Não se trata de um fantasma, mas de um Ressuscitado

Diante de discípulos incrédulos e pasmos, alegres e estupefatos, Jesus atravessa as paredes, põe-se entre eles e deseja-lhes a sua paz: “A paz esteja convosco” (Lc 24, 36). Não se trata da paz entendida como ausência de conflitos ou dificuldades. Essa paz é o próprio Cristo (cf. Ef 2, 14). Portanto, quando Jesus deseja ou melhor, ministra a paz, ele se doa a quem a recebe, dá-se a Si mesmo e portanto, comunica a plenitude de dons, todos os dons.

Ante um medo incontrolável de seus discípulos, Jesus apresenta os sinais da vitória: suas chagas benditas, através das quais fomos curados (cf. Is 52, 5; 1Pd 2, 24). Aquele que veste uma roupa salpicada de sangue, cujo nome é Verbo de Deus (cf. Ap 19, 13), agora apresenta as chagas, verdadeiras janelas através das quais saem os raios benfazejos da misericórdia, da graça, do favor divino. As mãos e os pés chagados, sendo que estas feridas são fendas na rocha poderosa donde sai a água viva. “Vede minhas mãos e meus pés; sou eu mesmo!” (Lc 24, 39). Veremos, contemplaremos e deixaremos essa visão do céu invadir as almas necessitadas de luz e de paz. Ele, nosso Senhor e Mestre, Salvador e Guia, nossa Vida e nosso Caminho, a Verdade que liberta e faz feliz nos convida, como aos seus apóstolos a que o toquemos e o vejamos. Não o veremos nem tocaremos como o fizeram os discípulos, mas com as mãos e olhos da fé. Essa revelação acontece muito frequentemente! Incrível! Mas, é isso mesmo. O ressuscitado que prometeu estar sempre conosco até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 20) oferece estas janelas benditas, fontes de graças, mas também meios para que entremos nele e façamos de Jesus nossa morada. Ele prometeu: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (Jo 14, 23). Assim, como Cristo vive no Pai e pelo Seu Espírito vem residir em nós, nós podemos residir nele também, com os afetos de nosso coração e sobretudo com o nosso compromisso com Ele. Para mostrar que não se trata de um fantasma, o Senhor propõe para aqueles assustados mais um sinal de sua presença: come em sua presença. Não se trata de um fantasma, nem de um morto cuja alma apareceu, não se trata nem mesmo de um anjo, mas de um Ressuscitado, cujo corpo não sofreu a corrupção do sepulcro.

Por que Ele sofreu tudo aquilo para então ressuscitar? Quais as verdadeiras razões? Diz Jesus: “era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (Lc 24, 44). Ora, seu aniquilamento não cruz e toda a sua paixão não foi fruto de um conchavo político de grupelhos atiçados pelos fariseus e outros mais incomodados com aquele nazareno que denunciava seus erros. Não se está diante de uma mera fatalidade histórica! Passou também por tais circunstâncias, mas a verdadeira razão da paixão de Cristo foi a realização de um desígnio do Pai, bem mais amplo, bem mais vasto, objetivando levar salvação pelo sangue derramado na cruz. Quem entenderá essas coisas? Aqueles a quem Cristo Jesus abrir a inteligência para entender as Escrituras (ver Lc 24, 45). E quem receberá este favor? Penso, sinceramente, serem os que perseverarem na oração, na simplicidade e confiança, na humildade e obediência.

Desta experiência forte com o ressuscitado, vem a missão. E qual a missão do cristão? Ser apóstolo! Ser enviado, viver sob a guia e força libertadora de um nome a ser anunciado, porque este nome gera conversão e perdão para os pecados. Ser apóstolo significa ser testemunha, mais que mestre. Se ele é mestre é porque de um jeito ou de outro, é testemunha. Pedro, em sua pregação o afirma categoricamente: “Deus o ressuscitou dos mortos e disso nós somos testemunhas” (At 3, 15). Esse Jesus, que ressuscitou, foi enviado a nós para nos abençoar. Mas, tal bênção, será concedida também na medida em que cada um se coverter dos seus pecados (cf. At 3, 26).

Pe. Marcos Chagas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *