Posts Tagged ‘Verdade’

* O absolutismo relativista exige que toleremos as mentiras como se fossem verdades, e que não “toleremos” as verdades, como se fossem mentiras.

quarta-feira, maio 1st, 2013

Pe. Anderson Alves

O absolutismo relativista exige que toleremos as mentiras como se fossem verdades, e que não “toleremos” as verdades, como se fossem mentiras.

Vimos anteriormente que o ateísmo e o relativismo modernos são profundamente contraditórios[i]. O ateísmo porque pretende ser verdadeiro e relativista, “des-construindo” todas as verdades e normas morais, a partir de uma verdade absoluta: a inexistência de Deus; dessa verdade “divina” o ateísmo deduz uma regra moral absoluta: é proibido ter regras. O ateísmo relativista pretende assim negar o valor de todos os dogmas e certezas morais a partir de um novo dogma, que cria uma nova moralidade, na qual os valores absolutos são relativizados ou transformados.

O relativismo, por sua vez, é contraditório porque pretende afirmar que todas as afirmações, inclusive as contraditórias, são sempre verdadeiras (ou sempre falsas). Mas quem diz que duas afirmações contraditórias podem ser verdadeiras, deve aceitar que duas contraditórias não podem ser verdadeiras.

Essa evidente contradição levaria a renúncia a uma vida humana, na qual se julga, dialoga e se vive em sociedade. Em outras palavras, quem não aceita o princípio de não-contradição, torna-se semelhante a um vegetal. As consequências disso é que o relativismo e o ateísmo absolutos são reciprocamente excludentes; e o relativismo só pode ser verdadeiro quando é relativo, ou seja, parcial, aplicado ao modo de expressar ou de conhecer uma verdade, e não à verdade mesma.

Isso nos faz reconhecer o justo relativismo da verdade, pois essa é sempre relativa à inteligência de quem conhece. E a verdade é única na inteligência divina, pois Deus, ao conhecer a si mesmo, conhece todas as coisas. A verdade humana, porém, é múltipla, pois cada coisa tem sua verdade intrínseca, mas a conhecemos parcialmente, através de muitos juízos verdadeiros. De fato, o conhecimento humano é discursivo e progressivo e até hoje nenhuma ciência pode dizer que conhece totalmente o objeto estudado. A realidade que está diante de nós é sempre mais rica do que conhecemos. Por isso ela é como uma janela pela qual nos chega a luz da verdade e da bondade divinas e infinitas.

Entretanto, não podemos deixar de constatar que vivemos num ambiente cultural impregnado de relativismo. Não de um relativismo absoluto, que é essencialmente contrário à razão humana, mas sim de um absolutismo relativista. De fato, as filosofias relativistas ainda não conseguiram destruir a racionalidade humana e continuamos pensando a partir da convicção de que é possível conhecer a verdade e de que afirmações contraditórias não podem ser ao mesmo tempo verdadeiras. Mesmo assim o relativismo se expande na cultura atual, não através da Lógica, mas pela força da repetição superficial de afirmações “dogmáticas”. Desse modo, não há dúvidas de que vivemos em um ambiente onde reina não um relativismo absoluto, mas sim um absolutismo relativista.

Absolutismo relativista significa, pois, os esforços para se impôr uma cultura mundial relativista, que tenta destruir os valores tradicionais. Pretende-se assim convencer aos povos de que tudo é relativo, pois a verdade não existe (ou tudo é verdade, o que dá no mesmo) e todos os comportamentos morais são igualmente bons (ou igualmente maus). Tudo o que é contraditório parece ser hoje válido e tolerável. A única coisa que não se tolera é que se mostre as contradições e a irracionalidade do mesmo relativismo. O absolutismo relativista exige que toleremos as mentiras como se fossem verdades, e que não “toleremos” as verdades, como se fossem mentiras.

Na Ética o absolutismo relativista se manifesta principalmente em dois modos. No Positivismo e no chamado “pensamento débil”. Ambos dizem que a Ética só pode ser descritiva. Embora esses sistemas sejam opostos, as conclusões a que chegam são semelhantes.

O Positivismo diz que o método das ciências experimentais deve ser aplicado a todas as ciências. Ora, as ciências só descrevem a realidade, sem prescrever nada. Por isso a Ética deve apenas dizer como as pessoas se comportam. O argumento dado é logicamente válido, mas há uma premissa que deve ser discutida: por que a Ética deve ter o mesmo método das ciências experimentais? Essa é uma afirmação filosófica, que só pode ser imposta pela força, uma vez que não se sustenta racionalmente. De fato, a dita afirmação não pode ser justificada por métodos experimentais e a conclusão do raciocínio é autocontraditória: diz que as ciências não devem ser normativas, mas essa afirmação é já uma norma no âmbito científico.

Outro sistema importante é o chamado “pensamento débil”. Diz que o filósofo moral deve descrever os modelos de comportamento para facilitar o diálogo entre as culturas. Forma-se assim uma mesa redonda, semelhante à de um jogo de cartas, na qual não se chega a nenhuma conclusão. E isso se apresenta como uma exigência da “democracia”. E o argumento dado diz: os homens são todos iguais; quando dois homens possuem opiniões diversas, ambas devem ser aceitas, pois é antidemocrático ou politicamente incorreto dizer que uns homens tem razão e outros se equivocam[ii].

Quem pensa assim deveria antes de tudo esclarecer o que significa a afirmação de que “todos os homens são todos iguais”. Se significasse que possuem uma mesma dignidade, estamos de acordo. Mas se quer dizer que tudo o que os homens afirmam, em razão da dignidade comum, seja sempre verdadeiro, isso é um absurdo. Da dignidade da natureza humana não se deduz que o conhecimento de todos os seres humanos seja sempre verdadeiro. E tampouco se deduz que sempre dizemos a verdade. De fato, o homem pode, não só se equivocar, mas também mentir, manipular, tentar dominar a quem parece ser mais fraco. E não se entende como o erro ou a mentira pode sustentar uma “democracia”. Dito de outro modo: o principal equívoco do “pensamento débil” está em estabelecer como critério de verdade não a relação do juízo intelectual com a coisa conhecida, mas sim o juízo com a dignidade de quem o profere. Da dignidade do ser humano, de fato, não se deduz a verdade de todos os seus conhecimentos, nem a bondade moral de todos os seus atos.

Portanto, o Positivismo e o “pensamento débil” expressam bem o atual absolutismo relativista: a tentativa de impor pela força de repetições afirmações contraditórias, como se fossem verdades absolutas, negando o que realmente é verdadeiro e bom. O dito absolutismo, última forma de pensamento universal, desrespeita as culturas verdadeiramente humanas. Pois se a Ética fosse somente descritiva, os filósofos poderiam falar sobre as diversas culturas, mas não falar com elas. E isso ofende a dignidade e a racionalidade humana, que como tal está aberta ao diálogo sincero em busca de uma verdade condivisível por todos os homens[iii].

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[i] Cfr. http://www.zenit.org/pt/articles/o-ateismo-e-uma-escolha-racionalhttp://www.zenit.org/pt/articles/o-relativismo-relativo-ou-a-justa-relatividade-da-verdade

[ii] Cfr. A. Vendemiati, In prima persona. Lineamenti di etica generale, 3ª ed., UUP, Città del Vaticano 2008, cap. 1.

[iii] Cfr. R. Spaemann, ¿Qué es la ética filosófica? Em Limites, acerca de la dimensión ética del actuar, Ediciones Internacionales Universitarias, Madrid 2003, pp. 19-20.

(29 de Abril de 2013) © Innovative Media Inc.
Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* Ajudar a crescer: não há educação sem um encontro verdadeiro.

sexta-feira, abril 19th, 2013

Por Luis Javier Moxo Soto

Os pais, mesmo aqueles que estudaram para, teoricamente, ensinar determinadas áreas do conhecimento em um centro educativo, não necessariamente têm a habilidade de ajudar os próprios filhos e alunos a amadurecer.

Pode-se ter, ou não, a disposição adequada para ser pai ou docente. Mas ela não vem, nem pode vir, da natureza ou dos diplomas. Ter vocação é assunto muito mais sério, que não pode ser encarado superficialmente. Ser colaboradores de Deus para ajudar e formar a sua obra mais perfeita, que é o ser humano, não é nenhuma brincadeira.

Por mais que pensemos que os filhos e alunos de hoje vão se formando sozinhos com a ajuda de amigos e do ambiente, com o passar dos anos, com as diversas realidades e problemas que eles têm de encarar e resolver, isto não é suficiente.

Não basta que os educadores, pais e docentes coloquem diante dos jovens uma série de conteúdos para que eles consigam, através do esforço e da constância, do estudo e da aprendizagem, os frutos e as habilidades que os capacitam para enfrentar com sucesso as múltiplas situações da vida.

A pessoa humana exige ser considerada na sua dimensão relacional, na sua necessidade de se perguntar sobre as finalidades, sobre o sentido supremo daquilo que ela vive, da transcendência.

A pessoa humana não pode deixar em segundo plano, e muito menos excluir, os fatores que explicam a realidade e a dotam de sentido; a origem e a explicação desta ou daquela manifestação natural, artística ou espiritual. Precisamos conhecer, saborear e desfrutar da realidade.

A possibilidade de ir amadurecendo, portanto, nasce do fato de sermos capazes de assombro, de questionamento e de reconhecimento da realidade como dotada de significado. Não achamos suficiente viver sem interpretar adequadamente o que somos, o que fazemos e o que vivemos. Podemos estar imersos em uma experiência, mas, no fundo, estamos perdidos e insatisfeitos porque não somos protagonistas de uma vivência intensa.

Se queremos educar filhos e alunos, precisamos considerar se optamos por um monólogo, por um movimento unidirecional, ou por algo totalmente diferente, dinâmico e enriquecedor. Se tratamos os nossos educandos como sujeitos de prêmios e castigos, como se fossem animais, não podemos estranhar se depois eles se comportarem como tais, sem um desejo do bem como bem em si.

É preciso correr um risco educativo, o da necessária confrontação com a verdade e com a experiência. A minha também, como pai e como educador. Não se trata apenas de uma aproximação entre alguém que exerce uma autoridade magisterial e outro alguém que deseja obter conhecimento; trata-se, antes, de um verdadeiro encontro humano.

Quem se considera um bom pai, educador e filho? Numa sociedade carente de referências estáveis, que pretende que as crianças e adolescentes queimem etapas, que enxerga a religião como um elemento estranho e chato, que valoriza mais a conectividade do que o assombro e mais os interesses pessoais do que a gratidão, é só através de um encontro verdadeiramente humano que poderemos ajudar os nossos filhos e educandos a crescer e amadurecer, e, ao mesmo tempo, ajudar a nós mesmos.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* Como a filosofia pode ajudar ateus e cristãos entenderem uns aos outros.

quinta-feira, abril 11th, 2013

Um dos equívocos mais comuns, até mesmo nas conversas mais agradáveis e empáticas entre cristãos e ateus, ocorre por causa da diferença entre ontologia epistemologia. Mas com um pouco de reflexão filosófica, podemos esclarecer esta confusão e ajudar a ateus e cristãos entender um ao outro.

Realmente.

Essas são palavras bem complexas, então vamos dividi-las em definições simples (muito simples):

Ontologia: uma discussão do que realmente existe. Exemplo: “O mundo é real.”

Epistemologia: uma discussão sobre o que devemos acreditar ser verdade. Exemplo: “Eu sei que o mundo existe porque os meus sentidos são confiáveis.”

Agora, como é que estas distintas categorias filosóficas causam essa confusão, sentimentos feridos, e conversas improdutivas?

Aqui está uma maneira como acontece em conversa:

Cristão: Minha opinião é que, se Deus não existisse, não haveria qualquer moral.

Ateu: Você está dizendo que eu não sou uma pessoa de moral, porque me falta a crença em Deus?

Cristão: Bem, não. Não exatamente. Eu acho que você é uma pessoa muito legal.

Ateu: E algumas pessoas que acreditam em Deus fazem coisas ruins por causa de suas crenças religiosas, certo?

Cristão: Claro, isso acontece. Mas eu não acho que a religião deva ser usada para ferir as pessoas.

Ateu: Estou feliz que concordamos sobre isso. Então,  acreditar em Deus faz alguém ser uma pessoa melhor?

Cristão: Bem, eu sei que quando me tornei cristão, eu me tornei uma pessoa melhor.

Ateu: E quando eu parei de ir à igreja, eu me tornei uma pessoa melhor.

