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Maria, Promessa de misteriosa plenitude
Pe. Expedito José Francisco Teles, S.J.
Maria é a mais bela figura da Igreja! É um
abismo de milagre e beleza. É uma obra de arte e perfeição
de Deus. Sob o ponto de vista humano, Maria é o mais
belo e simpático tipo de mulher. Sob a luz do divino,
Maria reveste uma dignidade quase infinita. É Mãe
de Deus!
Criatura nenhuma jamais esteve tão perto de Deus.
Não obstante à pobreza de seus limites de criatura,
Maria foi escolhida para ser a Mãe de Cristo. No mistério
de Maria-Mãe, encontra-se de forma implícita
a maternidade da Igreja. Os dois mistérios são
inseparáveis. Ambos se iluminam no mistério
do Verbo Encarnado!
Segundo São Bernardo, Maria está colocada entre
Cristo e a Igreja. Por essa razão, a teologia patrística
nunca separou o mistério de Maria do mistério
da Igreja. Os santos padres sempre viram Maria presente na
Igreja e esta presente em Maria. O que convinha à Igreja,
Mãe do Cristo místico, foi prefigurado em Maria,
Mãe do Cristo físico.
Contemplando Maria como figura da Igreja, descobrimos mais
uma vez a concatenação do pensamento divino
na história da economia da salvação.
Maria é o traço de união entre o Velho
e o Novo Testamento. Todas as prerrogativas e grandezas de
Maria se fundamentam na Maternidade Divina. Esse é
o ponto central de toda a Mariologia.
Maternidade Divina
Entre todas as mulheres da terra, Maria Santíssima
foi a única a ser escolhida por Deus, de modo gratuito,
para ser sua Mãe. É uma Mãe virgem! Uma
virgem Mãe! Entre os mortais, a mulher torna-se mãe,
desfolhando as pétalas da virgindade. A explicação
está na pobreza da nossa condição humana.
No plano sobrenatural, não se verificou assim. Deus,
que é onipotente, que tudo criou do nada com o poder
da sua Palavra, podia fazer o milagre de encarnar-se, nascendo
de uma virgem. A revelação no-lo atesta que
isso foi feito: “O Espírito Santo virá
sobre ti, e o poder do altíssimo vai te cobrir com
sua sombra; por isso o santo que nascer será chamado
de Filho de Deus” (Lc 1,35-36).
Maria acreditou. Concebeu, primeiro pela fé, depois,
corporalmente. Na história da humanidade, ela é
a única mulher da terra que aliou em sua pessoa as
duas grandes alegrias, a Maternidade e a Virgindade! Por sua
maternidade divina, Maria contraiu um tríplice vínculo
relacional com cada uma das pessoas da Santíssima Trindade.
Maria, Filha de Deus Pai
Com o Pai, possui Maria um vínculo de semelhança
e filiação. O Pai gera “ab aeterno”
o Verbo segundo a natureza divina. Maria gera no tempo a natureza
humana do Verbo Encarnado.
O Verbo é gerado da substância divina do Pai.
A natureza humana do Verbo encarnado é gerada da carne
de Maria.
O Verbo é o único Filho do Pai, gerado por Ele
virginalmente. É também o único Filho
de Maria gerado por ela virginalmente, segundo a carne. Santo
Anselmo escreveu: “O Pai e a Virgem tiveram naturalmente
um mesmo filho comum.” (“Naturaliter fuit unus
idemque communis Dei Patris et Virginis Filius”. Pl.
158, 457).
Tanto o Pai como Maria, “servata ordine”, voltados
para o mesmo Filho, podem dizer com a mesma voz, com a mesma
verdade: “FILIUS MEUS ES TU”. Maria é filha
primogênita do Altíssimo. Predestinada a ter
com o Pai o mesmo e único Filho, participou realmente
como nenhuma outra criatura da natureza divina pela graça
santificante que faz filhos adotivos de Deus.
É a Imaculada Conceição na aurora da
vida, no decurso da vida é a Cheia de Graça
e no ocaso da existência é a Assunção
Gloriosa! Escreveu São Gregório Magno: “O
Dom que transcende a todos os dons é que Deus chame
o homem filho seu e que o homem chame a Deus seu Pai”
(Sem. 26, In Nativ. Dom. 6,4; PL. 54,214).
Maria, Mãe de Deus Filho
Com o Filho, Maria Santíssima tem dupla relação
de consangüinidade e de esposa e esposo. O Corpo de Cristo
procede todo de Maria. A carne de Cristo é a carne
de Maria. Cantou Dante na divina comédia: “Maria
Santíssima é o rosto que a Cristo mais se assemelha.”
(Par. 32,29-30). Maria Santíssima foi a mulher criada
para ser o “adiutorium simile” de Cristo para
a geração dos homens à vida sobrenatural
da graça. “Mereceu ser ao mesmo tempo Esposa
e Mãe”, diz Fulberto de Chartre. Por sua mediação,
veio-nos a redenção. A maternidade divina de
Maria é uma maternidade soteriológica, co-redentora.
(Roschini, p. 363).
Maria, Esposa de Deus Espírito Santo
Com o Espírito Santo, Maria é Templo e Esposa.
Todo justo, como diz São Paulo, é templo do
Espírito Santo. “Não sabeis que sois templo
de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?
Não sabeis que vossos membros são templos do
Espírito Santo, que está em vós?”
(1Cor 6,15).
A plenitude de graça sob seu aspecto negativo é
a Imaculada Conceição, ou seja, em Maria, não
há mancha alguma de pecado. Em seu aspecto positivo,
é a Cheia de Graça, nela existe a maior presença
de Graça possível de se conter em uma criatura.
Foi com esse título que o anjo Gabriel a saudou. Em
Maria não há nenhuma mancha de pecado.
A inimizade posta pelo próprio Deus entre ela e a serpente
livrou-a de toda a servidão de Satanás. Por
essa razão, Maria Santíssima é verdadeiramente
o Templo do Espírito Santo. Foi no seu seio virginal,
como escreveu São Luis Grignon de Montfort, que o Espírito
Santo formou sua Obra Prima, a humanidade de um Deus feito
homem. Assim, Maria é verdadeiramente a Esposa do Espírito
Santo.
Maria e a Igreja
Voltemos ao paralelo entre Maria e a Igreja.
Com Maria, a Igreja é mãe e virgem. Associada
à obra de Cristo como esposa, fecundada pelo Espírito
Santo, a Igreja é Mãe. Gera em cada um de nós
a fé pela pregação da Palavra, pela administração
dos sacramentos. Nutre nossas inteligências com as verdades
reveladas, nossas almas com a própria carne do Filho
de Deus. Educa-nos com sua vida litúrgica e pastoral.
Maria, diz Santo Agostinho, sem nenhum pecado deu ao corpo
uma Cabeça. A Igreja na remissão dos pecados
dá à Cabeça seu corpo.
Maria é Mãe do Cristo Físico, o Verbo
Encarnado, a Igreja, Mãe do Cristo Místico.
Ambas, mãe de um só e único Cristo, o
Cristo Total. Há, diz o Cardeal Henri de Lubac, uma
compenetração das duas maternidades. Ambas são
fecundadas pelo Espírito Santo. Maria concebeu Cristo
por obra e graça do Espírito Santo. “Spiritus
Sanctus Superveniet in te.” (Lc 1,35).
A Igreja gera os cristãos nas águas lustrais
do batismo por virtude do Espírito Santo. A Igreja
gera o Cristo Eucarístico. Tem assim uma relação
maternal com o Cristo Físico. Foi Cristo quem quis
a compenetração das duas maternidades. Na cruz,
deu-nos Maria como mãe, “Mulier, ecce filius
tuus... ecce mater tua” (Jo 19, 26-27). Maria é
assim também mãe do Corpo Místico. A
maternidade de Maria é superior à da Igreja.
A maternidade da Igreja é um prolongamento da maternidade
de Maria.
Como Maria, a Igreja é uma mãe virgem. Como
diz Santo Agostinho, a Igreja é virgem na fé
sempre íntegra, na esperança sempre firme, no
amor sempre sincero. Maria não é só figura,
mas realização da Igreja. Como diz o cardeal
de Lubac, é germe e pleroma ao mesmo tempo. Encerra
em si todas as graças e todas as perfeições
que resplandecerão no fim dos tempos na Igreja. Peregrina
do tempo, Maria tinha no céu sua morada definitiva.
A Assunção gloriosa é a coroa dos mistérios
de Maria.
A Igreja peregrina marcha como Maria para uma glorificação
final na Jerusalém celeste. Maria assunta é
figura da Igreja triunfante. Como Maria, a Igreja ressuscitará
também um dia. Cremos na ressurreição
da carne. Maria Santíssima é uma síntese
da Igreja. É Dom e promessa de misteriosa plenitude!
Bibliografia:
1. DE LUBAC, Henri. Meditation sur L’Église.
Aubier, 1954.
2. ROSCHINI, Gabriel M. La madre de Dios. Madrid, 1957.
3. JOURNET, Charles. L’Église du Verbe Incarné.
Desclé de Brauwer, 1955.
4. MERSH, Émile. Le corpos mystique du Christ. Desclé
de Brauwer, 1945.
Fonte: Revista Shalom Maná
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