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Admirável Mundo Novo X Civilização do Amor

"Admirável Mundo Novo " é o nome de um famoso livro de utopia/ficção científica do escritor inglês Aldous Huxley, que descreve uma civilização futura, na qual todas as crianças seriam gestadas em laboratórios e a família seria considerada uma instituição não apenas dispensável, mas nociva à sociedade. Para povoar este "mundo admirável", seriam produzidos cientificamente milhares de seres humanos clonados e condicionados a exercerem as funções exigidas pela sociedade.

Aquela sociedade "perfeita" considerava o "amor" e especialmente a "família" como as causas de tantas desordens e sofrimentos da nossa "sociedade dos selvagens". Então as relações entre homens e mulheres deveriam ser sempre passageiras e se dariam somente para obter prazer. Naquele "mundo novo", a constituição de famílias era até mesmo proibida, para eliminar "o incômodo sofrimento" trazido pelas relações de amor e sacrifício.

Mas será que o amor e a família não traziam também alegrias? Como essa "sociedade nova" experimentaria a felicidade? Ah... naquele "mundo novo" as alegrias seriam facilmente compradas em forma de "comprimidos". O "soma" era um sedativo utilizado para que os indivíduos se sentissem sempre "eufóricos", e poderia ser usado cada vez que alguém estivesse prestes a cair na consciência da dureza da sociedade que havia ajudado a construir.
Espere aí.. se precisavam de uma "droga" para estarem bem era porque tal realidade não satisfazia plenamente às suas necessidades, não lhes preenchia o coração...
Na história, chega um momento em que o "admirável mundo novo" é visitado por um personagem considerado "selvagem", posto que era fruto da união amorosa de um pai e uma mãe, o que era tido como um crime punível com exílio. Para escapar da punição, o pai não havia reconhecido o filho, e este vivera com a mãe "exilado" em terras distantes até que fora encontrado e trazido para o "admirável mundo novo", a fim de ser "estudado" pelos "civilizados".
Chegando ali, aquele que era considerado selvagem ficou escandalizado com o "vazio" daquela sociedade e fez questão de tentar mostrar às pessoas um pouco do "seu mundo": a arte, a filosofia e a religião, que não existiam mais. Mas suas idéias eram povoadas de antigos valores e costumes, dogmas e tradições que ninguém mais conhecia, e ele acabou se tornando motivo de riso e perseguições.

No entanto, suas palavras não caíram totalmente no vazio, porque alguns, poucos, o escutaram e assim nascia a esperança de que o "admirável mundo novo" pudesse conhecer novamente as alegrias trazidas pelo amor e pela família, mesmo à custa da doação e do sacrifício que lhes são indispensáveis.

Hoje existem cada vez mais famílias esfaceladas pela recusa à doação de si. E cada vez mais aumenta o número daqueles que temem viver uniões estáveis, duradouras, pelo medo do sacrifício. Alguns chegam a associar diretamente o amor e a família ao sofrimento, como se fossem estas a sua causa. No entanto, o sofrimento está presente em toda realidade humana justamente pela nossa vulnerabilidade de criaturas que se recusam a amar.

Com toda razão Santo Tomás de Aquino afirma não ser o amor em si mesmo a causa do sofrimento; ao contrário, ele é o nosso bem vivenciado. As cruzes que enfrentamos em nossa vida vêm do desamor, como vemos na própria Paixão de Cristo: a cruz lhe foi imposta pelo pecado dos homens. Não foi o Amor do Pai a causa do sofrimento de Jesus; ao contrário, foi o Amor de sua natureza divina que concedeu forças à natureza humana de Cristo para suportar tanto sofrimento.

Certamente a família enfrenta diversas cruzes no curso de sua história, mas quando o amor concede aos seus membros forças para o esquecimento de si mesmo e a doação aos outros, então o sofrimento é vencido. Quando o amor da família é fortificado pelo mistério do Amor de Cristo, todas as provações encontram sentido: são para que nelas se manifestem o poder de Deus. No Evangelho de São João lemos que após encontrarem um cego de nascença, os discípulos de Jesus perguntaram-no quem da sua família havia pecado para que ele nascesse assim, ao que Jesus respondeu ser "para que nele se manifestem as obras de Deus" (Jo 9). Se procuramos justificar o sofrimento perguntando o "porquê", perdemos a oportunidade de permitir que ele seja assumido e ultrapassado por um amor maior, pela vitória do Amor Divino sobre o amor humano.

Foi para viver as alegrias do Amor Divino que nascemos e não para nos "encharcarmos" dos "comprimidos" das falsas alegrias que todos os dias as sementes do "mundo novo" nos oferecem. É para transformar as duras conseqüências do pecado humano a partir de dentro, da graça de Cristo que somos chamados a viver hoje, mesmo que, como na Eucaristia, as sementes da vida feliz permaneçam pelo tempo desta vida escondidas sob as aparências de dor.
No dia 21 de outubro deste ano o Papa João Paulo II beatificou o casal Luigi e Maria Beltrame, que mantiveram "acesa a lâmpada da fé", porque conheceram Deus e o amaram na sua vida cotidiana, familiar. Segundo o Santo padre, aquele casal viveu uma vida ordinária de modo extraordinário, transmitindo aos filhos a sua fidelidade na fé e transparecendo o grande mistério do Amor de Cristo pela Igreja (cf. Ef 5,22-23). Na sua homilia, João Paulo II se dirigiu aos esposos reconhecendo não ser o matrimônio um caminho fácil de santificação. A vida conjugal e familiar pode conhecer momentos de purificação no amor, mas toda família provada pode experimentar a mão de Deus e a amorosa intercessão de Nossa Senhora, sublime modelo de esposa e mãe, que bem conhece o que significa seguir Cristo até a cruz. E convida toda família a voltar aos braços da Igreja para encontrar sua intercessão, consolo, orientação e encorajamento, mas também para assumir sua missão evangelizadora neste novo milênio, a fim de que todas as famílias "feridas pela miséria e pela injustiça" se tornem meios
de anúncio do amor divino pela humanidade.

Comunidade Católica Shalom