2004-11-10 12:12:00 Regina Elizabeth Mattos Dourado
Mestra em Educação A educação de criança não se constitui em fato novo. Pais procuram educar seus filhos desde os tempos mais remotos, de acordo com o modelo social de cada época. Na antigüidade de Platão, o objetivo era educar os indivíduos para a cidadania, cuidadosos com a “polis”. Para isso, as mães utilizavam algumas estratégias como a contação de histórias e lendas envolvendo heróis e mitos, os quais as crianças deveriam imitar, para embalar-lhes o sono. A concepção da infância, segundo Aries (1980), foi sendo transformada ao longo dos séculos. Desde um “adulto em miniatura”, quando a criança era impedida das brincadeiras e manifestações próprias da infância, vestida de espartilhos e coletes opressivos, sem voz nem vez na família e na sociedade até o modelo atual, em que domina a família e a escola, como verdadeira déspota. Estamos vivendo a civilização da tirania infantil; os pequenos seres de um, três, cinco, doze anos inquietam os adultos com sua desobediência oficial e a exigência de TODOS os desejos e vontades satisfeitos, custe o que custar. Por que isso está acontecendo? O que mudou? Quem mudou? Os pais? Os filhos? A sociedade? Com a revolução industrial no séc. XIX, o mercado de trabalho foi se abrindo para as mulheres que trocaram os cuidados com o lar e com os filhos pela lida nas fábricas competindo lado a lado com os homens, anteriormente os únicos a responder pelo sustento da família. Este fato gerou uma série de mudanças, transformando inclusive o modo como essas mulheres se relacionavam com os filhos, tornando-se mais permissivas devido ao cansaço do trabalho externo, como também menos atentas às necessidades de suas crianças, transferindo-lhes a “criação” para pessoas mais velhas, como as tias ou avós, ou para alguém que não tinha nenhum laço familiar com as mesmas, portanto, nenhuma afeição genuína. A preocupação excessiva com o sucesso pessoal e com o aumento da renda familiar relegou a segundo plano o cuidado em acompanhar e presenciar o desenvolvimento dos próprios rebentos. Não se quer defender aqui que a mulher não tenha direito a fazer suas conquistas ou exercer uma profissão de forma competente junto à sociedade. Longe de tal pensamento! Porém, é preciso estar atento ao outro lado da moeda, que diz respeito ao exercício da maternidade. É prudente, quando os filhos são ainda muito pequenos, que se organize a vida profissional de modo a não penalizar os descendentes com o vácuo da ausência, gerador de tanta ansiedade no desenvolvimento infantil. Ter filhos implica, tanto para o homem como para a mulher, num compromisso responsável, integral e intransferível para quem quer que seja. Envolve um “cuidar” especial, realizado num planejamento de vida que precisa ser seguido de perto, com flexibilidade, é claro, para não se transformar em ato neurótico, e em que as crianças tenham tempo de crescer, de viver a infância e de saber o referencial ao qual recorrer quando necessário. Desse “cuidar” fazem parte o incentivo de hábitos, como horários das refeições, do estudo, do lazer, do sono, dentre outros; atitudes a serem cultivadas, como respeito aos irmãos, vizinhos, empregados, avós e aos próprios pais, envolvendo também a obediência a alguns princípios que os pais façam questão que sejam seguidos para a convivência harmoniosa. Para que isso seja efetivado é preciso TEMPO. Tempo para explicar, conversar, corrigir, rever, amar. É preciso olho no olho, toques muitas vezes mais vigorosos, mas amorosos, de alguém que o menino ou a menina conheçam, convivam, amem. Isto não pode ser feito por e-mail, pelo telefone, do local de trabalho ou pelo celular, aproveitando um sinal que fechou: “Eu já disse para tomar o remédio! Tome todinho! Obedeça a Francisquinha! Tchau... não quero mais conversa... faça como a Francisquinha disser!” ... E já terceirizou a educação, e mal terceirizada, pois a Francisquinha pode nem mais trabalhar na casa daquela família nos próximos meses... A infância é, portanto, o período mais frutífero para se inaugurar o tempo de educar, de investir na formação de um ser em desenvolvimento. Quando “cuidamos” da infância de nossos filhos garantimos uma adolescência menos turbulenta, com os problemas contornáveis, pois, o sentimento de confiança, do fazer parte de uma família amorosa, atenta, lá já estão enraizados, mesmo que às vezes nem se explicite, mas é algo forte que foi cultivado INTENCIONALMENTE, por isso dá fruto com sabor agradável. Sejamos “menos famosos” quando nossos filhos são pequenos, atendemos a seus apelos de criança, contemo-lhes historinhas de bichos e lugares distantes, demos boas risadas com suas gracinhas e peraltices, sejamos claros e firmes em nossas ordens, percamos nosso tempo com eles... E construiremos uma velhice menos conturbada e sem percalços e preocupações com aquele menino de 40, 50 anos que não quer crescer!... Bibliografia Aries, Phillippe. História Social da Criança e da Família. São Paulo: LTC, 1980 Macedo, Lino de. Cinco Estudos de Educação Moral. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1980 Platão. A República. São Paulo: Scipione, 1970 |
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