Formação

A mistura santa

Quando soube dos 20 anos da Shalom-Maná, lembrei-me com saudade das pequenas reuniões com a Cristina e Armando, José Ricardo e Beatriz sobre a revista nascente e fiquei a meditar sobre a virtude da perseverança e a graça de Deus.

É que temos a mania de querer perseverar com nossas próprias forças, fazendo o impossível para que tudo continue sempre dando certo,conforme nossas programações e previsões.

Se tivermos outro temperamento, vamos ler os sinais dos céus e interpretar qualquer contratempo nos nossos planos como um sinal de Deus de que aquela, afinal, não era a vontade dele.

Outra possibilidade, ainda, é que Deus corrija nossos planos para aproveitar a nossa boa vontade e realizar os planos Dele. Neste caso, muitas vezes achamos que as coisas ficam desinteressantes, diferentes demais do que havíamos pensado e desistimos.

Nestes 29 anos de RCC, tenho visto muita obra de Deus desaparecer. Por vezes, não era mesmo a vontade de Deus, e o melhor é que tenham desaparecido mesmo. Por vezes, porém, é falta daquela mistura santa de virtudes que acabam gerando a perseverança e fazendo a vontade de Deus.

Primeiramente, a confiança absoluta em Deus. Se o plano é Dele, se a inspiração vem Dele, então, evidentemente, é Ele quem vai “tomar de conta”, como diz o matuto cearense. Não é verdade que temos a mania nada educada de dizer que confiamos em Deus e ficamos “dando pitaco”, querendo que as coisas sejam da nossa forma, na nossa hora, do nosso jeito? Na verdade, “largar” aquele plano que nos interessa tanto, aquele sonho de anos na mão de Deus, exige a virtude do abandono integral nas mãos Dele para que Ele faça o que Ele quer.

Outra virtude rara nesta mistura santa é a virtude do servo inútil. Todos nós temos uma verdadeira santa ansiedade de querermos ser úteis a Deus. Um sabe fazer isso, outro quer fazer aquilo. Um quer ser reconhecido pelos seus feitos, outro quer ser elogiado, outro ainda, simplesmente visto. O resultado é que o trabalho sai um verdadeiro “carnaval” sem unidade ou harmonia. A maior virtude do servo inútil é, afinal, fazer a vontade de Deus e desaparecer, não querer e não precisar ser visto por ninguém, nem mesmo por Deus, sabendo que, uma vez feito seu trabalho, vai ouvir Dele que ele é nada mais nada menos que… um servo inútil.

Depois destas virtudes, vem a virtude de João Batista: desaparecer para que o outro apareça. Ih! Essa aí é raríssima. Passamos um tempão trabalhando, nos sacrificando, virando noites, sem dormir direito, planejando, gastando os miolos, até rezando e… temos que desaparecer para que o outro apareça. “Isso não é justo”, pensamos, em nossos raciocínios terrestres. No entanto, para que a Obra de Deus vá para a frente – seja uma revista, seja uma comunidade – é sempre necessária esta misteriosa coreografia na qual um desaparece para o outro aparecer.

E a esperança? Ah, esta é essencial quando tudo dá errado. Vem, em geral, acompanhada de sua grande amiga, a famosa “paciência histórica”. Quando nada dá certo, quando as pessoas desistem e vão embora, quando relaxam nos horários e nas tarefas, quando não há mais motivação nem élan, aí é a hora de alguém, pelo menos uma pessoinha, encher-se de esperança e proclamar: “Vai dar certo!”. Depois, seu papel é convencer os outros de que a obra não se faz em um dia, que Deus está consertando as coisas ou talvez as purificando, que precisamos ter paciência, pois, sendo a obra de Deus, encontrando Ele no nosso coração a intenção reta e o desejo de dar glória a Ele e não a nós mesmos, a coisa vai entrar nos eixos.

É hora de fazer, então, o mais difícil: trabalhar, dar tudo de nós sem ver fruto quase nenhum. Ver nossas idéias mal entendidas, rechaçadas, mal interpretadas. Sentir-se como um ET no grupo, humilhar-se, deixar que nos humilhem e esperar, esperar, esperar, sempre crendo, sempre amando, sempre suportando, sempre acreditando.

É esta a mistura de virtudes chamada “perseverança”, sempre apresentada em uma bela e invisível caixa chamada “humildade”. Foi ela quem sustentou a Shalom-Maná nos últimos 20 anos. É ela quem sustenta as comunidades, os grupos de oração, as amizades, as famílias, os casamentos!

Quanto segredo nesta virtude tão pouco conhecida e que tanto tem feito e fará pela santificação da Igreja e pela história da salvação, de Abraão até a segunda vinda de Jesus, quando garantirá aos que foram fiéis a Palma da Justiça!

Parabéns à equipe da Shalom-Maná. Vocês perseveraram! Deus lhes dê a Palma da Justiça!


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