Posts Tagged ‘Salvação’

* Para haver justiça basta remover as causas externas que impedem sua atuação? fala-nos o Papa.

quarta-feira, fevereiro 17th, 2010

A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22 )

Queridos irmãos e irmãs,

todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos evangélicos . Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos – , mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se “ a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar – admoesta Jesus – é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição ; á lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva ( cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre ( cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anuncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De fato não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico , mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo, obvio: é  necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças á acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Outubro de 2009

BENEDICTUS PP. XVI

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* O Homem precisa de Deus para ser ele mesmo!

domingo, fevereiro 7th, 2010

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“Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cf. Gl 3, 13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui se manifesta a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.”

(Papa Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2010, § 6-7; 30 de outubro de 2009)

A proposição do Papa para a quaresma desse ano explica a justiça cristã. O homem, que herda de Adão o pecado original (cf. Sl 51, 7) não pode salvar a si mesmo. Ele, por si mesmo, não pode ir para o Céu. Então, Deus se compadece do homem e manda à humanidade Seu Filho único para que possa redimi-la e purificá-la. Eis a justiça de Deus: Ele não se compraz em ver o sofrimento dos fracos; não se compraz na condenação daqueles que se esforçam para amar a Deus. Por isso, envia seu Filho, Jesus Cristo. Ele devolve aos homens a graça que o gênero humano havia perdido pela renúncia do bem.

O homem se vê indigente. Todos os cristãos clamam junto com o salmista: “Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl 51, 7). Mas ao mesmo tempo louvam a Misericórdia de Deus, bem traduzida nos versos que entoamos no dia de Páscoa: “Ó pecado de Adão, indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor. Ó culpa tão feliz que há merecido a Graça de um tão Grande Redentor!” O homem se apegou aos bens finitos e mutáveis, se apegou à realidade material, obstinando-se na prática do pecado e violando a Aliança que Deus havia firmado com seu povo. Mas, eis que surge o Filho do Homem. Ele realiza uma Nova Aliança, na qual o homem descobre a inutilidade do seu egoísmo e a insensatez daquela idéia de auto-suficiência.

Não. Nós, por nós mesmos, nada podemos fazer de bom. É preciso que o homem se apegue ao Bem eterno e imutável. Mas, como poderá ele, com seu coração ferido pela arrogância e pela prepotência, se achegar a Deus? Graças sejam dadas a Jesus Cristo, que inaugura a justiça cristã! O homem pode finalmente gozar da alegria de estar junto de Deus. Com Cristo, ao mesmo tempo, acontece o processo de libertação. Ele é a genuína Verdade e é conhecendo a Ela que poderemos nos libertar (cf. Jo 8, 32) do nosso egoísmo. Com efeito, o cristão põe no centro de sua vida Jesus, e não ele; porque sabe bem que não é seus méritos que alcança a salvação, mas unicamente pela graça de Deus. O cristão confessa dia após dia aquilo que São Paulo há muito dizia: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Não sou eu que me salvo; minha natureza é caída. Eu, por mim mesmo, não posso me levantar. É Cristo quem ergue o homem, devolvendo-lhe a graça, aquele bem precioso que tinha perdido no dia que havia desobedecido a Deus.

Eis a verdadeira justiça!, clama o Papa. Possamos ouvi-lo, possamos descobrir na Redenção uma fonte insondável de amor e misericórdia. Não lamentemos aquilo que já foi. Louvemos Aquele que é. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20).

Everth Queiroz Oliveira

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* Deus está de volta! Testemunho da força do evangelho,na França.

quinta-feira, outubro 22nd, 2009

Responde Jean-Baptiste Maillard, autor de “Deus está de volta”

Por Gisèle Plantec

“Na França, a Igreja se sente bem quando evangeliza”: esta é a constatação de Jean-Baptiste Maillard, autor de Dieu est de retour (Deus está de volta), uma obra escrita após uma pesquisa de campo, para descobrir como está a Igreja na França hoje.

***

-Esta obra é fruto de uma pesquisa de campo. Você pretendia ver pessoalmente como está a Igreja na França? Que impressão você teve?

-J.-B. Maillard: Pude constatar que, na França, a Igreja se sente bem quando evangeliza. Quantas riquezas insuspeitadas! Imagine-se em um cabaré disposto a evangelizar: é o que faz todo final de semana o Pe. Axel, a quem tive a alegria de acompanhar, descobrindo assim a presença de Deus em um lugar inesperado. E é verdade, Deus está em todos os lugares, está de volta, e nós somos testemunhas!

