"Aqueles que amam e respeitam o Senhor encontrarão o amigo fiel"
(Cf. Eclo 5, 16). Falar de uma experiência vivida de amizade já não é
tão difícil como simplesmente escrever sobre a amizade. Os conceitos
quase sempre limitam muito esse mistério, portanto, é necessário
vivê-lo para ao menos tentar descrevê-lo. As Sagradas Escrituras nos
deixaram ricos testemunhos de amizade, pra não falar d'Aquele que viveu
a mais profunda e rica experiência de amizade com os homens, Jesus, o
amigo por excelência, o verdadeiro referencial para o amor fraterno
(1).
O Primeiro livro de Samuel, capítulo 18, tem uma
das mais belas experiências de amizade das Sagradas Escrituras. Muitos
ao longo da história já o atestaram e escreveram sobre essa amizade:
trata-se de David e Jônatas (2). Diante deste relato bíblico podemos
afirmar que existe uma vocação à amizade. Não só a história da
Filosofia Clássica ou a história da Igreja (3) nos evidenciam tal
verdade, mas também e, principalmente, o contexto bíblico em que se foi
formando o Povo de Deus com o registro de suas experiências. Diz a
Tradição Cristã que, nas Sagradas Escrituras, a amizade de David e
Jônatas ocupa um lugar privilegiado.
David e Jônatas
eram dois homens de Deus, mas traziam a "marca da imperfeição", do
pecado, e os apelos interiores quanto às questões de nobreza. David
provinha de uma família humilde, porém, tinha consciência disso e era
um homem temente a Deus (4), enquanto Jônatas era filho do Rei Saul
que, mesmo sendo descendente de uma das menores tribos de Israel, Deus
o havia constituído chefe do seu patrimônio (5). A mão do Senhor estava
sobre ele e seu filho Jônatas (6). Interessante é observar que mesmo
quando a mão do Senhor não pousar mais sobre Saul, Jônatas demonstrará
que sua amizade com David não dependerá de garantias humanas e terá
sido assim desprovida de interesses. É muito belo observar essa
realidade e dela tirar uma lição de vida para as experiências de
amizade nos dias atuais.
Jônatas realiza o seu
chamado a ser amigo de maneira exemplar: "Assim que David terminou de
falar com Saul, Jônatas se apegou a David e começou a amá-lo tanto
quanto a Si (...) Então Jônatas fez aliança com David, porque o amava
como a si mesmo. Jônatas tirou o manto que vestia e o entregou a Davi,
assim como suas vestes, até mesmo sua espada, seu arco e seu cinturão"
(I Samuel 18, 1-4).Como vemos, os dois selam uma aliança, "Berit" (7),
porque se amavam como a própria alma ou, como diz a Filosofia Clássica,
"amor dedicado ao outro que traz como que o meu próprio coração" (8).
Interessante ressaltar que a Aliança do "Berit" dava também um caráter
jurídico á relação. A Benção que um concedia ao outro fazia com que
eles se acolhessem numa relação nova, numa espécie de consangüinidade.
Daí a clareza e a riqueza com evidencia isto o livro dos Provérbios
quando diz: "existe amigo mais fiel que irmão" (Pv 18, 24).
São
esses laços de fidelidade interior ao outro, acompanhados da
experiência de que Deus é o autor dos encontros que salvaguardará e
confortará a amizade nos momentos de prova, de crise, de silêncio e de
purificação (9). A amizade tem suas exigências que são ulterior a uma
dedicação de sentimentos, mas chega a necessitar da disposição para dar
a vida pelo amigo. Esse dar a vida pelo amigo consiste na capacidade de
renúncia dos interesses egoístas, na fidelidade aos seus segredos sem
ser condizente com a mentira e o pecado, e sem desistir do amigo quando
suas fraquezas parecem ser um empecilho para a relação. O dar a vida é
viverem juntos esse tempo de purificação tão necessário para a amizade,
libertando-a da escravidão das concupiscências (10). Jônatas exerce
para com o seu amigo David exatamente como aqui descrevo. Nele o amor
dedicado ao amigo David foi mais forte do que qualquer interesse,
inclusive, foi capaz de renunciar aos interesses do seu pai Saul para
ser fiel ao amigo. Lembro assim o que disse o filósofo existencialista,
Gabriel Marcel: "O homem é livre quando é disponível".
