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A pessoa consagrada, nas várias formas de vida suscitadas pelo Espírito ao longo da história, experimenta a verdade do Deus-Amor de modo tanto mais imediato e profundo quanto mais se aproxima da cruz de Cristo. Na verdade, aquele que, na sua morte, aparece aos olhos humanos desfigurado e sem beleza, a ponto de obrigar os espectadores a desviar o rosto (cf. Is 53, 2-3), manifesta plenamente a beleza e a força do amor de Deus precisamente na cruz.
A vida consagrada reflete este esplendor do amor, porque confessa, com a sua fidelidade ao mistério da cruz, que crê e vivi do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deste modo, ela contribui para manter viva na Igreja a consciência de que a cruz é a superabundância do amor de Deus que transborda sobre este mundo, ela é o grande sinal da presença salvífica de Cristo e isto, especialmente nas dificuldades e nas provações. A sua fidelidade ao único amor revela-se e aperfeiçoa-se na humildade de uma vida escondida, na aceitação dos sofrimentos para completar na própria carne o que falta aos sofrimentos de Cristo”(cf. Col 1,24), no sacrifício silencioso, no abandono à vontade santa de Deus, na serena fidelidade mesmo face ao declínio das próprias forças e importância da fidelidade a Deus, brota também a dedicação ao próximo, que as pessoas consagradas vivem, não sem sacrifício, na constante intercessão pelas necessidades dos irmãos, no generoso serviço aos pobres e aos enfermos, na partilha das dificuldades alheias, na solícita participação das preocupações e provas da Igreja. Testemunhas de Cristo no Mundo Para não falar já nos carismas próprios daqueles institutos que se consagram à missão ad gentes ou se empenham em atividade justamente de tipo apostólico, a de se afirmar que a missionariedade está inserida no coração de toda forma de vida consagrada. Na medida em que o consagrado vive uma vida dedicada exclusivamente ao Pai (cf. Lc 2,49; Jo 4,34), cativada por Cristo (cf. Jo 15,16; Gl. 1,15-16), animada pelo Espírito Santo (cf. Lc 24, 49; At 1,8; 2,4), ele coopera eficazmente para a missão do Senhor Jesus (cf. Jo 20,21), contribuindo de modo particularmente profundo para a renovação do mundo. O dever missionário das pessoas consagradas tem a ver primeiro com elas próprias, e cumprem-no abrindo o seu coração à ação do Espírito de Cristo. O seu testemunho ajuda a Igreja inteira a lembrar-se de que em primeiro lugar está o serviço gratuito de Deus, tornado possível pela graça de Cristo, comunicada ao crente pelo Dom do Espírito. Deste modo, é anunciada ao mundo a paz que desce do Pai a dedicação que é testemunhada pelo Filho, a alegria que é fruto do Espírito Santo. As pessoas consagradas serão missionárias, antes de mais, aprofundando continuamente a consciência de terem sido chamadas e escolhidas por Deus, para quem devem, por isso mesmo, orientar toda a sua vida e oferecer tudo o que são e possuem, libertando-se dos obstáculos que poderiam retardar a resposta total de amor. Desta forma, poderão tornar-se um verdadeiro sinal de Cristo no mundo. Também o seu estilo de vida deve fazer transparecer o ideal que professam, propondo-se como sinal vivo de Deus e como persuasiva pregação, ainda que muitas vezes silenciosa, do Evangelho. Sempre, mas especialmente na cultura contemporânea muitas vezes tão secularizada e apesar disso sensível à linguagem dos sinais, a Igreja deve-se preocupar por tornar visível a sua presença na vida cotidiana. Uma contribuição significativa neste sentido, ela tem direito de esperá-la das pessoas consagradas, chamadas a prestar em cada situação, um testemunho concreto da sua pertença a Cristo. Dimensão Escatológica da Vida Consagrada Dado que hoje as preocupações apostólicas se fazem sentir sempre com maior urgência e o empenho nas coisas deste mundo corre o risco de ser cada vez mais absorvente, torna-se particularmente oportuno chamar a atenção para a natureza escatológica da vida consagrada. Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 21): Esse tesouro único que é o Reino, suscita desejo, expectativa, compromisso e testemunho na Igreja primitiva, a expectativa da vinda dos Senhor era vivida de modo particularmente intenso a Igreja não cessou de alimentar esta atitude de esperança, ao longo dos séculos: continuou a convidar os fiéis a levantarem os seus olhos para a salvação pronta a revelar-se, “porque a figura deste mundo passa” (I Cor 7, 31; I Pd 3-6). É neste horizonte que melhor se compreende a função de sinal escatológico, própria da vida consagrada de fato, é constante a doutrina que a apresenta como antecipação do Reino futuro. O Concílio Vaticano II reitera este ensinamento, quando afirma que a consagração “preanuncia a ressurreição futura e a glória do Reino Celeste”. Fá-lo, antes de mais, pela opção virginal concebida sempre pela tradição como uma antecipação do mundo definitivo, que já desde agora age e transforma o homem na sua globalidade. Uma Esperança Ativa: Compromisso e Vigilância Vem, Senhor Jesus!” (Ap. 22,20). Esta esperança está bem longe de ser passiva: apesar de apontar para o Reino futuro, ela exprime-se em trabalho e missão, para que o Reino se torne presente já desde agora, através da instauração do espírito das bem-aventuranças, capaz de suscitar anseios eficazes de justiça, paz, solidariedade e perdão, mesmo na sociedade humana. Isto está amplamente demonstrado na história da vida consagrada, que sempre produz frutos abundantes mesmo em favor da sociedade. Pelos seus carismas, as pessoas consagradas tornam-se um sinal do Espírito em ordem a um futuro novo, iluminado pela fé e pela esperança cristã. A tensão escatológica transforma-se em missão, para que o Reino se afirme de modo crescente, aqui e agora. A súplica “vem Senhor Jesus”, une-se a outra invocação: “venha a nós o Teu Reino!” (Mt. 6,10). Aquele que espera, vigilante, o cumprimento das promessas de Cristo, é capaz de infundir também a esperança nos seus irmãos e irmãs freqüentemente desanimados e pessimistas relativamente ao futuro. A sua esperança está fundada na promessa de Deus, contida na palavra revelada: a história dos homens caminha para o Novo Céu e a Nova Terra (cf. Ap. 21,1), onde o Senhor “enxugará as lágrimas dos olhos; não haverá morte, nem pranto, nem gritos, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap. 21,4). A vida consagrada está a serviço desta irradiação definitiva da Glória divina, quando toda criatura vir a salvação de Deus. Ela repete, sem cessar, que o primado de Deus é plenitude de sentido e de alegria para a vida humana, pois o homem está feito para Deus e vive inquieto até encontrar nele a paz. compartilhar essa página
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