
A Igreja Católica tem uma doutrina moral inalterada, imutável, eterna e que, como tal, deve ser por nós aceita, acatada e respeitada no nosso modo de agir habitual. Esta doutrina moral faz parte do depósito sagrado e inviolável de Fé Católica e, por isso mesmo, jamais será alterada.
Mas, como somos humanos e erramos, muitas vezes falhamos na correta interpretação – e posterior aplicação – dessa doutrina, caindo, muitas vezes, em um dos dois vícios, erros que lhe estão associados.
Contudo, como não estamos aqui a veicular opiniões pessoais mas tão-somente a repetir o que a Igreja sempre ensinou, não custa reescrever o que outros já afirmaram tão claramente, a fim de que os que ainda não tiveram qualquer acesso a esse ensinamento possam ler e conhecer.
A moral católica trabalha com princípios e regula as práticas. A moral católica, em muitos casos, dá-nos regras específicas de conduta a seguir e, noutros, dá-nos os princípios norteadores, aqueles princípios pelos quais devemos pautar a nossa acção, as nossas práticas.
Dois erros gravíssimos de moral são o relativismo e o rigorismo. Nunca foi tão verdadeiro – e isto pode perfeitamente aplicar-se à moral católica – que é no meio que está a virtude.
O relativismo, laxismo, é relativizar aquilo que é absoluto. Quando uma norma é absoluta, sendo obrigatório o seu cumprimento, vinculante agora e para sempre e para todas as culturas e épocas; e vem alguém e tenta, por todos os meios possíveis, relativizar o princípio, dar-lhe outra coloração, reinterpretá-lo ao seu bel-prazer, ajustá-lo às suas conveniências.
É o que o Santo Padre muito se tem esforçado por combater: a chamada ditadura do relativismo, do deixa andar, do «cada um é católico à sua maneira», cada um pratica do seu modo, cada qual segue as suas tendências, sem olhar aos ensinamentos imutáveis do Magistério e da sã doutrina.
Os relativistas suavizam tudo, minimizam tudo, atenuam a gravidade de seríssimas situações de transgressão da lei moral, até nada restar da norma absoluta e vinculativa. Esses, gostam muito da pastoral caso-a-caso e passam a vida a tentar multiplicar ao cêntuplo os casos individuais em que a norma não se aplica; as excepções chegam a mil. Chega a um ponto em que a exceção é aplicar a lei moral que vincula!
O relativista é, pois, aquele que relativiza aquilo que é absoluto, intocável, inalterável agora e para sempre.
Muitos de nós, ao combater o relativismo, acabamos por cair no extremo oposto que consideramos, erroneamente, menos perigoso: o rigorismo, que nada mais é do que uma aplicação prática, dentro do catolicismo, do puritanismo protestante da Rainha Vitória de Inglaterra. Isso mesmo: o rigorismo nada tem de católico; é uma ramificação do puritanismo protestante; é erro gravíssimo e pernicioso para as almas, porque lhes perturba o coração e lhes rouba a paz de espírito.
Se o relativismo é relativizar o que é absoluto e intocável, o rigorismo consiste precisamente no oposto: absolutizar o que é relativo!!!
Há coisas que, embora não estando diretamente relacionadas com o depósito da Divina Revelação, são, no entanto, de ordem moral e às quais se aplica a lei moral vinculante.
Todavia, outras – tantas! – há que, com o decorrer dos tempos e tendo-se em linha de conta as variações das culturas e das mentalidades próprias de cada época, podem sim – e algumas até devem mesmo! – mudar. E, com elas, muda também o nosso modo de nos posicionarmos perante elas.
Para o rigorismo, ramificação da invencionice puritana/vitoriana protestante, tudo é pecado, tudo é impuro, imoral, pecaminoso. O rigorismo não distingue o que é de ordem moral inviolável e imutável e o que é próprio de cada época, cultura ou mentalidade. O rigorismo não faz a necessária e fundamental diferenciação entre os princípios e a sua aplicação prática, no caso desses princípios e normas serem passíveis de alteração, ou seja, não serem vinculativos, podendo variar a sua aplicação de acordo com a época e a cultura a que se apliquem.
Obviamente, escusado será dizer que, se o relativismo foi condenado como erro moral, o rigorismo também o foi. Se um relativista é um modernista progressista, um rigorista é protestante, ainda que o desconheça. O puritano rigorista acha-se o melhor católico que há no mundo, tem uma piedade que engana, peca por excesso de zelo, por escrúpulo. O escrúpulo é outra desordem moral, muito associada ao rigorismo.
