* Seria Deus e a experiência religiosa “apenas” uma criação do cérebro humano?
quarta-feira, junho 5th, 2013
Experiências ‘estranhas’, ‘sobrenaturais’, são frequentemente narradas por pessoas afetadas por doenças mentais. Para alguns neurocientistas que se têm pronunciado sobre esta questão em décadas recentes, as experiências fora do comum, relacionadas com Deus, anjos e demônios, relatadas pelos seus pacientes afetados de perturbações mentais, são por eles acriticamente identificadas como experiências religiosas, e com base nelas consideram que se pode proceder a uma análise clinica e cientificamente objetiva da experiência religiosa em geral. Esta corrente tem sido denominada ‘neuroetologia’.
É no contexto da neuroteologia que surgem quatro afirmações sobre a experiência religiosa.
A primeira é a de que ela acontece nos estreitos limites do cérebro humano.
A segunda, é a de que a experiência religiosa é algo de extraordinário, não comum, e está com frequência associada a perturbações mentais.
A terceira é a de que tal experiência é essencialmente emocional e não cognitiva.
A quarta, consequência das três primeiras, é a de que o conteúdo da experiência religiosa nada tem a ver com qualquer realidade divina existente fora dos percursos neuronais do cérebro humano.
Michael Persinger é um dos neurocientistas que primeiro defendeu desde a sua primeira obra Neuropsychological Basis of Human Belief (1987), as teses hoje integradas na neuroteologia, afirmando: “as experiências de Deus são fenómenos transitórios, carregados de referências emocionais. A natureza dessas experiências é influenciada pela zona específica do cérebro na qual tem a sua origem”.( Michael Persinger, Neuropsychological Basis of Human Belief, New York: Praeger Publishers, 1987, p. 1.)
Na mesma linha de Persinger, Rawn Joseph afirma mais especificamente: “a intensa ativação do lobo temporal, do hipocampo e da amígdala, têm sido entendidas como fonte de intensas experiências sexuais, religiosas e espirituais, e a sua hiperestimulação contínua pode levar o indivíduo a estados de hiper religiosidade ou à visualização e experiência de fantasmas, demônios, anjos, e até mesmo de Deus, a afirmar-se possuído por anjos ou demônios, ou ter a experiência de deixar o seu próprio corpo.” (R. Joseph, “Dreams, spirits, and the soul” in R. Joseph (org), Neurotheology. Brain, Science, Spirituality, Religious Experience, San Jose, Califórnia, California University Press, 2003, p. 412.)
Um outro neurocientista, V.S. Ramachandran, afirma, referindo-se às experiências religiosas dos pacientes que sofrem de epilepsia no lobo temporal esquerdo, que “todos os estudantes de medicina aprendem que os pacientes com crises de epilepsia nesta parte do cérebro, podem experimentar fortes experiências espirituais durante as crises, e preocupam-se frequentemente com problemas espirituais e morais, mesmo durante os períodos entre uma crise e outra.” (V.S.Ramachandran – S. Blakeslee, Phantoms in the Brain, New York: Quill William Morrow, 1998, p. 175)
Tais pacientes “vivem experiências espirituais profundas e impressionantes, como o sentimento de uma presença divina e a sensação de se encontrarem em direta comunicação com Deus, e afirmarem-se possuídos por anjos ou demônios, ou a terem a sensação de saírem do próprio corpo.”( Ibid., p. 179)
Observando o lobo parietal posterior superior durante o estado de profunda meditação de um monge budista, Andrew Newberg, um dos mais conhecidos e reputados ‘neuroteólogos’ verificou que existia naquela área cerebral, responsável pela percepção dos limites do próprio corpo e do seu movimento no espaço, uma atividade particularmente baixa. O sentimento de perda da percepção dos limites do próprio corpo e de união com o universo experimentado pelo monge, é o simples resultado da diminuição de atividade neuronal naquela zona do cérebro. O autor afirma que encontrou o mesmo gênero de correlação em religiosas franciscanas que entravam em profunda oração. Newberg apresenta a sua teoria como uma metateologia, que revela as condições neurobiológicas de possibilidade da experiência religiosa.
Sem negar o interesse dos estudos de Newberg e dos neuroteólogos em geral, deve dizer-se que há em todos eles um esquecimento da natureza relacional do ser humano, e da dimensão comunitária da experiência religiosa, entre outros elementos.
Além disso, as experiências acima apresentadas pelos neurocientistas, são em geral, fonte de prazer. Como afirma mais explicitamente Persinger, “normalmente a experiência de Deus inclui emoções eufóricas e positivas. A pessoa fala de uma extraordinária experiência de Deus que é caracterizada por um profundo sentimento de paz, de serenidade cósmica e do significado de tudo. Trata-se sempre de um estado que inclui a redução da ansiedade acerca da morte.” (Neuropsychological Basis of Human Belief, p. 2)
Ora, a experiência religiosa não tem que ser necessariamente caracterizada por uma paz silenciosa, ou sequer por uma agitada euforia. Há pessoas cujas experiências religiosas passam por períodos, por vezes longos, de aridez e sofrimento. Como afirma Woodward, “um dos principais erros dos neuroteólogos consiste em identificar a religião com experiências e sentimentos específicos. Perder-se na oração pode ser agradável e excitante, mas estas emoções não têm nada a ver com a qualidade da nossa relação com Deus. De fato, muitas pessoas rezam melhor quando sentem vergonha ou dor, e o sentimento da ausência de Deus não é menos válido que a experiência da presença divina.” (“Faith is more than a feeling”, Newsweek, 7, May 2001, p. 58.)
Os autores que associam as experiências religiosas à activação neuronal do lobo temporal esquerdo durante episódios de epilepsia não fazem qualquer distinção entre experiências religiosas normais e patológicas, com excepção de Andrew Newberg. O autor reconhece que é um erro estabelecer uma associação necessária entre experiência religiosa e patologia: “nem todas as pessoas com epilepsia no lobo temporal esquerdo têm experiências religiosas, e certamente nem todas as experiências religiosas estão relacionadas com a atividade epiléptica no lobo temporal esquerdo. … Por conseguinte, o estudo neurocientífico das experiências espirituais deve, em parte, incluir uma ulterior distinção entre experiências espirituais que ocorrem em pessoas sem perturbações neuropsiquiátricas e experiências espirituais associadas com patologia.” (A. Newberg, “Pathological and normal spiritual experiences”, in The Global Spiral, 2001.12.10, em www.metanexus.net.)
Persinger e os demais neurocientistas citados não estabelecem a necessária distinção entre a condição necessária para que se verifique a experiência religiosa, ou qualquer outra experiência, – a actividade neuronal -, e a condição suficiente para que se verifiquem tais experiências.
Uma condição necessária não é sempre condição suficiente e, no caso da experiência religiosa, a actividade neuronal só poderia ser considerada condição suficiente se aquela experiência fosse fundamentalmente causada pelo cérebro. Ora, isso é o que se pretende provar. Não se pode partir desse pressuposto. A experiência religiosa tem a ver não apenas com a ativação cerebral, mas também com a cultura em que a pessoa se encontra – não necessariamente aquela em que nasceu ou em que foi educada – e tem a ver com opções livres e racionais no contexto da vida quotidiana, opções que são o resultado da interação de complexos fatores, internos e externos. Para os crentes, entre estes fatores está, tanto interna como externamente, Deus. Por conseguinte, a ativação neuronal é condição necessária mas não suficiente da experiência religiosa.
P. Alfredo Dinis, sj

















Fonte: G Prime
Boom da editoria sacra. 

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