O mistério do homem e da mulher

Somos um mistério para nós mesmos. Algumas vezes, nos aproximamos um pouco desse mistério, mas ele pertence somente a Deus.

Narrando a criação, o Gênesis diz que quando Deus criou o homem, a mulher não existia ainda. Por isso, ela jamais conheceria esse ponto de encontro entre Deus e o homem. E a mesma coisa se passou com relação à mulher: ao criá-la, Deus fez o homem cair num sono profundo, e ele não assistiu à criação dela. Isso se aplica também a cada um de nós. Quando fomos concebidos, houve o primeiro dia das nossa vidas em que nem o nosso pai nem a nossa mãe sabiam que já existíamos; éramos conhecidos somente por Deus. Portanto, em cada um de nós existe algo que pertence somente a Deus.

Corpo, afetividade, coração profundo

Quando nos encontramos com alguém, o que vemos primeiro? Seu corpo, sua vestimenta, seu olhar, seus movimentos, sua voz. Seu corpo manifesta algo mais profundo. A voz, por exemplo, pode ser doce, ou contraída, ou nervosa, ou colérica. Pode revelar medo, às vezes. E, através do sorriso ou do olhar, pode manifestar, por exemplo, alegria. Depois, quando a conhecemos melhor, vamos descobrir também sua sede do bom, do belo, do absoluto. Isso é o que se chama de coração profundo. Nesse coração profundo, está a sede de Deus; podemos dizer que é a morada espiritual.

Todos esses elementos – o corpo, a afetividade, o coração profundo – são entrelaçados.

Pegue lápis e papel. Faça um pequeno caminho, um círculo pontilhado. Dentro desse, um outro círculo, também pontilhado. No espaço que há entre ambos, escreva: “Corpo-sentidos”. Desenhe mais um círculo pontilhado, no interior, e, no espaço entre este e o segundo, escreva: “Afetividade-emoções”. No espaço de dentro, escreva: “Coração profundo-razão-pensamentos do coração”. No centro do desenho, coloque uma cruz.

Por que você fez os círculos pontilhados? Porque aquilo que eu vivo no meu corpo vai refletir na minha afetividade e em todas as áreas e vice-versa.

Capacidade de escolher

Mas o que me define como pessoa, no mais íntimo, no mais profundo do meu ser? É a minha capacidade de decidir, de dizer “sim” ou “não”; de escolher e ser responsável pela minha escolha, ou seja, minha capacidade de ser fiel a uma escolha que eu tenha feito.

Cada um de nós tem uma vontade que é atraída pelo bem, que deseja fazer o bem, embora nem sempre consiga. E essa vontade é iluminada pela inteligência. Então, quando o ser humano começa a perceber o que é bom, toma a decisão com sua liberdade. A liberdade é aquilo que move a vontade. A existência da nossa liberdade tem a sua origem na criação, porque somos à semelhança de Deus, temos a mesma capacidade divina para a decisão.

Portanto, não basta ver o que é bom nem somente desejá-lo, num dado momento é necessário decidir-se pelo que é bom. Por exemplo: você tem uma vizinha que está doente, então diz: “Ah, pobrezinha, eu queria tanto ir vê-la”. Essa é uma boa intenção, mas, se você não decide, isso fica só no desejo, e, depois de um ano nada aconteceu, você não foi visitá-la. Mas, se você, realmente, tiver feito a decisão, vai encontrar-se com ela naquela hora.

Ainda outro exemplo: se tomo a decisão de escutar a Palavra de Deus, fico atenta. Ela atinge a minha afetividade. Depois vou refleti-la, e ela certamente vai iluminar meu entendimento, minha inteligência. Mas não devo parar aí. Para que essa Palavra, de fato, seja recebida como um alimento para mim, falta a etapa seguinte: diante dessa Palavra, o que vou fazer? A que ponto de conversão, a que passo ela me chama? Então, quando decido agir nesse ponto em que a Palavra me toca, ela se torna vida em mim.

Pegue o desenho e, onde você colocou sua pequena cruz, escreva: “Vontade” e, entre parênteses, “Liberdade”.

Livres para amar

A vocação primeira e última do homem é o amor. E a liberdade, para o homem, é o local do amor. Amo quando decido amar. Num relacionamento verdadeiro, há o encontro de duas liberdades. Mas nem sempre a coisa funciona como deveria. Um dia, houve uma tragédia na humanidade. O homem e a mulher foram tentados pelo demônio e decidiram dizer “não” a Deus. Esse é o primeiro ato de liberdade contrário ao amor na história da humanidade. É o que se chama pecado original. E até hoje vemos o rastro desse pecado no meio de nós.

E o que Deus fez? Respeitou a escolha do homem. Porque alguém que ama respeita o outro e sua liberdade. Então, o homem rompeu seu relacionamento de filho com Deus. E tornou-se como parcialmente cego. Não enxergava mais da mesma forma o amor de Deus.
Antes do pecado, o homem era muito feliz, mas, depois desse ato, sentiu-se culpado diante de Deus, teve vergonha e se escondeu. Também sua vontade ficou menos livre, então a liberdade foi enfraquecida, dividida entre o chamado a amar e o egoísmo.

O homem deixou de ser uno, aquele equilíbrio original foi rompido, então, às vezes, as emoções tomam o leme; ou o corpo é a única coisa que conta na vida; outras vezes nos deixamos “dominar” pela inteligência e ficamos sem saber o que é o verdadeiro homem.

Os relacionamentos não são firmados no amor e nos ferimos mutuamente. Então, a liberdade que antes do pecado era o fator unificador da pessoa, que era como o “capitão do barco” da vida, começa a ficar instável. Esse quadro que estou pintando não é muito agradável, no entanto, no meio de tudo isso, o apelo de Deus permanece o mesmo: sermos santos como Ele é santo. Ser santo significa utilizar a liberdade somente para o amor.

O apelo para vivermos na intimidade da Trindade continua vivo dentro de nós. E Deus toma a iniciativa de ir ao nosso encontro. Logo depois do pecado, no finzinho do dia, quando o homem se escondia de Deus, Ele sai à procura do homem e o chama: “Adão, onde te escondeste?”

Lembremo-nos de que quando estamos no pecado ou não estamos na amizade com Deus Ele está à nossa procura e diz: “Meu amigo, onde você está?” Ele vem nos buscar.

A solução que Deus encontrou foi vir Ele mesmo nos reconciliar através de Jesus. Deus se faz homem como nós para, através da sua humanidade, nos reconciliar com o Pai. Jesus diz “sim”. Em Hb 10,5 diz: “Tu me deste um corpo, e eu digo: Eis que venho, Senhor, para fazer a tua vontade”.

A vontade de Deus não é a de um tirano, é uma proposta de amor para que você entre na sua intimidade. Então Jesus diz: “Sim, eis que eu venho”. E continua a dizer “sim” ao Pai em todos os momentos da sua vida.

Jesus se fez homem para retomar toda a nossa humanidade, tudo o que significa ser homem. Ele salvou nosso corpo, nossa afetividade, nossa inteligência, todo o nosso ser.

Podemos dizer que Jesus já fez tudo, porém, porque temos a liberdade, cabe a cada um de nós acolher essa salvação pessoalmente. E dizer “sim” a Deus hoje, abrindo-lhe totalmente nossa vontade, decidindo viver tendo Deus como referência.

No momento do nosso Batismo, o próprio Deus veio habitar em nós, e o Espírito Santo veio iluminar o nosso coração profundo. Quando dizemos “sim” a Deus, o Espírito Santo vem como uma flecha sobre a nossa vontade e ilumina todo o nosso ser profundo, para nos ajudar a conhecer e a seguir o Cristo, a cristianizar todo o nosso ser. E não nos tornamos uma pessoa diferente de quem somos; ao contrário, pelo Espírito Santo, vamos nos tornar aqueles que somos realmente. São Paulo diz que onde está o Espírito está a liberdade. E Ele vai nos ajudar a colaborar com a obra de Deus em nós. O Espírito Santo não vai trabalhar sem nós. Nós então vamos trabalhar apoiados no Espírito, para nos converter, para deixar os maus hábitos, para exercer nossa liberdade de uma maneira nova, verdadeiramente orientada pelo amor.

João Paulo II nos convida a ir ao largo, mas, para ir às águas profundas, é preciso tomar uma decisão, livremente. Na mesma carta apostólica, o Santo Padre nos convida a fazer memória, com gratidão, do nosso passado, ou seja, olhá-lo à luz de Deus, deixando-nos curar de nossas feridas. Convida-nos também a viver o presente com paixão, isto é, viver unidos a Jesus Cristo, nessa orientação do nosso chamado ao amor. E a nos abrir com confiança ao futuro, com fidelidade à nossa missão pessoal. Essa é a característica de um homem e de uma mulher livres.

Então, é esta a mensagem para cada um de nós: olhar o passado à luz de Deus e ser livre, viver intensamente o dia de hoje e nos voltar com confiança para o futuro.

 

* Formação/2002

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