2010-06-01 07:27:00 1. A Igreja tem constantemente considerado a virgindade de
Maria uma verdade de fé, acolhendo e aprofundando o testemunho dos Evangelhos,
de Lucas, de Mateus e, provavelmente, também de João. No episódio da
Anunciação, o evangelista Lucas chama Maria de “virgem”, referindo´se tanto à
sua intenção de perseverar na virgindade como ao desígnio divino que concilia
esse propósito com a sua prodigiosa maternidade. A afirmação da concepção
virginal devido à ação do Espírito Santo, exclui qualquer hipótese de
partenogénese natural e rejeita as tentativas de explicar a narração de Lucas
como esclarecimento dum tema judaico ou como derivação duma lenda mitológica
pagã. A estrutura do texto lucano (cf. Lc. 1,26´38; 2. 19.51) resiste a
qualquer interpretação redutiva. A sua coerência não permite sustentar de modo
válido mutilações dos termos ou das expressões que afirmam a concepção virginal
operada pelo Espírito Santo. 2. O evangelista Mateus, referindo o anúncio do anjo a José,
afirma de igual modo como Lucas a concepção operada “pelo Espírito Santo” (Mt.
1,20), com exclusão de relações conjugais. A geração virginal de Jesus, além
disso, é comunicada a José num segundo momento: não se trata para ele de um
convite a dar um consentimento prévio à concepção do Filho de Maria, fruto da
intervenção sobrenatural do Espírito Santo e da cooperação só da Mãe. Ele é
apenas chamado a aceitar livremente o seu papel de esposo da Virgem e a missão
paterna em relação à criança. Mateus apresenta a origem virginal de Jesus como
cumprimento da profecia de lsaias: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um
filho; e chamá´lo´ão Emmanuel, que quer dizer “Deus conosco” ´ (Mt. 1,23; cf.
Is. 7,14). Desse modo, Mateus leva a concluir que a concepção virginal foi
objeto de reflexão na primeira comunidade cristã, que compreendeu a sua
conformidade com o desígnio divino de salvação e o nexo com a identidade de
Jesus, “Deus conosco”. 3. Ao contrário de Lucas e de Mateus, o Evangelho de Marcos
não fala da concepção nem do nascimento de Jesus; contudo, é digno de nota o
fato de Marcos jamais mencionar José, esposo de Maria. Jesus é chamado “o filho
de Maria” da gente de Nazaré ou então, noutro contexto, “o Filho de Deus” em
várias ocasiões (3, 11;5, 7; cf, 1,11; 9. 7; 14, 61´62; 15,39). Estes dados
estão em harmonia com a fé no mistério da sua geração virginal. Tal verdade,
segundo uma recente descoberta exegética, estaria explicitamente contida também
no versículo 13 do Prólogo do Evangelho de João, que algumas autorizadas vozes
antigas (por exemplo Ireneu e Tertuliano) apresentam, não na sua forma plural
usual, mas no singular: “Ele, que não do sangue nem da vontade da carne, nem do
querer do homem, mas de Deus foi gerado”. Esta versão no singular faria do
Prólogo joanino uma das maiores afirmações da geração virginal de Jesus,
inserida no contexto do mistério da Encarnação. A afirmação paradoxal de Paulo:
“Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho, nascido de
mulher... para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gál. 4, 4´5), abre o
caminho ao interrogativo acerca da personalidade desse Filho e, portanto,
acerca do seu nascimento virginal. Este testemunho uniforme dos Evangelhos
atesta como a fé na concepção virginal de Jesus está solidamente arraigada em
diversos ambientes da Igreja primitiva. E isto destitui de qualquer fundamento
algumas interpretações recentes, que entendem a concepção virginal em sentido
não físico ou biológico mas apenas simbólico ou metafórico: este designaria
Jesus como dom de Deus à humanidade. A mesma coisa se deve dizer quanto à
opinião apresentada por outros, segundo os quais a narração da concepção
virginal seria, ao contrário, um theologoumenon, isto é, um modo de exprimir
uma doutrina teológica, a da filiação divina de Jesus, ou seria uma sua
representação mitológica. Como acabamos de ver, os Evangelhos contêm a
afirmação explícita duma concepção virginal de ordem biológica, operada pelo
Espírito Santo, e essa verdade foi assumida pela Igreja desde as primeiras
formulações da fé (cf. Catecismo da Igreja Católica, 496). 4. A fé expressa nos Evangelhos é confirmada, sem
interrupções, na tradição sucessiva. As fórmulas de fé dos primeiros autores cristãos
postulam a afirmação do nascimento virginal: Aristides, Justino, Ireneu,
Tertuliano estão de acordo com Santo Inácio de Antioquia, que proclama Jesus
“verdadeiramente nascido de uma virgem” (Smirn. 12). Estes autores querem falar
duma real e histórica geração virginal de Jesus, e estão longe de afirmar uma
virgindade apenas moral ou um vago dom de graça, que se manifestou no
nascimento da criança’. As solenes definições de fé dos Concílios ecumênicos e
do Magistério Pontifício, que se seguiram às primeiras breves fórmulas de fé,
estão em perfeita consonância com essa verdade. O Concílio de Caledônia (451),
na sua profissão de fé, redigida com cuidado e pelo conteúdo infalivelmente
definido, afirma que Cristo foi “gerado [... ] segundo a humanidade, nos
últimos dias, para nós e para a nossa salvação, de Maria Virgem, Mãe de Deus”
(DS, 301). Do mesmo modo, o III Concílio de Constantinopla (681) proclama que
Jesus Cristo foi “gerado [...] segundo a humanidade, pelo Espírito Santo e por
Maria Virgem, aquela que é propriamente e com toda a verdade Mãe de Deus” (DS,
555). Outros Concílios ecumênicos (Constantinopolitano II, Lateranense IV e
Lionense II) declaram Maria “sempre virgem”, pondo em relevo a sua virgindade
perpétua (DS, 423, 801, 852). Essas afirmações foram retomadas pelo Concílio
Vaticano II, evidenciando o fato que Maria “acreditando e obedecendo, gerou na
terra, sem ter conhecido varão, por obra e graça do Espírito Santo, o Filho do
Pai” (LG, 63). Às definições conciliares devem´se acrescentar as do Magistério
Pontifício relativas à imaculada concepção da “Bem´aventurada Virgem Maria”
(DS, 2803) e da Assunção da “Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem” (DS, 3903). 5. Ainda que as definições do Magistério, com exceção do
Concílio Lateranense de 649, querido pelo Papa Martinho I, não estabeleçam com
precisão o sentido do apelativo “virgem”, é claro que esse termo é usado no seu
sentido habitual: a abstenção voluntária dos atos sexuais e a preservação da
integridade corporal. Em todo o caso, a integridade física é considerada
essencial à verdade de fé da conceição virginal de Jesus (cf. Catecismo da
Igreja Católica, 496). A designação de Maria como “Santa, sempre Virgem,
Imaculada” suscita a atenção sobre o vínculo entre santidade e virgindade.
Maria quis uma vida virginal, porque animada pelo desejo de dar inteiramente o
seu coração a Deus. A expressão usada na definição da Assunção, “a Imaculada
Mãe de Deus sempre Virgem” sugere também a conexão entre a virgindade e a
maternidade de Maria: duas prerrogativas unidas de maneira milagrosa na geração
de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Assim a virgindade de Maria está
intimamente ligada à sua maternidade divina e perfeita santidade. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
por Papa João Paulo II * DO Livro: A VIRGEM MARIA ´ 58 CATEQUESES DO PAPA JOÃO PAULO II |
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