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shalom Filhos de um mesmo Pai
 2003-09-04 12:13:00

Ana Carla Bessa
Consagrada na Comunidade de Aliança Shalom

Deus, que tem cuidado paternal para com todos os homens – ensina o Vaticano II –, quis que formassem uma só família e se tratassem mutuamente com espírito fraterno. Todos, com efeito, criados à imagem de Deus... são chamados a um único e mesmo fim, que é Deus (cf. GS, 24).

“O primeiro fundamento da fraternidade é a revelação de que Deus é Pai. Esta definição constitui o fator que determina a fraternidade segundo a mensagem cristã”, diz o Dicionário de Espiritualidade. Deus é Pai e os homens são seus filhos. De diversas maneiras, algumas formas de cultura contemporânea têm se recusado a reconhecer o conceito de paternidade divina e, por conseguinte, o conceito da fraternidade universal, porque somente aqueles que reconhecem a paternidade divina universal são capazes de verdadeiramente ver o próximo como irmão.
É Deus que, estendendo sua paternidade a todos os homens, é o único capaz de nos ensinar a capacitar à fraternidade universal.

Antes de mais nada, para a fé cristã não é o homem que define Deus como Pai, mas é o próprio Deus que, desde o princípio, busca o homem para revelar-lhe esta verdade. Portanto, na origem do nome de Pai, atribuído a Deus, está sempre a atitude de Deus diante do homem. Deus mesmo se faz Pai do homem, enquanto que a este resta apenas reconhecer e assumir esta realidade.

Na origem da paternidade divina está a salvação gratuita oferecida a todos os homens. A experiência histórica da eleição e da salvação produz o reconhecimento por parte do homem, ao mesmo tempo da paternidade divina e da fraternidade universal: “Tu, Iahweh, és nosso Pai” reconheceu inspirado o profeta Isaías (Is 63,16). Mas foi com a vinda de Cristo que esta paternidade reconhecida pôde ser assumida efetivamente, pela mediação real deste.

Desde que seu Filho Jesus Cristo se fez homem entre os homens, o Pai fez de cada homem seu filho e, de todos os homens, irmãos em Cristo. Jesus nos traz o dom da filiação e a graça de nos convertermos em filhos de Deus (Jo 1,12-13; 3,3-5). Jesus nos ensina a nos dirigirmos a Deus como Pai (cf. Mt 6,9), e se torna mediador da presença daquele que é princípio desta filiação, o Espírito Santo, que nos faz chegar verdadeiramente a ser filhos de Deus (cf. Rm 8,9.14-16). Em Jesus, a humanidade pode entrar de modo concretíssimo em comunhão com o Pai e consequentemente com os outros homens.

Se não existisse a paternidade divina e a mediação de Jesus Cristo, a fraternidade universal seria uma ilusão, uma convenção ou forma de sermos agradáveis ao outro dizendo que ele é nosso irmão sem verdadeiramente nos comprometer pessoalmente com ele. A paternidade divina é um compromisso pessoal de Deus diante do homem, assim como a fraternidade universal que advém dela envolve um compromisso real entre os homens.

Em Jesus de Nazaré, Deus entra em nossa “carne”, em nossa história, caminha por nossos caminhos, sofre conosco as nossas dores, assim como exulta conosco por todas as nossas vitórias, mas também nos concede sua vida, a vida divina, convida-nos a viver nele e com Ele, a sofrer e alegar-nos com Ele, e entrar em sua comunidade perfeita: a Trindade, modelo e força para a comunidade humana.

Somente assim pode ser eliminada toda inimizade e hostilidade entre os homens, membros de uma só família, a família de Deus. O homem contemporâneo, que tende ao fechamento, à auto exaltação, ao individualismo, tem apontado contra si mesmo a arma ferina que é a solidão.

A solidão mata o homem. O homem de Deus pode e deve retirar-se por alguns instantes para estar a sós com Deus, mas ele leva no coração todos os seus irmãos, filhos do mesmo Pai, com quem vai estar. Ele não se recolhe para “se livrar” dos outros, mas para encontrar no Pai a sabedoria e a graça de amar mais e melhor seus irmãos.

Fechar o coração a uma só criatura é fechá-lo para Deus. Se Deus a todos chama a serem filhos seus, a todos oferece salvação, amor, perdão, como poderá um filho de Deus limitar o seu amor a uma determinada categoria de pessoas? Assim como o Pai sofre com a discórdia dos filhos entre si, assim é Deus ferido em seu amor quando os homens não se amam mutuamente, quando, ainda que um só, é rejeitado pelos irmãos.

Assim, o motivo mais profundo da caridade fraterna não deve estar nas qualidades ou utilidade do próximo para nós, e nem nos laços de sangue que possamos ter com ele, mas dever estar unicamente em Deus, de quem todos os homens são, por eleição, filos.

A razão maior que motiva a fraternidade é Deus, que quer ser descoberto e amado em cada homem, por mais desligado que esteja de sua imagem divina.

Assim, a fraternidade deixa de ser uma convenção social, vai além da filantropia e é capaz de atingir mesmo aquele que nos faz sofrer, é ingrato e até traidor. Só assim nasce o dom da fraternidade universal.



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