O Tau e os irmãos

Entrelaçados por um só.

 

Sou missionário católico.
E uso um tau no pescoço.
Ele é a última letra do alfabeto judaico e a décima nona letra do alfabeto grego.
Tá. Mas não só isso. É também sinal de pertença a Deus. Aos irmãos.
Nada do tipo medalha, sinal de mérito.
Não. Mas sim marca de perdão diário. Constante.
Daqueles amores que não se cansam de perdoar.

Todos os dias ele me acompanha.
Trabalho, estudos, lazer.
Embora, hoje tenha sido diferente.
Doidêra.
Não sei se foi o sono.
Prefiro acreditar na mística.

Vos conto.
Ao me preparar para usá-lo, logo fui invadido por muitas imagens.
Eram pessoas, rostos conhecidos. Outros não.
O sentimento era de proximidade.
Algo me dizia: Não estás só!
Claro, Deus está cá, comigo. No entanto…
Senti como se todos os meus irmãos de fé, de comunidade,
estivessem residindo ali, naquele Tau.
Aquele mesmo da  letra do alfabeto judaico e grego, sinal de pertença, perdão e tal.
Nossa. Doidêra! É. Eu sei.
E eles não são poucos. Muitos não conheço.
Porém não são estranhos.
Jamais. 


Parece cena de filme, concordo.
E daqueles de ficção onde todos são encolhidos num só minúsculo objeto.
Não me leve a mal, caro leitor.
Não sou louco.

Cedo da manhã aquele gesto me fez entender:
O cordão que me envolvia entrelaçou minha vida com todos os que ele também carregam.
Seja externamente, ou gravado no coração.
Ou até mesmo os que nem mais o tem. 

Eles estavam ali, parte de mim. E eu deles.
Todos naquele cordão tão próximo dos meu átrios.
Mesmo que estejam longe, na loucura do cotidiano.
Em várias partes do mundo.
Os carrego comigo.
Amigos. Irmãos. Padres. Celibatários. Famílias.
Pecadores.
Como eu.

Poderia citar aqui um pouco do mistério histórico, teológico, cultural do objeto.
Que em si já poderia dar sentido a muita coisa do que falei.

Mas, por hora, quero é te entrelaçar neste mistério pessoal e deveras comunitário.
De que a minha fé não é só minha.
Como a tua não é só tua.

Vocação é pessoal e comunidade. 
E Não. Não dá pra andar só.
Nos caminhos das lutas solitárias e diárias,
estamos juntos.

No laço que nos salvou. 
“Entaulados” por aí.
Sendo um. Sendo povo.
Família Shalom.

Shalom.

 

 

Felipe Ramos

Missão João Pessoa

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