral, aspecto particular da ordem universal, procede da razão divina ordenadora. Eis porque Santo Tomás diz que a lei natural é um reflexo da lei eterna no homem.
Aplicados à concreta realidade histórica, os preceitos da lei natural são complementados pelas multivariadas normas que constituem a ordem jurídica positiva de cada povo. Ocorre, entretanto, que essa variedade não se cinge ao direito positivo, mas também pode ser constatada nas idéias que os homens têm sobre a moral, cujas mutações no tempo e no espaço levam alguns sociólogos a negar, nesse domínio, princípios imutáveis e universalmente conhecidos, concluindo deles que a moral não passa de um produto de convenções sociais. As variações da moral foram muito bem estudadas por Simon Deploige (1868-1927), que as explica pelas seguintes causas:
1) a influência das paixões;
2) o desigual desenvolvimento da razão e da civilização;
3) a diversidade dos meios, das situações e das circunstâncias (Le conflit de la morale et de la sociologie, cap. VII, nº 4, 2ª Ed., Nouvelle Librairie Nationale, Paris, 1912).
Se os preceitos secundários da lei natural podem variar, isto não afeta a universalidade e imutabilidade dos primeiros princípios, princípios evidentes, à luz dos quais sempre se admitiu, por exemplo, que os filhos devem respeitar os pais e que o homicídio e o roubo são condenáveis, o que todos os povos continuam a aceitar. Não obstante aquelas variações, nem a sociologia, nem a axiologia mais relativistas podem deixar de reconhecer que as idéias de justiça, dever e direito são naturalmente alcançadas por todos os homens, sem que a diversidade de costumes, crenças e convenções sociais chegue a apagá-las da consciência humana.
Dicionário de Política, José Pedro Galvão de Sousa, Clovis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho; T. A. Queiroz editor, São Paulo, 1998.
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Sem a alegria da beleza, a verdade se torna fria e até impiedosa e soberba, como vemos que acontece no discurso de muitos fundamentalistas amargurados. Parece que mastigam cinzas ao invés de saborear a doçura gloriosa da verdade de Cristo, que ilumina, com luz mansa, toda realidade, assumindo-a assim como ela é a cada dia.(Papa Francisco)
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