2010-07-18 07:42:00
25. Na mensagem que a Igreja anuncia, há certamente muitos
elementos secundários. A sua apresentação depende, em larga escala, das
circunstâncias mutáveis. Também eles mudam. Entretanto, permanece sempre o conteúdo
essencial, a substância viva, que não se poderia modificar nem deixar em
silêncio sem desnaturar gravemente a própria evangelização.
Testemunho dado do
amor do Pai 26. Não é supérfluo, talvez, recordar o seguinte:
evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho, de maneira simples e direta,
de Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Dar testemunho de que no
seu Filho ele amou o mundo; de que no seu Verbo Encarnado ele deu o ser a todas
as coisas e chamou os homens para a vida eterna. Esta atestação de Deus
proporcionará, para muitos talvez, o Deus desconhecido, (55) que eles adoram
sem lhe dar um nome, ou que eles procuram por força de um apelo secreto do coração
quando fazem a experiência da vacuidade de todos os ídolos. Mas ela é
plenamente evangelizadora, ao manifestar que para o homem, o Criador já não é
uma potência anônima e longínqua: ele é Pai. "Vede que prova de amor nos deu o Pai: sermos chamados
filhos de Deus. E nós o somos"; (56) e portanto, nós somos irmãos uns dos
outros em Deus. No centro da
mensagem: a salvação em Jesus Cristo 27. A evangelização há de conter também sempre, ao mesmo
tempo como base, centro e ápice do seu dinamismo, uma proclamação clara que, em
Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é
oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo
Deus.(57) E não já uma salvação imanente ao mundo, limitada às
necessidades materiais ou mesmo espirituais, e que se exaurisse no âmbito da
existência temporal e se identificasse, em última análise, com as aspirações,
com as esperanças, com as diligências e com os combates temporais; mas sim uma
salvação que ultrapassa todos estes limites, para vir a ter a sua plena
realização numa comunhão com o único Absoluto, que é o de Deus: salvação
transcendente e escatológica, que já tem certamente o seu começo nesta vida,
mas que terá realização completa na eternidade. Sob o sinal da
esperança 28. Por conseguinte, a evangelização não pode deixar de
comportar o anúncio profético do além, vocação profunda e deiinitiva do homem,
ao mesmo tempo em continuidade e em descontinuidade com a sua situação
presente, para além do tempo e da história, para além da realidade deste mundo
cujo cenário passa e das coisas deste mundo, de que um dia se manifestará uma
dimensão escondida; para além do próprio homem, cujo destino verdadeiro não se
limita à sua aparência temporal, mas que virá também ele a ser revelado na vida
futura.(58) A evangelização contém, pois, também a pregação da esperança nas
promessas feitas por Deus na Nova Aliança em Jesus Cristo: a pregação do amor
de Deus para conosco e do nosso amor a Deus, a pregação do amor fraterno para
com todos os homens, capacidade de doação e de perdão, de renúncia e de ajuda
aos irmãos, que promana do amor de Deus e que é o núcleo do Evangelho; a
pregação do mistério do mal e da busca ativa do bem. Pregação, igualmente, e
esta sempre urgente, da busca do próprio Deus, através da oração,
principalmente de adoração e de ação graças, assim como através da comunhão com
o sinal visível do encontro com Deus que é a Igreja de Jesus Cristo. Uma tal comunhão exprime-se, por sua vez, mediante a
realização dos outros sinais de Cristo vivo e a agir na Igreja, quais são os
sacramentos. Viver desta maneira os sacramentos, de molde a fazer com que a
celebração dos mesmos atinja uma verdadeira plenitude, não é de modo algum,
como às vezes se pretende, colocar um obstáculo ou aceitar um desvio da
evangelização; é antes proporcionar-lhe a sua integridade. Efetivamente, a
totalidade da evangelização para além da pregação de uma mensagem, consiste em
implantar a Igreja, a qual não existe sem esta respiração, que é a vida
sacramental a culminar na Eucaristia. (59) Mensagem que
interpela a vida toda 29. Mas a evangelização não seria completa se ela não
tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o
Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, dos homens. E por isso que a
evangelização comporta uma mensagem explícita, adaptada às diversas situações e
continuamente atualizada: sobre os direitos e deveres de toda a pessoa humana e
sobre a vida familiar, sem a qual o desabrochamento pessoal quase não é possível,(60)
sobre a vida em comum na sociedade; sobre a vida internacional, a paz, a
justiça e o desenvolvimento; uma mensagem sobremaneira vigorosa nos nossos
dias, ainda, sobre a libertação. Uma mensagem de
libertação 30. São conhecidos os termos em que falaram de tudo isto, no
recente Sínodo, numerosos Bispos de todas as partes da terra, sobretudo os do
chamado "Terceiro Mundo", com uma acentuação pastoral em que se
repercutia a voz de milhões de filhos da Igreja que formam esses povos, Povos
comprometidos, como bem sabemos, com toda a sua energia no esforço e na luta
