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O que rege os homens
(Tolstoi)
Um sapateiro chamado Simão,
que não tinha casa nem terra própria, vivia
com a mulher e os filhos numa cabana rústica e ganhava
a vida com seu trabalho.
A vida era cara. O que ele ganhava gastava com comida e poucas
roupas. Tinham um só casaco de peles que era repartido
no rigor do inverno.
Antes do inverno, Simão economizou dinheiro para comprar
um novo casaco.
Um certa manhã ele vestiu sobre a camisa a jaqueta
de nanquim acolchoada da mulher e sobre ela seu casaco de
pano. Antes cobriria de seus devedores o restante que faltava
para comprar novas peles.
Chegou ao vilarejo e passou por vários casebres, cobrando,
mas ninguém tinha dinheiro para lhe pagar. Desanimado,
comprou uma garrafa de rum, bebeu para se esquentar do frio
e vinha pelo caminho quando perto do santuário da estrada,
lá na curva, percebeu algo esbranquiçado ali
por trás. A luz do dia escapava e o sapateiro forçou
a vista para enxergar algo que não conseguia perceber
o que era.
"Não havia nenhuma pedra branca por aqui, antes!
Seria um boi? Não parece. Tem cabeça igual a
de um homem. Mas é branca demais, e o que estaria fazendo
um homem ali?" Pensou ele.
Aproximou-se mais e o objeto tornou-se visível. Para
sua surpresa era um homem, sim! Morto ou vivo, nú,
imóvel, recostado no santuário.
Tomou-se de pavor e pensou: "Alguém o matou, tirou-lhe
as roupas e os deixou aqui. Se eu me meter arranjarei encrenca.".
Então Simão continuou seu caminho. Passou pela
frente do santuário para que o homem não pudesse
vê-lo. Depois de se afastar um pouco, olhou para trás
e viu que o homem não estava mais recostado e sim encaminhando-se
em sua direção.
Ele ficou mais assustado ainda... Apurou o passo... Mas sua
consciência o fez parar no meio da estrada.
"O que estás fazendo, Simão?" - disse
consigo mesmo - "o homem pode estar passando necessidades
e tu passas direto, assustado! Acaso ficaste rico ao ponto
de temer ladrões? Ah, Simão, que vergonha!"
Então ele voltou e foi ter com o homem.
Simão acercou-se do desconhecido e pôde notar
que era um rapaz em boa forma... Sem hematomas pelo corpo...
Congelado e assustado... Olhar fixo.
Simão aproximou-se mais e o rapaz pareceu despertar.
Abriu os olhos e bastou isso para que Simão simpatizasse
com ele de imediato. Tirou o seu casaco e deu ao rapaz, falando:
- Não é hora de falar. Anda, põe esse
casaco logo.
Reparou que tinha mãos e pés limpos, o rosto
bom e meigo.
Falou ele:
- Pronto, amigo, agora anda para te aqueceres. Consegues andar?
O rapaz olhou para Simão meigamente, mas nada disse.
Simão perguntou-lhe:
- Por que não falas?
O rapaz começou a andar e mexia-se com facilidade sem
ficar para trás.
Enquanto caminhavam Simão perguntou:
- E a qual lugar pertences?
- Não sou destas bandas.
- Foi o que pensei. Mas como foste parar ali no santuário?
- Não seu dizer.
- Alguém andou te maltratando?
- Ninguém me maltratou. Deus me castigou.
- É claro... Deus a tudo comanda... Enfim, precisarás
encontrar comida e cama quente em algum lugar. Para onde pretendes
ir?
- Não faz diferença para mim.
Simão ficou impressionado. O rapaz não parecia
um malfeitor. Falou então:
- Venha então até minha casa e te aqueças
durante um tempo.
Ia Simão pensando num jeito de sua esposa Matrena não
ralhar com ele por não ter trazido as peles e ainda
levar um forasteiro para casa!
A mulher de Simão tinha aprontado tudo naquele dia.
