2008-07-27 07:00:00 Até quando? Este é o grito daqueles que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que tinham dado, narra o evangelista João, autor do Livro do Apocalipse: “Senhor, santo e verdadeiro, até quando tardarás em fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Ap 6,10). Este clamor é o grito daqueles que vivem suas vidas com coerência e dignidade clamando aos céus por intervenções que possam devolver apreço pela vivência da justiça e estima pela dignidade de toda pessoa. Acompanhar os acontecimentos deste tempo é sentir brotar dentro do coração este clamor: até quando? Até quando se deve esperar por mais instituições com força organizacional e influência moral na sociedade? Até quando será considerada obscurantista uma instituição de maior credibilidade numa sociedade? Até quando reinará uma oligarquia que controla a vida econômica não aceitando perder os seus privilégios e fechada na partilha do poder? Até quando durará a sede insaciável de livre acesso aos recursos naturais, com cumplicidades imorais? Até quando se manipulará informações formando opiniões sem base na verdade de fatos? Até quando a opinião pública será manipulada para favorecer ganhos e vantagens espúrias? Até quando as populações pobres vão ser sacrificadas com a subida dos preços, dificultando a aquisição de alimentos, empurrando-as na direção do flagelo da fome? Até quando se continuará a prometer, sem cumprir o prometido, ações para mudar o cenário da fome no mundo? Até quando os pobres têm que esperar por uma organização social e política mais justa, garantindo-lhes direito e dignidade? Até quando se poderá acreditar nos propósitos e esforços dos participantes da Cúpula sobre Segurança Alimentar da FAO/ONU, de reduzir pela metade, até 2015, o número de 860 milhões que sofrem fome? Até quando vai continuar a desmontagem da agricultura familiar substituída violentamente pelo agronegócio? Até quando a economia irá bem e o povo mal? Até quando as ameaças e interesses conservadores vão empurrar a população no sentido de fechar-se sobre si mesma, olhando só para seus próprios interesses, matando o remédio insubstituível da solidariedade e se firmando na xenofobia? Até quando se vai esperar uma reforma tributária que possibilite mais justiça e uma consideração adequada dos pobres? Até quando pagarão o mesmo pelo alimento, em impostos, o pobre e o rico? Até quando os representantes do povo vão estar pouco a serviço de suas necessidades?Até quando os que governam vão se sentir em paz com o que já fizeram e sem se afligir quotidianamente com urgências que precisam ser respondidas no âmbito de suas responsabilidades governamentais? Até quando as pessoas vão burlar as leis, fazendo valer seus interesses mesquinhos? Até quando se esperarão as melhorias nas condições das estradas, usando os recursos que vêm da contribuição cidadã? Até quando a morte dos outros será causa de indiferença? Até quando a violência não será debelada? Até quando se discutirá tanto, em congressos, cúpulas, reuniões, sem efetivação mais rápida e adequada das necessidades básicas na vida do povo? Até quando a indiferença vai imperar? Até quando os interesses políticos falarão mais alto do que o bem comum? Até quando os que têm o compromisso de pregar a paz e valores continuarão calados e fracos por sua falta de coerência? Até quando? A lista é interminável. Uma verdadeira ladainha! Uma lista que se pode compor infinitamente e de muitas maneiras. Uma revelação do horror que cobre os céus da humanidade. Assim será até quando não se perceber que há uma gravíssima questão de fundo cavando um incomensurável fosso para a humanidade? Até quando não é um grito de simples lamentação, amargura ou desespero. É um clamor de esperança. Particularmente, a esperança de que os cidadãos todos, em suas diferentes funções, histórias e responsabilidades percebam que tudo isso tem uma causa que antecede aquela técnica, histórica e organizacional. É preciso investir e corrigir o núcleo secretíssimo da pessoa, sua consciência. Há uma gravíssima crise de syneidesis/consciência, criando um buraco neste núcleo secretíssimo e determinante. As pessoas não estão conseguindo se saber com o outro e consigo mesmas. A consciência individual e social, no contexto contemporâneo, não é sadia. Não se consegue relações salutares com o próximo e com a comunidade. É urgente acreditar que é preciso investir muito na formação da consciência, como regra mais próxima do agir. Há, por isso, uma grande degradação do humano, corroendo dignidades. O Estado é laico, mas precisa da transcendência, de referência a valores que estão para além dele mesmo, em fontes inesgotáveis como o Evangelho, para vencer este desafio tremendo, responsabilidade sua de qualificar a pessoa e a cultura humana. Fonte: CNBB - por Dom Walmor - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
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