2011-06-09 09:09:00
Dimas, o bom ladrão, foi de uma sabedoria impressionante lá no
Calvário. Com efeito, ele não pediu nada determinadamente, mas assim se
dirigiu a Cristo: “Lembra-te de mim quando vieres com teu reino”.
Neste caso Ele nos ensina que é de Deus o dar e dar o que é melhor.
Quando esperamos do Ser Supremo a graça, supomos que sua liberalidade
infinita pode nos amparar. Quando, porém, não especificamos o que queremos honramos sua sabedoria. Quantas vezes nos dirigimos a Deus mais exigindo do que pedindo. Com Dimas deveríamos apenas apresentar o problema ao Todo-Poderoso e deixar a Ele a solução. Muitas vezes, o homem quer enquadrar Deus nos seus limitados esquemas mentais e, por isto, ao invés de obter mais, recebe menos. Dimas solicitou apenas uma lembrança e ganhou o Paraíso! Impetrou uma recordação e foi envolvido numa absolvição geral de suas culpas. Observemos ainda que ele não determinou nem o dia nem a hora da reminiscência de Jesus: “Quando estiveres”, mas é logo atendido: “Hoje”. Antes, a mãe dos filhos de Zebedeu pedira que Tiago e João estivessem assentados à direita e à esquerda do grande Rei. Dimas é bem mais modesto quer apenas ser lembrado e tem a garantia do que mais devemos aspirar: ganhar um lugar no Paraíso! Que diálogo foi mais expressivo do que este entre dois crucificados? Como um deles era o Senhor Onipotente uma cruz se transformou em altar; um pecador, em um santo; um proscrito em um eleito. Dimas forçou a primeira canonização da História com seu gesto de confiança e humildade, de arrependimento e santo desejo. Dimas foi extremamente objetivo e com cinco idéias ele conquista o céu: “Lembra-te de mim quando vieres com teu reino”. Estas cinco idéias expressas com cinco
palavras o jogou nas cinco chagas redentoras de Jesus, portas gloriosas
daquele reino que ele então brilhantemente conquista. É impressionante
esta conversão de Dimas porque, ao contrário de muitos, ele não
presenciara os prodígios estupendos que Cristo fizera. Ele não estivera
no Tabor contemplando as glórias do Transfigurado. Ele não vira Jesus
andando sobre as águas. Ele não escutara a voz do Pai lá no Jordão e nem
ouvira o testemunho do Batista sobre o Cordeiro de Deus. Que surpresa!
Os agraciados ausentaram-se, os amigos esconderam-se, as autoridades
religiosas injuriam, soldados romanos martirizam, Cristo é condenado e
desprezado e apenas um ladrão naquele instante o reconhece como Rei
poderoso! Misterioso é sempre o encontro de Jesus com a alma do homem.
Poderosa a influência da graça no coração arrependido. Conversão
admirável, pois Dimas aceita contrito o castigo em reparação de seus
crimes: “Estamos pagando por nossos atos”. Faz um ato de fé, pois
acredita na soberania do divino crucificado. Faz-se um pregador do bem,
pois tenta converter a Gestas: “Não temes a Deus”? Feliz Dimas que abriu
as portas de seu coração à influição de um chamado celeste e depositou
uma esperança em Jesus e lhe arrebatou o perdão, ganhando a primeira
indulgência plenária advinda do sacrifício redentor. Nas encruzilhadas
da vida Cristo continua seus encontros com os filhos dos homens. Neles
está sempre a repetir para os que O aceitam: “Hoje estarás comigo no
Paraíso”. Cenas maravilhosas da adesão do ser racional à sua redenção.
De todas as verdades teológicas e filosóficas uma das mais complexas é a
conciliação da liberdade humana com a onipotência e a onisciência
divinas. O tratado da graça é um dos mais difíceis de toda a Teologia.
Regulando nossos destinos por um sistema de sabedoria que ultrapassa a
capacidade cognoscitiva da razão humana, o Ser Supremo assiste o
desenrolar dos atos do homem e só Ele sabe até que ponto pode chegar a
malícia de cada um para fechar definitivamente as vias do perdão e da
clemência. Como o homem é livre ele pode no encontro com Jesus ou
repetir o gesto de Dimas e conquistar o céu ou reeditar a postura de
Gestas e não aceitar a salvação, desejando prosseguir no erro e nas
trevas.Um dia, assentado à beira de um poço, Cristo aguardou a
Samaritana e a redimiu. Encontro sublime tantas vezes repetido em sua
passagem por este mundo como ocorreu com Zaqueu, Mateus, Madalena e
tantos outros. Tais encontros se prolongariam, século após século,
através do mistério da graça divina a visitar as consciências. A
milhares Ele a reiterar a sentença gloriosa: “Hoje estarás comigo no
Paraíso”. Na estrada de Damasco alguém que odeia a Cristo se encontra
frente a frente com Ele e, então, já não existe mais Saulo, mas o grande
apóstolo Paulo.Foi isto que escutou Agostinho, quando, por força das
preces de sua santa mãe Mônica, se voltou para Deus. Nas trevas de uma
existência trevosa, uma jovem de Cortona na Itália, andava pelas sendas
do mal. Ei-la um dia ante o cadáver de alguém que fora assassinado.
Interroga-se: “Onde estará sua alma”? Converte-se e se torna Santa
Margarida de Cortona. Os fatos se multiplicam nas crônicas dos grandes
convertidos que repetiram a atitude de Dimas. Nas agras regiões da vida, dificultadas pelos espinhos da culpa, devastadas pelas tempestades do pecado, ainda que perdido no mais profundo abismo de seus erros, sempre que, num gesto de confiança, alguém se voltar para Cristo com sincero arrependimento, imediatamente, ouvirá a palavra de paz, de conforto, de luz, de salvação, conquistando o Paraíso. Estejamos, porém, alertas porque se Dimas viveu mal e morreu muito bem, os que contemplam os prodígios da misericórdia divina e se acham imersos nos favores celestes não podem facilitar, pois Cristo foi muito claro: “Vigiai, portanto, pois não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Con. Vidigal - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
por Católicos na Rede |
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