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O mistério da sexualidade humana
Ana Carla Bessa
Consagrada na Comunidade de Aliança Shalom
Durante a adolescência e a juventude, acontece à
busca da própria identidade em todos os aspectos, especialmente
na sexualidade. Isso se deve às grandes e rápidas
transformações físicas e emocionais,
ocorridas, sobretudo na adolescência, momento em que
a pessoa percebe que possui um corpo, masculino ou feminino,
e passa a senti-lo de modo bem definido.
Convém lembrar que a sexualidade humana não
é feita apenas de corpo, e não se situa exatamente
nos genitais. O jovem e a jovem podem e devem estar atentos
ao fato de que todo o seu ser dá sinais da própria
sexualidade. Uma vez que a sexualidade é parte importante
na sua identidade, é preciso que o jovem e a jovem
conheçam exatamente o que a compõe, descubram
sua sexualidade como um belíssimo dom de Deus, orientado
para a doação de si mesmo na Caridade, e não
como um objeto de consumo ou mero prazer.
A palavra “sexo” é particípio passado
do verbo latino “secerno”, isto é, “seccionado”,
“dividido”. Deus criou o ser humano, homem ou
mulher, “sexuado” em todo o seu ser: no cabelo,
na voz, na maneira de pensar e agir etc. Cada fibra do seu
ser, o seu “eu” pessoal traz o caráter
masculino ou feminino. Não são os órgãos
genitais que definem a sexualidade. Esta é definida,
na sua parte física, por glândulas de secreção
interna – a hipófise, o hipotálamo, a
glândula pituitária, tiróide, supra renal
etc. –, pelo espírito e pela personalidade.
Mas tudo isso vai além do corpo: é definido
por Deus no momento da criação de cada pessoa,
e de modo definitivo, irrevogável. A sexualidade está
dentro do plano único de Deus para a vida de cada pessoa.
É algo que passa pelo corpo e o atinge, mas é
mais do que o corpo, é a realidade total da pessoa.
A sexualidade foi e é muito confundida com a genitalidade,
por isso é preciso compreender bem o que seja esta.
A genitalidade é definida pelos órgãos
genitais da pessoa, que existem porque Deus quis associar
o ser humano ao mistério da multiplicação
dessa espécie na terra – assim, todo ser humano
é criado por Deus, através da paternidade e
da maternidade humana –. Os órgãos genitais,
portanto, são para geração de novas criaturas;
não são meros instrumentos de prazer, nem seu
uso é indispensável para comprovar a sexualidade
da pessoa. Alguém que nunca praticou um ato genital
não deixa de ser homem ou mulher, no verdadeiro sentido
da palavra.
A genitalidade é apenas um aspecto da sexualidade da
pessoa. Quando Deus cria cada pessoa, lhe dá órgãos
genitais adequados para a sua sexualidade. Assim, não
adianta tentar mudar a sexualidade através da mutilação
dos órgãos, pois a sexualidade está definida,
em todo o ser da pessoa, desde a sua criação.
É por isso que, mesmo sem o uso da genitalidade, não
se perde a sexualidade masculina ou feminina, pois esta jamais
acaba.
A Palavra de Deus em Mc 12,18-27(leia) se refere ao exercício
da genitalidade. No Céu não existe a necessidade
de procriação, nem a necessidade de complementação
sexual, porque Deus nos completará em tudo. Porém,
cada um entrará na Vida Eterna como homens e mulheres,
conforme Deus definiu na sua criação. Jesus
e os santos são homens e estão no Céu
como homens. Nossa Senhora e as santas estão no Céu
como mulheres que são, e isso para sempre.
Quando a pessoa acredita que sua sexualidade depende exclusivamente
do uso dos genitais, ela pode, para tentar afirmar sua sexualidade
perante os outros, desordenar totalmente o uso dos seus órgãos
sexuais, acabando por se tornar um escravo da própria
genitalidade, sem jamais conseguir preencher suas verdadeiras
necessidades, que certamente são outras. Ela pode se
tornar uma pessoa doente, emocional e espiritualmente, pelo
uso inadequado e fora de tempo da sua genitalidade. Isso se
chama genitalismo.
A mulher é mulher em todo o seu ser: no corpo e na
alma. O homem da mesma forma. Se um homem e uma mulher dizem
que se amam, mas seu relacionamento consiste numa busca genitalista,
isso não é amor, mas compara-se ao mero comportamento
de animais. Daí é que nascem as grandes decepções,
vazios e até desesperos.
O exercício da genitalidade foi ordenado por Deus para
acontecer dentro do matrimônio. No matrimônio,
há uma união total e exclusiva de duas pessoas.