por superar tudo aquilo que os condena a ficarem à margem da vida: carestias,
doenças crônicas e endêmicas, analfabetismo, pauperismo, injustiças nas
relações internacionais e especialmente nos intercâmbios comerciais, situações
de neo-colonialismo econômico e cultural, por vezes tão cruel como o velho
colonialismo político. A Igreja, repetiram-no os Bispos, tem o dever de
anunciar a libertação de milhões de seres humanos, sendo muitos destes seus
filhos espirituais; o dever de ajudar uma tal libertação nos seus começos, de
dar testemunho em favor dela e de envidar esforços para que ela chegue a ser
total. Isso não é alheio à evangelização. Necessária ligação
com a promoção humana 31. Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento,
libertação, existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado
que o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas é sim um ser
condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem
teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da criação do plano da
redenção, um e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça que
há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços daquela ordem
eminentemente evangélica, qual é a ordem da caridade: como se poderia,
realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o
verdadeiro e o autêntico progresso do homem? Nós próprios tivemos o cuidado de
salientar isto mesmo, ao recordar que é impossível aceitar "que a obra da
evangelização possa ou deva negligenciar os problemas extremamente graves,
agitados sobremaneira hoje em dia, no que se refere à justiça, à libertação, ao
desenvolvimento e à paz no mundo. Se isso porventura acontecesse, seria ignorar
a doutrina do Evangelho sobre o amor para com o próximo que sofre ou se
encontra em necessidade".(61) Pois bem: aquelas mesmas vozes que, com zelo, inteligência e
coragem, ventilaram este tema candente, no decorrer do referido Sínodo, com
grande alegria nossa forneceram os princípios iluminadores para bem se captar o
alcance e o sentido profundo da libertação, conforme ela foi anunciada e
realizada por Jesus de Nazaré e conforme a Igreja a apregoa. Sem confusão nem
ambigüidade 32. Não devemos esconder, entretanto, que numerosos
cristãos, generosos e sensíveis perante os problemas dramáticos que se
apresentam quanto a este ponto da libertação, ao quererem atuar o empenho da
Igreja no esforço de libertação, têm freqüentemente a tentação de reduzir a sua
missão às dimensões de um projeto simplesmente temporal; os seus objetivos a
uma visão antropocêntrica; a salvação, de que ela é mensageira e sacramento, a
um bem-estar material; a sua atividade, a iniciativas de ordem política ou
social esquecendo todas as preocupações espirituais e religiosas. No entanto,
se fosse assim, a Igreja perderia o seu significado próprio. A sua mensagem de
libertação já não teria originalidade alguma e ficaria prestes a ser
monopolizada e manipulada por sistemas ideológicos e por partidos políticos.
Ela já não teria autoridade para anunciar a libertação, como sendo da parte de
Deus. Foi por tudo isso que nós quisemos acentuar bem na mesma alocução, quando
da abertura da terceira Assembléia Geral do Sínodo, "a necessidade de ser
reafirmada claramente a finalidade especificamente religiosa da evangelização.
Esta última perderia a sua razão de ser se se apartasse do eixo religioso que a
rege: o reino de Deus, antes de toda e qualquer outra coisa, no seu sentido
plenamente teológico".(62) A libertação
evangélica 33. Acerca da libertação que a evangelização anuncia e se
esforça por atuar, é necessário dizer antes o seguinte: ela não pode ser
limitada à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural;
mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões,
incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o absoluto de Deus; ela anda
portanto coligada a uma determinada concepção do homem, a uma antropologia que
ela jamais pode sacrificar às exigências de uma estratégia qualquer, ou de uma
"práxis" ou, ainda, de uma efiicácia a curto prazo. Libertação baseada no
reino de Deus 34. Assim, ao pregar a libertação e ao associar-se àqueles
que operam e sofrem com o sentido de a favorecer, a Igreja não admite
circunscrever a sua missão apenas ao campo religioso, como se se
desinteressasse dos problemas temporais do homem; mas reafirmando sempre o
primado da sua vocação espiritual, ela recusa-se a substituir o anúncio do reino
pela proclamação das libertações puramente humanas e afirma que a sua
contribuição para a libertação ficaria incompleta se ela negligenciasse
anunciar a salvação em Jesus Cristo. Libertação com uma
visão evangélica do homem 35. A Igreja relaciona, mas nunca identifica a libertação
humana com a salvação em Jesus Cristo, porque ela sabe por revelação, por
experiência histórica e por reflexão de fé que nem todas as noções de
libertação são forçosamente coerentes e compatíveis com uma visão evangélica do