Cortara a lenha, trouxera água, alimentara as crianças
e encontrava-se sentada, a pensar: "Espero que Simão
não tenha feito nenhuma farra, já era hora dele
ter chegado!"
Mal concluíra seus pensamentos, ouviu passos à
porteira da casa e entrando. Ela levantou-se, foi até
o alpendre e lá encontrou dois homens, ou seja, Simão
e mais outro. Percebeu logo que seu marido cheirava a bebida.
Matrena deixou-os entrar, espumando de raiva .
Sentaram-se e Simão perguntou se ela havia preparado
o jantar. Ela lhe respondeu que tinha cozinhado, mas não
para ele que havia bebido e ainda trouxera um estranho para
comer a pouca comida que tinham!
Palavras de raiva vieram aos lábios dela, mas olhou
para o rapaz e ele estava sentado na beirinha do banco, imóvel,
as mãos cruzadas sobre o joelho, a cabeça pendendo
sobre o peito, de olhos fechados.
Simão falou:
- Matrena, não tens amor a Deus?
E Matrena encheu-se de piedade e começou a indagar
ao desconhecido as mesmas perguntas que seu marido havia feito.
O nome do rapaz era Miguel. Falou ele:
- Estava nu e congelado. Teu marido teve piedade de mm e me
deu seu casaco e seu boné... E tu me deste comida...
Deus vos pague - e sorriu!
De manhã Simão acordou e falou ao rapaz que
ele precisava trabalhar para ter comida e roupas. Perguntou
qual era seu ofício e ele falou:
- Não tenho. Os homens trabalham e eu trabalharei também.
Mostre-me o que fazer, vou aprender. Deus te pague.
O que quer que Simão lhe ensinasse, Miguel logo aprendia...
Trabalhava sem parar e comia muito pouco, nunca falava sem
sorria. Quando acabava seu serviço recolhia-se e sentava-se
em silêncio, olhando para cima. Nunca ia à rua.
Dia após dia, semana após semana e o ano se
passou. Miguel vivia e trabalhava com Simão... Sua
fama se espalhou e todos da cidade tinham trazido serviço
para eles. A vida melhorou para Simão.
Num dia de inverno, Matrena atendeu um cavalheiro rico e arrogante
que viera à sua casa encomendar sapatos. Miguel olhou
por cima do ombro do homem e sorriu. O cliente exigira um
perfeito serviço, sapatos que durassem um ano!
Miguel começou a cortar o fino couro, mas não
para os sapatos e sim para chinelos, e Simão ralhou
com ele...
- Mas como Miguel... Já está há mais
de um ano comigo e ainda não aprendeste a diferença
entre sapatos e chinelos? Queres me arruinar?
Miguel respondeu-lhe:
- Ele não precisará de sapatos.
Nisso, um cocheiro chegou apressado e falou que precisaria
levar chinelos ao invés de sapatos, pois seu patrão
havia morrido!
Passou mais um ano e mais outro e Miguel já estava
com Simão há 6 anos. Jamais sorrira, exceto
na noite de sua chegada e na noite da visita do ilustre desconhecido
arrogante.
Um dia, um dos meninos veio gritando que estava na porta uma
dama com duas meninas. Uma era sadia e a outra coxa.
Simão perguntou como a menina tinha ficado naquele
estado. Falou a elegante mulher:
- A mãe esmagou-lhe a perna.
Matrena perguntou se ela era a mãe delas e a senhora
negou.
- Eu as adotei. Tive um filho, mas Deus o levou. Eu não
gostava tanto dele como gosto dessas duas.
A mulher então contou sua história:
- Já fez cerca de 6 anos que seus pais morreram, na
mesma semana, os dois. Éramos vizinhos deles, nossos
quintais eram adjacentes. O pai era lenhador e enquanto derrubava
árvores na floresta, um dia, uma delas caiu-lhe em
cima. Na mesma semana a esposa deu à luz a duas meninas.
Era uma mulher pobre e só. Deu à luz sozinha
e sozinha conheceu a morte. Na manhã seguinte fui vê-la,
mas a coitada estava fria, rígida. Ao morrer, ela rolou
sobre esta criança e esmagou-lhe a perna. O povo do
vilarejo fez o funeral, mas não queriam as gêmeas.
Como eu também tinha filho bebê, amamentei as
duas. Eu estaria muito só sem elas, pois com dois aninhos,
Deus levou o meu menino. Elas são a alegria de minha
vida. Eu as amo!
De repente a cabana foi iluminada como que por um relâmpago
de verão, a partir do canto onde Miguel estava sentado,
com as mãos cruzadas sobre os joelhos, olhando para
cima e sorrindo!
A mulher se foi com as meninas. Miguel levantou-se, deixou
de lado seu trabalho e tirou o avental. Então, curvando-se
em reverência a Simão e à sua esposa,
falou:
- Adeus, meus patrões. Deus me perdoou! Peço
vosso perdão, também por qualquer erro.
E eles viram que uma luz emanava de Miguel. Então Simão
lhe falou:
- Vejo Miguel que não és um homem comum, mas
responde-me: quando a minha mulher te deu de comer... sorriste;
quando viste o homem rico e arrogante... sorriste pela segunda
vez, e agora quando ouviste a história das duas meninas.
E porque te tornaste luminoso como o dia?
E Miguel respondeu:
- A luz emana de mim porque fui castigado, mas agora estou
perdoado por Deus. Deus me castigou por desobedecê-lo.
Eu era um anjo no céu e desobedeci a Deus. Ele me enviou
para resgatar a alma de uma mulher. Voei para Terra e vi uma
mulher que acabara de dar à luz a gêmeas. Elas
se mexiam, delicadas, ao redor da mãe. Não lhes
tomei a alma. Deus disse: "Vai, toma-lhe a alma da mãe
e aprende três verdades: aprende o que reside no homem;
o que não é dado ao homem e o que rege os homens.
Quando tiveres aprendido essas verdades voltes ao Paraíso".
Então voltei à Terra e tomei a alma da mãe,
mas um vento forte arrebatou minhas asas e elas se desprenderam.
Sua alma alçou-se sozinha a Deus enquanto eu caía
na estrada. Eu estava nú e me tornei um homem com fome
e frio. Caía a noite e por ali passou um homem bêbado,
mas de nobre coração que me acolheu. Me ensinou
a trabalhar e vivi com eles até agora. E sorri três
vezes porque Deus me enviou para aprender três verdades...
Uma eu aprendi quando tua mulher sentia raiva e falaste em
Deus e ela mudou completamente e sentiu piedade. Aprendi o
que reside no homem... O amor!
A segunda verdade foi quando o prepotente homem encomendou
seus sapatos. Ele não tinha o dom da vida, a morte
já o rondava. Aprendi o que não é dado
ao homem.
A terceira verdade foi quando a rica dama adotou as meninas,
não por piedade, mas por amor. Aprendi o que rege o
homem... O amor!
Nem foi dado à mãe saber o que as filhas precisavam
para a vida.
Nem foi dado ao homem rico saber o que ele mesmo precisava.
Tampouco é dado ao homem saber se, ao cair da tarde,
ele precisará de sapatos para seu corpo vivo ou de
chinelo para seu cadáver.
Aprendi que os homens não são regidos por cuidados
consigo mesmos, e sim pelo amor.
Eu permaneci vivo porque um homem e uma mulher miseráveis
se apiedaram de mim, cuidaram de mim e me amaram.
As órfãs permaneceram vivas não por causa
dos cuidados da mãe, mas porque havia amor no coração
de uma mulher desconhecida delas, que as amou.
Compreendi que Deus não deseja que os homens vivam
separados, e portanto lhes revela o que cada um precisa para
si. Ele deseja que os homens vivam unidos, e portanto revela
a cada um o que é necessário para todos.
Aquele que tem amor está em Deus e Deus está
nele, pois Deus é amor.
E o anjo Miguel ganhou asas em seus ombros e alçou
vôo aos céus, deixando a cabana.
"Deus é amor, e aquele que reside no amor reside
em Deus, e Deus reside nele." (João 16, 4)
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