DE “ÃO” EM “ÃO”...
Malão, cuecão, dizimão, mensalão, mesadão, corrupção, milhão, ladrão, mentirão... é, parece que o sufixo meio deselegante utilizado para o aumentativo, o antigamente pouco usado “ão”, entrou na moda para ficar... A admirável facilidade de expressão do Deputado Jefferson não somente provocou uma avalanche política, mas também uma avalanche de neologismos que certamente serão incorporados ao vocabulário do brasileiro, sempre mais disposto a rir do que a chorar. Para o choro e para o riso, o que não tem faltado é razão. Inevitável não lembrar-se da música “o que dá prá rir, dá prá chorar”, que, não por acaso, é um samba e não um fado.
Mas o que dá prá rir e prá chorar, dá também para pensar. E muito! Dá também para rezar. E como! Desiludido com a classe política, o brasileiro já está há várias gerações. A novidade, desta vez, é que a mentira, o descaramento e a roubalheira são transmitidos ao vivo para o Brasil inteiro, em um repertório inesgotável de inverdades e rostos devidamente convictos do que estão dizendo, contrastando com a gagueira, o ato falho, o pisca-pisca que revelam, para o bom observador, atitudes involuntárias que desmentem o que as palavras afirmam com veemência e convicção, dando a deixa para já vislumbrar o que vai ser desmentido nas próximas horas. Virtudes da democracia, sem dúvida, que garante o direito à informação, por mais enlameada que seja.

Desilusão, mentiras, escândalos. “O que mais, meu Deus?” perguntava eu enquanto aguardava o inicio da Missa. Livre, o pensamento percorreu a forma como Jesus lidava com o dinheiro e como este não exercia sobre ele a mais ínfima atração: o imposto devido ao templo, a moeda com o rosto do imperador romano, os vendilhões do Templo, o rico Epulão, o jovem rico, o camelo e a agulha, o homem que vendeu tudo o que tinha para comprar o campo e a pérola, isto é, o reino de Deus, tudo para desembocar nos lírios do campo, que nem semeiam, nem ceifam, nem roubam, nem acumulam.

Parábolas, atitudes e ensino. O ensino de que os bens da terra nos são dados para o nosso sustento no essencial e para a partilha de tudo o que passar disso. A sabedoria de que, embora os filhos não paguem impostos, o Filho de Deus se esvazia de si para pagar e provoca, para isso, o milagre do peixe, que não veio com as vísceras cheias de moedas para enriquecer Pedro, mas que trouxe na boca uma única moeda, suficiente para pagar o imposto do Filho e do Cefas.
A separação clara entre o que é de Deus e o que não é. O grande bem de Deus são os homens, cada homem, e não um metal com o perfil de César. A César, dá-se o que é de César. A Deus, o que é de Deus. Isso os vendilhões do templo não entendiam. Misturavam tudo, como o rico Epulão que misturava as coisas do céu e da terra acumulando trigo no celeiro e achando que isso garantia sua tranqüilidade, em uma atitude diametralmente oposta à do homem que vendeu tudo o que tinha para comprar o terreno e a pérola do Reino de Deus.

O jovem rico não era tão tranqüilo como Epulão. Tentava comprar sua paz de consciência. Não com dinheiro, pois sabia que Jesus não o tinha como fim, mas como meio. Sua “moeda” era o “comportamento exemplar” que, no fundo no fundo, como muitos dos que têm sido exibidos na TV, não era tão exemplar quanto queria fazer parecer. Resultado, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha!