Essa conversa é um pouco comum, como duas pessoas honestamente tentam botar para fora sua diferença de opinião a respeito de Deus.

Mas porque eles não estão claramente cientes da distinção entre ontologiaepistemologia, ficou de fora alguns insights valiosos.

Parte do problema que tive é que, para muitas pessoas, a “moralidade” agora significa apenas ‘a minha opinião pessoal sobre o certo e o errado. “

Para chegar mais perto de entender como isso é importante, vamos olhar para esta conversa sobre outro assunto: o argumento cosmológico, que tem a ver com a existência da realidade física (em vez da realidade moral).

Cristão: … Portanto, para concluir, se Deus não existisse, o mundo não existiria.

Ateu: Você está dizendo que eu não existo porque me falta a crença em Deus?

:: Espere um segundo :: ninguém jamais diria isso! Vamos tentar de novo:

Ateu: Entendo. Onde eu discordo de você é a sua segunda premissa, “o universo começou a existir.” Eu acho que um bom argumento pode ser feito para o universo sempre ter existido.

Cristão: Interessante. Estou curioso para ouvir como isso se relaciona com a Segunda Lei da Termodinâmica …

O argumento é “como Deus existe, o universo também ter que existir“. Assim que você está discutindo a ontologia. Essa conversa é conceitual e categoricamente diferente de discutir epistemologia: como nós sabemos ou acreditamos que “o mundo existe”.

Aqui está outra maneira de pensar sobre isso: “ontologia” é a discussão do mundo fora de sua mente. “Epistemologia” é discutir as crenças dentro de sua mente, como você as obteve e como elas se encaixam.

Em outras palavras, a questão principal, tanto para o argumento moral e do argumento cosmológico, não é o que devemos acreditar ou as implicações de nossas crenças (epistemologia). A questão é o que é real, o que existe (ontologia).

Com esta distinção em mente, vamos revisitar o argumento moral:

Cristão: … Em conclusão, a minha crença é que, se Deus não existisse, não haveria qualquer moral.

Ateu: Você está dizendo que eu não sou uma pessoa de moral, porque me falta a crença em Deus?

Cristão: Oh, definitivamente não. Eu acho que você é uma pessoa muito legal! Eu não estava discutindo epistemologia – as implicações de nossa crença ou falta de crença em Deus. Em vez disso, eu estava discutindo ontologia – a existência ou não existência de Deus. Se Deus – um ser moralmente perfeito – existe, então Deus poderia emitir uma lei perfeita moral, e nós, como suas criaturas, seríamos moralmente obrigados a obedecer seu código moral. Então, se Deus existe, este código moral existe.

Em contrapartida, se nenhum ser moralmente perfeito existe, então não haveria nenhuma lei moral perfeita e não teríamos deveres morais objetivos para obedecermos. Então, se Deus não existe, este código moral objetivo não existe.

Claro que podemos totalmente redefinir a palavra “moralidade” para dizer “as ações sociobiológicas que nosso condicionamento nos leva a preferir”, mas no meu sentido original, não haveria moralidade deste tipo. Sem Deus, não há lei moral objetiva.

Ateu: Mas eu acho que a moralidade só é nosso condicionamento pessoal e cultural.

Teísta: Certo. E é assim que eu definiria a “moralidade” se eu fosse ateu. Então, vamos falar sobre a relação entre a “moralidade de rebanho” e a “moralidade objetiva”.Eu estava discutindo…

Agora que a diferença entre ontologia e epistemologia foi resolvida, a conversa fica correta. O argumento moral já não soa como um ataque pessoal sobre a (suposta) imoralidade do ateu. Pelo contrário, é um desacordo fundamentado sobre o que o ‘código moral’ realmente é: um código objetivo nos concedido como um presente de um Deus perfeitamente bom – ou – uma constante mudança de adaptação sociobiológica que ajuda ou atrapalha a sobrevivência dos seres humanos.

Fonte: Logos Apologética cristã

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* O Relativismo relativo ou a justa relatividade da verdade.

terça-feira, abril 9th, 2013
Então a afirmação tudo é relativo implica que duas afirmações contraditórias possam ser verdadeiras?

Por Pe. Anderson Alves

Em outra ocasião dizíamos que o relativismo e o ateísmo absolutos são incompatíveis[i]. Pois quem afirma ser verdade que Deus não exista, não poderia negar a existência da verdade. De modo que o ateísmo absoluto nos mostra que relativismo não pode ser absoluto, só pode ser relativo. E isso é comprovado se partimos da afirmação dos que dizem que o relativismo não nega a existência da verdade, mas somente diz que ela é sempre relativa. De fato, a afirmação de que “tudo é relativo” é muito comum nos nossos dias e pode significar algo equivocado e também algo certo.

Equivocado quando quer significar que duas afirmações contraditórias podem, ao mesmo tempo, ser verdadeiras. Pois quem afirma isso deveria aceitar que duas afirmações contraditórias não podem ser contemporaneamente verdadeiras (uma vez que essa é a contraditória da afirmação anterior). Mas quem diz que duas afirmações contraditórias podem e não podem ao mesmo tempo ser verdadeiras, não sabe realmente o que fala. A inteligência e a linguagem humanas, se querem continuar sendo reconhecidas como tais, não aceitam contradições.

“Tudo é relativo” pode significar também algo bem preciso: que a verdade indica sempre uma relação. De fato, a verdade se dá quando se afirma aquilo que é, ou se nega aquilo que não é. Em outras palavras, a verdade se dá quando a inteligência apreende o que as coisas são e as expressa em juízos. De modo que “tudo é relativo” significa que toda verdade é relativa a uma inteligência: a de quem a conhece.

E a inteligência pode ser tanto a divina quanto a humana. A divina fundamenta toda verdade natural existente, porque Deus pensa todas as coisas e depois as cria (inclusive o processo evolutivo). E a correspondência daquilo que as coisas são com o pensado por Deus sobre as coisas é a verdade natural de todas elas, intrínsecas às mesmas. O intelecto humano, por sua vez, não conhece todas as verdades, mas está em potência para conhecê-las. Sendo assim, a relação do intelecto divino com as coisas é essencial para as coisas, pois sem essa relação as coisas não podem existir; a relação do intelecto humano com as coisas naturais é acidental, pois ainda que o homem não as conhecesse, essas existem e são dotadas de uma racionalidade e de leis próprias e cognocíveis. Santo Tomás de Aquino chega a dizer que se não houvesse nenhuma inteligência, nem a divina nem a humana (o que é impossível), não haveria nenhuma verdade[ii].

Então a afirmação “tudo é relativo” implica que duas afirmações contraditórias possam ser verdadeiras? Evidentemente não, pois afirmar que duas contraditórias são verdadeiras implica aceitar que duas afirmações contraditórias não são verdadeiras, o que é um absurdo. Dizer que cada verdade é relativa a um intelecto quer dizer que a verdade só existe porque é conhecida por Deus e pode ser conhecida pela inteligência humana, mas não implica que a inteligência humana conhece infalivelmente a verdade. A inteligência humana não é nem a divina nem a angélica e pode se equivocar. Mas também só essa inteligência pode reconhecer o próprio erro.

Sendo assim, quando uma afirmação é verdadeira a sua contraditória necessariamente será falsa. Isso quer dizer que se uma pessoa diz “isso que está diante de mim é um computador”, não pode dizer no mesmo tempo “isso que está diante de mim não é um computador”. Quem está certo da verdade da primeira afirmação, não pode aceitar a verdade da segunda. Isso é o princípio básico de coerência do pensamento e da linguagem humana. Quem nega esse primeiro princípio se torna incapaz de fazer qualquer afirmação, de raciocinar, de dialogar, de viver em sociedade. Se torna, para continuar com o exemplo de Aristóteles, semelhante a um vegetal, com quem não é educado discutir.

E quando alguém diz: “isso é a tua verdade, mas não é a minha verdade”: há algum sentido? Certamente nesse caso deve-se analisar o conteúdo das duas afirmações e ver se ambas são realmente contraditórias e depois investigar se ambas são falsas, ou se alguma é verdadeira. No caso de que uma seja verdadeira, a sua contraditória será necessariamente falsa. E isso não implica discriminação com ninguém, pois é próprio de pessoas de inteligência considerar mais o que se diz do que quem o diz, num diálogo. Pode ocorrer que as duas afirmações não sejam contraditórias, mas verdades complementares, ou duas falsidades. É necessário saber, então, qual é o critério último para que uma afirmação seja verdadeira ou falsa. Já iniciamos aqui uma resposta, mas a aprofundaremos em outra ocasião.

O que importa agora é deixar claro que toda verdade se refere a uma inteligência. Nesse sentido, toda verdade é relativa, inclusive a verdade divina, relativa à inteligência (Logos) de Deus. E isso é o justo relativismo da verdade. Por outro lado, afirmar um relativismo absoluto, ou seja, dizer que toda afirmação é necessariamente verdadeira (ou necessariamente falsa), inclusive aquelas contraditórias, significa afirmar algo tão ilógico e antinatural que seria melhor não dizer nada: “sobre o que não se pode falar, se deve silenciar”[iii].

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[i] Cfr. http://www.zenit.org/pt/articles/e-possivel-um-relativismo-absoluto Cfr. também:http://www.zenit.org/pt/articles/o-ateismo-e-uma-escolha-racional

[ii] S. Tomás de Aquino, De Veritate q. 1, a. 2.

[iii] L. WITTGENSTEIN, Tractatus logico-philosophicus, prop. 7.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* O Homem moderno confunde VERDADE com sinceridade.TODOS, assim, “tem razão” e Deus se torna dispensável.

terça-feira, abril 2nd, 2013

Dom Estevão Bettencourt (OSB)

O Homem precisa da religião para praticar o bem?


O mundo de hoje diz: «Em matéria de Religião, o essencial é o procedimento reto e bondade para com todos os homens. As questões de credo ficam sempre obscuras. Doutro lado, a celebração de ritos é secundária. Há muitas almas boníssimas que não praticam cerimonial algum».


Para julgar adequadamente o conteúdo das proposições acima, deveremos considerar de per si cada um dos dois aspectos que elas abordam :

1) Religião e Verdade,

2) Religião e culto externo.

1. Religião e Verdade


A mentalidade moderna tem posto em xeque não somente este ou aquele ensinamento do Cristianismo (a Divindade de Jesus, a presença real do Senhor na Eucaristia…), mas também o próprio conceito de «verdade religiosa»; quem professa alguma verdade em nome da Religião e quer defender os direitos que a mesma tem, de não ser equiparada ao erro, parece propugnar «dogmatismo» estreito, hedionda mesquinhez de espírito, diante da qual alguns contemporâneos «se escandalizam». Parece que em Religião o conceito de verdade é relativo; Religião seria, primariamente, manifestação do sentimento ou do bom senso de cada indivíduo, não, porém, algo que se possa e deva exprimir em fórmulas universais destinadas a serem reconhecidas por todos os homens. Cada um, por conseguinte, teria o direito de fazer «sua» religião, de acordo com seus critérios pessoais, e todos teriam a obrigação de dizer que as diversas formas de religião assim concebidas são boas, contanto que os respectivos adeptos pratiquem o bem.


«Praticar o bem», tal seria simplesmente o ideal do homem. A filosofia religiosa e a teologia seriam secundárias, seriam valores subjetivos, reservados ao foro particular de cada um.

Não teriam razão os que assim pensam ?


A resposta a esta questão decorrerá claramente de uma análise das causas de tal atitude. Ora parece que são três os motivos desse relativismo religioso.


1) O homem moderno está muito imbuído da mentalidade procedente dos métodos das ciências físicas e matemáticas; tais métodos, que se baseiam estritamente no visível e ponderável, parecem ao filho do nosso século ser os únicos que levem à posse segura da verdade; nos setores em que a pesquisa empírica não tem aplicação (como seriam os da metafísica e da teologia), julgam muitos pensadores que não se pode chegar à certeza.

Sendo assim, as proposições que não possam ser provadas por tais métodos (como é o caso das proposições religiosas) só parecem interessar ao sentimento e à vida afetiva de indivíduos; preconiza-se o respeito para com essas fórmulas; julga-se, porém, que são arbitrárias, válidas apenas para quem as queira adotar.


À luz desta concepção, tende-se a fazer das noções de Deus e das relações do homem com Deus (noções que não podem ser formuladas em laboratório), algo de cada vez mais vago e pálido; «Deus» e «Religião» se tornam, aos poucos, conceitos tão diluídos que muitos facilmente os removem, sem julgar que nisto haja algum detrimento real.

Paul Claudel o observava muito bem: «A tentação do homem moderno consiste em fazer crer que não é necessária a crença em Deus para se praticar o bem». O homem se consumaria na prática do bem igualmente, tendo ou não tendo Religião.


Com outras palavras ainda: em se tratando de Religião, a mentalidade cientificista moderna leva o homem a não se preocupar muito com a VERDADE; contenta-se apenas com SINCERIDADE ou com as disposições pessoais dos indivíduos «religiosos»; substitui-se assim a noção de verdade (valor objetivo) pela de sinceridade (valor subjetivo); julga-se que pouco importa o que alguém professa (catolicismo, protestantismo, espiritismo, budismo…), contanto que o professe sinceramente.


— Ora não é preciso grande esforço para se averiguar quão vã é tal posição.


A sinceridade com a qual alguém professa uma ideologia ou propugna uma causa, não é, de modo nenhum, argumento em favor dessa causa ; o fato de que há comunistas sinceros não justifica o comunismo, como também o fato de que há católicos sinceros ainda não justifica o Catolicismo. A sinceridade é uma disposição subjetiva, independente das qualidades do objeto ao qual ela se aplica; mesmo as causas mais desastrosas tiveram adeptos fanáticos, de cuja sinceridade não nos seria lícito duvidar.


Ninguém nega o valor da sinceridade ou da boa fé. A boa fé, porém, (disposição subjetiva) não dispensa o seu complemento necessário que é a verdadeira fé (ou a apreensão da realidade objetiva tal como ela é).


Em última análise, deve-se dizer que a atitude relativista do homem contemporâneo frente a tudo que é metafísico e religioso, significa decrepitude ou cansaço da mentalidade moderna: quem renuncia a verdades objetivas para se prender unicamente a critérios subjetivos na orientação de sua conduta, sofreu uma deformação em sua mentalidade. O homem que só admite certeza no setor das ciências positivas, fecha-se intencionalmente a toda uma ordem de coisas ainda mais ricas do que as coisas visíveis; os objetos sensíveis sugerem conclusões contingentes, muito sujeitas a ser reformadas (basta lembrar como os cientistas vão sucessivamente remodelando suas explicações dos fenômenos); ao contrário, a realidade que fica além do empírico, a realidade metafísica, é, como dizia o filósofo grego Aristóteles (+322 a. C.), «necessária, eterna e imutável», oferecendo, por isto, certeza tal que as ciências empíricas geralmente não conseguem obter.


Donde se vê que uma das tarefas mais prementes que incumbem ao homem moderno, é a de confiar de novo na sua inteligência; esta, utilizada sem preconceitos, indica ao estudioso a existência do Mistério ou de uma Inteligência transcendente; indica, sim, a existência de Deus e das realidades invisíveis; ora, não há dúvida, a inteligência humana, feita para captar a verdade, tem como vocação primária a apreensão de tais realidades não sujeitas à contingência da matéria. Não se justifica, portanto, o relativismo no setor religioso; existe o Mistério, mas existe também intelecto humano capaz de o apreender aos poucos. Cf. «P. R.» 8/1958, qu. 2.

Não repetimos aqui o que já foi dito em «P. R.» 20/1959, qu. 1, em favor das possibilidades de chegarmos ao conhecimento da verdade.


2) Outro motivo, afim ao anterior, que explica a indiferença moderna em relação à fé, é o primado que hoje em dia se atribui à ação e aos valores práticos, com detrimento para os valores especulativos. Muitos tendem a julgar o Cristianismo e, em particular, o Catolicismo pelas suas manifestações externas; em consequência, assim como há os que muito admiram a Igreja por causa dos benefícios (educação, instrução, morigeração…) prestados à humanidade, há também os que dela se afastam por causa de maus exemplos dados pelos cristãos; para não poucos contemporâneos a pior objeção existente contra a fé cristã é o comportamento decepcionante de irmãos tidos como católicos. Ao averiguá-lo, esses observadores julgam poder definir peremptoriamente a sua atitude de condenação; não consideram aquilo que a fé católica ensina, nem olham para os valores objetivos que a mesma encerra, independentemente da infidelidade dos seus pretensos adeptos.


— Ante tal tendência, o católico reconhecerá, sem hesitação, que a fé deve ser eficaz, que a conduta de vida há de ser coerente com a crença e que a verdade tem por fim transformar as almas; não há dúvida, nas origens do Cristianismo, foi o teor de vida exemplar dos cristãos que para muitos pagãos se tornou a prova palpável da origem divina da Igreja.


Mas, reconhecendo isso, o bom cristão não poderá deixar de lembrar aos seus observadores a distinção vigente entre a verdade em si e a conduta pessoal, subjetiva, dos que professam a verdade: «A verdade nada tem que ver com o número de pessoas que ela persuade», dizia Claudel muito sabiamente.


Sim; a verdade permanece de pé e tem sempre valor destinado a todos os homens, ainda que os filhos da verdade não lhe deem testemunho prático. A verdade não se desvirtua pelo fato de que não é traduzida por atos concretos. Ela fica sendo sempre capaz de transformar a vida de quem a abrace, embora este ou aquele indivíduo que a profere não leve, por fraqueza humana, uma conduta de vida consequente. «Muitas mentiras não extinguem a existência da verdade» (Daniélou).


3) Em terceiro lugar, como fator de indiferença perante a fé, pode-se apontar o orgulho de que muitas vezes está imbuído o cidadão do século XX.


Esse garbo desregrado se dissimula sob formas sutis. Em última análise, o homem contemporâneo sabe que quem aceita a fé, aceita ao mesmo tempo a irrupção, em sua vida, de Alguém que nunca mais o deixará entregue a si mesmo; aceitar a fé implica renunciar ao desejo que cada um tem de bastar a si, para aceitar a condição de ser englobado numa corrente de vida que talvez leve a pessoa a sair da sua mediocridade e a atingir objetivos mais elevados do que os que ela quisera atingir. Em outros termos: aceitar a Deus e aceitar o seu amor, como Ele se manifesta no Catolicismo, significa abraçar a perspectiva de ser desapossado da posição de «alfa e ômega» que cada um tende a atribuir a si mesmo. «Deus primeiro nos amou», diz S. João (1 Jo 4,10), de sorte que ao homem compete aceitar esse amor e corresponder-lhe dignamente.


Em suma: a fé a muitos aparece como uma ameaça à sede de autonomia que o filho do século XX traz em si. É por isto que grande número de nossos contemporâneos, sem ter a ousadia de renegar diretamente o Criador, preferem forjar o seu conceito «próprio» de Deus e de Religião; preferem dizer eles mesmos quem é o Senhor e como se chega até Ele, emancipando-se destarte de qualquer autoridade objetiva, devidamente credenciada para propor as verdades religiosas.


— Sem dificuldade, percebe-se quanto o homem moderno, nutrindo tal atitude, engana a si mesmo. Não pode haver Religião sem fé, sem adesão da razão a verdades de ordem superior, que o homem não abarca com sua exígua inteligência, mas que se lhe incutem por estarem devidamente credenciadas. Sim; deve-se levar em conta, de um lado, que Deus, por definição, é o Ser absoluto, infinitamente mais rico do que o homem; por conseguinte há de ter seus mistérios.

Doutro lado, tendo criado o homem por benevolência, Deus não podia deixar de lhe revelar algo de seus desígnios, assim como os meios necessários para que o homem volte ao Criador. Pois bem; tal revelação divina foi feita e há de ser aceita, por vias objetivas, por um magistério anterior e superior ao indivíduo, devendo este, por conseguinte, prestar fé. Não há dúvida, é mais cômodo ao intelecto humano criar ou inventar do que simplesmente aceitar a realidade religiosa já feita. Essa «comodidade», porém, é ilógica; desvirtua o conceito de Religião, pois Religião significa entrega do homem a Deus, Ser vivo, pessoal e transcendente. Será sempre preciso reconhecer que Deus precede o homem,… que há efeitos sobre os quais este não pode dispor, enfim… que ao homem toca necessariamente entrar numa ordem de coisas que ele não inventou.


De resto, observa-se que a fé de modo nenhum suprime a pesquisa racional; deixa aberto vasto campo de estudos ao qual se aplica a inteligência: basta lembrar quanto a Revelação cristã estimulou o desenvolvimento da Filosofia e da especulação intelectual na Idade Média. Do seu lado, a inteligência humana, aplicando-se logicamente ao estudo, chega à conclusão de que a única posição verdadeiramente razoável é a de quem tem fé. Sim; a razão aos poucos descobre a existência do Mistério e do Transcendente que está na raiz de toda a realidade; ora, tendo-o descoberto, é consentâneo com os seus próprios ditames que ela profira um ato de fé ou de adesão ao Mistério ou ao Absoluto.


2. Religião e culto divino


2.1. Mencionamos acima a marcante tendência do homem moderno à atividade. A multiplicação de tarefas que o progresso do saber e da técnica acarretou, parece solicitar toda a atenção do cidadão, não deixando lugar nem tempo para grandes manifestações religiosas. Dir-se-ia que as energias dedicadas aos atos religiosos são sequestradas à construção da cidade dos homens, cidade dos homens onde tanta miséria requisita incessante colaboração.


Vejamos os graves senões que nesse modo de pensar se encerram.


A essência da Religião e, em particular, do Cristianismo está em que o homem reconheça sua dependência em relação a Deus e se una o mais possível ao Senhor; o amor ao próximo e o alívio da sorte alheia têm que ser considerados como efluxos vivos desse amor a Deus.


Ora o homem não pode limitar suas relações com Deus ao plano do invisível, pois o ser humano é essencialmente um composto de alma e corpo, dotado de índole social; a vida do homem se desenvolve normalmente 1) mediante o uso de suas faculdades corpóreas e 2) em ambiente comunitário; cf. «P. R.» 15/1959, qu. 3.

Por isto deve-se dizer que o homem que não reserva periodicamente algum espaço de tempo para a oração (ou seja, para a procura explícita da união com Deus), e para a oração comunitária, tal homem não vive como homem; sua vida está mutilada. Pertencer à comunidade, aperfeiçoar-se na comunidade (família, escola, igreja, profissão civil ou religiosa…) são elementos essenciais à personalidade humana, elementos sem os quais esta definha.


Esta afirmação é corroborada pelo fato de que os homens sempre experimentaram a necessidade de consagrar mediante ritos coletivos ao menos as fases essenciais da sua existência, ou os atos nos quais lhes parece tocar o mistério de Deus e da vida: o nascimento (surto da vida), o casamento (contrato que visa multiplicar a vida) e a morte (extinção da vida); sempre que o homem se viu colocado diante da realidade básica, que é a vida, ele procurou entrar em contato com Deus de maneira comunitária e sensível.


De modo especial, o Cristianismo requer dos seus membros a prática dos sacramentos. Sim; o Cristianismo é essencialmente a Encarnação do Divino no humano. Em primeiro lugar, Cristo é o Filho de Deus feito homem; os que tomaram contato com a sua Divindade invisível, tomaram-no por meio da sua carne sensível. Por sua vez, a Igreja é a continuação da Encarnação; Cristo Lhe confiou os mistérios de Deus e da Redenção, que Ela traz encerrados dentro de moldes sensíveis e humanos; por isto ninguém pode tomar contato com as riquezas de Cristo a não ser por meio da estrutura visível ou dos sacramentos da Igreja. Quem despreza a Igreja por causa da índole sensível dos sacramentos, está-se afastando de Cristo e vai-se privando dos tesouros de santificação e Redenção que o Salvador nela depositou.


Pode-se dizer que Cristo é o Grande Sacramento ou o Sacramento primordial; Ele se fez Filho do homem para que o homem se tornasse filho adotivo de Deus; e, na qualidade de Filho do homem, multiplicou pães, transformou água em vinho, tendo em vista por essa via levar os homens até a sua Divindade, ou mesmo até o Pai Celeste. Ora os sacramentos não são senão água, pão, vinho, óleo, gestos e palavras que Cristo hoje em dia administra por meio da sua Igreja (ou do seu Corpo prolongado) a fim de comunicar aos homens a filiação divina. Em consequência, vê-se que anticristão seria querer afastar-se do plano sacramental; o cristão que o pretendesse, deixaria de ser cristão no sentido pleno da palavra, por muito que praticasse a beneficência para com os indigentes (não é preciso ser cristão para ter pena dos que sofrem; basta ter o senso humanitário ou filantrópico natural, que é comum a todos os indivíduos, antes mesmo que professem alguma crença religiosa positiva).


Não sem razão, pode-se julgar que a recusa do aspecto sacramental e ritual do Cristianismo é inspirada pelo orgulho do homem contemporâneo; o recurso aos elementos materiais e sensíveis (água, pão, vinho, óleo…) instituídos por Cristo como canais da graça parece ser algo de pequenino demais para o cidadão do século XX, o qual pouco compreende que Deus se revela aos humildes e pequenos (cf. Mt 11,25).


2.2. Dir-se-á, porém: apesar de tudo, não é mais útil e premente praticar a caridade (dando de comer a quem tem fome, vestindo a quem está desnudo.. .) do que ir à Missa e participar de assembleias litúrgicas ?


— Vista a necessidade da oração, e da oração coletiva (ou seja, do culto comunitariamente prestado a Deus), responderemos que por motivo nenhum o cristão poderá menosprezar esse culto, instaurado pelo próprio Cristo.


Os homens procuram construir as cidades dos homens neste mundo; mas, para que tais cidades tenham consistência, deverão deixar que Deus construa a Sua Cidade entre eles; se Deus não construir a Sua Cidade, nem os homens construirão a deles. Ora o Supremo Senhor edifica Sua Cidade por meio dos Sacramentos; é principalmente através destes que o Redentor age no mundo, comunicando-lhe valores eternos, que servirão de esteio para os valores temporais.


«O serviço explícito de Deus constitui uma experiência tão fundamental quanto o serviço do próximo. Estas duas exigências são igualmente incoercíveis. Um cristão se engana sempre que minimiza uma ou outra. O mundo não será digno deste nome se nele uma e outra não forem respeitadas. Um mundo sem adoração é mundo tão desumano quanto um mundo sem fraternidade. A verdadeira cidade, diz La Pira, é aquela em que Deus e o homem têm cada qual a sua casa» (J. Daniélou, Défense du pratiquant, em «Études» janv. 1958,12).


A construção da cidade dos homens e o culto do Deus não são incompatíveis entre si. É preciso mesmo dizer que, se os cristãos foram, nesta ou naquela fase da história, infiéis às suas tarefas sociais, isto não se deve a um presumido excesso de amor a Deus e à casa de Deus. É vã a censura, feita aos cristãos, de que a sua fé os subtrai aos afazeres temporais. As energias consagradas ao Senhor não são furtadas aos homens, porque, na verdade, o amor aos homens só é eficaz quando sustentado pelo amor a Deus e ao seu santuário.


2.3. Em último lugar, o observador não cristão poderia apontar o caso de mais de um cristão para quem a Religião se limita aos atos do culto… Há, sim, quem muito viva na igreja, sem pensar em aliviar a sorte do próximo na cidade. Tal tipo de fiéis não redunda em desabono do ritual cristão ?


— Na verdade, muito se deve lamentar a existência de tais cristãos. Sua atitude, pouco ou nada influente na vida social, em parte terá dado motivo à reação dos não católicos contra o culto católico. Contudo o proceder incoerente dos que vão à Missa, mas não difundem os frutos da Missa no mundo, ainda tem significado: exprime na sociedade o desejo de não romper com Deus, mas de manter contato com Ele.


«Não louvarei o cristão para quem o Cristianismo se reduz a alguns atos religiosos. Mas também não lhe atirarei a primeira pedra. Nele respeitarei o pavio que ainda fumega, o caniço que pode ser reerguido. Quando essa chamazinha se tiver extinto por completo teremos entrado no mundo das trevas, da morte espiritual, dos casamentos meramente civis e dos enterros meramente civis. Vivemos num mundo em que pode haver dedicação aos interesses da humanidade, do progresso ou da ciência, mas em que essa dedicação imola vidas humanas ao monstruoso ídolo que é o orgulho coletivo do homem» (J. Daniélou, ibd. 6).


À guisa de comentário, seja lícito repetir: o cristão que frequenta o culto, mas não irradia devidamente a sua caridade no convívio social, é certamente merecedor de censura; contudo ele ainda constitui de certo modo um testemunho contra a total laicização da vida humana (casamentos e enterros meramente civis), laicização que está em frontal oposição às concepções mais espontâneas da natureza humana, como já tivemos ocasião de notar (cf. pág. 281).


Para sintetizar quanto até aqui foi dito, parece não haver melhor conclusão do que a que um profundo e equilibrado observador de nossos tempos assim formula:

«Está claro que, se não há Cristianismo sem sacramentos, os sacramentos não bastam para fazer um verdadeiro cristão. A prática dos sacramentos é a condição primária, sem a qual não existe Cristianismo autêntico. É por isto que a diminuição da mesma será sempre grave sintoma; contudo a prática sacramental é apenas um ponto de partida. De um lado, a carência de prática sacramental é motivo de condenação para aqueles que desprezam os sacramentos; de outro lado, porém, a prática sacramental por si só não justifica aqueles que deixam infecundos os sacramentos» (J. Daniélou, ibd. 13).

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* O que pensa o Papa Francisco sobre…

segunda-feira, março 25th, 2013


O MUNDO E A FÉ SEGUNDO O PAPA FRANCISCO

REVISTA VEJA  - 20 de março de 2013 – edição 2313 – ano 46 – n°12, pgs. 70/71

Como arcebispo de Buenos Aires, o novo pontífice refletiu com clareza sobre questões fundamentais do cotidiano

CRENÇA

A Igreja defende a autonomia das questões humanas. Uma autonomia saudável é uma laicidade saudável, em que se respeitam as diferentes competências. A Igreja não vai diz, aos médicos como devem realizar uma operação. O que não é bom é o laicismo militante, aquele que toma uma posição antitranscendental ou que o religioso não saia da sacristia. A Igreja dá os valores, e os outros que façam o resto.

DEUS

“Ao homem de hoje lhe diria que faça a experiência de entrar na intimidade para conhecer a experiência, o rosto de Deus. Por isso me agrada tanto o que disse Jó depois de sua dura experiência e de diálogos que não lhe esclareceram nada: ‘Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com meus próprios olhos’. Ao homem, digo que não conheça a Deus de ouvidos. O Deus vivo é aquele que se vê com seus olhos, dentro de seu coração.”

DIVÓRCIO

“A discussão em torno do divórcio é diferente daquela do matrimônio de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a lei do divórcio, mas há antecedentes antropológicos distintos neste caso. (…) É um valor muito forte no catolicismo o casamento até que a morte os separe. Hoje, contudo na doutrina católica, lembra-se a seus fiéis divorciados e recasados que eles não estão excomungados – ainda que vivam em uma situação à margem do que exigem a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do matrimônio – e é pedido a eles que participem da vida paroquial.”

ABORTO

“O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa. No momento da concepção está o código genético da pessoa. Ali já existe um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer – concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético. Abortar é matar alguém que não pode se defender.”

ATEÍSMO

“Quando eu me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questões humanas, mas não coloco logo de cara em discussão a questão de Deus, exceto se elas me incitam a isso. Quando isso ocorre, eu explico a elas por que creio. (…) Não pretendo fazer proselitismo – eu as respeito e me mostro como sou. (…) Não tenho nenhum tipo de reticências. Não diria que um ateu está condenado porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar sua honestidade – sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas. De toda forma, conheço mais gente agnóstica do que ateia. O agnóstico duvida; o ateu está convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bíblia: todo homem é a imagem de Deus, seja ele crente ou não. Por essa única razão, tem uma série de virtudes, qualidades, grandezas. Caso tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos compartilhá-Ias para nos ajudarmos mutuamente a superá-Ias.”

CIÊNCIA

“A ciência tem sua autonomia, que deve ser respeitada e encorajada. Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem com o transcendente. A ciência é fundamentalmente instrumento do mandato de Deus, que disse: ‘Tenham muitos e muitos filhos, espalhem-se por toda a terra e a dominem’. Dentro de sua autonomia, a ciência transforma a incultura em cultura. Mas cuidado: quando a autonomia da ciência não põe limites a si mesma e vai além, ela pode sair das mãos de sua própria criação. É o mito de Frankenstein.”

IGREJA

“Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilômetro quadrado. Mas, quando o papa era rei temporal e rei espiritual, aí se misturavam as intrigas de corte e tudo isso. Agora não se misturam? Sim, ainda existe isso, porque existe ambição em homens da Igreja, existe – lamentavelmente – pecado de carreirismo. Somos humanos e nos tentamos, temos de estar muito atentos para cuidar da unção que recebemos, porque ela é um presente de Deus. As disputas pelo poder, que existiram e existem na Igreja, se devem a nossa condição humana. Mas, nesse momento, a pessoa deixa de ser eleita para o serviço e se converte em uma pessoa que escolhe viver como quer e se mistura com o lixo interior.”

“Um líder religioso pode ser muito forte, muito firme, mas isso sem exercer a agressão. Jesus disse que aquele que manda deve ser como aquele que serve. Para mim, essa ideia é válida para a pessoa religiosa de qualquer credo. O verdadeiro poder de uma liderança religiosa vem de seu serviço. Quando deixa de servir, o religioso se transforma em um mero gestor, em um agente de ONG. O líder religioso compartilha, sofre, serve a seus irmãos.”

PEDOFILIA

“Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre. Agora quando isso ocorre, jamais se deve fazer vista grossa. Não se pode estar em uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. (…) Não creio em posições que pleiteiam sustentar certo espírito corporativo para evitar danos à imagem da instituição. Esta solução creio que foi proposta certa vez nos Estados Unidos: mudar os padres de paróquia. Isso é uma estupidez porque, dessa forma, o padre leva o problema na bagagem. A reação corporativa leva a tal consequência, por isso não concordo com essas medidas. Recentemente, na Irlanda, foram revelados casos após vinte anos, e o papa disse claramente: ‘Tolerância zero com este crime’. Admiro a valentia e a retidão de Bento XVI sobre esse assunto.”

TENTAÇÃO

“A vida cristã também é uma espécie de atletismo, de disputa, de corrida, em que é preciso se desvencilhar das coisas que nos separam de Deus. Além disso, quero salientar que uma questão é o demônio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem está sob tentação constante, mas não é por isso que remos de demonizá-lo.”

UNIÃO HOMOSSEXUAL

“Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

********************************************

O padre biblista Matteo Crimella fala sobre o livro Sobre el cielo y la tierra, escrito a quatro mãos pelo então arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio, e pelo rabino Skorka.

O artigo foi publicado no sítio Missionline, 16-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Entre os muitos dons que o Senhor me deu, um deles se destaca sobre todos: eu vivi por nada menos do que seis anos em Jerusalém, debruçado sobre os textos do Antigo e do Novo Testamento, observando e medindo com os meus olhos cada pedra da cidade santa. Para uma pessoa curiosa e apaixonada por livros, Jerusalém é um paraíso: há lugares (muitas vezes simples porões muito desordenados) onde se encontra todo tipo de livros, em todas as línguas do mundo.

Nos anos em que eu vivia na cidade santa, eu me permitia a satisfação de uma visita às livrarias, sem nunca me decepcionar. No verão passado, o livreiro (um sorridente judeu de origem polonesa) me informou que haviam recém-esvaziado o apartamento de um professor de língua espanhola.

Eu desci na grande loja e olhei intrigado, mas só encontrei um livro que me interessava, Sobre el cielo y la tierra, escrito a quatro mãos pelo arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio, e pelo rabino-chefe da cidade, Skorka (Jorge Bergoglio e Abraham Skorka, Sobre el cielo y la tierra, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2010, 220 páginas).

Olhei o índice, li a contracapa, descobrindo que ambos haviam estudado química, passei pelo primeiro capítulo intitulado “Sobre Dios” e decidi comprá-lo. No dia 13 de março à noite, depois do habemus papam, fui pescá-lo novamente na minha biblioteca e li-o de uma vez só.

O livro reúne os diálogos que ocorreram entre o cardeal e o rabino a propósito de vários temas: Deus, os ateus, as religiões e o seu futuro, os discípulos, a oração, o pecado, a morte, a mulher, o aborto, a educação, a política, o dinheiro, o Holocausto, o diálogo inter-religioso, em um total de 29 breves capítulos nos quais os dois discutem.

Na introdução, o rabino afirma que o diálogo é um exercício em que “a alma de um se reflete na do outro”. Além disso, evocando um baixo-relevo no frontispício da Catedral Metropolitana de Buenos Aires, que representa o abraço de José, vice-rei do Egito, com os seus irmãos, o líder da comunidade hebraica reafirma o valor da “cultura do encontro”. De fato, no diálogo, cada um é ele mesmo, o cardeal com a sua identidade católica, e o rabino com judaica, mas juntos se confrontam e se enriquecem mutuamente.

O que emerge daí? Bergoglio fala de si, do seu encontro com Deus, Ele não esconde ter feito um itinerário marcado por luzes e sombras, passando por consolações e desolações (segundo uma linguagem tipicamente inaciana e, portanto, jesuítica). Afirma: “Minha experiência de Deus se dá no caminho, na busca, no deixar-me buscar”. A partir desta experiência tão intensamente pessoal, Bergoglio olha para o mundo.

A propósito dos ateus, ele diz: “Quando me encontro com pessoas ateias, compartilho as questões humanas, mas não lhes proponho de entrada o problema Deus, exceto no caso em que elas me o proponham. Se isso ocorre, eu lhes conto por que eu acredito. Mas o humano é tão rico para compartilhar, para trabalhar, que tranquilamente podemos complementar mutuamente as nossas riquezas. Como sou crente, sei que essas riquezas são um dom de Deus”.

Skorka, referindo-se ao pensamento de Maimônides, ecoa a sua afirmação dizendo: “Podemos conhecer suas fórmulas [da perfeição da natureza], mas não a sua essência”. Bergoglio continua: “Creio que quem adora a Deus tem, nessa experiência, um mandato de justiça para com seus irmãos. É uma justiça sumamente criativa, porque inventa coisas: educação, promoção social, cuidado, alívio etc. Por isso, o homem religioso íntegro é chamado de homem justo, leva a justiça para os demais. Nesse aspecto, a justiça do religioso ou da religiosa cria cultura. Não é a mesma coisa a cultura de um idólatra que a cultura que uma mulher ou um homem que adoram o Deus vivo criam.(…) Hoje, por exemplo, temos culturas idólatras em nossa sociedade: o consumismo, o relativismo e o hedonismo”.

A centralidade do mistério de Deus e da relação com ele surge quando o cardeal reflete sobre os líderes religiosos: “Os grandes líderes do povo de Deus foram homens que deixaram lugar à dúvida. (…) Moisés é o personagem mais humilde que houve sobre terra. Diante de Deus, não resta nada mais do que a humildade, e aquele que quer ser líder do povo de Deus tem que dar espaço a Deus; portanto, apequenar-se, esvaziar a si mesmo com a dúvida, com as experiências interiores de escuridão, de não saber o que fazer. (…) Uma das características do mau líder é ser excessivamente prescritivo pela autossegurança que tem”.

O rabino ecoa a sua afirmação sem qualquer problema: “A própria fé [judaica] deve se manifestar por meio de um certo sentimento de dúvida. (…) Posso ter 99,99% de certeza sobre Ele [Deus], mas nunca 100%, porque vivemos buscando-O”.

Bergoglio demonstra ser um homem muito aberto, mas ao mesmo tempo têm ideias claras sobre a Igreja. Ele se distancia fortemente daqueles que gostariam de reduzi-la a uma agência social: “Eu acredito que [a liderança] de uma congregação [religiosa] não pode se assimilar à de uma ONG. Em uma ONG, a palavra santidade não entra. Deve haver, sim, um comportamento social adequado, honestidade, uma ideia de como ela vai levar adiante a sua missão, uma lógica para dentro. Pode funcionar dentro da sua laicidade. Mas, na religião, a santidade é inevitável em seu líder”.

São muitas as referências à experiência pastoral do arcebispo de Buenos Aires. A propósito da formação dos candidatos ao sacerdócio, o cardeal recorda as escolhas feitas na sua diocese, mas o pensamento vai mais longe: “Nós aceitamos no seminário, aproximadamente, somente cerca de 40% dos que se postulam. (…) Por exemplo, existe um fenômeno psicológico: patologias ou neuroses que buscam seguranças externas. Há alguns que sentem que, por si mesmos, não vão ter êxito na vida e buscam corporações que os protejam. Uma dessas corporações é o clero.

Com relação a isso, estamos com os olhos abertos, tentamos conhecem bem as pessoas que demonstram interesse, fazemos testes psicológicos com elas em profundidade antes que ingressem no seminário. Depois, na consciência de um ano prévia ao ingresso, durante todos os fins de semana, vai-se vendo e se discerne entre as pessoas que têm vocação e aquelas que, na realidade, não são chamadas, mas buscam um refúgio ou se equivocam na percepção da vocação”.

Um dos pontos mais tocantes do diálogo é quando o rabino e o bispo tocam no tema da oração. “A oração deve servir para unificar o povo, é um momento em que todos dizemos exatamente as mesmas palavras”: é assim que o rabino Skorka inicia o seu discurso sobre uma realidade tão pessoal que é difícil discutir a respeito publicamente, talvez até mesmo articular algumas palavras.

Bergoglio
está em sintonia: “Rezar é um ato de liberdade”. E continua: “A oração é falar e ouvir. Há momentos que são de profundo silêncio, ´de adoração, esperando que o tempo passe”. Depois, ele cita o exemplo de Abraão, que intercede por Sodoma e Gomorra, e de Moisés que reza pelo povo.

Sobre os tradicionalistas (os lefebvrianos têm um seminário e algumas igrejas na Argentina) o juízo de Bergoglio é claro: ele define os “pequenos grupúsculos restauracionistas” como “fundamentalistas”, e acrescenta: “Esse tipo de religiosidade, muito rígida, se disfarça com doutrinas que pretendem dar justificações, mas, na realidade, privam da liberdade e não deixam que as pessoas cresçam. Em grande parte, terminam na vida dupla”.

Quando o discurso aborda as grandes ideologias do século XX, o cardeal é explícito: “O cristianismo condena com a mesma força tanto o comunismo quanto o capitalismo selvagem. (…) Um exemplo claro é o que acontece com o dinheiro que foge para o exterior. O dinheiro também tem pátria, e aquele que explora uma indústria no país e leva o dinheiro embora para guardá-lo fora está pecando. Porque não honra com esse dinheiro o país que lhe dá a riqueza, o povo que trabalha para gerar essa riqueza”. E acrescenta, a propósito da lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas: “Não se pode aceitar o dinheiro manchado com sangue”.

Significativa é a passagem sobre a riqueza da Igreja: “Sempre se fala do ouro do Vaticano, mas isso é um museu. Também é preciso distinguir o museu da religião. Uma religião precisa de dinheiro para manejar as suas obras, e isso se faz através de instituições bancárias, não é ilícito. (…) O que entra em doações ou por visitas a museus vai para leprosários, para escolas, para comunidades africanas, asiáticas, americanas”. Mas, depois, lembrando o martírio de São Lourenço e a sua defesa dos pobres de Roma, ele afirma: “Os pobres são o tesouro da Igreja e é preciso cuidá-los; e se não temos essa visão, construiremos uma Igreja medíocre, morna, sem força”.

O diálogo entre um rabino e um cardeal não podia não tocar nas relações entre judeus e cristãos, e a tragédia do Holocausto. A esse propósito, Bergoglio reitera a doutrina do Vaticano II: “Efetivamente, não se pode falar de um povo deicida”. Mas, depois, com a franqueza extrema, admite que na Argentina há alguns eclesiásticos antissemitas, mas declara resolutamente: “Hoje a política da Igreja argentina é clara: diálogo inter-religioso”.

Sobre o futuro das religiões, o olhar prospectivo afunda suas raízes na história: “Se olharmos para a história, as formas religiosas do catolicismo variariam notoriamente. Pensemos, por exemplo, nos Estados Pontifícios, onde o poder temporal estava unido ao poder espiritual. Era uma deformação do cristianismo. Não correspondia ao que Jesus quis e ao que Deus quer. Se, ao longo da história, a religião teve tanta evolução, por que não pensar que, em um futuro, ela também se adequará com a cultura do seu tempo? O diálogo entre a religião e a cultura é chave, já afirmava o Concílio Vaticano II. Desde o princípio pede-se da Igreja uma contínua conversãoEcclesia semper reformanda – e essa transformação adquire diversas formas ao longo do tempo, sem afetar o dogma”.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* O Papa Francisco é o terceiro de três campeões da liberdade!

segunda-feira, março 25th, 2013

Hugh Hewitt

O Papa Francisco é o terceiro de três campeões da liberdade Hugh Hewitt

Karol Wojtyla conheceu os regimes nazista e comunista, e ajudou a provocar o desmoronamento do Império Comunista.

Joseph Ratzinger cresceu sob os nazistas, também, e passou a maior parte de sua vida ao lado de seu amigo João Paulo II na batalha mundial contra os Soviéticos e suas ramificações em várias fachadas intelectuais através do mundo.

Agora surge Jorge Mário Bergoglio, que também passou muitos anos de sua vida em duplo conflito com fascistas e comunistas. Christopher Hitchens disse-me na última entrevista que fiz com ele que o ditador argentino General Jorge Videla foi o mais perverso dos muitos homens perversos que o escritor tinha conhecido. O novo Papa teve portanto que lutar contra o pior dos piores, justamente como seus imediatos predecessores.

As batalhas do século 20 nos entregaram um novo experimentado líder para os capítulos iniciais do novo século. Francisco vem liderar uma Igreja que está realmente cansada e ferida por aquelas épicas batalhas, e essas feridas têm ficado mesmo mais dolorosas. Um corpo enfraquecido é vulnerável a tais coisas. Como qualquer Americano que pode ler sabe, a Igreja Católica Romana na América e em vários lugares do mundo foi invadida por grandes males que estão ainda sendo expurgados e expiados por novos líderes como o Cardeal Timothy Dolan, de New York, ou os arcebispos Charles Chaput de Philadelphia e José Gomez de Los Angeles.

Uma vez que J.R.R. Tolkien era um Católico, deixem-me tomar emprestado uma referência ou duas de “O Senhor dos Anéis” para ilustrar os desafios que afrontam Francisco.

O mal nunca dorme. Logo que foi desalojado na fantasia épica ele começou a procurar um novo lar, e ocupou Mordor. Eu não imaginaria representar os riscos de Tolkien com o Tom Bombadil da mídia moderna, Stephen Colbert, mas o universo do épico do inglês está sempre em nossa frente.

O Bem luta contra o Mal, e mesmo quando o Bem ganha – como em 1945 e 1989 – o Mal convoca reforços e abre uma nova frente para renovar a batalha.

Muitas e muitas pessoas estão abençoadamente vivendo em seus vários condados, atacando o aquecimento global e vários outros pretensos monstros, mas os horrores reais estão lá fora, e a Igreja Católica Romana tem, pela terceira vez em sequencia, evocado um líder que conhece exatamente a profundeza do mal.

Eu passei a maior parte da última semana entrevistando lideres intelectuais da Igreja Católica Romana na América: George Weigel, e padres como Robert Barron, Joseph Fessio, C. John McCloskey e Robert Sirico. Cada um deles estava surpreso mas também feliz com a escolha do Papa Francisco, confiantes em sua sabedoria íntima (todas essas entrevistas estão disponíveis na página de “Transcriptis” do site HughHewitt.com).

Minha última entrevista desta semana foi com o Arcebispo Chaput, que disse do novo papa que Francisco era “um homem extraordinário” e uma “extraordinária escolha”, e que ninguém deveria temer que a teologia da libertação tivesse penetrado na corte de São Pedro pela América do Sul.

“Esquerdistas argentinos da Teologia da Libertação não gostavam dele como bispo, e realmente tentaram impedir que ele fosse promovido a arcebispo de Buenos Aires”, Chaput disse-me. “Então, eles devem estar especialmente perturbados agora”.

Mas não os defensores da liberdade religiosa. Como com João Paulo II e Bento XVI, eles têm em Francisco um confiável, resistente, experiente e corajoso líder.

Hugh Hewitt é um professor de direito na Universidade Chapman e um radialista que atualiza diariamente seu blog em HughHewitt.com.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* Uma entrevista que foca a relação da Fé religiosa (não só católica) e a modernidade.

sábado, março 23rd, 2013

Entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé sobre a Igreja Católica, Papado, Relativismo, Verdade.
A Entrevista foi feita ANTES da eleição do Papa Francisco e ele se coloca muito bem, com uma predominância pela visão laical.

Suas ponderações são muito interessantes, embora alguns pontos exijam reflexão.

O tema da entrevista é amplo, focado mais na relação da religião com a modernidade. O resultado final porem é MUITO POSITIVO.

Assista, pois vale a pena.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* A Teologia da Beleza em Bento XVI.

sábado, março 23rd, 2013

MATTHEW ALDERMAN, ARQUITETO ESPECIALISTA EM ARQUITETURA SACRA, ARTISTA, ILUSTRADOR E COLABORADOR DO SITE THE NEW LITURGICAL MOVEMENT

Alguns anos atrás, enquanto estudava Arquitetura em Roma, nosso grupo foi levado para ver o maravilhoso Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Nele, o genial escultor barroco apresenta aquele momento místico em que a grande carmelita foi transpassada pela flecha ardente do amor divino. Também eu fui alvejado pela profundidade e beleza daquele trabalho. Agora, minha mente volta àquela tarde na semiescuridão de Santa Maria della Vittoria e à face de mármore leitoso da santa, levemente iluminada, depois que dois amigos chamaram minha atenção para uma mesma passagem nos escritos de Bento XVI.

Em ‘On the way to Jesus Christ, o então cardeal Ratzinger descreve a verdade como ser “atingido pela flecha da beleza que fere o homem: ser tocado pela realidade, ‘pela presença pessoal do próprio Cristo’”, citando o teólogo grego Nicolau Cabasilas. O homem contemporâneo confunde a beleza com o glamour superficial. Quando os jornalistas comentam sobre a “teologia da beleza” do papa, enfatizam o exterior – os brocados de seda, os sapatos vermelhos, as mitras – e a associam a uma exibição orgulhosa desses itens. Mas o papa é uma pessoa culta e reservada, um pianista amador que aprecia Mozart e gosta da companhia de gatos; a autopromoção pomposa não é de sua índole.

Para Bento, a visibilidade inerente ao cargo insinua uma realidade mais profunda. Para ele, a verdadeira beleza é algo que vai bem mais fundo, que penetra o coração humano. Essa beleza transcendente abrange a totalidade da verdade de Jesus Cristo, a glória e o sofrimento, a luz da ressurreição e a escuridão do Calvário. Como na visão de Santa Teresa, há tanto deleite quanto dor no toque da beleza à medida que ela nos abre para Deus.

Bento XVI também escreveu que “a única defesa realmente efetiva do Cristianismo se resume em dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que floresceu em seu seio”. Em uma era que perdeu a arte da argumentação filosófica, essa experiência da beleza – no testemunho de sacrifício da vida cristã, e na beleza física da arte e da arquitetura – nos permite vencer os muros defensivos que erguemos dentro de nós mesmos contra Deus. O testemunho de beleza de Bento é, portanto, um ato evangélico, de pregação e apostolado. A beleza nunca se encerra em si mesma.

Em um nível mais concreto, o amor do papa pela arte coloca a beleza em um contexto histórico, passado e presente. Os elaborados rituais papais e outros atos que podem parecer arcaicos ao não católico, e até para muitos católicos, são tentativas de nos colocar em continuidade com dois milênios de pintura, escultura e música que buscam nos levar a Cristo. Eles representam não a autoglorificação, mas um desejo de união de Bento com seu cargo, de comunhão com seus predecessores. Ele não quer que ninguém desvie para o homem Joseph Ratzinger a atenção devida a Cristo. Por isso, em muitas missas papais, ele coloca no altar um enorme crucifixo: assim, ele e os fiéis podem olhar para o mesmo Cristo e ser transpassados pelo mesmo raio de beleza que emana dEle.

Como Teresa, Bento XVI foi atingido pelo amor e pela beleza. Sua renúncia nos mostra que seu coração também foi alvejado por muitas outras flechas – tristeza, desunião, o fardo do papado e o peso da idade. Também há beleza em aceitar esse sofrimento, e rezemos por ele, agora que terá um merecido descanso.


Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* Porque a Mídia tem feito uma megacobertura da Igreja de forma tão acrítica e superficial?

quarta-feira, março 20th, 2013

Carlos Alberto de Franco * – O Estado de S.Paulo

Uma megacobertura. Não há outra palavra para definir o volume de informação a respeito da Igreja Católica. A surpreendente renúncia de Bento XVI, os bastidores do conclave, o impacto da eleição do primeiro pontífice da América Latina e a próxima Jornada Mundial da Juventude, encontro do papa Francisco com os jovens, em julho no Rio de Janeiro, puseram a Igreja no foco de todas as pautas.

A cobertura do Vaticano é um case jornalístico que merece uma análise técnica. Algumas patologias, evidentes para quem tem olhos de ver, estiveram presentes em certas matérias da imprensa mundial: engajamento ideológico, escassa especialização e pouco preparo técnico, falta de apuração, reprodução acrítica de declarações não contrastadas com fontes independentes e, sobretudo, a fácil concessão ao jornalismo declaratório.

Poucos, por exemplo, se aprofundaram no verdadeiro sentido da renúncia de Bento XVI e na qualidade de seu legado. O papa emérito, intelectual de grande estatura e homem de uma humildade que desarma, sempre foi julgado com o falso molde de um conservadorismo exacerbado. Mas, de fato, foi o grande promotor da realização do Concílio Vaticano II, o papa que mais avançou no diálogo com o mundo islâmico, o pontífice que empunhou o bisturi e tratou de rasgar o tumor das disputas internas de poder e o câncer dos desvios sexuais.

Sua renúncia, um gesto profético e transgressor, foi um ato moderno e revolucionário. Bento XVI não teve nenhum receio de mostrar ao mundo um papa exausto e sem condições de governar a Igreja num período complicado e difícil. Foi sincero. Até o fim. Ao mesmo tempo, sua renúncia produziu um vendaval na consciência dos cardeais. A decisão, inusual nas plataformas de poder, foi a chave para o início da urgente e necessária reforma da Igreja. O papa emérito, conscientemente afastado das bajulações e vaidades humanas e mergulhado na sua oração, está sendo uma alavanca de renovação da Igreja.

Nada disso, no entanto, apareceu na cobertura da mídia. Faltaram profundidade, análise séria, documentação. Ficamos, todos, focados nos boatos, nas intrigas, na ausência de notícia. Falou-se, diariamente, do relatório dos cardeais ao papa emérito denunciando supostos escândalos no Vaticano. Mas ninguém na mídia, rigorosamente ninguém, teve acesso ao documento. Os jornais, no entanto, entraram de cabeça no mundo conspiratório. Suposições, mesmo prováveis, não podem ganhar o status de certeza informativa.

Escrevia-me, recentemente, um excelente jornalista. “Acordei hoje cedo, li os jornais e me perguntei: sou só eu a me indignar muito com a proliferação de ‘informações’ inverificáveis, oriundas de fontes off the record ou de documentos ’sigilosos’ sobre os quais não há nenhum outro dado que permita verificar sua realidade e consistência? Ninguém se questiona sobre tantos ‘furos’, ‘obtidos’ por jornalistas que escrevem a distância ‘reportagens’ tão nebulosas, redigidas em uma lógica claramente sensacionalista? Ninguém mais se preocupa com a checagem de informações, com a credibilidade das fontes?” Assino embaixo do seu desabafo.

A enxurrada de matérias sobre abuso sexual na Igreja é outro bom exemplo desses desvios. Setores da mídia definiram os abusos com uma expressão claramente equivocada: “pedofilia epidêmica”. Poucos jornais fizeram o que deveriam ter feito: a análise objetiva dos fatos. O exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade. O conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas cem sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de Educação Física sofriam condenação pelo mesmo delito. Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? Mas e as outras 209 mil? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo.

Claro que alguns representantes da Igreja – padres, bispos e cardeais – têm importante parcela de culpa. Na tentativa de evitar escândalos públicos, esconderam um problema que é inaceitável. Acresce a tudo isso o amadorismo, o despreparo e a falta de transparência da comunicação eclesiástica. O novo pontífice precisa enfrentar a batalha da comunicação. E o papa Francisco dá toda a impressão de que está decidido a estabelecer um diálogo direto e produtivo com a imprensa. O desejo de se reunir com os jornalistas na grande sala de audiência Paulo VI foi muito sugestivo.

A Igreja, com sua história bimilenar e precedentes de crises muito piores, é um fenômeno impressionante. E, obviamente, não é um assunto para ser tocado com amadorismo, engajamento ou preconceito. A má qualidade da cobertura da Igreja é, a meu ver, a ponta do iceberg de algo mais grave. Reproduzimos, frequentemente, o politicamente correto. Não apuramos. Não confrontamos informações de impacto com fontes independentes. Ficamos reféns de grupos que pretendem controlar a agenda pública. Mas o jornalismo de qualidade não pode ficar refém de ninguém: nem da Igreja, nem dos políticos, nem do movimento gay, nem dos fundamentalistas, nem dos ambientalistas, nem dos governos. Devemos, sim, ficar reféns da verdade e dos fatos.

Há espaço, e muito, para o bom jornalismo. Basta cuidar do conteúdo e estabelecer metodologias e processos eficientes de controle de qualidade da informação.

* Carlos Alberto de Franco é doutor em Comunicação pela Unversidade de Navarra e diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS). E-mail: difranco@iics.org.br.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* A Igreja NÃO renunciará a seus fundamentos; ela não é movida pelas mudanças culturais de cada tempo.

quinta-feira, março 14th, 2013

Por Reinaldo Azevedo

Mal foi anunciado o nome do novo papa, começou a circular mundo afora a acusação de que Jorge Mario Bergoglio, agora papa Francisco, teria denunciando dois jesuítas, subordinados seus, para a ditadura. Já escrevi um post a respeito.

Quem espalha a história é o jornalista Horacio Verbitsky, que pertenceu ao grupo terrorista Montoneros.

Ele próprio admite que deu alguns tiros, “mas sem matar ninguém”. Claro, claro! Um outro jornalista argentino o acusa de ter desviado para Cuba os US$ 60 milhões que renderem o sequestro de dois bilionários argentinos. Considerando a sua história e a de Bergoglio, é muito mais verossímil que ele tenha se metido na sujeira do sequestro — terrorista confesso — do que o agora papa se envolvido com as forças da repressão. Quando procuramos os detalhes, ficamos sabendo que o dito “jornalista respeitável” não tem uma só prova, um só indício. O ódio àquele que foi escolhido para conduzir a Igreja Católica certamente deriva de sua postura considerada “conservadora” também em política. O até ontem arcebispo de Buenos Aires repudia uma Igreja transformada em partido político.

Também começaram a circular os ataques ao papa Francisco por conta de sua censura ao casamento gay e à adoção de crianças por pares homossexuais. Aqui e ali, coma ares de indignação, quase de escândalo, lembrava-se ainda que o novo papa se opõe ao aborto, a pesquisas com embriões humanos e defende as regras de relacionamento amoroso e concepção da… Igreja Católica! Meu Deus! Para onde caminha este mundo louco, não é mesmo? Com que então os cardeais escolheram para conduzir a Igreja Católica alguém que defende os fundamentos da… Igreja Católica!? Fico cá me perguntando por que, afinal, esses benfeitores da humanidade, tão convencidos de que o Vaticano é um covil de reacionários, não vão testar as suas teses progressistas em países que tiveram a ventura de não passar pela “ditadura católica” — como os muçulmanos, por exemplo. Teerã… É! Penso em Teerã, capital do Irã, cujo presidente, Mahamoud Ahmadinejad, é tão amigo dos “companheiros” brasileiros… Teerã me parece um bom lugar para essa militância, livre do, como é mesmo?, “peso do mundo judaico-cristão”…. Só tomem cuidado com os guindastes. Quando virem algumas pessoas penduradas, elas não estão trabalhando…

“Ah, o Reinaldo acha que a gente não tem o direito de se expressar aqui mesmo; quer mandar a gente para o Irã…” Eu acho que vocês têm o direito de pedir o que lhe der na telha, mas têm também o dever de permitir que a Igreja seja Igreja — uma entidade que, embora aspire a valores universais, fala aos seus e não exerce poder de estado. Adere a ela quem quer.

“Mas não tenho o direito de ser gay e ser católico”? Não se tem notícia de que a Igreja tenha expulsado de um de seus templos quem quer que seja. Também é uma mentira escandalosa que a religião promova a perseguição a este ou àquele. A instituição tem, no entanto, a sua concepção do que seja a família natural — e acho difícil que isso mude algum dia. Mas é evidente que reconhece a existência da homossexualidade e da vida em comum de parceiros homossexuais como realidade de fato. Só não aceita que tenha o mesmo status da “família natural”. Aí grita alguém: “Por quê? É inferior?” Não! É outra coisa, que a instituição não aceita como parâmetro.

