2009-12-24 04:30:00 Elena Arreguy Sala Preciso fazer uma declaração pública: poucas vezes confessei
o pecado da omissão, apesar de saber que ele existe. No entanto, este tema
sempre me chamou a atenção quando, ao participar da Liturgia rezamos
comunitariamente a oração do ato penitencial que diz: “confesso a Deus
todo-poderoso e a vós irmãos e irmãs que pequei muitas vezes por pensamentos e
palavras, por atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa...” e a
oração continua, pedindo a intercessão da Igreja celeste e da parcela do Corpo
de Cristo, ali presente na Eucaristia, a Igreja militante. Costumamos confessar nossas transgressões feitas, mas, e
aquelas que dizem respeito ao que não fizemos e poderíamos ter feito? Talvez esta maior sensibilidade e desejo de progredir na
conversão para que meu grande ego diminua e Jesus vivo em mim resplandeça, seja
mais um fruto da vida missionária, grande dom. E como é Deus mesmo quem nos faz
desejar aquilo que Ele nos quer dar, foi também Ele quem me fez ouvir um
interessantíssimo insight sobre o pecado da omissão presente já no livro do
Gênesis, na criação do mundo. Partilho-o comunitariamente para que todos nós
como família, possamos nos converter. Gn 3,6 diz assim: “a mulher, vendo que o
fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para
abrir a inteligência, tomou dele, comeu e o apresentou também ao seu marido,
que comeu igualmente”. A pergunta que brota deste diálogo entre a serpente e Eva é
a seguinte: onde estava Adão neste momento? Se Eva apresentou o fruto a Adão é
porque ele estava ao seu lado! Eva não teve que sair gritando Paraíso afora,
procurando por Adão até poder entregar-lhe o fruto de sua desobediência! Ele
também participou da desobediência quando não protegeu Eva contra o Mal, não
interferiu, não a amou como marido e companheiro, não a orientou, ela que era
‘a carne de sua carne, sua igual'. Adão se calou e silenciou. Adão pecou pela
omissão e a desobediência de ambos deixou-nos a herança do pecado original. Na tradução de língua inglesa fica evidente que Eva entregou
o fruto a Adão que estava ao seu lado. Parece-me que no grego também. A questão
não é somente tirar o peso da culpa, culturamente falando, de sobre os ombros
de Eva e das mulheres, como aquelas que seduzem e que levam à tentação, desde o
princípio, o pobrezinho do Adão e todos os homens depois dele. E honestamente,
este peso é enorme e entranhado na cultura. A questão é olhar com os olhos de
Deus, da Palavra de Deus que sempre nos aponta para a Verdade que liberta. A
responsabilidade foi de ambos, cada um com sua parcela de liberdade mal usada.
Diz Santa Edith Stein no livro “Woman”, que a serpente tenta diretamente a Eva
– e indiretamente a Adão - porque na mulher se encontra a origem da vida e se
ela é atingida, toda a vida humana também o é e sofre as consequências. Descobrir este segredo, ou fraqueza de Adão, me causou,
confesso, grande alívio, um grito de libertação verdadeiramente feminino, pois
colocou-o em pé de igualdade junto de Eva perante a tentação, perante a queda e
a salvação. Ambos pecaram, ambos foram perdoados, ambos foram amados igualmente
e arrancados da região dos mortos, no Sábado Santo, pelas mãos de Jesus Cristo! Pode ser que esta “descoberta” sobre Adão seja contestada
exegeticamente. Ela, porém, nos parece apontar para o pecado da omissão, da
negligência, da falta de compromisso, da acusação mútua, que nos impede de
viver, tanto homens quanto mulheres, a plena vontade de Deus. A nós, cristãos, e mais particularmente aos consagrados,
foi-nos dado conhecer os segredos do Reino, da Palavra de Deus, como o próprio
Jesus comenta no Evangelho. Temos a Sua presença e amizade, tocamos com as mãos
e testemunhamos com os olhos a ação extraordinária do Seu Espírito. Sabemos por
experiência que Deus é Alguém, é Pessoa (na verdade três Pessoas no mistério do
Amor transbordante que é a Trindade, o Pai, Jesus e o Espírito) e que Ele está
vivo e é Senhor do tempo, da história e das circunstâncias. Sabemos com a vida
e não de ouvir falar, que o Senhor Altíssimo e Misericordioso fez da nossa
alma, do coração do homem, o seu lugar de habitação por excelência, mais do que
qualquer tabernáculo ou sacrário por mais belo que seja. E todo este tesouro,
como dizem as Regras da Comunidade Shalom, fazendo eco às palavras de S. Paulo,
é transportado em vasos de argila. Somos milhares de vasos de argila, graças a
Deus! E queira o Senhor, que eles se multipliquem a perder de vista! Mas o vaso não vive mais para si, mas para o tesouro do qual
é portador e veículo. Esse é nosso chamado e missão todo o tempo e o tempo
todo, ou seja, em todas as situações externas, e em tudo que se é. Assim se
evangeliza com obstinação e parresia: quando não se é capaz de desejar outra
coisa senão que o tesouro seja visto e brilhe através do vaso, apesar do vaso,
todo o tempo. Isso não é nada fácil. Isso é um enorme desafio: unir a
própria vontade à vontade de Deus em todas as circunstâncias para que, por
omissão, não se perca a oportunidade de fazer brilhar o amor de Deus, que
carregamos em nós e que em nossas vidas se traduz e se manifesta como carisma
Shalom. E numa sociedade que quer negar Deus, quer negar o Cristianismo, quer denegrir e ridicularizar a Igreja Católica, mais do que nunca os vasos de argila não podem se negar pela omissão a serem quebrados e usados, pois, se não for assim, como brilhará o tesouro, como se espalhará o perfume, como o Amor será amado? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
por Comunidade Católica Shalom |
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