A revolução de Bento

Quando os cardeais começaram a surgir nas janelas da basílica de São Pedro, os sorrisos confiantes daqueles idosos anunciaria outra escolha que mudaria em instantes a visão de muitos sobre a Igreja: Francisco. Há exatamente um ano, a revolução de Bento rendeu Francisco ao mundo

bento XVI e francisco um ano de pontificadoPraça São Pedro, 19 de abril de 2005. Fumaça branca! Enquanto a multidão afluía às pressas, de todos os braços da praça, um repórter brasileiro me abordou para uma rápida entrevista. A pergunta era “E se for Ratzinger?” De fato, a grande maioria das pessoas só o conhecia pelas notícias que apareciam na mídia e o julgava no mínimo inflexível. Durante 23 anos, ele esteve à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, originalmente conhecida por Santa Inquisição. No entanto, a surpresa do mundo foi justamente conhecer o homem por trás daquela imagem formada pela mídia.

Desde os primeiros dias de seu pontificado, o mundo foi surpreendido por sua ternura de pai. Sua capacidade de escuta e compreensão desconcertava seus interlocutores. Sua idade avançada parecia não afetar em nada sua lucidez. E foi com essa mesma lucidez que, na manhã de 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI surpreenderia novamente o mundo (e a Igreja também) com o gesto revolucionário que mudaria a história: sua renúncia.

A renúncia de Bento XVI ao trono de Pedro foi a primeira em mais de meio milênio. “Uma decisão de grande importância para a vida da Igreja”, dizia ele.

“Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma.”

Talvez os olhos deste tempo não vejam claramente o grandeza desse ato. Talvez nossa memória tão fragilizada pelas muitas informações que recebemos de todos os lados não assimile seu impacto. O mundo viu um ato revolucionário. Um ato que deu origem a uma série de novos atos surpreendentes aos olhos daqueles que consideravam a Igreja Católica previsível, retrógrada e antiquada.

Os dias que seguiriam à sede vacante foram marcados por análises pouco otimistas da realidade da Igreja. Víamos páginas identificando os cardeais mais cotados para o cargo, sem muitas expectativas de mudança diante da crise na qual se encontrava a Cúria Romana. O que esperar de um grupo de idosos “aparentemente retrógrados e cheios de discordâncias”?

Mais uma vez, ninguém esperava o que viria a ser o segundo ato revolucionário. Veio fumaça branca. Quando os cardeais começaram a surgir nas janelas da basílica de São Pedro, os sorrisos confiantes daqueles idosos anunciaria outra escolha que mudaria em instantes a visão do mundo sobre a Igreja: Francisco.

Surgiram os atos de Bergoglio, assim como os de Ratzinger, Wojtyla, Luciani, Montini, Roncalli e tantos outros que durante dois mil anos surpreenderam o mundo. Continuam a surpreender. Fazem parecer que a Igreja não é tão retrógrada quanto dizem. Pelo contrário, parece estar um passo à frente. E está. Em última análise, Deus é a fonte da verdadeira revolução. E Deus comanda a Igreja.

Obrigado, Santo Padre.

Leonardo Biondo

missionário da Comunidade Católica Shalom

2 comentários em “A revolução de Bento

  1. A Paz, meu irmão! Excelente postagem.
    Observo apenas o parágrafo “A renúncia de Bento XVI ao trono de Pedro foi a primeira em mais de meio século. “Uma decisão de grande importância para a vida da Igreja”, dizia ele”.
    Acho que quis dizer meio milênio.

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