A participação democrática nas eleições tem uma significação
que ultrapassa o simples ato de sufragar nomes para ocupar cargos
administrativos e parlamentares. Não se pode reduzir um pleito eleitoral em
simples corrida vitoriosa, oportunidades de hegemonias partidárias ou mesmo
imposição de carismas pessoais na definição dos cenários que vão configurar a
comunidade política, que tem na referência ao povo a sua autêntica dimensão e
que, na realidade, deve ser a unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro
povo.
A Doutrina Social da Igreja ressalta que “o povo não é uma
multidão amorfa, uma massa inerte a ser manipulada e instrumentalizada, mas,
sim, um conjunto de pessoas, cada uma das quais – no próprio lugar e a seu modo
– tem a possibilidade de formar a própria opinião a respeito da coisa pública e
a liberdade de exprimir a sua sensibilidade política e de fazê-la valer em
maneira consoante com o bem comum”. Portanto, o foco de um processo eleitoral
não pode restringir-se às figuras que serão aprovadas por votos, considerando-se, é claro, a moralidade e as
condições de cada um no exercício da responsabilidade e missão a que se propõem.
Há uma luz, nascida da compreensão da realidade e dos seus
funcionamentos, que deve iluminar o rosto e a vida de candidatos. Compreende-se
que o processo eleitoral tem a tarefa social e política de ajudar a sociedade a
dar um passo adiante na sua autocompreensão, nas correções de dinâmicas culturais
viciadas e prejudiciais e na efetivação de solidariedades que garantam a busca
permanente da superação de tudo o que macula a convivência política e a
organização social. Fica o desafio de se aproveitar do processo eleitoral para
agregar ganhos na consciência social e política da sociedade, pondo-a em
condições de participação mais cidadã e de acompanhamento dos processos e
mecanismos que definem seu funcionamento e status.
Não se pode reduzir, pois, as eleições à corrida eleitoral,
à propaganda enquanto mecanismo de convencimento ou às promessas que apaziguam
e podem ter força na definição de adesões transformadas em voto. É inconcebível
também estreitar o evento eleitoral - momento educativo da mais alta
importância na vida social e política de um povo a afirmações partidárias. Não
se desconhece sua função própria. Uma nação não pode ser governada simplesmente
pela ideologia de um partido, tendo em conta suas fragilidades, as alianças
questionáveis e outros aspectos próprios da complexidade do tecido político.
É importante a mobilização de todos os segmentos da
sociedade para que as eleições tragam resultados tanto no âmbito de escolhas
adequadas dos nomes, quanto no crescimento da consciência social e política,
que deve alavancar a cidadania de todos. Neste âmbito, pode se constatar
grandes avanços e abertura de novos horizontes. A Lei da Ficha Limpa é um
desses grandes avanços que apontam na direção de reformas morosas por
interesses diversos ou por incapacidade de avanços. Há um aspecto importante a
ser considerado no progresso que as eleições devem trazer no contexto da
comunidade política e no tecido da cultura que sustenta a vida da sociedade
brasileira. Existe ainda resquícios de dinâmicas, práticas e hábitos que
continuam sendo heranças de espúrio coronelismo e de ultrapassados caudilhos
que tentam se perpetuar.
As figuras representativas deste modus operandi na sociedade
e nas instituições, sejam elas de que tipo for, vão caindo num ridículo que
produz o seu ostracismo pouco a pouco. Contudo, há a tendência de se incorrer
no mesmo risco e equívoco do povo de Deus saindo do Egito, conduzido pela
lucidez de Moisés, que abre horizontes e aponta caminhos e possibilidades a
serem conquistados. Mas o povo reclama, confessa o desejo de voltar a servir o
faraó, fazendo referências às panelas de carnes e às cebolas, embora comidas na
condição de escravo. Existe uma preferência pela condição escravocrata àquela
da liberdade, embora pagando um preço. Os faraós se multiplicam com suas
artimanhas aproveitando-se dos fracos na sua saudade de um passado que não
volta mais, especialmente na dinâmica da sociedade contemporânea. Aproveita-se
de uma necessidade de incentivo e de benesses que revelam a pequenez na penúria
dos dependentes e na tirania de antigos caudilhos e coronéis. Estes vivem do
passado. É hora de apostar, como Moisés, em um horizonte novo.
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por Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte