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Cardeal Van Thuan, testemunha da esperança
Maria Auristela B. Alves
O Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan teve
como lema de vida a esperança que enche de amor o momento
presente. Mantido prisioneiro pelo regime comunista durante
13 anos, 9 dos quais em total isolamento, não ficou
de “braços cruzados” esperando a libertação;
ao contrário, com a criatividade própria do
amor, fez-se amigo dos carcereiros, construiu para si um crucifixo,
celebrou a eucaristia clandestinamente e escreveu três
livros. Depois de uma vida luminosa, morreu vitimado pelo
câncer em setembro de 2002.
Francisco Nguyen Van Thuan nasceu no dia 17 de abril de 1928,
numa família que conta numerosos mártires da
fé. Sua mãe, todas as noites, contava-lhe histórias
bíblicas e narrava-lhe testemunhos de mártires,
especialmente de seus antepassados.
Van Thuan foi ordenado sacerdote em 11 de junho de 1953. Formado
em Direito Canônico, em Roma, retorna ao Vietnã
e é nomeado professor e reitor do seminário.
Em 1967, é ordenado Bispo de Nhatrang, no centro do
Vietnã, diocese pela qual sempre confessou predileção.
Oito anos depois, Paulo VI o nomeou Arcebispo coadjutor de
Saigon. Ardoroso animador dos leigos e jovens, prepara-os
para participarem dos conselhos pastorais.
Poucos meses depois, porém, foi preso pelo regime comunista:
“Disseram-me que minha nomeação era fruto
de um complô entre o Vaticano e os imperialistas para
organizar a luta contra o regime comunista”, conta Van
Thuan. Era o dia de Nossa Senhora da Assunção,
15 de agosto de 1975.
Rumo à prisão, tomou uma decisão importantíssima:
“Vinham-me à mente muitos pensamentos confusos:
tristeza, abandono, cansaço depois de três meses
de tensões... Porém, em minha mente surgiu claramente
uma palavra que dispersou toda a escuridão, a palavra
que Monsenhor John Walsh, Bispo missionário na China,
pronunciou quando foi libertado depois de doze anos de cativeiro:
‘Passei a metade da minha vida esperando’. É
verdadeiríssimo: todos os prisioneiros, inclusive eu,
esperam a cada minuto sua libertação. Porém,
depois decidi: ‘Eu não esperarei. Vou viver o
momento presente, enchendo-o de amor’.”
De fato, foi o que fez: amou, amou, amou. As condições
não eram favoráveis. Durante alguns meses esteve
confinado numa cela minúscula, sem janela, úmida,
que para respirar passava horas com o rosto enfiado num pequeno
buraco no chão. A cama era coberta de fungos.
Os nove primeiros anos foram terríveis: “uma
tortura mental, no vazio absoluto, sem trabalho, caminhando
dentro da cela desde a manhã às nove e meia
da noite para não ser destruído pela artrose,
no limite da loucura”.
Buscava conversar com os carcereiros, que resistiam, mas logo
eram seduzidos por sua gentileza e inteligência. Contava-lhes
sobre países e culturas diferentes. Isso chamava sua
atenção e instigava a curiosidade. Logo começavam
a fazer perguntas, o diálogo se estabelecia, a amizade
se enraizava. Chegou a dar aulas de inglês e francês.
No começo, a cada semana os guardas eram substituídos,
mas logo as autoridades, para evitar que o exército
todo fosse “contaminado”, deixou uma dupla de
carcereiros fixa. Estes espantavam-se de como o prisioneiro
pudesse chamar de amigos os seus carcereiros, mas ele afirmava
que os amava porque esse era o ensinamento de Jesus.
Como o amor é criativo, Van Thuan encontrou também
um jeito de se comunicar com seu rebanho: “Em outubro
de 1975, fiz um sinal a um menino de sete anos, Quang, que
regressava da missa às 5 horas, ainda escuro: ‘Diz
à tua mãe que me compre blocos velhos de calendários’.
Mais tarde, também na escuridão, Quang me traz
os calendários, e em todas as noites de outubro e novembro
de 1975 escrevi da prisão minha mensagem ao meu povo.
Cada manhã o menino vinha recolher as folhas para levá-las
à sua casa e fazer que seus irmãos e irmãs
copiassem-na”. Assim foi escrito o livro “O Caminho
da Esperança”, posteriormente publicado em oito
idiomas: vietnamita, inglês, francês, italiano,
alemão, espanhol, coreano e chinês.
Em 1980, na residência obrigatória de Giang-xá,
no Norte do Vietnã, sempre de noite e em segredo, escreveu
seu segundo livro: “O caminho da esperança à
luz da Palavra de Deus e do Concílio Vaticano II”;
depois o terceiro livro: “Os peregrinos do caminho da
esperança”.
Sempre inspirado pela criatividade amorosa, Van Thuan escreveu
uma carta aos amigos pedindo que enviassem um pouco de vinho,
como remédio para doenças estomacais. Assim,
a cada dia, três gotas de vinho e uma de água
eram suficientes para trazer Jesus eucarístico à
prisão. Os pedacinhos de pão consagrado eram
conservados em papel de cigarro, guardado no bolso com reverência.
De madrugada, ele e os poucos católicos detidos ali
davam um jeito de adorar o Senhor escondido com eles.
Um dia, enquanto trabalhava de lenhador, Van Thuan pediu ao
amigo carcereiro: “Queria cortar um pedaço de
madeira em forma de cruz... Feche os olhos, farei agora e
serei muito cauteloso. Você vai andando e me deixa só”.
Assim, conseguiu como companheira aquela rústica cruz
feita por ele mesmo.
Para completar sua obra, pediu: “Amigo, você me
consegue um pedaço de fio elétrico?” Este
ficou espantado, sabia que quando prisioneiros conseguem fios,
suicidam-se. Mas Van Thuan explicou: “Queria fazer uma
correntinha para levar minha cruz”. Saindo da prisão,
com uma moldura de metal, aquele pedaço de madeira
tornou-se sua cruz peitoral.
O Cardeal Van Thuan foi libertado no dia 21 de novembro de
1988. Em 1994 deixou o Vietnã e foi para Roma, onde
presidiu o Pontifício Conselho Justiça e Paz.
Foi criado Cardeal em 21 de fevereiro de 2001. Escreveu mais
um livro: “Testemunhas da esperança”, no
qual relata sua experiência de prisioneiro. Fazia questão
de dizer que não se trata de um livro para fazer denúncias,
mas testemunhar o dom da esperança. Vitimado pelo câncer,
faleceu no dia 17 de setembro de 2002.
Os cinco defeitos de Jesus
Van Thuan declara-se apaixonado pelos defeitos de Jesus e
os descreve no livro “Testemunhas da esperança”:
PRIMEIRO DEFEITO: JESUS NÃO TEM MEMÓRIA
No calvário, no auge da indescritível agonia,
Jesus ouve a voz do ladrão à sua direita: “Jesus,
lembra-te de mim quando estiveres em teu reino” (Lc
23,43). Se fosse eu, teria respondido: “Não vou
esquecê-lo, mas seus crimes devem ser pagos por longos
anos no purgatório”. No entanto, Jesus respondeu-lhe:
“...hoje estarás comigo no Paraíso”
(Lc 23,43). Jesus esqueceu todos os crimes desse homem.
Semelhante atitude Jesus teve com a pecadora que banhou os
seus pés com perfume... Não faz nenhuma pergunta
sobre seu escandaloso passado. Simplesmente diz: “Seus
inúmeros pecados estão perdoados, porque muito
amor demonstrou” (Lc 7,47)...
A memória de Jesus não é igual à
minha...
SEGUNDO DEFEITO: JESUS NÃO “SABE” MATEMÁTICA
Se Jesus tivesse se submetido a um exame de matemática,
por certo teria sido reprovado... “Um pastor tinha 100
ovelhas. Uma se extravia. Ele, imediatamente, deixa as 99
no redil e vai em busca da desgarrada. Reencontra-a, coloca-a
no ombro e volta feliz” (cf. Lc 15,4-7).
Para Jesus, uma pessoa tem o mesmo valor de noventa e nove
e, talvez, até mais. Quem aceita tal procedimento?
Sua misericórdia se estende de geração
em geração...
TERCEIRO DEFEITO: JESUS DESCONHECE A LÓGICA
Uma mulher possuía 10 dracmas. Perdeu uma. Acende a
lâmpada; varre a casa... procura até encontrá-la.
Quando a encontra convida suas amigas para partilhar sua alegria
pelo reencontro da dracma... (Lc 15,8-10)... de fato, não
tem lógica fazer festa por uma dracma... O coração
tem motivações que a razão desconhece...
Jesus deu uma pista: “Eu vos digo que haverá
mais alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador
que se converte...” (Lc 15,10).
QUARTO DEFEITO: JESUS É AVENTUREIRO
Executivos, pessoas encarregadas do “marketing das empresas”,
levam em suas pastas projetos, planos cuidadosamente elaborados...
Em todas as instituições, organizações
civis ou religiosas não faltam programas prioritários;
objetivos, estratégias...
Nada semelhante acontece com Jesus. Humanamente analisando,
seu projeto está destinado ao fracasso.
Aos apóstolos, que deixaram tudo para segui-lo, não
garante sustento material, casa para morar, somente partilhar
do seu estilo de vida. A um desejoso de unir-se aos seus,
responde: “As raposas têm tocas e as aves do céu
ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar
a cabeça” (Mt 8,20)...
Os doze confiaram neste aventureiro. Milhões e milhões
de outros igualmente. Já vão lá mais
de dois mil anos e a incalculável multidão de
seguidores continua a peregrinar. Galerias enormes de santos
e santas, bem-aventurados, heróis e heroínas
da aventura. No Universo inteiro esta abençoada romaria
continua... Vai que este aventureiro tem razão...?
Neste caso, a mais fantástica viagem na “contramão”
da história será a verdadeira...! “A quem
iremos?”...
QUINTO DEFEITO: JESUS NÃO ENTENDE DE FINANÇAS
NEM ECONOMIA
Se Jesus fosse o administrador da empresa, da comunidade,
a falência seria uma questão de dias. Como entender
um administrador que paga o mesmo salário a quem inicia
o trabalho cedo e a outro que só trabalha uma hora?
Um descuido? Jesus errou a conta? ...
Por que Jesus tem esses defeitos? Porque é o Deus da
Misericórdia e Amor Encarnado. Deus Amor (cf. 1Jo 4,16).
Portanto, não um amor racional, calculista, que condiciona,
recorda ofensas recebidas. Mas um amor doação,
serviço, misericórdia, perdão, compreensão,
acolhida... Em que medida? Infinita.
Os defeitos de Jesus são o caminho da felicidade. Por
isso, damos graças a Deus. Para alegria e esperança
da humanidade, esses defeitos são incorrigíveis.
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