Entrelinhas
“Véinha” piradinha ou “exxperta”, muito “exxperta”?
Maria Emmir Oquendo Nogueira

Espanta-me ver a reação das pessoas quando lhes falo sobre os anjos. Seu olhar vagueia entre a dúvida e a maravilha de ver alguém viver uma amizade tão... tão... tão... inverossímil. Como se os anjos não estivessem presentes em toda a Bíblia, como se não fossem criaturas que Deus fez exatamente para nos ajudar no dia a dia de nossa caminhada para o céu.

Certo dia, um estudante de teologia, prestes a ser ordenado diácono, foi muito franco: “É que um teólogo que se dá o respeito não pode acreditar em anjos. São apenas figuras bíblicas”. Minha resposta veio tão rápida que não a pude conter: “Pois graças a Deus, nem sou teóloga, nem me dou o respeito quando estou diante de uma evidência do amor de Deus.” A segunda parte da resposta, felizmente, pude contê-la e a publico a seguir, em primeira mão: “Prefiro ser uma ‘véinha piradinha’ com anjo do que um ‘quase-padre’ sem anjo!” Já pensou, que desgraça, um padre sem anjo?

Em minha infância, meus grandes amigos eram Nossa Senhora, Santa Bernadete e meu anjo da guarda. Naquela época, achava que só tinha um. Conversávamos como se tivéssemos todos a mesma idade e como se fôssemos iguais. Como, na época, oferecia orações e sacrifícios (da merenda amada!) pelos missionários da Ásia, costumava dizer ao meu anjo que lhe dava licença para dar um pulo por lá quando visse um missionário em apuros. Depois, minha turma da “cruzadinha” trocou o continente-alvo pela África, mas nunca abandonei a Ásia e meu anjo vivia zanzando para lá e para cá. Desde esta época- há quase 50 anos! – tomei esse costume de “emprestar anjo”. O pior é que dá certo. Meus anjos sempre ajudam os anjos dos outros – ou, talvez melhor, meus anjos sempre ajudam os outros a acreditarem nos seus próprios anjos e serem mais amigos deles.

Vivo muitas aventuras engraçadas com os anjos e tenho com eles contratos fixos, isto é, não preciso mais pedir algumas coisas de que sempre preciso: chegar na hora aos compromissos (para isso, têm que abrir vários sinais), vaga na sombra quando estiver em clima quente, a proteção constante dos meus filhos que, quando criança, podiam ser facilmente achados “velejando” no alto de casuarinas, brincando de índio no telhado, andando de cavalo no trânsito, coisinhas básicas. Também fazem parte do nosso “contrato” imprevistos nas viagens missionárias e proteção durante as mesmas. Sobre todos estes assuntos teria dezenas de histórias para contar.

Além dessas “ações contratuais”, os anjos me ajudam em todos os casos não previstos, desde a necessidade de encontrar pessoas ou objetos em situações humanamente impossíveis até a necessidade de conseguir confessar-me, o que nem sempre é tão simples assim. Em todos os casos, basta pedir, fazer tudo o que está a meu alcance e esperar confiante. Não adianta pedir e não esperar. Seria contraditório e até ofensivo para os anjos.

A amizade com os anjos, entretanto, não garante de nenhum modo que seja feita a minha vontade ou que as minhas necessidades serão supridas do jeito que imagino. Do contrário, seria superstição. Recorrendo aos anjos, tenho a mais absoluta certeza de que será feita, sempre, a vontade de Deus.

Foi o caso de minha última viagem de Roma a Fortaleza. Estava com uma virose que me havia impedido de ir à Praça de São Pedro para a entronização de Bento XVI e me sentia tão mal que pedi a Deus que os anjos me ajudassem a não perder o avião em Lisboa – coisa que sempre acontece devido aos poucos minutos que separam a chegada e o vôo de conexão. Imediatamente após meu pedido, simplesmente ouvi: “Você vai perder o vôo”.

Perdemos o vôo eu, três jovens brasileiras com “noivos” na Itália e... pasme! um padre. Compreendi que os anjos, como sempre, haviam obedecido a Deus e que Este me havia colocado em uma posição estratégica. Tive sete horas e meia para conversar com duas das três moças (que, não por acaso, sentaram-se ao meu lado) e tentar convencê-las a confessar-se com o padre que se havia sentado no fundo do avião.Desta vez, os anjos, confiados em nossa amizade, sem sequer me consultar, fizeram exatamente o oposto do que eu lhes havia pedido. Quanto à virose, sumiu durante o tempo de vôo e me derrubou mais dez dias após minha chegada a Fortaleza.

Conviver com os anjos, contar com eles, não é mágica nem superstição. Não é, tampouco, ação do subconsciente ou um ato misterioso qualquer. É conviver com aqueles que Deus me deu exatamente para me ajudarem a saber o quanto sou amada por Ele, o quanto Ele não me abandona em nenhum minuto. Contando com sua amizade, posso estar segura de que a vontade de Deus se fará sempre, independente do que eu queira ou pense. Não é coisa de ‘véinha piradinha’. É coisa de filho de Deus, talvez simplório e distante dos ápices da intelectualidade, mas, certamente, ‘exxperto’, ‘muito exxperto’!

Não perca a chance de dizer com ele a este mundo descrente: “Quem como Deus?” e entrar no time dos que crêem sem complicar as coisas simples. Time de Maria, de José, de Jesus e de mais uma multidão do Antigo Testamento. Vale a pena!

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