Couch Potatoes

“Jovem rebelde que quer mudar o mundo”. Se há uma frase que me descreva no período da minha juventude, é, sem dúvida, essa. Entre os 15 e 18 anos, em plena ditadura militar no Brasil e diante da pobreza que coalhava as ruas do Rio à noite, eu seria facilmente classificada como jovem rebelde que quer mudar o mundo. Sei que hoje 18 anos é considerado adolescência. Porém, levando-se em conta que me casei, já velha para os padrões da época, aos 21 anos, então, estava, sim, em plena juventude.

Na época, a palavra “rebelde” não tinha a conotação de hoje. Não era, por exemplo, associada ao terrorismo. Descrevia apenas alguém que não estava cem por cento encaixada no status quo. Pois bem. Eu era jovem, rebelde e, sobretudo, queria, mas queria muito, mesmo, mudar o mundo.

“Sonhadora”, “tola”, “idealista”, “ingênua”, “impulsiva”, “inconsequente” e “altruísta” (sim, à época, “altruísta” podia ter sentido pejorativo!) eram os adjetivos mais suaves que me eram aplicados. Meus pais morriam de medo que eu ingressasse na temida “juventude transviada” e, já na faculdade, imploravam para que eu não me metesse na “juventude terrorista”, da qual faziam parte Dilma e Dirceu.

Medos sem fundamento. Meus sonhos e valores estavam em franco contraste tanto com a “juventude transviada” dos anos 60, cujo ícone era Leila Diniz, como com a “juventude terrorista” com seus diversos ocupantes de primeira página de jornais. O discurso “rebelde” podia até parecer o mesmo, mas os fundamentos, então em parte desconhecidos para mim, eram totalmente diferentes.

Para mim, a canção que expressava o coração não era a badalada “Caminhada”, mas a fora de moda “Para mim, a chuva no telhado, é cantiga de ninar, mas o pobre meu irmão, para ele a chuva fria, vai entrando em seu barraco e faz lama pelo chão! Como posso dormir sossegado se ao pobre meu irmão eu fechei meu coração, meu amor eu recusei? Como posso ser feliz?”

Durante algum tempo, minha gana de mudar o mundo lutou ferozmente contra o que eu considerava “falta de compreensão” de minha família que, na noite fria procurava os cobertores e descobria que tinham sido, misteriosamente, dados aos pobres da rua. Hoje, dá vontade de rir, mas na época a bronca era grande. Em outra frente, minha gana lutava contra os padrões para as moças bem-educadas e prendadas da época (com as quais jamaaaaais me identifiquei) e com aquele sentimento de revolta impotente de quem é obrigado a assistir no sofá, com a mesma placidez, o homem pisar na lua e os jovens morrerem como moscas no Vietnam. Do sofá, a pegada do homem na lua despertava nos meus companheiros de sofá, a mesma emoção e o mesmo engajamento que os corpos dilacerados por granadas.

Sentindo-me “amarrada e amordaçada”, como escreveria em meu diário (sim, o diário era um must para os adolescentes da época) minha “cara” só crescia e inchava, transparecendo minha indignação (leia-se “rebeldia”) e provocando ainda mais insegurança em meus pais que viam meus colegas e seus amigos “sumirem” em meio aos mistérios da ditadura.

Eu me recusava a ser uma covarde couch potato, como dizem os americanos. Queria agir! Mas estava amarrada até os dentes. Não enxergava minha impotência, sentia-a doer na minha carne!

Casei-me e “amansei” um pouco, durante pouco tempo. Aos 65 anos, tive a alegria de ver Francisco dizer aos jovens em Cracóvia “Não sejam couch potatoes! Não vegetem sobre o sofá da vida! Não é para isso que vivem. Deixem uma marca onde passarem!”

“Yeeeessss!”, gritei do meu atual estado-sem-fôlego que me obrigava a estar em uma cadeira ereta diante da televisão (Ufa! Escapei do sofá!). “Yeeeeessss, Francisco, Yessss, Yessss, Yesss! Acorda-nos! Tira nossas mordaças! Corta nossas amarras! Liberta-nos da idolatria ao dinheiro, do culto ao sucesso, da indiferença ao outro, da prisão das redes sociais! Empurra-nos, sem medo, para a lama da periferia existencial, faze-nos (sim, essa palavra existe!) atolar nossas chuteiras, e nossas calças jeans até a cintura. Deixa-nos livres somente os braços e o coração para abraçar o outro, qualquer outro, sem medo de nos perdermos!”

Maria Emmir Oquendo Nogueira

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