Ninguém pense que é preferível ser rigorista do que relativista. Nunca se combate um erro com outro erro. Mais, é mais fácil ajudar na conversão sincera de um ex progressista/relativista que se arrependa, do que de um rigorista puritano que se crê o melhor católico que há neste mundo e no outro.
O rigorista julga todos através de si, os outros só são bons se seguem o conjunto de regrazinhas que ele inventou como sendo as únicas correctas, morais e católicas.
O rigorista vive atormentado com a noção de pecado, o seu coração não descansa em Deus, ele nunca encontra paz. Vive com um escrúpulo sem medida, esquece-se de viver, não deixa viver os outros, a quem critica dura e cruelmente por não seguir os seus esquemas, os seus padrões de moral asfixiante.
O rigorista não tem paz de espírito, não deixa os outros viver tranquilamente, tem o seu coração perturbado, o seu espírito atormentado. Tortura os outros com aquilo que na sua cabeça é pecado – sem o ser -, não distingue os vários graus da lei moral. É, para ele, tudo a mesma coisa.
Um rigorista não é católico, não deve passar por tal, muito embora sejam bonitinhas as suas palavras e soem bem aos nossos ouvidos. Um rigorista não pode ser recomendado como católico, já que ele é protestante. A sua moral é a moral puritana protestante, a sua vivência espiritual é marcadamente protestante.
Por último, resta acrescentar o mais importante, que valida tudo o que eu disse anteriormente: o rigorismo, asfixiante, pernicioso, muito prejudicial às almas, foi condenado pela Igreja! Como não podia deixar de ser. Se o não fosse, isto não passava de mera opinião pessoal minha. Como foi, é erro moral grave, seríssimo, tão grave quanto o relativismo, precisamente porque se encontra no extremo oposto. Estes dois erros tocam-se, os extremos estão sempre muito próximos. Procuremos sempre uma atitude prudencial, de sabedoria, de moderação, de equilíbrio e ponderação. Sem relativizar o que é absoluto e universalmente válido para todas as épocas e culturas; e sem absolutizar o que é relativo, circunscrito a condicionalismos vários e que, como tal, pode, e em muitos casos deve, mudar com o decurso do tempo e/ou com as flutuações culturais a que estamos todos sujeitos.
O rigorismo ganhou força nos meios jansenistas, fortemente marcados pela teologia calvinista; foi condenado pela Igreja em 7 de Dezembro de 1690, por um decreto do Santo Ofício (cf. Denz. 2301-2332). Eis aí a condenação inequívoca, explícita, do magistério, muito para além das recomendações dos teólogos e Santos Doutores que muito combateram – e se esforçaram por explicar o mais adequadamente possível – os extremos.
Evitemos tocar os extremos. Que todos tenhamos uma vida católica sã, saudável, equilibrada, íntegra; combativa e firme; espiritual e moral; doutrinal e apologética; mas sempre com moderação, sem relativizar o que é absoluto nem absolutizar o que é relativo; e tendo sempre perfeita consciência:
1 de que não somos a última bolacha do pacote;
2 da nossa indignidade, miséria, fraqueza – de que se não nos vale a graça divina, caímos como miseráveis que somos;
3 de não tripudiarmos em cima das limitações dos nossos irmãos.
Eis aqui algo que eu devo corrigir. Quero um dia ser santa. E, embora esteja hoje muito longe disso, devo esforçar-me por aproximar-me, cada vez mais, da realização concreta, na minha vida, dos nobres e santos ideais que tento imperfeitamente seguir e que almejo que todos amem e conheçam.
Cuidado com o rigorismo que escraviza, que aprisiona, que endurece o coração, que rouba a paz de espírito e a vida católica sã.
Agarremo-nos com muita força à nossa Mãe Imaculada, Soberana Senhora e excelsa Rainha e peçamos-Lhe que nos leve purificados a Jesus, que nos conduza por sendas direitas, que nos auxilie a corrigir os erros e a não mais voltar a cometê-los.
Sejamos católicos e tenhamos sempre muito, muito orgulho nisso! Mas não transformemos o catolicismo numa prisão insuportável, que ele não é. Cuidado com os desvios morais e doutrinais, quer à esquerda, quer à direita.
Nós temos a grande responsabilidade com as almas de não recomendar o que é errado. O Demónio também se disfarça de anjo de luz e, sob as aparências de bem, de catolicismo, de falsa piedade puritana, lança as suas armadilhas.
Autora: Magdália
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