Encontramos
na liturgia das horas a expressão desse mistério da renúncia de Jônatas
como fruto de quem perscrutou o coração do amigo, viu nele a face de
Deus e crer nos desígnios do Senhor acerca do amigo: "Jônatas, jovem de
grande nobreza, sem olhar para a coroa régia nem para o futuro reinado
fez um pacto com David, igualando assim, pela amizade, o súdito ao
senhor (11). Deu preferência a David, mesmo quando este foi expulso por
seu pai o rei Saul, tendo de se esconder no deserto, como condenado à
morte, destinado à espada. Jônatas então se humilhou para exaltar o
amigo perseguido: Tu, são palavras, serás rei e eu serei o segundo
depois de ti. Que espelho estupendo de verdadeira amizade! Admirável!"
(12). Aristóteles é o filósofo que mais escreveu sobre a amizade
humana, inclusive, deu um salto maior na compreensão do mistério da
amizade segundo o que pensava o mestre Platão (13). "No amor – pensava
o filósofo – o amigo deve ser capaz de chegar até ás últimas
conseqüências, a ponto de doar não só os próprios bens, mas também a
própria vida pelo amigo". Com toda admiração e respeito ao que pensou
Aristóteles, é-nos indispensável ressaltar que a sublimação deste gesto
de "amor oblativo" só se toma forma plena em Jesus Cristo. O dar a vida
pelos amigos tem, em Jesus, um valor infinitamente superior ao que se
pensaram os filósofos de todos os tempos.
Isso se dá
porque, no plano da salvação, o amigo que sacrifica a vida pelo amigo a
ponto de amá-lo ao extremo, seja ele pecador ou justo, é o homem-Deus,
Jesus Cristo. A decisão de amar livremente é acompanhado e impulsionado
pelo desejo de amar, como fruto da ação divina. Quando o amor fica
apenas no plano dos sentimentos é um amor superficial que tão
rapidamente pode se corromper, ser negociado pelas nossas próprias
inclinações e concupiscências. Esse amor se torna ainda infantil, sem
estabilidade, impossível de suportar as purificações necessárias. Não
há amizade se não há uma participação mútua (reciprocidade), embora o
amor de Deus não nos falte quando o ignoramos. No entanto, já não
podemos chamá-lo de Pai e de amigo se não correspondemos a esse amor.
O
amor de Deus "necessita" da nossa colaboração para que seja em nós
"força transformadora, fonte de felicidade e salvação". Só então o meu
amor tem força de me impelir ao outro para construir com ele
fraternidade. É o amor como dom e como decisão que pode construir
comunhão, revelar – segundo Bento XVI – o parentesco até então
desconhecido, podendo então reconhecer juntos que somos irmãos. O Santo
Padre clareia bem o que estou tentando dizer: "Realidades humanas não
existem sem o homem, sem o empenho livre do seu espírito e do seu
coração (...). Do mesmo modo como a fraternidade é amor, também é um
fato profundamente humano uma parte daquela humanidade de Deus (Tt 3,
4) que aparece em Cristo, para nos fazer verdadeiramente homens, para
sermos filhos de Deus" (14). É Cristo o único que pode dar sentido aos
atos humanos e aos laços de fraternidade. É contemplando e fazendo a
experiência da misericórdia divina ao logo da história da Salvação, que
podemos compreender quão grandes é o mistério da fraternidade e da
amizade na vida de Jônatas e Davi. A radicalidade do amor e da amizade
vivida entre eles foram apenas prefiguração do amor e da amizade com
que Cristo nos ensinaria a viver com Ele e com o Pai.
Notas do texto:
1 – "A referência
para o nosso amor fraterno é o de Jesus Cristo que, tendo amado os
seus, amou-os até o fim" (Jo 13, 1). Estatutos da Comunidade Católica
Shalom, 48. (Este texto é disponível apenas aos irmãos da Comunidade);
Grande parte da riqueza sobre a Caridade Fraterna e amizade humana que
tento descrevê-la, tenho refletido nas muitas formações e pregações de
Moysés Azevedo e Maria Emmir (Fundadores da Comunidade Católica
Shalom);
2 - O Ofício das Leituras dispõe ricamente do
texto: "Fragmento do tratado sobre a amizade espiritual, do Beato
Elredo, abade". Verdadeira, perfeita e eterna amizade entre David e
Jônatas. O livro "Fio de Ouro" de Maria Emmir e Dra. Sílvia (Edições
Shalom), no capítulo sobre a amizade chega a citar a experiência da
amizade de David e Jônatas.
3 – Na História da Filosofia
se destaca Aristóteles com a sua célebre obra: "Ética a Nicômaco", e
Cícero com seu tratado "Da amizade". Um autor atual, filósofo e
professor da EDUSC / Brasil, escreveu um livro no qual ele resume os
principais textos da História da Filosofia sobre a amizade. Na História
da Igreja se destacam os Escritos de Santo Agostinho e Santo Tomás de
Aquino. No entanto, algumas obras que chegaram até nós de autores
contemporâneos são ricas e aprofundam o tema, tais como: "Nos caminhos
da amizade; Eu te desejo um amigo, Vida Religiosa: da convivência à
fraternidade e Ministério da amizade". Uma obra valiosa é ainda a
Monografia (Trabalho conclusivo do Curso Superior de Filosofia pelo
ITEP – Fortaleza) do Pe. João Wilkes, CCSh: "A amizade em Aristóteles"
(Obra não publicada);.
4 – Cf. I Samuel 16, 11-13; II Samuel 7, 8.18;
5 – Cf. I Samuel 9, 21; 10, 1;
6 – Cf. I Samuel 14, 45;
7
– Aliança: Uma promessa solene feita entre duas pessoas ou do Povo
Santo com o Deus de Israel. Compromisso de vida através de um
juramento, que pode ser uma fórmula verbal ou através de uma ação
simbólica, litúrgica ou religiosa. O Berit é uma aliança acompanhada de
sinais, sacrifícios e um juramento solene que selava o pacto com
promessas de bênção para quem guardasse a aliança e de maldição para
quem a quebrasse (Interpreter´s Dictionary of the Bible);
8
– Interpretação do Filósofo Aristóteles; Destacamos ainda a célebre
frase de Santo Agostinho: "Na amizade temos uma alma em dois corpos"
(Confissões, 4,6. Cidade Nova, 10ª Edição, 1989);
9 – Vale a
pena conferir o que Maria Emmir e Dra. Sílvia escrevem sobre a amizade
e o seu tempo de purificação, no Livro Fio de Ouro (Edições Shalom);
10
– O Papa João Paulo II, na Carta Pastoral "Novo Millennio Ineunte"
fala da espiritualidade de Comunhão que consiste nesse "dar especo para
que o outro aconteça". Já o Papa Bento XVI, na Encíclica "Deus Caritas
Est", fala exatamente da necessária via de purificação do amor-eros até
que ele seja revestido do amor-ágape, amor altruísta, que dar a vida
pelo outro. Evidentemente que esse amor-ágape está acima do amor-filia
(Amizade, que exige naturalmente a reciprocidade), porque é o amor que
faz com que eu ame e acolha até mesmo aqueles que são mais difícies
vendo neles a face de Deus;
11 – " A amizade é uma
experiência sublime, por isso ela é destinada a cada homem, não
importando a raça, cultura, idade, sexo, condição social e religião"
(Carta do amigo Pe. Joel de Jesus). É bem verdade que ela une pobres e
ricos e nivela as diferenças sem ofuscá-las ou destruí-las;
12 – Ofício das Leituras. Fragmento do tratado sobre a amizade do Beato Elredo, abade;
13
– "Para Platão – baseado em Empédocles – é a natureza e não o divino
que torna os homens amigos. Nesse sentido chega a afirmar na "Obra
Liside" que todas as coisas são amigas entre si. Pensava ainda que é o
"Eros" com sua força espiritual de amor que dá à "filia" uma forma
transparente e sublime, e faz com que o Eros obtenha o seu fim. Para
Platão a amizade é uma etapa intermediária para se conseguir a
perfeição da divina contemplação, logo, a amizade não é um bem em si
mesmo, mas somente enquanto ajuda o homem a conseguir um tal objetivo:
a amizade possui um valor orgânico e instrumental. Na maneira de pensar
do Filósofo Aristóteles – vivendo num outro contexto histórico e
político – a amizade se torna um problema ético. A "filia" com
Aristóteles entra a fazer parte de um mundo ético. Para Aristóteles a
amizade é uma virtude ou nos conduz a ela; além do mais ela é
necessária para a vida. De fato ninguém escolheria viver sem amigos,
mesmo se tivesse todos os outros bens" (Carta do amigo, Pe. Joel de
Jesus); O Cristianismo eleva o conceito de amizade para além de
simplesmente "uma virtude". Em Cristo a amizade tem caráter de dom,
vocação, comunhão como fruto da amizade que Cristo viveu com o Pai,
tornando-se agora o referencial para o amor humano. A própria história
da Salvação é a fonte onde vemos o processo do conceito da amizade
amadurecer e chegar à plenitude em Jesus.
14 – Joseph Ratzinger. Dogma e Anúncio, p. 203, Loyola, 2007;
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por Antonio Marcos , Missionário na Comunidade de Vida Shalom ,
Comunidade Católica Shalom