2004-06-16 09:14:00 Louva, minh’alma, ao Senhor:
louvarei ao Senhor enquanto viver, tocarei para meu Deus enquanto existir. Não confieis nos príncipes, Seres de pó que não podem salvar; exalam o espírito e voltam ao pó, nesse dia perecem seus planos. Feliz a quem auxilia o Deus de Jacó, o que espera no Senhor, seu Deus, que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que nele há; que mantém sua fidelidade perpetuamente, que faz justiça aos oprimidos, que dá pão aos famintos. O Senhor liberta os cativos, o Senhor abre os olhos ao cego, o Senhor endireita aos que já se dobram, o Senhor ama os justos. O Senhor guarda os peregrinos, sustenta o órfão e a viúva e transforma o caminho dos malvados. O Senhor reina eternamente, teu Deus, Sião, de geração em geração. O Salmo 145, que acabamos de escutar, é um “aleluia”, o primeiro dos cinco Salmos que encerram o Saltério. A tradição litúrgica já utilizava este hino como canto de louvor para a manhã: alcança seu auge na proclamação da soberania de Deus sobre a história humana. Ao final do Salmo se declara, de fato, que “O Senhor reina eternamente” daí se deriva uma verdade consoladora: não estamos abandonados a nós mesmos, as vicissitudes de nossos dias não estão dominadas pelo caos ou a sorte, os acontecimentos não representam uma mera sucessão de atos sem sentido e meta. A partir dessa convicção se desenvolve uma autêntica profissão de fé em Deus, exaltado com uma espécie de ladainha em que se proclamam as atribuições de amor e de bondade que lhe são próprias (cf. versículos 6-9). Deus é o criador do céu e da terra, é o guardião fiel do pacto que o une a seu povo, é o que faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos e liberta os cativos. Abre os olhos dos cegos, levanta os caídos, ama os justos, protege o estrangeiro, sustenta o órfão e a viúva. Transtorna o caminho dos malvados e reina soberano sobre todos os seres e sobre todos os tempos. Trata-se de doze afirmações teológicas que --com seu número perfeito-- querem expressar a plenitude e a perfeição da ação divina. O Senhor não é um soberano longe de suas criaturas, mas fica envolvido em sua história, lutando pela justiça, pondo-se do lado dos últimos, das vítimas, dos oprimidos, dos infelizes. O homem se encontra, então, frente a uma opção radical entre duas possibilidades opostas: por um lado, está a tentação de confiar nas potências (cf. versículo 3), adotando seus próprios critérios inspirados na malícia, no egoísmo, e no orgulho. Na realidade, se trata de um caminho escorregadio e que conduz ao fracasso, são “sendas tortuosas e cheias de voltas” (cf. Provérbios 2, 15), que tem como meta o desespero. De fato, o salmista nos recorda que o homem é um ser frágil e mortal, como expressa o próprio nome “’adam” (Adão) que em hebraico faz referência à terra, à matéria, ao pó. O homem, repete com freqüência a Bíblia, é como uma casa que se derruba (cf. Eclesiastes 12, 1-7), como uma teia de aranha que o vento desfaz (cf. Jó 8, 14), como a erva verde na manhã que se seca na noite (cf. Salmos 89, 5-6 e 102, 15-16). Quando a morte cai sobre ele, todos seus projetos se desfazem e volta a converter-se em pó: “exala o espírito e volta ao pó, nesse dia perecem seus planos” (Sal 145, 4). Não obstante, o homem tem outra possibilidade diante de si, exaltada pelo Salmista com uma bem-aventurança: “Feliz quem auxilia o Deus de Jacó, o que espera no Senhor, seu Deus” (versículo 5). Este é o caminho da confiança no Deus eterno e fiel. O “amém”, verbo hebraico da fé, significa precisamente basear-se na solidez inquebrantável do Senhor, em sua eternidade, em sua potência infinita. Mas significa sobretudo partilhar suas opções, ilustradas pela profissão de fé e de louvor antes descritas. É necessário viver na adesão à vontade divina, oferecer o pão dos famintos, visitar os prisioneiros, apoiar e consolar os enfermos, defender e acolher os estrangeiros, dedicar-se aos pobres e miseráveis. Na prática, é o mesmo espírito das Bem-aventuranças: decidir-se por esta proposta de amor que nos salva já nesta vida e que depois será objeto de nosso exame no juízo final, que selará a história. Então seremos julgados pela opção de servir a Cristo na fome, na sede, sem casa, desnudo, enfermo, encarcerado. “Quando fizeram isto a um dos meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25, 40), dirá então o Senhor. Concluímos nossa meditação sobre o Salmo 145 com uma reflexão que nos ofereceu a tradição cristã sucessiva. Orígenes, grande escritor do século III, ao comentar o versículo 7 deste Salmo, no qual se diz: o Senhor “dá pão aos famintos…, liberta os cativos”, percebe uma referência implícita à Eucaristia: “Temos fome de Cristo, e Ele mesmo nos dará o pão do céu. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Quem diz isto são os famintos”. Esta fome é plenamente saciada pelo Sacramento eucarístico, no qual o homem se alimenta do Corpo e do Sangue de Cristo |
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