Olhando com mais cuidado, veremos que também no Evangelho há alguns “ão” que se referem a roubo de dinheiro: vendilhão, Epulão e... traição. Pois é. Traição por 30 moedas de prata.
A tática é parecida: a irritação com o gasto do dinheiro que tencionava roubar da bolsa (bolsão, diria o Deputado Jefferson) dos pobres e que, segundo a sua lógica ladina, lhe pertencia. Os planos mil vezes detalhados a rolar sobre o manto nas noites insones ao lado de Jesus que dormia tranquilamente. Mil detalhes repassados, repensados, mil táticas revistas à exaustão, contatos secretos e por intermediários com as autoridades do templo e, por fim, o grande golpe de quem estava acostumado a roubar sempre, mas roubar miúdo, a sonhar com grandes somas – é que, como diz Santa Tereza, pecados “leves” levam incontinenti a pecados “graves”. Chegou, finalmente, o grande dia tantas vezes matutado. O dia do roubo histórico em forma de negociação das famosas moedas de prata em uma pequena sacola de couro - não havia malas como as nossas, naquele tempo.

Terá Judas recordado as palavras de Jesus: “Nada há de encoberto que não venha a ser revelado”? Terão alguns dos envolvidos no atual escândalo lido e se lembrado desta lei espiritual tão infalível? Se nada se tivesse revelado, o que teria o poder de sustar sua ambição desmedida? Sim, até onde iriam, depois das Bahamas e Deus sabe onde mais? Até onde chegariam na velha lei de que dinheiro nunca basta, nunca basta, nunca basta?

O “ão” de ambição seria, talvez, uma estranha simbiose ortográfica? Mensalão = mesada + ambição, com sua corruptela mesadão; cuecão = cueca + ambição, e assim por diante. Não sei ao certo. Não creio que esta seja uma regra ortográfica e a filologia não a explicaria. É, isso sim, uma regra do coração do homem, de onde brota o que realmente o enlameia e condena.
É assim com a turma da corrupção, é assim com o ladrão. Semana passada, roubaram mais de 167 milhões- 3,5 toneladas em notas de 50 – do BC de Fortaleza. Dois dias depois, encontraram o primeiro carro com alguns milhões. A primeira notícia era a de que um funcionário da garagem havia feito a denúncia. Reação de uma vendedora de balcão, casada, mãe, pseudo-educadora, enquanto seu colega me atendia:

“Mas vá ser burro assim no inferno! Então, não está vendo que eu não devolvia o dinheiro e nem denunciava ninguém?!? Eu ia era viver! Só se vive bem mesmo é com muito dinheiro! Ia sair da miséria, minha filha!”

Reação de um senhor de cerca de 70 anos, ajoelhado a rezar diante do portão de grade da casa de onde partiu o túnel para o cofre do Banco, ao ser entrevistado:
“Estou rezando aqui porque esta casa dá sorte! Atrai dinheiro! Trouxe uma fortuna para os ladrões. Pode trazer também uma fortuna para mim. Pelo menos uma mega-sena. Vou sair daqui e comprar um bilhete e jogar no bicho. Tenho certeza de que Nosso Senhor Jesus Cristo e esta casa milionária vão me ajudar”. O pior: ele estava falando sério!
Vendilhão, traição, mensalão, mesadão, cuecão, dizimão, mentirão, ladrão, corrupção, ladrão, Epulão. Todos filhos da ambição que escraviza e ilude o coração do homem desde o pecado original, ao ponto de ele a transformar no que aquele pobre velho, talvez a poucas semanas da morte, chama de... oração.

Conclusão em três níveis: o mais superficial: todo povo tem os políticos que merece; o segundo: onde foram parar o que há não muito tempo se chamava de “virtudes”, de ideais?; o terceiro: a ambição habita, soberana, o coração do homem de todos os tempos; o quarto, o mais preocupante de todos: que terrível poder tem o dinheiro feito fim e não meio!
O Senhor venha em auxílio dos brasileiros que plantaram o pecado da pesquisa com embriões, que regaram o pecado do aborto de crianças provenientes de estupro com a dispensa do B.O., que cultivam o projeto de aborto dos anencéfalos e colhem com este escândalo, em forma plástica e material, os frutos da corrupção do coração que há tantos anos cultiva das mais variadas formas, a imoralidade de amar mais a si mesmo e seus próprios interesses do que a Deus e ao irmão.

Maria Emmir Oquendo Nogueir
Co-Fundadora e Formadora Geral da Comunidade Católica Shalom
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