O que você diria se desse carona a um jovem seminarista que quer fazer você encontrar Jesus? Como reagiria se, durante uma peregrinação a Medjugorje com o Club Medj, um motorista lhe propusesse uma volta de moto para trazer não-crentes? Você acreditaria na existência de um jovem rabino, recentemente convertido ao catolicismo, que lê a Bíblia escondido desde os 8 anos? Ou acreditaria na religiosa do mosteiro cisterciense Nossa Senhora de Bonneval, onde não havia vocações há 30 anos, falando de evangelização? E ainda, nesta nova comunidade, a Sociedade de Missionários da Misericórdia Divina, aderida à forma extraordinária do rito – na qual o bispo acaba de ordenar 2 dos seus 10 seminaristas – que propõe Cristo aos muçulmanos (cf. www.annuncioblog.com)? Estas são as pessoas que interroguei em “Deus está de volta”.

A constatação é simples: é possível anunciar Cristo a todo mundo, seja aos sem-teto, aos casais, às crianças, aos seus colegas de trabalho, aos transeuntes… E funciona! Existem conversões fulgurantes, outras discretas. Dito isso, “a messe é grande, mas os operários são poucos” (Mt 9, 37). A Igreja precisa de uma dinâmica de crescimento, usando uma expressão do Pe. Mario Saint Pierre, doutor em Teologia, a quem interroguei sobre a questão da formação. Isso se aplica a toda a nossa evangelização: “O discípulos não é superior ao seu mestre” (Lc 6, 40): se Jesus vai procurar as ovelhas uma a uma, nós devemos fazer a mesma coisa!

-Que conselho você daria a um cristão, a um sacerdote ou inclusive a um bispo desanimado, que tem o sentimento de que a Igreja está a ponto de desaparecer de perto dele?

-J.-B. Maillard: Estou pouco preparado para isso, mas já que você me pede um conselho, eu diria que hoje os cristãos têm tudo para “mudar o mundo”. O Evangelho tem este magnífico “poder”. Deus está de volta no coração dos nossos contemporâneos que o haviam rejeitado; numerosos sinais testemunham isso cada dia. A messe das almas é abundante e só resta colher, isto é, anunciar.

Então, a um cristão, eu recordaria que, se ele está sozinho, está em perigo. Que se una a uma paróquia, a um movimento, lugares em que a evangelização é a primeira prioridade, para receber o apoio dos seus irmãos, ser animado em sua vida de oração e em seu apostolado. A um sacerdote, que redobre a oração Àquele que deu sua vida por nós e procure encontrar novos meios concretos para evangelizar com seus fiéis, lá onde o Senhor o colocou. A um bispo, eu gostaria de dizer que sua missão, como sucessor dos apóstolos, faz dele o primeiro da fila da evangelização. Com a ajuda do Espírito Santo, ele saberá abrir novos caminhos, longe dos nossos costumes!

-Quais são os sinais mais positivos da vitalidade da Igreja na França, em sua opinião?

-J.-B. Maillard: Veja as crianças que recebem, cada mês, seu “pacote-missão”: evangelizar seu ambiente, inclusive seus colegas de sala! Não é um sinal de vitalidade? Em todos os lugares, há “sementes de esperança” desconhecidas que fazem o Reino avançar. É isso que eu quis mostrar com “Deus está de volta”.

Uma nova geração de católicos está a ponto de despertar, como explica bem o Glorious (projeto pastoral de jovens), cuja fórmula paroquial “Lyon centro” está tendo um grande êxito. Outro exemplo é o Festival “Anúncio”, que, há 2 anos, propõe, a mais de 300 jovens, uma iniciativa muito rica de sentido. Isso sem esquecer do Festival Mariano Internacional, que pode ser interpretado como um “sinal” do cumprimento da profecia de Marthe Robin: ela via a França voltar a levantar-se, recorrendo à ajuda de Nossa Senhora. Mas, para mim, o sinal mais positivo é o número crescente de lugares de adoração, paralelamente a uma nova conscientização da nossa primeira missão: o anúncio de Cristo.

-Em sua opinião, onde estão as maiores dificuldades, os principais obstáculos para a evangelização?

-J.-B. Maillard: O principal obstáculo para a evangelização, assim como para a santidade, somos nós mesmos. Como vai a nossa relação com Jesus? Aproveitamos realmente os sacramentos que Ele nos dá através dos seus ministros? Sabemos deixar que Ele nos veja através da adoração? Na encíclica Redemtoris Missio, sobre a missão de Cristo redentor, muito atual neste Ano Sacerdotal, João Paulo II dizia que o maior missionário é o santo. Explicava também que a contemplação é o motor da evangelização. É necessário que a presença real e a adoração estejam no centro das nossas paróquias, dos nossos encontros.

Cada um – e eu estou incluído! – deve recordar que a caridade, como nos diz Bento XVI, é a alma da missão. Também devemos ser mais caridosos no limiar e no interior da Igreja, até em nossas famílias. Pode ser que a graça da época que vivemos seja a de poder reencontrar uma melhor compreensão da missão que Cristo nos confiou, como diz Sor Anne-Claire no meu livro. Devemos nos abrir a tudo isso.

-Na Europa em geral, as vocações diminuem, assim como a prática religiosa. Em alguns países da América Latina, da África, da Ásia, o aumento é, pelo contrário, surpreendente. Você acha que a Europa pode extrair alguma lição disso? Esses países evangelizam mais?

-J.-B. Maillard: É verdade que estes países conhecem uma “nova juventude”. Pode ser devido à sua recente evangelização, enquanto a Europa é uma “idosa” no âmbito espiritual; isso quer dizer que é possível um enriquecimento mútuo.

Conheço mal esse país, mas vejamos o exemplo do Brasil, onde acompanhei um bispo francês em 2007 para visitar as novas comunidades. Ainda que todas fossem diferentes, impressionou-me o seu zelo missionário e o número de vocações. Em todas essas comunidades, a existência de capelas vivas, permanentemente habitadas pela presença orante dos seus membros, levou-me a refletir. Visitei especialmente a rede de televisão da comunidade Canção Nova, que conta com uma frequência nas ondas nacionais e que vive somente de doações. Ela foi criada com um objetivo de evangelização através dos meios de comunicação, depois de seu fundador ter sido inspirado pela exortação apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI, dedicada à evangelização no mundo moderno (Bento XVI a cita em sua última encíclica e em sua mensagem para o Dia Mundial das Missões 2009, que será comemorado no próximo dia 19 de outubro).

Hoje, a Canção Nova chega a 50 milhões de espectadores e 2,5 milhões de internautas por semana. Quando organizam um evento para os jovens, estes participam vindo do Brasil inteiro, e lotam seu auditório, de 70 mil lugares. Podemos tirar muitas lições deste exemplo: certamente, seria preciso adaptar o conteúdo das emissões brasileiras ao público europeu: uma inculturação é sempre necessária. Mas isso não deve ser um pretexto para nos contentarmos com nossos meios atuais, de simplesmente revigorar a fé dos católicos “existentes”. Neste campo, seria preciso, como mínimo, que cada país tivesse uma rede de evangelização nas ondas nacionais, uma rádio e um site para evangelizar as massas.

Outro exemplo: no final de setembro, em Brasília, houve um evento diocesano de massas, o 14º “Hallel” (Aleluia), primeiro encontro musical cristão da América Latina. É um seminarista francês que estuda lá que nos relata em Anuncioblog: “Com o grande reforço de artistas católicos brasileiros e de numerosos oradores, são mais de 200 mil pessoas que passaram pelo lugar ao longo do dia, inaugurado com a Missa presidida pelo bispo de Brasília. Havia uma grande capela, montada para a ocasião, acolhendo o Santíssimo Sacramento, exposto durante toda a duração do evento. Ao lado da exposição, estava o lugar dedicado às confissões, onde quase 3 mil pessoas puderam se reconciliar com Deus. Todos os movimentos, pastorais, congregações religiosas, comunidades novas e paróquias da diocese estavam presentes, para testemunhar sua fé e anunciar o Evangelho a todos os participantes”.

Este conceito, portanto, chegou da França, mas os brasileiros souberam desenvolvê-lo com um ardor novo. De maneira geral, a Europa deve aprender, como eles, a falar a todos. Deve sobretudo aprender a desprender-se do seu intelectualismo. A França permaneceu muito cartesiana; é preciso explicar tudo, incluídos os grandes mistérios de Deus. Agora a fé já não se explica! A fé é um dom de Deus que responde ao “sim” de cada um. E eis aqui o que estas comunidades nos ensinam: é preciso deixar que o amor de Deus nos acolha.

Por isso, na França, como na Europa, a evangelização precisa de uma mudança de paradigma no âmbito dos métodos: falta um anúncio explícito, kerigmático, da Boa Notícia a todos os nossos contemporâneos afastados de Deus, sem exceção. Não podemos permanecer recolhidos sobre nós mesmos, sobre nossas paróquias, movimentos, associações; e devemos, sem cessar, atender espiritualmente todas as almas que esperam, perto de nós – porta a porta? –, perto das nossas casas; falar-lhes de Cristo. Evangelizar não é questão de sensibilidade ou inclusive de emoção. Evangelizar é, sobretudo, amar. Propor um encontro nascido de outro encontro. E é responder ao convite de Cristo: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

***

Confesso que fui lendo essa entrevista e pensando: é isso !!! Esse ardor e parresia na evangelização é que deve nortear nossos serviços apostólicos na Igreja.

Nós existimos para evangelizar ! Para levar Deus para as pessoas !! Não teria sentido vivermos em função de nós mesmos como se a Igreja fosse um” clube de salvos ” e nós, cuidando uns dos outros apenas, em detrimento dos que precisam, fora de nossa comunhão visível, apenas ouvir,saber e experimentar o quanto são amados por Deus!

Importa cuidar sim dos outros,os de dentro também, como expressão de nossa caridade e obediência a nosso Deus,porém amando muito para servir ainda mais !! Servir os OUTROS !

Já existem pessoas demais cuidando de si e de seus interesses no mundo,cuidemos das coisas de Deus e ele cuidará das nossas infinitamente melhor do que nós mesmos.

Para o mundo! para os que sofrem! para os que perderam a esperança! para os ateus! para os agnósticos! para os jovens,crianças e velhos!! Eis para quem existimos!

Evangelizar deve ser nosso foco! todo o mais acompanha esse anúncio,razão essencial de nossa existência como Igreja e como cristãos.

E você, Carríssimo, tem evangelizado?

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Você sabe o que é “Ignorância Invencível”?

sexta-feira, abril 24th, 2009

A salvação daqueles que não conhecem a verdade de Cristo é sempre objeto de reflexão por parte de muitas pessoas na Igreja e fora dela,afinal,por exemplo, com associar a salvação a um indígena que não conheceu a verdade? um Hindu,habitante da India ou até mesmo um Muçulmano,como a doutrina católica se posiciona sobre isso?

Existem na Igreja dois princípios fundamentais a cerca deste assunto: o primeiro é que Deus quer que todos os homens se salvem e que cheguem ao conhecimento da verdade, como diz Paulo na segunda carta a Timóteo. Conhecer, neste sentido, equivale a aderir, acolher na própria vida o Senhor.

O segundo: historicamente, o Evangelho não chegou a conquistar todos os corações, seja porque não chegou materialmente a todos os lugares da Terra, seja porque, ainda que chegue, nem todos o acolhem.

Sobre  isso, nos diz  a teóloga Ilaria Morali, professora de teologia na Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia Gregoriana de Roma, especializada no tema da Graça:

“A doutrina cristã da salvação é muito clara”.

Para explicá-la, recorreria a dois textos do Magistério: o primeiro é um discurso de Pio IX com ocasião do consistório que aconteceu em 8 de dezembro de 1854, por ocasião da solene proclamação do dogma da Imaculada Conceição. O Papa disse que os que ignoram a verdadeira religião, quando sua ignorância é invencível, não são culpados deste fato ante os olhos de Deus.

Anos depois quis retomar este ensinamento declarando o sentido da ignorância invencível na carta encíclica «Quanto conficiamur moerore», de 1863: «É sabido –escreveu–que os que observam com zelo a lei natural e seus preceitos esculpidos por Deus no coração de todo homem podem alcançar a vida eterna se estão dispostos a obedecer a Deus e se conduzem uma vida reta».

Pio IX voltou a propor uma convicção consolidada já há séculos na teologia cristã: há homens e mulheres que, por várias razões, seja por condicionamentos culturais, seja por uma experiência ou um contato negativo com a fé cristã, não chegam ao consentimento da fé.

Ainda que pareça que estas pessoas rejeitem conscientemente a Cristo, não se pode emitir um juízo inquestionável sobre esta rejeição.

Ignorância invencível indica precisamente uma condição de falta de conhecimento com respeito a Cristo, à Igreja, à fé, falta de conhecimento que, pelo momento, não pode ser superado com um ato de vontade.

A pessoa está bloqueada, como impossibilitada para chegar ao «sim» da fé. Como experimentamos todos os dias entre nossos conhecidos, as razões pelas quais muitas pessoas dizem não a Cristo são múltiplas. Uma desilusão, uma traição, uma má catequese, um condicionamento cultural e social…

Pio IX mesmo admitiu a dificuldade de delimitar os casos de ignorância invencível, perguntando-se «quem terá o poder de determinar os limites dessa ignorância segundo a índole e a variedade dos povos, das regiões, dos espíritos e de tantos outros elementos? ».

Pio IX ensina-nos, pois, uma grande prudência e um grande respeito por quem não tem o dom da fé em Cristo.

Não somos capazes de compreender até o final as razões de uma rejeição da fé, nem podemos saber com certeza que quem aparentemente parece que não tem fé, na realidade tem uma forma muito imperfeita de fé.

Para nós, cristãos batizados é bom recordar que nosso batismo não é uma garantia automática de salvação. Se assim fosse, o esforço por conduzir uma vida cristã seria inútil. Cada cristão deve esforçar-se por merecer esta salvação com uma vida de fidelidade a Deus, de caridade para com os irmãos, de boas obras. Contudo, ninguém pode estar seguro da própria salvação, porque só Deus tem o poder de concedê-la.”.

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