homem, das coisas e dos acontecimentos; e sabe que não basta instaurar a
libertação, criar o bem-estar e impulsionar o desenvolvimento, para se poder
dizer que o reino de Deus chegou. Mais ainda: a Igreja tem a firme convicção de que toda a
libertação temporal, toda a libertação política, mesmo que ela porventura se
esforçasse por encontrar numa ou noutra página do Antigo ou do Novo Testamento
a própria justificação, mesmo que ela reclamasse para os seus postulados
ideológicos e para as suas normas de ação a autoridade dos dados e das
conclusões teológicas e mesmo que ela pretendesse ser a teologia para os dias
de hoje, encerra em si mesma o gérmen da sua própria negação e desvia-se do
ideal que se propõe, por isso mesmo que as suas motivações profundas não são as
da justiça na caridade, e porque o impulso que a arrasta não tem dimensão
verdadeiramente espiritual e a sua última finalidade não é a salvação e a
beatitude em Deus. Libertação que
comporta necessariamente uma conversão 36. A Igreja tem certamente como algo importante e urgente
que se construam estruturas mais humanas, mais justas, mais respeitadoras dos
direitos da pessoa e menos opressivas e menos escravizadoras; mas ela continua
a estar consciente de que ainda as melhores estruturas, ou os sistemas melhor
idealizados depressa se tornam desumanos, se as tendências inumanas do coração
do homem não se acharem purificadas, se não houver uma conversão do coração e
do modo de encarar as coisas naqueles que vivem em tais estruturas ou que as
comandam. Libertação que exclui
a violência 37. A Igreja não pode aceitar a violência, sobretudo a força
das armas, de que se perde o domínio, uma vez desencadeada, e a morte de
pessoas sem discriminação, como caminho para a libertação; ela sabe,
efetivamente, que a violência provoca sempre a violência e gera
irresistivelmente novas formas de opressão e de escravização, não raro bem mais
pesadas do que aquelas que ela pretendia eliminar. Dizíamos quando da nossa
viagem à Colômbia: "Exortamo-vos a não pôr a vossa confiança na violência,
nem na revolução; tal atitude é contrária ao espírito cristão e pode também
retardar, em vez de favorecer, a elevação social pela qual legitimamente
aspirais", (63) E ainda: "Nós devemos reafirmar que a violência não é
nem cristã nem evangélica e que as mudanças bruscas ou violentas das estruturas
seriam falazes e ineficazes em si mesmas e, por certo, não conformes à
dignidade dos povos".(64) Contribuição
específica da Igreja 38. Dito isto, nós regozijamo-nos de que a Igreja tome uma
consciência cada dia mais viva do modo próprio, genuinamente evangélico, que
ela tem para colaborar na libertação dos homens. E o que faz ela, então? Ela
procura suscitar cada vez mais nos ânimos de numerosos cristãos a generosidade
para se dedicarem à libertação dos outros. Ela dá a estes cristãos
"libertadores" uma inspiração de fé e uma motivação de amor fraterno,
uma doutrina social a que o verdadeiro cristão não pode deixar de estar atento,
mas que deve tomar como base da própria prudência e da própria experiência, a
fim de a traduzir concretamente em categorias de ação, de participação e de
compromisso. Tudo isto, sem se confundir com atitudes táticas nem com o serviço
de um sistema político, deve caraterizar a coragem do cristão comprometido. A
Igreja esforça-se por inserir sempre a luta cristã em favor da libertação do
desígnio global da salvação, que ela própria anuncia. O que acabamos de recordar aqui emerge por mais de uma vez
dos debates do Sínodo. Nós próprios, aliás, também quisemos dedicar a este
mesmo tema algumas palavras de esclarecimento na alocução que dirigimos aos
Padres sinodais no final da Assembléia.(65) Todas estas considerações deveriam contribuir, ao menos é de
esperar que assim suceda, para evitar a ambigüidade de que se reveste
freqüentemente a palavra "libertação", nas ideologias, nos sistemas
ou nos grupos políticos. A libertação que a evangelização proclama e prepara é
aquela mesma que o próprio Jesus Cristo anunciou e proporcionou aos homens pelo
seu sacrifício. A liberdade religiosa 39. Desta justa libertação, ligada à evangelização e que
visa alcançar o estabelecimento de estruturas que salvaguardem as liberdades
humanas, não pode ser separada a necessidade de garantir todos os direitos
fundamentais do homem, entre os quais a liberdade religiosa ocupa um lugar de
primária importância. Tivemos ocasião de falar, ainda há pouco, da atualidade
deste problema, pondo em relevo que há "muitos cristãos, ainda hoje, que
vivem sufocados por uma opressão sistemática, pelo fato de serem cristãos, pelo
fato de serem católicos! O drama da fidelidade a Cristo e da liberdade de
religião, se bem que dissimulado por declarações categóricas em favor dos
direitos da pessoa e das relações humanas em sociedade, é um drama que
continua!"(66) Exortação Apostólica "Evangelii Nuntiandi " - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
por Papa Paulo VI * www.vatican.va |
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