Elas uniram perante a Igreja não só seus corpos,
mas seus espíritos. Sua vida inteira, com todos os
aspectos do ser de cada um, estão definitivamente unidos
perante Deus nesta vida. Há um pacto de doação
mútua e uma disposição madura ao crescimento
nesta doação. Assim, o exercício da genitalidade
pode ser seguramente um dom e sinal do amor. Dentro do matrimônio,
um cônjuge representa para o outro o sinal e instrumento
do amor de cada um por Deus, que deve ser crescente, fiel
e definitivo.
A outra forma de realizar esse amor crescente, fiel e definitivo
por Deus é a opção pelo celibato. O celibato
dispensa totalmente a prática da genitalidade, uma
vez que não há uma opção exclusiva
por uma esposa ou esposo. Mas não anula a sexualidade
da pessoa que opta por ele. Jesus nunca se casou, entretanto,
mesmo sendo Deus, é verdadeiro homem. Ele realizou
plenamente sua sexualidade amando a Deus em todas as criaturas
e todas as criaturas em Deus. Foi virgem e inteiramente casto,
perfeitamente masculino, modelo de todo homem.
O uso sadio da sexualidade envolve todo o comportamento da
pessoa. A educação sexual instrui sobre o correto
comportamento masculino e feminino desde a infância.
Apresenta a psicologia do homem e da mulher dentro dos padrões
que a perfeição da natureza define. O ser humano
jamais terá uma personalidade realizada sem a vivência
correta da sua sexualidade, ou seja, comportando-se como mulher,
quando é mulher, e como homem, quando é homem.
Não como "macho", nem como "fêmea",
porque não são animais; mas como homens e mulheres,
pessoas.
A maneira mais sadia de viver a própria sexualidade
é conhecê-la e aceitá-la. Muitos não
aceitam a própria sexualidade talvez porque tenham-lhe
sido passadas imagens deturpadas do que é ser homem
ou mulher. Nesse sentido, o comportamento do pai ou da mãe
é muito marcante. Mas mesmo que isso tenha acontecido,
é preciso que o jovem supere, compreendendo que ele
é outra pessoa, com história diferente. É
preciso buscar em Deus a verdade sobre a própria sexualidade
e vivê-la de modo casto, decente.
Assim como o genitalismo é a forma doentia de viver
a própria genitalidade, o sensualismo é a forma
doentia de viver a própria sexualidade. Ele consiste
no uso despudorado do próprio corpo com o intuito desordenado
de afirmar a própria sexualidade por esses meios. Hoje
em dia, muitos homens e mulheres inventam mil maneiras de
exibir seu corpo como mercadorias oferecidas em vitrines.
Muitos fazem questão de ressaltar os genitais e as
partes que mais despertam o desejo sexual. Isso denota falta
de conhecimento de si mesmo e às vezes de segurança
nos próprios valores interiores.
Primeiramente, é preciso conhecer que o nosso corpo
nos foi dado por Deus para o exercício da caridade,
única forma de alcançar realização
plena e felicidade completa. Especialmente as partes mais
íntimas, têm como função primeira
a doação de si. Na mulher, as partes mais íntimas
são ordenadas primeiramente à geração
e à amamentação. Não são
meras carnes e por isso devem ser respeitadas. No homem também.
Os genitais devem ser cobertos de modo decente não
porque sejam sujos ou desonestos, mas porque pertencem à
intimidade pessoal. Eles participam do mistério pessoal
do ser humano, do mistério da doação
de si.
Maria é para toda mulher o perfeito exemplo de feminilidade,
pudor, equilíbrio e realização plena
na sexualidade. Na sua castidade, é a mulher mais feminina
que a terra já conheceu. Perfeitamente casta na doação
de si mesma, nunca necessitou dos artifícios que o
sensualismo apregoa, iludindo e desvalorizando a figura feminina
na sua expressão mais profunda.
Por fim, quanto à segurança nos próprios
valores internos, esta vem do relacionamento com Deus, nosso
Criador, único que nos conhece por dentro, nos ama
e nos aceita incondicionalmente. Ele vê nossos valores
mais profundos – tanto os que já aparecem quanto
os que Ele colocou como semente em nós e ainda não
desabrocharam –. Ele nos dá a segurança
de nós mesmos e o senso de valor e importância
que nós tanto necessitamos para viver com alegria.
Quem pergunta a Deus o que Ele acha da sua pessoa, encontra
grande alegria e é capaz de se achar mais belo e desejado
do que qualquer criatura pode imaginar contemplar ou desejar.
E aí não precisa se mostrar ou tentar se afirmar
por meios passageiros, inúteis ou humilhantes.
“Melhor que tudo que alguém possa ter ou saber,
é poder ser um filho de Deus” (Ronaldo Pereira).
Fonte: Revista Shalom Maná
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