Qual é o problema? Apesar da oposição da Igreja Católica da Argentina ao casamento gay e à possibilidade de adoção, a lei foi aprovada, não foi? O que me pergunto é por que não basta aos militantes da causa vencer. Por que, afinal de contas, exigem que a Igreja Católica comungue de seus mesmos valores? Fico muito impressionado que a escolha de um papa e a indicação do presidente de uma comissão do Congresso brasileiro tenham de necessariamente ser filtrados por essa pauta.

Parece que a Igreja Católica, especialmente nas reportagens de TV, não tem mais nenhum desafio pela frente. Parece que aquela que é a maior instituição educacional do mundo, a maior instituição de benemerência do mundo, a maior rede de atendimento médico do mundo — só para citar alguns dos aspectos, digamos, mundanos da Igreja — agora se define por sua opinião sobre o… casamento gay! Tenham paciência!

“Reinaldo está querendo dizer que milhões de pessoas não têm importância…” Não! Estou afirmando que a pauta da Igreja Católica é outra, ora essa! Eu sei que é chato ser um tanto óbvio, mas a medida da instituição, apesar de todos os seus desvios — porque feita por homens imperfeitos — é o exemplo deixado por Jesus Cristo e as verdades reveladas (assim creem os católicos) nos Evangelhos. É uma perda de tempo, um desperdício de energia e, no fundo, uma estupidez cobrar que ela renuncie a seus fundamentos.

A Igreja não abrirá mão do que considera a “família natural”; não cederá aos apelos em favor da descriminação do aborto; não acatará a destruição de embriões humanos em nome da pesquisa científica; não dará seu endosso à dissolução do casamento; não cederá, ATENÇÃO PARA ISTO!, ao pragmatismo do capitalismo, do liberalismo (e é um liberal que escreve) etc. Não fará nada disso porque o seu diálogo com o mundo moderno consiste em amparar quem sofre no… mundo moderno, mas não em ceder a seus apelos. A Igreja Católica pode beijar os pés dos que considera “pecadores”, mas não aceitará jamais o seu pecado. E essa talvez seja a dimensão mais incompreendida da instituição.

Quando se diz que a igreja ama o pecador, mas não o pecado, não se está fazendo mero jogo de palavras. Todo homem, mesmo o mais vil, é digno de piedade, mas isso não quer dizer que possamos concordar com seus malfeitos.

Nessas horas, sempre me vem à mente o exemplo notável do advogado católico Sobral Pinto. Anticomunista ferrenho, foi advogado, não obstante, de Luiz Carlos Prestes e Harry Berger (Arthur Ewert era seu nome real), que lideraram o levante comunista de 1935. Presos, foram barbaramente torturados pelo regime getulista. Entrou para a história a estratégia de Sobral, que evocou para defendê-los a Lei de Proteção aos Animais. Sim, ele abominava o comunismo, mas isso não o fazia abominar as PESSOAS comunistas. Submetidas que estavam a um tratamento desumano, inaceitável, injusto, Sobral fez o seu trabalho de advogado e viveu na prática o mandamento de sua religião.

Bem, todos sabemos o que os comunistas fizeram com os cristãos quando e onde chegaram ao poder, não é mesmo? Será que Prestes, ele mesmo, teria salvado a cabeça de Sobral Pinto? Acho que não… Findo o Estado Novo, subiu ao palanque do Getúlio que havia liderado o regime que o torturara e que mandara para a Alemanha nazista a sua mulher, Olga Benário, que era judia e estava grávida. Como Prestes conseguiu fazer aquilo? Alguns, acreditem!, chegam a admirá-lo por isso. Fez porque ele tinha uma causa que considerava mais importante: a luta contra o imperialismo. Ora, se essa luta o fazia dar as mãos a um mostro, ela também poderia fazê-lo mandar para o paredão um anjo, não é?

“Por que essa viagem, Reinaldo?” Não é viagem nenhuma, não! Só estou deixando claro que os fundamentos do catolicismo não estão e não podem estar sujeitos a certas contingências. A Igreja pode e deve ser mais célere em buscar meios que facilitem a divulgação de sua “mensagem”, da “Palavra”, mas não contem com a possibilidade de que ela se transforme numa ONG, cujo rumo seja ditado pela “minoria democrática”, esse conceito tão singular criado pela militância influente, à qual a imprensa adere gostosamente. Uma igreja é feita por seus fiéis. Nesse sentido, deve-se abrir para o povo. Mas uma religião, prestem atenção!, conduz em vez de ser conduzida. Quem tem de se submeter à maioria democrática é o estado laico e, ainda assim, é preciso que o  faça segundo critérios muito claros, ou o mundo regride para o estado da natureza, para a luta de todos contra todos. A Igreja não é uma democracia. E faz, para lembrar a missa, o convite para “Ceia do Senhor”.  É, insisto, um convite: “Felizes os convidados…”

Na Igreja do papa Francisco, como na de Bento XVI, de João Paulo II e de outros tantos, há lugar pra todo mundo, para todos nós, com todas as nossas particularidades e imperfeições. Mas, vejam que coisa!, nem todas as ideias e as visões de mundo são aceitas também como verdades dessa Igreja.

E me ocorre agora uma questão interessante: nem todas as ideias e visões de mundo devem ser aceitas nas associações GLBTs, por exemplo. Tenho a certeza de que nem mesmo gays eventualmente contrários ao casamento gay, e eles existem, seriam considerados bem-vindos, não é? O mesmo vale para o mundo da ciência. Cientistas que se opõem à pesquisa com embriões humanos levam na testa a pecha de obscurantistas. Conheço casos. Entendo. No fim das contas, os pequenos papas de suas respectivas seitas acham inaceitável que possa existir um papa da Igreja Católica. E saem gritando “cortem-lhe a cabeça!” em nome da tolerância.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* A Igreja de Cristo é a Igreja católica e a Igreja católica é a Igreja de Cristo!

sexta-feira, março 8th, 2013

Dom Henrique Soares

O Concílio Vaticano II afirmou na Lumen Gentium 8 que “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica”. O recente documento da Congregação para a Doutrina da Fé explicou de modo claro o significado de tal expressão. Apresento agora o comentário da própria Congregação a esta frase e às questões do Documento referentes a ela:

“Como se deve entender que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica.

Quando G. Philips escreveu que a expressão “subsistit in” faria “correr rios de tinta”, provavelmente não previa que a discussão haveria de continuar por tanto tempo e com tal intensidade, a ponto de levar a Congregação para a Doutrina da Fé a publicar o presente documento.

Uma tamanha insistência, aliás fundada em textos conciliares e do Magistério sucessivo citados, reflete a preocupação de salvaguardar a unidade e unicidade da Igreja, que viriam a faltar, se se admitisse que possam existir mais subsistências da Igreja fundada por Cristo. De fato, como se diz na Declaração Mysterium Ecclesiae, se assim fosse, chegar-se-ia a imaginar “a Igreja de Cristo como a soma – diferenciada e, de algum modo, unitária ao mesmo tempo – das Igrejas e Comunidades eclesiais” ou a “pensar que a Igreja de Cristo hoje já não existe em parte alguma e que, portanto, deva ser só objeto de procura da parte de todas as Igrejas e comunidades”. A única Igreja de Cristo já não existiria como una na história ou existiria apenas de forma ideal, ou seja in fieri, numa futura convergência ou reunificação das diversas Igrejas irmãs, desejada e promovida pelo diálogo.

Mais explícita ainda é a Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os escritos de Leonardo Boff, segundo o qual, a única Igreja de Cristo “pode também subsistir noutras Igrejas cristãs”. Invés – observa a Notificação –, “o Concílio adotou a palavra ‘subsistit’, precisamente para esclarecer que existe uma só ‘subsistência’ da verdadeira Igreja, ao passo que, fora da sua composição visível, existem apenas “elementa Ecclesiae” (elementos da Igreja), que – por serem elementos da própria Igreja – tendem e conduzem para Igreja católica”.

Porque se empregou a expressão “subsistit in” e não o verbo “est”.

Foi precisamente esta mudança de terminologia, na descrição da relação entre a Igreja de Cristo e a Igreja católica, que deu ocasião às mais diversas ilações, sobretudo no campo ecumênico. Na realidade, os Padres conciliares simplesmente entenderam reconhecer a presença, nas Comunidades cristãs não católicas enquanto tais, de elementos eclesiais próprios da Igreja de Cristo. Daí resulta que a identificação da Igreja de Cristo com a Igreja católica não se deve entender come se, fora da Igreja católica, exista um “vazio eclesial”. Ao mesmo tempo, significa que, se se considera o contexto em que se situa a expressão subsistit in, ou seja, a referência à única Igreja de Cristo “neste mundo constituída e organizada como uma sociedade… governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”, a passagem do est ao subsistit in não assume especial significado teológico de descontinuidade com a doutrina católica precedente.

Ora, porque a Igreja assim querida por Cristo continua de fato a existir (subsistit in) na Igreja Católica, a continuidade de subsistência comporta uma substancial identidade de essência entre Igreja de Cristo e Igreja católica. O Concílio quis ensinar que a Igreja de Jesus Cristo, como sujeito concreto neste mundo, pode ser encontrada na Igreja católica. Isso só se pode realizar uma vez, pelo que a concepção, segundo a qual o “subsistit” deveria multiplicar-se, não traduz propriamente o que se entendia dizer. Com a palavra “subsistit”, o Concílio queria exprimir a singularidade e a não multiplicabilidade da Igreja de Cristo: a Igreja existe como único sujeito na realidade histórica.

Portanto, a substituição de “est” com “subsistit in”, contrariamente a tantas interpretações sem fundamento, não significa que a Igreja católica abandone a convicção de ser a única verdadeira Igreja de Cristo, mas simplesmente significa uma sua maior abertura à particular exigência do ecumenismo de reconhecer o caráter e dimensão realmente eclesiais das Comunidades cristãs não em plena comunhão com a Igreja católica, graças aos “plura elementa sanctificationis et veritatis” (vários elementos de santificação e de verdade) nelas presentes. Por conseguinte, embora a Igreja seja só uma e “subsista” num único sujeito histórico, também fora deste sujeito visível existem verdadeiras realidades eclesiais”.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* A verdade: “Não somos nós a possuí-la, é ela quem nos possui!”

quarta-feira, fevereiro 20th, 2013

“A Igreja do amor é também a Igreja da verdade”!!

Desde o início do seu pontificado, Bento XVI pôs em relevo a centralidade do testemunho da verdade evangélica. Um desafio que, na verdade, poderíamos dizer que está no “DNA” do cristão Joseph Ratzinger que, em 1977, para o seu lema episcopal, escolheu a fórmula “Cooperatores Veritatis”, (”Colaboradores da Verdade”), extraída de uma passagem da terceira Carta de São João.

“Quantos ventos de doutrina conhecemos nestas últimas décadas, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensamento!” Nós, contudo, “temos uma outra medida: o Filho de Deus”, que “nos dá o critério para discernir entre o verdadeiro e o falso, entre engano e verdade“.

Quando Joseph Ratzinger pronuncia estas palavras a 18 de Abril de 2005, ainda é “apenas” o decano do Colégio Cardinalício. Mas, neste momento, é fácil ver que naquela homilia sobre a “ditadura do relativismo” o futuro Pontífice indicava já à Igreja um dos desafios mais urgentes dos nossos tempos. No fundo e sempre: testemunhar a verdade.

Mas o que é a verdade, ou melhor,quem é a verdade para Bento XVI, e – podemos possuí-la?

“É claro que não somos nós que possuímos a verdade, mas é ela a possuir-nos: Cristo que é a verdade, pegou-nos pela mão, e no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento sabemos que a sua mão nos segura firmemente. Ser sustentados pela mão de Cristo torna-nos livres e seguros ao mesmo tempo”. (Discurso à Cúria Romana, 21 de Dezembro de 2012)

Portanto, a verdade é uma Pessoa, Jesus Cristo. Por outro lado, observa Bento XVI na sua primeira Encíclica “Deus caritas est”, no início do Cristianismo “não está uma decisão ética ou uma grande ideia”, mas sim, precisamente “o encontro” com esta Pessoa. Quanto mais autêntico for este encontro, adverte o Papa, tanto mais somos chamados a aceitar sacrifícios e perseguições: “Quem participa na missão de Cristo deve inevitavelmente enfrentar tribulações, contrastes e sofrimentos, porque entra em conflito com as resistências e os poderes deste mundo”. (Audiência para as Pontifícias Obras Missionárias, 21 de Maio de 2010)

Mas a verdade, não se cansa de afirmar Bento XVI, não está separada da caridade. Ao mesmo tempo, explica na Caritas in veritate, “sem verdade, a caridade degenera no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, a preencher arbitrariamente”. E’, adverte, “o risco fatal do amor numa cultura sem verdade”. Eis, então, que a fé, bem longe de ser um obstáculo, se torna a luz que ilumina o caminho para a verdade:

“Diante de tal atitude que tende a substituir a verdade com o consenso, frágil e facilmente manipulável, a fé cristã oferece, pelo contrário, uma contribuição real também no âmbito ético-filosófico, não fornecendo soluções pré-constituídas para problemas concretos, como a investigação e experimentação biomédica, mas propondo perspectivas morais fiáveis dentro das quais a razão humana pode investigar e encontrar soluções válidas.” (Audiência à Congregação para a Doutrina da Fé, 15 de Janeiro de 2010).

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* A Igreja Católica sempre será um sinal de contradição para o mundo.

quarta-feira, fevereiro 13th, 2013
A NAVE DE PEDRO
Percival Puggina
A expectativa de que venha por aí um pontífice romano com “ideias
novas” é mal costurada tolice. Na Igreja Católica não há espaço para
voluntarismos, nem para aquilo que em política se chama “vontade política” -
exibida nas refregas eleitorais como chave mestra para solucionar todos os
problemas. Felizmente, as coisas não são assim na Igreja. Nela, a única
vontade que conta é a vontade do Senhor. A suprema novidade é a Boa Nova.
O novo, o novo mundano, o novo profano, as rerum novarum, não são
submetidos a qualquer discernimento individual, mas à Revelação e à Santa
Tradição.
É interessante ver como certos comunicadores pretendem impor à
Igreja os seus critérios, os seus princípios e os seus valores. Eles acham isto e
acham aquilo. E mudam de opinião com facilidade… Ora, senhores, a Igreja
não vai alterar seu ensinamento por uma razão muito simples: ela está para o
que ensina assim como a agulha da bússola está para o norte magnético. Ela
não é dona do norte. Ela apenas aponta para o norte. Quem quiser guiar-se
por essa orientação, livremente, que o faça. Quem não quiser tem todos os
outros pontos cardeais à sua disposição. A Igreja, por sua parte, não é livre
para fazer o mesmo.
Nós podemos agir como bem entendamos, podemos guiar-nos pelas
referências que preferirmos. E a Igreja Católica sempre será um sinal de
contradição em relação aos desvalores que se insinuam na sociedade e os
evidentes descaminhos pelos quais la nave vá. A nave de Pedro vai para onde
o Senhor quer. Os incomodados que desembarquem.

Percival Puggina

A expectativa de que venha por aí um pontífice romano com “ideias novas” é mal costurada tolice. Na Igreja Católica não há espaço para voluntarismos, nem para aquilo que em política se chama “vontade política” – exibida nas refregas eleitorais como chave mestra para solucionar todos os problemas. Felizmente, as coisas não são assim na Igreja. Nela, a única vontade que conta é a vontade do Senhor. A suprema novidade é a Boa Nova.

O novo, o novo mundano, o novo profano, as rerum novarum, não são submetidos a qualquer discernimento individual, mas à Revelação e à SantaTradição.

É interessante ver como certos comunicadores pretendem impor à Igreja os seus critérios, os seus princípios e os seus valores. Eles acham isto e acham aquilo. E mudam de opinião com facilidade… Ora, senhores, a Igreja não vai alterar seu ensinamento por uma razão muito simples: ela está para o que ensina assim como a agulha da bússola está para o norte magnético. Ela não é dona do norte. Ela apenas aponta para o norte. Quem quiser guiar-se por essa orientação, livremente, que o faça. Quem não quiser tem todos os outros pontos cardeais à sua disposição.

A Igreja, por sua parte, não é livre para fazer o mesmo.

Nós podemos agir como bem entendamos, podemos guiar-nos pelas referências que preferirmos. E a Igreja Católica sempre será um sinal de contradição em relação aos desvalores que se insinuam na sociedade e os evidentes descaminhos pelos quais la nave vá. A nave de Pedro vai para onde o Senhor quer.

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo

* Seria a Arte – e suas expressões- desvinculada de qualquer regra e princípio moral?

quarta-feira, fevereiro 13th, 2013
Arte e Moral
A profunda atualidade do decreto conciliar Inter merifica

Por Rodolfo Papa

Frequentemente escutam-se ou leem-se afirmações que descrevem as artes como atividades desvinculadas de qualquer regra e, sobretudo, como independentes de qualquer princípio moral, e, às vezes, estas visões vêm abraçadas também por artistas (pintores, escultores, músicos, arquitetos…) que se declaram católicos. Porém, de vários modos pode ser argumentado e compreendido que o fazer da arte è sempre vinculado ao agir moral.

Bastariam boas noções de filosofia para resolver facilmente a questão[2], mas é também muito interessante e enriquecedor recorrer à leitura de partes dos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, para afugentar a perniciosa convicção que os “direitos da arte” não tenham alguma relação com as “normas da lei moral”.

Leiamos, portanto, atentamente o artigo n. 6 do Decreto sobre instrumentos de comunicação social Inter Merifica promulgado a 4 de dezembro de 1963, que textualmente diz:

«Uma segunda questão diz respeito às relações entre os chamados direitos da arte e as normas da lei moral. Dado que, não raras vezes, as controvérsias que surgem sobre este tema têm a sua origem em falsas doutrinas sobre ética e estética, o Concílio proclama que a primazia da ordem moral objetiva deve ser repeitada absolutamente por todos, porque é a única que supera e coerentemente ordena todas as demais ordens humanas, por mais dignas que sejam sem excluir a arte. “Só a ordem moral, de fato, atinge o homem na totalidade, criatura de Deus dotada de inteligência e chamada a um fim sobrenatural; e a mesma ordem moral, se integral e fielmente observada, leva o homem a chegar à perfeição e á plenitude da felicidade» (IM,6)

Portanto, o Decreto Conciliar afirma que é preciso guardar-se das falsas doutrinas em matéria de ética e de estética, porque a primazia da ordem moral objetiva deve ser repeitada absolutamente por todos.

É muito fácil compreender como a questão seja interconexa aos meios de comunicação social, porque frequentemente falsas doutrinas em matéria de ética são veiculadas através defiction, film, talkshow, tanto que a atenção crítica no confronto das mensagens televisivas e telemáticas é já compartilhada e difusa. O fato, porém, que dentro do mesmo horizonte moral se coloquem também as questões em matéria de estética, é um aspecto ainda de certo modo não compreendido e é também tudo o que torna o Decreto Inter Merifica um texto absolutamente extraordinário, capaz ainda de dizer coisas novas.

De fato, o verdadeiro centro do parágrafo 6 está no colocar o problema estético no contexto dos meios de comunicação social, e analisar os direitos da arte nas questões morais. O Concílio decididamente não afirma que a Igreja se deva submeter às imposições do mundo contemporâneo no campo moral e nem no estético, antes afirma com firmeza o contrário, isto é, que deve guardar-se das falsas doutrinas nos dois campos, perscrutando-os com atenção e tomando distância de tudo aquilo que  resulta falso, errôneo e perigoso.

Existe um imenso patrimônio de pesquisa, de estudo e de reflexões sobre problemáticas éticas no mundo contemporâneo: basta pensar nas questões concernentes à moral sexual, ou as aplicações tecnológicas, ou os problemas bioéticos ou aqueles relacionados aos direitos jurídicos da pessoa desde a concepção até a morte. Talvez, ainda há muito que cumprir em âmbito de estudo e reflexão sobre questões estéticas e artísticas, para compreender quais são na contemporaneidade as falsas doutrinas em matéria de estética. Antes, como aludimos ao início, muitos absolutamente excluem que possam existir falsas doutrinas em matéria de estética.

As virtudes praticadas e cultivadas são instrumento eficaz na edificação do homem e a arte está entre as atividades humanas que, na prática das mesmas virtudes, tem o dever de mostrar o esplendor da verdade mediante a beleza. Muitas vezes se confunde o plano dos direitos da arte com a liberdade de sair do plano dos princípios morais; porém, a arte – porque tem por seu específico dever e interesse a beleza – de consequência não pode não interessar-se pelas relações com a verdade e com o bem. Nesta perspectiva o Decreto Inter Merifica afirma que a ordem moral objetiva supera e coerentemente ordena todas as demais ordens humanas, por mais dignas que sejam, sem excluir a arte. É a ordem do bem a unificar cada atividade humana, a arte não pode constituir uma exceção, antes de certo modo é a máxima exemplificação.

Sobre este ponto também o Catecismo da Igreja Católica, na terceira parte, segunda sessão, capítulo segundo, quando afronta os Mandamentos, analisando o oitavo “Não levantar falso testemunho”, oferece uma profunda reflexão pondo em relação este mandamento moral com a verdade afirmada e a beleza, mostrando a ligação entre a verdade e o bem, e entre a arte e a verdade afirmada. Diz: «A prática do bem é acompanhada por um prazer espiritual gratuito e pela beleza moral”. Do mesmo modo, a verdade se aproxima da alegria e ao esplendor da beleza espiritual. A verdade é bela por si mesma. Ao homem, dotado de inteligência, é necessária a verdade da palavra, expressão racional do conhecimento da realidade criada e incriada; mas a verdade pode também encontrar outras formas de expressão humana, complementares, sobretudo quando se trata de evocar tudo o que esta comporta de indizível, as profundidades do coração humano, as elevações da alma, o mistério de Deus».[3]

E depois ainda: « O homem exprime a verdade do seu relacionamento com Deus Criador também mediante a beleza das próprias obras artísticas [...] Como cada atividade humana, a arte não tem em si o próprio fim absoluto, mas é ordenada ao fim último do homem e por este enobrecida»[4]

Daqui descende que não pode existir um direito absoluto da arte, que possa permitir qualquer coisa em nome das necessidades artísticas, e, portanto ainda deriva, como afirma o DecretoInter Merifica, que existem teorias estéticas falsas e que a elas não se deve submeter. Aliás, é evidente como este discurso tem uma particular validade na aplicação ao âmbito da arte sacra.

Catecismo da Igreja Católica aprofunda o discurso sobrequestão artística, chegando a dar as indicações precisas sobre coisa seja a arte sacra. Diz: «A arte sacra é verdadeira e bela, quando, na sua forma, corresponde à vocação que lhe é própria: evocar e glorificar, na fé e na adoração, o mistério transcendente de Deus, Beleza Escelsa  de verdade e de amor, resplandecida em Cristo “irradiação da sua glória e sinal de sua essência” (Heb 1,3), no qual “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col. 2,9), beleza espiritual refletida na Santíssima Virgem Maria, nos anjos e nos santos. A autêntica arte sacra conduz o homem à adoração, à oração, ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e Santificador»[5]

E muito oportunamente se dispõe que «os Bispos, pessoalmente ou por meio de delegados, devem cuidar de promover a arte sacra, antiga e moderna, em todas as suas formas, e de ter longe, com o mesmo zelo, a partir da Liturgia e dos edifícios de culto, tudo aquilo que não está conforme à verdade da fé e à autêntica beleza da arte sacra».[6]

[1] Especialista no XIII Sínodo do Biscopos, professor de História das teorias estéticas na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma, Artista, Acadêmico Pontifício. Website:www.rodolfopapa.it

Blog: http://rodolfopapa.blogspot.com e-mail: rodolfo_papa@infinito.it.[2] Cfr. PAPA, R., Discorsi sull’arte sacra, Cantagalli, Siena, 2012, pg. 167-184.

[3] CIC, 2500

[4] CIC, 2501

[5] CIC, 2502

[6] CIC, 2503

Imprimir | Favoritos |Compartilhar
  • Print this article!
  • Google
  • Live
  • YahooMyWeb
  • Favorites
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • MySpace
  • Rec6
  • LinkedIn
  • Netvibes
  • Technorati
  • Yahoo! Buzz
  • TwitThis
  • Enviar artigo para amigo
A Igreja não é autora da verdade humana, sujeita às revisões de cada tempo, mas depositária da VERDADE revelada por Deus, em Cristo Jesus.
  Assine o RSS
_______________________
Comentários
Categorias
Artigos – Dia a dia
maio 2013
D S T Q Q S S
« abr    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031