Dom Luciano Alimandi
Entramos no Advento, o período litúrgico por excelência da expectativa
do Senhor que vem e não tardará! É um período especial para toda a
humanidade, porque Jesus é o Salvador de todos, mas cada um é livre
para buscar as divinas origens do Amor eterno que criou o homem.
Na realidade, a criatura humana, vinda de Deus, traz dentro de si a
nostalgia d’Ele, velada pelo indescritível desejo de Felicidade, porque
Deus-Amor é a Suma Beatitude. O pecado original, porém, confundiu e
desorientou o homem e a mulher no início e, assim, desviou a deles e a
nossa “trajetória” existencial que, antes da tremenda queda dos
antecessores, era “naturalmente” orientada para Deus, e depois “saiu”
da órbita celeste. Desde que a nossa natureza foi ferida pelo pecado,
não somos mais atraídos espontaneamente pelas coisas Lá de Cima, não
descobrimos imediatamente em nós a expectativa de Deus, mas “vagamos”
como expatriados, num mundo que não conhecemos, buscando nele a
felicidade. Mas, nem as coisas terrenas, nem as criaturas humanas, a
começar pelo nosso próprio “eu”, cheio de si, podem nos saciar. Somente
Deus pode preencher o vazio existencial “visitando” o deserto das
nossas solidões!
Apesar da culpa, porém, a expectativa de grandes coisas permaneceu
inscrita de forma indelével no coração de cada ser vivo, porque Deus
criou-nos a Sua imagem e semelhança e nada e nem ninguém pode mudar
isso. A vinda do Redentor, na plenitude dos tempos, o Advento de Cristo
de dois mil anos atrás, deu-nos novamente a luz verdadeira e a
esperança certa, se temos fé n’Ele, que ilumina a sublime vocação de
cada homem e mulher: a santidade! A consumação n’Ele de cada um dos
nossos desejos.
A sincera conversão não é mais, então, do que “retorno” ao seio do Pai,
guiados pelo amor do Filho, para saborear, no Espírito, a verdadeira
vida que não acaba nunca.
Desde aquele primeiro Advento de Jesus “todos nós recebemos da sua
plenitude graça sobre graça.” (Jo 1, 16) para preencher toda
expectativa profunda de realização do nosso coração, o intenso anseio
de imensidão, a dolorosa nostalgia de ilimitada liberdade. Em outras
palavras, a beatitude não é mais inalcançável, alcançou-nos para sempre
com a Encarnação do Filho de Deus no ventre puríssimo da única inocente
entre todas as criaturas da terra: a Beatíssima Virgem Maria!
Na Imaculada, o Advento cumpre-se plenamente, ou melhor, é graças a Ela
que a vinda de Jesus pôde se realizar. O seu “eis aqui a serva do
Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1, 38) fez abrir os
céus e a expectativa das pessoas finalmente se realizou, porque
aconteceu o Esperado por todos: o nosso Senhor Jesus.
Isaias jamais poderia imaginar em que medida a sua profecia se
realizaria, “eis, a Virgem conceberá e dará à luz um Filho: será
chamado Emanuel, Deus conosco” (Is 7,14) e a sua súplica, “que os céus,
das alturas, derramem o seu orvalho e que das nuvens desça a nós a
Justiça; abra-se a terra e faça germinar o Salvador” (Is 45,8).
No inicio do período do Advento brilha, por isso, em todo o seu
esplendor, a luz da Imaculada, que nos toca com a sua ternura e o seu
calor para nos introduzir no mistério do Sol que é Jesus e que surge,
graças a Ela, nos nossos corações:
“O mais sublime dos anjos foi enviado dos céus para dizer «Ave» à Mãe de Deus.
Vendo-te, Senhor, feito homem à sua angélica saudação, deteve-se extasiado diante da Virgem, aclamando-a assim:
Ave, por ti resplandece a alegria;
Ave, por ti a maldição toda cessa.
Ave, reergues o Adão decaído;
Ave, tu estancas as lágrimas de Eva.
Ave, mistério que excede o intelecto humano;
Ave, insondável abismo aos olhares dos anjos.
Ave, porque és o trono do Rei soberano;
Ave, porque tu governas quem tudo governa.
Ave, ó estrela que o sol anuncias;
Ave, em teu seio é que Deus se fez carne.
Ave, por quem a criação se renova;
Ave, o Criador fez-se em ti criancinha.
Ave, Virgem e Esposa!
(Do hino litúrgico “Akathistos”, do século V).